quinta-feira, 28 de julho de 2005

SMS 116. O custo do não-Algarve

28 Julho 2005

Nenhum governo, até hoje, calculou o custo do não-Algarve, embora todos eles e respectivas extensões telefónicas em Faro que se costuma designar por direcções ou delegações regionais, de uma ou outra forma, tenham contribuído para o descalabro do Algarve – descalabro urbanístico, descalabro da agricultura, descalabro das vias de comunicação e dos transportes, descalabro da agricultura, descalabro dos portos e das pescas, descalabro da cultura, descalabro até do próprio descalabro. Mais um pouco e não teremos o Algarve mas sim o não-Algarve. O sábio oportunismo de autarcas, os interesses rasteiros colados nas costas dos gestores das empresas municipais e inter-municipais, a pressão de empresários que têm tudo menos escrúpulos, a febre das imobiliárias que se pega como a malária em São Tomé, o espavento cinicamente eleitoral de profissionais da política candidatos a todos os parlamentos que prometem irresponsavelmente aquilo que sabem que não poderão fazer nem lhes deixam fazer ficando calados quando têm as cores do poder e dizendo umas coisitas para marcar presença e dar ares de grande verticalidade quando são remetidos para a oposição, tudo isto tem conduzido o Algarve para a negação do Algarve, para o Algarve.

É claro que empresários, investidores e gestores conscenciosos – que os há – queixam-se e com razão da falta de planeamento apesar de tanto plano, da falta de segurança para iniciativas apesar de nos considerarmos num estado de direito, da falta de transparência dos decisores políticos apesar de tanta assembleia eleita com poderes fiscalizadores. É claro que o mundo da cultura – que também há – assiste impotente à promoção do mais reles provincianismo compensado aqui e ali por acções subsidiadas de um novo-riquismo que se julga recobrir a miséria geral das ideias e da arte. É claro que há políticos sérios – naturalmente que os há – que acabam por deixar cair os braços não por ressaibo mas por delento, não por descrença na Democracia mas por demarcação aos que da mesma Democracia se aproveitam para fazerem o mesmo ou coisa semelhante ao que fariam se, acaso a antiga ditadura tivesse perdurado.


É assim que, a propósito de mais um cometa a cair junto das arribas de Lagos, e perante os protestos do senhor Mendes Bota – que não sabemos se protestou nas bandas de Vale do Lobo e arredores até Albufeira por aí fora – o presidente da Câmara lacobrigense diz que votou a favor «não por considerar interessante a operação urbanística dada a sensibilidade do local», mas já a vice-presidente da mesma câmara afirma tratar-se de «um projecto de arquitectura de muita qualidade, uma unidade de que Lagos precisa». É como se Algarve e não-Algarve se confundissem já integralmente sendo uma única e mesma coisa. Bonito.

Carlos Albino

quinta-feira, 21 de julho de 2005

SMS 115. A doença terminal da política

21 Julho 2005

O obreirismo eleitoral não é uma invenção algarvia mas tem funcionado aqui como instrumento de obsessivo êxito político. Autarcas que «não mostrem obra» julgam que tem os dias contados, ir para eleições sem uma boa dúzia de inaugurações com muitas palmas é o mesmo que derrota à vista, porquanto julgam que cada palma é um voto, e, mesmo que a obra não decorra dos méritos da autarquias mas das empresas que as oferecem a troco de qualquer coisa que nunca se sabe o que é, as obras salvam, sobretudo se forem inauguradas um ou dois meses antes do sufrágio porque, nestas coisas, julgam os autarcas que os eleitores continuam a ter a memória curta. E aqui, neste pormenor da memória do eleitor, é que está o erro com que muitos autarcas julgam que dissimulam as suas virtudes ou a falta delas – o eleitor tem memória, o eleitor sabe já de experiência própria quanto lhe custa não ter memória.

Vem isto a propósito de um pouco por todo o Algarve, a três meses das eleições, haver obras por todo o lado. Rotundas disciplinadoras do trânsito que poderiam e deveriam ter sido feitas há anos, só agora é são implantadas; estradas esburacadas que poderiam e deveriam ter sido reconstruídas há muito tempo, só agora é que são objecto do frenesim político; projectos de construção que estavam na gaveta, como que por milagre enchem as ruas de andaimes e os pinhais de hotéis mesmo com os pisos a mais que também durante anos estavam interditos, mas, agora, pelos vistos, deixaram de estar. Por aí fora, para não falar dos repuxos, da sementeira de esculturas de gosto duvidoso, enfim, da praga de congeminações dos arquitectos municipais impostas sem discussão pública e muito menos com a pedagogia da discussão pública. Com isto não queremos dizer que as eleições devem proibir as obras, apenas deixamos sugerido que a excepcional simultaneidade de tanta obra no pino do Verão é de molde a tornar as eleições quase proibitivas e, claro, suspeitosas. Muita obra, mas pouco plano estratégico, aliás, basta ler bem os slogans das campanhas por esses concelhos, tanto dos poderes locais como das oposições – são de uma pobreza extrema e de uma linearidade confrangedora.

Ora, este obsessivo obreirismo eleitoral é a verdadeira doença terminal da política. A política existe para fazer obra segundo o calendário do interesse público e para fazer prova de obra em função da legítima aspiração da sociedade ao bem estar e à modernidade, seja a obra cultural, de cimento ou de alcatrão. O que é assombroso é que o calendário do interesse público degenere em mero calendário eleitoral apenas para fins políticos escusos, para não falar da obtenção por terceiros de ganhos financeiros directos com a discreta oportunidade do momento. A política, assim, tem os dias contados, morre, ou a doença não seja terminal. A política só não morre se o eleitor usar a memória que já tem.

Carlos Albino

quinta-feira, 14 de julho de 2005

SMS 114. Alte à procura de um procurador

14 Julho 2005


1. Consta que Alte não gosta da intervenção que a Câmara de Loulé destina para a emblemática Fonte Grande. Será portanto mais um caso de desencontro entre o gosto oficial do município e o gosto da população – é um desencontro natural e isso ocorre pelo mundo fora, entornando-se o caldo quando um dos lados não manifesta bom senso ou então se impõe com autoridade majestática.

2. Já não acontece pelo mundo fora, mas pelos vistos ocorre em Alte, é que a população não tenha capacidade de se organizar para denunciar o descontentamento, para questionar métodos e para escrutinar o «gosto municipal». Pior ainda, e disso a população já terá culpa, é que não existe nas câmaras (designadamente nos serviços técnicos) uma cultura de discussão de projectos com as populações - apenas quando a lei impõe é que, enfim, se põe em prática a metáfora da discussão pública que não passa de metáfora pois quase todas as discussões públicas impostas legalmente vêm acompanhadas pelo espartilho do medo e de esmagadora retórica com o calão técnico de conveniência. Daí que dos estiradores municipais saia tanto mau gosto para as praças públicas como estas se enchem de tudo menos de bom senso.

3. E quando não há capacidade de organização da cidadania nem as câmaras dão mostras de quererem uma cultura de discussão, naturalmente que a escapatória é a denúncia anónima para uma televisão de casos pitorescos, o telefonema sob reserva para um jornalista salvador de última hora ou o pedido a uma figura supostamente com protagonismo e influência para que intervenha, demova e faça por procuração o que a população sente que não pode fazer. Pelo contacto que me dirigiram, ou muito me engano ou Alte anda precisamente à procura de um procurador.

4. Encurtando, não seria melhor que Seruca Emídio fizesse um atalho e fosse ouvir a população de Alte?

Carlos Albino

quinta-feira, 7 de julho de 2005

SMS 113. É triste e primário

7 Julho 2005

1. É triste. Temia mas está a acontecer já nesta fase das lutas autárquicas: quem tem estado na oposição – independentemente do poder ser PS ou PSD – não sai dos chavões de que «o concelho parou nestes últimos anos», que «nada foi feito», que «os projectos ficaram na gaveta à espera de aprovação», que «a saúde é só para alguns» e por aí fora. Trata-se de uma visão redutora da competição política e também se trata de contar com o tal pressuposto de que os eleitores são uns ignorantes, que não vêem nada, que não conhecem quem está na luta, o que é triste. Mas o que é muito mais triste é uns quantos senhores, em vez de provarem méritos, mostrarem que têm golpe de asa e seriedade, reduzam a democracia a luta corpo a corpo, a duelo em que o primeiro atingido cai para o lado, a guerra política onde vale tudo menos arrancar olhos. A democracia autárquica obviamente que não é isto. Mas esses senhores insistem.

2. É primário. Atitude que não se desliga da anterior, temos constado que, por regra geral, quem está na oposição – independentemente de ser PSD ou PS – não concede o benefício da sua presença a actos do poder envolvendo até benefícios e bens públicos, quer se trate da inauguração de uma biblioteca, da abertura de uma avenida, de um concerto de orquestra ou, mais grave, de um debate cívico e aberto sobre temas colectivos. A ausência é justificada – também regra geral mas entre dentes – porque «é obra deles». Deles, do poder. É primário. Trinta e um anos de democracia já deviam ter varrido esta mentalidade.

Carlos Albino

quinta-feira, 30 de junho de 2005

SMS 112. Os Direitos Humanos desta vez em Faro...

30 Junho 2005

Não sei mas gostaria de saber se é o forte construtor civil que tem razão ou se é o fraco e por ceto indefeso sexagenário António Afonso que viu a sua habitação a ser demolida às seis da manhã e à força que mais razão terá. O que se sabe é que os responsáveis por um empreendimento com mais de 800 fogos, pela descrição do jornalista Idálio Revés, fizeram ou mandaram fazer o inacreditável porque é próprio de uma sociedade de barbárie: nesse começo de dia, arrastaram o homem para cima de pedras, taparam-lhe a boca para não gritar e deitaram-lhe a casa abaixo onde vivia há 35 anos para o empreendimento avançar... Não é assim que a razão se apura, não é assim que se trata um ser humano. Na verdade, alguns construtores civis actuam no Algarve como se fossem ocupantes da Faixa de Gaza ─ e então por essas falésias onde não há ninguém é um ver se te avias. Mas se fora das falésias encontram um ser humano, alguns fazem obra desta, à margem dos tribunais, à margem da polícia, à margem da segurança social. Volto a repetir que não sei se António Afonso tem razão, o que sei é que o construtor a perdeu com esta acção própria da barbárie. É evidente que a Câmara de Faro e a PSP, cada entidade por lado teria uma palavra a dizer sobre a hora ou enquanto era tempo. A PSP descartou-se bem («os factos terão ocorrido antes da chegada da polícia») e a câmara em hora de eleições silenciou-se ─ o que é de mau tom numa sociedade onde egoístas e egocêntricos campeiam cada vez mais. Resta dizer que para executar acções como esta de Faro, mão-de-obra «especializada» não falta no Algarve... A polícia conhece essa mão-de-obra e os seus elevados conhecimentos de Direitos Humanos que aplicam com mestria nas horas vagas e pela calada da noite que é a prima irmã da clandestinidade. Mas os construtores também sabem. Vamos bem.

Carlos Albino

quinta-feira, 23 de junho de 2005

SMS 111. Duas citações…

23 Junho 2005

Primeira citação, o programador de Faro Capital da Cultura, Miguel Abreu, disse nem mais nem menos que «temos de ver se as pessoas percebem que o espectador do Algarve é igual ao espectador de Paris, de Lisboa ou de Nova Iorque». Nem mais nem menos – é igual. Igualíssimo. Grande programador!

Segunda citação, o vice-presidente da Câmara de Albufeira, José Carlos Rolo, disse também nem mais nem menos que «neste mundo global, se não tivermos uma Língua e uma Bandeira, deixaremos de ser portugueses, provavelmente». Grande pensador!

Carlos Albino

quinta-feira, 16 de junho de 2005

SMS 110. Autárquicas…

16 Junho 2005

As listas estão prontas, a luta vai começar, aliás já começou – os primeiros cartazes pré-eleitorais já por aí começam a ser afixados com o vale tudo e erros gramaticais à mistura. Possivelmente apenas Faro vai mudar de mãos por todas as razões e mais uma. Na verdade se alguma coisa Faro deverá querer é deixar de ser capital do provincianismo nacional. Mas também possivelmente haverá luta renhida em Portimão e abanão em Albufeira. O resto deve continuar mais ou menos na mesma, a avaliar os indícios – todos sabemos que os indícios valem pelas melhores sondagens, sobretudo quando os Municípios se transformaram em umbigos e onde apenas se olha para o umbigo sem lógica de Algarve, sem pensamento de Algarve, sem visão de Algarve, sem golpe de asa, sem a ambição superior de excelência. Os eleitores estão cansados de promessas não cumpridas e de constatar que afinal quem não é eleitor é quem manda no Algarve, desde que saiba satisfazer os umbigos municipais dando uma volta sobre a lei, dando uma volta sobre o bem comum, dando uma volta em tudo o que for preciso. E por aqui ficamos, porque em algumas listas as companhias não são sérias.

Carlos Albino

quinta-feira, 9 de junho de 2005

SMS 109. Aquele pormenor que Sócrates esqueceu

9 Junho 2005

O primeiro-ministro José Sócrates escolheu Sagres para algumas decisões importantes mas tardias como são os casos do ponto final na novela da Barragem de Odelouca. (mesmo assim a ver vamos…) e do plano de ordenamento da orla costeira. Na verdade, quem percorra a costa algarvia, sobretudo na zona de Quarteira-Albufeira, o que parece ter orientado aquela gente (autarcas, investidores, arquitectos e construtores) foi um plano de caos costeiro, verdadeiro caos típico de economia virtual, cega e aldrabona além do mais com sede em paraísos fiscais.

E quando estamos no caos, sabemos todos, ninguém se entende. Sócrates que, enfim, teve a coragem que faltou a Guterres e a Barroso para enfrentar este caos, argumentou que os investidores que defendam um turismo de qualidade apoiarão pela certa as medidas preconizadas, mas esqueceu-se de um pormenor – o pormenor dos algarvios, da população algarvia que segue atónita e descrente os movimentos da ilegalidade, da política subterrânea, da falta de fiscalização ou da fiscalização manobrada, das decisões desiguais e pela calada, um rosário sem fim que termina nos «aldeamentos turísticos» que, a partir de qualquer nesga de falésia, usurpam literalmente o domínio público. Sócrates esqueceu-se desse pormenor do número esmagador de algarvios que estão fartos do caos, dos autarcas do caos, dos arquitectos do caos, dos investidores do caos e dos construtores do caos mais o respectivo séquito de clandestinos.

Carlos Albino

quinta-feira, 2 de junho de 2005

SMS 108. Cerejas, morangos e outras frutas

2 Junho 2005

Possivelmente tive azar. Bem queria cerejas e morangos, mas tive azar. Fui a quatro hipermercados, dois supermercados e a dois minimercados à procura de cerejas e de morangos a sério, mas tive azar – ou eram cerejas do Douro, com dedo espanhol, com a cor dos olhos de borrego morto, sem sabor e metade bolorentas (toda a gente sabe que cerejas a sério são as da Cova da Beira, onde os produtores estão desesperados por não conseguirem escoar a sua fruta ímpar), ou eram morangos espanhóis, verdadeiros monumentos às hormonas e que, há duas semanas, enganado, comprei à beira da estrada da Patã, mas tive que os deitar fora – eram intragáveis. E apenas para verificar até onde as coisas podem chegar, andei pela 125 onde os pequenos agricultores, talvez mais por desespero do que por manha, pelos vistos se prestam, paredes meias com comércio ilegal mas a pretexto das laranjas «do produtor», a servirem de esgoto da fruta que a Andaluzia rejeita e não pode exportar para a Europa minimamente exigente. Afinal, nem uma cereja a sério, nem um morango a sério encontrei por todos os mercados possíveis numas três horas que não dou como perdidas – nessa experiência percebi «a coisa». Quer isto dizer que Portugal, cujos políticos andam por aí entusiasmados com o Mercado Interno Ibérico depois do entusiasmo pouco ou nada sério com o Mercado Interno Europeu, não conseguiu realizar e garantir o seu próprio mercado interno, o mercado interno português.

Os produtores algarvios de citrinos sabem dramaticamente do que estou a falar e os produtores de cerejas da Cova da Beira são as vítimas mais recentes e actuais – os beirões sofrem com as cerejas o mesmo ou mais do que os algarvios têm sofrido com as laranjas. Que os hiper, super e mini mercados encham as prateleiras com a fruta que a Espanha não consegue vender em mais lado nenhum, isso tem uma explicação que os senhores Belmiro de Azevedo e Américo Amorim guardam – sabemos. Mas o que não dá para entender é que os agricultores algarvios de citrinos em vez de darem a mão aos produtores beirões de cerejas, concertando estratégias, façam por ganhunça à beira da Metropolitana 125 o mesmo que nos hiper, super e mini se pratica: esgoto.

Carlos Albino

quinta-feira, 26 de maio de 2005

SMS 107. As presidenciais tacadas

26 Maio 2005

Foi em Novembro de 2003 (como o tempo passa…) que aqui se pediu ao Presidente Jorge Sampaio para fazer uma Presidência Aberta no pobre Algarve, no Algarve dos pobres, no Algarve da pobreza que é a maior parte do Algarve. Pediu-se que o Presidente percorresse a Serra e o Barrocal, que ouvisse os agricultores, os autarcas do interior, que fosse a Alcoutim, que falasse com os de São Brás, os de Loulé, os de Silves e os de Monchique, que se confrontasse com o paradoxo de uma Região que é tida por rica mas que tem as zonas mais pobres do país, que alertasse para a dramática ruptura cultural, para o grave problema de comunicação que atravessa e fere a sociedade algarvia. O Presidente Sampaio nada fez e agora com eleições, referendos e com um pé de saída, já é tarde para o fazer. Foi ao Minho tratar de descentralização, andou nove dias na Guarda, percorreu a Beira Baixa a propósito de educação, esteve em Évora, andou por todo o lado e, há pouco, até circulou por estradas e auto-estradas por causa da sinistralidade rodoviária. Para o Algarve, nem uma Presidência Aberta decente e sem encenações, nem sequer um 10 Junho, um diazinho de Portugal que recolocasse a dignidade de Sagres traída. Por tanta azáfama presidencial, Sampaio esqueceu o pobre Algarve onde acabou por vir apenas episodicamente e, mais recentemente, por umas tacadas de golfe pelo que, depois de condecorar Palmer com a comenda do mérito, abalou. Na verdade, Sampaio e os governos têm tratado o Algarve à tacada e ficam muito contentes se acertam com os seus méritos nos buracos – como se essa fosse a sua função, a função do Presidente e a função dos governos. Sampaio, assim não. Mas já é tarde.

Carlos Albino

quinta-feira, 19 de maio de 2005

SMS 106. Nomes das Escolas… pensem bem.

19 Maio

E aí temos cada Escola com o seu bilhete de identidade, havendo já muitas poucas no Algarve sem um nome de «patrono» ou sem uma designação mais ou menos apologética. Algumas escolas, melhor dizendo, as direcções de algumas escolas foram atrás de nomes mais ou menos célebres pescados por entre as relativas celebridades da terra ou dos arredores; outras direcções escolares pretenderam afirmar, enfim, alguma ideia política de progresso; outras ainda quiseram apenas homenagear um morto. Mas quase todas as direcções escolares procederam e decidiram como se todas as escolas tivessem que estar associadas a um patrono célebre, a uma ideia supostamente salvadora ou, à falta de melhor, a um morto que pouco mal tenha feito em vida.

Assim, à falta de Pedagogos (do Algarve, ficaram na história dois que não chegam a três), à falta de Cientistas e de Investigadores (há bastantes mas os decisores algarvios não só os desconheceram em vida como depois da morte), à falta de Vultos Literários de peso e de Vultos Políticos com peso humanista (bem contados todos eles, vão para sete, oito, nove ou, vá lá, para dez os que já marcaram ou estão a marcar, havendo muito vulto do passado que não tendo sido vulto, não passou e não passa de fantasma), pois à falta de eminências, algumas escolas, nesse frenesim de encontrar um «patrono», acabaram por ficar com a canga de nomes escolhidos por critérios mais que duvidosos seguidos pelos respectivos conselhos directivos.

Há escolas, por exemplo, com nome de padres mortos só porque supostamente foram homens bons (como se não tivessem sido diabos pela calada e verdadeiras nulidades do Saber) mas, no que importa ou importaria para as escolas, sem obra científica, pedagógica ou até cultural de relevo – corra-se o Algarve e é evidente que é difícil descortinar qualquer padre algarvio com o nível do Abade do Baçal. E, à falta de padre morto, até há escolas com nomes de divindades cristãs, mudando o que pode ou deve ser mudado, à boa maneira do fundamentalismo islâmico. Se não há Vulto ou Eminência na terra e arredores, porque é que a Escola não poderá ficar apenas com o nome do sítio? Sem dúvida que esta matéria, algum dia, terá que ser revista com serenidade e com critérios.

Carlos Albino

quinta-feira, 12 de maio de 2005

SMS 105. Correia de Campos, uma asneira atrás de asneira

12 Maio 2005

Inevitável, é inevitável falar-se do projectado Hospital Central do Algarve e do ministro Correia de Campos que é uma tristeza de ministro. Primeiro, antes das eleições, era ele ainda mero ou presuntivo candidato a ministro para mudar Portugal – bem nos recordamos – disparou contra aquele anseio de todos os algarvios que corresponde a uma prioridade e necessidade evidentes, sendo de imediato desmentido por José Sócrates e o assunto ficou por aí porque, todos nós ou, melhor, a maioria absoluta de nós queria mudar Portugal para melhor e não para pior.

Todavia, já ministro, Correia de Campos torna-se repetente no dislate que ninguém pode deixar de classificar como uma provocação política, obrigando o primeiro-ministro a desmenti-lo de novo. Mas, em vez de dar a mão à palmatória, Correia de Campos fez a terceira e mais grave asneira ao fazer depender o hospital da encomenda de um «estudo», como se não tivesse havido já estudo e como se os dois desmentidos de Sócrates não tivessem sido previamente bem estudados…

É claro que houve estudo, pelo que o ministro Correia de Campos ou está sediciosamente desatento ou falta à verdade, colocando o primeiro-ministro José Sócrates, pela terceira vez, numa posição de desconforto face à posição unânime do Algarve e dos Algarvios sobre essa matéria – de José Apolinário a Carlos Martins, de Miguel Freitas a José Mendes Bota e de Sagres a Vila Real de Santo António passando por Macário Correia. Assim, o ministro da Saúde, arrogante e politicamente trapalhão, não ajuda a mudar Portugal – apenas dá continuidade ao pior que Portugal tem: encomenda estudos ou nomeia comissões para estudar depois de tanto estudo feito, adia, gasta, provoca e, pior do que tudo, ofende. Correia de Campos ofendeu o Algarve.

Carlos Albino

Nota: É claro que Correia de Campos é natural de Torredeita, Viseu. Se vem ao Algarve, se conhece o Algarve, se para aqui vem apenas bronzear-se ou se se confrontou alguma vez com o que o Algarve é durante meio ano, não se sabe.

quinta-feira, 5 de maio de 2005

SMS 104. Influente e rei…

5 Maio 2005

Como habitualmente, nas manhãs de sábado, tento passar o melhor possível a pente fino as coisas do Algarve. Para tanto, nada melhor há do que jogar mãos à imprensa disponível – sento-me numa pequena e discreta esplanada de café e meia-hora basta para solitariamente ficar ciente de algumas coisas boas e outras francamente más para a região, passando os olhos por esses sete títulos que me aguardam na tabacaria. Numa das últimas vezes, tive companhia. Um influente homem pede para me fazer companhia, concedo e ele senta-se. Ao ver sete jornais algarvios, para além das três publicações da imprensa diária e semanal que selecciono também por hábito e simpatia, o homem não disfarçou um enorme espanto. «Tantos jornais que você lê?» - perguntou-me, sorvendo meio copo de cerveja (mais caro que os 0,90 € do Postal do Algarve) enquanto eu ia mexendo o meu cafezinho. «E você não lê nenhum jornal?», tentei saber, ao que o influente homem replicou com o argumento de que os jornais são caros – «E então logo essa meia-dúzia!» – e falou, falou, dizendo que «Jornais só à borla!» e que «Mandam-me dois pelo correio que nem abro, a mulher é que devora aquilo, para além do jornal com que vem da missa», pediu outra cerveja também mais cara que os 0,75 € do Barlavento), seguiu-se uma terceira (ao preço do 1 € da Voz de Loulé), continuou a falar do político A, da carta anónima, do vereador B e do último boato, continuando a falar na quarta cerveja (no custo do 1 € do Algarve Região) até rematar numa quinta mais cara que 0,75 € da Região Sul. E nisto, o influente homem puxou – imagine-se – um valente charuto consumindo na primeira fumaça mais que os 60 cêntimos de O Louletano e numa segunda e espaventosa fumarola enquanto fechava um olho como que num simulacro de zarolho, fez subir para os ares mais do que os 75 cêntimos do Jornal do Algarve… E não é que ele continuava a falar, a falar e a falar? É claro que, na duração dessa cena, não consegui ler nada mas fiquei mais convicto de como o povo tem razão ao observar que em terra de cegos, o zarolho é rei. O Algarve está cheio destes reis: falam muito, não lêem nada.

Carlos Albino

quinta-feira, 28 de abril de 2005

SMS 103. Iniciativa exemplar

28 Abril 2005

Quem não deve não teme. Para Sábado, dia 30, está marcada a primeira sessão do Fórum Loulé 21, um anunciado espaço de debate aberto aos cidadãos, associações, empresas, escolas, agentes autárquicos e, enfim, a todas as carruagens do comboio da cidadania. A finalidade, também anunciada, é apurar a estratégia de desenvolvimento do concelho louletano, decorrendo ao mesmo tempo um inquérito, diga-se, bem elaborado. Aí temos portanto debate, a avenida larga do debate naquele sentido pelo qual António Sérgio tanto pugnou. É uma boa notícia, tratando-se de uma inciativa que, se for levada a bom porto com lhaneza e seriedade, poderá muito bem colmatar o que os partidos não conseguiram concretizar nestes 31 anos de democracia, tão envolvidos têm andado na luta pelo poder – pelos poderes a vários níveis – tantas vezes esquecendo o bem comum em nome de um reclamado e, por natureza, sempre duvidoso interesse geral.

É uma iniciativa exemplar que deveria ser seguida não só em cada um dos concelhos do Algarve mas sobretudo pelo próprio Algarve no seu todo que tarda em rever-se na Junta Metropolitana que não há meio de descolar, sobrevivendo de episódios.

Resta saber é se as eleições autárquicas serão apenas uma circunstância no meio do fórum louletano ou se este mesmo fórum, desvirtuando-se ou desvirtuado à força, ficará reduzido a mera circunstância das autárquicas. Esperemos que não – melhor dizendo, esperemos que os cidadãos louletanos saibam agarrar esta oportunidade em que a formulação dos problemas antecipe soluções não escrutinadas pela discussão, pelo debate, enfim, pelo exercício da Crítica que, com letra maiúscula, será ou deverá ser sempre o exame racional, indiferente a preconceitos, convenções ou dogmas, tendo em vista um juízo de valor.

Carlos Albino

quinta-feira, 21 de abril de 2005

SMS 102. Jornais a mais?

21 Abril 2005

Volta e meia, quando no Algarve se fala se jornais – dos que há e dos que não existem fazendo falta como é o caso de um diário a sério – lá surge sempre um entendido a discorrer que há publicações a mais e que por serem muitas é a panóplia de títulos que impede a inciativa e êxito de um diário algarvio… Segundo tais discorrências, os jornais locais, melhor, os jornais que são criados para intencionalmente serem elos confinados das comunidades locais, serão como que uma sangria e um gasto estouvado de recursos a impedir que a Província Algarvia tenha pelo menos uma gazeta diária. Ora, nada mais errado! Nem é a existência destas publicações que impede um diário nem a sua quantidade vai por aí além, diremos mesmo que o Algarve, mesmo no contexto do País que fica muito aquém do que se verifica pela Europa fora, tem jornais locais (concelhios ou inter-concelhios) a menos. E quanto a um diário, se o não tem, é porque pura e simplesmente não há iniciativa editorial sustentada com tal finalidade, não há sincronia com o tecido empresarial que opera no Algarve, não havendo também uma vontade política efectiva que esteja além ou acima dos interesses dos partidos com poder na província. O Algarve não tem um diário provincial pelas mesmas razões que não tem uma estação de rádio provincial digna deste estatuto e uma televisão regional que não seja esmola do Estado.

Tal como uma crise profunda que ocorra no Turismo, a crise não se explica por haver hotéis e campos de golfe a mais, a crise da Comunicação Social do Algarve não tem nada a ver com a existência do singelo e puramente romântico Ecos da Serra de Alte, do bom Postal de Tavira, do dinâmico Região Sul da área de Loulé, do viril Barlavento que sopra de Portimão ou mesmo deste Jornal do Algarve que bem luta por ser o melhor da rua… Os jornais não são como na tropa em que um é soldado raso, outro sargento, algum capitão a esperar promoção a major e, enfim, sonhando todos chegar algum dia ao posto de general. Assim como o melhor sargento do mundo poderia dar no general mais desgraçado do planeta, também um magnífico jornal que por hipótese surgisse no Cachopo e apenas para ser o elo de Cachopo poderia resultar no mais pacóvio diário do Algarve, se a ambição por tal estrelato subisse à cabeça do hipotético director do Cachopo. No mundo dos jornais, não há hierarquias, há funções; não há eleitores, há leitores – e aqui é que bate o ponto.

Terá o Algarve leitores? É a pergunta que deve ser feita. Estamos em crer que não há jornais a mais, o que há é leitores a menos…

Carlos Albino

quinta-feira, 14 de abril de 2005

SMS 101. Direitos humanos

14 Abril 2005

Aquela história real de uma juíza de Olhão ter condenado um inválido - acamado em casa por efeito de uma trombose, sem dinheiro para comer e com a mulher a recorrer à sopa dos pobres - a uma pena de prisão por não ter pago uma multa de 135 euros, nem lembra ao diabo. O caso foi descrito por Idálio Revez (Público, 7 de Abril) e para os humanos que militam pelos direitos humanos, a situação narrada pelo jornalista é deveras ficcional e trágica. A um homem naquelas circunstâncias, a juíza chegou ao ponto de negar a divisão do pagamento em prestações de 15 ou 20 euros para não se entrar em «moldes que, na prática, descaracterizem a pena e as suas finalidades»... Não vamos respigar mais pormenores da primorosa narrativa do jornalista Idálio Revez, mas não podemos evitar alguns considerandos.

A Justiça portuguesa que amiúde invoca não ter meios e recursos para fazer justiça, o que é verdade, também amiúde perde razão e motivos, ou porque nuns casos é permissiva para não dizer subserviente face a circunstâncias difusas , ou porque noutros casos - como o de Olhão - é arrogante, insensível face a claras circunstâncias e desumana. Por vezes, os juízes - sobretudo os mais jovens e iniciados na arte de decidir a coberto da toga - contribuem para essa perda de razão da Justiça, por uma questão de currículo e de singrar na carreira, e, também, porque facilmente se distraem no caravanismo judicial com saltitam de terra para terra. No caso de Olhão, não será isso - nem o pobre homem acamado é um poderoso da imobiliária e nem a decisão ajudará muito a escalada profissional da juíza - aliás não ajuda mesmo nada, se a próxima inspecção funcionar, porque nem sempre funciona. O caso de Olhão é um caso pura e simplesmente de direitos humanos, melhor dizendo - de direito humanitário, assunto que a juíza, se não aprendeu, deveria aprender com urgência.

É claro que, para que se chegue ao vergonhoso cúmulo da justiça de Olhão, as responsabilidades pela degradação da noção de Justiça devem ser partilhadas obviamente por mais gente e que poderosa gente! Mas esta é outra conversa e sobre o exercício da advocacia no Algarve, algum dia, haveremos de falar. Não vamos aqui numa única SMS tratar de tudo ao mesmo tempo em moldes que, na prática, descaracterizem esta pena que escreve e as suas finalidades...

Carlos Albino

quinta-feira, 7 de abril de 2005

SMS 100. Os autocratas…

7 Abril 2005

Dezenas, são várias dezenas e dezenas de histórias por essas autarquias as que me vão contando, envolvendo engenheiros e arquitectos ao serviço das câmaras e comprometendo os gabinetes técnicos dos municípios em procedimentos impensáveis. Os cidadãos lesados calam-se por medo e as empresas privadas de arquitectura nem tugem nem mugem por receio de represálias. Mas há que pôr cobro a este estado de coisas que encapsulou dentro das autarquias verdadeiros ninhos de autocratas e de pequenos soberanos locais insolentes que, por capricho e em função de interesses difusos adiam projectos, cortam planos defensáveis e inviabilizam sem fundamento ideias de progresso. Fazem tudo isto como se fossem intocáveis e como se «o parecer dos serviços técnicos» fosse dogma e verdade infalível.

São processos que se arrastam anos a anos sem decisão e sem qualquer explicação, é o tratamento medieval que esses autocratas diariamente destinam ao cidadão que legitimamente os procuram, é, enfim, o exercício de um poder espúrio que jamais se imaginaria que pudesse sair do tampo de um estirador.

Presenciei, por esse Europa fora, vários primeiros-ministros portugueses ouvirem queixas de investidores contra tais prepotências, designadamente no Algarve, e para as quais apenas haverá uma explicação e que é aquela que a sabedoria popular consagra com a conhecida expressão de «fazer render o peixe».

Tais autocratas, por definição, naturalmente que cuidam por aparentar que os seus actos se conformam com a lei e com as disposições das respectivas ordens profissionais – a dos Arquitectos e a dos Engenheiros. E é nesta lógica perversa que os autocratas que não são eleitos e recusam qualquer escrutínio, não raras vezes conseguem manter reféns os autarcas que são eleitos e que em última análise são os únicos que têm prestar contas... Pedem-me para ser concreto? Vou ser, bastando dizer apenas que há excepções – excepções de engenheiros e excepções de arquitectos.

Carlos Albino

quinta-feira, 31 de março de 2005

SMS 99. A "melhor sapataria" desta rua...

31 Março 2005

Francisco Pinto Balsemão, assim se espera, vem ao Algarve, no sábado da próxima semana (dia 9), falar sobre a Imprensa Regional no Século XXI. É um tema aliciante porque no Século XX esse foi um desafio que, salvo dois ou três casos e mesmo assim configurando êxitos relativos e circunstanciais, Portugal não conseguiu ganhar e o Algarve muito menos. Factores vários podem explicar o insucesso, mas sempre que esse tema vem à baila recordo-me daquela saborosa historieta de duas modestas sapatarias que, sendo as únicas e frente a frente na única rua de uma recôndita aldeia, encetaram forte competição entre si. Os leitores saberão da história mas não faz mal recordar. Um belo dia, o dono de uma das sapatarias resolver afirmar-se e colocou um grande letreiro sobre a porta dizendo assim: «A Melhor Sapataria da Aldeia». A resposta do concorrente não tardou muito pelo que, escassos dois dias depois, podia ler-se sobre a porta da outra sapataria um letreiro mais persuasivo: «A Melhor Sapataria da Província». O outro, porém, não ficou de braços cruzados e, ainda a tinta do adversário estava fresca, não hesitou em emendar o letreiro inicial para isto: «A Melhor Sapataria do País». Naturalmente que a aldeia entusiasmou-se com esta guerra de tabuletas e qual não foi a surpresa quando, no outro dia, surge na sapataria da frente letreiro supostamente mais convincente: «A Melhor Sapataria do Mundo»... Aqui, chegado a este patamar de qualificação, o dono do estabelecimento respirou de alívio convencido de que o seu competidor estava derrotado em definitivo. O outro dono ficou deveras perturbado, passeou rua abaixo rua acima matutando, matutando... e, num daqueles momentos em que o instinto de sobrevivência faz com que a esperteza humana obrigue o corpo a dar um salto, pois deu o salto, abriu o escadote e emendou o letreiro para «A Melhor Sapataria desta Rua».... E com isto ganhou a batalha e terminou a guerra.

É claro que a fábula ensina que a Imprensa Regional deve pretender sempre ser a melhor «desta Rua», porque o País - e então o Mundo! - tem muito mais ruas, ruas com outros meios e interesses, tantas ruas! Só que no Algarve é a rua do Algarve que interessa. Por outras palavras, já Victor Hugo se interrogava - «Entre o telescópio e o microscópio, qual deles a melhor visão?» Aguardemos então pelo que Francisco Pinto Balsemão nos vem dizer à nossa rua. Seja benvindo!

Carlos Albino

quinta-feira, 24 de março de 2005

SMS 98. Algarve-Andaluzia, uma parceria óbvia

24 Março 2005

O diálogo entre o Algarve e a Andaluzia tem sido insuficiente e a cooperação entre as duas unidades históricas do sul da Península, na prática, é insignificante – há umas «coisas» por ali e por aqui mas decorrendo do voluntarismo e das meras boas vontades. Não há um plano, uma estratégia concertada entre os dois lados, uma ideia grande. O que é estranho, porquanto entre o Algarve e a Andaluzia não há conflitos fronteiriços, não há preconceitos de monta nem sequer suspeições de que Sevilha queira tomar Faro, ou que Huelva queira suplantar Vila Real de Santo António. Os andaluzes, nisso – estou em crer – estão a quilómetros e quilómetros dos estremenhos que começam logo por mentir nas fronteiras. Entre o Algarve e a Andaluzia esse problema não existe.

Ora, uma cooperação aprofundada, um diálogo consistente e uma afirmação consolidada deste verdadeiro arco mediterrânico não é coisa que caia do céu. Até há pouco tempo, o Algarve poderia queixar-se de não ter um instrumento institucional, mínimo que fosse, para encetar caminho e falar para os andaluzes e com os andaluzes. Agora tem. Tem esse mínimo que se chama Junta Metropolitana a que se exige mais do que olhar para o umbigo, ficando à espera do trem e do sábado que vem. Uma liderança regional não se constrói por decreto e até será desejável que não dependa de decreto, mas sim da sua capacidade de rasgar horizontes, de abrir o Algarve para lá das duas fronteiras que o empalham – a fronteira do Alentejo que está a transformar a Província numa venenosa Costa da Caparica e a fronteira da Andaluzia que, vencida – como poderia e deveria ser vencida – poderia dar à Província um bilhete de identidade menos condicionado pelas mentalidades provincianas que imperam tortas.

Devemos então dizer a Macário Correia que se desejar um hino para o Algarve, aí está o melhor hino – entoar um diálogo bem cantado com Manuel Chaves, o Presidente da Junta da Andaluzia. E se desejar uma bandeira, aí está a mais bondosa bandeira – uma cooperação que mobilize e movimente o melhor que entre os dois lados pode cooperar. O Algarve não tem governo como os andaluzes, não tem parlamento como o que se reúne em Sevilha presidido por Mar Moreno, mas ao menos poderia e deveria para já, convidar Manuel Chaves e Mar Moreno para, aí em algum auditório sem pretensões a capital em falsete da cultura, nos explicar o que Andaluzia pensa de si própria e do Algarve… Não vou ensinar o padre nosso ao santo cura.

Carlos Albino

quinta-feira, 17 de março de 2005

SMS 97. Areia para os olhos

17 Março 2005

E aí está alguma polémica com as chamadas «Secretarias de Estado deslocalizadas», designadamente com a do Convento de São Francisco em Faro. Chamou-se a essa «deslocalização» quase tudo: ora era regionalização ou anunciado passo para isso para logo se corrigir para desconcentração, e depois, vendo-se como a emenda aumentava a asneira, passou a falar-se de descentralização… Mas independentemente destes jogos de palavras, o Estado continuou centralista – como sempre foi e por cero continuará a ser – cometendo aos secretários de Estado «deslocalizados» a função de fazer promessas, de amolecer justas pretensões e de satisfazer a vaidade de meia dúzia convencida de que ao apertar a mão do secretário de Estado estaria a apertar a mão do Estado…

Um secretário de Estado do Turismo em Faro – já aqui foi dito – era mau para Faro e mau para o Algarve. Mau porque qualquer decisão normal, vulgar e lógica que tomasse, seria entendida pelo País fora como suspeitosa, como estando a favorecer o perímetro do gabinete e os interesses gravitacionais dessa área política. Além disso, o Ministro do Turismo do Resto do País sentia-se assim isentado para as questões do Algarve e para as responsabilidades com o Algarve – «Falem com o secretário de Estado!», era a resposta sem expediente. Viu-se o que foi feito para a Região Centro, para o Douro, o que foi prometido para o Alentejo… e o que foi feito para o Algarve, nomeadamente para Faro onde esse pormenor do projecto da capital da cultura ficou com um orçamento praticamente igual ao da restauração do Teatro de Ópera Micaelense e pouco superior ao da restauração do teatro de Estremoz! O turismo – principal interessado na façanha – fez ouvidos de mercador e a programação, pelo que foi dito, equivale à programação normal da Câmara de Cascais e nem uma acção apresenta com o nível da que na Póvoa do Varzim (um dos principais estuários dos casinos) se consegue. Basta citar apenas este pormenor, não vemos mais longe.

Adivinhava-se que um secretário de Estado «deslocalizado» em Faro, como aconteceu com o outro «deslocalizado» em Coimbra e com os restantes cada um na sua capelinha local, das duas uma: ou se convertia num vereador do presidente da Câmara local, ou num capataz com direito à primeira fila nas missas, ao centro da mesa nos almoços e ao fim das sessões com discursos. Esse secretário de Estado, bem vistas as coisas, não estava «deslocalizado» – palavra horrível! – mas sim deslocado. Deslocado, e a atirar areia para os olhos porque toda a gente sabe onde a sede do capital financeiro das empresas turísticas que operam no Algarve a começar pelo jogo, salvo honrosas excepções, está – fora do Algarve.

A decisão de acabar com a palhaçada que nunca deveria ter começado, foi boa. O Algarve ficará mais favorecido com uma Direcção «Regional» de Turismo (as aspas justificam-se!) que desconcentre a sério, melhor ficaria com uma Direcção Regional sem aspas, que corporizasse verdadeira descentralização e preparasse caminho para uma autêntica regionalização. Mas esta, o Estado não quer, e sendo assim que não atire areia para os olhos.

Carlos Albino

quinta-feira, 10 de março de 2005

SMS 96. O que se passa nas ruas e estradas é muito feito e muito mau…

10 Março 2005

O que está a acontecer, dia e noite, nas estradas do Algarve e nas ruas das nossas cidades e vilas, é demais e não tem comparação com o que se passa no resto do País. Refiro-me ao trânsito selvagem, ao caos do estacionamento, à falta de civismo geral, ao desleixo das autarquias em matéria de educação pública, planos de persuasão e campanhas de prevenção, refiro-me à manifesta passividade das autoridades (não é só a falta de meios e incentivos…) e, sem dúvida, refiro-me a um estado geral de permissividade – até parece que ninguém se sente lesado.

São motas a voar por ruas principais e secundárias a 140 à hora, são automóveis a fazerem de simples travessas circuitos do Mónaco, são veículos uns estacionados sobre os passeios aos montões como camelos a dormir em Casablanca, outros estacionados no sentido inverso da marcha, é o escape aberto como regra geral, são as buzinadelas mesmo na alta madrugada para chamar um amigo do terceiro andar sem sair do carro, é a condução ilegal e indocumentada, é o trânsito nocturno dos intermediários e traficantes da droga que para tanto devassam recônditos caminhos rurais, são os pesados na Via do Infante a acelerarem como se fossem aviões a levantar voo no aeroporto de Faro… Ora entram em vigor novas medidas do Código da Estrada mas duvido que as novas coimas sejam eficazes se as autarquias não se empenharem na instrução pública (é a expressão), se as autoridades não começarem a levantar o dedo para além da caça à multa e se a sociedade não se indignar a sério, caso não se queira ter por aqui um filme ao vivo no género do que Ettore Scola realizou em 1976 - os «Feios, Porcos e Maus», exactamente.

Para já, neste 2005, o modo como se estaciona nas nossas cidades e vilas é feio, como se faz intencionalmente barulho com os veículos é porco, e o procedimento de autarquias e autoridades é mau.

Carlos Albino

sexta-feira, 4 de março de 2005

SMS 95. O Algarve sem sinais de si…

4 Março 2005

Anda-se por essas estradas para o Algarve e no Algarve e não há meio de haver sinais da terra! É verdade que há uns tempos, a gente via, antes do desvio para Messines/Silves uns valentes painéis a indicar a Rocha da Pena e a Fonte Benémola, duas para cá e duas para lá. Valentes e despropositados, porque a rocha fica muito longe em Salir e a fonte mais longe ainda em Querença – portanto aquilo foram coisas pensadas em gabinete por cabeça que apenas olhou para o mapa das estradas com esquadro e compasso na mão. Havia a promessa de colocar os sinais de que o Algarve obviamente precisa e recordo-me que numa resposta ao deputado José Apolinário, o governo se desculpou em que a sinalética era cara (julgo ter sido adiantando a quantia de oito mil contos por cada sinalização…), que era necessário o estudo daqui e o parecer dali mas que, em breve, as coisas do Algarve iriam ficar bem assinaladas. Ora nada disso e pior do que isso.

De repente eis que me apercebo de que aqueles quatro enormes monumentos de analfabetismo geográfico desapareceram e não só o Algarve voltou a não dar sinais de si, como também, pelos vistos, trinta e dois mil contos foram à viola.

Naturalmente que antes do desvio para Silves o que haverá de assinalar que não a portentosa Sé e o magnífico Castelo daquela cidade? Tudo se aceitaria ali, até a igreja de Messines se aceitaria, tudo menos a Rocha da Pena e a Fonte Benémola… Ora não queremos aqui discutir e muito menos escrutinar sinais, sinalizações e sinalética – é trabalho para deputados… Apenas queremos dizer que há uma enorme irresponsabilidade, uma total falta de respeito pela História e pelo Património do Algarve e uma infantil desconsideração pelo Turismo do Algarve que obviamente carece de consolidação. Assim não vamos longe.

Carlos Albino

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

SMS 94. Dez conclusões

24 Fevereiro 2005

I – A abstenção no Algarve (38,3 %) ficou muito acima da média nacional (34,98 %) com importantes concelhos (Loulé, 41 % e Olhão, 42,7 % e Vila Real de Santo António, 41 %) a ultrapassarem a barreira de aviso, e com Albufeira, Tavira, Silves, Aljezur e Alcoutim muito perto dessa bitola da desmotivação.

II – O Bloco de Esquerda surge como a terceira força política da Província Algarvia com implantação mais expressiva em Portimão, Faro, Loulé e Lagos. Um pouco mais e elegeria um deputado. A CDU aguentou-se recuperando relativamente e o CDS caiu estrondosamente – a escolha do «estrangeiro» Narana Coissoró para cabeça de lista foi um erro a toda a linha.

III – O PSD ao perder dois dos quatro deputados que obtivera em 2002 a favor do PS que ficou com seis, foi o grande derrotado.

IV – O voto algarvio concentrado no PS foi, em larga medida, um voto de punição e o PS nada ganha em não reconhecer que assim não é. Aliás, politicamente só terá vantagens em assumir que assim foi, tirando as ilações, com aquela humildade que fica bem e até brilha nos momentos de glória.

V – A derrota do PSD deveria obrigar Mendes Bota a pensar duas vezes. Perdeu 21 mil votos, a sua representação parlamentar ficou reduzida a metade. Deveria pensar uma vez perante o seu próprio partido e uma segunda vez perante os resultados que obteve nas áreas que melhor o conhecem. Perdeu a corrida para «líder provincial».

VI – A comportamento do Governo e particularmente de Santana Lopes face à tragédia dos incêndios no Caldeirão, feriu profundamente a sensibilidade dos Algarvios que naturalmente puniram. A questão da Via do Infante foi outra achega, a juntar a tantas outras numa Província em crise, com enormíssimas manchas de pobreza evidente e miséria calada, para além do clima geral de insegurança. Os governos nada têm feito para sanar as gritantes assimetrias dentro da própria Província e isso, politicamente, paga-se caro.

VII – As próximas eleições autárquicas vão ser um bico de obra para os candidatos locais do PS. Não é difícil perceber porquê. É questão que faz parte dos próximos capítulos.

VIII – A estrutura dos «poderes» regionais vai mexer profundamente. Vamos assistir a uma interessante corrida a poleiros, muito embora tenham sido retidos alguns ensinamentos dos tempos de Guterres – gente nomeada sem perfil, sem preparação e sem curriculum, por via do arbítrio de xerifes partidários.

IX – O «Gabinete do Secretário de Estado do Turismo» instalado no convento de São Francisco em Faro, vai ser um imbróglio... Novos inquilinos não faltam. Haverá coerência?

X – Finalmente, quanto aos eleitos, à excepção do «estrangeirado» Cravinho e do estreante Miguel Freitas, são geralmente fracos.

Carlos Albino

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

SMS 93. Bristes de Almeida... e Loulé, claro

17 Fevereiro 2005

É sem dúvida um ícone nacional, um símbolo que, carregado de lenda e com toda a controvérsia como é próprio dos símbolos, tem feito a travessia da História Portuguesa como referência para os momentos em que se deve resistir e em que se deve dizer não, mas também como sinal para os momentos em que se deve Ter força anímica e em que se deve dizer sim. Foi um virago, ficou conhecida como a Padeira de Aljubarrota por um episódio que, mais ou menos lendário, até pode estragar o significado do ícone e a valia do símbolo mas de Aljubarrota tem pouco ou apenas tem isso. É Brites de Almeida que, como figura fascinou Natália Correia, levada por isso, segundo chegou a confidenciar-me, a calcorrear caminhos e veredas da Goncinha, o sítio de Loulé que lhe é atribuído como local de nascimento, na tentativa de nos rostos das mulheres e homens com que se encontrasse ao acaso descortinar traços, ares, rugas ou trejeitos daquele ser aventureiro. Na verdade Brites de Almeida, pelo que se lhe conhece, foi a Aventura em pessoa, o permanente desafio ao destino fosse por que meio fosse. Também sabemos como, volta e meia, o prof. Hermano Saraiva se refere a Brites de Almeida para de alguma forma exemplificar a reconhecida fibra das gentes que nasceram naquela zona que um verdadeiro e secular observatório do Algarve. Naturalmente que, como acontece com todos os símbolos, a pertença é disputada e, no caso de Brites de Almeida é Faro que disputa, porque um disse ou porque outro lá descobriu um documentozinho dos tempos em que a Goncinha tanto podia ser de Loulé como de Faro. Ora vem isto a propósito para se sugerir ao líder da autarquia louletana, Seruca Emídio para se deixar de pruridos e, naquela rotunda da Goncinha, a caminho de Faro, onde se mantém ainda aquela coisa horrível do Euro 2004, erguer um monumento evocativo de Brites de Almeida – porque é de lá e temos História. Será preferível ver nesse local de cruzamento a evocação de Brites de Almeida, a esbarrarmos com mais um repuxo, três palmeiras e uma esfera de pedra que não diz nada a ninguém. Voltaremos ao assunto.

Carlos Albino

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005

SMS 92. Pobre Região... tão maltratada estás

10 Fevereiro 2005

Tratos de polé. O Partido Socialista anuncia que tem «uma agenda para a regionalização que passa por cinco etapas» sendo a primeira destas etapas «assumir o princípio base das cinco regiões administrativas». Lá iremos.

Tratos à imaginação. O líder provincial do PSD, Mendes Bota, afirma e repete que bastará aos algarvios elegerem directamente o presidente da Área Metropolitana (talvez seja melhor ir dizendo o presidente ente da Junta Metropolitana...) teremos a Região. Portanto, basta eleger o chefe e já está.

Vamos à questão.

Relativamente ao PS, oh meu caro João Cravinho, o Algarve não tem que ser punido pelo facto das restantes quatro suas regiões não se entenderem quanto a delimitações e, mais grave, não conseguirem ter uma imagem homogénea de si próprias quando se vêem ao espelho da política – três dessas regiões jamais chegarão a consenso sem que tenham um exemplo seja este ao pé da porta (caso de Trás-os-Montes) ou dos confins da Terra (caso do Algarve). É o caso das Beiras - a alta, a baixa e a litoral - entre outros casos. Mas o que é que significa para o Algarve esse «princípio base das cinco regiões administrativas»? Equivale apenas a um expediente para o adiamento. Ora o que está em causa é, seguramente, a canga da simultaneidade da criação de regiões imposta pela Constituição e que mais não é do que precisamente esse mesmo expediente dos que pretendem a continuação do Estado centralista ou do centralismo do Estado. Assisti ao levantar dos braços (alguns por sinal, algarvios), em S. Bento, que impôs esse princípio, inviabilizando a criação de regiões-piloto, por exemplo. Foi um péssimo momento para a nossa Democracia, foi um triste serviço. Ora, o que o PS deveria sugerir como «princípio base» deveria ser então a revisão Constitucional nesse ponto – purgar a exigência da simultaneidade e deixar caminho aberto para uma ou duas experiências graduais, serenas e consolidadas de regionalização - as regiões-piloto. O que o PS fez foi o mesmo que dar tratos de polé ao Algarve. E Cravinho iniste, na esteira de Sócrates, claro...

Quanto ao líder provincial do PSD, oh meu caro Mendes Bota, uma regionalização não é um passe de mágica, muito menos tirar uma pombinha da cartola onde aparentemente, antes, estava apenas um lenço. O Algarve não tem que ser punido pela distorção do conceito de regionalização que Alberto João Jardim inculcou pela forma, termos e gestos apenas possíveis quando se está rodeado de água por todos os lados – e o Algarve não está, além de que os chefes plebiscitados incomodam a todos os Algarvios. Uma região supõe um quadro constitucional, um Estatuto e, acima de tudo, condições que assegurem a harmonia institucional interna da dita região. Veja o que se passa com as freguesias que pretendem ser concelhos, não por aqueles critérios por via dos quais se poderia reconhecer legitimidade na pretensão, mas por estritos e declarados critérios do mais abjecto egoísmo localista - egoismo esse que por regra esconde interesses não declarados e recalcamentos jamais recicláveis para papel comum. Na Madeira, basta eleger Jardim para haver regionalização que mais não é do que o localismo do tamanho de uma ilha. Mas esse passe de mágica, no Algarve, é um trato à imaginação e não passa de peça de circo.

Carlos Albino

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

SMS 91. E aí temos as listas…

3 Fevereiro 2005

De modo geral. Ou pelo inesperado, ou pela pressa ou ainda por esse critério peregrino das quotas (a única quota deveria ser a da competência e a da coerência, independentemente do género), as listas são de modo geral fracas e, pontualmente, até há nomes absurdos, o que numa Democracia que já devia ser adulta e madura é inaceitável. Há os falas-barato, há os empregados políticos de carreira, há os desligados da Província com reputados demagogos pelo meio, e há também os espíritos de vingança. Mais do que nunca, Lisboa olha para o Algarve como se a Província estivesse condenada a ser a nova Costa da Caparica da capital e, por dois meses, vá lá, um salão de estética a céu aberto para bronzeamento dos genuínos e únicos portugueses que como se sabe nasceram praticamente todos no Norte, a acreditar no que dizem todo o ano e a gente lê, ouve, até aceita e acolhe. Admito que a explicação para isto tenha sido o inesperado, a pressa e as quotas. Admito também que isto foi possível porque para quem sabe que vai ganhar conta mais com o demérito de quem vai perder do que com a exigência do mérito a si próprio, e para os quem sabem que vão perder conta mais os lugares seguramente elegíveis do que a própria Província.

Carlos Albino

quinta-feira, 27 de janeiro de 2005

SMS 90. Ora vejam bem...

27 Janeiro 2005

Fica-se a saber que o Estado Português se empenha, de corpo e alma, na candidatura de Coimbra a Cidade Anfitriã para a Europa em 2005. Coimbra que já foi, e muito bem, a Capital Nacional da Cultura em 2003, agora é a proa de mais uma promoção no âmbito da Organização Mundial de Turismo.

Com tudo o que temos vindo a assistir, a saber e a adivinhar, sejamos claros: o Algarve não conta. Não vale a pena andarem por aí a tapar o sol com uma peneira, a prometerem isto e aquilo. Não conta.

Possivelmente resta ao Algarve explorar uma grande parceria com a Andaluzia. Quando a solidariedade dentro das fronteiras não é cultivada, não há outra alternativa que não seja a solidariedade e a cooperação transfronteiriça. E em todos os capítulos.

Carlos Albino

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

SMS 89. Mas que mal, o Algarve fez à China e a Sampaio?

20 Janeiro 2005

Fora dessa espectacular comitiva. Mais de uma centena de empresários e representantes de organizações que configuram interesses económicos de relevo, nomeadamente na área do turismo, acompanharam Jorge Sampaio à China mas o Algarve ficou, mais uma vez, de fora. Naturalmente, seria de esperar que, ao menos, a RTA fosse incluída para pôr um pé nesse promissor mercado turístico. Mas nem a RTA, nem sequer, enfim, alguma das associações empresariais da região teve lugar ao menos na cauda do avião presidencial.


Razões? De acordo com as operadoras que actuam no gigante asiático, os chineses preferem visitar lugares exóticos e com natureza exuberante, dispensando o turismo do tipo sol e mar. Nestes termos, possivelmente para os critérios de selecção da comitiva de Sampaio, o Algarve em muito pouco faria comover os chineses, visando a formatação de pacotes turísticos. Ora nada mais errado do que reduzir o Algarve a sol e mar, como decorre da insuportável visão colonial britânica do nosso turismo. Três exemplos: a inigualável Ria Formosa, o ímpar Promontório de Sagres e o périplo das cidades históricas algarvias (à evidência, primado para Silves e Tavira) têm todos os elementos para cativar e agradar a um milhão de chineses...

E não menosprezemos. Pelas estimativas da Organização Mundial do Turismo (OMT), no ano passado foram cerca de 22 milhões de turistas chineses a circular pelo mundo contra 17 milhões no ano anterior, calculando-se que, em 2020, a China se torne no quarto maior emissor de turistas no ranking mundial com 100 milhões de chineses viajando pelo mundo. Ainda de acordo com a OMT, 50 % dos chineses que viajam pelo mundo estão na faixa etária entre 25 e 45 anos. O turista chinês gasta por dia, em média, 107 dólares durante as viagens internacionais e, somente em souvenirs, esses viajantes gastam, num pacote de uma semana em país estrangeiro, cerca de mil dólares. A OMT aponta algumas razões para que os altos gastos dos chineses em viagens internacionais, designadamente, o gosto dos chineses pela compra de presentes e o hábito de fazer a junção entre viagens de lazer e de negócios.

Sampaio fez bem em levar os homens que andam a provar a navegabilidade do Douro para cima e do Douro para baixo com um cálice de Porto de comporta em comporta, com certeza que fez bem Mas esquecer assim o Algarve foi péssimo, péssimo e péssimo.

Carlos Albino

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

SMS 88. Prémio SMS de Jornalismo: Idálio Revez

13 Janeiro 2005

Enquanto houver saúde e o sol der lugar à lua para este vosso modesto escriba, o Dia de Reis será dedicado, todos os anos, a uma reflexão muito especial: a atribuição do Prémio SMS de Jornalismo. E foi o que aconteceu no passado dia consagrado aos Magos. É verdade que tal prémio não tem regulamento nem pode ter e dispensa júri, como também não haverá espectáculo com meninas descascadas para entrega de troféu, nem envelope com uns tantos euros a sair das mãos do governador civil sob o aplauso de uma plateia que a 90 por cento não lerá jornais. Mas também é verdade que este mesmo prémio é uma distinção – nada mais que distinção pura e tão imaterial como o ouro puro, tão proba como prata certificada e tão talhada para a memória como o bronze das estátuas que evocam gente querida.

Portanto, meus senhores e minhas senhoras, vamos ao anúncio: «O Prémio SMS de Jornalismo 2004, foi este atribuído ao jornalista Idálio Revez, do diário Público».

Prosa serena, atenta, crítica e por vezes com uma pitada de ironia como é próprio dos homens de Querença; informação sobre o Algarve, ao longo de 2004, sem deslizes, sem subserviências e sem sobrancerias, coisa que é difícil manter em Faro; e não muito mas de vez em quando, com posições corajosas que resultam mais da doutrina dos factos do que de impulsos pessoais.

Um abraço para o premiado. No Dia de Reis de 2006, outro premiado se seguirá ao jornalista Idálio Revez. Se o sol for dando lugar à lua.

Carlos Albino

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

SMS 87. Música, escaiola e chaminés!

6 Janeiro 2005

Este novo ano de 2005 começa bem por três bons motivos, tenham Mendes Bota 1) e João Cravinho 2) santa paciência…

Primeiro, a Orquestra do Algarve. Já se vai tornando num hábito imprescindível, o concerto de Ano Novo da Orquestra do Algarve – com inteira propriedade deveria já passar a designar-se por Orquestra Metropolitana do Algarve, que o Prof. João Guerreiro pense nisso porque pensará bem… E quem fala da Orquestra é o mesmo que falar do maestro Álvaro Cassuto e dos 31 músicos que, em conjunto, formam uma daquelas poucas coisas que, no Algarve, fazem a terra tocar nos céus. Ouvi-os em Loulé, a meio da tarde, como os podia ter ouvido à noite em Olhão, mas tinha que os ouvir. Desta vez foi Mozart, foi Barber, foi a magnífica interpretação do concerto para dois fagotes de Vanhal (levantei-me para os aplaudir) e no final a N.º 2 de Beethoven. Obrigado Álvaro Cassuto, muito obrigado!

Segundo, a Embaixada da Arte Poética. O poeta Nuno Júdice inaugurou a sua bela casa herdada de avós, na Mexilhoeira Grande, cheia de suaves escaiolas. A passagem do ano foi aí, o poeta leu sonetos inéditos, tão recentes e tão belos que 2005 entrou como um gole do melhor vinho e como o sabor da única verdade, naquela mesa melhor que a do protocolo de Estado. Pois essa casa está baptizada: é a Embaixada da Arte Poética. Há uns bons meses, tinha ido lá pouco antes da casa entrar em obras de restauro – do chão até meia altura, as escaiolas estavam numa lástima e duvidei que alguém, hoje em dia no Algarve, ali refizesse coisa próxima do original. E não é que há? O mestre escaiolador José Grilo chegou, trabalhou e fez obra. Obrigado José Grilo que não conheço mas ainda bem que conserva uma arte que faz às paredes o mesmo que a poesia faz ao que os dedos da alma sentem: suavidade e imposição a que o pensamento tenha tacto. Muito obrigado!

Terceiro, o esplendor das Chaminés. Sim, as chaminés. São as chaminés que abrem Loulé como a capital da cultura, ironia do destino e sarcasmo da presunção porque água benta cada um toma a que quer… Uma exposição das chaminés de Eduardo dos Santos, em barro fino, chaminés a rigor, ao todo 28. Eduardo dos Santos deixou o número dos vivos em 1990, mas deixou obra de oleiro. Perante os 50 mil historiadores e 17 mil mestres de história que o Algarve tem em anexo, asseguro a minha firme convicção sobre a origem romana das nossas chaminés que nada têm de árabe. Convido os leitores destas modestas mensagens semanais a irem até Loulé. Vejam, meus senhores e minhas senhoras, como o magnífico espectáculo das chaminés algarvias autênticas nada tem a ver com as pepineiras de Leiria vendidas na 125. Uma chaminé algarvia autêntica e esplendora está para o esplendor da música de Álvaro Cassuto assim como a pepineira moldada de Leiria está para a festa das chouriças de Querença!
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1) Oh Mendes Bota! Os líderes partidários têm tribuna própria que chegue - mais do que isso, só na Madeira é que se vê… Já lá dizia o duque de Lévis que se fosses grande, não precisarias de andas.

2) Não era caso de a cidadania algarvia lhe ter despertado mais cedo, tal como a Mariano Gago e possivelmente até a Guilherme de Oliveira Martins? Como o Algarve lhes teria ficado agradecido!


Carlos Albino

quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

SMS 86. Como ganha o Algarve?

30 Dezembro 2004

Naturalmente que ganha. Eleições legislativas inesperadas ou talvez mais do que esperadas - lembram-se de Santana Lopes comovido a contemplar as cinzas do alto do Caldeirão como se a área de calamidade pública fosse apenas ele próprio e a sombra do corpo, mais nada? – estão à porta. Portanto, listas de deputados, propaganda política, palavreado, provavelmente muita demagogia de todos os lados, inverdades, mentiras misturadas com juízos certos, enfim, a algazarra dos que tentam um lugar em S. Bento e as mordomias próprias de representante que, por regra e pelo que se tem visto, pouco ou nada mais representam do que a si próprios e a sombra do corpo porque na verdade só temos visto deputados subservientes perante os directórios dos partidos – quem não for subserviente é castigado… Sem dúvida que o PS tem que renovar a cara, os ombros, os sovacos, a cintura, as coxas, os tornozelos e afastar os galifões, os mesureiros e todo o sindicato de oportunistas que lhe têm manchado a alma; o PSD tem que abandonar essa regra desastrosa de nos presentear provincianos ambiciosos, néscios com mestrado e também mestres no jogo da bisca política, e o PCP algum dia terá de compreender que não pode continuar como espécie de seita religiosa, género da dos adventistas do sétimo dia, uma vez que os do resto não passam de uns brincalhões, alguns por acaso perversos como nos piores versos dos corridinhos de Moncarapacho. O Algarve ganha se os partidos nos apresentarem candidatos a… Deputados Algarvios – inteligentes do Algarve, serenos do Algarve, coerentes do Algarve e honestos do Algarve. Sobretudo honestos, sérios e eticamente reconhecidos no Algarve.

Carlos Albino

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

SMS 85. Golpe de asa

23 Dezembro 2004

Prenda muito simples. Falta a este Algarve, gente com golpe de asa. É claro que falo dos partidos, das respectivas lideranças e dos círculos que têm o poder nas mãos por força do voto. E o não se possuir golpe de asa, é falha que não se disfarça com megalomanias e muito menos com uns artigozitos nos jornais ou com entrevistas saloias e cheias de chavões para os netinhos se recordarem da grande figura que foi o avô que muito tempo será o pai do pai. O golpe de asa supõe a capacidade de traçar um desígnio, uma ideia de futuro, um projecto salvador e que galvanize a alma dos Algarvios - já tenho falado disto. Os políticos infelizmente transformaram a intervenção pública numa espécie de emprego a que, para maior infelicidade, não corresponde uma profissão pelo que «vivem» e «sobrevivem» da política e se não fosse a política nem a Caixa Geral dos Depósitos os admitiria como paquetes. O povo sente isto e não disfarça a desmobilização, o desânimo e a descrença porque já teve tempo para perceber o jogo de interesses que se esconde atrás dos que nos palanques da política se apresentam como imprescindíveis. Pois neste Natal de 2004, bem gostaria que no sapatinho dos Algarvios fosse colocada uma prenda muito simples - o golpe de asa que é a coisa que mais nos falta.

Carlos Albino

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

SMS 84. Uma Avenida Metropolitana para todo o Algarve…

16 Dezembro 2004.

Boa ideia, a que ouvi de Horácio Neves, o editor e director da Brasilturis (para quem não sabe, a maior publicação de turismo do Brasil). Estávamos a evocar José Barão e eis que ele salta com a proposta de se transformar a Estrada 125 que atravessa a Província Algarvia, numa avenida – precisamente a Avenida Metropolitana do Algarve. Na verdade, em muitos pontos, a 125 e derivados (os apêndices da 125 vão de 1 a 9) já não é mais nem menos do que ruas de comércio, trabalho e residência, movimentadas ruas às quais é crime chamar estrada. A ideia de Horácio Neves vem a matar e julgo que é uma daquelas ideias galvanizadoras, um projecto integrador de que o Algarve precisa como de pão para a boca e pelo qual vale a pena terçar armas. Os Municípios envolvidos – 12 dos 16 que integram a Área Metropolitana – se quiserem, podem concretizar a ideia não porque essa avenida venha a ser a maior da Europa mas porque retiraria o Algarve do beco onde possivelmente já está ou para onde caminha se não houver uma ideia salvadora. A transformação da 125 em Avenida pode ser um daqueles desígnios muito mais significativos do que D. Afonso III ter conquistado castelos aos mouros… Portanto, Macário Correia deve anotar isto na agenda. Deixemo-nos disso que caiu em folclorada do «Não às Portagens» e tratemos é desta boa ideia que, por tão boa, é a melhor resposta ao ministro António Mexia e ao senhor que se segue que não deve ser muito diferente do que o antecedeu. Está nas nossas mãos.

Carlos Albino

quinta-feira, 9 de dezembro de 2004

SMS 83. Aceita-se propostas

9 Dezembro 2004

Como tenho, felizmente, muitos amigos – apenas não consigo fazer amizade com escrápulas além de nada me custar perder amizades antigas quando o oportunismo e a corrupção sujam as mãos e a alma desses poucos sujeitos – gostaria, por este Natal, de fazer ofertas a nada menos nada mais que 1600 desses amigos. E que ofertas? Precisamente um vivenda clandestina a cada um. Exactamente – uma vivenda clandestina para que não gaste um cêntimo e, além disso, localizada no cordão dunar da Ria Formosa. Outro local não serve para a dignidade da oferta e se a vivenda não for clandestina já sei que nenhum dos 1600 prezados e estimados me agradece. E porque, após ter percorrido a Ria Formosa, não encontrei uma única vivenda clandestina, recorro à colaboração pública para adoçar o Natal dos meus amigos. Assim, se alguém seja quem for, me indicar uma vivenda clandestina nessa área protegida onde foi construído o Aeroporto Internacional como exemplo e modelo de política ambiental, por favor digam-me. Preciso de 1600 vivendas clandestinas e quanto ao aeroporto, mesmo que seja para oferta, não aceito. O impacte de cada avião na aterragem sobre aquele sapal, causa mais prejuízo do que 1600 casas clandestinas... Esta é outra história.

Carlos Albino

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

SMS 82. Até Cavaco Silva!

2 dezembro 2004

Inesperadamente ou – quem sabe! – por conveniência do seu calendário político pessoal, Cavaco Silva acabou de pôr o dedo na ferida da vida nacional. A ferida é já uma chaga cujas pústulas podem ser observadas em todos os cantos do País, não sendo o Algarve excepção. Na política, o debate que apenas episodicamente teve nível, degradou-se e está nas mãos de uns quantos foliões. Na justiça, a lei é manipulada como um catavento. Na saúde, ó o que se sabe. Nas Universidades, brinca-se aos mestrados e aos doutoramentos. Na cultura, é a desfaçatez pimba. Por aí fora. Não há ditadura em Portugal, mas há uma democracia cheia de títeres, uns grandes outros pequenos, mas títeres que fazem alastrar a chaga. A negociata e a caça ao subsídio está atrás de tudo. Cavaco Silva foi inesperadamente corajoso, frontal e sem meias palavras. Foi algarvio.

Carlos Albino

quinta-feira, 25 de novembro de 2004

SMS 81. Duas coisas para registo

25 Novembro 2004

1. Pugna. A primeira coisa que pode e deve ficar registada foi dita por Mendes Bota, agora de regresso à liderança do PSD/Algarve: «Queremos obter, finalmente, uma eleição directa por sufrágio universal para a Junta Metropolitana do Algarve. Esse é um objectivo político: mudar a legislação, para que dentro de poucos anos seja possível eleger o presidente da região do Algarve». Apesar de Mendes Bota reduzir a Regionalização a essa eventual eleição directa – como se a regionalização fosse apenas um sufrágio festivo, o que será o mesmo que exigir a uma banda filarmónica que seja orquestra sinfónica – essa promessa de pugna do regressado líder social-democrata é para registar. Daqui a algum tempo valerá a pena recordar…

2. Jamila. A segunda coisa para registo, enfim, é proveniente da eurodeputada do PS, Jamila Madeira que sugeriu e pelos vistos convenceu a Comissão do Desenvolvimento Regional do Parlamento Europeu – 51 elementos do PE presididos pelo espanhol Gerardo Quecedo, portanto com direito a festa especial em Vilamoura – para uma reunião no Algarve, até lá para Março. Muito provavelmente os eurodeputados terão tempo escasso para se comoverem com o facto dos critérios estatísticos virem a sacrificar o Algarve em matéria de apoios da EU (pelas estatísticas os Algarvios estão ricos!), certamente ficarão comovidos com o estado em que ficou a Serra do Caldeirão, reconhecerão por certo que a água escasseia, e maravilhados ficarão com os colonatos turísticos da beira-mar e pelas falésias fora. Mas é bom que os eurodeputados desçam à terra e que por ora se registe a intenção. Pouco antes de chegarem, diremos o bom e o bonito.

Carlos Albino

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

SMS 80. Pensar já no Presépio talvez seja o melhor...

18 Novembro 2004

Enquanto os estados-maiores dos partidos pensam nas listas para as autárquicas que onde se vende mais gato por lebre, eu prefiro começar a pensar já na construção do presépio doméstico de 2005. Como sempre, uso as belas pedras exóticas da Tôr guardadas de um ano para o outro, as delicadas figuras de barro artesanais, engendro umas coisas com água, lá vou buscar o moinho algarvio, o castelo sem dúvida muito menos parolo do que o de Paderne, uma azenha simulacro da que que já existiu na Goncinha – tudo a valer e mexer, caminhos de areia, enfim, o sonho, o mito e a procura de conforto íntimo que tanto mais conforto será se houver partilha com queira ver. Tudo para desarmar depois, é certo, mas vale a pena. Portanto, enquanto o PS parece que quer repetir o pior dos tempos que precederam o tempo desse frustrante Guterres e enquanto do PSD chegam sinais de que poderá ser reposta uma das piores cenas que Cavaco percebeu possivelmente melhor do que ninguém, por estas semanas, até Natal, vou pensar no Presépio. A preceito. Convido os leitores a fazerem presépios também a preceito. Talvez seja melhor pensarmos no Menino do que nas velhas ratas sábias de sempre.

Carlos Albino

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

SMS 79. Antígona para cabeça de lista

11 Novembro 2004

Slogan da campanha. Grande noite a que tive em Faro, no Teatro Lethes. Descontados alguns pormenores por certo corrigíveis, a Antígona encenada por Luís Vicente tem o meu voto: escolho-a para cabeça de lista. Em boa hora, o grupo de teatro ACTA que, para fazer isso mesmo – Teatro –, tem sido um grupo de heróis lutando contra a falta de meios, a falta de instalações e a falta de apoios firmes e decididos (têm-se visto gregos…), propõe aos Algarvios este monumento do pensamento político, construído por Sófocles há 26 séculos mas porque é mito – um dos mitos mais inquietantes que a Humanidade já produziu até hoje – está actual. A discussão entre Creonte e o seu filho Hémon é um diamante de arte política que apenas o teatro pode encastoar precisamente no ouro do mito. «Haverá muralha que proteja a cidade do perigo que dentro dela se engendra?» é a pergunta que o Corifeu dirige a Creonte mas que a Antígona, quer se candidate contra os Crente locais em Olhão, Loulé, Portimão, Silves ou São Brás e em Vila do Bispo, pode converter em slogan da sua campanha, mas que também pode usar com eficácia caso concorra em Faro, Albufeira, Tavira ou Lagos e mesmo em Aljezur ou ainda em Alcoutim, por aí fora, onde também não faltam Creontes mais ou menos disfarçados. Vejam a peça, vejam como a aparentemente frágil Joana Sá se agiganta no papel e assume a denúncia da morte que se pratica onde a morte não se vê – foi o que lhe disse no final da peça, a seco. E aplaudam Luís Vicente que, em Faro, está para o Teatro como o maestro Álvaro Cassuto está para a Música. Oxalá que os deixem fazer escola, gerar excelência, fomentar paixão. Gostaria de ver filas enormes de gente a comprar bilhetes para a Antígona, para indagar com inquietação a diferença entre um crime santo e uma piedade ímpia – que é o que está em questão na peça de Sófocles.

Carlos Albino

sexta-feira, 5 de novembro de 2004

SMS 78. Que haja bom senso em Faro e arredores

4 Novembro 2004

Realismo. Faro não tem já condições para durante o ano de 2005 ser uma Capital Nacional da Cultura, tal como inicialmente o projecto foi delineado e politicamente decidido, após a experiência de Coimbra. A avaliar pelo que veio a lume, o novo presidente da Comissão Organizadora, Rosa Mendes, não tem nada nas mãos com fôlego, com princípio, meio e fim – pelas suas palavras, não tem alinhamento. E do anterior presidente, António Lamas, não se sabe o que ficou feito em cinco meses, tempo que já era pouco para uma cidade que, contrariamente a Coimbra, pouco tem ou nada mesmo tem, não por culpa própria mas pelo desprezo secular que o poder central tem soberanamente destinado a todo o Algarve – aliás, com o que, por exemplo, fez e continua a fazer em Sagres apenas tem anavalhado a Cultura. É verdade que a ministra Maria João Bustorff anunciou em Setembro passado que a programação de Faro irá ser apresentada no Carnaval de 2005 e que os «acontecimentos» começarão na Páscoa incidindo em cheio no Verão… Mas para comparar, também é verdade que Coimbra como «capital da cultura» em 2003 se apresentou logo em Outubro de 2002. E é Coimbra! Haja bom senso, decoro e elevação de espírito – Faro deveria desistir do projecto de Capital, substituindo-o com realismo por coisa mais adequada, com designação mais abonatória e à escala – uma Festa da Cultura, o que já não seria mau, para não dizer engenhoso. Rosa Mendes pode obviamente organizar uma boa festa, mas não tem condições para organizar uma capital cultural do País. Com realismo, Rosa Mendes poderá fazer apenas uma boa festa cultural.


Sim, é humilhante. Porque Faro, como Capital Nacional da Cultura acabou. Por dois motivos. Em primeiro lugar porque não conseguiu congregar os espíritos e convocar os pesos-pesados da Cultura Nacional implicados de alguma forma com o Algarve e com a meridionalidade. E depois porque o mundo da Cultura a sério quando desconfia que as misérias de organização se apelintram na Política e nos interesses ou jogos da Política, por regra não querem casamentos com o Espectáculo artificialmente imposto ou com uma agenda salvadora de espectáculos que é o recurso da cultura off shore. E essa história de remeter Faro para os rápidos meses de Verão, para a animação turística e para inglês ver, é humilhante. Faro e o Algarve mereciam, merecem e merecerão mais. Sabemos como Faro e o Algarve poderiam afirmar-se culturalmente e agigantar-se sem favores e com excelência. Assim, não. É humilhante admitir-se que o Ano Cultural de Faro tenha apenas dois meses e meio, e que, pelos vistos, face à escassez de indígenas mesmo esses dois meses e meio tenham que ser pensados em função do «mercado turístico», da «animação turística» e das camas. Naturalmente que o Turismo deveria ser uma componente da Capital Nacional da Cultura e não uma finalidade, porque o Turismo não é um colégio, é um recreio onde qualquer brincadeira tem que dar lucro. Que haja bom senso em Faro e arredores. No ridículo já se caiu ao confundir-se espavento com Cultura. Se tivessem feito a Coimbra o que fizeram e fazem a Faro, tenho a certeza que aquela gente teria a coragem de dizer, alto e bom som, o que em Faro cala e consente. É demais!

Rectificação: Na SMS da semana passada, não foi lapso que é sempre a desculpa de mau pagador, mas um engano – trocámos o nome do maestro Armando Tavares Belo pelo do maestro Ivo Cruz. Claro que era mesmo Tavares Belo! Que saudades dele temos.

Carlos Albino

quinta-feira, 28 de outubro de 2004

SMS 77. Portanto, aí teremos… a Feira de Faro

28 Outubro 2004



Jerónimo Osório. Faro tinha a obrigação de, como capital nacional da cultura em 2005, ir buscar à profundeza do passado essa figura que foi das mais eminentes do Humanismo europeu, D. Jerónimo Osório, organizando tudo o que tinha para organizar com projecção internacional altamente assegurada. Aliás apenas se veria D. Jerónimo Osório como a figura de «marca» da capital da cultura. Já não há tempo para comprometer a rede de ensaistas e estudiosos no assunto.

Samuel Gacon. E teria a obrigação de, sem favor, reclamar a vanguarda da tipografia em Portugal, evocar Samuel Gacon que da sua oficina (1487) fez sair o mais antigo incunábulo português, o Pentateuco recolhido no British Museum de Londres. Faro já não tem tempo para programar um conjunto de acções adequadas: a vinda do livro para exposição de contexto, uma relação da ousadia de Gacon com a de Gutenberg e, nesse sentido, uma geminação activa e culturalmente estratégica com Estrasburgo, além da instituição de um Prémio Internacional de Tipografia – tipografia essa que não morreu, evoluiu. Faro não tem tempo e possivelmente nunca teve vontade.

Os 3000 livros de Oxford roubados a Faro. Teria a obrigação de organizar uma grande exposição sobre a Biblioteca do Bispado do Algarve, promovendo o retorno temporário dos 3.000 livros roubados pelo conde de Essex (1596) e que formam hoje um das cinco grande bibliotecas históricas do Reino Unido, a chamada Biblioteca Bodleiana de Oxford produto da pilhagem. Não tempo.

Tavares Belo. Teria a obrigação de promover a audição da obra musical do maestro Armando Tavares Belo. Além disso a estreia da ópera inédita com base na peça teatral Sabina Freire, de Teixeira Gomes, continua clamorosamente adiada ou esquecida – diz quem sabe que é uma magnífica... E nesse pretexto, instituir um concurso internacional de inéditos com o nome desse grande maestro e compositor. Exactamente: Tavares Belo. Não tem tempo.

Pintores. Teria obrigação de dar ancoragem internacional definitiva aos pintores da meridionalidade, muito para além das exposições. Não lhe faltariam os grande nomes da pintura - por exemplo a grande pintora farense contemporânea Luzia Lage (obra reproduzida ao lado). Não tem tempo.

Andaluzia e Marrocos. Teria a obrigação de reconstituir as rotas culturais e económicas com a Andaluzia e com Marrocos. Exactamente com uns ciclos Algarve/Andaluzia e Algarve/Marrocos. Não falo da vinda de uns ciganos de Sevilha e de umas folcloradas de Casablanca. Falo de coisa mais profunda. Mas não tem tempo.

Algarviana. Teria a obrigação de promover a recuperação da Algarviana de Mário Lyster Franco, a biblioteca desse bom e cultíssimo homem, estantes que eu conheci palmo a palmo quando era enorme mas que não sei onde está… Aliás, sei mas completamente desfalcada. Não tem tempo.

Universidades, escolas e grupos de pesquisa. Teria a obrigação de chamar à colaboração activa a malha universitária algarvia e das associações de pesquisa que em conjunto e trabalhando em conjunto surgiriam como motor espantoso e possivelmente surpreendente, nos domínios científico, tecnológico e cultural. Não tempo, obviamente.

Teatro com letra grande. Teria obrigação de pensar a sério no Teatro com letra grande. Não tempo para encomendar peças aos escritores algarvios ou sintonizados de projecção internacional e que são bastantes para não dizer suficientes. Não tem tempo para organizar um Festival Internacional de Teatro do Mediterrâneo-Atlântico.

Poetas capitais. Teria a obrigação de chamar à casa os grandes poetas de hoje e que são… capitais – Gastão Cruz, claro. Mas se Faro comprovadamente não quis dar tempo na sua agenda política ao plano de Casimiro de Brito que não passou de um primeiro Encontro Internacional de Poesia por atavismo dos políticos, também não é agora que terá tempo.

Ossónoba. Teria, Faro, a obrigação de promover um grande acontecimento sobre o nome que consta no seu verdadeiro bilhete de identidade e que é Ossónoba e com issoteria a obrigação de recuperar o bilhete de identidade do próprio Algarve que é remotamente fenício mas muito mais grego e romano que árabe. Não tem tempo.

Música e não cantigas. Faro teria a obrigação de pensar a sério na Música, também com letra grande. Aí sim, um Festival das Orquestras do Mediterrâneo, deixemo-nos de cantigas. E tem Álvaro Cassuto à mão! Poderia e deveria entregar a chave de ouro da cidade à Orquestra do Algarve. Não tem tempo.

Assis Esperança. Teria Faro, sobretudo, a obrigação de lembrar Assis Esperança e entrar pelo campo que a cultura tem de mais nobre – o romance. Fazer alguma coisa de fôlego nessa área nobre. Não me refiro a palestras, sessões de incensar e oportunismos do costume. Não tem tempo.

448 coisas mais. Alinhados estão apenas 13 mandamentos mínimos para que Faro não perdesse a ocasião de se agigantar culturalmente, mas é óbvio que a «capital da cultura» teria a obrigação de fazer outras 448 coisas mais sem que ficassem prejudicados os cantores amigos de Lena d’Água, os acordeões, os fados da Alexandra, muita gastronomia para regurgitar, repuxos novos e 17 rotundas com palmeiras e oliveiras com holofotes e - porque não? – uma horta de celebridades.

Provincianismo, doença incurável. Mas a dois meses de ser capital nacional da cultura e sem nada, rigorosamente nada preparado a não ser agenda de espectáculos, Faro será uma sorvedouro de verbas e quanto mais verba mais espectáculo. Dizem-me que as pessoas, o que querem é espectáculos. Sem dúvida que o provincianismo é uma doença incurável, prolongada e que se disfarça com verbas. Quanto mais verba, melhor se disfarça.

Carlos Albino