quinta-feira, 2 de março de 2017

SMS 705. O Papa Francisco

2 março 2017

Acabados que estão os carnavais, conhecidos os Óscares, já mais ou menos feitas as listas para as autárquicas, e sabendo-se que problemas e escândalos nacionais entram na rota tradicional do empate nebuloso, parece que há uma aberta para se reconhecer, neste mundo, uma autoridade moral de que tanto está carenciado: o Papa Francisco. Uma das suas últimas afirmações que abanou muitas consciências, foi precisamente a de que “mais vale ser ateu do que católico hipócrita”. Naturalmente que junto daqueles católicos que pensam não haver católicos hipócritas, apenas porque julgam que o ser-se católico é uma vacina contra a hipocrisia, a frase do Papa caiu mal. Mas porque a mesma frase inversa, também é válida para os ateus, porquanto não se pode deixar de admitir que “mais vale ser católico do que ateu hipócrita”, essa frase também caiu mal junto de alguns ateus e mesmo agnósticos que pensam que o seu agnosticismo e o seu ateísmo são idênticas vacinas contra a trapalhice ou que os tornam imunes na subversão ou perversão dos valores do humanismo. Independentemente do somatório de uns com outros, o certo é que o Papa fez acordar católicos, ateus e agnósticos com a consciência de que o cultivo dos valores que viabilizam a Humanidade para o progresso em paz e para a paz em progresso, na busca do consenso e na pauta da tolerância, que tal cultivo se torna impossível com a hipocrisia e na hipocrisia.

Não é preciso dar muitas voltas para se definir hipocrisia, os dicionários, nisso, são unânimes: é o fingir sentimentos, crenças e virtudes, que na realidade não se possui. O termo começou, do latim e do grego, a significar a representação dos atores que, em teatro, usavam máscaras de acordo com o papel que representavam numa peça, e, hoje, em todas as línguas, para os atores com que nos cruzamos no dia-a-dia e que muitas vezes o influenciam e determinam, continua a ser isso: o hipócrita é alguém que oculta a realidade através de uma máscara de aparência, finge comportamentos, falseia possuir boas qualidades para ocultar defeitos de carácter e de personalidade, e por isso o hipócrita é conhecido como uma pessoa dissimulada. O hipócrita invoca valores que não segue, e, usando a máscara, engana e julga nunca se enganar.

Que me recorde, assim a falar tão claro, apenas notei a voz de João XXIII que por isso entrou na reduzida galeria das autoridades morais do mundo. Agora, temos nessa mesma galeria, com coragem redobrada, o Papa Francisco. Crentes e não-crentes mas que estejam alinhados na defesa de um Humanismo que tenha o fio condutor da tolerância, do consenso, da procura da verdade sem concessões para o livre arbítrio, para a discriminação e para o enriquecimento sem justa causa, todos esses que rejeitam usar máscaras nas relações humanas em todos os campos – da Política à Cultura, da Economia e Finanças à Ciência, todos esses que, juntos, são muito mais que os hipócritas, estão naturalmente com o Papa Francisco, e reconhecem a sua autoridade moral ao abdicar das vestes de príncipe.

Sabe-se que, nesse exercício de abdicação das vestes douradas, o Papa Francisco gosta das periferias, de se deslocar às periferias, de sentir de perto as periferias sem máscaras. Sendo o Algarve periferia do País, periferia da Península e vizinho da periferia norte-africana, seria sonhar alto pensar que o Papa Francisco, algum dia, venha ao Algarve. Mas, se pensar, venha que será bem-vindo e será recebido sem hipocrisia. Duvido que esta SMS lá chegue, mas ninguém se incomodará que divulgue.

Carlos Albino
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Flagrante drone: Lembrou-se, e bem, a Universidade do Algarve de colocar um drone a voar pelo Campus de Gambelas, para mostrar como a tecnologia já pode estar ao serviço da agricultura, num “Dia Aberto” da UALG, que atraiu dois milhares de jovens. Isto pede 365 Dias Abertos e não apenas um.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

SMS 704. Governo neste teste, desnecessariamente

23 fevereiro 2017

Um Governo, como é óbvio em democracia e sendo condição desta, está em permanente teste. Mas há sinal de que as coisas derrapam quando é o Governo a testar os testadores. E. depois da devastação causada por erros e omissões do anterior governo, mau sinal é quando o poder central se presta a fazer testes à paciência designadamente dos seus apoiantes declarados e afins. No Algarve, depois de meses com promessas de redução em 50 por cento das portagens da Via do Infante, eis que a região sofreu o maior aumento dessas taxas; depois da chuva de críticas quanto à política cultural que reduziu a política a zero e a cultura a 45 graus negativos, eis que se volta a confundir cultura com animação, adiando a esperança numa Política Cultural numa região onde, pelas suas características e contributos, mais que em nenhuma outra, esta mesma política devia ser o instrumento prioritário; com a descentralização de competências altamente sensíveis do Estado para os municípios, em vez de se atender às características de área metropolitana que a região tem e deveria potenciar (defendemos isto, aqui, há anos), insiste-se no reforço dos quintais, cada qual a transformar-se em cómico “terreiro do paço” insuportável e asfixiante, quer em burocracia quer em competência, ouvindo-se um ou outro administrante e, pelo que consta, nenhum administrado. Etc.. Mas antes deste etc. terminar, chegamos ao petróleo, e eis que, sem a disponibilização de explicação coerente, fundamentada e esclarecedora, decide-se de surpresa furar ao largo de Aljezur depois de uma consulta pública que, à cabeça, requeria tal explicação. 

Isto, depois da Alemanha estabelecer 2030 como o fim dos automóveis tal como os conhecemos hoje, parece uma aposta serôdia nos combustíveis fósseis, e a coincidir com o objetivo traçado pelo governo da Noruega em antecipar decisão idêntica de acabar com a compra e venda de automóveis a diesel e a gasolina a partir já de 2025. A Noruega é produtora de petróleo (40 % do PIB) mas parece ter chegado a conclusões bastantes com a crise que o setor atravessou entre 2014 e 2016 pela queda abissal do preço do crude, conclusões somadas aos objetivos dos Acordos de Paris para a redução das emissões em 40 % até 2030. Quando já se entra na era pós-petróleo, Portugal fura Aljezur, como se o destino de Aljezur fosse o de um tubo de escape, sem se saber bem por que causa, com que fundamento e para que teste.

Não se trata aqui de dissertar sobre petróleo, mas sim sobre fundamentos da decisão, quais as bases de coerência e para que servem os procedimentos que a antecedem ou que a devem anteceder, designadamente uma consulta pública que não seja verbo de encher ou entretenimento da opinião. Que estudos há? Quais as garantias de segurança? Quais as vantagens e desvantagens do petróleo e do não-petróleo? Quais os impactos? A estas perguntas, quem decide não respondeu com suficiência, com coerência e com clareza. E quanto aos geólogos em serviço, é oportuno dizer que o geólogo é aquele que calcula bem o epicentro depois disso acontecer. Antes disso, anda à tangente.

Carlos Albino
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Flagrante efeito de boomerang: Em defesa da dita descentralização, dizem alguns autarcas que “são escrutinados” mais do que ninguém. Num Algarve, com o grave e iniludível problema de comunicação que tem (sem televisão, sem rádio e sem jornais com meios de produção próprios e atempados), esses autarcas têm inteira razão - são escrutinados pelos departamentos de comunicação e imagem das câmaras que dirigem. E ai de quem escrutina fora disso.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

SMS 703. Soube a muito pouco, a quase nada

16 fevereiro 2017

O Algarve possivelmente é isso mesmo: uma máquina de apagar, um botão Delete no teclado sul do País, um fármaco para esquecer. Refiro-me aos 750 anos de Algarve como parte do celebrado estado-nação que hoje mesmo, dia 16 de fevereiro, se completam e que deveria ser evocada como símbolo de identidade, como sinal indelével da história da região. Sabemos que a Universidade do Algarve respondeu e promove uma sessão, sabemos que uma jovem editora - Sul, Sol e Sal, se associou à passada de Gambelas, sabemos também que este Jornal do Algarve abriu portas a uma parceria pontual com essa mesma editora, e sabemos também que o corpo consular acreditado no Algarve comemora os 750 anos da integração do Algarve no território português, na Pousada de Tavira. E mais nada. Pelo contrário, entidades do governo e entidades locais nem sequer foram capazes de fazer o chamado sacrifício de agenda a favor de uma data que não se repete. É isto aqui, aquilo acoli, nada tendo a ver com o assunto. Só terá faltado, para este mesmo dia e para a hora das modestas evocações, a marcação de uma conferência de imprensa de Sousa Cintra sobre furos. As poucas “entidades regionais”que temos, as autarquias no seu pressuposto conjunto, o próprio governo, particularmente ministérios que deveriam ter sensibilidade para o assunto, deixaram a máquina de apagar a funcionar na sua rotina, enfim, o dedo coletivo do Algarve a carregar na tecla Delete.

Nem Faro, com a sua expetativa de vir a ser Capital Europeia da Cultura de 2027, carregou no Enter desta mais valia irrepetível e de que poderia tirar partido. As televisões nada disseram, porque também não existem no Algarve como televisões nacionais; as rádios continuaram na sua função de grafonolas automáticas, etc.. O que se faz com os 750 anos de Algarve, sabe a pouco ou mesmo a nada.

Fosse outra região do País a ter uma data destas, não sei o que não aconteceria em Guimarães, na Guarda, no Porto ou em Coimbra, e o que jornais, rádios e televisões não diriam de Coimbra, Porto, Guarda ou Guimarães, para assinalar uns 750 anos da entrada definitiva e formal de um território para a soberania portuguesa, com a fixação multissecular das suas fronteiras e uma vivência peculiar e identitária dentro delas, à mistura com lendas.

Com a vinda do verão, não vão faltar “festivais medievais”, teatros de comidas e bebidas com gente trajada de mouros ou de cavaleiros da Ordem mais ou menos de Santiago para proclamada atracão turística, não vão faltar “eventos” a fazer da história algarvia uma história de falsete. Mas hoje é que se deveria celebrar a verdade do Algarve, nos seus 750 anos, verdade essa que colocou os castelos de Castela no brasão real de Afonso III por dote de casamento, mantidos até hoje no símbolo nacional. Talvez na previsão da tecla Delete, Paio Peres Correia se tenha exilado em Sevilha em cuja catedral está sepultado, apesar de dar nome a ruas aí por todo o Algarve, quando cada rua se deveria chamar Rua Delete.

Carlos Albino
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Flagrantes laranjas: No supermercado ali estão “laranjas do Algarve” cujo sumo, segundo diz quem pode provar, sabe a laranja espanhola.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

SMS 702. Quando a ausência dos jovens nada abona

9 fevereiro 2017

Por vezes, até se torna imperioso perguntar: No Algarve há jovens? Para onde foram os que estão entre os 17 e os 30 anos? Por que não aparecem de livre vontade quando se discute ou devia discutir-se a melhoria da Sociedade, seja de uma lado ou do outro, com a presença deste ou daquele? Qual a razão que leva a que em qualquer sessão ou acontecimento que “cheire” a ideias, a cultura, a política, a memória, a futuro, a aprendizagem, é notória a ausência de sangue novo, de figuras de esperança fresca e de generosidade desinteressada ainda que nalguma percentagem razoável?

É que, quando estão ideias em causa, a sala das ideias tem meia-dúzia de jarretas e outra meia-dúzia de flores de pano. Quando é cultura, as salas onde deveria aparecer Cultura, parecem salas de espelhos. Quando é política, em qualquer um dos seus rumos, além de uns pequenos frisos que, usando a linguagem dos clubes de futebol, desculpem-me, são frisos de jovens “vindos da formação” do clube, além disso, mais ninguém, ou se mais alguém está, já calvo, barba branca e nove ais para passar da posição de sentado à de pé, é para dirigir à zona mais abstracta do tecto o tal repetido apelo paternalista de que “é preciso trazer os jovens”. E não passamos das lamentações, tantas e de tal ordem que, numa inesperada era de muros, o Algarve já deve possuir um dos maiores muros de lamentações da Europa. Preferimos lamentar a ir às causas e, pelo menos uma vez, verificar se há ou não uma explicação para que os jovens em peso entrem em rotura com o tempo que os gerou, supostamente os educou e os fotografou no seu crescimento de ano para ano até que a fotografia começou a falar por si.

Caso se recuse um exercício de hipocrisia, não é correto que, por dá cá aquela palha, se diga que os jovens estão injustificadamente ausentes, sendo mais sério reconhecer que os jovens estão em rotura, e mais honesto procurar os motivos de tal rotura, a qual, na pior versão que uma Sociedade pode registar, será uma rotura silenciosa, sem barulho, mas corte com o que lhes foi apresentado como valores ou, pior ainda mais, corte com uma sentida situação de ausência de valores. Ausência de valores na Cultura, na Política, na Memória, para o Futuro, nas posturas da Aprendizagem. Não me refiro ao mero pregão ou aos pregões já doentios dos valores. Estes são muitos, abundam na boca dos pregadores e igualam o número das lamentações. E se calhar é por esta abundância de valores em falsete que os jovens estão em rotura silenciosa que nada abona os pregadores.

Carlos Albino
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Flagrante dúvida: Na verdade, ficamos sem saber se um furo petrolífero, a 45 quilómetros da costa, é mais ou menos perigoso que um secretário de estado colocar-se a essa mesma distância de 45 quilómetros.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

SMS 701. Os candidatos

2 fevereiro 2017

Está na hora em que os partidos comecem a indicar cabeças de listas para as autarquias. Pelo menos, os principais partidos, os que contam com a fidelidade de número apreciável de eleitores que lhes permitem “fazer contas”. Naturalmente que todos procuram “candidatos fortes”, a não ser que a expetativa de vitória eleitoral seja escassa ou mesmo nula, porquanto, neste caso e como é já tradição, o candidato é quem se preste ao sacrifício de figura de corpo presente.

Então, ocorre perguntar: o que é um “candidato forte”? Aquele que tem uma imagem feita ou construída, mesmo que não passe da imagem? Aquele que tem projeto, programa e que eventualmente tenha já dado provas de honrar e cumprir compromissos? Além disso, a força de um candidato vem-lhe da seriedade, da probidade e da sua estatura intelectual? Mais perguntas: quem escrutina isso, é apenas os reduzidos colégios locais de militantes que, na generalidade são mesmo reduzidos e cujo aumento por vezes é temido para que não se perca o controlo? Ou esse escrutínio depende de “sondagens” locais, sabe Deus como são feitas e a que pretexto? Ou ainda se pergunta se tal escrutínio está apenas na mão dos decisores centrais dos partidos, por via de informações difusas, ou se tem em conta o filtro de comando regional, também muitas vezes pouco filtro e “regional” sob condição, ou se é da conta e medida das “bases”, bases estas que também na generalidade e por várias razões não têm grandes expoentes, se o manto do poder foi curto para interessados ou se a “independência” por autodefesa de carreira foi a melhor conselheira.

Estas perguntas, claro, estão diretamente ligadas ao que se entende por democracia, por aquilo que a democracia acolhe ou alberga, enfim, ligadas ao desabafo segundo o qual a democracia é, apesar de tudo, o melhor sistema. E é, é mesmo o melhor sistema se não acolhe títeres disfarçados em cordeirinhos políticos, ou se não alberga mesmo déspotas com máscaras de santos como se isto fosse um permanente carnaval, ou permanente entrudo com guerras de comunicados sem conteúdo e, pior, sem a dignidade política da quarta-feira de cinzas.

A esta distância, já vão sendo os eleitores a tomar alguma decisão e a manifestá-la localmente desta ou daquela forma. Se isto não acontecer, haverá razões para se admitir que a política está morta, que a desconfiança nos que tantas vezes sem pudor se intitulam políticos é de alto grau e de grau preocupante, e que a abstenção não é tanto a causa mas a consequência.

Carlos Albino
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Flagrante poder central: A Comunidade Intermunicipal do Algarve reafirma a sua posição contra quaisquer atividades de prospeção de hidrocarbonetos no Algarve e ao longo da costa algarvia Mas o que vai fazer, o que pode fazer e, mais importante, o que quer fazer?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

SMS 700. Burocracias municipais

1 dezembro 2017

Diz-me um engenheiro que lida com as coisas que alguma gente já se suicidou devido às burocracias municipais. Lá fora, em contactos circunstanciais com potenciais investidores, ao longo dos anos foram-me dizendo aqui e ali, em diversos países, que no Algarve, nem pensar. Cá dentro, sempre que as conversas vêm à tona envolvendo obras e urbanismo, noto que há muita gente arrependida e que está pelos cabelos. Gostam da terra, gostam das gentes, adoram o clima, mas a relação com as burocracias municipais é uma tortura. Papelada aparentemente desnecessária, atendimentos litigantes, exigências que roçam o fundamentalismo legalista, enfim, exercícios de poder e autoridade que se situam nos antípodas da cidadania de proximidade, do serviço público prestado com lhaneza.

Não raramente, técnicos alojados por esta ou aquela via nas máquinas municipais, ou mesmo ascendendo por concursos públicos pré-formatados por reclamada confiança política, não sendo eles eleitos, condicionam os decisores eleitos, em alguns casos reféns das burocracias que representam mas não orientam ou não ousam orientar. E há critérios díspares: hoje viabiliza-se o que ontem se negou nas mesmíssimas ou semelhantes circunstâncias. Por exemplo, tão depressa se exige o respeito pela paisagem, pela arquitetura tradicional da porta ao telhado e dos materiais às cores, como depois, por critérios contraditórios se aprovam, na mesma zona, projetos de casas, uns cubos pintados de negro e sem janelas, que mais parecem projetos para ampliação do crematório de Ferreira do Alentejo. Dizem-me ainda, e acredito, que os tais técnicos que dominam a máquina, têm um pavor terrível das inspeções dos serviços centrais do Estado, o que levará tais técnicos, por suposta autodefesa, para interpretações fundamentalistas da lei e dos regulamentos, interpretações que, em função de relatos fidedignos que vou registando, das duas uma - ou se prendem com interesses difusos que nada têm a ver com o espírito da descentralização do Estado para as autarquias, ou são exercícios próprios de estagiários a quem a antiguidade não confere saber e consciência dos deveres de trato. E pelo somatório dos casos, um pouco por todo o Algarve mas sempre a bater nas obras e urbanismo, acredito piamente no que o engenheiro me diz: alguns não têm aguentado viver assim.

E quanto ao escrutínio - escrutínio político, sublinhe-se - o panorama também deixa muito a desejar, como se o exercício democrático do poder e da representação tivesse apenas como limite o cumprimento formal da lei compaginado com a vontade do decisor, fazendo-se com perfeito à-vontade tudo e mais alguma coisa desde que não seja proibido e, mais importante, não se deixe o pé de fora, como se costuma dizer.

Daí que descentralizar sim, mas desde que aquele para quem se descentraliza não seja um refém dos que usufruem do bodo da política sem que aparentemente tenham a ver com ela ou dela lavem as mãos como Pilatos, quando as coisas dão para o torto.

Outrora associava-se ao horror a burocracia do Terreiro do Paço da capital portuguesa. Infelizmente, para se fugir a esse horror, geraram-se pequenos terreiros do paço locais que, em vez de encorparem a descentralização democrática e a paz da cidadania, acabaram por descentralizar o horror.

Carlos Albino
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Flagrante incêndio: O do palacete da Fonte da Pipa, em Loulé, em pleno inverno. Uma longa e triste história onde, antes, já tinha ardido aquilo que se pode designar por consciência do património. Foi Loulé e não tanto um “fundo inglês”que perdeu um “ativo”. Longa história.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

SMS 699. Algarve que, tal como és, fazes 750 anos

19 janeiro 2017

Com o Tratado de Badajoz, assinado em 16 de fevereiro de 1267 por Afonso III de Portugal e Afonso X de Leão, o bilhete de identidade do Algarve ficou como até hoje, integrado em Portugal, com o lado de lá na margem esquerda do Guadiana. Nesse dia, portanto completam-se 750 anos de uma convivência entre os que já estavam e os que vieram, todos, ao longo de séculos, contribuindo para que cada um dos respetivos vindouros sentisse como é bom viver aqui, com fronteiras pacificas e pacificadas. O selo branco colocado nesse bilhete de identidade, não foi por uma partilha de despojos após guerra que chegou a haver, mas um dote por casamento entre Afonso III e Beatriz de Castela, filha de Afonso X. É sabido que a nobreza portuguesa de então considerou que o "casamento foi humilhante para o rei de Portugal", mas Afonso III calou tal nobreza argumentando que "...se em outro día achasse outra molher que lhe desse tanta terra no regno, para acrecentar, que logo casaria com ela". E assim ficou provado que o primeiro rei a invocar com legitimidade que era "Pela Graça de Deus, Afonso III, Rei de Portugal e do Algarve", tratando-se do território tal como continua a ser, além do mais, já percebia de imobiliária.

Com isto, importa observar que um período de 750 anos de Algarve como Algarve definitivo, não é um período qualquer ou sem importância, e que a baliza simbolicamente marcante desse período, 16 de fevereiro, não é uma data sem importância, caso o bilhete de identidade ainda esteja válido.

Nem de longe se sugere mais um festival, um foguetório, um “evento” ou jantarada festiva, mas, havendo ainda tempo, apenas se espera alguma reflexão onde esta pode e deve ocorrer, algum ato próprio de quem, agora com legitimidade também, pode e deve questionar se há identidade para ter bilhete ou se não anda apenas a ver se acha outra mulher que dê tanta terra.

Não vou aqui dizer quem pode e deve dar resposta digna, séria e sábia aos 750 anos que o Algarve cumpre formalmente a 16 de fevereiro. Há algumas instituições do reino que podem, bastantes que devem e duas ou três que têm essa obrigação. Vou observar e não deixarei de concluir.

Carlos Albino
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Flagrante passeio: A vinda de um secretário de Estado ao Algarve para inaugurar o reinício da requalificação da 125 já quatro vezes inaugurado, foi uma triste passeata. E o geral silêncio autárquico perante o maior aumento no País das portagens na Via do Infante, foi um triste silêncio.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

SMS 698. Mário Soares, as plantas na casa do Vau

12 janeiro 2017

Dizem que o loureiro conhece o dono, segue-o na sua vida, e se acaso o dono morre, o loureiro chora por ele. Consta que, se tal acontece, as folhas murcham, secam e muitas vezes não voltam a enverdecer.

Na Casa da praia do Vau, naquele fim de tarde de setembro, as árvores do jardim estavam verdes, mas não sei se havia algum loureiro. Se houvesse, e nessa tarde em que mostrou o jardim, o descreveu e lhe atribuiu autorias, e se lhe tivesse falado dessa inclinação do loureiro para chorar pelos seus donos, por certo que Mário Soares teria rido a bandeiras despregadas, e teria dito que isso era coisa para acontecer nos lugares das ditaduras e não nas democracias. Como se sabe, nas pátrias de Nicolás Maduro, os pássaros falam ao ouvido do ditador, na Coreia do Norte, o povo entusiasta vê caírem gotas vermelhas das nuvens quando correm más notícias sobre Kim Jung Woon… É melhor, pois, não invocar os sentimentos das plantas nas pátrias democráticas. Mário Soares, para isso, só teria como comentário a imensa gargalhada e uma história cómica a propósito. Nesse dia, o penúltimo em que nos encontrámos, ele falou antes dos pinheiros que tinha plantado, e da forma como as copas haviam alastrado, como as raízes e a caruma faziam mal à rua e à casa, mas ele, Mário Soares, não lhes queria tocar. Eram plantação antiga, tinha dó de os destruir. Isto é, ao contrário das lendas que fazem com que as plantas chorem pelos donos, há donos que têm sentimentos pelas plantas, como se elas fossem seres humanos. É a inversão da lenda.

Então Mário Soares levou-nos pelos recantos do jardim e falou do jardineiro, do amor do seu jardineiro pelas plantas, e nomeou-as uma a uma. Havia piteiras, sargaços, buxos e buganvílias. Recantos, repuxos, regatos. Mas o que nos admirava não era que o seu jardim algarvio ali estivesse para lhe criar uma atmosfera vegetal onde se pudesse recolher. Era o conhecimento que Mário Soares tinha das plantas do seu jardim, como se fosse um aprendiz de botânico. E quando lhe disse que certa piteira diferia da outra, e porquê, ele respondeu – “Ah! Sim, pois eu não sabia. Ainda bem que o disse. Quer dizer que precisa de rega diferente…”

Não, ninguém quer que se louve Mário Soares como um anjo, ou como um santo. Não o foi. Foi simplesmente um homem. Só que há diversas espécies de homens. Mário Soares pertence ao grupo daqueles que, tal como Goya num dos seus últimos quadros a si mesmo se pintou velho e desgrenhado, acrescentando com a seguinte legenda – “Aún Aprendo”.

Que eu seja um desses que, até ao fim da vida, ainda aprenda, nem que seja apenas sobre a natureza de uma piteira brava.

Carlos Albino
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Flagrante dedicatória: Dedico este apontamento a João Soares, a Isabel Soares e à memória de Maria Barroso.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

SMS 697. Vítor Neto, não se canse e pense mais em voz alta

5 janeiro 2017

Vem a tempo, neste início de 2017, destacar do ano que passou. coisa exemplarmente boa para o Algarve. Refiro-me à distinção dada pela Revista Exame aos Estabelecimentos Teófilo Fontainhas Neto, Comércio e Indústria, SA como a Melhor PME do País no setor da Distribuição Alimentar em 2016. E como não há empresas sem pessoas, a pessoa chama-se Vítor Neto que dirige esse grupo sediado em São Bartolomeu de Messines e desenvolve atividades nas áreas da agroindústria exportadora, imobiliária e turismo, prosseguindo uma saga familiar.

Foram justas as palavras que Desidério Silva, presidente da RTA, endereçou à pessoa que impulsiona a empresa, mal foi conhecida a distinção: «Vítor Neto é uma personalidade incontornável no turismo, profundo conhecedor e estudioso dessas questões e a quem o Algarve deve reconhecimento».

Por isso, neste início de 2017, há que pedir a Vítor Neto que não se canse e que, sobretudo, pense mais em voz alta. Não por ser o presidente do NERA, sigla que identifica a Associação Empresarial do Algarve, ou por ter sido um memorável secretário de Estado do Turismo entre 1997 e 2002, ou ainda por ter sido como deputado uma voz marcante da Região. Mas porque o seu livro «Portugal Turismo – Relatório Urgente», publicado vai para quatro anos, é um livro inacabado. Faltam os próximos capítulos de uma reflexão exemplar sobre o Algarve, que de reflexão precisa. Há por aqui muito encómio e apontar de caminhos a menos, sobretudo reflexão crítica doa o que doer e a quem doer. Daí a justeza das palavras isentas de Desidério Silva: o Algarve deve reconhecimento a Vítor Neto. E enquanto isso não chega, que Vítor Neto não se canse e que a sua voz seja ouvida alto quer por concordantes, quer por discordantes.

O Algarve precisa de análise, muita análise dos seus problemas, mais, precisa de encontrar soluções para uma visão de futuro para a sua economia, para as suas empresas e, com isto, para as suas pessoas. Vítor Neto é dos poucos que, entre nós, está nessa senda. Temos, felizmente, muitos historiadores, mas projetistas do futuro a menos.

São Bartolomeu de Messines que já nos deu um poeta e pedagogo ímpar, João de Deus, cuja data de nascimento devia ser considerada como Dia do Algarve, dá-nos agora um gestor de referência que não se limita a fazer figura de corpo presente com o prestígio da sua empresa. Pensa pelos caminhos e atalhos mais nobres da Política que é a melhor das cartilhas. Que não se canse. Vem a tempo.

Carlos Albino
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Flagrante Prémio SMS de Jornalismo: O júri reuniu e por unanimidade atribuiu o Prémio SMS de Jornalismo a Rosa Veloso, delegada da RTP no Algarve. Consta da ata, que a jornalista Rosa Veloso faz sempre bem, com os meios que tem, o possível e o impossível, tentando fazer sempre o que deve. Parabéns.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

SMS 696. Feliz Ano Novo, Dia Mundial da Paz

29 dezembro 2016

Assim vão começar as missas do próximo dia 1 de janeiro, assim começaram no ano passado, e assim irão começar nos próximos anos. Felizmente que a liturgia para o Céu engloba um dia para celebrar a almejada paz na Terra. E no entanto, se pensarmos nas teorias da História que estudam os ciclos de paz, estaríamos já atrasados na consumação de uma nova guerra. Rondando esses ciclos intermédios perto de quarenta anos, já deveríamos duas décadas a um conflito armado. Então duas interpretações sobre o assunto estão a correr. Uma delas diz que já estamos a viver esse conflito mundial, de forma disseminada, pelos 53 conflitos regionais em curso. Outros dizem que se aproxima a grandes passos um conflito à escala planetária. As imagens de Putin a Leste e as de Trump a Oeste, fazem estremecer os mais optimistas. Bem precisamos, pois, de um longo Dia Mundial da Paz.

Só que dito assim, o assunto é tremendo, mas inalcançável. Por isso a pergunta é esta - O que podemos fazer pela paz global, além de desejar que seja uma realidade? E a resposta é a seguinte - Podemos pensar com realismo no que nos cerca. Podemos viver em cada país, região e localidade, a nossa hora de desejo de paz para todos, compreendendo o que nos diz respeito e promovendo o entendimento da hora que passa.

No nosso caso, a região do Algarve, agora promovida como um lugar seguro, talvez precisássemos de tomar cuidado. Há um ditado que diz – Perto do carrasco, não convém falar da corda. Ora nós não estamos longe do conflito que grassa por todo o Mediterrâneo. O nome da nossa região tem inscrito na sua morfologia a raiz do problema, e como região inscrita na Europa, e anfitriã de incontáveis etnias residentes e visitantes, deveríamos ser mais prudentes. Não devemos captar visitantes gabando-nos da ausência soalheira de conflitos. Na verdade, não há, hoje em dia, um destino seguro. A Terra transformou-se numa aldeia em que todos somos vizinhos. Convivamos todos como é nosso hábito, aqui ao Sul, mas não aticemos os ânimos com publicidades de excepção. Não vamos cair no ridículo da memória salazarenta que considerava Portugal um cantinho protegido pela Nossa Senhora de Fátima. Deixemos a crença no fundo individual das almas. Em termos sociais, devemos pensar como Gordon Brown, quando disse que a partir de agora, tudo o que se passa lá, cá se passa. Aliás, essa é uma constatação meramente política, e no entanto, mais cristã do que isso, não há.

Bom Ano de 2017. Boas Festas.

Carlos Albino
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Flagrante média geral: Neste ano que passou, pela escala de 0 a 20, a média de valores obtida pelo conjunto dos autarcas algarvios, foi de 9,75 e não mais. Dá para irem à oral.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

SMS 695. A caminhada humana

1 dezembro 2016

Não sei quem foi que inventou a imagem de três Reis Magos caminhando no deserto, ao lado dos três camelos, e juntou, escrita na areia, a máxima de que Sozinhos vamos mais rápidos, Juntos, vamos mais longe. É linda a frase, e ainda mais linda a junção à imagem que nos acompanha desde sempre, a figura de uns reis, que afinal seriam uns sábios, talvez astrónomos, em busca de uma nova estrela que surgira nos céus. O assunto dá para desmentir, dá para falar de fantasia histórica, dá para viver em suspeita em relação a esses ícones, sobretudo desde que o Papa Bento XVI colocou o burro, a vaca e as manjedouras no local das invenções infantis. Foi um choque. A partir daí, todos os presépios estremeceram, a crença na gruta para onde recolheu Maria, para dar à luz o filho, ficou desgastada e a frieza dessa noite passou a dar voltas no calendário. Enfim, um abalo telúrico que ocorreu na alma. Mas, passados poucos anos, a suspeita foi desaparecendo e a iconografia voltou em força.

Porque voltou? Porque há imagens de ternura que são mais fortes do que todas as outras. Porque precisamos de cenas de amor primordiais que nos acompanhem, porque vivemos com a criança que fomos desenhada no nosso peito, mesmo que a escondamos. Que uma criança nasça sem berço, que os animais a aqueçam, que essa extrema pobreza seja o lugar para onde se dirigem pastores e ovelhas, são imagens que nos lembram que o mundo se faz de ligações simples, arcaicas, lugares para onde regressamos sempre.

Basta um desentendimento entre países, basta interesses instalarem-se entre a diplomacia do mundo, basta que se abatam interesses contra interesses, ideologias contra ideologias, e logo pessoas aos milhares, saem das suas casas, das suas terras, e ficam reduzidos ao corpo humano coberto pro uns farrapos, a andar à deriva. Ou, segundo o título do livro de Herta Müller, Tudo o que tenho trago comigo. Às vezes basta um título para designar toda uma época. O presépio aí está, por vezes fica no meio do Mar Mediterrâneo, por vezes fica no meio da Europa, por vezes sem burro, sem vaca, sem manjedoura até. O princípio dos desprovidos sempre, aqui e agora. O que significa, então o Natal? Talvez fosse bom mandar calar todas as sanfonas que atordoam os supermercados dos países em paz, para escutarmos a razão dos outros. Talvez fosse bom substituir as legendas que obrigam agressivamente à despesa, por uma única frase de amor entre irmãos, e sabedoria de sobrevivência na Terra – Sozinhos vamos mais rápidos, acompanhados vamos mais longe. Essa deveria ser a nossa estrela do Oriente. Pois o que somos nós sozinhos?

Carlos Albino
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Flagrantes intervalo: Nos petróleos. Depois do fim das coisas em terra, aguardemos o que vai acontecer para o mar. Longe da vista, longe do coração.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

SMS 694. Culto da personalidade e personalidades de culto

8 dezembro 2016

Não interessa o que Fidel Castro defendeu ou impediu defender, não interessa o que fez ou proibiu que se fizesse, nem está em causa o que falou interminavelmente ou quantas e quais bocas calou em definitivo. Mas quem foi informado do que se passou a propósito da sua morte, ou, com maior curiosidade, espreitou a voz oficial de Cuba, designadamente o respectivo canal televisivo internacional, não pode deixar de se interrogar sobre o culto da personalidade, sobre o que significa e ao que leva.

Na verdade, o século passado ficou tragicamente marcado, um pouco por todo o mundo, por personalidades de culto. Também todos pensamos candidamente que a história não se repete e que hoje, à exceção de um ou dois sítios longínquos e que só estão próximos para quem vive na África, na Ásia, ou sente o seu risco na América, já não há lugar para paranóias de culto pessoal. Pensamos mas estamos enganados. Esse culto pode andar à solta na nossa região, pode campear na nossa cidade, pode morar na nossa própria rua, ou, quem sabe?, pode estar sentado no sofá da sala da nossa casa. Quando o culto da personalidade afeta um Estado inteiro, ou ameaça contaminar o nosso próprio Estado, é muito possível que alguns sinos toquem a rebate, que os comentadores alertem, que os noticiaristas reportem factos e comportamentos de eventual paranóico. Por isso, a personalidade que anseia pelo culto à sua pessoa, por autodefesa nunca começa pelo Estado. Começa pela nossa cidade, antes desta tenta a nossa rua e, antes da rua, ousa sentar-se no sofá da nossa sala. Ou seja: uma democracia – democracia de Estado ou local – não está imune a ter de alojar déspotas disfarçados, não há dispositivos que interditem automaticamente que no sofá franco da nossa sala generosa não se venha a sentar uma alma de títere, mas na nossa rua ou na nossa cidade, quando o culto da personalidade vinga e tem êxito, é sinal de que já sentou em muitas salas. E já será tarde para evitar que tal alma se meta no Estado.

Ora, olhando para a montanha de folhetos, agendas municipais, programas disto e daquilo, entrevistas manifestamente pagas, fotos a despropósito, mensagens a todo o pretexto, etc., um pouco por todo o Algarve, e comparando esta montanha com o que chega e se conhece do Norte e do Centro do país, não é difícil perceber e ter prova que lideramos o ranking dos cultos de personalidade. É bem possível que alguns pensem que só ganha eleições quem é cultuado e se faz cultuar, ou que as mensagens das personalidades de culto são meio-caminho andado para as ganhar. Possivelmente assim será, mas eleições dessas desvirtuam a minha sala, a minha rua e a minha cidade.
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Flagrantes valores: Talvez porque toda a gente, agora, reclama a defesa dos “valores”, numa rede de supermercados montaram um balcão para a venda de funerais a prestações. Não sei se o enterro vai dar ao paraíso fiscal já que o que rende é ir à carteira do cliente..

Carlos Albino

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

SMS 693. Sobre estes apontamentos. Etc., etc.

24 novembro 2016

Pela primeira vez, já lá vão uns bons anos, este apontamento é sobre estes apontamentos. E a razão que é simples depende da resposta a esta pergunta: sobre que escrever? Claro que temas não faltam no Algarve, temas velhos e temas inesperados. As carências são muitas, as soluções, por mais que reclamadas e prometidas, tardam ou são esquecidas. Os disparates designadamente políticos são incontáveis; o provincianismo alastra e até parece que satisfaz; a ignorância, coisa que não há muito tempo dava vergonha, agora até possui uma carreira hierárquica própria; a segurança volta a estar quase confinada à caça à multa e a acções de rusga individual seletiva; sobre o estado da saúde, designadamente a pública, é melhor nem falar, e de resto morre-se no Algarve conforme a carteira que se tem. Etc., etc..

Temas não faltam, muito embora quando chega a hora de escrever sobre algum dos muitos problemas ou acerca de alguma rara solução, o mais cómodo, possivelmente o mais inteligente seja dizer que o Algarve azul e doirado é um divino sonho à beira-mar, ou que belos mariscos, ou ainda, para os românticos pecos, que esta é uma terra de moiras encantadas que nem precisam de cartão de cidadão e também de passarinhos que saíram dos ninhos, felizes, coitados. Além disso, terra de bom marisco, excelente batata-doce, com muita animação de Natal nem por sombras pacóvia. Etc., etc.. Portanto, uma terra sem problemas de qualquer ordem e sem outra inquietação, angústia ou mesmo alegria que não seja bater ou elogiar o primeiro-ministro que está lá longe, dissertar profusamente e com muita sabedoria sobre o governo central que rendeu o outro centralmente tão longe como todos. Etc., etc..

Na verdade, falando com as cabeças pensantes, o Algarve não tem problemas e como não tem problemas, também não precisa de soluções. De vez em quando, por aí surgem uns desacatos promovidos por uns energúmenos, tais como a Via do Infante, a 125, as demolições na Ria Formosa, o petróleo, uma ou outra onda de assaltos, pouco mais. Tudo sem importância e passageiro.

Para quê, então escrever, um apontamento que seja, se um apontamento é para apontar, registar alguma coisa que foi vista, ouvida, lida ou que deve ser lembrada? A região está bem e não precisa de nada. Para quê apontar?

Carlos Albino
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Flagrante constatação: Sabe-se lá porquê, mas basta subir a um monte para se verificar que a linha do mar ao fundo está muito mais alta.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

SMS 692. Municipalismo e Cidades-Estado

17 novembro 2016

Tal como nas marés, a contagem das ondas indica a preia-mar ou a baixa-mar, assim também com eleições mais ou menos à vista e em matéria de regionalização, descentralização e outras minudências populistas, a contagem de anúncios temporãos, intenções baratas ou promessas falsas indica a vazante ou a enchente da política, aliás da má política ou da política que mata a Política e que pouco a pouco vai minando a confiança dos cidadãos. Depois de tanta descentralização para as autarquias sem que estas – os seus quadros políticos e técnicos para isso estivessem ou estejam preparados -, com a contagem decrescente para as eleições autárquicas aí estão a surgir promessas, intenções e anúncios de mais descentralização, não para as regiões (assunto que ficou na gaveta) mas para as regiõezinhas mapeadas pelo poder local. Com esta prática e invocando-se em vão o nome sagrado do municipalismo, não se conseguiu, não se consegue e não se conseguirá qualquer descentralização, mas apenas a criação de sucursais do Estado, ampliando-se medonhamente a burocracia sobretudo onde e quando a burocracia se cruza com interesses inomináveis. Onde devia existir Região e não existe, como é o caso do Algarve, as sucursais locais do Estado criam uma teia burocrática mais complexa que a própria burocracia do Estado cujos excessos, à partida, foi anunciado e prometido combater. Além disso inviabilizaram qualquer ideia de região a sério, embora essa ideia seja mantida à custa de órgãos decorativos absolutamente inúteis e ineficazes que o cidadão desconhece e que apenas serve para mero prestígio socia dos empossados.

As burocracias municipais que configuram a sucurssalização do Estado e não a sua descentralização, mais longínqua ficando a regionalização, acabam por ser um travão para as pessoas, para as empresas, para todos. Nunca com tanta internet, tanto correio electrónico, tanto Google e tanto digital, foi necessário tanto papel para tanto postigo e tanta capelinha, onde as interpretações fundamentalistas da lei são o pão nosso de cada dia. O serviço público, assim, em vez de cumprir a missão de ajudar o cidadão, parece existir apenas para complicar a vida de cada um. Em vez do exercício pacífico do poder local, aí temos de volta o exercício do poder de secretaria, por vezes com tiques de autoritarismo sem travão. Pior, sem escrutínio. Pior ainda, poder que não tendo sido eleito, acaba por condicionar, interferir e dar voz de comando ao poder eleito. Nunca, com tanta cidade-estado, a região esteve tão longe, nomeadamente como desiderato e finalidade.

Naturalmente que nas regiões onde o imobiliário e actividades adjacentes é a principal se não até a única “indústria”, a burocracia apenas não é religião porque se rege pelo velho e nefasto princípio segundo o qual o segredo é a alma do negócio. E quanto mais desta “descentralização”, melhor para tal segredo. Infelizmente, a contagem das ondas desta alma e deste segredo, indicam vazante de Política, e não maré enchente.

Carlos Albino
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Flagrante liderança regional: Ninguém.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

SMS 691. As comunidades e os silêncios

10 novembro 2016

O Algarve tem várias, muitas comunidades. Umas de residentes que por prestígio rejeitam ser considerados imigrantes internos ou externos, outras de imigrantes para os quais é secundário serem residentes, umas a quem cabe apenas a legenda de trabalhadores, outras que embora pouco ou nada invistam a não ser no consumo, reivindicam o estatuto de investidores, umas que são de islâmicos, outras de anglicanos, luteranos, evangélicos, etc., umas que, com noção do conceito de acolhimento, falam e escrevem em língua portuguesa, outras que vivem e circulam como se isto fosse uma colónia sem língua, umas que formam por cultura grupos fechados, outras que por sobrevivência e instinto de integração são propensas à abertura e ao diálogo sem grande esforço ou cara franzida, umas com jornais próprios, outras apenas com cinema mudo. Há de tudo. E neste tudo, ainda entra um apreciável grupo de gente que ninguém sabe se fazem ou formam uma comunidade – os ciganos. É, no fundo, o novo Algarve multicultural e miscigenado que se vem formando nas últimas décadas. Basta ir a um cemitério para se constatar que, apesar de novo, esse Algarve já vai jazendo com uns ao lado dos outros sem disputa de língua, religião ou possidências. Já entre os vivos, claro que o comportamento, opinião ou atitude de um ou alguns indivíduos de cada comunidade ou grupo, não pode nem deve ser generalizado a todos, nem quem acolhe ou aceita a vizinhança pode ou deve exigir opinião e comportamento. Mas há uma linha que define no mínimo como estranho o silêncio de uma comunidade minoritária sobre problemas graves ou inquietações profundas da Comunidade geral onde é suposto que esteja inserida muito antes da paz dos cemitérios.

É agora conhecido e divulgado o caso das crianças portuguesas arrancadas às mães no Reino Unido, tornando visível uma rede de interesses que, muito próximo do comportamento e possivelmente da opinião dos antigos corsários, envolve médicos, advogados, assistentes sociais e pescadores de subsídios. Naturalmente que não é de pedir à comunidade islâmica do Algarve que rompa o silêncio sobre a matéria, embora também não rompa lá muito sobre matérias inquietantes que levam muitos a cometerem o erro da generalização. Cada uma das várias comunidades tem ou faz o seu silêncio próprio, o que não é grave quando o caso não é grave. Mas no caso das crianças traficadas na Inglaterra por pirataria supostamente legal, é de pedir à comunidade britânica que diga uma palavra, que esboce uma opinião, que faça uma demarcação pública e visível, que se esforce por contrariar uma cultura de suspeição.

E não entramos em pormenores.

Carlos Albino
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Flagrante orçamento participativo: Festivais, animações, celebrações, eventos e outras coisas mais quase sempre municipais mas encomendadas a agências longínquas que não pisam nem conhecem o Algarve, comendo receitas e erário público quando a política se transforma na arte de atirar areia para os olhos, bem vistas as coisas, é um orçamento participativo para tais agências.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

SMS 690. O vírus do populismo

3 novembro 2016

Obrigado, Jorge Sampaio, vem na hora exacta o alerta. O populismo é um vírus. Um vírus contagioso e muito resistente que consegue passar anos sem se evidenciar, mas é o responsável pelo surto, primeiro, da desconfiança, depois da abstenção e, finalmente, de destruição da democracia tal como a entendemos já por rotina, embora muitos a tenham desejado festivamente. E é um vírus que não ataca apenas lá em cima. Lá em cima, o trabalho do vírus só tem êxito quando cá por baixo se propaga e chega a ser cultivado como santo da casa. Esse vírus começa por anular a consciência dos que infeta, manipula com habilidade os valores do bem-comum em função de interesses, uns difusos, outros hostis ao que a sociedade de melhor quer, deseja e sabe ser possível, e porque é vírus, dissimula-se levando o infectado ao discurso enganador, à recusa do escrutínio dos actos, e à convicção dele e dos outros que contagia, de que se pauta por valores, serve o bem-comum e reforça as instituições da própria democracia onde se alojou pela lógica da conquista do poder ou da manutenção do poder. E porque é vírus, convence.

Nas sociedades onde não há comunicação ou onde a comunicação é confinada, inadequada e insuficiente (como é o caso do Algarve), não havendo escrutínio, análise e despiste, o vírus nem precisa de ter nome porquanto tem o nome de cada um dos portadores, nome que até passa por respeitável. Grassa à vontade e circula por todos os partidos sempre que o poder alcançado não coincide com o dever que o vírus atraiçoa. Grassa não apenas pelos directórios e pelas assembleias circunstanciais dos partidos locais. Grassa pelas instituições das freguesias e dos municípios, onde, em vez do serviço público e da disponibilidade criativa e apaziguadora do cidadão, faz de cada divisão, departamento ou gabinete, uma unidade beligerante que contradiz o discurso do chefe dos vírus que, por regra, é um discurso redigido pelo próprio vírus.

Esse vírus do populismo age de preferência cá em baixo, evita que alguma vez pareça provocar uma doença de Estado, porquanto nesta eventualidade, por pudor ou por sobrevivência do próprio Estado, dificilmente evitaria uma acção de erradicação, ainda que aparente. Cá em baixo é o seu terreno, sabendo o vírus que pouco a pouco vai grassando o mapa e, sem que os administrados se dêem conta, fica com o proveito da doença do Estado, sem que desta tenha fama.

Jorge Sampaio tem toda a razão. É preciso retirar do seu aviso todas as ilações.

Carlos Albino
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Flagrante cúmulo: Disseram-me e provaram que, num dado município algarvio, para um projecto de arquitectura de um jazigo, os serviços exigiram planos de água, gás e electricidade… É do outro mundo.  

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

SMS 689. Sagres, eis a questão

27 outubro 2016

Não é que todo o gato material e todo o sapato imaterial tenham sido classificados como património da humanidade, mas a forma como o processo de Sagres tem andado enrolado, choca. Quando Sagres se ajusta a vários dos dez critérios para sem favor ser incluído na lista do Património Mundial, choca ver reduzido esse inquestionável símbolo a mera peça de um pacote atado com atilho da globalização que é coisa que dá para tudo – até um grão de areia da Costa da Caparica, bem vistas as coisas, contribuiu para essa visão marciana da Terra.

É verdade que Sagres não representa uma obra-prima do génio criativo humano, mas é prova insofismável (e multissecular, como voltaria a dizer Estrabão) de um intercâmbio importante de valores humanos; é um testemunho excepcional, de uma tradição civilizacional que pontuou a Europa, e é exemplo de um conjunto de elementos tecnológicos e de paisagem que ilustra significativos estágios da história humana (basta olhar para o gigantesco relógio solar de quatro quadrantes, mais do que certo para apoio das actividades náuticas, muito anterior ao Infante). Para citar os termos usados desde 2005 pela UNESCO, Sagres está diretamente associado a tradições vivas, com ideias ou crenças, de destacada importância universal, entra pelos olhos do Atlântico como fenómeno natural e área de beleza natural e estética de excepcional importância, além de exemplo excepcional representativo de diferentes estágios da história da Terra, como registo dos processos geológicos no desenvolvimento das formas terrestres e elementos geomórficos importantes. E como se não bastasse, além do disperso acervo pré-histórico e histórico, Sagres é também exemplo excepcional de processos ecológicos e biológicos significativos da evolução e do desenvolvimento de ecossistemas terrestres, costeiros, marítimos ou aquáticos e comunidades de plantas, ostentando importantes e significativos habitats naturais para a conservação in situ da diversidade biológica, incluindo espécies únicas e ameaçadas que possuem um valor universal excepcional do ponto de vista da ciência ou da conservação.

Neste serviço de mensagens curtas, não se pode dizer tudo de uma só vez. Continuaremos. Sagres merece e não pode ser tratado nem como gato e muito menos como sapato.

Carlos Albino
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Flagrante mentira: O Hospital Central do Algarve.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

SMS 688. Os livros roubados

13 outubro 2016

Tornou-se universal o provérbio islâmico de que se Maomé não vai à montanha, a montanha vem a Maomé. Foi o que aconteceu na sexta-feira 14, quando Ismail Serageldin, o diretor da nova Biblioteca de Alexandria - chamada Biblioteca Alexandrina para não se confundir com a antiga, a que acabaria por desaparecer num incêndio, ainda por esclarecer – quando resolveu mostrar como as novas bibliotecas usarão os meios eletrónicos ao serviço do livro. Veio explicar, ajudado por um power-point ilustrativo, como o futuro terá de associar os dois livros, o impresso e o digital, e como o segundo, filho do primeiro, servirá para criar mais pessoas instruídas, críticas, cultas e mesmo sábias. E veio dizer que, à semelhança do que se passou com os textos escritos no barro, que coexistiram durante séculos com os livros em papiro, e estes com os livros em pergaminho, e estes com os livros impressos em papel, assim os impressos coexistirão, durante muito tempo com os novos, os imateriais, os que se leem no computador e no ipad. Veio dizer que essa coexistência pode ser pacífica, se os meios forem bem utilizados, se os novos bibliotecários forem o que se espera deles - Educadores que terão o dever de guiar os jovens e as crianças na direcção dos livros, quando o mundo comunicacional, de tão intenso, profuso, descontínuo e contraditório, os deixa navegando num espaço sideral de desnorte de informações sobrepostas. Não nos esqueçamos nunca que a palavra desastre significa perder os astros.

Na grande sala da Gulbenkian, encontravam-se bibliotecários do Algarve que, à semelhança das centenas que enchiam o recinto, ficaram com o recado. Trouxeram, por certo o recado. Vamos acreditar que sim. E vamos esquecer, por um tempo, que as estatísticas colocam esta região no fundo da tabela da leitura em Portugal. Vamos imaginar que arrancamos na direção de uma estatística nova, aquela que coloque as crianças e os jovens deste “antigo reino”, num bom lugar da tabela, em relação a esse lugar nascente da leitura que conduz à sabedoria. Neste momento em que tanto se voltou a falar, com razão, nos livros roubados pelo pirata do conde de Essex ao Bispo de Faro, em 1596, o recado do Diretor da Biblioteca de Alexandria em território português deve ser lido como um aviso – Por favor, não se deixem roubar como antigamente, mas agora por vossas próprias mãos. Não queiram ser os roubadores de livros das gerações que se erguem para o futuro, quando tanto precisam deles. Para serem more informed, more critic, more independente. Palavras da montanha.

Carlos Albino
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Flagrante arrepio na espinha: Se é verdade, essa história da Câmara de Faro querer vender uma peça única do Museu Municipal para conseguir umas coroas, é meio caminho andado para a candidatura a Capital Europeia da Cultura…

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

SMS 687. O caminho descendente do petróleo

6 outubro 2016

1.      Não me digam que não gosto do petróleo. Não o detesto nem o odeio. Nunca lhe chamei o líquido pecaminoso, apenas tenho dito que, junto dele, muitas vezes, se tem enroscado o pecado. Nada mais. Mas sempre agradeci que no final do século XIX uns rapazes tivessem começado a imaginar o futuro que foi o do século XX, o século que engendrou duas monstruosas guerras, mas, ao mesmo tempo, guindou-nos para patamares da civilização nunca antes alcançados, muitos deles por via do petróleo. Obrigado, petróleo, esse líquido que chegou aos carros, com uma cor amarelada como se fosse cerveja, mas aos candeeiros de vidro dos nossos avós chegou entre azul e cor-de-rosa, e aos fogões dos anos cinquenta emprestou um odor que ainda hoje há quem o tenha no olfato, um cheiro ácido, de mistura com o da sopa que, sobre três pés de metal, se fervia. Rimo-nos? Não, não nos rimos. Esse era o cheiro do progresso que então chegava à cozinha. Por tudo isso, nunca detestei o petróleo. Só que hoje, desejo que o crude comece a ficar no fundo da terra, para acautelar as nossas vidas, as vidas dos nossos descendentes e a própria sobrevivência da Terra. O seu a seu dono, e cada tempo com o seu. Só que as mensagens, ultimamente, andam confusas.

2.      Muito confusas, mesmo. Os alemães também gostam do petróleo, e já gostaram muito mesmo, criaram máquinas movidas a seus derivados que fizeram avançar a Europa e boa parte do mundo. Espertos? Trabalhadores? Visionários da tecnologia e do progresso mecânico? Sim, claro. Por isso mesmo, não admira que o Parlamento Alemão acabe de aprovar uma lei que impede a comercialização, no seu mercado local, de automóveis novos movidos por motores de combustão, a gasolina ou petróleo, e que isso vá acontecer já a partir de 2030. Esta decisão, já desta semana, dá que pensar. E isto duas semanas depois da inauguração da primeira carreira de comboios alemães movidos a pilhas de hidrogénio…

3.      Dá muito que pensar, sobretudo quando se é português. E ainda mais, quando se é português e se nasceu ou se vive no Algarve. É que aqui, quando o mundo começa a descarbonizar-se, pensa-se na carbonização. Aqui, quando os furos, um pouco por toda a parte, começam a ser reduzidos, preparando-se os países para meterem prego ao fundo, e desacelerarem na produção de energia de baixo carbono, andam umas pessoas, políticos, geólogos e parceiros das petrolíferas, a fazer reuniões mais ou menos controladas, para discutirem os benefícios da exploração do petróleo no Algarve. O que os move? Que convicção? Que interesse? Que ideal? Que clarividência? Que iluminação? Porque querem fazer, agora, aqui, o que nunca se fez, quando a exploração era rentável, e o negócio era lucrativo? Inimigos da nossa terra, tomem cuidado. Há negócios que são demais!

Carlos Albino
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Flagrante sabedoria popular: Claro que, em sentido figurado, designadamente para efeitos eleitorais ou pré-eleitorais, continua a ser válido que em terra de cegos o zarolho é rei. Só que nunca será conveniente que esse rei seja o único oftalmologista da terra… 

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

SMS 686. Educação pública, usos e costumes

29 setembro 2016

Amiúde, carros parados, alguns bem longe do abate, e homens regalados com seus repuxos de bexiga contemplando os três mil componentes do fluido excretório que o fecho-éclair facilita como ato heróico. Por vezes, com instalações sanitárias disponíveis a dez metros. Amiúde, em cafés centrais das localidades a fazerem regra dos das periferias, conversas que deviam ser em tom brando mas que se desenrolam aos berros, cada língua a atropelar o céu da boca do outro e ninguém se ouvindo como se diálogo fosse uma batalha de megafones implantados nas gargantas. Amiúde, o mais baixo calão onde a matéria-prima das Etares faz de sujeito, verbo e complemento direto, com murros nas mesas sobretudo nas sessões televisivas que já fazem da bola uma aula de embrutecimento consentido se é que não é mesmo desejado. Amiúde, uma valente escarradela como tiros ao alvo para o espaço livre entre dois desconhecidos que vão à frente. Amiúde, gente aperaltada e saída esmeradamente do salão de cabeleireira, a coscuvilhar da vida privada alheia aos supetões para que quem ouça fique a saber mais dos ausentes do que se ficaria a saber fazendo devassa dos segredos do confessionário. Amiúde, em restaurantes e quando menos se espera, um poderoso arroto só comparável aos arrotos das vacas domesticadas em cuja ração, para obviar isso, não entra a alfafa e a semente de linhaça, que estão mais próximas das gramíneas que haviam comido no estado selvagem, antes de serem domesticadas. Amiúde, nas grandes superfícies, umas amostras de gás metano de quem se sente no dever de fazer lembrar os outros como é respirar em Marte no centro de uma erupção de gás metano.

Já nem vale a pena falar da cara-de-pau do funcionário ou da funcionária que não diz bom dia, se faz favor, em que posso ajudar, mas dispara aquele “o qué que quer”, ou aquele “diga lá”, ou ainda, o que é pior, nada diz mas abrindo os olhos como polícia do estado islâmico sem se aperceber que a má educação, o mau feito a falta de civilidade lhe transforma a vestimenta de boa marca na pior burka, por mais que pinte os lábios, exiba unhas de gel ou, no caso dos homens funcionários, por mais que pintem a antiga quarta classe com as cores de mestrados. Já nem vale a pena falar dos que atiram à rua pelas janelas todo o género de desperdícios desde os íntimos aos que os frutos se arrependem por terem nascido com caroço. Já nem vale a pena falar dos que circulam a 150 à hora num beco, ou com os altifalantes de seus carros numa exibição de novo-riquismo só comparável a carrossel montado na selva africana, ou que entendem que uma passadeira de peões é mesmo para passar a ferro, ou que, de modo geral, que com um volante na mão, vidros fechados e nariz de catavento se julgam senhores do mundo dispensados de gentileza, dispensados de um sorriso como sinal de agrado por alguma delicadeza alheia.

Etc. Sim, etc… Quem conhece o País, sabe que isto no Algarve é pior que noutros lados, quer pelo que amiúde se constata, quer por aquilo que já nem vale a pena falar. Se houvesse um ranking nacional de educação pública, estou em crer que o Algarve está na cauda, pelo que não é de admirar que a sociedade, além de ser infelizmente uma sociedade com elevado teor e risco de desenraizamento, seja uma sociedade agressiva e até incendiária por dá aquela palha.

As autarquias que tanto dinheiro gastam na promoção de “eventos” com cartazes pelos cantos, folhetos às montanhas e respetivos cálculos populistas, poderiam e deveriam desviar um por cento, um por cento bastaria, para uns papelotes pedagógicos, papelotes de educação pública, a começar pela boa utilização dos equipamentos públicos. E como é de pequenino que se torce o pepino, poderiam e deveriam em parceria com as escolas e bibliotecas das suas áreas cultivar um esforço conjunto e eficaz no sentido do civismo, da civilidade e. já agora usando palavras que todos referem mas poucos levam à prática, no sentido dos Valores.

Carlos Albino
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Flagrante sugestão: Vai nos 18 anos de existência o Encontro de Música Antiga de Loulé, que este ano abre já neste domingo (dia 2), na Igreja de Querença com o músico sevilhano Emilio Villalba no concerto “Secretos Medievales /El sonido olvidado”. Depois, dia 8 de outubro, segue-se o Ensemble de Flautas de Loulé (do Conservatório de Música de Loulé) e o Ensemble Pictórico (Escola de Música do Conservatório Nacional), num concerto de música vocal e instrumental do período barroco, na Igreja de Boliqueime. E por aí afora, até 30 de outubro. A Música Antiga de Loulé, agora dirigido pela flautista Ana Figueira, corre, por assim dizer, pelas igrejas e capelas, e esta é uma das tais coisas que eu gostaria de ver o Ministro da Cultura a aplaudir por é uma das tais coisas em que não há discriminação entre visitantes e visitados. Mas quem chegar primeiro, visita melhor.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

SMS 685. As verdades dos outros são muito cómodas…

22 setembro 2016

Sobre as coisas que direta ou indiretamente a todos dizem respeito, já é tradição esconder ou dizer apenas a parte que nos interessa, caminhando-se alegremente para a sabida fórmula final do “todos ao molho e fé em Deus” ou do “cada um que se governe”.

Vem isto a propósito da avaliação do Turismo agora feita e divulgada em Espanha, designadamente a face oculta desse setor-chave em qualquer país que precise de dinheiro em circulação e investimento. A face visível é a que, também em todos os países, é fornecida pelos canais oficiais e pelas correias de transmissão dos interessados. A face oculta é como o outro lado da Lua - sabemos que existe, mas não se mostra e até talvez convenha que a Lua não faça rotação.

Um relatório das duas organizações sindicais espanholas maioritárias no setor do Turismo (CCOO e UGT) acaba de fazer um retrato nada recomendável  da face oculta dessa atividade emblemática da recuperação económica de Espanha. Basta referir que até agosto, o turismo espanhol superava os 50 milhões de visitantes estrangeiros, quase 8% mais que no mesmo período de 2015.

Então, qué pasa? Passa-se fraude generalizada à segurança social, horas extraordinárias jamais pagas, precariedade laboral recorde, falsos trabalhadores independentes... Que o emprego turístico que está a ser criado é precário, a tempo parcial e em muitos casos fraudulento. Que os dados oficiais não correspondem com o emprego declarado porque se trabalha mais horas que as contratadas - denunciam os sindicatos uma enorme taxa de horas extras não declaradas representando 20% do total, o que configura uma situação negra e oculta. Que pela precariedade extrema, proliferaram os contratos através de empresas multiserviços, pelo que as remunerações são uns 30% menores que os garantidos pelos acordos setoriais. Que as atuais condições laborais do turismo espanhol são frágeis, de alta volatilidade e de curto prazo, afetando mais os jovens e as mulheres. Além disso que a administração não combate a economia subterrânea, designadamente na atividade não regulamentada do aluguer turístico.

Ora muito bem, isto é em Espanha, nós por cá nada disso. As verdades dos outros são muito cómodas para quem esconde ou dissimula as próprias verdades, ou então as selecciona conforme as conveniências. Todos ao molho e fé em Deus.

Carlos Albino
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Flagrante equívoco: Julgava, até há dois dias, que o grande volume de investimentos no Algarve, sobretudo na imobiliária, corria pelos offshores e que as sedes financeiras dos que operam mais significativamente no Algarve não têm cá pé, pelo que tanto faz o imposto ser assim ou assado. Por isso mesmo, julgava até há dois dias, que uma espécie de sociedade paralela de interessados apenas está no Algarve como preparo para entrada no paraíso fiscal. Puro equívoco, puro engano! Afinal, os investimentos, as sedes financeiras e a tal sociedade paralela tanto que têm pé que até perdem o pé.
   

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

SMS 684. Nós, os políticos…

15 setembro 2016

A palavra paradigma aplica-se com justeza a José Manuel Durão Barroso. Já andámos por muito tempo e cansativamente à procura de “um novo paradigma” para a política portuguesa, os políticos que se dizem fora da política ativa para não falarem das coisas pelos seus nomes usaram até à exaustão a palavra paradigma, para os que surgem a pregar nos canais de televisão como tempos dissimulados de antena e nas colunas partidárias cativas em jornais já foi paradigma para um lado e paradigma para o outro, houve um tempo em que Portugal era uma chuva continuada de paradigmas sem que alguém explicasse com clareza a que paradigma de referiam. E como as modas paradigmáticas pegam, nas campanhas eleitorais lá saltava da boca a palavra paradigma, desde o candidato a deputado que, omitindo ideias por vezes por manifesta impotência, pronunciava o seu paradigma como dentífrico, passando pelo candidato à câmara que não botava discurso sem 47 paradigmas, até aos concorrentes das freguesias - houve um que, verberando o presidente de saída por falta de obras públicas e prementes, se propôs, caso ganhasse, à “construção e inauguração de um grande paradigma no centro da freguesia”… Pelos vistos, toda esta gente, ao falar de paradigma, além de gastar a palavra, parece que não sabia o que estava a dizer. Não é o caso de José Manuel Durão Barroso que sabe muito bem o que é um paradigma, e agora mais sabe até porque ele próprio se converteu num triste caso paradigmático, a contrastar com o teor dos discursos laudatórios, quer do condecorante quer do condecorado, mal deixou de ser um paradigmático presidente da Comissão Europeia, por supostos serviços prestados ao paradigma nacional.

Em simultâneo com a “era dos paradigmas”, foi também inaugurada a fase dos discursos dos que mal abriam a boca, usavam o plural majestático - “Nós, os políticos…” Talvez para fazerem crer que os  políticos, assim auto-discriminados, eram uma espécie em vias de extinção a qual urgia ser protegida, talvez para inculcarem a ideia de que tal espécie humana incluía apenas sacrificados em nome de um difuso interesse público, ou então predestinados, sabe-se lá por que critérios divinos, para servirem os outros heroicamente. A vida política era assim apresentada como que um “sacrifício público” sem paga possível. E para justificar a falta de qualidade de tais sacrificados ou predestinados, chegou-se a espalhar o receio de que ninguém, nenhum quadro ou nenhuma inteligência reconhecida queria “entrar para a política” e assegurar a continuidade da espécie. Na verdade, quem os ouvia e infelizmente ainda ouve, também se referiam e referem aos imolados usando o “Vós, os políticos…”

Os factos acabaram de anular os receios - são bastantes, muitos e cada vez mais os que querem ser políticos, desde que a política lhes faculte o paradigma de uma carreira, pela qual subam até mais não, por via dos paradigmas filtrados e administrados por pequenos colégios ou grupos (locais, provinciais e nacionais, porque europeus ainda são uma ficção sem hino sentido, sem constituição a sério e sem bandeira que ocupe o lugar número um do estrado). Os paradigmas saídos dessas minorias (quanto mais locais, mais padigmáticas) , ainda assim podem invocar a ética política, enquanto o seu escrutínio pela sociedade for meramente formal e gerida pelos que tanto dizem “Nós, os políticos…” como pelos que se isentam com o “Vós, os políticos…”, não se saindo daqui.

José Manuel Durão Barroso é um mero caso paradigmático de quando a política e a ética não se apresentam como duas retas paralelas que garantam a qualidade da Política e da Ética. Fez-se vítima da ratoeira do seu próprio paradigma. É um caso paradigmático de topo, é certo, mas há mais, muitos mais casos de tais paradigmas: nacionais, provinciais e locais.

Carlos Albino
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Flagrante prova de RTP Regional do Porto: A Universidade do Algarve segue na tendência de consolidação do número de candidatos colocados na 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior acima da média nacional (51%). O noticiário nacional da televisão pública feito a partir do Porto, foi ali à Universidade do Porto, à distância de um braço que Marrocos fica longe. Isto é que é regionalite aguda.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

SMS 683. Um elevado ato de cultura

8 setembro 2016

Uma simples carta pode ser um elevado ato de cultura, sobretudo quando abre com a frase de Dmitri Shostakovich - “A Arte destrói o silêncio”. A carta foi endereçada por Joana Carneiro, maestrina titular da Orquestra Sinfónica Portuguesa, os destinatários, presumo, foram muitos, mas na parte que me toca não poderia ficar em silêncio. Todas as orquestras começassem a temporada com cartas como esta e todas as orquestras tivessem maestrinas ou maestros que semanas antes de suspenderem na batuta o silêncio geral da sala, escrevessem - “sempre entendi a Música como uma arte de relação: relação entre os músicos da orquestra e da orquestra com os criadores de todas as artes, com a comunidade e com a História”. Na verdade, sem esta relação, músicos, criadores, comunidade e História ficam em silêncio e sem a Arte que destrua os silêncios mortais. Joana Carneiro definiu essa relação como a ideia fundamental da orquestra que dirige e que, assim se espera, depois do Centro Cultural de Belém vai percorrer o País, País onde há muito silêncio.

A concretizar a relação da Orquestra Sinfónica Portuguesa com criadores de outras artes, diz-nos Joana Carneiro que “é com enorme alegria que podemos anunciar uma criação do grande artista Júlio pomar que, generosamente, graças ao seu traço genial, acedeu ajudar-nos a compreender uma das mais importantes peças sacras de hoje: as Sete Últimas Palavras de Cristo, de James MacMilan.” Sublinhe-se que, no País onde nem sequer a Arte destruiu o silêncio, quando uma orquestra, desde a de pífaros escolares à de solistas reunidos, apanha uma sombra de Júlio Pomar que seja ou mesmo um qualquer criador que faça sombra, não é a orquestra que é ajudada a compreender, mas, pelo contrário, ela ou o seu maestro é que faculta ao Artista ou criador a aprendizagem. É claro que, perante orquestras e maestros destes, os “públicos” ficam em silêncio por uma questão de civilidade e de lhaneza.

A temporada ainda não começou, os músicos estão longe de tomarem as suas cadeiras no palco e na estante de regência está para ser colocada esse pequeno bastão para substituir o rolo de partitura a que se chama batuta, introduzida por Carl von Weber, vai para 200 anos, e que ficou para sempre a distinguir o silêncio da Música. Desconhece-se como a temporada vai ser, desconhece-se se o périplo da Orquestra pelo País vai ou não ser uma espécie dessa semi-volta a meio-Portugal, mas, para começar, a carta de Joana Carneiro, redigida com alegria, juventude e crença em que só a Arte destrói os horríveis silêncios próprios do despovoado, tal carta foi e é um elevado ato de Cultura.

Assim sendo, se Joana Carneiro e a sua Orquestra vierem ao Algarve, sejam bem-vindos que a gente precisa de combater a sazonalidade cultural.

Carlos Albino
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Flagrante Vítor Neto: A Associação Empresarial da Região do Algarve (NERA) propõe que seja realizada «uma reflexão regional séria sobre as causas da evolução positiva do ano», que envolva «empresários, instituições e forças sociais da região interessadas na economia e no emprego», para manter esta dinâmica positiva, nomeadamente no setor do turismo. Adverte Vítor Neto que  o Turismo beneficiou das crises de destinos concorrentes, mas que seria um grave erro pensar que essa situação se vai manter. Com ritmos diferentes, todos eles irão tentar recuperar. E têm atrás de si poderosos interesses a apoiá-los (Estados intervencionistas, grandes investidores internacionais, operadores turísticos, cadeias hoteleiras, companhias aéreas…). Mais adverte, que o Turismo dos portugueses na região, exige análise rigorosa: dos números, formas de alojamento, consumos. Tal reflexão regional impõe-se porque não bastam as análises «nacionais» que «esquecem» sistematicamente a especificidade do Algarve e diluem – por razões políticas – o seu peso no quadro nacional. Quem me avisa, bem me quer.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

SMS 682. Sim, por uma sociedade decente...

1 setembro 2016

É um título de livro. Calma, que não é súplica, apelo ou, muito menos, reprimenda. Cheguei à página final, a 268, e dei por mim a repetir – “Este homem pensa, precisamos de pensadores como este”. Sim, “Por Uma Sociedade Decente”, é o livro* mais recente de Eduardo Paz Ferreira, um professor catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa que nos fala terra a terra. Aliás, seria bom que falasse e fosse ouvido de terra em terra. Não vamos aqui falar sobre o livro, mas do livro. Oito capítulos, cada capítulo com uma mão cheia de breves ensaios que acabam por ser um filme das esperanças e pavores dos nossos dias. Filme pensado sobre o que há a fazer e nos deve comprometer no que esperamos de bem, e pondo o dedo nas feridas de que nos queixamos quando nos apercebemos que a vida apenas faz sentido em sociedade. Numa sociedade que seja decente. A vida só não faz sentido numa sociedade indecente.

Vale a pena descrever ou seguir à letra as cenas deste filme de ensaios de Eduardo Paz Ferreira, com tomadas e planos que dão interpretação às cenas dos nossos dias, as quais suscitam discussões, geram inquietações, e, se ou quando o filme for falado em língua não materna, só tem legendas decentes na hora do voto, seja este sim, não ou nim. O filme abre com uma interrogação: “Setenta anos depois da Segunda Guerra Mundial: o que ficou do espírito de 45?”. Segue-se a cena de que tantos falam, poucos entendem e bastantes se aproveitam para enriquecimento sem justa causa: “Estado Social: ascensão e crise”, a que se segue um diagnóstico já do tempo de gente hoje madura - “A década de 70: um mundo novo, valores em mudança”. Depois, uma pergunta sacramental para famílias sem empresa, empresários sem família e ofícios correlativos: “O Estado pode pouco?”. E não poderia ser omitida a cena que, em língua materna, tem por título “O declínio dos sindicatos e a economia do biscate”. A seguir, a cena que se entende por gestos como no cinema mudo, mas que poucos ousam dizer decentemente em voz alta: “A desigualdade mata as pessoas. A desigualdade mata as economias”.  E tal como na linguagem cinematográfica há um elemento essencial que se chama corte, lá se segue o corte: “A sociedade de consumo: as avenidas da liberdade”. E para remate da ação, uma cena titulada entre aspas porque pega no título desse notável livro de poemas de Luís Filipe Castro Mendes: “A Misericórdia dos Mercados”.

Eduardo Paz Ferreira chamou à cena final deste filme de ensaios – “Em jeito de conclusão: uma proposta modesta, começar de novo”. Aqui é que surge um senão, porquanto é de lhe pedir que não conclua – continue. Uma conclusão pertence a tratados, e ensaios são para continuar, continuar e continuar a luta por uma sociedade decente.

* “Por Uma Sociedade Decente - Começar de Novo vai Valer a Pena”, Eduardo Paz Ferreira (Marcador Editora/Presença, julho de 2016)

Carlos Albino
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Flagrante deficiência: Com tanto festival por aí imitando-se uns aos outros, falta um festival - o dos Macacos de Imitação.