Francisco Pinto Balsemão, assim se espera, vem ao Algarve, no sábado da próxima semana (dia 9), falar sobre a Imprensa Regional no Século XXI. É um tema aliciante porque no Século XX esse foi um desafio que, salvo dois ou três casos e mesmo assim configurando êxitos relativos e circunstanciais, Portugal não conseguiu ganhar e o Algarve muito menos. Factores vários podem explicar o insucesso, mas sempre que esse tema vem à baila recordo-me daquela saborosa historieta de duas modestas sapatarias que, sendo as únicas e frente a frente na única rua de uma recôndita aldeia, encetaram forte competição entre si. Os leitores saberão da história mas não faz mal recordar. Um belo dia, o dono de uma das sapatarias resolver afirmar-se e colocou um grande letreiro sobre a porta dizendo assim: «A Melhor Sapataria da Aldeia». A resposta do concorrente não tardou muito pelo que, escassos dois dias depois, podia ler-se sobre a porta da outra sapataria um letreiro mais persuasivo: «A Melhor Sapataria da Província». O outro, porém, não ficou de braços cruzados e, ainda a tinta do adversário estava fresca, não hesitou em emendar o letreiro inicial para isto: «A Melhor Sapataria do País». Naturalmente que a aldeia entusiasmou-se com esta guerra de tabuletas e qual não foi a surpresa quando, no outro dia, surge na sapataria da frente letreiro supostamente mais convincente: «A Melhor Sapataria do Mundo»... Aqui, chegado a este patamar de qualificação, o dono do estabelecimento respirou de alívio convencido de que o seu competidor estava derrotado em definitivo. O outro dono ficou deveras perturbado, passeou rua abaixo rua acima matutando, matutando... e, num daqueles momentos em que o instinto de sobrevivência faz com que a esperteza humana obrigue o corpo a dar um salto, pois deu o salto, abriu o escadote e emendou o letreiro para «A Melhor Sapataria desta Rua».... E com isto ganhou a batalha e terminou a guerra.É claro que a fábula ensina que a Imprensa Regional deve pretender sempre ser a melhor «desta Rua», porque o País - e então o Mundo! - tem muito mais ruas, ruas com outros meios e interesses, tantas ruas! Só que no Algarve é a rua do Algarve que interessa. Por outras palavras, já Victor Hugo se interrogava - «Entre o telescópio e o microscópio, qual deles a melhor visão?» Aguardemos então pelo que Francisco Pinto Balsemão nos vem dizer à nossa rua. Seja benvindo!
Carlos Albino
O diálogo entre o Algarve e a Andaluzia tem sido insuficiente e a cooperação entre as duas unidades históricas do sul da Península, na prática, é insignificante – há umas «coisas» por ali e por aqui mas decorrendo do voluntarismo e das meras boas vontades. Não há um plano, uma estratégia concertada entre os dois lados, uma ideia grande. O que é estranho, porquanto entre o Algarve e a Andaluzia não há conflitos fronteiriços, não há preconceitos de monta nem sequer suspeições de que Sevilha queira tomar Faro, ou que Huelva queira suplantar Vila Real de Santo António. Os andaluzes, nisso – estou em crer – estão a quilómetros e quilómetros dos estremenhos que começam logo por mentir nas fronteiras. Entre o Algarve e a Andaluzia esse problema não existe.
E aí está alguma polémica com as chamadas «Secretarias de Estado deslocalizadas», designadamente com a do Convento de São Francisco em Faro. Chamou-se a essa «deslocalização» quase tudo: ora era regionalização ou anunciado passo para isso para logo se corrigir para desconcentração, e depois, vendo-se como a emenda aumentava a asneira, passou a falar-se de descentralização… Mas independentemente destes jogos de palavras, o Estado continuou centralista – como sempre foi e por cero continuará a ser – cometendo aos secretários de Estado «deslocalizados» a função de fazer promessas, de amolecer justas pretensões e de satisfazer a vaidade de meia dúzia convencida de que ao apertar a mão do secretário de Estado estaria a apertar a mão do Estado…
O que está a acontecer, dia e noite, nas estradas do Algarve e nas ruas das nossas cidades e vilas, é demais e não tem comparação com o que se passa no resto do País. Refiro-me ao trânsito selvagem, ao caos do estacionamento, à falta de civismo geral, ao desleixo das autarquias em matéria de educação pública, planos de persuasão e campanhas de prevenção, refiro-me à manifesta passividade das autoridades (não é só a falta de meios e incentivos…) e, sem dúvida, refiro-me a um estado geral de permissividade – até parece que ninguém se sente lesado.
De repente eis que me apercebo de que aqueles quatro enormes monumentos de analfabetismo geográfico desapareceram e não só o Algarve voltou a não dar sinais de si, como também, pelos vistos, trinta e dois mil contos foram à viola.