1.ª – Dizem-me e não acredito que seja verdade – No âmbito do Plano Regional de Turismo, houve concurso da RTA para o fornecimento de viaturas para apoio às praias do litoral algarvio (uma por concelho). Como mais vale tarde do que nunca, o concurso apenas devia merecer aplausos. Só que as viaturas têm tracção às quatro rodas – se entrarem pela areia, atolam-se. Além disso não dispõem de ar condicionado pelo que será de ver tais viaturas estacionadas junto dos pontos de boa cerveja à escolha dos funcionários e o alegado apoio às praias em breve mais não será do que passeatas. Bem! Os comunistas angolanos dos anos 70 do século passado ficaram felizes pelo fornecimento soviético de limpa-neves para o alegado asseio das avenidas e ruas de Luanda. Os limpa-neves obviamente nunca chegaram a ser utilizados e ainda hoje jazem num grande cemitério de ferro inútil. No Algarve ainda não se chegou aos limpa-neves para o asseio das praias onde funcionam ou dizem que funcionam tractores de agricultura, mas estas viaturas sem tracção às quatro rodas e sem ar condicionado para apoio das praias, serve de metáfora para a qualidade dos decisores do Algarve, a ser verdade o que me dizem mas em que não acredito. Na verdade, vivemos de passeatas.
2ª. – Mas que Volta a Portugal? Foi verdade – a Volta a Portugal que, com todo o descaramento começou e terminou autotitulando-se Volta a Portugal, mentindo, não passou de uns circuitos pelas Beiras, pela área do Porto, pelo Minho com uma devassa por Trás-Os-Mintes e, em perfeita homenagem ao centralismo do Estado, por uma tirada curva entre Lisboa e Oeiras... Foi uma Volta a Portugal dos Pequeninos e mais nada. E não temos que nos lamentar porque o desporto das duas rodas mais não imita do que os decisores beirões, minhotos, transmontanos e alguns destes emigrados em Lisboa pretendem da Regionalização e com a Regionalização: um Portugal dos Pequeninos – pequeninos mas espertos de uma esperteza que estraga a Democracia. A Volta serve de metáfora.
3.ª – Sinalética, tabuletas – Então nisto, nos concelhos de Lagoa e de Albufeira é o caos. No penúltimo fim de semana, até conseguir chegar à casa de verão de um embaixador algarvio, foi o inferno. Em vez da indicação correcta dos sentidos das terras, dos sítios e dos lugares, deparei pelas estradas e caminhos com dezenas e dezenas de tabuletas, uma para a Casa Gabirá ou para a Moradia Isabú, outra para a Vivenda Ginga, grandes cartazes para a Urbanização Conchinha, outros do mesmo tamanho para o Aldeamento dos Passarinhos do Pinhal para não falar das dezenas de setas com quilómetros de antecedência para a Cabeleireira Céu, para o Canalizador Esteves e para Mecânico Jocas, por entre muitas outras cabeleireiras, outros tantos canalizadores e não menos mecânicos - nomes de sítios, lugares, terras ou sentidos de terras, nada, nada e nada. Este péssimo hábito está a chegar, pelos vistos, já ao concelho de Loulé. Um sujeito que tenha abra um restaurante a que por hipótese dê o nome de Tasca da Alfarrobeira Dobrada ou mesmo alguém que tenha recuperado a sua casinha a que passou a chamar Casa do Pintatolas ou comprado coisa semelhante baptizando-a de Vivenda Xico Beirão, pois não tardará que quilómetros antes e em cada cruzamento ou desvio lá surjam uma tabuletas de papelão presas com arames, a indicar a Casa do Pintarolas, a Tasca da Alfarrobeira Dobrada e a Vivendo Xico, encavalitadas noutras tabuletas num verdadeiro enxame a ocultar as poucas placas que indiquem nomes de sítios lugares e terras. Cada um faz o que lhe apetece, cada um pensa apenas no seu umbigo e as Câmaras porque nada ou pouco fazem, também deixam fazer tudo. Já um dia me referi ao cemitério das tabuletas. É uma metáfora.
5.ª – Turistas ou penitentes com sacos de plástico, não? Todas as semanas, seja Verão ou Inverno (já não há diferença), faça sol ou caia chuva, há todos os sábados um mercado em Loulé que atrai centenas e centenas de turistas que ali são despejados de autocarros. Possivelmente, em alguns sábados são mesmo milhares que vão comprar de tudo onde também há de tudo, desde as rendas da Madeira feitas na China até ao artesanato da China feito na Madeira ou pelo menos transaccionado no ou através do off-shore da Madeira. Barracas sem conto armam-se desarmam-se todos os sábados para isso, não faltando o cheiro do polvo assado e das frituras enquanto uns mascarados dos Andes fazem de índios a tocar flauta como se fossem vereadores da oposição local, ou seja, tocam bem flauta na oposição. Observei essas enormes filas ou mesmo magotes de turistas, neste último Sábado: entram no mercado de mãos a abanar e saem com sacos de plástico na mão com o inimaginável lá dentro mas que levam como inefável recordação do Algarve. Só que esses milhares de turistas que ao longo do ano são despejados na periferia de Loulé, de Loulé pouco ficam a conhecer – não há um folheto colocado nas suas mãos, não há uma lembrança simpática, uma sugestão de roteiro do riquíssimo mas censurado património cultural local que tem tabuletas a mais para as portas abertas que há. É uma metáfora, claro. Uma metáfora de como o Algarve recebe os turistas, tratados como penitentes, ainda para mais penitentes com sacos de plástico na mão a ouvir os que fingem de índios!
6.ª – A sardinhada do catamarã. E foi assim, pois poderia ter sido pior junto à praia da Galé. Como é que é possível que o catamarã de Vilamoura que se incendiou que nem um fogareiro, servisse sardinhadas a bordo? E a ser verdade o que uma passageira afirmou, como é possível que o catamarã não tivesse salva-vidas, com os extintores para inglês ver e as mangueiras sem água? Felizmente que os 90 turistas que partiram alegres e por certos julgando-se seguros, foram salvos pelas embarcações populares, por embarcações de recreio e até por motas de água, antecipando-se ao posterior aparato de lanchas da polícia marítima e, claro, do helicóptero da Força Aérea. Naturalmente que se segue agora o inquérito para apurar a origem do incêndio, sabendo-se entretanto que o catamarã (com 30 anos e capacidade para 120 passageiros) tinha todas as inspecções em dia. Não sabemos se a sardinhada entra na lista das inspecções, mas isso também e já agora por metáfora, pouco importa uma vez que há pedreiras no Algarve a laborar com as inspecções em dia mas cujos sismógrafos estão «avariados» há dezenas de anos. Sampaio que, pelos vistos, tem dificuldade em encontrar gente com feitos digna de ser condecorada, bem poderia condecorar e com justiça os denodados banhistas que salvaram das chamas e da morte certa aqueles 90 seres humanos que julgavam que o Algarve não tem metáforas.
7.ª – O comboio de Loulé. E para finalizar, outra triste metáfora – na Estação Ferroviária de Loulé, é verdade que cerca de uma centena de passageiros que esperavam na linha que lhes tinha sido indicada, pelo comboio Intercidades para Lisboa, viram o comboio partir sem que, na era do telemóvel, maquinista e chefe da estação dessem entre si conta do engano. Depois veio a explicação da CP que não a culpa não foi da CP mas da Refer e possivelmente a Refer dirá que foi a CP, como nas discussões de comadres. Mas o certo é que aquela Estação de Loulé que serve uma área turística dita de excelência (Vale do Lobo, Quarteira, Vilamoura) é uma metáfora e, segundo me dizem mas em que também não acredito, para além do serviço de bar digno de catamarã sem inspecção, também está apetrechada para grandes sardinhadas e churrascos de caça. Possivelmente nem a CP nem a Refer foram ainda à Estação de Loulé ou se foram, foram por aquela metáfora que, como se sabe e é habitual, fica alojada num hotel de cinco estrelas. Claro, falamos por metáfora.P.S. – A propósito, há em Loulé um excelente Mapa da Cidade para turistas que está tão limpo, tão limpo que os ingleses conseguem escrever a dedo as suas metáforas...
Carlos Albino

É possível que em Setembro, com a partida dos turistas e o apertar da crise, o tom do debate político no Algarve suba de tom e de nível, mas até agora tem sido ensonsso em Faro, insípido em Portimão, dessaboroso em Silves, desgracioso em Loulé, desanimado em Tavira, desgostoso em Albufeira, sensaborão em Lagos, e até mesmo em Vila do Bispo, desta vez, à falta de um novo Infante a traçar planos do futuro sentado no forte de Sagres e a olhar para a fotografia, o momento é sensaborão. O debate autárquico, por todo o Algarve, é desenxabido e os cartazes parecem dizer tudo ou pelo menos traduzem grande parte da verdade – não se vai além do «eu sou melhor do que ele», «eu sou a honestidade», «só eu serei um presidente para todos», «a competência dorme e acorda ao meu lado»; enfim, desenxabimento, é a palavra, para mais com enormes fotografias em que cada um dos candidatos apenas prova que está mais gordo e apenas ligeiramente mais velho do que há cinco anos, embora todos sorridentes ou então com olhos solenes de esquisita Sexta-feira Santa porque já vamos pelo Verão fora.
No entanto, tanta coisa haveria que discutir! A começar pela questão financeira dos municípios, do endividamento e dos expedientes para obter empréstimos por formas que nem o banco central sonha ou então a que fecha um olho mas para os quais (expedientes) aldeamentos e urbanizações têm os dois olhos abertos. E nem falemos das acumulações, dos empregos políticos ou da sua expectativa que na generalidade gerou as listas, nem falemos da ruína das fiscalizações municipais, da péssima e por vezes prepotente para não dizer mal criada relação dos funcionários locais com as costas quentes do poder face aos administrados por efeito dos comandos que os comandam explicando-se todos com essa profissão mais antiga do mundo que não é a que alguns pensam e que é a burocracia, por certo mãe da outra que se julga mais antiga.
O êxito ou fracasso da apresentação das listas acabou assim por ser aferido pelo maior ou menor número de gente que se inscreveu para o jantar – faltando ainda alguns jantares – e avaliado também pela qualidade e suposto nível dos apresentadores, uma estrelas políticas despachadas por militância de Lisboa e que, regra geral, teceram (faltando a algumas ainda tecer) rasgados elogios ao cabeça de lista porque o segundo e terceiro já não contam, como provam as fotografias dos cartazes.
Tudo isto poderia acontecer até como tem estado a acontecer e nenhum mal daí viria ao mundo. O problema é que o debate político autárquico esgota-se nisso, não passa disso e é quase só isso - «eu sou melhor do que ele», «eu sou a honestidade», «só eu serei um presidente para todos», «a competência dorme e acorda ao meu lado»…
Nenhum governo, até hoje, calculou o custo do não-Algarve, embora todos eles e respectivas extensões telefónicas em Faro que se costuma designar por direcções ou delegações regionais, de uma ou outra forma, tenham contribuído para o descalabro do Algarve – descalabro urbanístico, descalabro da agricultura, descalabro das vias de comunicação e dos transportes, descalabro da agricultura, descalabro dos portos e das pescas, descalabro da cultura, descalabro até do próprio descalabro. Mais um pouco e não teremos o Algarve mas sim o não-Algarve. O sábio oportunismo de autarcas, os interesses rasteiros colados nas costas dos gestores das empresas municipais e inter-municipais, a pressão de empresários que têm tudo menos escrúpulos, a febre das imobiliárias que se pega como a malária em São Tomé, o espavento cinicamente eleitoral de profissionais da política candidatos a todos os parlamentos que prometem irresponsavelmente aquilo que sabem que não poderão fazer nem lhes deixam fazer ficando calados quando têm as cores do poder e dizendo umas coisitas para marcar presença e dar ares de grande verticalidade quando são remetidos para a oposição, tudo isto tem conduzido o Algarve para a negação do Algarve, para o Algarve.
O obreirismo eleitoral não é uma invenção algarvia mas tem funcionado aqui como instrumento de obsessivo êxito político. Autarcas que «não mostrem obra» julgam que tem os dias contados, ir para eleições sem uma boa dúzia de inaugurações com muitas palmas é o mesmo que derrota à vista, porquanto julgam que cada palma é um voto, e, mesmo que a obra não decorra dos méritos da autarquias mas das empresas que as oferecem a troco de qualquer coisa que nunca se sabe o que é, as obras salvam, sobretudo se forem inauguradas um ou dois meses antes do sufrágio porque, nestas coisas, julgam os autarcas que os eleitores continuam a ter a memória curta. E aqui, neste pormenor da memória do eleitor, é que está o erro com que muitos autarcas julgam que dissimulam as suas virtudes ou a falta delas – o eleitor tem memória, o eleitor sabe já de experiência própria quanto lhe custa não ter memória.
1. Consta que Alte não gosta da intervenção que a Câmara de Loulé destina para a emblemática Fonte Grande. Será portanto mais um caso de desencontro entre o gosto oficial do município e o gosto da população – é um desencontro natural e isso ocorre pelo mundo fora, entornando-se o caldo quando um dos lados não manifesta bom senso ou então se impõe com autoridade majestática.
1. É triste. Temia mas está a acontecer já nesta fase das lutas autárquicas: quem tem estado na oposição – independentemente do poder ser PS ou PSD – não sai dos chavões de que «o concelho parou nestes últimos anos», que «nada foi feito», que «os projectos ficaram na gaveta à espera de aprovação», que «a saúde é só para alguns» e por aí fora. Trata-se de uma visão redutora da competição política e também se trata de contar com o tal pressuposto de que os eleitores são uns ignorantes, que não vêem nada, que não conhecem quem está na luta, o que é triste. Mas o que é muito mais triste é uns quantos senhores, em vez de provarem méritos, mostrarem que têm golpe de asa e seriedade, reduzam a democracia a luta corpo a corpo, a duelo em que o primeiro atingido cai para o lado, a guerra política onde vale tudo menos arrancar olhos. A democracia autárquica obviamente que não é isto. Mas esses senhores insistem.
Não sei mas gostaria de saber se é o forte construtor civil que tem razão ou se é o fraco e por ceto indefeso sexagenário António Afonso que viu a sua habitação a ser demolida às seis da manhã e à força que mais razão terá. O que se sabe é que os responsáveis por um empreendimento com mais de 800 fogos, pela descrição do jornalista Idálio Revés, fizeram ou mandaram fazer o inacreditável porque é próprio de uma sociedade de barbárie: nesse começo de dia, arrastaram o homem para cima de pedras, taparam-lhe a boca para não gritar e deitaram-lhe a casa abaixo onde vivia há 35 anos para o empreendimento avançar... Não é assim que a razão se apura, não é assim que se trata um ser humano. Na verdade, alguns construtores civis actuam no Algarve como se fossem ocupantes da Faixa de Gaza ─ e então por essas falésias onde não há ninguém é um ver se te avias. Mas se fora das falésias encontram um ser humano, alguns fazem obra desta, à margem dos tribunais, à margem da polícia, à margem da segurança social. Volto a repetir que não sei se António Afonso tem razão, o que sei é que o construtor a perdeu com esta acção própria da barbárie. É evidente que a Câmara de Faro e a PSP, cada entidade por lado teria uma palavra a dizer sobre a hora ou enquanto era tempo. A PSP descartou-se bem («os factos terão ocorrido antes da chegada da polícia») e a câmara em hora de eleições silenciou-se ─ o que é de mau tom numa sociedade onde egoístas e egocêntricos campeiam cada vez mais. Resta dizer que para executar acções como esta de Faro, mão-de-obra «especializada» não falta no Algarve... A polícia conhece essa mão-de-obra e os seus elevados conhecimentos de Direitos Humanos que aplicam com mestria nas horas vagas e pela calada da noite que é a prima irmã da clandestinidade. Mas os construtores também sabem. Vamos bem.
Primeira citação, o programador de Faro Capital da Cultura, Miguel Abreu, disse nem mais nem menos que «temos de ver se as pessoas percebem que o espectador do Algarve é igual ao espectador de Paris, de Lisboa ou de Nova Iorque». Nem mais nem menos – é igual. Igualíssimo. Grande programador!
O primeiro-ministro José Sócrates escolheu Sagres para algumas decisões importantes mas tardias como são os casos do ponto final na novela da Barragem de Odelouca. (mesmo assim a ver vamos…) e do plano de ordenamento da orla costeira. Na verdade, quem percorra a costa algarvia, sobretudo na zona de Quarteira-Albufeira, o que parece ter orientado aquela gente (autarcas, investidores, arquitectos e construtores) foi um plano de caos costeiro, verdadeiro caos típico de economia virtual, cega e aldrabona além do mais com sede em paraísos fiscais.
Possivelmente tive azar. Bem queria cerejas e morangos, mas tive azar. Fui a quatro hipermercados, dois supermercados e a dois minimercados à procura de cerejas e de morangos a sério, mas tive azar – ou eram cerejas do Douro, com dedo espanhol, com a cor dos olhos de borrego morto, sem sabor e metade bolorentas (toda a gente sabe que cerejas a sério são as da Cova da Beira, onde os produtores estão desesperados por não conseguirem escoar a sua fruta ímpar), ou eram morangos espanhóis, verdadeiros monumentos às hormonas e que, há duas semanas, enganado, comprei à beira da estrada da Patã, mas tive que os deitar fora – eram intragáveis. E apenas para verificar até onde as coisas podem chegar, andei pela 125 onde os pequenos agricultores, talvez mais por desespero do que por manha, pelos vistos se prestam, paredes meias com comércio ilegal mas a pretexto das laranjas «do produtor», a servirem de esgoto da fruta que a Andaluzia rejeita e não pode exportar para a Europa minimamente exigente. Afinal, nem uma cereja a sério, nem um morango a sério encontrei por todos os mercados possíveis numas três horas que não dou como perdidas – nessa experiência percebi «a coisa». Quer isto dizer que Portugal, cujos políticos andam por aí entusiasmados com o Mercado Interno Ibérico depois do entusiasmo pouco ou nada sério com o Mercado Interno Europeu, não conseguiu realizar e garantir o seu próprio mercado interno, o mercado interno português.
Foi em Novembro de 2003 (como o tempo passa…) que aqui se pediu ao Presidente Jorge Sampaio para fazer uma Presidência Aberta no pobre Algarve, no Algarve dos pobres, no Algarve da pobreza que é a maior parte do Algarve. Pediu-se que o Presidente percorresse a Serra e o Barrocal, que ouvisse os agricultores, os autarcas do interior, que fosse a Alcoutim, que falasse com os de São Brás, os de Loulé, os de Silves e os de Monchique, que se confrontasse com o paradoxo de uma Região que é tida por rica mas que tem as zonas mais pobres do país, que alertasse para a dramática ruptura cultural, para o grave problema de comunicação que atravessa e fere a sociedade algarvia. O Presidente Sampaio nada fez e agora com eleições, referendos e com um pé de saída, já é tarde para o fazer. Foi ao Minho tratar de descentralização, andou nove dias na Guarda, percorreu a Beira Baixa a propósito de educação, esteve em Évora, andou por todo o lado e, há pouco, até circulou por estradas e auto-estradas por causa da sinistralidade rodoviária. Para o Algarve, nem uma Presidência Aberta decente e sem encenações, nem sequer um 10 Junho, um diazinho de Portugal que recolocasse a dignidade de Sagres traída. Por tanta azáfama presidencial, Sampaio esqueceu o pobre Algarve onde acabou por vir apenas episodicamente e, mais recentemente, por umas tacadas de golfe pelo que, depois de condecorar Palmer com a comenda do mérito, abalou. Na verdade, Sampaio e os governos têm tratado o Algarve à tacada e ficam muito contentes se acertam com os seus méritos nos buracos – como se essa fosse a sua função, a função do Presidente e a função dos governos. Sampaio, assim não. Mas já é tarde.
E aí temos cada Escola com o seu bilhete de identidade, havendo já muitas poucas no Algarve sem um nome de «patrono» ou sem uma designação mais ou menos apologética. Algumas escolas, melhor dizendo, as direcções de algumas escolas foram atrás de nomes mais ou menos célebres pescados por entre as relativas celebridades da terra ou dos arredores; outras direcções escolares pretenderam afirmar, enfim, alguma ideia política de progresso; outras ainda quiseram apenas homenagear um morto. Mas quase todas as direcções escolares procederam e decidiram como se todas as escolas tivessem que estar associadas a um patrono célebre, a uma ideia supostamente salvadora ou, à falta de melhor, a um morto que pouco mal tenha feito em vida.
Inevitável, é inevitável falar-se do projectado Hospital Central do Algarve e do ministro Correia de Campos que é uma tristeza de ministro. Primeiro, antes das eleições, era ele ainda mero ou presuntivo candidato a ministro para mudar Portugal – bem nos recordamos – disparou contra aquele anseio de todos os algarvios que corresponde a uma prioridade e necessidade evidentes, sendo de imediato desmentido por José Sócrates e o assunto ficou por aí porque, todos nós ou, melhor, a maioria absoluta de nós queria mudar Portugal para melhor e não para pior.
Como habitualmente, nas manhãs de sábado, tento passar o melhor possível a pente fino as coisas do Algarve. Para tanto, nada melhor há do que jogar mãos à imprensa disponível – sento-me numa pequena e discreta esplanada de café e meia-hora basta para solitariamente ficar ciente de algumas coisas boas e outras francamente más para a região, passando os olhos por esses sete títulos que me aguardam na tabacaria. Numa das últimas vezes, tive companhia. Um influente homem pede para me fazer companhia, concedo e ele senta-se. Ao ver sete jornais algarvios, para além das três publicações da imprensa diária e semanal que selecciono também por hábito e simpatia, o homem não disfarçou um enorme espanto. «Tantos jornais que você lê?» - perguntou-me, sorvendo meio copo de cerveja (mais caro que os 0,90 € do Postal do Algarve) enquanto eu ia mexendo o meu cafezinho. «E você não lê nenhum jornal?», tentei saber, ao que o influente homem replicou com o argumento de que os jornais são caros – «E então logo essa meia-dúzia!» – e falou, falou, dizendo que «Jornais só à borla!» e que «Mandam-me dois pelo correio que nem abro, a mulher é que devora aquilo, para além do jornal com que vem da missa», pediu outra cerveja também mais cara que os 0,75 € do Barlavento), seguiu-se uma terceira (ao preço do 1 € da Voz de Loulé), continuou a falar do político A, da carta anónima, do vereador B e do último boato, continuando a falar na quarta cerveja (no custo do 1 € do Algarve Região) até rematar numa quinta mais cara que 0,75 € da Região Sul. E nisto, o influente homem puxou – imagine-se – um valente charuto consumindo na primeira fumaça mais que os 60 cêntimos de O Louletano e numa segunda e espaventosa fumarola enquanto fechava um olho como que num simulacro de zarolho, fez subir para os ares mais do que os 75 cêntimos do Jornal do Algarve… E não é que ele continuava a falar, a falar e a falar? É claro que, na duração dessa cena, não consegui ler nada mas fiquei mais convicto de como o povo tem razão ao observar que em terra de cegos, o zarolho é rei. O Algarve está cheio destes reis: falam muito, não lêem nada.
Quem não deve não teme. Para Sábado, dia 30, está marcada a primeira sessão do Fórum Loulé 21, um anunciado espaço de debate aberto aos cidadãos, associações, empresas, escolas, agentes autárquicos e, enfim, a todas as carruagens do comboio da cidadania. A finalidade, também anunciada, é apurar a estratégia de desenvolvimento do concelho louletano, decorrendo ao mesmo tempo um inquérito, diga-se, bem elaborado. Aí temos portanto debate, a avenida larga do debate naquele sentido pelo qual António Sérgio tanto pugnou. É uma boa notícia, tratando-se de uma inciativa que, se for levada a bom porto com lhaneza e seriedade, poderá muito bem colmatar o que os partidos não conseguiram concretizar nestes 31 anos de democracia, tão envolvidos têm andado na luta pelo poder – pelos poderes a vários níveis – tantas vezes esquecendo o bem comum em nome de um reclamado e, por natureza, sempre duvidoso interesse geral.
Volta e meia, quando no Algarve se fala se jornais – dos que há e dos que não existem fazendo falta como é o caso de um diário a sério – lá surge sempre um entendido a discorrer que há publicações a mais e que por serem muitas é a panóplia de títulos que impede a inciativa e êxito de um diário algarvio… Segundo tais discorrências, os jornais locais, melhor, os jornais que são criados para intencionalmente serem elos confinados das comunidades locais, serão como que uma sangria e um gasto estouvado de recursos a impedir que a Província Algarvia tenha pelo menos uma gazeta diária. Ora, nada mais errado! Nem é a existência destas publicações que impede um diário nem a sua quantidade vai por aí além, diremos mesmo que o Algarve, mesmo no contexto do País que fica muito aquém do que se verifica pela Europa fora, tem jornais locais (concelhios ou inter-concelhios) a menos. E quanto a um diário, se o não tem, é porque pura e simplesmente não há iniciativa editorial sustentada com tal finalidade, não há sincronia com o tecido empresarial que opera no Algarve, não havendo também uma vontade política efectiva que esteja além ou acima dos interesses dos partidos com poder na província. O Algarve não tem um diário provincial pelas mesmas razões que não tem uma estação de rádio provincial digna deste estatuto e uma televisão regional que não seja esmola do Estado.
Aquela história real de uma juíza de Olhão ter condenado um inválido - acamado em casa por efeito de uma trombose, sem dinheiro para comer e com a mulher a recorrer à sopa dos pobres - a uma pena de prisão por não ter pago uma multa de 135 euros, nem lembra ao diabo. O caso foi descrito por Idálio Revez (Público, 7 de Abril) e para os humanos que militam pelos direitos humanos, a situação narrada pelo jornalista é deveras ficcional e trágica. A um homem naquelas circunstâncias, a juíza chegou ao ponto de negar a divisão do pagamento em prestações de 15 ou 20 euros para não se entrar em «moldes que, na prática, descaracterizem a pena e as suas finalidades»... Não vamos respigar mais pormenores da primorosa narrativa do jornalista Idálio Revez, mas não podemos evitar alguns considerandos.
Dezenas, são várias dezenas e dezenas de histórias por essas autarquias as que me vão contando, envolvendo engenheiros e arquitectos ao serviço das câmaras e comprometendo os gabinetes técnicos dos municípios em procedimentos impensáveis. Os cidadãos lesados calam-se por medo e as empresas privadas de arquitectura nem tugem nem mugem por receio de represálias. Mas há que pôr cobro a este estado de coisas que encapsulou dentro das autarquias verdadeiros ninhos de autocratas e de pequenos soberanos locais insolentes que, por capricho e em função de interesses difusos adiam projectos, cortam planos defensáveis e inviabilizam sem fundamento ideias de progresso. Fazem tudo isto como se fossem intocáveis e como se «o parecer dos serviços técnicos» fosse dogma e verdade infalível.
Presenciei, por esse Europa fora, vários primeiros-ministros portugueses ouvirem queixas de investidores contra tais prepotências, designadamente no Algarve, e para as quais apenas haverá uma explicação e que é aquela que a sabedoria popular consagra com a conhecida expressão de «fazer render o peixe».
Francisco Pinto Balsemão, assim se espera, vem ao Algarve, no sábado da próxima semana (dia 9), falar sobre a Imprensa Regional no Século XXI. É um tema aliciante porque no Século XX esse foi um desafio que, salvo dois ou três casos e mesmo assim configurando êxitos relativos e circunstanciais, Portugal não conseguiu ganhar e o Algarve muito menos. Factores vários podem explicar o insucesso, mas sempre que esse tema vem à baila recordo-me daquela saborosa historieta de duas modestas sapatarias que, sendo as únicas e frente a frente na única rua de uma recôndita aldeia, encetaram forte competição entre si. Os leitores saberão da história mas não faz mal recordar. Um belo dia, o dono de uma das sapatarias resolver afirmar-se e colocou um grande letreiro sobre a porta dizendo assim: «A Melhor Sapataria da Aldeia». A resposta do concorrente não tardou muito pelo que, escassos dois dias depois, podia ler-se sobre a porta da outra sapataria um letreiro mais persuasivo: «A Melhor Sapataria da Província». O outro, porém, não ficou de braços cruzados e, ainda a tinta do adversário estava fresca, não hesitou em emendar o letreiro inicial para isto: «A Melhor Sapataria do País». Naturalmente que a aldeia entusiasmou-se com esta guerra de tabuletas e qual não foi a surpresa quando, no outro dia, surge na sapataria da frente letreiro supostamente mais convincente: «A Melhor Sapataria do Mundo»... Aqui, chegado a este patamar de qualificação, o dono do estabelecimento respirou de alívio convencido de que o seu competidor estava derrotado em definitivo. O outro dono ficou deveras perturbado, passeou rua abaixo rua acima matutando, matutando... e, num daqueles momentos em que o instinto de sobrevivência faz com que a esperteza humana obrigue o corpo a dar um salto, pois deu o salto, abriu o escadote e emendou o letreiro para «A Melhor Sapataria desta Rua».... E com isto ganhou a batalha e terminou a guerra.
O diálogo entre o Algarve e a Andaluzia tem sido insuficiente e a cooperação entre as duas unidades históricas do sul da Península, na prática, é insignificante – há umas «coisas» por ali e por aqui mas decorrendo do voluntarismo e das meras boas vontades. Não há um plano, uma estratégia concertada entre os dois lados, uma ideia grande. O que é estranho, porquanto entre o Algarve e a Andaluzia não há conflitos fronteiriços, não há preconceitos de monta nem sequer suspeições de que Sevilha queira tomar Faro, ou que Huelva queira suplantar Vila Real de Santo António. Os andaluzes, nisso – estou em crer – estão a quilómetros e quilómetros dos estremenhos que começam logo por mentir nas fronteiras. Entre o Algarve e a Andaluzia esse problema não existe.
E aí está alguma polémica com as chamadas «Secretarias de Estado deslocalizadas», designadamente com a do Convento de São Francisco em Faro. Chamou-se a essa «deslocalização» quase tudo: ora era regionalização ou anunciado passo para isso para logo se corrigir para desconcentração, e depois, vendo-se como a emenda aumentava a asneira, passou a falar-se de descentralização… Mas independentemente destes jogos de palavras, o Estado continuou centralista – como sempre foi e por cero continuará a ser – cometendo aos secretários de Estado «deslocalizados» a função de fazer promessas, de amolecer justas pretensões e de satisfazer a vaidade de meia dúzia convencida de que ao apertar a mão do secretário de Estado estaria a apertar a mão do Estado…
O que está a acontecer, dia e noite, nas estradas do Algarve e nas ruas das nossas cidades e vilas, é demais e não tem comparação com o que se passa no resto do País. Refiro-me ao trânsito selvagem, ao caos do estacionamento, à falta de civismo geral, ao desleixo das autarquias em matéria de educação pública, planos de persuasão e campanhas de prevenção, refiro-me à manifesta passividade das autoridades (não é só a falta de meios e incentivos…) e, sem dúvida, refiro-me a um estado geral de permissividade – até parece que ninguém se sente lesado.
De repente eis que me apercebo de que aqueles quatro enormes monumentos de analfabetismo geográfico desapareceram e não só o Algarve voltou a não dar sinais de si, como também, pelos vistos, trinta e dois mil contos foram à viola.
É sem dúvida um ícone nacional, um símbolo que, carregado de lenda e com toda a controvérsia como é próprio dos símbolos, tem feito a travessia da História Portuguesa como referência para os momentos em que se deve resistir e em que se deve dizer não, mas também como sinal para os momentos em que se deve Ter força anímica e em que se deve dizer sim. Foi um virago, ficou conhecida como a Padeira de Aljubarrota por um episódio que, mais ou menos lendário, até pode estragar o significado do ícone e a valia do símbolo mas de Aljubarrota tem pouco ou apenas tem isso. É Brites de Almeida que, como figura fascinou Natália Correia, levada por isso, segundo chegou a confidenciar-me, a calcorrear caminhos e veredas da Goncinha, o sítio de Loulé que lhe é atribuído como local de nascimento, na tentativa de nos rostos das mulheres e homens com que se encontrasse ao acaso descortinar traços, ares, rugas ou trejeitos daquele ser aventureiro. Na verdade Brites de Almeida, pelo que se lhe conhece, foi a Aventura em pessoa, o permanente desafio ao destino fosse por que meio fosse. Também sabemos como, volta e meia, o prof. Hermano Saraiva se refere a Brites de Almeida para de alguma forma exemplificar a reconhecida fibra das gentes que nasceram naquela zona que um verdadeiro e secular observatório do Algarve. Naturalmente que, como acontece com todos os símbolos, a pertença é disputada e, no caso de Brites de Almeida é Faro que disputa, porque um disse ou porque outro lá descobriu um documentozinho dos tempos em que a Goncinha tanto podia ser de Loulé como de Faro. Ora vem isto a propósito para se sugerir ao líder da autarquia louletana, Seruca Emídio para se deixar de pruridos e, naquela rotunda da Goncinha, a caminho de Faro, onde se mantém ainda aquela coisa horrível do Euro 2004, erguer um monumento evocativo de Brites de Almeida – porque é de lá e temos História. Será preferível ver nesse local de cruzamento a evocação de Brites de Almeida, a esbarrarmos com mais um repuxo, três palmeiras e uma esfera de pedra que não diz nada a ninguém. Voltaremos ao assunto.
Relativamente ao PS, oh meu caro João Cravinho, o Algarve não tem que ser punido pelo facto das restantes quatro suas regiões não se entenderem quanto a delimitações e, mais grave, não conseguirem ter uma imagem homogénea de si próprias quando se vêem ao espelho da política – três dessas regiões jamais chegarão a consenso sem que tenham um exemplo seja este ao pé da porta (caso de Trás-os-Montes) ou dos confins da Terra (caso do Algarve). É o caso das Beiras - a alta, a baixa e a litoral - entre outros casos. Mas o que é que significa para o Algarve esse «princípio base das cinco regiões administrativas»? Equivale apenas a um expediente para o adiamento. Ora o que está em causa é, seguramente, a canga da simultaneidade da criação de regiões imposta pela Constituição e que mais não é do que precisamente esse mesmo expediente dos que pretendem a continuação do Estado centralista ou do centralismo do Estado. Assisti ao levantar dos braços (alguns por sinal, algarvios), em S. Bento, que impôs esse princípio, inviabilizando a criação de regiões-piloto, por exemplo. Foi um péssimo momento para a nossa Democracia, foi um triste serviço. Ora, o que o PS deveria sugerir como «princípio base» deveria ser então a revisão Constitucional nesse ponto – purgar a exigência da simultaneidade e deixar caminho aberto para uma ou duas experiências graduais, serenas e consolidadas de regionalização - as regiões-piloto. O que o PS fez foi o mesmo que dar tratos de polé ao Algarve. E Cravinho iniste, na esteira de Sócrates, claro...
Quanto ao líder provincial do PSD, oh meu caro Mendes Bota, uma regionalização não é um passe de mágica, muito menos tirar uma pombinha da cartola onde aparentemente, antes, estava apenas um lenço. O Algarve não tem que ser punido pela distorção do conceito de regionalização que Alberto João Jardim inculcou pela forma, termos e gestos apenas possíveis quando se está rodeado de água por todos os lados – e o Algarve não está, além de que os chefes plebiscitados incomodam a todos os Algarvios. Uma região supõe um quadro constitucional, um Estatuto e, acima de tudo, condições que assegurem a harmonia institucional interna da dita região. Veja o que se passa com as freguesias que pretendem ser concelhos, não por aqueles critérios por via dos quais se poderia reconhecer legitimidade na pretensão, mas por estritos e declarados critérios do mais abjecto egoísmo localista - egoismo esse que por regra esconde interesses não declarados e recalcamentos jamais recicláveis para papel comum. Na Madeira, basta eleger Jardim para haver regionalização que mais não é do que o localismo do tamanho de uma ilha. Mas esse passe de mágica, no Algarve, é um trato à imaginação e não passa de peça de circo.
Fica-se a saber que o Estado Português se empenha, de corpo e alma, na candidatura de Coimbra a Cidade Anfitriã para a Europa em 2005. Coimbra que já foi, e muito bem, a Capital Nacional da Cultura em 2003, agora é a proa de mais uma promoção no âmbito da Organização Mundial de Turismo.
Razões? De acordo com as operadoras que actuam no gigante asiático, os chineses preferem visitar lugares exóticos e com natureza exuberante, dispensando o turismo do tipo sol e mar. Nestes termos, possivelmente para os critérios de selecção da comitiva de Sampaio, o Algarve em muito pouco faria comover os chineses, visando a formatação de pacotes turísticos. Ora nada mais errado do que reduzir o Algarve a sol e mar, como decorre da insuportável visão colonial britânica do nosso turismo. Três exemplos: a inigualável Ria Formosa, o ímpar Promontório de Sagres e o périplo das cidades históricas algarvias (à evidência, primado para Silves e Tavira) têm todos os elementos para cativar e agradar a um milhão de chineses...
Enquanto houver saúde e o sol der lugar à lua para este vosso modesto escriba, o Dia de Reis será dedicado, todos os anos, a uma reflexão muito especial: a atribuição do Prémio SMS de Jornalismo. E foi o que aconteceu no passado dia consagrado aos Magos. É verdade que tal prémio não tem regulamento nem pode ter e dispensa júri, como também não haverá espectáculo com meninas descascadas para entrega de troféu, nem envelope com uns tantos euros a sair das mãos do governador civil sob o aplauso de uma plateia que a 90 por cento não lerá jornais. Mas também é verdade que este mesmo prémio é uma distinção – nada mais que distinção pura e tão imaterial como o ouro puro, tão proba como prata certificada e tão talhada para a memória como o bronze das estátuas que evocam gente querida.
Primeiro, a Orquestra do Algarve. Já se vai tornando num hábito imprescindível, o concerto de Ano Novo da Orquestra do Algarve – com inteira propriedade deveria já passar a designar-se por Orquestra Metropolitana do Algarve, que o Prof. João Guerreiro pense nisso porque pensará bem… E quem fala da Orquestra é o mesmo que falar do maestro Álvaro Cassuto e dos 31 músicos que, em conjunto, formam uma daquelas poucas coisas que, no Algarve, fazem a terra tocar nos céus. Ouvi-os em Loulé, a meio da tarde, como os podia ter ouvido à noite em Olhão, mas tinha que os ouvir. Desta vez foi Mozart, foi Barber, foi a magnífica interpretação do concerto para dois fagotes de Vanhal (levantei-me para os aplaudir) e no final a N.º 2 de Beethoven. Obrigado Álvaro Cassuto, muito obrigado!
Segundo, a Embaixada da Arte Poética. O poeta Nuno Júdice inaugurou a sua bela casa herdada de avós, na Mexilhoeira Grande, cheia de suaves escaiolas. A passagem do ano foi aí, o poeta leu sonetos inéditos, tão recentes e tão belos que 2005 entrou como um gole do melhor vinho e como o sabor da única verdade, naquela mesa melhor que a do protocolo de Estado. Pois essa casa está baptizada: é a Embaixada da Arte Poética. Há uns bons meses, tinha ido lá pouco antes da casa entrar em obras de restauro – do chão até meia altura, as escaiolas estavam numa lástima e duvidei que alguém, hoje em dia no Algarve, ali refizesse coisa próxima do original. E não é que há? O mestre escaiolador José Grilo chegou, trabalhou e fez obra. Obrigado José Grilo que não conheço mas ainda bem que conserva uma arte que faz às paredes o mesmo que a poesia faz ao que os dedos da alma sentem: suavidade e imposição a que o pensamento tenha tacto. Muito obrigado!
Terceiro, o esplendor das Chaminés. Sim, as chaminés. São as chaminés que abrem Loulé como a capital da cultura, ironia do destino e sarcasmo da presunção porque água benta cada um toma a que quer… Uma exposição das chaminés de Eduardo dos Santos, em barro fino, chaminés a rigor, ao todo 28. Eduardo dos Santos deixou o número dos vivos em 1990, mas deixou obra de oleiro. Perante os 50 mil historiadores e 17 mil mestres de história que o Algarve tem em anexo, asseguro a minha firme convicção sobre a origem romana das nossas chaminés que nada têm de árabe. Convido os leitores destas modestas mensagens semanais a irem até Loulé. Vejam, meus senhores e minhas senhoras, como o magnífico espectáculo das chaminés algarvias autênticas nada tem a ver com as pepineiras de Leiria vendidas na 125. Uma chaminé algarvia autêntica e esplendora está para o esplendor da música de Álvaro Cassuto assim como a pepineira moldada de Leiria está para a festa das chouriças de Querença!