
Mas há um depoimento que deveras me chocou e até me entristeceu. Foi o de Bacelar Gouveia. Para justificar a sua falta de ligação ao Algarve respondeu que há pessoas de referência da região que não são algarvias, dando como exemplos o bispo do Algarve (transmontano) e o treinador do Olhanense (do Porto), reduzindo depois essa questão a um «aproveitamento bairrista». Ora, Bacelar Gouveia adulterou o fundo da questão e as analogias que estabelece entre a eleição do principal representante da região no parlamento e o bispo do Algarve ou treinador do Olhanense, roça o insulto a quem vê a política e espera da política mais do que uma missa ou um pontapé na bola.
É claro que não basta dizer que se conhece o Algarve (o da vida diurna? nocturna? O dos golfes? o dos iates?) para daí se concluir que há uma identificação política – política, repita-se, na dignidade da palavra ou na dignidade que ela devia ter sempre – com o eleitorado, com os cidadãos que do Algarve fazem a sua vida e dele dependem. Também não basta ter-se nascido no Algarve para se ser algarvio, nem é preciso repetir a Bacelar Gouveia que alguns, e não são poucos, nasceram no Algarve mas são politicamente um erro da natureza. Não há qualquer «aproveitamento bairrista» exigir-se aos que se propõem representar o eleitorado algarvio no parlamento um perfil de identificação cívica e política com a vida algarvia, a que reside aqui, aqui trabalha e aqui vai morrendo em cada segundo que passa, e não a que para aqui vem em calção curto, começando o Algarve no Mar-e-Guerra e terminando no Patacão, cabendo num circuito do Minibus de Faro.
Bacelar Gouveia obviamente desconhece que os algarvios sabem muito bem o que é o bairrismo, sabendo melhor que o senhor bispo de Faro, por melhor transmontano que seja, dificilmente treinará bem o Olhanense, assim como se duvida que o treinador deste clube, treine ele melhor que ninguém, diga melhor missa e faça homilia mais excelente que o bispo. É preciso continuar?
Carlos Albino
- Flagrante naturalidade: Por acaso, João Soares até conseguiu fazer-se mais algarvio em oito dias do que o n.º 2 e a n.º 3 da lista do PS durante anos.
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