
17 fevereiro 2011
Sei que a palavra promiscuidade, em título, causa arrepios, mas não há outra que retrate a vida ou a atividade política portuguesa quanto a condicionar e a orientar a chamada opinião pública. Há comentadores que falam para todo o País e que metade ouve, mas que são ao mesmo tempo titulares de altos cargos ou funções de Estado, e ainda ou sobretudo nos intervalos, são também interventores ativos dos partidos – como nas lixívias de lavar o chão, três em um. Há comentadores diariamente ativissimos que metem pitada sobre tudo, da política interna à externa, mas que se somem como água na areia e desaparecem das televisões onde fincaram pé, mal ficam à frente do grande negócio consumado para o qual, pelo comentário ou também pela intervenção política espúria e difusa, contribuíram como iniludível parte interessada. Há comentadores que surgem no pequeno ecrã como cordeiros de lã fofa mas que dão nome, representam ou são eles mesmos o mundo que gravita em torno de sociedades de advogados, de empresas de comunicação e marketing político, e de lóbis bancários que no tempo de Sócrates estimularam o homem para as grandes obras e, agora sendo os mesmos, estimulam outro homem na perseguição ao contribuinte, na transformação dos pequenos pensionistas em inimigos públicos e no despautério de chamar ociosos aos jovens desempregados e sem perspetivas. Em emissão televisiva nacional são capazes de dizer que Relvas deu o beijo da morte a Seara no apoio a Lisboa, mas que andam por aí pelo país a beijarem candidatos a autarquias tão ou mais meteoricamente licenciados que Relvas e cujo passado, bem contado e não omitido nos pormenores, até faria Seara corar de vergonha.
Naturalmente que, em democracia, todo o homem e mulher é livre, mas
há leis que por definição não esgotam a ética e há ética que, embora não
constando das leis, deve ser seguida. Assim como é inconcebível que um
conselheiro de Estado, nessa qualidade, apresente o Preço Certo, também a
qualidade de apresentador reboludo que rebola nas baixas emoções, não lhe dá
credencial para conselheiro de Estado. E um comentador que seja deveras
comentador sério, não deve sair desse estrado, porque se saltar amiúde para o
estrado seja deste ou partido, ora para cá ora para lá, parte-se-lhe a coluna
da ética como comentador, se for vertebrado. A lei não o proíbe a não salte de
estrados mas a ética aconselha-o e a democracia exige-lhe que não se sirva de
um estrado para saltar para o outro, sobretudo uma democracia com opinião
pública frágil, crédula e formada à base de ingénuos ou confiantes em que não
há gente má no mundo.
Seja como for, a promiscuidade está instalada e pouco há a fazer a
não ser uma reforma das mentalidades, até porque, aqui e além para salvar algum
decoro, há sempre uns quantos convidados para fazerem figura de contraditório
mas que vão no jogo, aceitam o jogo e legitimam o jogo. Promiscuidade, é a
palavra. Até quando, não se sabe, e pelo que constatei em nenhum país da Europa
acontece o que em Portugal é o pão-nosso de cada dia, e, no Algarve, com uma
Imprensa geralmente acrítica, com as rádios reduzidas a grafonolas, e que
quanto a televisão esta está para lá do Caldeirão, é pior.
Carlos Albino
Carlos Albino
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- Flagrante prova real: O PSD/Algarve que teve o mérito de exigir a publicitação de currículos sem omissões dos nomeados ou candidatos a cargos políticos, tem nestas autárquicas a obrigação de não pregar
como frei Tomás.
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