
Quando uma das coleções da Salvat, nos anos
sessenta, inaugurou uma série de livros sobre o devir das sociedades, um
dos aspetos que já então se ressaltava era o aumento da insegurança que iria
dominar o nosso futuro. Se noutros campos se registaram rotundos enganos,
infelizmente, em relação à violência que iria vir, os futurólogos acertarem por
completo. O panorama que nos chega diariamente dos Estados Unidos, de Espanha, d
França, ou mesmo da até há pouco considerada fleumática Inglaterra, só para nos
circunscrevermos aos países ocidentais, dá até que pensar. E entre nós,
considerados pessoas de costumes calmos, desde que se deram os crimes da Meia Culpa e do Bar do Avião, ficou dado o alerta – o crime violento de grandes
dimensões tinha começado, a sociedade portuguesa não iria mais ser o que era.
O Algarve, terra do Sul, de calor e lazer,
bem que poderia ter ficado recuado, o que até há pouco parecia acontecer.
Mas de súbito, pelas razões que sobejamente todos conhecemos, esta região
passou a fornecer casos típicos de violência que, dia a dia, preenchem as
páginas do crime e abrem os telejornais. Não vale a pena voltar a falar da
insegurança que se vive nas cidades, nas praias e nos campos do Algarve. Nem
vale a pena amedrontar as pessoas, contando casos e descrevendo pormenores.
Vale a pena ver, isso sim, como inverter uma situação que pode ser altamente
gravosa para os seus naturais, seus residentes e seus visitantes. Vale a pena
pensar naquilo que a política pode impulsionar, no que as autoridades têm a
fazer e na forma como nós, os habitantes, podemos contrariar esta tendência.
Todos gostaríamos que, no Algarve, por
todo o lado, se pudesse colocar cartazes dizendo: “Terra livre, aqui vive-se em
paz e segurança”. Sabemos que assim não pode ser, mas lá por isso não podemos
ficar de braços cruzados, com as autoridades à espera da próxima participação,
e os habitantes a disputarem a página do jornal de amanhã com os pormenores do
crime de ontem à noite. As políticas de segurança têm que ser mais eficazes e
mais atentas, com a consciência de que proteger uma população dispersa pelos
montes é diferente do que protegê-la em ruas de prédios apinhados. Mas além de
que as autoridades já deveriam ter iniciado novas rotinas com reforço da
polícia de giro, ligação da polícia com a população, enfim, serem uma polícia
protetora, presente e disciplinadora, em vez de uma polícia só punitiva e
ameaçadora sem motivo aparente, também os habitantes já deviam ter mudado e
muito, designadamente no estabelecimento de novas relações de vizinhança,
criando dispositivos de associação de moradores, com ligação dos vizinhos em
rede, serviços de alerta com roteiro de proteção, um mapa de sinais de alarme e
identificação, em tempo útil, de ocorrências extraordinárias.
O que significa que nos próximos tempos, políticos e autoridades
têm muito a fazer mas os habitantes, sem caírem na tentação de se substituírem
às autoridades, também não podem de ficar de braços cruzados. Um novo conceito
de responsabilidade cívica assim o exige.
Carlos Albino
Carlos Albino
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Flagrante
aparência: Ser presidente de câmara ou
de junta, ou ser deputado, não é um emprego, nem sequer deveria tal parecer. Só
numa ditadura é que há empregos desses.
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