
Embora a avaliar pelo folheto que anuncia esse encontro de imigrantes para dia 21, pareça tratar-se de uma iniciativa confessional e marcadamente religiosa, este pretexto não diminui a bondade da iniciativa. Primeiro, porque, com as dimensões que tem ou pode ter, o encontro de Estoi preenche uma grave lacuna do Algarve para com os migrantes que acolhe, quer a nível regional, quer a nível autárquico (as agendas municipais, por exemplo, desconhecem soberanamente os imigrantes). É como se, descontando tudo aquilo que nas escolas se faz por obrigação e lei, não tivéssemos uma palavra a dizer e duas a ouvir desses milhares de pessoas que também, na generalidade, contactam com a nossa cultura e história por mera curiosidade ou acaso.
É claro que o encontro de Estoi sabe a pouco – começa com um desfile de bandeiras dos países presentes e, com uma celebração religiosa pelo meio, vai pela tarde fora com gastronomia, música e danças dos grupos «de vários povos». Fica aquém do que seria razoável fazer, mas já é alguma coisa e sobretudo é uma boa lembrança. Na verdade, as «entidades regionais» descalçando a bota não estão viradas para este género de generosidade cultural, e as autarquias, cada qual por seu lado, esvoaçam entre «eventos» e animação em função dos que votam, acontecendo que esta doença infantil da democracia já há muito chega às juntas de freguesia. Parece que o Algarve anda esquecido que o pouco que culturalmente tem e lhe dá fortes traços identitários é derivado das migrações, de muitas e variadas migrações que rapidamente esquecemos uma a uma, ou uma depois de outra. Ou o Algarve não fosse uma máquina de esquecer.
Carlos Albino
- Flagrante falta de palavra: O comboio de alta velocidade entre Faro e Huelva combinado com Espanha em 2003, para funcionar em 2018…
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