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Guilherne d''Oliveira Martins no jantar-debate em Querença |
Pergunta simples mas importante foi dirigida a Guilherme d’Oliveira Martins no final de uma palestra sobre bens culturais, em Querença, na noite de sexta-feira passada: (fotos em cima e no final deste texto). Em resumo, a pergunta foi esta: A atenção deve ser dada com primazia para o património imaterial ou para o património material? A resposta não se fez esperar: para os dois em simultâneo porque um está intimamente ligado ao outro. Homenageava-se na ocasião Manuel Viegas Guerreiro, filho de Querença, um dos mais notáveis operários do património imaterial que lhe passou pela vista ou pelas mãos, e que deu nome a fundação exemplar encastoada na magnífica falda inicial da serra algarvia. Resposta certa, porquanto quer seja a poesia popular, sejam provérbios, sejam cantares, sejam quaisquer manifestações depuradas artisticamente da tradição e das gerações, das mais eruditas às mais espontâneas, todo o património imaterial não se desliga das pedras de construções históricas ou de qualquer marco que testemunhe a ocupação humana, a vontade humana e o significado mais ou menos vasto, mais ou menos emblemático para a humanidade, desde a humanidade que faz fronteira com cada um de nós até àquela humanidade que julgamos longínqua mas que cada vez mais tem vindo a visitar a nossa casa e só a volta a visitar se a dermos a conhecer, conhecendo-a.
Mas, dada a resposta, acabado o debate e feitos todos os cumprimentos devidos,
vindo de regresso naquelas curvas da estrada, fui acrescentando algumas
observações naquele debate íntimo que a gente faz sempre quando se acaba de
participar numa “sessão em cheio”, como se diz. E o que acrescentei?
Acrescentei que tão importante como a simultaneidade de primazia para
patrimónios imateriais e materiais, é o seu escrutínio e que se o escrutínio do
que se recebe do passado (material ou imaterial) pertence ou deve pertencer,
numa primeira linha, a toda uma legião de especialistas intelectualmente sérios
e escrupulosos, e, numa segunda linha, aos curiosos de valores e amantes de
identidade cultural, já o escrutínio do património que se vai construindo ou
modificando sob os nossos olhos, pertence não apenas a especialistas mas a
todos os que ocupam esta terra chamando-lhe “nossa”, no momento da construção
ou da modificação.
Puxando pela memória do que mais recentemente se tem construído no Algarve e que
vamos deixar para os vindouros precisamente como “património construído”, há de
tudo, do excelente ao péssimo. É excelente o que se integra na paisagem, o que
se integra sem violência na arquitetura algarvia (temos uma arquitetura), o que
entretece o moderno com o adquirido histórico. É péssimo o que não passa de
enxertia do exótico, de transposição de outras culturas para a nossa cultura e
para a nossa paisagem, e sobretudo em aldeamentos e urbanizações turísticas o
que não passa de colonialismo abancado infantilmente por imposição do
investimento ou do investimento desprovido de tato, de vista, de olfato, de
sabor e de audição. Não admira que muito deste património que se vai
construindo seja votado ao fracasso e tenha já mergulhado no fracasso.
Um exemplo? Pois que êxito pode ter na paisagem e na história algarvia (o presente
rapidamente é passado) uma urbanização apenas concebível e aceitável em
Marraquexe ou na periferia de Casablanca? Podem fazer isso com golfe, mas o
único êxito ficará confinado ao golfe.
Portanto,
primazia concomitante para o património material e património imaterial, mas
nenhuma primazia para o fracasso. Este é que deve ser riscado da história
presente, da paisagem a que desejamos que tenha futuro, além de que,
certamente, não fará parte da poesia popular nem constará em nenhum provérbio
que prove sabedoria. E pelo fracasso somos todos responsáveis, a começar pelos
que não escrutinaram e deviam ter escrutinado.
Carlos Albino
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Flagrante proximidade: É que, nesta quinta-feira, faltam apenas já 58 dias para as eleições autárquicas. Muito pouco tempo para trocar as voltas.
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Edifício da Fundação Manuel Viegas Guerreiro (em Querença), quando da inauguração registando-se a presença do presidente da instituição, eng. Luís Guerreiro |
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