quinta-feira, 24 de março de 2005

SMS 98. Algarve-Andaluzia, uma parceria óbvia

24 Março 2005

O diálogo entre o Algarve e a Andaluzia tem sido insuficiente e a cooperação entre as duas unidades históricas do sul da Península, na prática, é insignificante – há umas «coisas» por ali e por aqui mas decorrendo do voluntarismo e das meras boas vontades. Não há um plano, uma estratégia concertada entre os dois lados, uma ideia grande. O que é estranho, porquanto entre o Algarve e a Andaluzia não há conflitos fronteiriços, não há preconceitos de monta nem sequer suspeições de que Sevilha queira tomar Faro, ou que Huelva queira suplantar Vila Real de Santo António. Os andaluzes, nisso – estou em crer – estão a quilómetros e quilómetros dos estremenhos que começam logo por mentir nas fronteiras. Entre o Algarve e a Andaluzia esse problema não existe.

Ora, uma cooperação aprofundada, um diálogo consistente e uma afirmação consolidada deste verdadeiro arco mediterrânico não é coisa que caia do céu. Até há pouco tempo, o Algarve poderia queixar-se de não ter um instrumento institucional, mínimo que fosse, para encetar caminho e falar para os andaluzes e com os andaluzes. Agora tem. Tem esse mínimo que se chama Junta Metropolitana a que se exige mais do que olhar para o umbigo, ficando à espera do trem e do sábado que vem. Uma liderança regional não se constrói por decreto e até será desejável que não dependa de decreto, mas sim da sua capacidade de rasgar horizontes, de abrir o Algarve para lá das duas fronteiras que o empalham – a fronteira do Alentejo que está a transformar a Província numa venenosa Costa da Caparica e a fronteira da Andaluzia que, vencida – como poderia e deveria ser vencida – poderia dar à Província um bilhete de identidade menos condicionado pelas mentalidades provincianas que imperam tortas.

Devemos então dizer a Macário Correia que se desejar um hino para o Algarve, aí está o melhor hino – entoar um diálogo bem cantado com Manuel Chaves, o Presidente da Junta da Andaluzia. E se desejar uma bandeira, aí está a mais bondosa bandeira – uma cooperação que mobilize e movimente o melhor que entre os dois lados pode cooperar. O Algarve não tem governo como os andaluzes, não tem parlamento como o que se reúne em Sevilha presidido por Mar Moreno, mas ao menos poderia e deveria para já, convidar Manuel Chaves e Mar Moreno para, aí em algum auditório sem pretensões a capital em falsete da cultura, nos explicar o que Andaluzia pensa de si própria e do Algarve… Não vou ensinar o padre nosso ao santo cura.

Carlos Albino

quinta-feira, 17 de março de 2005

SMS 97. Areia para os olhos

17 Março 2005

E aí está alguma polémica com as chamadas «Secretarias de Estado deslocalizadas», designadamente com a do Convento de São Francisco em Faro. Chamou-se a essa «deslocalização» quase tudo: ora era regionalização ou anunciado passo para isso para logo se corrigir para desconcentração, e depois, vendo-se como a emenda aumentava a asneira, passou a falar-se de descentralização… Mas independentemente destes jogos de palavras, o Estado continuou centralista – como sempre foi e por cero continuará a ser – cometendo aos secretários de Estado «deslocalizados» a função de fazer promessas, de amolecer justas pretensões e de satisfazer a vaidade de meia dúzia convencida de que ao apertar a mão do secretário de Estado estaria a apertar a mão do Estado…

Um secretário de Estado do Turismo em Faro – já aqui foi dito – era mau para Faro e mau para o Algarve. Mau porque qualquer decisão normal, vulgar e lógica que tomasse, seria entendida pelo País fora como suspeitosa, como estando a favorecer o perímetro do gabinete e os interesses gravitacionais dessa área política. Além disso, o Ministro do Turismo do Resto do País sentia-se assim isentado para as questões do Algarve e para as responsabilidades com o Algarve – «Falem com o secretário de Estado!», era a resposta sem expediente. Viu-se o que foi feito para a Região Centro, para o Douro, o que foi prometido para o Alentejo… e o que foi feito para o Algarve, nomeadamente para Faro onde esse pormenor do projecto da capital da cultura ficou com um orçamento praticamente igual ao da restauração do Teatro de Ópera Micaelense e pouco superior ao da restauração do teatro de Estremoz! O turismo – principal interessado na façanha – fez ouvidos de mercador e a programação, pelo que foi dito, equivale à programação normal da Câmara de Cascais e nem uma acção apresenta com o nível da que na Póvoa do Varzim (um dos principais estuários dos casinos) se consegue. Basta citar apenas este pormenor, não vemos mais longe.

Adivinhava-se que um secretário de Estado «deslocalizado» em Faro, como aconteceu com o outro «deslocalizado» em Coimbra e com os restantes cada um na sua capelinha local, das duas uma: ou se convertia num vereador do presidente da Câmara local, ou num capataz com direito à primeira fila nas missas, ao centro da mesa nos almoços e ao fim das sessões com discursos. Esse secretário de Estado, bem vistas as coisas, não estava «deslocalizado» – palavra horrível! – mas sim deslocado. Deslocado, e a atirar areia para os olhos porque toda a gente sabe onde a sede do capital financeiro das empresas turísticas que operam no Algarve a começar pelo jogo, salvo honrosas excepções, está – fora do Algarve.

A decisão de acabar com a palhaçada que nunca deveria ter começado, foi boa. O Algarve ficará mais favorecido com uma Direcção «Regional» de Turismo (as aspas justificam-se!) que desconcentre a sério, melhor ficaria com uma Direcção Regional sem aspas, que corporizasse verdadeira descentralização e preparasse caminho para uma autêntica regionalização. Mas esta, o Estado não quer, e sendo assim que não atire areia para os olhos.

Carlos Albino

quinta-feira, 10 de março de 2005

SMS 96. O que se passa nas ruas e estradas é muito feito e muito mau…

10 Março 2005

O que está a acontecer, dia e noite, nas estradas do Algarve e nas ruas das nossas cidades e vilas, é demais e não tem comparação com o que se passa no resto do País. Refiro-me ao trânsito selvagem, ao caos do estacionamento, à falta de civismo geral, ao desleixo das autarquias em matéria de educação pública, planos de persuasão e campanhas de prevenção, refiro-me à manifesta passividade das autoridades (não é só a falta de meios e incentivos…) e, sem dúvida, refiro-me a um estado geral de permissividade – até parece que ninguém se sente lesado.

São motas a voar por ruas principais e secundárias a 140 à hora, são automóveis a fazerem de simples travessas circuitos do Mónaco, são veículos uns estacionados sobre os passeios aos montões como camelos a dormir em Casablanca, outros estacionados no sentido inverso da marcha, é o escape aberto como regra geral, são as buzinadelas mesmo na alta madrugada para chamar um amigo do terceiro andar sem sair do carro, é a condução ilegal e indocumentada, é o trânsito nocturno dos intermediários e traficantes da droga que para tanto devassam recônditos caminhos rurais, são os pesados na Via do Infante a acelerarem como se fossem aviões a levantar voo no aeroporto de Faro… Ora entram em vigor novas medidas do Código da Estrada mas duvido que as novas coimas sejam eficazes se as autarquias não se empenharem na instrução pública (é a expressão), se as autoridades não começarem a levantar o dedo para além da caça à multa e se a sociedade não se indignar a sério, caso não se queira ter por aqui um filme ao vivo no género do que Ettore Scola realizou em 1976 - os «Feios, Porcos e Maus», exactamente.

Para já, neste 2005, o modo como se estaciona nas nossas cidades e vilas é feio, como se faz intencionalmente barulho com os veículos é porco, e o procedimento de autarquias e autoridades é mau.

Carlos Albino

sexta-feira, 4 de março de 2005

SMS 95. O Algarve sem sinais de si…

4 Março 2005

Anda-se por essas estradas para o Algarve e no Algarve e não há meio de haver sinais da terra! É verdade que há uns tempos, a gente via, antes do desvio para Messines/Silves uns valentes painéis a indicar a Rocha da Pena e a Fonte Benémola, duas para cá e duas para lá. Valentes e despropositados, porque a rocha fica muito longe em Salir e a fonte mais longe ainda em Querença – portanto aquilo foram coisas pensadas em gabinete por cabeça que apenas olhou para o mapa das estradas com esquadro e compasso na mão. Havia a promessa de colocar os sinais de que o Algarve obviamente precisa e recordo-me que numa resposta ao deputado José Apolinário, o governo se desculpou em que a sinalética era cara (julgo ter sido adiantando a quantia de oito mil contos por cada sinalização…), que era necessário o estudo daqui e o parecer dali mas que, em breve, as coisas do Algarve iriam ficar bem assinaladas. Ora nada disso e pior do que isso.

De repente eis que me apercebo de que aqueles quatro enormes monumentos de analfabetismo geográfico desapareceram e não só o Algarve voltou a não dar sinais de si, como também, pelos vistos, trinta e dois mil contos foram à viola.

Naturalmente que antes do desvio para Silves o que haverá de assinalar que não a portentosa Sé e o magnífico Castelo daquela cidade? Tudo se aceitaria ali, até a igreja de Messines se aceitaria, tudo menos a Rocha da Pena e a Fonte Benémola… Ora não queremos aqui discutir e muito menos escrutinar sinais, sinalizações e sinalética – é trabalho para deputados… Apenas queremos dizer que há uma enorme irresponsabilidade, uma total falta de respeito pela História e pelo Património do Algarve e uma infantil desconsideração pelo Turismo do Algarve que obviamente carece de consolidação. Assim não vamos longe.

Carlos Albino

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

SMS 94. Dez conclusões

24 Fevereiro 2005

I – A abstenção no Algarve (38,3 %) ficou muito acima da média nacional (34,98 %) com importantes concelhos (Loulé, 41 % e Olhão, 42,7 % e Vila Real de Santo António, 41 %) a ultrapassarem a barreira de aviso, e com Albufeira, Tavira, Silves, Aljezur e Alcoutim muito perto dessa bitola da desmotivação.

II – O Bloco de Esquerda surge como a terceira força política da Província Algarvia com implantação mais expressiva em Portimão, Faro, Loulé e Lagos. Um pouco mais e elegeria um deputado. A CDU aguentou-se recuperando relativamente e o CDS caiu estrondosamente – a escolha do «estrangeiro» Narana Coissoró para cabeça de lista foi um erro a toda a linha.

III – O PSD ao perder dois dos quatro deputados que obtivera em 2002 a favor do PS que ficou com seis, foi o grande derrotado.

IV – O voto algarvio concentrado no PS foi, em larga medida, um voto de punição e o PS nada ganha em não reconhecer que assim não é. Aliás, politicamente só terá vantagens em assumir que assim foi, tirando as ilações, com aquela humildade que fica bem e até brilha nos momentos de glória.

V – A derrota do PSD deveria obrigar Mendes Bota a pensar duas vezes. Perdeu 21 mil votos, a sua representação parlamentar ficou reduzida a metade. Deveria pensar uma vez perante o seu próprio partido e uma segunda vez perante os resultados que obteve nas áreas que melhor o conhecem. Perdeu a corrida para «líder provincial».

VI – A comportamento do Governo e particularmente de Santana Lopes face à tragédia dos incêndios no Caldeirão, feriu profundamente a sensibilidade dos Algarvios que naturalmente puniram. A questão da Via do Infante foi outra achega, a juntar a tantas outras numa Província em crise, com enormíssimas manchas de pobreza evidente e miséria calada, para além do clima geral de insegurança. Os governos nada têm feito para sanar as gritantes assimetrias dentro da própria Província e isso, politicamente, paga-se caro.

VII – As próximas eleições autárquicas vão ser um bico de obra para os candidatos locais do PS. Não é difícil perceber porquê. É questão que faz parte dos próximos capítulos.

VIII – A estrutura dos «poderes» regionais vai mexer profundamente. Vamos assistir a uma interessante corrida a poleiros, muito embora tenham sido retidos alguns ensinamentos dos tempos de Guterres – gente nomeada sem perfil, sem preparação e sem curriculum, por via do arbítrio de xerifes partidários.

IX – O «Gabinete do Secretário de Estado do Turismo» instalado no convento de São Francisco em Faro, vai ser um imbróglio... Novos inquilinos não faltam. Haverá coerência?

X – Finalmente, quanto aos eleitos, à excepção do «estrangeirado» Cravinho e do estreante Miguel Freitas, são geralmente fracos.

Carlos Albino

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

SMS 93. Bristes de Almeida... e Loulé, claro

17 Fevereiro 2005

É sem dúvida um ícone nacional, um símbolo que, carregado de lenda e com toda a controvérsia como é próprio dos símbolos, tem feito a travessia da História Portuguesa como referência para os momentos em que se deve resistir e em que se deve dizer não, mas também como sinal para os momentos em que se deve Ter força anímica e em que se deve dizer sim. Foi um virago, ficou conhecida como a Padeira de Aljubarrota por um episódio que, mais ou menos lendário, até pode estragar o significado do ícone e a valia do símbolo mas de Aljubarrota tem pouco ou apenas tem isso. É Brites de Almeida que, como figura fascinou Natália Correia, levada por isso, segundo chegou a confidenciar-me, a calcorrear caminhos e veredas da Goncinha, o sítio de Loulé que lhe é atribuído como local de nascimento, na tentativa de nos rostos das mulheres e homens com que se encontrasse ao acaso descortinar traços, ares, rugas ou trejeitos daquele ser aventureiro. Na verdade Brites de Almeida, pelo que se lhe conhece, foi a Aventura em pessoa, o permanente desafio ao destino fosse por que meio fosse. Também sabemos como, volta e meia, o prof. Hermano Saraiva se refere a Brites de Almeida para de alguma forma exemplificar a reconhecida fibra das gentes que nasceram naquela zona que um verdadeiro e secular observatório do Algarve. Naturalmente que, como acontece com todos os símbolos, a pertença é disputada e, no caso de Brites de Almeida é Faro que disputa, porque um disse ou porque outro lá descobriu um documentozinho dos tempos em que a Goncinha tanto podia ser de Loulé como de Faro. Ora vem isto a propósito para se sugerir ao líder da autarquia louletana, Seruca Emídio para se deixar de pruridos e, naquela rotunda da Goncinha, a caminho de Faro, onde se mantém ainda aquela coisa horrível do Euro 2004, erguer um monumento evocativo de Brites de Almeida – porque é de lá e temos História. Será preferível ver nesse local de cruzamento a evocação de Brites de Almeida, a esbarrarmos com mais um repuxo, três palmeiras e uma esfera de pedra que não diz nada a ninguém. Voltaremos ao assunto.

Carlos Albino

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005

SMS 92. Pobre Região... tão maltratada estás

10 Fevereiro 2005

Tratos de polé. O Partido Socialista anuncia que tem «uma agenda para a regionalização que passa por cinco etapas» sendo a primeira destas etapas «assumir o princípio base das cinco regiões administrativas». Lá iremos.

Tratos à imaginação. O líder provincial do PSD, Mendes Bota, afirma e repete que bastará aos algarvios elegerem directamente o presidente da Área Metropolitana (talvez seja melhor ir dizendo o presidente ente da Junta Metropolitana...) teremos a Região. Portanto, basta eleger o chefe e já está.

Vamos à questão.

Relativamente ao PS, oh meu caro João Cravinho, o Algarve não tem que ser punido pelo facto das restantes quatro suas regiões não se entenderem quanto a delimitações e, mais grave, não conseguirem ter uma imagem homogénea de si próprias quando se vêem ao espelho da política – três dessas regiões jamais chegarão a consenso sem que tenham um exemplo seja este ao pé da porta (caso de Trás-os-Montes) ou dos confins da Terra (caso do Algarve). É o caso das Beiras - a alta, a baixa e a litoral - entre outros casos. Mas o que é que significa para o Algarve esse «princípio base das cinco regiões administrativas»? Equivale apenas a um expediente para o adiamento. Ora o que está em causa é, seguramente, a canga da simultaneidade da criação de regiões imposta pela Constituição e que mais não é do que precisamente esse mesmo expediente dos que pretendem a continuação do Estado centralista ou do centralismo do Estado. Assisti ao levantar dos braços (alguns por sinal, algarvios), em S. Bento, que impôs esse princípio, inviabilizando a criação de regiões-piloto, por exemplo. Foi um péssimo momento para a nossa Democracia, foi um triste serviço. Ora, o que o PS deveria sugerir como «princípio base» deveria ser então a revisão Constitucional nesse ponto – purgar a exigência da simultaneidade e deixar caminho aberto para uma ou duas experiências graduais, serenas e consolidadas de regionalização - as regiões-piloto. O que o PS fez foi o mesmo que dar tratos de polé ao Algarve. E Cravinho iniste, na esteira de Sócrates, claro...

Quanto ao líder provincial do PSD, oh meu caro Mendes Bota, uma regionalização não é um passe de mágica, muito menos tirar uma pombinha da cartola onde aparentemente, antes, estava apenas um lenço. O Algarve não tem que ser punido pela distorção do conceito de regionalização que Alberto João Jardim inculcou pela forma, termos e gestos apenas possíveis quando se está rodeado de água por todos os lados – e o Algarve não está, além de que os chefes plebiscitados incomodam a todos os Algarvios. Uma região supõe um quadro constitucional, um Estatuto e, acima de tudo, condições que assegurem a harmonia institucional interna da dita região. Veja o que se passa com as freguesias que pretendem ser concelhos, não por aqueles critérios por via dos quais se poderia reconhecer legitimidade na pretensão, mas por estritos e declarados critérios do mais abjecto egoísmo localista - egoismo esse que por regra esconde interesses não declarados e recalcamentos jamais recicláveis para papel comum. Na Madeira, basta eleger Jardim para haver regionalização que mais não é do que o localismo do tamanho de uma ilha. Mas esse passe de mágica, no Algarve, é um trato à imaginação e não passa de peça de circo.

Carlos Albino

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

SMS 91. E aí temos as listas…

3 Fevereiro 2005

De modo geral. Ou pelo inesperado, ou pela pressa ou ainda por esse critério peregrino das quotas (a única quota deveria ser a da competência e a da coerência, independentemente do género), as listas são de modo geral fracas e, pontualmente, até há nomes absurdos, o que numa Democracia que já devia ser adulta e madura é inaceitável. Há os falas-barato, há os empregados políticos de carreira, há os desligados da Província com reputados demagogos pelo meio, e há também os espíritos de vingança. Mais do que nunca, Lisboa olha para o Algarve como se a Província estivesse condenada a ser a nova Costa da Caparica da capital e, por dois meses, vá lá, um salão de estética a céu aberto para bronzeamento dos genuínos e únicos portugueses que como se sabe nasceram praticamente todos no Norte, a acreditar no que dizem todo o ano e a gente lê, ouve, até aceita e acolhe. Admito que a explicação para isto tenha sido o inesperado, a pressa e as quotas. Admito também que isto foi possível porque para quem sabe que vai ganhar conta mais com o demérito de quem vai perder do que com a exigência do mérito a si próprio, e para os quem sabem que vão perder conta mais os lugares seguramente elegíveis do que a própria Província.

Carlos Albino

quinta-feira, 27 de janeiro de 2005

SMS 90. Ora vejam bem...

27 Janeiro 2005

Fica-se a saber que o Estado Português se empenha, de corpo e alma, na candidatura de Coimbra a Cidade Anfitriã para a Europa em 2005. Coimbra que já foi, e muito bem, a Capital Nacional da Cultura em 2003, agora é a proa de mais uma promoção no âmbito da Organização Mundial de Turismo.

Com tudo o que temos vindo a assistir, a saber e a adivinhar, sejamos claros: o Algarve não conta. Não vale a pena andarem por aí a tapar o sol com uma peneira, a prometerem isto e aquilo. Não conta.

Possivelmente resta ao Algarve explorar uma grande parceria com a Andaluzia. Quando a solidariedade dentro das fronteiras não é cultivada, não há outra alternativa que não seja a solidariedade e a cooperação transfronteiriça. E em todos os capítulos.

Carlos Albino

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

SMS 89. Mas que mal, o Algarve fez à China e a Sampaio?

20 Janeiro 2005

Fora dessa espectacular comitiva. Mais de uma centena de empresários e representantes de organizações que configuram interesses económicos de relevo, nomeadamente na área do turismo, acompanharam Jorge Sampaio à China mas o Algarve ficou, mais uma vez, de fora. Naturalmente, seria de esperar que, ao menos, a RTA fosse incluída para pôr um pé nesse promissor mercado turístico. Mas nem a RTA, nem sequer, enfim, alguma das associações empresariais da região teve lugar ao menos na cauda do avião presidencial.


Razões? De acordo com as operadoras que actuam no gigante asiático, os chineses preferem visitar lugares exóticos e com natureza exuberante, dispensando o turismo do tipo sol e mar. Nestes termos, possivelmente para os critérios de selecção da comitiva de Sampaio, o Algarve em muito pouco faria comover os chineses, visando a formatação de pacotes turísticos. Ora nada mais errado do que reduzir o Algarve a sol e mar, como decorre da insuportável visão colonial britânica do nosso turismo. Três exemplos: a inigualável Ria Formosa, o ímpar Promontório de Sagres e o périplo das cidades históricas algarvias (à evidência, primado para Silves e Tavira) têm todos os elementos para cativar e agradar a um milhão de chineses...

E não menosprezemos. Pelas estimativas da Organização Mundial do Turismo (OMT), no ano passado foram cerca de 22 milhões de turistas chineses a circular pelo mundo contra 17 milhões no ano anterior, calculando-se que, em 2020, a China se torne no quarto maior emissor de turistas no ranking mundial com 100 milhões de chineses viajando pelo mundo. Ainda de acordo com a OMT, 50 % dos chineses que viajam pelo mundo estão na faixa etária entre 25 e 45 anos. O turista chinês gasta por dia, em média, 107 dólares durante as viagens internacionais e, somente em souvenirs, esses viajantes gastam, num pacote de uma semana em país estrangeiro, cerca de mil dólares. A OMT aponta algumas razões para que os altos gastos dos chineses em viagens internacionais, designadamente, o gosto dos chineses pela compra de presentes e o hábito de fazer a junção entre viagens de lazer e de negócios.

Sampaio fez bem em levar os homens que andam a provar a navegabilidade do Douro para cima e do Douro para baixo com um cálice de Porto de comporta em comporta, com certeza que fez bem Mas esquecer assim o Algarve foi péssimo, péssimo e péssimo.

Carlos Albino

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

SMS 88. Prémio SMS de Jornalismo: Idálio Revez

13 Janeiro 2005

Enquanto houver saúde e o sol der lugar à lua para este vosso modesto escriba, o Dia de Reis será dedicado, todos os anos, a uma reflexão muito especial: a atribuição do Prémio SMS de Jornalismo. E foi o que aconteceu no passado dia consagrado aos Magos. É verdade que tal prémio não tem regulamento nem pode ter e dispensa júri, como também não haverá espectáculo com meninas descascadas para entrega de troféu, nem envelope com uns tantos euros a sair das mãos do governador civil sob o aplauso de uma plateia que a 90 por cento não lerá jornais. Mas também é verdade que este mesmo prémio é uma distinção – nada mais que distinção pura e tão imaterial como o ouro puro, tão proba como prata certificada e tão talhada para a memória como o bronze das estátuas que evocam gente querida.

Portanto, meus senhores e minhas senhoras, vamos ao anúncio: «O Prémio SMS de Jornalismo 2004, foi este atribuído ao jornalista Idálio Revez, do diário Público».

Prosa serena, atenta, crítica e por vezes com uma pitada de ironia como é próprio dos homens de Querença; informação sobre o Algarve, ao longo de 2004, sem deslizes, sem subserviências e sem sobrancerias, coisa que é difícil manter em Faro; e não muito mas de vez em quando, com posições corajosas que resultam mais da doutrina dos factos do que de impulsos pessoais.

Um abraço para o premiado. No Dia de Reis de 2006, outro premiado se seguirá ao jornalista Idálio Revez. Se o sol for dando lugar à lua.

Carlos Albino

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

SMS 87. Música, escaiola e chaminés!

6 Janeiro 2005

Este novo ano de 2005 começa bem por três bons motivos, tenham Mendes Bota 1) e João Cravinho 2) santa paciência…

Primeiro, a Orquestra do Algarve. Já se vai tornando num hábito imprescindível, o concerto de Ano Novo da Orquestra do Algarve – com inteira propriedade deveria já passar a designar-se por Orquestra Metropolitana do Algarve, que o Prof. João Guerreiro pense nisso porque pensará bem… E quem fala da Orquestra é o mesmo que falar do maestro Álvaro Cassuto e dos 31 músicos que, em conjunto, formam uma daquelas poucas coisas que, no Algarve, fazem a terra tocar nos céus. Ouvi-os em Loulé, a meio da tarde, como os podia ter ouvido à noite em Olhão, mas tinha que os ouvir. Desta vez foi Mozart, foi Barber, foi a magnífica interpretação do concerto para dois fagotes de Vanhal (levantei-me para os aplaudir) e no final a N.º 2 de Beethoven. Obrigado Álvaro Cassuto, muito obrigado!

Segundo, a Embaixada da Arte Poética. O poeta Nuno Júdice inaugurou a sua bela casa herdada de avós, na Mexilhoeira Grande, cheia de suaves escaiolas. A passagem do ano foi aí, o poeta leu sonetos inéditos, tão recentes e tão belos que 2005 entrou como um gole do melhor vinho e como o sabor da única verdade, naquela mesa melhor que a do protocolo de Estado. Pois essa casa está baptizada: é a Embaixada da Arte Poética. Há uns bons meses, tinha ido lá pouco antes da casa entrar em obras de restauro – do chão até meia altura, as escaiolas estavam numa lástima e duvidei que alguém, hoje em dia no Algarve, ali refizesse coisa próxima do original. E não é que há? O mestre escaiolador José Grilo chegou, trabalhou e fez obra. Obrigado José Grilo que não conheço mas ainda bem que conserva uma arte que faz às paredes o mesmo que a poesia faz ao que os dedos da alma sentem: suavidade e imposição a que o pensamento tenha tacto. Muito obrigado!

Terceiro, o esplendor das Chaminés. Sim, as chaminés. São as chaminés que abrem Loulé como a capital da cultura, ironia do destino e sarcasmo da presunção porque água benta cada um toma a que quer… Uma exposição das chaminés de Eduardo dos Santos, em barro fino, chaminés a rigor, ao todo 28. Eduardo dos Santos deixou o número dos vivos em 1990, mas deixou obra de oleiro. Perante os 50 mil historiadores e 17 mil mestres de história que o Algarve tem em anexo, asseguro a minha firme convicção sobre a origem romana das nossas chaminés que nada têm de árabe. Convido os leitores destas modestas mensagens semanais a irem até Loulé. Vejam, meus senhores e minhas senhoras, como o magnífico espectáculo das chaminés algarvias autênticas nada tem a ver com as pepineiras de Leiria vendidas na 125. Uma chaminé algarvia autêntica e esplendora está para o esplendor da música de Álvaro Cassuto assim como a pepineira moldada de Leiria está para a festa das chouriças de Querença!
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1) Oh Mendes Bota! Os líderes partidários têm tribuna própria que chegue - mais do que isso, só na Madeira é que se vê… Já lá dizia o duque de Lévis que se fosses grande, não precisarias de andas.

2) Não era caso de a cidadania algarvia lhe ter despertado mais cedo, tal como a Mariano Gago e possivelmente até a Guilherme de Oliveira Martins? Como o Algarve lhes teria ficado agradecido!


Carlos Albino

quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

SMS 86. Como ganha o Algarve?

30 Dezembro 2004

Naturalmente que ganha. Eleições legislativas inesperadas ou talvez mais do que esperadas - lembram-se de Santana Lopes comovido a contemplar as cinzas do alto do Caldeirão como se a área de calamidade pública fosse apenas ele próprio e a sombra do corpo, mais nada? – estão à porta. Portanto, listas de deputados, propaganda política, palavreado, provavelmente muita demagogia de todos os lados, inverdades, mentiras misturadas com juízos certos, enfim, a algazarra dos que tentam um lugar em S. Bento e as mordomias próprias de representante que, por regra e pelo que se tem visto, pouco ou nada mais representam do que a si próprios e a sombra do corpo porque na verdade só temos visto deputados subservientes perante os directórios dos partidos – quem não for subserviente é castigado… Sem dúvida que o PS tem que renovar a cara, os ombros, os sovacos, a cintura, as coxas, os tornozelos e afastar os galifões, os mesureiros e todo o sindicato de oportunistas que lhe têm manchado a alma; o PSD tem que abandonar essa regra desastrosa de nos presentear provincianos ambiciosos, néscios com mestrado e também mestres no jogo da bisca política, e o PCP algum dia terá de compreender que não pode continuar como espécie de seita religiosa, género da dos adventistas do sétimo dia, uma vez que os do resto não passam de uns brincalhões, alguns por acaso perversos como nos piores versos dos corridinhos de Moncarapacho. O Algarve ganha se os partidos nos apresentarem candidatos a… Deputados Algarvios – inteligentes do Algarve, serenos do Algarve, coerentes do Algarve e honestos do Algarve. Sobretudo honestos, sérios e eticamente reconhecidos no Algarve.

Carlos Albino

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

SMS 85. Golpe de asa

23 Dezembro 2004

Prenda muito simples. Falta a este Algarve, gente com golpe de asa. É claro que falo dos partidos, das respectivas lideranças e dos círculos que têm o poder nas mãos por força do voto. E o não se possuir golpe de asa, é falha que não se disfarça com megalomanias e muito menos com uns artigozitos nos jornais ou com entrevistas saloias e cheias de chavões para os netinhos se recordarem da grande figura que foi o avô que muito tempo será o pai do pai. O golpe de asa supõe a capacidade de traçar um desígnio, uma ideia de futuro, um projecto salvador e que galvanize a alma dos Algarvios - já tenho falado disto. Os políticos infelizmente transformaram a intervenção pública numa espécie de emprego a que, para maior infelicidade, não corresponde uma profissão pelo que «vivem» e «sobrevivem» da política e se não fosse a política nem a Caixa Geral dos Depósitos os admitiria como paquetes. O povo sente isto e não disfarça a desmobilização, o desânimo e a descrença porque já teve tempo para perceber o jogo de interesses que se esconde atrás dos que nos palanques da política se apresentam como imprescindíveis. Pois neste Natal de 2004, bem gostaria que no sapatinho dos Algarvios fosse colocada uma prenda muito simples - o golpe de asa que é a coisa que mais nos falta.

Carlos Albino

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

SMS 84. Uma Avenida Metropolitana para todo o Algarve…

16 Dezembro 2004.

Boa ideia, a que ouvi de Horácio Neves, o editor e director da Brasilturis (para quem não sabe, a maior publicação de turismo do Brasil). Estávamos a evocar José Barão e eis que ele salta com a proposta de se transformar a Estrada 125 que atravessa a Província Algarvia, numa avenida – precisamente a Avenida Metropolitana do Algarve. Na verdade, em muitos pontos, a 125 e derivados (os apêndices da 125 vão de 1 a 9) já não é mais nem menos do que ruas de comércio, trabalho e residência, movimentadas ruas às quais é crime chamar estrada. A ideia de Horácio Neves vem a matar e julgo que é uma daquelas ideias galvanizadoras, um projecto integrador de que o Algarve precisa como de pão para a boca e pelo qual vale a pena terçar armas. Os Municípios envolvidos – 12 dos 16 que integram a Área Metropolitana – se quiserem, podem concretizar a ideia não porque essa avenida venha a ser a maior da Europa mas porque retiraria o Algarve do beco onde possivelmente já está ou para onde caminha se não houver uma ideia salvadora. A transformação da 125 em Avenida pode ser um daqueles desígnios muito mais significativos do que D. Afonso III ter conquistado castelos aos mouros… Portanto, Macário Correia deve anotar isto na agenda. Deixemo-nos disso que caiu em folclorada do «Não às Portagens» e tratemos é desta boa ideia que, por tão boa, é a melhor resposta ao ministro António Mexia e ao senhor que se segue que não deve ser muito diferente do que o antecedeu. Está nas nossas mãos.

Carlos Albino

quinta-feira, 9 de dezembro de 2004

SMS 83. Aceita-se propostas

9 Dezembro 2004

Como tenho, felizmente, muitos amigos – apenas não consigo fazer amizade com escrápulas além de nada me custar perder amizades antigas quando o oportunismo e a corrupção sujam as mãos e a alma desses poucos sujeitos – gostaria, por este Natal, de fazer ofertas a nada menos nada mais que 1600 desses amigos. E que ofertas? Precisamente um vivenda clandestina a cada um. Exactamente – uma vivenda clandestina para que não gaste um cêntimo e, além disso, localizada no cordão dunar da Ria Formosa. Outro local não serve para a dignidade da oferta e se a vivenda não for clandestina já sei que nenhum dos 1600 prezados e estimados me agradece. E porque, após ter percorrido a Ria Formosa, não encontrei uma única vivenda clandestina, recorro à colaboração pública para adoçar o Natal dos meus amigos. Assim, se alguém seja quem for, me indicar uma vivenda clandestina nessa área protegida onde foi construído o Aeroporto Internacional como exemplo e modelo de política ambiental, por favor digam-me. Preciso de 1600 vivendas clandestinas e quanto ao aeroporto, mesmo que seja para oferta, não aceito. O impacte de cada avião na aterragem sobre aquele sapal, causa mais prejuízo do que 1600 casas clandestinas... Esta é outra história.

Carlos Albino

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

SMS 82. Até Cavaco Silva!

2 dezembro 2004

Inesperadamente ou – quem sabe! – por conveniência do seu calendário político pessoal, Cavaco Silva acabou de pôr o dedo na ferida da vida nacional. A ferida é já uma chaga cujas pústulas podem ser observadas em todos os cantos do País, não sendo o Algarve excepção. Na política, o debate que apenas episodicamente teve nível, degradou-se e está nas mãos de uns quantos foliões. Na justiça, a lei é manipulada como um catavento. Na saúde, ó o que se sabe. Nas Universidades, brinca-se aos mestrados e aos doutoramentos. Na cultura, é a desfaçatez pimba. Por aí fora. Não há ditadura em Portugal, mas há uma democracia cheia de títeres, uns grandes outros pequenos, mas títeres que fazem alastrar a chaga. A negociata e a caça ao subsídio está atrás de tudo. Cavaco Silva foi inesperadamente corajoso, frontal e sem meias palavras. Foi algarvio.

Carlos Albino

quinta-feira, 25 de novembro de 2004

SMS 81. Duas coisas para registo

25 Novembro 2004

1. Pugna. A primeira coisa que pode e deve ficar registada foi dita por Mendes Bota, agora de regresso à liderança do PSD/Algarve: «Queremos obter, finalmente, uma eleição directa por sufrágio universal para a Junta Metropolitana do Algarve. Esse é um objectivo político: mudar a legislação, para que dentro de poucos anos seja possível eleger o presidente da região do Algarve». Apesar de Mendes Bota reduzir a Regionalização a essa eventual eleição directa – como se a regionalização fosse apenas um sufrágio festivo, o que será o mesmo que exigir a uma banda filarmónica que seja orquestra sinfónica – essa promessa de pugna do regressado líder social-democrata é para registar. Daqui a algum tempo valerá a pena recordar…

2. Jamila. A segunda coisa para registo, enfim, é proveniente da eurodeputada do PS, Jamila Madeira que sugeriu e pelos vistos convenceu a Comissão do Desenvolvimento Regional do Parlamento Europeu – 51 elementos do PE presididos pelo espanhol Gerardo Quecedo, portanto com direito a festa especial em Vilamoura – para uma reunião no Algarve, até lá para Março. Muito provavelmente os eurodeputados terão tempo escasso para se comoverem com o facto dos critérios estatísticos virem a sacrificar o Algarve em matéria de apoios da EU (pelas estatísticas os Algarvios estão ricos!), certamente ficarão comovidos com o estado em que ficou a Serra do Caldeirão, reconhecerão por certo que a água escasseia, e maravilhados ficarão com os colonatos turísticos da beira-mar e pelas falésias fora. Mas é bom que os eurodeputados desçam à terra e que por ora se registe a intenção. Pouco antes de chegarem, diremos o bom e o bonito.

Carlos Albino

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

SMS 80. Pensar já no Presépio talvez seja o melhor...

18 Novembro 2004

Enquanto os estados-maiores dos partidos pensam nas listas para as autárquicas que onde se vende mais gato por lebre, eu prefiro começar a pensar já na construção do presépio doméstico de 2005. Como sempre, uso as belas pedras exóticas da Tôr guardadas de um ano para o outro, as delicadas figuras de barro artesanais, engendro umas coisas com água, lá vou buscar o moinho algarvio, o castelo sem dúvida muito menos parolo do que o de Paderne, uma azenha simulacro da que que já existiu na Goncinha – tudo a valer e mexer, caminhos de areia, enfim, o sonho, o mito e a procura de conforto íntimo que tanto mais conforto será se houver partilha com queira ver. Tudo para desarmar depois, é certo, mas vale a pena. Portanto, enquanto o PS parece que quer repetir o pior dos tempos que precederam o tempo desse frustrante Guterres e enquanto do PSD chegam sinais de que poderá ser reposta uma das piores cenas que Cavaco percebeu possivelmente melhor do que ninguém, por estas semanas, até Natal, vou pensar no Presépio. A preceito. Convido os leitores a fazerem presépios também a preceito. Talvez seja melhor pensarmos no Menino do que nas velhas ratas sábias de sempre.

Carlos Albino

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

SMS 79. Antígona para cabeça de lista

11 Novembro 2004

Slogan da campanha. Grande noite a que tive em Faro, no Teatro Lethes. Descontados alguns pormenores por certo corrigíveis, a Antígona encenada por Luís Vicente tem o meu voto: escolho-a para cabeça de lista. Em boa hora, o grupo de teatro ACTA que, para fazer isso mesmo – Teatro –, tem sido um grupo de heróis lutando contra a falta de meios, a falta de instalações e a falta de apoios firmes e decididos (têm-se visto gregos…), propõe aos Algarvios este monumento do pensamento político, construído por Sófocles há 26 séculos mas porque é mito – um dos mitos mais inquietantes que a Humanidade já produziu até hoje – está actual. A discussão entre Creonte e o seu filho Hémon é um diamante de arte política que apenas o teatro pode encastoar precisamente no ouro do mito. «Haverá muralha que proteja a cidade do perigo que dentro dela se engendra?» é a pergunta que o Corifeu dirige a Creonte mas que a Antígona, quer se candidate contra os Crente locais em Olhão, Loulé, Portimão, Silves ou São Brás e em Vila do Bispo, pode converter em slogan da sua campanha, mas que também pode usar com eficácia caso concorra em Faro, Albufeira, Tavira ou Lagos e mesmo em Aljezur ou ainda em Alcoutim, por aí fora, onde também não faltam Creontes mais ou menos disfarçados. Vejam a peça, vejam como a aparentemente frágil Joana Sá se agiganta no papel e assume a denúncia da morte que se pratica onde a morte não se vê – foi o que lhe disse no final da peça, a seco. E aplaudam Luís Vicente que, em Faro, está para o Teatro como o maestro Álvaro Cassuto está para a Música. Oxalá que os deixem fazer escola, gerar excelência, fomentar paixão. Gostaria de ver filas enormes de gente a comprar bilhetes para a Antígona, para indagar com inquietação a diferença entre um crime santo e uma piedade ímpia – que é o que está em questão na peça de Sófocles.

Carlos Albino

sexta-feira, 5 de novembro de 2004

SMS 78. Que haja bom senso em Faro e arredores

4 Novembro 2004

Realismo. Faro não tem já condições para durante o ano de 2005 ser uma Capital Nacional da Cultura, tal como inicialmente o projecto foi delineado e politicamente decidido, após a experiência de Coimbra. A avaliar pelo que veio a lume, o novo presidente da Comissão Organizadora, Rosa Mendes, não tem nada nas mãos com fôlego, com princípio, meio e fim – pelas suas palavras, não tem alinhamento. E do anterior presidente, António Lamas, não se sabe o que ficou feito em cinco meses, tempo que já era pouco para uma cidade que, contrariamente a Coimbra, pouco tem ou nada mesmo tem, não por culpa própria mas pelo desprezo secular que o poder central tem soberanamente destinado a todo o Algarve – aliás, com o que, por exemplo, fez e continua a fazer em Sagres apenas tem anavalhado a Cultura. É verdade que a ministra Maria João Bustorff anunciou em Setembro passado que a programação de Faro irá ser apresentada no Carnaval de 2005 e que os «acontecimentos» começarão na Páscoa incidindo em cheio no Verão… Mas para comparar, também é verdade que Coimbra como «capital da cultura» em 2003 se apresentou logo em Outubro de 2002. E é Coimbra! Haja bom senso, decoro e elevação de espírito – Faro deveria desistir do projecto de Capital, substituindo-o com realismo por coisa mais adequada, com designação mais abonatória e à escala – uma Festa da Cultura, o que já não seria mau, para não dizer engenhoso. Rosa Mendes pode obviamente organizar uma boa festa, mas não tem condições para organizar uma capital cultural do País. Com realismo, Rosa Mendes poderá fazer apenas uma boa festa cultural.


Sim, é humilhante. Porque Faro, como Capital Nacional da Cultura acabou. Por dois motivos. Em primeiro lugar porque não conseguiu congregar os espíritos e convocar os pesos-pesados da Cultura Nacional implicados de alguma forma com o Algarve e com a meridionalidade. E depois porque o mundo da Cultura a sério quando desconfia que as misérias de organização se apelintram na Política e nos interesses ou jogos da Política, por regra não querem casamentos com o Espectáculo artificialmente imposto ou com uma agenda salvadora de espectáculos que é o recurso da cultura off shore. E essa história de remeter Faro para os rápidos meses de Verão, para a animação turística e para inglês ver, é humilhante. Faro e o Algarve mereciam, merecem e merecerão mais. Sabemos como Faro e o Algarve poderiam afirmar-se culturalmente e agigantar-se sem favores e com excelência. Assim, não. É humilhante admitir-se que o Ano Cultural de Faro tenha apenas dois meses e meio, e que, pelos vistos, face à escassez de indígenas mesmo esses dois meses e meio tenham que ser pensados em função do «mercado turístico», da «animação turística» e das camas. Naturalmente que o Turismo deveria ser uma componente da Capital Nacional da Cultura e não uma finalidade, porque o Turismo não é um colégio, é um recreio onde qualquer brincadeira tem que dar lucro. Que haja bom senso em Faro e arredores. No ridículo já se caiu ao confundir-se espavento com Cultura. Se tivessem feito a Coimbra o que fizeram e fazem a Faro, tenho a certeza que aquela gente teria a coragem de dizer, alto e bom som, o que em Faro cala e consente. É demais!

Rectificação: Na SMS da semana passada, não foi lapso que é sempre a desculpa de mau pagador, mas um engano – trocámos o nome do maestro Armando Tavares Belo pelo do maestro Ivo Cruz. Claro que era mesmo Tavares Belo! Que saudades dele temos.

Carlos Albino

quinta-feira, 28 de outubro de 2004

SMS 77. Portanto, aí teremos… a Feira de Faro

28 Outubro 2004



Jerónimo Osório. Faro tinha a obrigação de, como capital nacional da cultura em 2005, ir buscar à profundeza do passado essa figura que foi das mais eminentes do Humanismo europeu, D. Jerónimo Osório, organizando tudo o que tinha para organizar com projecção internacional altamente assegurada. Aliás apenas se veria D. Jerónimo Osório como a figura de «marca» da capital da cultura. Já não há tempo para comprometer a rede de ensaistas e estudiosos no assunto.

Samuel Gacon. E teria a obrigação de, sem favor, reclamar a vanguarda da tipografia em Portugal, evocar Samuel Gacon que da sua oficina (1487) fez sair o mais antigo incunábulo português, o Pentateuco recolhido no British Museum de Londres. Faro já não tem tempo para programar um conjunto de acções adequadas: a vinda do livro para exposição de contexto, uma relação da ousadia de Gacon com a de Gutenberg e, nesse sentido, uma geminação activa e culturalmente estratégica com Estrasburgo, além da instituição de um Prémio Internacional de Tipografia – tipografia essa que não morreu, evoluiu. Faro não tem tempo e possivelmente nunca teve vontade.

Os 3000 livros de Oxford roubados a Faro. Teria a obrigação de organizar uma grande exposição sobre a Biblioteca do Bispado do Algarve, promovendo o retorno temporário dos 3.000 livros roubados pelo conde de Essex (1596) e que formam hoje um das cinco grande bibliotecas históricas do Reino Unido, a chamada Biblioteca Bodleiana de Oxford produto da pilhagem. Não tempo.

Tavares Belo. Teria a obrigação de promover a audição da obra musical do maestro Armando Tavares Belo. Além disso a estreia da ópera inédita com base na peça teatral Sabina Freire, de Teixeira Gomes, continua clamorosamente adiada ou esquecida – diz quem sabe que é uma magnífica... E nesse pretexto, instituir um concurso internacional de inéditos com o nome desse grande maestro e compositor. Exactamente: Tavares Belo. Não tem tempo.

Pintores. Teria obrigação de dar ancoragem internacional definitiva aos pintores da meridionalidade, muito para além das exposições. Não lhe faltariam os grande nomes da pintura - por exemplo a grande pintora farense contemporânea Luzia Lage (obra reproduzida ao lado). Não tem tempo.

Andaluzia e Marrocos. Teria a obrigação de reconstituir as rotas culturais e económicas com a Andaluzia e com Marrocos. Exactamente com uns ciclos Algarve/Andaluzia e Algarve/Marrocos. Não falo da vinda de uns ciganos de Sevilha e de umas folcloradas de Casablanca. Falo de coisa mais profunda. Mas não tem tempo.

Algarviana. Teria a obrigação de promover a recuperação da Algarviana de Mário Lyster Franco, a biblioteca desse bom e cultíssimo homem, estantes que eu conheci palmo a palmo quando era enorme mas que não sei onde está… Aliás, sei mas completamente desfalcada. Não tem tempo.

Universidades, escolas e grupos de pesquisa. Teria a obrigação de chamar à colaboração activa a malha universitária algarvia e das associações de pesquisa que em conjunto e trabalhando em conjunto surgiriam como motor espantoso e possivelmente surpreendente, nos domínios científico, tecnológico e cultural. Não tempo, obviamente.

Teatro com letra grande. Teria obrigação de pensar a sério no Teatro com letra grande. Não tempo para encomendar peças aos escritores algarvios ou sintonizados de projecção internacional e que são bastantes para não dizer suficientes. Não tem tempo para organizar um Festival Internacional de Teatro do Mediterrâneo-Atlântico.

Poetas capitais. Teria a obrigação de chamar à casa os grandes poetas de hoje e que são… capitais – Gastão Cruz, claro. Mas se Faro comprovadamente não quis dar tempo na sua agenda política ao plano de Casimiro de Brito que não passou de um primeiro Encontro Internacional de Poesia por atavismo dos políticos, também não é agora que terá tempo.

Ossónoba. Teria, Faro, a obrigação de promover um grande acontecimento sobre o nome que consta no seu verdadeiro bilhete de identidade e que é Ossónoba e com issoteria a obrigação de recuperar o bilhete de identidade do próprio Algarve que é remotamente fenício mas muito mais grego e romano que árabe. Não tem tempo.

Música e não cantigas. Faro teria a obrigação de pensar a sério na Música, também com letra grande. Aí sim, um Festival das Orquestras do Mediterrâneo, deixemo-nos de cantigas. E tem Álvaro Cassuto à mão! Poderia e deveria entregar a chave de ouro da cidade à Orquestra do Algarve. Não tem tempo.

Assis Esperança. Teria Faro, sobretudo, a obrigação de lembrar Assis Esperança e entrar pelo campo que a cultura tem de mais nobre – o romance. Fazer alguma coisa de fôlego nessa área nobre. Não me refiro a palestras, sessões de incensar e oportunismos do costume. Não tem tempo.

448 coisas mais. Alinhados estão apenas 13 mandamentos mínimos para que Faro não perdesse a ocasião de se agigantar culturalmente, mas é óbvio que a «capital da cultura» teria a obrigação de fazer outras 448 coisas mais sem que ficassem prejudicados os cantores amigos de Lena d’Água, os acordeões, os fados da Alexandra, muita gastronomia para regurgitar, repuxos novos e 17 rotundas com palmeiras e oliveiras com holofotes e - porque não? – uma horta de celebridades.

Provincianismo, doença incurável. Mas a dois meses de ser capital nacional da cultura e sem nada, rigorosamente nada preparado a não ser agenda de espectáculos, Faro será uma sorvedouro de verbas e quanto mais verba mais espectáculo. Dizem-me que as pessoas, o que querem é espectáculos. Sem dúvida que o provincianismo é uma doença incurável, prolongada e que se disfarça com verbas. Quanto mais verba, melhor se disfarça.

Carlos Albino

quinta-feira, 21 de outubro de 2004

SMS 76. Faro perdeu a oportunidade

21 Outubro 2004

Cinco meses perdidos. A dois meses de Faro iniciar, enfim, a saga de, por um ano, ser a Capital Nacional da Cultura, pouco ou mesmo nada se vê à vista desarmada, a não ser a demissão de António Lamas e, a seguir, a nomeação de António Rosa Mendes para o cargo de presidente da comissão organizadora. Um professor de história, portanto, substitui um engenheiro civil e com isto perderam-se, desde Maio, cinco meses cruciais para a organização do acontecimento.

Equívocos. Desde o início, alimentou-se o grave equívoco de reduzir a «capital da cultura» a um «festival de espectáculos culturais». Depois, equívoco mais grave, fez-se passar a ideia de que esse festival teria de coincidir com a época alta do turismo e portanto feito em função do turismo - uns escassos dois meses e meio. Faro nem piou.

Haja dinheiro! Ora fazer festivais e montar festivais, é coisa fácil – basta haver dinheiro e instalações. Havendo dinheiro, contrata-se um bailado de Moscovo, dez violinos a Londres, um fagote a Paris, uma potente voz a Milão e, sobrando algum, claro, lá teremos uns coisitas de teatro, umas cantorias em português, umas pitadas de cinema, umas borradas de pintura e, imprescindivelmente, o monumental fogo de artifício na Doca. E chamar-se-á «capital» a isto que não passará de estendal.

Convite ad hoc. Nos dois meses que faltam para 2005 começar, António Rosa Mendes pouco poderá fazer. Com rigor, não poderá fazer nada. É evidente que poderá gerir o estendal de cultura para a época de verão» mas não conseguirá erguer uma Capital Nacional de Cultura e nem o inusitado convite (segundo me disseram mas não acredito porque se acreditasse, António Lamas pediria a demissão) feito, em São Paulo, pela própria ministra Maria João Bustorff à cantora Lena d’Água para esta ser comissária de Faro para a música ligeira (coisa que a cantora terá aceite, ali, imediatamente) salvará a questão. Aliás, a ser isso verdade, inquinou a questão.

Erro tremendo. Faro perdeu a oportunidade para, com serenidade, construir a Cultura que lhe falta. De uma Capital 2005 alguma coisa ficaria, de um Estendal de dois meses não ficará nada porque acabada a festa, desarma-se a igreja. Por uma vez, dou razão aos homens do futebol que vêem na bola o espelho da sociedade: Faro está na terceira divisão e a zero. Foi um tremendo erro de política cultural e pouco adianta fazer aproveitamento partidário desse erro. O que está perdido, perdido está.

Carlos Albino

quinta-feira, 14 de outubro de 2004

SMS 75. Foi a pirataria perfeita no Algarve posto a saque

14 Outubro 2004

Ouvi, observei e comprovei. O extenso barrocal algarvio foi palco da perfeita pirataria. Hordas de ciganos pilharam alfarrobas, milhares e milhares de arrobas de alfarrobas, devassando propriedades, ameaçando donos de terras – na maioria já velhos mas resistentes e sabedores do que representa ou deveria representar o verdadeiro ouro negro do Algarve. Uns, pelo que ouvi, impantes como piratas vieram em verdadeiros raids pela Via do Infante do outro lado da fronteira, cobertos pelos «primos» abancados deste lado – aliás abancam onde lhes apetece. Outros, pelo que observei e comprovei, são os próprios «primos». Roubaram tudo pelos campos, foi um verdadeiro saque a que as populações assistiram indefesas e apavoradas.

Brutos piratas aliados a finos piratas. Também me disseram que os intermediários terão feito um pacto – o de não comprarem um quilo que fosse de alfarrobas a tais piratas e à evidência produto do saque. Mas qual pacto! Alguns intermediários de frutos secos não ficam atrás dessa horda e aí temos os milhares e milhares de arrobas de alfarrobas roubadas a engordar os cofres da pilhagem mais fina mas não menos pirata pela avidez bruta do proveito. Tudo pago informalmente, sem papéis e à margem das leis que regem as transacções comerciais mas também tudo depois dissimulado com tosca engenharia contabilística que caba por ser eficaz num Estado sem fiscalização ou em que os fiscais poderão fazer parte do «esquema». Muita gente não sabe nem calcula, mas estamos a falar de um negócio de milhões de que dezenas de indústrias tecnologicamente sofisticadas (como a suíça) necessitam.

Desmotivados. Os donos de terras, abandonam as árvores. O que é que a GNR pode fazer? Nada. Nem tem meios, nem tem treino e muitas vezes também não tem motivação porque a nossa Justiça, para além de já de si infantil, tem os tribunais cada vez mais infantilizados. Os piratas riem-se da GNR e dos juízes, porquanto agem e têm a pose de soldados que se acham com direito ao saque. Aliás agiram sem qualquer interposição das forças da ordem.

Já. Ora o mês de Julho de 2005, quando começa nova época da alfarroba, começa agora, hoje mesmo. As polícias, sobretudo a judiciária, levaram anos e anos para acabarem com o tristemente célebre «casino do figo» que a pirataria fina manteve para especular preços e, tal como máfia organizada, esvaziar os bolsos dos lavradores. Não ficou ninguém preso nem nenhum nome ficou manchado, mas enfim, isso acabou pelo menos à vista desarmada. Como Guterres outrora dizia, os ricos ficaram mais ricos e os pobres mais pobres como se dizer isto bastasse. Não andarei longe da verdade se disser que a pirataria de 2004 já está a preparar a de 2005. As autoridades têm que agir, já.

É claro. Isto que acabo de escrever não deve dizer nem incomodar muito aqueles para quem o Algarve começa nas pirosas leoazinhas da portada da sua vivenda à beira-mar e termina no campo de golfe, por entre celebridades. Mas já deve dizer alguma coisa aos que sabem o que a alfarrobeira representa ou deveria representar na economia regional. O que este ano aconteceu foi demais. A paciência de muitos esgotou-se e não digo o que muitos pensam fazer se o caso se repetir em 2005.

Carlos Albino

quinta-feira, 7 de outubro de 2004

SMS 74. O Sr. X não foi condenado, mas toda a gente sabe

7 Outubro 2004

Patifes outrora, deuses depois. Na vida em sociedade, neste nosso dia a dia em que todos nos suportamos, tem que ser, deve ser: a presunção de inocência é um valor a acautelar e a respeitar integralmente – ninguém deve ser apontado como autor de um crime, de qualquer ilícito e ou de qualquer ilegalidade sem que seja condenado em tribunal, pelo que, haja paciência, temos de confiar na justiça. Mas na vida política não será bem assim: o tribunal, aqui, não é dos juízes mas sim do eleitor, dos cidadãos e tem prazos marcados para as «audiências» que são as eleições. No entanto, não só o factor tempo e a consequente perda de memória das coisas, mas também as técnicas de comunicação, de imagem e de publicidade política, subvertem as regras, admitindo-se que um patife político de outrora, esquecidas as suas actuações publicamente recriminadas, surja tempos depois e após estratégica travessia no deserto, como um santo, um salvador público. O Algarve não tem muita gente deste género, mas tem.

Experiência autárquica. E claro, quando alguém ousa rememorar o passado, ele, o patife invoca que nunca foi condenado em tribunal. E será verdade. Primeiro porque ninguém apelou ou denunciou à Justiça, segundo porque, de política se trata, os partidos abafam e finalmente, os poderes públicos que fazem as leis não fiscalizam suficiente e eficazmente a aplicação das mesmas leis. Há sempre um compadre a interferir na fiscalização, um amigo bem colocado a obstruir o processo, um burocrata conivente a deixar andar as coisas até à prescrição ou arquivamento. A doutrina que se pode extrair da experiência autárquica no Algarve vai nesse sentido que é, afinal, um sentido de frustração do eleitor quando é confrontado com a ressurreição do patife de outrora. Chamemos-lhe o Senhor X. Sim, o Senhor X que não foi condenado mas toda a gente sabe... E porque é que ninguém denunciou? Bem as provas da corrupção activa normalmente ficam nas mãos do corruptor passivo. Ambos são coniventes e assim se estraga a política.

Carlos Albino

quinta-feira, 30 de setembro de 2004

SMS 73. Sim, Senhor Padre. Vá até ao fim

30 Setembro 2004

Figueira. Foi um drama, sem dúvida a juntar a tantos outros dramas pelo Algarve afora, em grande parte abafados. A região tem duas fatias. Uma, por certo a nossa, muito bem ou razoavelmente instalada, debatendo-se com os gravíssimos problemas da política, com os fluxos e refluxos da economia e do bem-estar, com a gestão do orçamento instável e dos impostos irascíveis que alimentam a parte mais alta da fatia, onde moram os nossos amigos e por certo as cunhas, as influências, enfim, o esquema que não anda longe da bandidagem que até atemoriza a Justiça. Outra fatia é a dos marginalizados, dos desenraizados, dos carentes de tudo e onde a pobreza faz o mesmo trabalho do mar nas rochas, o trabalho de sapa que desfaz a pobreza mais resistente nas miséria mais granulada e que é o pasto onde se coitam os marginais, os intermediários de tudo, os criminosos sem rosto que até atemorizam a Liberdade. O pior de uma fatia anda casada com o pior da outra e, eis o resultado por força de insondáveis leis sociais: a desumanidade. Sim, a desumanidade. O abismo chama o abismo e por isso andamos a enganar-nos uns aos outros.

Circo mediático. O padre Domingos Monteiro teve obviamente a coragem de denunciar o circo mediático montado na Figueira, com a televisão obsessiva atrás das caras que, a propósito de um drama, acabam por sorrir em glórias instantâneas, não para as câmaras mas a posteridade efémera da ralé comum às duas fatias. Ao manipular emoções, as mais baixas emoções, a televisão dá a cara da sua irresponsabilidade e da sua impreparação. Em vez de ir ao coração dos problemas, vai exclusivamente às vísceras, à zona onde está o mais podre e onde tudo cheira mal. Mais uma vez, se sentiu que a televisão «está» no Algarve para cheirar, apenas para cheirar.

Os dedos na ferida. Mas o padre Domingos Monteiro corajosamente apontou o dedo para a ferida, para ferida profunda da nossa sociedade, admitindo-se o Algarve ainda tenha ao menos uma sociedade algarvia… E, revoltado, o padre acusou os técnicos da comissão de menores do impensável, insurgiu-se contra a inoperância da assistência social e dos tribunais de menores, denunciou a falta de valores das pessoas, a negligência do Estado, enfim, o vazio (palavra nossa) das instituições portuguesas. Tem razão.

Abismos. Diziam os latinos, muito antes dos séculos destes milénios de missas, que abyssus abyssum invocat, o que traduzido à letra quer dizer que o abismo atrai o abismo mas que entrou com melhor tradução na linguagem corrente com os ditos segundo os quais a asneira puxa asneira e que uma desgraça nunca vem só. Peço ao padre Domingos Monteiro que vá até ao fim para que neste Algarve as pessoas não andem, como disse e bem, «a ensinar músicas às crianças para cantarem no funeral da Joana», de todas as Joanas, as conhecidas e as desconhecidas.

Carlos Albino

quinta-feira, 23 de setembro de 2004

SMS 72. O Mediterrâneo, aqui tão perto

23 Setembro 2004

Dupla boa. Os deputados Álvaro Viegas (PSD) e José Apolinário (PS) foram indicados para representar o parlamento português (uma delegação de três efectivos e dois suplentes) na nova Assembleia Parlamentar da Conferência Euro-Mediterrânica, um vasto fórum político que agrega os Estados da União Europeia e os vizinhos do Mare Nostrum. E foram escolhidos, presumo saber, por um consenso entre os dois maiores partidos no sentido de, para o caso, dar primazia a deputados algarvios. Naturalmente que será difícil dois algarvios fazerem alguma coisa no meio dos 240 outros parlamentares daquele fórum – 120 europeus (45 do Parlamento Europeu e e 75 dos parlamentos nacionais) a que se juntam mais 120 do Médio Oriente e Norte de África bordejante do mar interior comum. Mas podem fazer, apesar da desvantagem - Álvaro Viegas é voluntarioso e José Apolinário uma formiguinha trabalhadora, pelo que se tem visto.

Reuniões internacionais. De há uns quatro, cinco anos para cá, o Algarve tem sido pura e simplesmente esquecido (ia dizer marginalizado ostensivamente) em matéria de reuniões internacionais. Cimeiras, seminários internacionais, conferências inter-estatais e, embora poucas, todas as reuniões multilaterais que foram animando a nossa fraca política externa, ocorreram nos sítios mais díspares. Porto, Figueira da Foz, Coimbra... enfim, houve reuniões marcadas para sítios ermos, sendo evidente o favor da promoção do local, da região e, claro, algum proveito.

E então. Se Álvaro Viegas e José Apolinário conseguirem que, em algum ano, a Assembleia Parlamentar Euro-Mediterrânica seja marcada para o Algarve, terão a minha chapelada. Os espanhóis carreiam Barcelona e Valência para esse processo, a França faz o mesmo com Marselha e os italianos insistem com Nápoles. Oxalá que o governo português não tenha a peregrina ideia de fazer candidatar Freixo de Espada à Cinta para uma reunião eventual dessa assembleia no nosso País, só porque Freixo está no Norte. Depois do «enorme castigo» aplicado ao Algarve em matéria de reuniões internacionais, o mínimo que se pode exigir é que se reconheça que Freixo de Espada à Cinta é uma terra muito bonita mas pouco tem a ver com o Mediterrâneo, muito menos com a Espanha mediterrânica e nada, nada com o Algarve mediterrânico...

Carlos Albino

quinta-feira, 16 de setembro de 2004

SMS 71. O Estado que circula em sentido contrário…

16 Setembro 2004

Grande maná. As receitas do Turismo algarvio foram, nas últimas décadas, um verdadeiro maná fundamentalmente para duas entidades: para o Estado e para esse grupo irregular de investidores, operadores e agentes com sede e contas em paraísos fiscais, cuja actuação foi tolerada, protegida e até condecorada pelo Estado em função da parte que este foi sempre recolhendo. Deste gigantesco negócio do turismo, para o Algarve sobraram as migalhas, pouco mais. As assimetrias dentro do próprio Algarve entre concelhos ou áreas de concelhos «turísticas» e «não-turísticas» falam por si – mesmo junto do apregoado maior dos luxos deste mundo continua a maior das pobrezas do País. O Algarve não beneficiou do Turismo porque este, até agora - descontadas as palavras de encantar do discurso político - não surgiu como elemento de um Plano de Desenvolvimento, como peça de um Programa de Progresso Geral da região.

A surdez do Estado. Foi neste contexto que o Estado cujo Orçamento foi em larga medida alimentado pelos dinheiros captados por causa do Algarve e no Algarve, demorou séculos acabar a Via do Infante, demorou milénios a completar a auto-estrada para o Centro, demorou uma eternidade a reformular via férrea (fazendo-o apenas até Faro e com estações pelo meio com aspecto e serviços miseráveis) e foi incapaz de ligar com modernidade Loulé a Quarteira (neste caso é uma vergonha), Faro a Loulé (por escassos seis quilómetros de vergonha também), Monchique a Silves, Silves a Loulé, por aí fora… A Via do Infante, na óptica do Estado, resolveria tudo e, em certa medida, é o único recurso, o único e, mesmo assim mal amanhado e barulhento para não dizer ensurdecedor.

Mau cobrador. Ora é este mesmo Estado que quer cobrar portagens numa coisa a que chama auto-estrada mas que não é – é apenas uma via dupla alargada com separador central… - não lhe bastando as «receitas turísticas» que ao longo de décadas cobrou sem benefício directo para o Algarve, melhor, para as populações do Algarve.

Multa, claro. E o que se deve fazer a um Estado que circula em sentido contrário? Naturalmente que esse Estado deve ser autuado. Nem mais.

Carlos Albino

quinta-feira, 9 de setembro de 2004

SMS 70. Sobre os arquitectos e um post scriptum

9 Setembro 2004

Arquitectos. Pois é verdade. Admito que alguns autarcas se sintam muito felizes com repuxos que debitam a mentalidade infantil de quem os desenhou, mais felizes com as rotundas cheias de oliveiras, palmeiras, ciprestes rodeados de casca de pinheiros com estradinhas de relva as curvas, e que muito mais felizes se sintam ainda com os verdadeiros caixotes pretensiosos em que se resumem os novos edifícios na sua maior parte, imitando o Siza, outros o Taveira, por aí fora. Estava um jardim romântico, com bancos desenhados pelos nossos bisavós e que eram graciosos? Pois é verdade, surgiu aí uma coisa «muito elaborada», com «muito projecto» e com «muito argumento» mas ficou tudo num grande enxerto de tal modo que a parte traseira do Kit-Marquet do Vale Paraíso consegue ser sublime comparada com essa brincadeira de crianças. E não falemos das esculturas! Há cubos, há cilindros, há um barco com velas ao vento que poderia ser muito bem esconderijo do terrorismo que conspira contra a estética pública e contra o decoro da Arte, há de tudo e do mais horrível e creio que sempre com um dedo ou um parecer do tal arquitecto. Vamos retomar este assunto mas para já uma chapelada para os grandes arquitectos que operam no Algarve.

Carlos Albino

Post scriptum. A escolha de Graça Cunha para a direcção do futuro Teatro de Faro, foi boa. Certo, vamos ver. A nomeação de Francisco Motta veiga como responsável pela programação naturalmente que também promete e foi acertada. O que não se compreende é que o acto simbólico da prova de vida do novo Teatro não tenha ocorrido em Faro. Também não se compreende que a três meses da «capital da cultura» não haja uma data de arranque. António Lamas, enfim, lá disse que «a época forte será a partir da Páscoa» e Maria João Bustorff também lá deixou o recado de que é preciso aproveitar «a época forte do Algarve no Verão»... Portanto aí teremos uma capital por semestre. Bonito e cultural.

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

SMS 69. Sim, é de arrepiar

2 Setembro 2004

A peça de Nuno Couto sobre como vai a preparação do Algarve para a fatalidade de um terramoto deve ser tomada muito a sério pelos órgãos da Junta Metropolitana. As asneiras de arquitectos, engenheiros, imobiliárias e autarquias cometidas neste longo período de verdadeira selvajaria urbanística que infelizmente não terminou, podem ser pagas muito caro. Muitos de nós, sem dúvida, nos recordamos do que aconteceu em Agadir onde as chamadas «construções anti-sísmicas» foram pura e simplesmente engolidas pela terra e que foi uma pálida amostra do que poderá ocorrer no Algarve. Nuno Couto e o Jornal do Algarve fizeram bem em lançar aquilo que é um verdadeiro alerta cívico e uma oportuníssima chamada de atenção à responsabilidade dos políticos, se são políticos. A memória possível do Algarve ao longo dos séculos dá-nos na verdade uma lição que, perante as asneiras e a irresponsabilidade que está nos caboucos da construção voraz de lucro e engano, é no mínimo de arrepiar. Mas não vale a pena chorar sobre o leite derramado e nem vale a pena descrever a cobardia dos que perante o perigo preferem enterrar a cabeça na areia. Há que prevenir, há que emendar o que pode ser emendado, há que corrigir o que obviamente tem que ser corrigido. Creio que a Junta Metropolitana, mesmo que não estejamos em Marrocos, tem a obrigação de, com toda a urgência, promover um Livro Branco onde tudo esteja doa a quem doer sobre esta matéria em que o governo central foi somando enormíssimas responsabilidades ao longo dos anos, tolerando à direita e tolerando à esquerda, tantas vezes com a canga dos financiamentos eleitorais. Fiquemos por aqui porque na próxima semana vou falar dos «arquitectos». Sim, dos arquitectos que também são de arrepiar.

Carlos Albino

quinta-feira, 26 de agosto de 2004

SMS 68. Capital internacional, já?

26 Agosto 2004

Se não estou em erro, José Vitorino disse recentemente que Faro não iria ser apenas uma capital nacional da cultura mas, sim e já em 2005, uma «capital internacional» no mesmo domínio de superior afirmação do género humano. Duvido que o presidente da Câmara de Faro não tenha sido desvirtuado... Mas se não foi, José Vitorino saberá por acaso o que é a Cultura para que Faro que, nesse domínio, nem sequer é ainda a capital do Algarve e que apenas com injecções forçadas poderá ser milagrosamente capital do espavento cultural nacional, venha a ser por uma passe de mágica já «capital internacional»? E o que dirá o poeta Casimiro de Brito quando o seu projecto de instalar e converter em tradição um Encontro Internacional de Poesia nessa mesma cidade de Faro que não passou do primeiro, falhou redondamente por falta de apoios, por falta de política cultural e sobretudo por falta de visão dos responsáveis farenses? Um político com responsabilidades públicas como José Vitorino e à frente de uma cidade que quer ser a cabeça do Algarve, não pode deixar que a boca debite tudo que a língua faz subir à cabeça. A modéstia fica bem e a noção da realidade fica melhor, pelo que talvez mais senso cultural tenha tido a câmara de Albufeira ao permitir que a Guia se autointitule à vista de todos os que a essa localidade acedem pela 125 como a «capital do frango»... Não perdoo à Guia ter retirado a Faro um honroso título.

Carlos Albino

quinta-feira, 19 de agosto de 2004

SMS 67. Sociedade civil

19 Agosto 2004

Os partidos falharam. E como a esperança é a última coisa a morrer, valha-nos a sociedade civil. Os partidos falharam na pedagogia pública, colocaram-se a milhas daquelas tarefas de instrução cívica que a democracia lhes impõe e converteram-se em maquinetas eleitorais que ciclicamente prometem ao eleitorado o que não vão cumprir nem poderão cumprir porque as promessas, já de si, têm sido vagas. É verdade que felizmente ainda não andam por aí os galopins* mas há situações que estão próximas dos compradores de votos. Em vez de proporcionarem líderes promotores do debate sereno e inteligente, abrem caminho a títeres que fazem carreira com base no ataque gratuito, na tramóia bem montada e no endeusamento do ego; em vez de abrirem as largas avenidas da crítica construtiva e de estimularem o confronto público das ideias, enveredam pelo beco das mordomias organizadas, quase sempre assassinando o interesse geral e condenando o bem comum à prisão perpétua; e em vez de submeterem as ideias ao escrutínio público, não senhor, fogem desse escrutínio preferindo consolidar a chamada «carreira política» dotada já de «profissionais da matéria». Tem sido este, muito em particular, o drama do PSD e do PS do Algarve, manifestamente atados aos muitos egos, às mordomias e ao fracasso de ideias reciprocamente tolerado. Espero pela hora em que estes partidos façam uma verdadeira autocrítica.

E que sociedade civil? Naturalmente que me refiro à única tábua de salvação – a sociedade dos cidadãos, a organização cívica e o exercício da generosidade que não visa o poder nem dele se faz por natureza condicionar. Não me refiro, portanto, à sociedade civil do subsídio, à associação criada para legitimar neste ou naquele domínio o uso de dinheiros públicos sem um projecto aceitável e sem um plano de comprovado alcance mas apenas com um elenco de objectivos apresentados como que a corresponderem a duvidosas necessidades. Admito que os políticos que temos gostem disto porque lhes adorna o exercício, mas não é a essa sociedade civil que me refiro nem será essa a sociedade civil de que o Algarve precisa de ver afirmada como o pão para a boca e que não só faça a todo o vapor o trabalho que partidos não fizeram, aguardando pacientemente, pois, que o façam.

Exemplos. Sim, poderia apresentar muitos exemplos e bons exemplos, mas por ora cabe um. Creio que toda a gente já ouviu pelo menos falar da Casa do Algarve. É claro que acredito que a Casa do Algarve seja ou possa vir a ser um factor civil importante para a região algarvia. É um assunto para pensar.

Carlos Albino



quinta-feira, 12 de agosto de 2004

SMS 66. Recomeçar o Algarve

12 Agosto 2004

1 - Incêndios. Esperava-se tudo menos o que este governo fez e insiste em fazer. Depois da clamorosa omissão do Algarve da Carta Nacional de Risco, Santana Lopes parece que foi ao Caldeirão como que suspeitando que os jornais e televisões não mostraram a verdade, e mesmo confrontado com o cenário infernal em que a Serra Algarvia ficou transformada, parece que ainda ficou com dúvidas sobre a urgência e necessidade da declaração de calamidade pública! Seria preciso arder mais alguma coisa por mais hectares? A Junta Metropolitana reagiu depressa e bem, oxalá que não fique pelas palavras. Espero que Macário Correia não desarme porque, pelos vistos, a Política do e no Algarve deve começar de novo.

2 – Oportunismo. E já se esperava que por aí aparecesse o oportunismo político no rescaldo dos incêndios. Surge uma figura do Parlamento Europeu e promete pedir fundos a Bruxelas com alguma gente a acreditar, como se aquilo em Bruxelas fosse um centro humanitário de ajuda directa. Vem outra figura do governo de Lisboa e promete apoio para todos e rapidez para tudo, mas fazendo depender tudo dos estudos, das avaliações, dos cálculos e se calhar de nova visita inesperada do primeiro-ministro… Enfim, não vamos longe com este oportunismo político que apenas tem em vista a fotografia e referências nos jornais, nas rádios e nas televisões. Para um recomeço do Algarve, essas fotografias arrepiam.

3 – Turismo. Sim é a crise. O turismo não é, nem de perto nem de longe, o jogo de compra e venda das imobiliárias, jogo que se esgota no tempo porque é um jogo a prazo. Suspeito que o Turismo Algarvio tenha de começar de novo. Mas mesmo esse novo turismo não será o gabinete do secretário de Estado «deslocalizado» para em Faro a fazê-lo. Tenha Carlos Martins santa paciência.

4 – O aeródromo de apoio... Poderá ser uma mera suspeita mas julgamos que um Aeroporto Internacional como o de Faro tenha que dispor, num curto raio de quilómetros, o chamado aérodromo de apoio. E também suspeitamos que, até há muito pouco tempo, esse «apoio» seria precisamente o aeródromo de Vilamoura. Mas ainda assim se continua a suspeitar que, por força de um protocolo assinado com a Câmara Municipal de Loulé, tal aeródromo estaria já implantado «ao longo da Via do Infante», sendo certo e sabido que não está. Daí que os aviões usados para o combate aos incêndios tivessem que ir reabastecer-se a Beja. Portanto, o aeródromo de apoio ao Aeroporto Internacional de Faro, segundo se suspeita, está em Beja.

5 – Castelos na areia. Afirma Cabrita Neto que há que proceder a demolições no litoral algarvio. Mas ainda falta algum bocado de litoral para demolir? E onde esteve Cabrita Neto durante este tempo todo?

Carlos Albino

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

SMS 65. A mãe de todos os incêndios

5 Agosto 2004

1 - Foi uma cena dantesca para as populações algarvias da Serra e um espectáculo miserável os que do fogo de alguma forma falaram. As televisões, em vez de darem números, extensões que iam sendo afectadas pelos incêndios, quantidade e qualidade os meios de combate às chamas e volumes de prejuízos imediatos e a prazo, entretiveram-se ou entretiveram o País com circunstanciais imagens da Idade Média apanhadas intencionalmente aqui e ali, com os repórteres de voz escalfada como que a darem a ideia de estarem numa frente da guerra do Iraque e em risco de vida permanente – eles e não os bombeiros. E os responsáveis, então, cada um sempre que abria a boca era um chorrilho de palavras liofilizadas, assépticas, sem sentimento e pseudo-técnicas, como que de altos gestores ou por imitação do tipo de discurso saloio que os ministros e secretários de Estado de há uns tempos a esta parte praticam certamente a conselho dos respectivos «gabinetes de imagem».

2 – Depois do que no ano passado aconteceu em Monchique e em Silves, se não se previa para quando, o fogo era previsível no Caldeirão. O Algarve ficou de fora da Carta Nacional de Risco como uma das zonas potencialmente de maior gravidade e ninguém mexeu uma palha. E compreende-se que assim aconteça pois o Algarve já não conta como um todo, contando apenas a área da moradia à beira-mar, a piscina atrás ou à frente da moradia e o campo de golfe ali ao lado. Nada mais conta. E tanto assim é que nos mais importantes centros noticiosos do País não se sabia onde ficava Alportel, o Barranco do Velho e Salir, havendo muita gente admirada até de nesta vasta área algarvia haver... floresta! Para essa gente o Algarve seria tão somente a faixa de sete a oito quilómetros da praia onde vão molhar os pés, o que também se compreende porque as políticas dos governos sobretudo desde Cavaco Silva e sem excepção transformaram o Algarve numa nova Costa da Caparica de que Lisboa e as gentes do Norte precisavam e nada mais.

3 – Erros de previsão política, erros de planeamento no terreno, erros de observação e erros de informação, mais do que vento, mais do que a onda de calor e mais do que a acção de potenciais criminosos, resultaram assim numa situação de calamidade pois de calamidade se trata, pelo que Seruca Emídio (Loulé), António Eusébio (São Brás) e Macário Correia (Presidente da Junta Metropolitana) têm carradas de razão ao terem reclamado a declaração de calamidade pública.

4 – No ano passado, alvitrou-se aqui a Jorge Sampaio para fazer uma «presidência aberta» nesta mesma serra que ardeu. Mas segundo parece para o Presidente da República, também para ele, o Algarve fica-se pelos campos de golfe e pelos sabichóes das imobiliárias envolventes. Nem respondeu, nem fez. Deveria ter respondido e feito.

5 – Para terminar, recordam-se da cena de 1994, quando com o fogo de Silves à vista, os de Albufeira enchiam os olhos de gáudio com o seu fogo de artifício? Essa foi uma prova mais do que evidente de que o Algarve não está a ser visto e pensado como um todo. Comos e cada um,k responsável e irresponsável, estabelecesse como regra isto: «Desde que o meu quintal não arda para eu estar na piscina do meu quintal, o meu Algarve está bem e é o melhor do mundo...» Ora é para esta mentalidade, meu caro Macário Correia, que deve ser declarado o estado de calamidade pública e com a máxima urgência porque essa mentalidade, no Algarve, é a mãe de todos os incêndios.

Carlos Albino