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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

SMS 488. Não é para inglês ver

22 novembro 2012

A insegurança do dia de amanhã está a tornar Portugal um país nada confiável para os portugueses. O que foi ontem prometido não é cumprido hoje, discursos de esperança para arrebanhar circunstanciais aplausos esbarram pouco depois com fracassos em grande parte evitáveis, previsões de melhoria são desmentidas com os números feitos à mesma hora em que tais previsões foram feitas, anúncios de dinâmica nova para a economia portuguesa cedo se revelam dependentes dos humores económicos que nem são assim tão mundiais mas residem cá na casa, garantias de um governo menos pesado de ser carregado pelos cidadãos acabam por se transformar em aumento de prosperidade apenas para alguns, as reformas de contenção de gastos do Estado não se traduzem no reforço da potencialidade do Estado mas em mais impostos e em mais entraves burocráticos e legais que impedem o integral desenvolvimento das forças produtivas do país, o implante de modelos que não foram referendados estão a quebrar ou quebraram já o que até há pouco era um franco entusiasmo com as conquistas do país na consolidação da democracia e da estabilidade económica, enfim, a instabilidade tornou-se um património da sociedade e isso é amplamente percebido.

Portugal tem, pela primeira vez desde há muitos anos, perceção de risco, com uma classe política dirigente que se contradiz amiúde, sem uma ideia ou um pensamento claro e amigo, mas que sobrevive pela ameaça e sobretudo com essa acusação falaciosa feita a todos os portugueses segundo a qual vivemos muito acima das nossas possibilidades, quando a verdade é que os dirigentes que temos tido ou fomos elegendo, esses sim, revelaram-se ou acabam por se revelar como muito abaixo das potencialidades que se esperava terem. Há a suspeita geral de que grandes escândalos que à evidência estiveram e estão na base do desvario das contas públicas e do erário público, são esbatidos ou abafados como que por milagre divino, em função do poder de influência dos seus autores, coniventes ou beneficiários. O Estado não se descentralizou, nem sequer onde lhe seria fácil como no caso do Algarve, comprometendo os administrados nas decisões que lhes pertencem, tudo isso a pretexto de se insuflar um municipalismo que, na hora de fazer contas, agora quase é colocado no banco dos réus ou de castigo, tanto que não temos Ministério das Finanças mas apenas Ministério do Orçamento e não temos Ministério da Economia mas Ministério dos Remendos. Para um país que há bem pouco tempo era visto como um país de futuro, é bom saber que esse futuro está mais longe e não é para inglês ver.

Carlos Albino
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     Flagrante apelo: Aos leitores assinantes do Jornal do Algarve dos quais depende a continuação desta obra de que o Algarve não pode nem deve prescindir. Juntamo-nos ao apelo bem lembrado de João Leal: “Salvem o Times”.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

SMS 568. Descaminhos de ferro

12 junho 2014

Recordo-me daquele tempo (2003) em que ouvi Durão Barroso, então primeiro-ministro, anunciar ao lado de Aznar na Figueira da Foz, uma linha de alta velocidade de Faro até Huelva. Logo lhe disse que não acreditava. E não acreditava por três razões: primeiro, pelos portugueses; segundo, pelos espanhóis; e, terceiro, porque a medida foi traçada com olho semi-fechado sobre o mapa. Vai ver, respondeu. E estamos a ver. Lá se conseguiu a eletrificação da linha até Faro, lá foram feitas umas obras mal planeadas numa ou noutra estação, e pouco mais. Qual linha dupla! Qual Huelva! Nada.  Segundo Barroso, o corredor Faro-Huelva seria planeado “em função dos resultados dos estudos a desenvolver”, por forma a que estivesse concluída antes de 2018 e, questionado sobre o financiamento necessário para colocar em prática o plano em período de contenção orçamental, o então primeiro-ministro assegurou existirem parcerias com a Refer, com empresas privadas e 20 por cento do Orçamento de Estado. Agora, o atual governo já não fala em Huelva, nem de 2018, mas promete, além da eletrificação total da linha do Algarve, uma ligação por comboio ao Aeroporto de Faro, segundo um plano de infraestruturas prioritárias a concretizar até 2022.

Temos todas as razões e motivos para não se acreditar nas profecias em matéria de comboios no Algarve e para o Algarve, até porque aquilo que está à frente dos olhos não são caminhos, mas sim descaminhos de ferro. As estações estão no colapso e sem sentido de serviço público, os comboios são sujos, porcos e maus, os serviços de ligações complementares para as localidades não existem nem os vinculados (ferroviários e rodoviários) querem que existam (invocam que são “concorrentes”…) e algumas obras feitas com razoável dispêndio (passadeiras aéreas, por exemplo) foram dinheiro deitado à rua. Estações sem funcionários ou com funcionários trazidos de longe por escassas horas; chegam pendulares e inter-cidades com as portas e serviços fechados, sem que ao menos haja a mínima indicação por onde os passageiros possam sair do cais de desembarque ou obter informações de orientação (então quanto a estrangeiros, presenciei estupefacção e atabalhoamento); as linhas numa imundície completa, com a CP a remeter responsabilidades para a Refer e esta para a CP, segundo me garantem funcionários impedidos de explicar mais. Isto não acontece no deserto, mas em zonas nevrálgicas, populosas e, já agora, de excelência turística, invocação de bom-tom que fica sempre bem fazer nas reivindicações normais.

Ora, a CP apresenta-se, desde de Junho de 2009, como uma entidade pública empresarial, detida a 100% pelo Estado Português, responsável pela prestação de serviços de transporte ferroviário nacional e internacional de passageiros, articulando-se a REFER  e com o IMTT - Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres (entidade responsável pela regulação e pela coordenação e planeamento).

E a REFER, criada em 1997, também embandeira como seu objeto principal, o serviço público de gestão da infraestrutura integrante da rede ferroviária nacional, dizendo desenvolver as suas atividades de acordo com princípios de modernização e eficácia, de modo a assegurar o regular e contínuo fornecimento do serviço público e proporcionando ao mercado uma infraestrutura de transporte competitiva e segura.

São responsáveis pela vergonha das linhas de comboios no Algarve não serem paralelas. Estão no descaminho. A Estação Loulé-Quarteira, é exemplo gritante dessa vergonha.

Carlos Albino
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Flagrante abraço: Foi feita uma homenagem a João Leal pelos seus anos de escrita. Por razões imperiosas não estive lá. Se lá tivesse estado, diria: “Aqui está um homem que raramente escreveu sobre si próprio, escreveu sempre sobre os outros, e, para ele, o Algarve não foi nem é um outro qualquer, é ele próprio entregando-se-lhe na escrita”. Tenho dito porque sou testemunha desse amor à terra.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

SMS 645. Correspondência França-Portugal

17 dezembro 2015

De Paris, amigo meu, catedrático de referência, abre o diálogo que se segue:

- Como vão as coisas?
- Por aqui as coisas mudam, as loisas não… E por aí?
- Por aqui depois do suspense das eleições as coisas estão menos mal. Mas se analisamos porque é que tanta gente vota FN, dá uma "fotografia" pouco agradável de 30% dos Franceses.
- Também por aqui, há “fotografias” pouco agradáveis.
- Como diria a minha mãe, os Franceses no fundo tinham aderido em grande parte a Pétain, depois nos anos 50 ao horrível Poujade, essa espécie de ideologia pequeno-burguesa restrita, reacionária, mesquinha, mais o racismo que está enraizado numa parte da população...
- Por aqui, mudando Pétain e Poujade para outros nomes, passa-se o mesmo, só que atrás de um biombo, com 50% dos Portugueses atrás e outros 50% à frente. Como explicas isso aí
- A falta de pedagogia - desde a escola primária às altas  instâncias dos governantes - destas última décadas tem feito resto. A falta de grandes intelectuais que lutam pela liberdade da palavra e do pensamento e pelo humanismo. Agora são falsos intelectuais cuja maioria vem da direita e que são convidados pelos media. Quando os bons intelectuais, inteligentes, sensatos, que analisam com mais profundidade falam, o povo acha que são chatos. Mais um jornalismo francês que prefere criticar seja o que for.
- Por aqui, tal e qual. Sobretudo isso, a falta de pedagogia desde a escola primária às altas instâncias dos governantes. Dá para conversa longa.
- Falaremos disso quando nos voltarmos a ver. Bom, continuemos a “luta”. Como tu dirias, os políticos defendem a cidadania até chegarem ao poder. Parto dia 21, vou a Zürich à ópera ver "Il viaggi a Reims" do Rossini, que vi há trinta anos quando o Abbado re-descobriru a partitura e o Ronconi  encenou na Scala com uma distribuição maravilhosa. Veremos desta vez. Depois vou para o Lago dos Quatro Cantões, como nestes últimos anos, ler, andar a pé ao longo do lago e nas montanhas à volta, ir de barco de vez em quando a Lucerna, talvez escrever - porque não? - em todo o caso, mudar de  ares e ver o lago e os barcos que o atravessam.
- Que sorte! Aqui temos que nos contentar com alguma coisa que pingue na província, depois passear rente ao mar e imaginar um caíque vindo do horizonte. Imaginar apenas, porque já não há um único caíque nem para amostra, e que se os suíços descobrem ainda põem um a navegar no Lago dos Quatro Cantões...

Carlos Albino
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Flagrantes votos: Bom Natal para todos os que tolerantemente lêem estes apontamentos e, muito em especial, para os fazem este Jornal do Algarve, o nosso The Times, como diria José Barão e João Manjua Leal não se cansa de repetir.