quinta-feira, 15 de setembro de 2016

SMS 684. Nós, os políticos…

15 setembro 2016

A palavra paradigma aplica-se com justeza a José Manuel Durão Barroso. Já andámos por muito tempo e cansativamente à procura de “um novo paradigma” para a política portuguesa, os políticos que se dizem fora da política ativa para não falarem das coisas pelos seus nomes usaram até à exaustão a palavra paradigma, para os que surgem a pregar nos canais de televisão como tempos dissimulados de antena e nas colunas partidárias cativas em jornais já foi paradigma para um lado e paradigma para o outro, houve um tempo em que Portugal era uma chuva continuada de paradigmas sem que alguém explicasse com clareza a que paradigma de referiam. E como as modas paradigmáticas pegam, nas campanhas eleitorais lá saltava da boca a palavra paradigma, desde o candidato a deputado que, omitindo ideias por vezes por manifesta impotência, pronunciava o seu paradigma como dentífrico, passando pelo candidato à câmara que não botava discurso sem 47 paradigmas, até aos concorrentes das freguesias - houve um que, verberando o presidente de saída por falta de obras públicas e prementes, se propôs, caso ganhasse, à “construção e inauguração de um grande paradigma no centro da freguesia”… Pelos vistos, toda esta gente, ao falar de paradigma, além de gastar a palavra, parece que não sabia o que estava a dizer. Não é o caso de José Manuel Durão Barroso que sabe muito bem o que é um paradigma, e agora mais sabe até porque ele próprio se converteu num triste caso paradigmático, a contrastar com o teor dos discursos laudatórios, quer do condecorante quer do condecorado, mal deixou de ser um paradigmático presidente da Comissão Europeia, por supostos serviços prestados ao paradigma nacional.

Em simultâneo com a “era dos paradigmas”, foi também inaugurada a fase dos discursos dos que mal abriam a boca, usavam o plural majestático - “Nós, os políticos…” Talvez para fazerem crer que os  políticos, assim auto-discriminados, eram uma espécie em vias de extinção a qual urgia ser protegida, talvez para inculcarem a ideia de que tal espécie humana incluía apenas sacrificados em nome de um difuso interesse público, ou então predestinados, sabe-se lá por que critérios divinos, para servirem os outros heroicamente. A vida política era assim apresentada como que um “sacrifício público” sem paga possível. E para justificar a falta de qualidade de tais sacrificados ou predestinados, chegou-se a espalhar o receio de que ninguém, nenhum quadro ou nenhuma inteligência reconhecida queria “entrar para a política” e assegurar a continuidade da espécie. Na verdade, quem os ouvia e infelizmente ainda ouve, também se referiam e referem aos imolados usando o “Vós, os políticos…”

Os factos acabaram de anular os receios - são bastantes, muitos e cada vez mais os que querem ser políticos, desde que a política lhes faculte o paradigma de uma carreira, pela qual subam até mais não, por via dos paradigmas filtrados e administrados por pequenos colégios ou grupos (locais, provinciais e nacionais, porque europeus ainda são uma ficção sem hino sentido, sem constituição a sério e sem bandeira que ocupe o lugar número um do estrado). Os paradigmas saídos dessas minorias (quanto mais locais, mais padigmáticas) , ainda assim podem invocar a ética política, enquanto o seu escrutínio pela sociedade for meramente formal e gerida pelos que tanto dizem “Nós, os políticos…” como pelos que se isentam com o “Vós, os políticos…”, não se saindo daqui.

José Manuel Durão Barroso é um mero caso paradigmático de quando a política e a ética não se apresentam como duas retas paralelas que garantam a qualidade da Política e da Ética. Fez-se vítima da ratoeira do seu próprio paradigma. É um caso paradigmático de topo, é certo, mas há mais, muitos mais casos de tais paradigmas: nacionais, provinciais e locais.

Carlos Albino
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Flagrante prova de RTP Regional do Porto: A Universidade do Algarve segue na tendência de consolidação do número de candidatos colocados na 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior acima da média nacional (51%). O noticiário nacional da televisão pública feito a partir do Porto, foi ali à Universidade do Porto, à distância de um braço que Marrocos fica longe. Isto é que é regionalite aguda.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

SMS 683. Um elevado ato de cultura

8 setembro 2016

Uma simples carta pode ser um elevado ato de cultura, sobretudo quando abre com a frase de Dmitri Shostakovich - “A Arte destrói o silêncio”. A carta foi endereçada por Joana Carneiro, maestrina titular da Orquestra Sinfónica Portuguesa, os destinatários, presumo, foram muitos, mas na parte que me toca não poderia ficar em silêncio. Todas as orquestras começassem a temporada com cartas como esta e todas as orquestras tivessem maestrinas ou maestros que semanas antes de suspenderem na batuta o silêncio geral da sala, escrevessem - “sempre entendi a Música como uma arte de relação: relação entre os músicos da orquestra e da orquestra com os criadores de todas as artes, com a comunidade e com a História”. Na verdade, sem esta relação, músicos, criadores, comunidade e História ficam em silêncio e sem a Arte que destrua os silêncios mortais. Joana Carneiro definiu essa relação como a ideia fundamental da orquestra que dirige e que, assim se espera, depois do Centro Cultural de Belém vai percorrer o País, País onde há muito silêncio.

A concretizar a relação da Orquestra Sinfónica Portuguesa com criadores de outras artes, diz-nos Joana Carneiro que “é com enorme alegria que podemos anunciar uma criação do grande artista Júlio pomar que, generosamente, graças ao seu traço genial, acedeu ajudar-nos a compreender uma das mais importantes peças sacras de hoje: as Sete Últimas Palavras de Cristo, de James MacMilan.” Sublinhe-se que, no País onde nem sequer a Arte destruiu o silêncio, quando uma orquestra, desde a de pífaros escolares à de solistas reunidos, apanha uma sombra de Júlio Pomar que seja ou mesmo um qualquer criador que faça sombra, não é a orquestra que é ajudada a compreender, mas, pelo contrário, ela ou o seu maestro é que faculta ao Artista ou criador a aprendizagem. É claro que, perante orquestras e maestros destes, os “públicos” ficam em silêncio por uma questão de civilidade e de lhaneza.

A temporada ainda não começou, os músicos estão longe de tomarem as suas cadeiras no palco e na estante de regência está para ser colocada esse pequeno bastão para substituir o rolo de partitura a que se chama batuta, introduzida por Carl von Weber, vai para 200 anos, e que ficou para sempre a distinguir o silêncio da Música. Desconhece-se como a temporada vai ser, desconhece-se se o périplo da Orquestra pelo País vai ou não ser uma espécie dessa semi-volta a meio-Portugal, mas, para começar, a carta de Joana Carneiro, redigida com alegria, juventude e crença em que só a Arte destrói os horríveis silêncios próprios do despovoado, tal carta foi e é um elevado ato de Cultura.

Assim sendo, se Joana Carneiro e a sua Orquestra vierem ao Algarve, sejam bem-vindos que a gente precisa de combater a sazonalidade cultural.

Carlos Albino
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Flagrante Vítor Neto: A Associação Empresarial da Região do Algarve (NERA) propõe que seja realizada «uma reflexão regional séria sobre as causas da evolução positiva do ano», que envolva «empresários, instituições e forças sociais da região interessadas na economia e no emprego», para manter esta dinâmica positiva, nomeadamente no setor do turismo. Adverte Vítor Neto que  o Turismo beneficiou das crises de destinos concorrentes, mas que seria um grave erro pensar que essa situação se vai manter. Com ritmos diferentes, todos eles irão tentar recuperar. E têm atrás de si poderosos interesses a apoiá-los (Estados intervencionistas, grandes investidores internacionais, operadores turísticos, cadeias hoteleiras, companhias aéreas…). Mais adverte, que o Turismo dos portugueses na região, exige análise rigorosa: dos números, formas de alojamento, consumos. Tal reflexão regional impõe-se porque não bastam as análises «nacionais» que «esquecem» sistematicamente a especificidade do Algarve e diluem – por razões políticas – o seu peso no quadro nacional. Quem me avisa, bem me quer.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

SMS 682. Sim, por uma sociedade decente...

1 setembro 2016

É um título de livro. Calma, que não é súplica, apelo ou, muito menos, reprimenda. Cheguei à página final, a 268, e dei por mim a repetir – “Este homem pensa, precisamos de pensadores como este”. Sim, “Por Uma Sociedade Decente”, é o livro* mais recente de Eduardo Paz Ferreira, um professor catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa que nos fala terra a terra. Aliás, seria bom que falasse e fosse ouvido de terra em terra. Não vamos aqui falar sobre o livro, mas do livro. Oito capítulos, cada capítulo com uma mão cheia de breves ensaios que acabam por ser um filme das esperanças e pavores dos nossos dias. Filme pensado sobre o que há a fazer e nos deve comprometer no que esperamos de bem, e pondo o dedo nas feridas de que nos queixamos quando nos apercebemos que a vida apenas faz sentido em sociedade. Numa sociedade que seja decente. A vida só não faz sentido numa sociedade indecente.

Vale a pena descrever ou seguir à letra as cenas deste filme de ensaios de Eduardo Paz Ferreira, com tomadas e planos que dão interpretação às cenas dos nossos dias, as quais suscitam discussões, geram inquietações, e, se ou quando o filme for falado em língua não materna, só tem legendas decentes na hora do voto, seja este sim, não ou nim. O filme abre com uma interrogação: “Setenta anos depois da Segunda Guerra Mundial: o que ficou do espírito de 45?”. Segue-se a cena de que tantos falam, poucos entendem e bastantes se aproveitam para enriquecimento sem justa causa: “Estado Social: ascensão e crise”, a que se segue um diagnóstico já do tempo de gente hoje madura - “A década de 70: um mundo novo, valores em mudança”. Depois, uma pergunta sacramental para famílias sem empresa, empresários sem família e ofícios correlativos: “O Estado pode pouco?”. E não poderia ser omitida a cena que, em língua materna, tem por título “O declínio dos sindicatos e a economia do biscate”. A seguir, a cena que se entende por gestos como no cinema mudo, mas que poucos ousam dizer decentemente em voz alta: “A desigualdade mata as pessoas. A desigualdade mata as economias”.  E tal como na linguagem cinematográfica há um elemento essencial que se chama corte, lá se segue o corte: “A sociedade de consumo: as avenidas da liberdade”. E para remate da ação, uma cena titulada entre aspas porque pega no título desse notável livro de poemas de Luís Filipe Castro Mendes: “A Misericórdia dos Mercados”.

Eduardo Paz Ferreira chamou à cena final deste filme de ensaios – “Em jeito de conclusão: uma proposta modesta, começar de novo”. Aqui é que surge um senão, porquanto é de lhe pedir que não conclua – continue. Uma conclusão pertence a tratados, e ensaios são para continuar, continuar e continuar a luta por uma sociedade decente.

* “Por Uma Sociedade Decente - Começar de Novo vai Valer a Pena”, Eduardo Paz Ferreira (Marcador Editora/Presença, julho de 2016)

Carlos Albino
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Flagrante deficiência: Com tanto festival por aí imitando-se uns aos outros, falta um festival - o dos Macacos de Imitação.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

SMS 681. A AMAL não tem presença que se veja e sinta

25 agosto 2016

Foi tendo vários nomes, mas tal como a mulher de César, teve sempre epíteto de bom tom - AMAL, que lhe vem do batismo, em 1992, como Associação de Municípios do Algarve. Quando devia estar já crescidota, foi crismada, em 2004, como Grande Área Metropolitana do Algarve mas, para manter o bom tom, continuou AMAL. E já na idade de casar, casou com marido desde logo perdido ou desaparecido, com o nome de Comunidade Intermunicipal do Algarve, mas continua sendo a AMAL que sempre se chamou até porque, tal como com a mulher de César, era de mau tom e até de pouca originalidade ser tratada por CIA. Mas não entremos por nomes, coisa que pouco interessaria se a AMAL tivesse tido ao longo destes anos presença que se visse e se sentisse. Presença, não daquela que lhe decorre do aparato burocrático que é bastante, tanto que dá para um aspeto de Terreiro do Paço provinciano, mas presença, sim, que lhe viesse e se lhe sentisse de efetiva liderança regional, de voz apurada da região, de firmeza e constância em posições provinciais comuns. Nada disto aconteceu nem acontece, revelando-se a AMAL apenas como um estendal onde a roupa provinciana de 16 municípios se pendura a secar.

A AMAL, fosse associação, área metropolitana ou comunidade nunca foi o traje solene da política, a indumentária de autoridade moral, ou a vestimenta institucional do Algarve. Quando muito tem sido mero complemento de salário político de uma ou outra autarquia. Não entrou pelos olhos e ouvidos da população algarvia como voz indelével e imagem confiável da região.

Primeiro, era o governo civil que lhe fazia sombra política quando a sombra era meramente protocolar; depois, passou a ser a CCRDA a gerir os holofotes, por natureza, ligados às tomadas do governo que vai estando. Aos olhos e ouvidos da população algarvia, e também aos olhos e ouvidos que estão para além do Caldeirão, a AMAL, por falta de liderança autóctone ou por lideranças sempre condicionadas pelas hierarquias partidárias que fazem a trança de mordomias que despedaça o País, nunca foi a voz do Algarve, ou pelo menos uma das vozes, ainda que só pudesse cantar ópera apenas na banheira.

Pela sua missão e objetivo estatutário, compete-lhe potenciar o desenvolvimento dos municípios e reforçar a identidade conjunta da Região, mediante a articulação de interesses e criação de sinergias, e anunciadamente, também ser o guia e impulsionador dos Parceiros Regionais, capaz de conciliar e harmonizar as estratégias para o desenvolvimento sustentado da região. Para isto, tem que ter voz, ser a voz ou uma voz que não faça de conta, gerar uma liderança credível, culta e sábia.

Porque a região merece e espera.

Carlos Albino
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Flagrante elevador: Nada contra um elevador na Ponte sobre o Tejo para uma vista panorâmica a oitenta metros, com o custo de quatro milhões e meio. Mas um “programa cultural” de 365 dias para todo o Algarve por um milhão e meio, permite concluir que entre o Turismo e a Cultura há uma ponte muito baixa.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

SMS 680. Os burlões armaram a tenda nesta feira

18 agosto 2016

Uma coisa é a crença ou são as crenças, outra muito diferente é a charlatanice, o embuste, o dolo. Até nisto, bruxas, feiticeiros e curandeiros já não são o que eram, passe a gasta expressão. Outrora esta gente, na ausência de medicina e de médicos, usava segredos da natureza à mistura com rituais para curar. E às vezes até curavam, não pelos rituais mas pelos segredos que hoje são matéria-prima das medicinas alternativas já colocadas nos tronos universitários. Em nome de crenças, muita dessa gente foi queimada em ondas da justiça mais ignóbil. Que a memória não falte, já que Deus, pelo que dizem, não esquece. Hoje, a liberdade de crença, coisa que jamais se saberá onde começa e acaba (por vezes, com os fundamentalismos, acaba mesmo mal), hoje essa liberdade intocável não só suscitou um largo campo aberto à convivência das crenças como também facilitou a atuação de todo o género de trapaceiros que não são bruxos, toda a espécie de vigaristas e aldrabões que não são curandeiros, toda a fila de intrujões, tramoeiros e bilontras que não são feiticeiros. Mais grave é quando os embusteiros, já organizados, dissimulam a falcatrua com a crença, recobrem os espinhos da impostura com o veludo de objetivos humanitários, ou quando pintam o ardil com as cores divinas que até Deus desconhece. E isto tudo para dizer que o Algarve parece uma feira visitada por ingénuos, na qual cada burlão montou a sua tenda.

Há de tudo. Desde o “doutor” com nome de batuque no sertão e, supõe-es, com osso de rato no nariz, à especialista de búzios e cristais “especializada em casais” que, para credibilizar a sua “clínica de orientação espiritual”, assegura que se tornou na “parapsicóloga mais bem desenvolvida da Europa”, toda esta gente, à falta de médicos no Hospital de Faro, apela a que se pare de sofrer, que se acabe com insónias e depressão, que se vença impotências disto e daquilo, que o negócio traga lucros, que “vidas passadas” e a “maldição familiar” sejam riscadas do cartão de cidadão, ou até que “problemas no tribunal” fiquem resolvidos com um estalido de dedos.

Os que não têm rosto, invadem as caixas de correio mesmo que estas tenham a indicação de recusa de publicidade não solicitada, e colocam papelotes em tudo o que seja vidro de automóvel. Os que têm rosto, andam de dois em dois, à custa de mansinhos voluntários pensionistas e de desempregados de longa duração interpelando abusivamente com quem se cruzam como se Deus deles precisasse para assinar a rogo. Toda esta gente olha para a Sociedade em que deliberadamente não participa, como se a mesma Sociedade onde montaram tenda, fosse terra para invadir e para conquistar. É claro que invadem o mundo dos ingénuos e conquistam os crédulos que são maltratados ou marginalizados nos lugares onde a Saúde, a Segurança e o Direito deviam ser garantias de serviço público e não como coisas equiparada à adivinhação por búzios.

Pela quantidade das tendas da crendice, pelo número de burlões e pela desfaçatez dos espertalhões, não quero ter essa crença, mas tudo leva a crer que este é um dos sinais da terceiro-mundização do Algarve. E esta terceiro-mundização que formata uma “cultura” e até as crenças, não se pode eliminar por decreto, mas faz decretos e influencia os decretos.

Carlos Albino
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Flagrante praga: Nada de confusões. Uma coisa é o mundo dos criadores de cultura e de ciência. Outra, bem diferente, é o mundo dos parasitas da Cultura criada e da Ciência conseguida. E quando cheira a subsídio, os parasitas são uma praga.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

SMS 679. Os jovens correm ou… fogem

11 agosto 2016

É vulgar ouvir-se da boca de programadores, de agentes culturais e de gente mais ou menos envelhecida que por rotina diletante ou por ritual social assiste a tudo, não perde nada e para quem tudo está bem, que é preciso e imperioso “ganhar públicos novos”. E com isto querem dizer que é necessário ter os jovens nas plateias e, melhor ainda, disputando as primeiras filas de melhor vista e não se conformando com arrumação nas últimas, como que para cumprir algum serviço faz de conta. Na verdade, os jovens, descontando alguma música de alguma estrela de estrondo, estão longe das plateias, seja para música que salas semi-vazias aplaudem com “Bravó!”, muitas vezes para fazer de conta; estão longe da sala, seja uma conferência de filósofo de nomeada cujas palavras e sabedoria dificilmente se repetirão em tempo no mesmo local; longe estão se ocorre teatro, ainda que anunciado e reconhecido com elevada qualidade artística; e longe estão das Bibliotecas para requisitarem obras de mérito ou candidatas ao mérito. Para muitos e muitos jovens “ouvir poesia”, mesmo bem dita, é uma “enorme seca”, o que para a poesia mal dita se justificaria. Por aí fora. Esta constatação é comum não apenas nos pequenos centros, nas terras da chamada “periferia cultural” ou nas localidades onde a iliteracia é regra e é de tal modo lei que já não incomoda ninguém, mas é também comum nos grandes centros demográficos onde, seja onde for e a propósito do que for, se encontram mais ou menos sempre os mesmos com as mesmíssimas mesuras.

Mas porquê, isto? Porque motivo os jovens consideram que a cultura pensante num salão de reflexão é inimiga da cultura recreativa de discoteca? Uma impede a outra? Será porque os jovens não foram “conquistados” como público, ou porque há um erro de paralaxe dos que rapidamente se esquecem o que é um jovem, e um jovem, por natureza, se ou quando se sente que o querem tratar como velho precoce, não só corre como foge?

É claro que há bolsas de exceção que podem ser identificadas com maior ou menor dimensão em filarmónicas, ranchos, centros comunitários e “casas de cultura” cujos dirigentes e promotores não sejam jovens serôdios ou, eles próprios, velhos precoces.  Nessas bolsas de exceção, luta-se contra moinhos de vento e, muitas vezes, contra a irracionalidade de quem decide e tem o poder da massa na mão.

Mas, escolas com professores desenraizados e queimando 95% das energias em burocracia tão competitiva quanto inútil; bibliotecas entregues a gente que se debate entre o ser burocrata a cumprir eternamente serviços mínimos. e o ser proeminência sem justa causa; associações que se resumem ao número legal das direções menosprezando que a doença crónica do subsídio causa AVC cultural; uma região com o aparelho de Comunicação esfacelado ou mesmo destruído, embora os aparelhos de propaganda sazonal se revelem afinados; falta de políticas culturais coerentes por parte de entidades públicas (do Estado ou das autarquias) por insuficiência de recursos ou de golpe de asa; e, para pior ainda, uma avantajada e notória tribo nómada que por aí anda a colher os “frutos” da Cultura como uma etnia desprotegida ou auto-marginalizada colhe alfarrobas, tudo isto põe os jovens a correr e, claro, a fugir.

Quando um público foge, a última coisa que se pode ou deve fazer, é tentar “conquistá-lo”. E a primeira que se deve fazer é identificar as causas da fuga e resolver o problema identificado: na escola, na biblioteca, nas associações, na comunicação, nas entidades públicas, e nos que só apanham frutos em devassada terra alheia.

Carlos Albino
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Flagrante oração: “Meu Deus! Livrai-me de me recordar de Manuall Pinho que financiou muita parra para tão pouca uva e que, depois de espremida e pisada, não deu em nada. Ámen.”

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

SMS 678. Alarme social

4 agosto 2016

Num debate em Faro a propósito dos furos, se houve concordância entre todos (mesmo de discordantes à defesa) foi a de que o processo nasceu inquinado, obscuro, sem transparência. Foi inclusivamente dito sem contestação que está a ser denegada documentação legalmente de acesso público por parte de entidades administrativas que têm obrigação de o fazer. Designadamente, pelo que foi afirmado, pareceres iniciais dos mais diversos responsáveis regionais implicados na matéria, desde as do ambiente, da coordenação, da economia, por aí fora, até a autoridades marítimas e terrestres (só faltou a força aérea, dada a direção dos furos) e que permitiram o andamento dos contratos, não são disponibilizados como deveriam ser pelo bê-á-bá do Código do Procedimento Administrativo que, por estes e outros tantos casos, se transforma no Código do Alçapão Supositivo.

Assim sendo, falar de furos, discutir furos, avaliar a justeza, viabilidade e adequação de furos, não é propriamente provocar alarme social, como alguns responsáveis já o têm afirmado, porque o alarme social, e esse sim, alarme social arrepiante, é aquele que decorre da falta de transparência do Estado, das entidades da Administração do Estado face aos administrados e dos que lidam com as coisas do interesse público como se fossem da sua propriedade privada.

Independentemente dos furos darem gás, petróleo ou cerveja, há uma questão prévia por resolver e que deve ser resolvida - a da Transparência, com maiúscula. Esta não é uma questão de geologia e de geólogos, não é uma questão de opção entre energias já obsoletas ou para aproveitar nas últimas, e não é uma questão de parcerias avençadas mal ou bem por interesses espanhóis - é uma questão de segurança coletiva.

É claro que, entre nós que ninguém nos ouve, a falta de transparência e o incumprimento difuso da lei que impõe regras de transparência, já faz parte de uma “cultura” que vem de longe. Chegou-se a pensar que o Código de Procedimento Administrativo seria uma barragem inicial para as atuações que desvirtuam as finalidades do Estado, designadamente de um Estado democrático. Mas os factos desapontam. Desde repartições da administração central até a guichés municipais, é do quotidiano verificar-se que, quando a coisa dá para o torto, os administrantes manipulam com arte o Código do Alçapão, e, ou dilatam se é que não mandam para as urtigas o do Procedimento Administrativo, para o qual o indefeso cidadão tem que fazer um furo.

Carlos Albino
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Flagrante vantagem: E pelos vistos, fazer furos para construir lá fundo da terra onde não há sol nem vista para o mar, não paga IMI e se calhar ainda obriga o Estado a pagar indemnizações… por falta de vista.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

SMS 677. Façam furos de prospeção sobre o futuro

28 julho 2016

Justifica-se uma chamada de atenção, porque não é inteligência, passar como cão por vinha vindimada. No seu recente livro “A Sociedade do Custo Marginal Zero” (Bertrand, março-2016), o sociólogo e economista Jeremy Rifkin augura um futuro de energia gratuita que mudará radicalmente os modelos de produção e, com isso, a própria sociedade tal como a conhecemos. Depois de outros vaticínios feitos muito antes que todos os think-tanks do mundo e que já são realidade, Jeremy Rifkin não apresenta o fim da era obsessiva do petróleo como uma utopia, mas como uma realidade iminente. Há poucos dias, numa entrevista dada em  Dallas, durante o congresso internacional do World Travel & Tourism Council, Jeremy Rifkin assegurou que “nos encontramos perante o final das energias fósseis” e explica tintim por tintim porque a segunda revolução industrial já tocou no teto e está em pleno declive. A entrevista não cabe neste espaço, mas como que em resumo, Jeremy Rifkin afirma como certo que “os automóveis, tal como hoje os conhecemos, não estarão cá daqui a vinte anos” e que, nos EUA, por exemplo, “se em 1978, um vátio de energia solar custava 78 dólares, agora custa 50 cêntimos, e dentro de 18 meses custará 35 cêntimos”...

No Algarve, e com o que ocorre neste Algarve, em vez de muita ou tanta conversa fiada, julgo que Jeremy Rifkin deveria ser convidado pela Universidade do Algarve para uma intervenção e diálogo aberto. Seria oportuno e daria a necessária credibilidade à discussão do assunto. Uma universidade é para isso e Jeremy Rifkin não é inacessível e uma intervenção sua apenas nos ajudaria a fazer furos de propeção mas sobre o futuro que é mesmo o futuro imediato porque o relógio avança. Não é preciso coragem, basta querer e, por tudo, que querer que o cão não passe por vinha vindimada.

É verdade que Jeremy Rifkin é o guru do que chama “a terceira revolução industrial”, baseada nas energias sustentáveis e nas consequências da internet como as da economia colaborativa, trabalha como assessor de numerosos governos, desde a China, Dinamarca, EUA, Espanha e Alemanha, e também com a União Europeia. Uma vinda sua ao Algarve, na hora que passa e para uma intervenção na nossa melhor Casa da Inteligência, seria uma vinda honoris causa. E um furo de prospeção.

Carlos Albino
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Flagrante sintoma: Quando um hospital como de Faro chega ao ponto de não dispor de uma cadeira de rodas, ou Faro tem muito movimento, ou a coisa está mesmo doente de há muito.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

SMS 676Torga, se calhar teve razão

21 julho 2016

Sim, tal como para Miguel Torga, o Algarve é sempre um dia de férias na pátria. Mais: dentro dele nunca me considero obrigado a nenhum civismo, a nenhuma congeminação telúrica nem humana. E seja onde for - em Ferragudo, em Barão de São Miguel ou no Cachopo - tal como quando me debruço a uma varanda de Alportel, apetece-me tudo menos ser responsável e ético.

Lá longe, as coisas de Trás-os-Montes, ou mesmo as de mais perto como as coisas do Alentejo, tais coisas tocam-me muito no cerne para eu poder esquecer a solidariedade que devo a quem sofre e a quem sua. E isto repete-se com maior ou menor força no resto de Portugal, seja em Fátima, no Estádio do Dragão ou no Retiro do de Guinchos do Fado. No resto de Portugal, tenho consciência das coisas, umas vezes leve outras vezes pesada.

Mas, passado o Caldeirão, é como se me tirassem uma carga dos ombros. Sinto-me livre, aliviado e contente, eu que sou a tristeza em pessoa! Passado o Caldeirão, agora até a confundir-se com A2, qualquer Torga é algarvio, e adeus ética, adeus responsabilidade, adeus consciência das coisas.

Também é verdade que, chego ao Algarve, e a brancura dos corpos e das almas devida à ausência de liderança regional, a limpeza das casas e das ruas devida às rigorosas burocracias municipais, e a harmonia dos seres e da paisagem devida ao facto de por enquanto ou ainda não haver petróleo, tudo isto lava-me da fuligem que, no resto de Portugal, se me agarrou aos ossos e clarificam as courelas encardidas que trago no coração.

No fundo, e à semelhança dos nossos primeiros reis, que se intitulavam senhores de Portugal e dos Algarves, separando sabiamente nos seus títulos o que era centrípeto do que era centrífugo no todo da Nação, não me vejo verdadeiramente dentro da pátria. Sem tirar, nem pôr. Mas também me não vejo fora dela, desde que o desemprego sazonal, a desgraça do hospital e o pandemónio dos mercenários das escolas não me afetem.

Em resumo: como qualquer Torga que se preze, chego ao Algarve e julgo-me numa espécie de limbo da imaginação, onde tudo é fácil, belo, primaveril, cante alentejano e pêra do Oeste.

Obrigado, Torga! Facilitaste este apontamentozito! Como te ririas se te lesse isto na Praia de Santa Eulália, perante um bom salmonete grelhado, como aconteceu quanto te aconselhei a ir a Alte para reconheceres os filhos dos filhos dos teus ascendentes emigrados.

Carlos Albino
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Flagrante boato: Ouviu-se e ouve-se dizer que a Fundação Sousa Cintra (onde está tudo para os devidos efeitos, nomeadamente fiscais) tem como objectivo principal “o apoio à valorização, à divulgação e desenvolvimento sustentável da região cinegética do Algarve, tendo em vista o equilíbrio entre a economia e o ambiente, designadamente através do fomento e reforço de habitats e de espécies cinegéticas, a criação e apoio ao desenvolvimento de projectos no domínio do ambiente, ciências e economia do mar, a criação, exploração e desenvolvimento do Museu dos Descobrimentos e do Mar, ambos em Sagres”. No que as más línguas dão.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

SMS 675. Onde está o público?

14 julho 2016

A pergunta, no Algarve, é conforme. Caso se trate de sardinha assada, não falta e não há nenhum mal nisso – Deus criou os peixes para serem grelhados, embora isso destoe no Teatro da Figuras. Caso se trate de uma divindade forjada pela televisão, mesmo que pouco ou nada tenha na cabeça, público também não faltará e continua a não haver nenhum mal nisso ou só por isso – mesmo no paraíso cada um pode escolher a serpente que lhe apresente a melhor maçã. E caso se trate de um fado cantado por voz de passarinho, de uma banda com som amplificado como se um avião entrasse por uma orelha e saísse por outra, ou mesmo de três ranchos folclóricos à medida do orçamento da festa, haverá igualmente público garantido à medida, e nenhuma catástrofe daí virá, pois Deus também criou o fado, uma banda e um rancho ao sétimo dia, quando descansou. Nenhum mal nisso ou só por isso.

O problema é quando um grande pianista como Artur Pizarro se apresenta no Teatro das Figuras e a sala fica por metade; quando pinga no Algarve alguma boa peça de teatro e, fora a sessão dos convites seletivos, as cadeiras ficam vazias; e quando se anuncia um conferencista de topo e é preciso pescar público para a terceira fila. E problema também quando a uma pretensa sessão “cultural” com algum ouro, prata e bronze da casa, ou muita da lata de casa, e acorrem apenas os tios e primos dos organizadores, os funcionários autárquicos  e adjacentes do costume, se o senhor presidente for, além de supostos simpatizantes que nada leram do escritor, se for um escritor,  que nem por certo irão ler. E mesmo nestas sessões, o problema fica agravado quando os que deviam estar atentos não se despegam das mensagens de telemóvel num afã ininterrupto de gente à beira da surménage, abandonando ao intervalo alegadamente para pregação noutra aldeia, com público idêntico.

É claro que, nestas circunstâncias, a última coisa que se pode fazer é culpabilizar seja quem for. O problema de público no Algarve é social e sociológico. As elites locais que, por regra, devem gerar públicos de referência, estão desenraizadas por opção ou por inércia, e mesmo desinseridas da sociedade onde vivem e trabalham. Professores em trânsito e saturados da burocracia escolar, advogados que têm mais em que pensar, médicos por certos desejos de escapadela da província; economistas para quem quase tudo está fora do âmbito; e um sem número de novos especialistas que, sem se darem conta, prosseguem o velho problema de menosprezo da instrução pública e da aprendizagem contínua, tudo isto contribui para que não haja públicos e públicos críticos que não se verguem ao encómio ou à hostilidade. Não há que culpar ninguém porque o problema é estruturalmente social e sociológico, numa sociedade que até para conhecer os seus mortos apenas tem um meio – o aviso por fotocópia colada na parede, ou por recado no café da manhã.

Carlos Albino
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Flagrantes votos: De bom e isento desempenho para Francisco Serra, como Presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

SMS 674. Destaque para dois comentários

7 julho 2016

Como vamos nas 674 semanas deste apontamentozito, ocorre agora dizer que temos dois hábitos: um, é o de volta e meia dirigirmos duas perguntas ao diretor deste jornal, e que são - Estamos a servir o Jornal do Algarve? E servimos o Algarve? O outro hábito é o de submetermos o apontamentozito em pré-leitura a muitos cujas opiniões respeitamos e acolhemos. E assim, o apontamentozito vai ficando dependente de duas provas. A prova real (Fernando Reis) e a prova dos nove.

Sobre os dois temas da semana passada (saída britânica da UE e esse desafortunado programa de “cultura sazonal”), damos destaque para dois comentários recebidos, um muito breve mas significativo partindo de quem parte, outro mais longo mas simbólico enviado por quem sabe que é melhor prevenir que remediar. A saber:

1 – Sobre livres trocos de libras por euros: “O seu SMS vem precisamente ao encontro do que penso! Temos que trabalhar para reforçar as nossas relações com os nossos amigos britânicos, porque reflete o que somos, e é do nosso interesse”.

2 – Sobre a ideia peregrina da cultura sazonal: “Assino por baixo da flagrante miopia. Poderia (passe a imodéstia) tê-la escrito. Isso preocupa-me desde a primeira hora! Acredito que se pode e deve fazer algo pensado, estruturado, com tempo e, sobretudo, percebendo as graves carências da região algarvia. E que sem estes termos, vamos falhar. Sim. Tem todos os ingredientes para falhar. Como se constrói um programa que se quer alicerçado na identidade e nas associações artísticas da região, quando estas não existem e aquela não tem produtos (ou tem poucos) construídos a partir dela de forma consistente e estratégica? Mas, sim, pode e deve fazer-se mais, pensar-se melhor, mas para isso é necessário perceber de onde partimos e construir uma estratégia a longo prazo com ações que começam no curto prazo. Mais, esse programa pode contribuir para uma possível candidatura de Faro, em 2019, a capital europeia da cultura em 2027 mas para isso é necessário ter dirigentes políticos com visão, com estratégia, sem medo de apostar na Cultura como motor de desenvolvimento. E a partir daí, trabalhar o território para realizar esse evento. Sem isto, será mais uma oportunidade perdida. Falhar de novo para falhar melhor, é o que não precisamos na nossa região!”

Pedimos desculpa por não identificarmos os autores dos comentários, mas os próprios não se importam e é a prova de que este é um espaço comum.

Carlos Albino
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Flagrante peça de museu: Depois do atual Presidente da República e do Primeiro-Ministro terem recusado o carro legado pelo anterior Chefe de Estado de gama muito acima das nossas possibilidades, há uma solução – entregar-se o automóvel ao Museu Etnográfico de Boliqueime….

quinta-feira, 30 de junho de 2016

SMS 673. Não teremos Algarvexit

30 junho 2016

O que se temia está a acontecer. No dia seguinte ao 24 de Junho, um pouco por todo o Reno Unido, assiste-se a manifestações xenófobas desabridas e revelam-se rancores racistas até agora mantidos em silêncio, lá onde havia um certo fair play ou pelo menos uma tolerância educada. É a prova de que o tom dos políticos, as suas frases, as suas promessas, as suas mentiras e as suas verdades agem sobre a conduta das populações. A prova de que o discurso político solta efeitos imitativos que se reproduzem como as imagens em espelhos paralelos, efeitos que se propagam e expandem em progressão geométrica. Nada de pior poderia acontecer, no momento em que do outro lado do Atlântico uma figura como Donald Trump anda à solta pelas pradarias dos Estados Unidos, ateando o ódio. É caso para reflectirmos, para percebermos quem somos e em que lugar nos encontramos.

Os portugueses não são nem racistas nem xenófobos, ou pelo menos não o são numa escala percetível que nos coloque entre os povos intolerantes perante a diferença étnica e cultural. O facto de nos adaptarmos a todas as latitudes da Terra, e o termos feito ao longo dos séculos, sem dramatismos, leva-nos a aceitar o reverso, a aceitar no estreito rectângulo onde vivemos, pessoas provenientes de todas as latitudes e todas as culturas. O Algarve, como se sabe, no sul desse rectângulo, funciona como uma espécie de resultado de todas as somas dessa cultura, mais do que tolerante, pacífica. Podemos ter muitos defeitos, mas o convívio de igual para igual é a nossa marca de água local. Por outro lado, a comunidade britânica residente, à exceção de esporádicas manifestações de altivez, acessos de arrogância imperialista que por vezes acontecem, vive e convive entre nós, respeitando-nos, compreendendo-nos, trocando connosco o que têm de melhor. São bons visitantes que escolheram a nossa terra como segunda pátria. Bem-vindos sejam. Neste momento, porém, o que se desenha no horizonte não está ausente de nuvens. A descida da libra, e todas as alterações que se avizinham, pode criar dificuldades aos britânicos e consequências para nós. Por eles e por nós, devemos estar preparados. Porém, se algum estremecimento vier a ocorrer, que ele nunca provenha de ressentimentos, vingança xenófoba, incompreensão pelas diferenças. Os motivos que levaram os britânicos a votarem o Brexit não serão por certo aqueles que moverão a população do Algarve eventualmente afetada. Na nossa região, por certo, por nossa vontade, sentimento, e conveniência, nunca haverá Algarvexit. Essa palavra não existe no nosso dicionário latino. Mas que sejam os próprios ingleses residentes na região ou passantes, a concluir que a lição não é apenas para inglês ver.

Carlos Albino
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Flagrante miopia: Depois dos fracos e escassos resultados de Faro Capital da Cultura e da tontearia do Allgarve, um terceiro programa que se anuncia como que caído das nuvens, sem se ouvir ninguém e como que outorga do poder central como se a Cultura tivesse que ter sazonalidade, sugere todos os elementos para falhar. Insiste-se na muita parra e pouca uva. As instituições e pessoas de referência da região deviam ter sido ouvidas. Assunto para desenvolver.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

SMS 672. Educação ou temperamento?

23 junho 2016

Se queremos estar em paz connosco próprios, devemos evitar discutir como se define o comportamento de um povo. Esse é um assunto inquietante porque nunca se chega à conclusão sobre se se trata de um modo de agir fruto de um temperamento, isto é, o resultado de uma formação orgânica, e pensamos nos genes, no território, na direcção do vento, na incidência do sol, e até na água que bebemos, ou, se pelo contrário, as atitudes cívicas dependem de factores culturais, como sejam a História e a Educação. Para nosso sossego, preferimos sempre por optar pela segunda via. A crença em que a Escola, as Instituições e a Política podem alterar para melhor os comportamentos humanos, fazem-nos acreditar que não só a melhoria é possível, como o ritmo da mudança pode ser acelerado se nos empenharmos nesse sentido. É o que parece ter sido tentado ao longo das últimas décadas. Mas o sucesso, que é algum, ainda é muito limitado. O povo não é uma abstracção, é o somatório de actos individuais, e quando descemos aí, percebemos que o povo, o nosso povo, no sentido mais lato, aquele que engloba as classes altas e as ditas baixas, mantêm os antigas estigmas de lentidão e falta de iniciativa absolutamente assustadores.

Os exemplos colhidos do quotidiano são gritantes. Basta sair de casa e confrontarmo-nos com os serviços públicos. Um exemplo? A Estrada 125 está em obras, a zona de intervenção não é extensa, os nós em causa são simples de ultrapassar. Então porque se formam filas de carros, com pessoas ao volante que não sabem para onde ir, nem com quem falar? Experimentem a querer informar-se junto de um dos muitos agentes da GNR que estão parados junto ás obras. Eles acabam de chegar de terras estranhas ou longínquas, e por isso não conhecem o assunto e apenas dizem para seguir as setas. Ou então dizem que não têm alternativa e rolam o braço para que se acelere, e se avance em frente. Ou então não conhecem o piso e estão ali deslocados de outros serviços. Se perguntamos porque não existe um croqui, uma indicação mais precisa, o agente limita-se a dizer – “Vá ao posto e faça queixa”. E continuam a fazer com o braço aquilo que a seta faz - “Vá em frente”. E em frente, vamos dar ao lugar oposto para onde queremos ir.

Muitos parabéns a esta ajuda. Estamos no centro do centro de uma região turística de excelência, consideramos. Este mesmo desmazelo justifica que o poder central nos ignore, e que as petrolíferas queiram abrir poços no Algarve. Eles sabem com o que contam – com pessoas que estendem o braço para dizerem de olhos fechados pela força do sol – “Olhe, vá em frente”. Até José Hermano Saraiva considerava que o problema deste povo consistia na coexistência de élites corruptas e populações passivas. Se passarem pela 125, e mergulharem no caos do trânsito, em vez da queixa junto do comando da GNR, sugiro que chamem uns quantos agentes da polícia de Espanha ou do Reino Unido. Talvez eles não se limitem a levantar o braço como autómatos. Talvez se tenham informado dos circuitos alternativos e sintam que é bom cumprir por iniciativa própria. Quanto nos falta para chegarmos lá?

Carlos Albino
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Flagrante reforço: Na caça à multa e com partes gagas. Claro que qualquer polícia inglês, espanhol ou francês sabe que não pode mandar parar sem motivo aparente ou fundamentado. 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

SMS 671. Jóia da coroa

16 junho 2016

Não é preciso dar muitas voltas para se perceber que a Universidade do Algarve precisa de ser rodeada de mais cuidados. Acessos, envolvência, sinalética, o próprio território universitário, etc., merece melhores olhos. Qualquer coisa, muita coisa está mal à vista desarmada por aquelas bandas. Não digo que seja laxismo, mas parece; não digo que seja lassidão, mas tudo leva a crer que é isso; não digo que seja uma espécie de desprezo, mas parece que, nas Gambelas, a universidade para ali está atirada para um retiro e que, na Penha, para ali está arrumada numa espécie de bazar labiríntico. É claro que, quer num sítio quer noutro, a coisa nasceu e possivelmente cresceu mal, designadamente quanto ao urbanismo que só não entra pelos muros porque tem que haver espaço para a carreira do pachorrento autocarro que serpenteia como que num sacrifício para ligar Faro aos confins do seu mundo. Não é preciso discorrer muito para se concluir que se cometeram erros insanáveis para que a Universidade do Algarve se abrisse aos olhos num cenário digno, adequado e estimulante, com profunda e evidente ligação à cidade que lhe serve de cama.

Por dentro da universidade, a coisa diz respeito à própria universidade, às circunstâncias de crise, às derivas da política geral, enfim, a tudo o que vai bater com o orçamento de um Estado que, em matéria de universidades, também se tem revelado excelente pai para umas e mau padrasto para outras. Mas por fora, a coisa diz respeito a quem desde há muito já devia ter reconhecido a universidade como a jóia da coroa do Algarve, se é que ainda o Algarve esteja coroado onde deve ser coroado - em Faro e não propriamente no Cachopo.

Repensar as ligações dos espaços universitários com a cidade anfitriã; repensar traçados de acesso ou pelo menos melhorar as condições de circulação; repensar a iluminação; repensar o ambiente físico de acolhimento; estimular serviços e atividades que se compaginem com a instituição, independentemente do que no seu interior ocorra, enfim, há um sem número de iniciativas que deviam ser tomadas, algumas com imediata urgência.

Nisto, Faro tem responsabilidades.

Carlos Albino
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Flagrante policiamento: Com certeza! Depois da Guardia Civil, polícias ingleses e franceses a patrulhar o Algarve. Mas quem patrulhará os polícias, a não ser Capacetes Azuis?

quinta-feira, 9 de junho de 2016

SMS 670A política também tem a sua 125…

14 junho 2016

Quer nas curvas mal desenhadas para a direita, quer nos enfiamentos mal assinalados à esquerda, quer ainda nos casos da condução ao centro nas retas com lombas imprevisíveis, a política algarvia assemelha-se à 125 no seu pior, quando menos se espera. A maior parte dos desastres, é da culpa exclusiva de quem conduz sem a exigível carta ética ou com carta ética caducada. E em alguns casos, os acidentes até seriam evitáveis se, independentemente de carta ou não, o condutor político aceitasse regras básicas, tais como usar óculos na eventualidade de falta de acuidade visual, tomar vitamina A ou comer muita cenoura na circunstância de incapacidade de resistência ao deslumbramento, ou ainda não ingerir poderes alcoólicos. Além disso, cuidados especiais para os que andam na política em duas rodas e não distinguem piso molhado de piso seco, ou andam a 180 com pneu já furado.

Vem isto a propósito do episódio da exoneração do presidente da CCDRA. Foi um desastre evitável. Como aqui se escreveu e se reafirma, essa condução tinha que ser interrompida por inabilitação de carta. De carta ética, não mais. Dirigir regionalmente um partido altamente interessado na corrida das autárquicas e ao mesmo tempo gerir o combustível para abastecer os motards municipais litigantes, além de poder dar a alguns água com açúcar em vez de gasolina, seria contribuir para que o hospital de Faro deixasse de se dedicar à saúde e passasse a ser hospital autárquico em 2017 e hospital político a qualquer hora inesperada, dada a qualidade dos condutores da 125 da política.

Aliás, uns tantos por aí disseram, escreveram e repetiram que a exoneração do condutor da CCDRA foi motivada por “pressão do PS” ou “autarquias do PS”, tanto faz. Nas circunstâncias similares de falta de carta, qualquer agente de trânsito não fecharia os olhos a falso testemunho ou a qualquer explicação dolosa do condutor. No caso, a questão é de carta ética, obrigatória seja o condutor do PSD, da CDU, do BE ou do PS, já que o CDS não tem condutores na nossa 125 metafórica mas apenas alguns mecânicos.

Resumindo e concluindo: foi bem exonerado e devia ter pedido a demissão atempadamente. Ganharia pontos na carta, em vez de os perder.

Carlos Albino
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Flagrante prestação de informação: O novo presidente da CCDRA deve informar com rigor quais os subsídios e apoios concedidos em 2015 e 2016, designadamente na área da comunicação social. Primeiro, a lista de quem é de quanto; depois diremos porquê.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

SMS 669. Eles sabem manobrar o tempo


Não quero utilizar uma célebre frase de Millôr Fernandes que, em apenas algumas palavras, resumia a diferença da manobra do tempo entre o agir dos que se julgam sábios e o agir daqueles que ingenuamente tomamos por imbecis. Nada disso. Apenas vou parafrasear a sentença dizendo-a em modo suave – Enquanto os líricos discutem na incerteza, os interesseiros assaltam de surpresa.

É precisamente na diferença da função desse intervalo, esse enquanto de que falava Millôr, que estou a pensar, decorrida uma semana após a discussão em torno das concessões para prospecção e exploração de petróleo e gás natural no Algarve. Ao longo de oito dias, os líricos apresentaram argumentos, manifestos, mostraram-se unidos, enraivecidos, invencíveis do ponto de vista da razão, e agora estabelece-se uma pausa durante a qual cada um pensa que isto não vai por diante, que seria uma loucura, e porventura um crime. E como ninguém embarcará numa loucura, e muito menos publicamente perpetrará um crime, podemos dormir descansados.

Não é verdade. Não podemos dormir descansados. Este tempo, o tempo do intervalo durante o qual pensamos que a causa absurda está vencida, por parte dos líricos, é um tempo de trabalho afanoso das partes dos interessados. Enquanto nós dormimos, há quem não durma. Do outro lado, há quem se rodeie de engenheiros prontos a esburacar na terra como se não houvesse pessoas, professores universitários prontos a criarem documentos lógicos que nem tratados de Descartes, como se não houvesse outras lógicas que não as da oportunidade imediata e só para alguns, advogados que invocam leis de há vinte anos, como se o mundo entretanto não tivesse mudado e as leis gerais hoje não fossem outras. Pior do que isso, enquanto nós dormimos, descansados pelo nosso efeito retórico, e pelo nosso movimento musculado, e fazemos uma pausa, os interessados em transformar um património público em património privado, só mesmo para alguns, há quem espalhe panfletos, dê entrevistas, vá junto das populações, e diga que os desempregados de agora, com o petróleo e o gás natural, terão emprego num futuro próximo. Há quem espalhe a falácia de que somos egoístas, queremos andar de carro, mas não queremos contribuir para a produção de gasolina. Isto é, há quem esteja disposto a misturar todas as causas, retirar-lhes o seu contexto e subverter os tempos, e não durma por isso, enquanto os líricos estão dormindo. Por acaso, esta noite, eu estava acordado e vi chegar a notícia de que deputados e especialistas dos Estados Unidos, México e Colômbia estão a relacionar os recentes sismos ocorridos nos seus países com a exploração dos hidrocarbonetos nas imediações, ali vastas. Como se vê, coisa simples.

Carlos Albino
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Flagrante comparação: O que a Escócia recebe, nada perdendo, absolutamente nada, e a suja percentagenzita que querem dar ao País, perdendo o Algarve quase tudo (será o “turismo da alforreca”, e como se sabe, nenhuma alforreca se instala no Conrad).

quinta-feira, 26 de maio de 2016

SMS 668. Petróleo? Agora fia mais fino

26 maio 2016

Thomas Friedman é o autor do polémico livro O Mundo é Plano, título que só por si constitui um programa  pró globalização. Uma vez lido, faz muita gente ficar com os cabelos em pé pela forma épica como o autor, em 2006, achatava a Terra à medida de uma tigelada. Na verdade, estes dez anos vieram encarregar-se de demonstrar que o seu triunfalismo militante não correspondia à aurora dourada que previa estar a caminho. Mas o importante é que nem tudo o que escrevia está fora da calha, e muito do que diz, sobretudo nas crónicas do The New York Times, tocam a realidade dos factos. E se me lembro do seu nome, neste momento, é porque foi sua a afirmação de que se se queria descobrir os caminhos do crime dever-se-ia seguir os rastros do petróleo.

A propósito da tentativa de extracção de petróleo e gás natural no Algarve, eu não vou tão longe. Não vou dizer que, no rasto deste propósito, se está a descobrir o fio de um crime, mas que se está no rasto de um acto de sedição, isso parece óbvio que sim. Bastaria ter assistido ao último debate de Prós & Contras para se perceber que na falta de clareza, contradições, sobreposição de funções, omissões e prepotência dita científica, está em marcha uma sublevação branca da ordem pública. Uma sublevação pacata, manhosa, feita com as delongas de quem sabe esperar, e as poucas palavras de quem há muito sabe que pela boca morre o peixe. Aquilo a que se assistiu, da parte da bancada dos prós-produção, foi tudo isso, e em certos momentos quase se esteve a dar plena razão à apreciação de Thomas Freidman.

Deixando, no entanto, o caso do fracking de lado -  a jornalista não deixou de dar a palavra em abundância, a quem o pôde descrever -  este confronto,  que resulta de uma acção lamentável,  que infringe todos os limites da cidadania, no entanto apresenta um lado muito positivo.  O Algarve acordou em peso para a indiferença com que tratam a região, para o desprezo e a prepotência com que se age sobre os algarvios e os outros seus residentes. E nós, apodados de moles, desunidos, indiferentes e egoístas, eis que de repente mostramos uma faceta contrária. Duros, unidos, altruístas, e com vontade firme de derrubar uma estratégia, que se não é criminosa nas intenções, acabará por constituir um crime económico, social e ecológico, se acaso for adiante. Vítor Neto de sábio dedo estendido, avisou – “Isto não acontecerá”.

Assim esperamos, pois o que nos leva à revolta e ao movimento, neste acaso, não é a mudança ridícula de Algarve para Allgarve. Agora fia mais fino, e o motivo escreve-se com outras letras porque elas servem para manter intacto o nosso chão.

Carlos Albino
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Flagrantes vozes do Algarve: Muito bem, Jorge Botelho; muito bem, José Amarelinho; muito bem, Vítor Aleixo.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

SMS 667. Áreas de fábrica da inteligência

19 maio 2016

Estive para colocar no título “Bibliotecas Públicas, lugares de cura”, desisti que cheirava a centro de saúde. Depois redigi “Bibliotecas Públicas, para a primeira, segunda, terceira e todas as idades”, ficou de lado – era extenso e uma misturada. A seguir, surgiu-me “Proibido brincar às Bibliotecas Públicas”, ficou de lado por poder ser acintoso e injusto para quem não brinca. Ainda fui tentado para mais uns seis ou sete títulos corrosivos mas cada um poderia sugerir que é geral, aquilo que deveras é local e excecional. Optei por “Áreas de fábrica da inteligência” e, com isto, relevar que, ao lado das autarquias e das escolas, as bibliotecas públicas tanto podem ser um degrau próximo dos pés de cada um para o futuro, como meros cemitérios de livros geridos por cangalheiros da cultura ou por acompanhantes da defunta eventualmente com muitos “eventos” mas tudo espremido, R.I.P.. Assim mesmo. E entremos, mais uma vez, na questão, e não será a última.

As bibliotecas públicas, como é sabido, formam uma rede no País, um projeto iniciado em 1987, promovido pelo Ministério da Cultura, através da Direcção de Serviços de Bibliotecas do Instituto Português do Livro, e visando parcerias com os municípios. A construção desta rede que envolve 261 dos 308 concelhos do País foi sem dúvida o mais importante passo dado até hoje em matéria de política cultural. Os objetivos gerais são cativantes – animação cultural com promoção da inclusão social e da cidadania, gosto pela leitura e conhecimento do mundo, igualdade de acesso à informação e ao conhecimento, acesso a fontes de informação externas às próprias bibliotecas. Mas, na prática, o êxito destas depende de cada responsável ou diretor, da sua criatividade, nível cultural, competência e sageza. E com a importância decisiva das Tecnologias da Informação e da Comunicação, com um desenvolvimento impensável em 1987, se o responsável não for criativo e competente, a biblioteca falhará no seu objetivo de ser uma fábrica de inteligência. Basta lembrar que há bem pouco tempo, quando se queria ler um livro, era suficiente “ir à biblioteca”. Hoje, estamos perto de que caibam num portátil todos os livros produzidos na história da humanidade (estimativas entre os 42 e 130 milhões) e não tardará que caibam num telemóvel. A Wikipédia, o Google, as versões digitais da Amazon colocam já, com um clique, informações e livros à frente dos olhos. As bibliotecas como meros depósitos de livros e lugares de culto para vaidades pessoais, estão condenadas, não sobreviverão.

Então, qual o futuro das bibliotecas em que o País e autarquias tanto investiram? O futuro é o de serem, cada vez mais, lugares de reflexão, de discussão de ideias, de exploração intelectual. Em suma, fábricas de inteligência.

A primeira e gigantesca biblioteca conhecida no mundo foi, como se sabe, a Biblioteca de Alexandria. Além de livros, ela tinha jardins, nela havia concertos e exposições de arte, e sobretudo discutia-se. Na expressão de um contemporâneo milenar dessa biblioteca matriz, “era um lugar para curar a alma”. Hoje as bibliotecas devem retomar essa fórmula inicial. E assim muito rapidamente, no que toca ao Algarve, há por aí bibliotecas que só estragam a alma, razão porque voltaremos ao assunto.

Carlos Albino
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Flagrante biombo: Em matéria de subsídios designadamente com marca d’água da Europa, a transparência de uma instituição pública local ou regional, começa por informar, com rigor e atempadamente, quanto se dá, a quem se dá, com que condições se dá, quem avalia e quando se avalia… Foi pela arte de fazer pela calada, que Caim matou Abel.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

SMS 666. Dois apelos irrevogáveis de Dália Paulo

12 maio 2016

Dois textos por acaso me chegaram aos olhos, entre o muito que o online efemeramente nos proporciona. Dois textos de Dália Paulo. Um, sobre a premência de um Observatório Cultural, abrangente; outro, sobre o financiamento por via do IRS, de associações, fundações e cooperativas de interesse cultural e com atividade cultural. Relativamente ao observatório, lembra Dália Paulo a boa experiência anterior colhida com o Observatório das Atividades Culturais, criado em 1996 e extinto ingloriamente em 2013 pela lógica de demolição que passou por algumas cabecinhas. Quanto à reversão agora possível do IRS para entidades culturais, Dália Paulo insiste na necessidade de divulgação da medida, observando com justeza que não se trata tanto de uma desresponsabilização do Estado no apoio à Cultura sendo mais um comprometimento dos contribuintes com a mesma cultura. São dois apelos irrevogáveis, usando alguma ironia.

Sobre o Observatório Cultural, além de envolver minimamente, por hipótese, o Ministério da Cultura, o Instituto de Nacional de Estatística, uma estrutura universitária competente e uma equipa de projeto, é uma necessidade premente num país onde o voluntarismo, a improvisação e os lóbis atropelam o essencial e fazem esquecer o fundamental.

Quanto ao financiamento das entidades culturais por via do IRS, há que acrescentar que esse é um dos bons caminhos no combate que está por fazer à subsídio-dependência que, como regra, prática e conveniência, eterniza tantas associações sem associativismo, fundações que nada fundam e cooperativas que nada cooperam. Os subsídios justificam-se e são defensáveis quando se faz o que o Estado não pode ou não quer fazer, mas quando o subsídio cultural se transforma em doença social ou se converte em mero salário de prestígio social para os dependentes, aí a porca torce o rabo. Digamos que a canalização voluntária dos contribuintes de uma percentagem dos impostos para associações, fundações e cooperativas culturais, até é, de certa forma, a irrefutável prova de vida destas e prova de como são aceites e reconhecidas pela sociedade. Mas Dália Paulo tem razão ao reclamar que a medida e seus benefícios tem que ser divulgada. Divulgada pelas associações culturais nas suas áreas de influência, e também pelas entidades públicas (estatais e autárquicas), o que não tem acontecido.

Carlos Albino
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Flagrante insulto: No fundo, ao chamar os algarvios de índios e ao raciocinar que com o petróleo deixariam de ser índios (foi isso que deveras pretendeu dizer, julgando falar para parolos), o ex-ministro Moreira da Silva modificou plasticamente a proeminência dos ossos temporais, e autodecorou-se com a espessura dos lábios, a indigência da barba, os cantos dos olhos convergindo para o nariz chato, o amplo horizonte do nariz com uma argola pendurada no ambiente carnudo, umas penas amarelas na penteadura, e um colar de dentes ao pescoço colecionados uns 15 dias antes das eleições. Uma figura, assim, insulta qualquer índio a sério que um algarvio encontre a oito quilómetros da costa ou dançando sobre xisto.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

SMS 665. A “mexicanização” da política local

5 maio 2016

Em consciência, tenho que o dizer: há fortes sinais, aqui e ali no Algarve, da “mexicanização” da política local pelo que a haver nos próximos tempos alguma política regional se a regionalização avançar, da mesma mexicanização não nos livraremos. Que me desculpem os mexicanos, mas não há palavra diferente de mexicanização para caracterizar uma democracia faz de conta e em que todos os meios se justificam para manter o poder ou ganhar mais poder, numa sábia administração da legalidade com ocultação da ética e numa sábia gestão da ética com ocultação da legalidade. Ou seja, o poder pessoal a tender para o poder arbitrário, com exercício discreto do favorecimento. E a coisa exige naturalmente sabedoria, sobretudo a que leva à procura obsessiva de instrumentos de legitimação pública e de credibilização moral de atuações que contendem com a moral política e que sem colocarem em crise a legalidade fragilizam a legitimidade. Para tal forçada credibilização, a Cultura, os criadores e agentes culturais servem às mil maravilhas.

Numa região com grave problema de comunicação, com baixíssimo índice de leitura (está na cauda do País), forte infoexclusão, e com o acesso à informação de proximidade confinado a uma estreita e elitizada faixa da população além de que a mesma informação é diminuta e tardia, a referida mexicanização da política e dos políticos germina como morangos. E se a plantação desta política se amplia e se os seus frutos apetitosos se multiplicam, é inútil falar-se dos valores da Política, da representação e da participação, do escrutínio e do confronto de ideias para o bem comum. A mexicanização do poder que, por definição, leva à formação de um bloco político que, pela eliminação ou neutralização dos adversários, humilhação da crítica e estigmatização do voto, se transforma em única alternativa do mesmo poder, é a negação do que temos entendido como sendo a Democracia. A nível de Estado, por enquanto, tais sinais de mexicanização são obviamente um escândalo; a nível local, os sinais começam por ser despercebidos, vão definindo pouco a pouco as burocracias montadas e quando menos se espera no lugar do homem ou mulher eleita surge a figura do déspota e seus acólitos de carreira. Já temos experiência disto em Portugal.

Creio que o Algarve está entorpecido por esses sinais de doença política que não mora em exclusivo num dado partido, mas é transversal. Todos têm disso. E se me perguntarem qual é o grande inimigo da região, eis a resposta que em consciência dou: É a manha. A mexicanização tem a manha como ponto de partida, manha essa que tardiamente em Lisboa é identificada mas sem consequências – o manhoso já subiu.

Carlos Albino
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Flagrante lógica: Estás na oposição? Então deves defender a regionalização. É um incómodo que acabará quando chegares ao poder.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

SMS 664. É o petróleo, meu inteligente

28 abril 2016

Oxalá que não seja uma metáfora. Sousa Cintra, muitos antes desse envolvimento com petróleos e apenas envolvido com a bola, indo a conduzir o seu carro e ao mesmo tempo entrevistado pela TSF, ficou célebre naquele desabafo reforçado pelo calão quando partiu o vidro da janela que julgara aberta. Atirou uma garrafa de vidro para a estrada e o vidro rendeu-se à sua força de mão, levando os ouvintes da estação a ouvirem em direto a prova da literacia de Cintra. Oxalá que o episódio não venha a ser metáfora ou antecipação do que se passa com a corrida à exploração de petróleo e gás natural no Algarve, coisa muito mal explicada. Aliás, só avança porque não há explicação credível nem aceitável, já faltando pouco para que os interessados e seus emissários não comecem a imitar o impropério de Cintra contra a janela do seu carro.

Nos contratos assinados, um dos motivos de força maior invocados para a gestão de responsabilidades, por entre hipotéticas rebeliões das populações e supostas guerras civis como inviabilizadoras do negócio, estão terramotos. E aqui é que bate o ponto, sem que se saiba até onde bate. Todos sabemos que os terramotos que ao longo dos séculos assolaram o Algarve, tiveram epicentro no mar a sul de Tavira ou ao largo do Cabo de São Vicente.  É um motivo de força maior para o qual é aconselhável que nos devamos precaver, não esperando que seja a Galp, a Repsol, ou a Portfuel a dizer-nos que “é o petróleo, meu inteligente”, já que quem está de braços cruzados perante o que se está a passar, à exceção dos emissários, não tem direito a ser tratado como palerma, mas como inteligente, como a metáfora do senhor Cintra ensina.

O Algarve, geologicamente, é uma zona altamente sensível e não pode ser tratado como se fosse uma garrafa vazia de água atirada por um caçador de entrevistas. Oito quilómetros de distância, para o caso, não é nada. Comparar petróleo/turismo como mera questão de custo/benefício omitindo que nisto há pessoas cuja cultura vai além do impropério, e que as pessoas devem contar à cabeça e serem ouvidas, é não perceber que há barris de petróleo mas que também há barris de pólvora. Sossegar as consciências com Cádis é julgar que os outros desconhecem que Cádis é Cádis e que para este efeito ou em função das consequências, Cádis pouco ou nada tem a comparar com o Algarve. Pensar-se que Portugal fica menos dependente em petróleo ou no gás, é hoje já apostar no cavalo errado. E quanto a ganhos, uma ninharia que faz rir qualquer escocês que faça contas com o petróleo do Mar do Norte.

Seria melhor os da prospecção arrepiarem caminho e não atirarem a garrafa de vidro sem se certificarem que a janela do seu carro está aberta. Depois de uma tragédia, é tarde.

Carlos Albino
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Flagrante dever de resposta: É vergonhoso que Vossa Excelência não se demita e não perceba que um concurso público tem como limite o interesse privado, seja este individual ou de grupo.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

SMS 663. Dez coisas que poucos desejariam

21 abril 2016

Sim, há Liberdade. Mas há dez coisas que poucos, muito poucos desejariam voltar a ver, ou que se instalassem como que por geração espontânea:

1 – Que o Algarve, com marretada daqui e marretada dali, perdesse identidade. E nessa perda, também as suas terras, as suas instituições regionais, cada vez mais instituições pessoais e de grupo.
2 – Que a Administração pública (local e estatal) acolha os cidadãos, seja nos reparos injustificados, seja naqueles onde a razão impera, sem as regras da civilidade, do respeito e da prestação de ajuda. Há muito chefe sem chefia para tão pouco índio que se afoita.
3 – Que fosse possível fazer experiências com extração de petróleo, numa zona fortemente sísmica, ou, a fazer, pelo menos com debate e esclarecimento público claro, aceitável e credível.
4 – Que os deputados, no seu conjunto, não deputem como deviam deputar.
5 – Que as Assembleias eleitas (municipais e de freguesia) não fossem as casas da participação coletiva, do escrutínio, e da presença constante dos eleitores cada vez mais conformados no papel de marionetas eleitorais, contaminando com esta doença teatral os próprios eleitos, ou por medo ou por conveniência. Raramente são motivos de notícia, como deviam ser sempre.
6 – Que as Escolas não fossem assumidas como instituições de excelência, e conferindo às suas direções a dignidade de tratamento adequado.
7 – Que fosse possível, em 2016, um Algarve com profundo défice informativo.
8 – Que a rede de Bibliotecas Públicas esteja cada vez mais próxima não da literacia mas da iliteracia.
9 – Que a sinalética do Algarve, no Algarve e sobre o Algarve seja uma completa desgraça, designadamente quanto ao património e às centralidades da região. Até estava melhor no tempo dos mouros.
10 – Que não nos calemos, porque ainda falta a agricultura, a Universidade do Algarve (que Faro trata como enclave), os dinheiros europeus, os projetos, os portos… mais 72 coisas pois os sonhos foram mais que dez e os desapontamentos mais que 120.

Carlos Albino
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Flagrante declaração: Gosto muito da Andaluzia. Devia haver mais ligação em todos os aspetos. E quem precisa não se deve fazer rogado.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

SMS 662. Correios e trapalhadas

14 abril 2016

Quando os CTT encerraram dependências a pretexto da preparação da privatização, já se suspeitava que não era a melhoria do serviço público e facilitação para as populações que estava em linha de mira mas sim um atalho para um novo banco. Na verdade, o fecho de serviços instalados em edifícios próprios e que ficaram de portas fechadas à espera de qualquer coisa não claramente anunciada, e a deslocação desses mesmos serviços para lojas particulares ou, à falta disto, para as juntas de freguesia que tiveram que assumir o ónus, tudo isso foi uma trapalhada. Como em todas as trapalhadas, fica-se à espera dos resultados e eles aí vão aparecendo.

A palavra trapalhada tem três entendimentos: ou é apenas uma confusão, mistura de coisas; ou é um enredo obscuro, enfim, coisa que não se entende; ou, pura e simplesmente, trapalhada significa embuste. Ora, quando o mais alto responsável dos CTT e principal agente da ciclópica preparação da privatização, veio a público argumentar que a transferência de serviços para lojas manifestamente desadequadas era para “ajudar a economia local”, ao mesmo tempo que envolvia as juntas de freguesia na trapalhada, ele não foi diretamente ao assunto porque o assunto era já e foi sempre o atalho que os CTT proporcionavam para um banco, coisa que não se cria de um dia para o outro, como a terra firme foi criada no dia a seguir ao da separação dos mares. E viu-se como foi: os CTT despejaram o lixo, quiseram a casa a mais limpa possível da sujeira do serviço público remetido para uns balcões improvisados e eis o banco.

Nada a opor à criação de bancos, à instalação de bancos, e à afirmação concorrencial de bancos. O que se recusa é a trapalhada que cheira a embuste.

OS CTT estão a desarticular caixas de receção, estão a substituir os serviços de proximidade por tarefas entregues a viajantes efémeros, etc.. Nas zonas rurais ou de população dispersa mas intensa, isto é particularmente lesivo e está nos antípodas do serviço público. Ir aos postos de correio está a converter-se no mais recente dos sacrifícios e para quem os pode suportar. Em muitos aspetos, o serviço público só não foi liquidado porque as juntas de freguesia passaram a acolher e a fazer aquilo para que não foram criadas.

O banco, agora chamado Banco CTT, inicia os seus dias publicitando que “nada nos move mais do que a vontade dos portugueses”, e que, “por isso, chegou a hora de fazer nascer um banco que começa do zero”.

Não é verdade que comece do zero, começa da trapalhada e da limpeza do serviço público.

Carlos Albino
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Flagrantes votos: O novo ministro da Cultura, embaixador Luís Castro Mendes, merece os nossos melhores votos de bom desempenho. Não porque o seu pai tenha sido juiz em Faro e colaborador assíduo do Jornal do Algarve; não porque o seu avô, José Rosa Teixeira, do Ameixial e com vida em Loulé, tenha sido intenso descobridor das pedras com a Escrita do Sudoeste (espólio no Museu Arqueológico de Faro); não porque se considere algarvio, por acaso nascido em Idanha-a-Nova. Nada por isso! Luís Castro Mendes é uma das figuras cimeiras da poesia contemporânea portuguesa, foi embaixador de primeira linha nas principais instituições que contam para a Cultura na Europa (UNESCO e Conselho da Europa), e acima de tudo é um homem sério a toda a prova, honesto ao lado de todas as dúvidas e culto.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

SMS 661. Região-Órfã

17 abril 2016

Dissipadas as veleidades de ser uma Região-Piloto, coisa apenas embandeirada por benemerência antes de eleições, o Algarve é uma Região-Órfã. Não tem pai nem mãe. Podia ter padastro ou madastra, mas nem isso. Tem uma múmia de faraó mais ou menos recoberta de ouro que é a CCDR, tem uma marioneta que se move consoante a agilidade dos dedos que a manipulam que é a AMAL, e, além disso, uma pequena coleção de direções e delegações regionais que são uma grande homenagem à burocracia que faz do Estado e do seu aparelho um verdadeiro carrossel oito, com papéis a darem a volta por cima e outros por baixo. Com a extinção do Governo Civil perdeu uma espécie de tutor que, nos últimos dias, estava já reduzido à figura de mero empregado do Ministério da Administração Interna e que só por alguma deferência protocolar sugeria vénia. Com a secundarização ou mesmo a neutralização da RTA reduzida a penacho, até o turismo, principal atividade, é uma conversa pegada. E é assim que o Algarve está reposto no que por certo sempre foi: filho de pai incógnito e de mãe incógnita, se é que teve pai e mãe. Ou seja: uma colónia em que os colonos não se assumem, uma extensão da Costa da Caparica mas onde alguns barracos são mansões sujo valor depende das offshores e das revistas sociais.

Há quem, no meio disto, tivesse depositado e ainda deposita confiança, melhor, esperança na AMAL que nasceu sem mentir na sigla em 1992, com a mesma sigla faltou à verdade em 2004 como Grande Área Metropolitana, e que ainda com a mesma sigla se converteu, em 2008, na inverdade de Comunidade Intermunicipal do Algarve. Mas enfim, é por AMAL que se conhece isso, qualquer coisa como que chapéu de alentejano em cabeça de beirão. Está longe da população, os colonos passam ao lado, mas é a AMAL a única coisa que resta quanto a defesa do bem comum de Aljezur a Alcoutim, do interesse geral de Vila do Bispo a Vila Real, e do chapéu que ainda é Faro.

A anunciada “missão” da AMAL, na verdade, é “potenciar o desenvolvimento dos municípios e reforçar a identidade conjunta da Região, mediante a articulação de interesses e criação de sinergias”. E também como anunciada “visão”, a AMAL propõe-se “ser o guia e impulsionador dos Parceiros Regionais, capaz de conciliar e harmonizar as estratégias para o desenvolvimento sustentado da região”. Quanto à missão, não tem sido muito missionária, e quanto à visão, precisa de óculos. De um todo, falta-lhe iniciativa política, impulso, ganho da confiança geral, golpe de asa, pilotagem, ação nas “casas da frente” e não apenas no quintal, falta-lhe fazer o que um ser desprotegido espera de pai, mãe, padastro ou madastra que seja. E é assim que o Algarve é uma Região-Órfã. Para ser “piloto”, é necessário decreto; para ser “órfã”, é suficiente reduzir a Política ao carreirismo.

Carlos Albino
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Flagrante negócio: O das ambulâncias.

quinta-feira, 31 de março de 2016

SMS 660. Longe do Gabão

31 março 2016

A única forma de testar os sistemas é ir ao encontro dos casos particulares. Este descreve-se assim.

Imagine-se alguém que seja submetido a uma operação melindrosa na sexta-feira antes do Domingo de Ramos, e que vai para casa na segunda-feira seguinte. O pós-operatório é muito delicado. Imagine-se que na madrugada de Domingo de Páscoa a pessoa não se sente bem, cai e parte os braços. Imagine-se que se dirige ao Hospital de Faro, onde fez a operação, e onde julga que vai ser assistida. No Hospital de Faro, a cadeia funciona, é-lhe atribuído o estatuto de doente prioritário, todo o sistema responde, radiografias, análises, verificação das fracturas. Mas subsiste um problema no final da cadeia. Não há um médico ortopedista disponível. Pensa-se que haverá no Hospital de Portimão. Também não. Pensa-se no Hospital de Beja. Também não. Só há uma solução – Ou o Hospital de São José, ou o Hospital de Santa Maria. Trezentos quilómetros de ambulância, a equipa normal nestas soluções. A escala determina São José. Também aí a equipa funciona. Também aí o caso é tratado com a rapidez possível. Mas passou um dia inteiro, e passou uma parte da noite, vários funcionários envolvidos, o sofrimento do paciente, tudo o que se imagina, e existe a despesa. Dizem-nos que devemos imaginar como razão para tudo isso, as contas orçamentais.

Pois, por certo, que o facto de não haver um ortopedista disponível a Sul do Tejo resulta do jogo orçamento. É natural que se diga que a concentração em Lisboa resulta mais leve para o erário público. Diz-se, sim, mas não se acredita. Essas contas têm de ser explicadas. As razões pelas quais faltam médicos em especialidades tão importantes quanto são a ortopedia, surgem desgarradas. Algumas delas roçam o ridículo, como é o caso de os médicos não quererem preencher as vagas no Algarve porque não há incentivos de ordem cultural na região. É verdade que a região tem um défice de atractivos na área da Cultura. O que lhe sobeja em lazer, falta-lhe em oferta cultural. Um médico que esteja habituado a ir ao teatro, à ópera e aos grandes concertos de música clássica, aqui, terá de ir a Sevilha ou a Lisboa. 

Mas aí, também se terá de fazer as contas. Se é uma questão de orçamento, também se terá de perguntar o que sairá mais barato. Se fazer os doentes, em péssimo estado, andarem a percorrer estradas de ambulância, se recompensar médicos competentes de modo a que possam fazer os mesmos percursos para não se sentirem isolados. Tudo isto, enquanto a região não encontra a sua dimensão própria, e o Algarve não se transforma da estância de lazer e passatempo que é, numa região com identidade cultural na modernidade, que ainda não é.

Mas falei de uma desculpa ridícula. Sim, nem todos os médicos serão Albert Schweitzer, o médico pianista que foi para o Gabão e criou o Hospital em Lambaréné.  Se ele tinha necessidades culturais? Sim. Vivia no meio do mato, e vinha à Europa para dar concertos, ganhar dinheiro, e regressar para investir no meio do mato. Nem todos nascemos Schweitzer, claro. Mas também alguma coisa estará errada quando a doença e o sofrimento não entram nas nossas vidas a não ser por via das administrações públicas e das compensações orçamentais. A pessoa que mencionei lá está em casa, imobilizada. Mas o argumento da cultura perde-se-me no traçado da A2 e não sei porquê.

Carlos Albino
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Flagrante previsão: Ou vem aí terramoto, ou para pior já basta assim.