quinta-feira, 7 de julho de 2016

SMS 674. Destaque para dois comentários

7 julho 2016

Como vamos nas 674 semanas deste apontamentozito, ocorre agora dizer que temos dois hábitos: um, é o de volta e meia dirigirmos duas perguntas ao diretor deste jornal, e que são - Estamos a servir o Jornal do Algarve? E servimos o Algarve? O outro hábito é o de submetermos o apontamentozito em pré-leitura a muitos cujas opiniões respeitamos e acolhemos. E assim, o apontamentozito vai ficando dependente de duas provas. A prova real (Fernando Reis) e a prova dos nove.

Sobre os dois temas da semana passada (saída britânica da UE e esse desafortunado programa de “cultura sazonal”), damos destaque para dois comentários recebidos, um muito breve mas significativo partindo de quem parte, outro mais longo mas simbólico enviado por quem sabe que é melhor prevenir que remediar. A saber:

1 – Sobre livres trocos de libras por euros: “O seu SMS vem precisamente ao encontro do que penso! Temos que trabalhar para reforçar as nossas relações com os nossos amigos britânicos, porque reflete o que somos, e é do nosso interesse”.

2 – Sobre a ideia peregrina da cultura sazonal: “Assino por baixo da flagrante miopia. Poderia (passe a imodéstia) tê-la escrito. Isso preocupa-me desde a primeira hora! Acredito que se pode e deve fazer algo pensado, estruturado, com tempo e, sobretudo, percebendo as graves carências da região algarvia. E que sem estes termos, vamos falhar. Sim. Tem todos os ingredientes para falhar. Como se constrói um programa que se quer alicerçado na identidade e nas associações artísticas da região, quando estas não existem e aquela não tem produtos (ou tem poucos) construídos a partir dela de forma consistente e estratégica? Mas, sim, pode e deve fazer-se mais, pensar-se melhor, mas para isso é necessário perceber de onde partimos e construir uma estratégia a longo prazo com ações que começam no curto prazo. Mais, esse programa pode contribuir para uma possível candidatura de Faro, em 2019, a capital europeia da cultura em 2027 mas para isso é necessário ter dirigentes políticos com visão, com estratégia, sem medo de apostar na Cultura como motor de desenvolvimento. E a partir daí, trabalhar o território para realizar esse evento. Sem isto, será mais uma oportunidade perdida. Falhar de novo para falhar melhor, é o que não precisamos na nossa região!”

Pedimos desculpa por não identificarmos os autores dos comentários, mas os próprios não se importam e é a prova de que este é um espaço comum.

Carlos Albino
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Flagrante peça de museu: Depois do atual Presidente da República e do Primeiro-Ministro terem recusado o carro legado pelo anterior Chefe de Estado de gama muito acima das nossas possibilidades, há uma solução – entregar-se o automóvel ao Museu Etnográfico de Boliqueime….

quinta-feira, 30 de junho de 2016

SMS 673. Não teremos Algarvexit

30 junho 2016

O que se temia está a acontecer. No dia seguinte ao 24 de Junho, um pouco por todo o Reno Unido, assiste-se a manifestações xenófobas desabridas e revelam-se rancores racistas até agora mantidos em silêncio, lá onde havia um certo fair play ou pelo menos uma tolerância educada. É a prova de que o tom dos políticos, as suas frases, as suas promessas, as suas mentiras e as suas verdades agem sobre a conduta das populações. A prova de que o discurso político solta efeitos imitativos que se reproduzem como as imagens em espelhos paralelos, efeitos que se propagam e expandem em progressão geométrica. Nada de pior poderia acontecer, no momento em que do outro lado do Atlântico uma figura como Donald Trump anda à solta pelas pradarias dos Estados Unidos, ateando o ódio. É caso para reflectirmos, para percebermos quem somos e em que lugar nos encontramos.

Os portugueses não são nem racistas nem xenófobos, ou pelo menos não o são numa escala percetível que nos coloque entre os povos intolerantes perante a diferença étnica e cultural. O facto de nos adaptarmos a todas as latitudes da Terra, e o termos feito ao longo dos séculos, sem dramatismos, leva-nos a aceitar o reverso, a aceitar no estreito rectângulo onde vivemos, pessoas provenientes de todas as latitudes e todas as culturas. O Algarve, como se sabe, no sul desse rectângulo, funciona como uma espécie de resultado de todas as somas dessa cultura, mais do que tolerante, pacífica. Podemos ter muitos defeitos, mas o convívio de igual para igual é a nossa marca de água local. Por outro lado, a comunidade britânica residente, à exceção de esporádicas manifestações de altivez, acessos de arrogância imperialista que por vezes acontecem, vive e convive entre nós, respeitando-nos, compreendendo-nos, trocando connosco o que têm de melhor. São bons visitantes que escolheram a nossa terra como segunda pátria. Bem-vindos sejam. Neste momento, porém, o que se desenha no horizonte não está ausente de nuvens. A descida da libra, e todas as alterações que se avizinham, pode criar dificuldades aos britânicos e consequências para nós. Por eles e por nós, devemos estar preparados. Porém, se algum estremecimento vier a ocorrer, que ele nunca provenha de ressentimentos, vingança xenófoba, incompreensão pelas diferenças. Os motivos que levaram os britânicos a votarem o Brexit não serão por certo aqueles que moverão a população do Algarve eventualmente afetada. Na nossa região, por certo, por nossa vontade, sentimento, e conveniência, nunca haverá Algarvexit. Essa palavra não existe no nosso dicionário latino. Mas que sejam os próprios ingleses residentes na região ou passantes, a concluir que a lição não é apenas para inglês ver.

Carlos Albino
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Flagrante miopia: Depois dos fracos e escassos resultados de Faro Capital da Cultura e da tontearia do Allgarve, um terceiro programa que se anuncia como que caído das nuvens, sem se ouvir ninguém e como que outorga do poder central como se a Cultura tivesse que ter sazonalidade, sugere todos os elementos para falhar. Insiste-se na muita parra e pouca uva. As instituições e pessoas de referência da região deviam ter sido ouvidas. Assunto para desenvolver.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

SMS 672. Educação ou temperamento?

23 junho 2016

Se queremos estar em paz connosco próprios, devemos evitar discutir como se define o comportamento de um povo. Esse é um assunto inquietante porque nunca se chega à conclusão sobre se se trata de um modo de agir fruto de um temperamento, isto é, o resultado de uma formação orgânica, e pensamos nos genes, no território, na direcção do vento, na incidência do sol, e até na água que bebemos, ou, se pelo contrário, as atitudes cívicas dependem de factores culturais, como sejam a História e a Educação. Para nosso sossego, preferimos sempre por optar pela segunda via. A crença em que a Escola, as Instituições e a Política podem alterar para melhor os comportamentos humanos, fazem-nos acreditar que não só a melhoria é possível, como o ritmo da mudança pode ser acelerado se nos empenharmos nesse sentido. É o que parece ter sido tentado ao longo das últimas décadas. Mas o sucesso, que é algum, ainda é muito limitado. O povo não é uma abstracção, é o somatório de actos individuais, e quando descemos aí, percebemos que o povo, o nosso povo, no sentido mais lato, aquele que engloba as classes altas e as ditas baixas, mantêm os antigas estigmas de lentidão e falta de iniciativa absolutamente assustadores.

Os exemplos colhidos do quotidiano são gritantes. Basta sair de casa e confrontarmo-nos com os serviços públicos. Um exemplo? A Estrada 125 está em obras, a zona de intervenção não é extensa, os nós em causa são simples de ultrapassar. Então porque se formam filas de carros, com pessoas ao volante que não sabem para onde ir, nem com quem falar? Experimentem a querer informar-se junto de um dos muitos agentes da GNR que estão parados junto ás obras. Eles acabam de chegar de terras estranhas ou longínquas, e por isso não conhecem o assunto e apenas dizem para seguir as setas. Ou então dizem que não têm alternativa e rolam o braço para que se acelere, e se avance em frente. Ou então não conhecem o piso e estão ali deslocados de outros serviços. Se perguntamos porque não existe um croqui, uma indicação mais precisa, o agente limita-se a dizer – “Vá ao posto e faça queixa”. E continuam a fazer com o braço aquilo que a seta faz - “Vá em frente”. E em frente, vamos dar ao lugar oposto para onde queremos ir.

Muitos parabéns a esta ajuda. Estamos no centro do centro de uma região turística de excelência, consideramos. Este mesmo desmazelo justifica que o poder central nos ignore, e que as petrolíferas queiram abrir poços no Algarve. Eles sabem com o que contam – com pessoas que estendem o braço para dizerem de olhos fechados pela força do sol – “Olhe, vá em frente”. Até José Hermano Saraiva considerava que o problema deste povo consistia na coexistência de élites corruptas e populações passivas. Se passarem pela 125, e mergulharem no caos do trânsito, em vez da queixa junto do comando da GNR, sugiro que chamem uns quantos agentes da polícia de Espanha ou do Reino Unido. Talvez eles não se limitem a levantar o braço como autómatos. Talvez se tenham informado dos circuitos alternativos e sintam que é bom cumprir por iniciativa própria. Quanto nos falta para chegarmos lá?

Carlos Albino
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Flagrante reforço: Na caça à multa e com partes gagas. Claro que qualquer polícia inglês, espanhol ou francês sabe que não pode mandar parar sem motivo aparente ou fundamentado. 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

SMS 671. Jóia da coroa

16 junho 2016

Não é preciso dar muitas voltas para se perceber que a Universidade do Algarve precisa de ser rodeada de mais cuidados. Acessos, envolvência, sinalética, o próprio território universitário, etc., merece melhores olhos. Qualquer coisa, muita coisa está mal à vista desarmada por aquelas bandas. Não digo que seja laxismo, mas parece; não digo que seja lassidão, mas tudo leva a crer que é isso; não digo que seja uma espécie de desprezo, mas parece que, nas Gambelas, a universidade para ali está atirada para um retiro e que, na Penha, para ali está arrumada numa espécie de bazar labiríntico. É claro que, quer num sítio quer noutro, a coisa nasceu e possivelmente cresceu mal, designadamente quanto ao urbanismo que só não entra pelos muros porque tem que haver espaço para a carreira do pachorrento autocarro que serpenteia como que num sacrifício para ligar Faro aos confins do seu mundo. Não é preciso discorrer muito para se concluir que se cometeram erros insanáveis para que a Universidade do Algarve se abrisse aos olhos num cenário digno, adequado e estimulante, com profunda e evidente ligação à cidade que lhe serve de cama.

Por dentro da universidade, a coisa diz respeito à própria universidade, às circunstâncias de crise, às derivas da política geral, enfim, a tudo o que vai bater com o orçamento de um Estado que, em matéria de universidades, também se tem revelado excelente pai para umas e mau padrasto para outras. Mas por fora, a coisa diz respeito a quem desde há muito já devia ter reconhecido a universidade como a jóia da coroa do Algarve, se é que ainda o Algarve esteja coroado onde deve ser coroado - em Faro e não propriamente no Cachopo.

Repensar as ligações dos espaços universitários com a cidade anfitriã; repensar traçados de acesso ou pelo menos melhorar as condições de circulação; repensar a iluminação; repensar o ambiente físico de acolhimento; estimular serviços e atividades que se compaginem com a instituição, independentemente do que no seu interior ocorra, enfim, há um sem número de iniciativas que deviam ser tomadas, algumas com imediata urgência.

Nisto, Faro tem responsabilidades.

Carlos Albino
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Flagrante policiamento: Com certeza! Depois da Guardia Civil, polícias ingleses e franceses a patrulhar o Algarve. Mas quem patrulhará os polícias, a não ser Capacetes Azuis?

quinta-feira, 9 de junho de 2016

SMS 670A política também tem a sua 125…

14 junho 2016

Quer nas curvas mal desenhadas para a direita, quer nos enfiamentos mal assinalados à esquerda, quer ainda nos casos da condução ao centro nas retas com lombas imprevisíveis, a política algarvia assemelha-se à 125 no seu pior, quando menos se espera. A maior parte dos desastres, é da culpa exclusiva de quem conduz sem a exigível carta ética ou com carta ética caducada. E em alguns casos, os acidentes até seriam evitáveis se, independentemente de carta ou não, o condutor político aceitasse regras básicas, tais como usar óculos na eventualidade de falta de acuidade visual, tomar vitamina A ou comer muita cenoura na circunstância de incapacidade de resistência ao deslumbramento, ou ainda não ingerir poderes alcoólicos. Além disso, cuidados especiais para os que andam na política em duas rodas e não distinguem piso molhado de piso seco, ou andam a 180 com pneu já furado.

Vem isto a propósito do episódio da exoneração do presidente da CCDRA. Foi um desastre evitável. Como aqui se escreveu e se reafirma, essa condução tinha que ser interrompida por inabilitação de carta. De carta ética, não mais. Dirigir regionalmente um partido altamente interessado na corrida das autárquicas e ao mesmo tempo gerir o combustível para abastecer os motards municipais litigantes, além de poder dar a alguns água com açúcar em vez de gasolina, seria contribuir para que o hospital de Faro deixasse de se dedicar à saúde e passasse a ser hospital autárquico em 2017 e hospital político a qualquer hora inesperada, dada a qualidade dos condutores da 125 da política.

Aliás, uns tantos por aí disseram, escreveram e repetiram que a exoneração do condutor da CCDRA foi motivada por “pressão do PS” ou “autarquias do PS”, tanto faz. Nas circunstâncias similares de falta de carta, qualquer agente de trânsito não fecharia os olhos a falso testemunho ou a qualquer explicação dolosa do condutor. No caso, a questão é de carta ética, obrigatória seja o condutor do PSD, da CDU, do BE ou do PS, já que o CDS não tem condutores na nossa 125 metafórica mas apenas alguns mecânicos.

Resumindo e concluindo: foi bem exonerado e devia ter pedido a demissão atempadamente. Ganharia pontos na carta, em vez de os perder.

Carlos Albino
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Flagrante prestação de informação: O novo presidente da CCDRA deve informar com rigor quais os subsídios e apoios concedidos em 2015 e 2016, designadamente na área da comunicação social. Primeiro, a lista de quem é de quanto; depois diremos porquê.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

SMS 669. Eles sabem manobrar o tempo


Não quero utilizar uma célebre frase de Millôr Fernandes que, em apenas algumas palavras, resumia a diferença da manobra do tempo entre o agir dos que se julgam sábios e o agir daqueles que ingenuamente tomamos por imbecis. Nada disso. Apenas vou parafrasear a sentença dizendo-a em modo suave – Enquanto os líricos discutem na incerteza, os interesseiros assaltam de surpresa.

É precisamente na diferença da função desse intervalo, esse enquanto de que falava Millôr, que estou a pensar, decorrida uma semana após a discussão em torno das concessões para prospecção e exploração de petróleo e gás natural no Algarve. Ao longo de oito dias, os líricos apresentaram argumentos, manifestos, mostraram-se unidos, enraivecidos, invencíveis do ponto de vista da razão, e agora estabelece-se uma pausa durante a qual cada um pensa que isto não vai por diante, que seria uma loucura, e porventura um crime. E como ninguém embarcará numa loucura, e muito menos publicamente perpetrará um crime, podemos dormir descansados.

Não é verdade. Não podemos dormir descansados. Este tempo, o tempo do intervalo durante o qual pensamos que a causa absurda está vencida, por parte dos líricos, é um tempo de trabalho afanoso das partes dos interessados. Enquanto nós dormimos, há quem não durma. Do outro lado, há quem se rodeie de engenheiros prontos a esburacar na terra como se não houvesse pessoas, professores universitários prontos a criarem documentos lógicos que nem tratados de Descartes, como se não houvesse outras lógicas que não as da oportunidade imediata e só para alguns, advogados que invocam leis de há vinte anos, como se o mundo entretanto não tivesse mudado e as leis gerais hoje não fossem outras. Pior do que isso, enquanto nós dormimos, descansados pelo nosso efeito retórico, e pelo nosso movimento musculado, e fazemos uma pausa, os interessados em transformar um património público em património privado, só mesmo para alguns, há quem espalhe panfletos, dê entrevistas, vá junto das populações, e diga que os desempregados de agora, com o petróleo e o gás natural, terão emprego num futuro próximo. Há quem espalhe a falácia de que somos egoístas, queremos andar de carro, mas não queremos contribuir para a produção de gasolina. Isto é, há quem esteja disposto a misturar todas as causas, retirar-lhes o seu contexto e subverter os tempos, e não durma por isso, enquanto os líricos estão dormindo. Por acaso, esta noite, eu estava acordado e vi chegar a notícia de que deputados e especialistas dos Estados Unidos, México e Colômbia estão a relacionar os recentes sismos ocorridos nos seus países com a exploração dos hidrocarbonetos nas imediações, ali vastas. Como se vê, coisa simples.

Carlos Albino
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Flagrante comparação: O que a Escócia recebe, nada perdendo, absolutamente nada, e a suja percentagenzita que querem dar ao País, perdendo o Algarve quase tudo (será o “turismo da alforreca”, e como se sabe, nenhuma alforreca se instala no Conrad).

quinta-feira, 26 de maio de 2016

SMS 668. Petróleo? Agora fia mais fino

26 maio 2016

Thomas Friedman é o autor do polémico livro O Mundo é Plano, título que só por si constitui um programa  pró globalização. Uma vez lido, faz muita gente ficar com os cabelos em pé pela forma épica como o autor, em 2006, achatava a Terra à medida de uma tigelada. Na verdade, estes dez anos vieram encarregar-se de demonstrar que o seu triunfalismo militante não correspondia à aurora dourada que previa estar a caminho. Mas o importante é que nem tudo o que escrevia está fora da calha, e muito do que diz, sobretudo nas crónicas do The New York Times, tocam a realidade dos factos. E se me lembro do seu nome, neste momento, é porque foi sua a afirmação de que se se queria descobrir os caminhos do crime dever-se-ia seguir os rastros do petróleo.

A propósito da tentativa de extracção de petróleo e gás natural no Algarve, eu não vou tão longe. Não vou dizer que, no rasto deste propósito, se está a descobrir o fio de um crime, mas que se está no rasto de um acto de sedição, isso parece óbvio que sim. Bastaria ter assistido ao último debate de Prós & Contras para se perceber que na falta de clareza, contradições, sobreposição de funções, omissões e prepotência dita científica, está em marcha uma sublevação branca da ordem pública. Uma sublevação pacata, manhosa, feita com as delongas de quem sabe esperar, e as poucas palavras de quem há muito sabe que pela boca morre o peixe. Aquilo a que se assistiu, da parte da bancada dos prós-produção, foi tudo isso, e em certos momentos quase se esteve a dar plena razão à apreciação de Thomas Freidman.

Deixando, no entanto, o caso do fracking de lado -  a jornalista não deixou de dar a palavra em abundância, a quem o pôde descrever -  este confronto,  que resulta de uma acção lamentável,  que infringe todos os limites da cidadania, no entanto apresenta um lado muito positivo.  O Algarve acordou em peso para a indiferença com que tratam a região, para o desprezo e a prepotência com que se age sobre os algarvios e os outros seus residentes. E nós, apodados de moles, desunidos, indiferentes e egoístas, eis que de repente mostramos uma faceta contrária. Duros, unidos, altruístas, e com vontade firme de derrubar uma estratégia, que se não é criminosa nas intenções, acabará por constituir um crime económico, social e ecológico, se acaso for adiante. Vítor Neto de sábio dedo estendido, avisou – “Isto não acontecerá”.

Assim esperamos, pois o que nos leva à revolta e ao movimento, neste acaso, não é a mudança ridícula de Algarve para Allgarve. Agora fia mais fino, e o motivo escreve-se com outras letras porque elas servem para manter intacto o nosso chão.

Carlos Albino
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Flagrantes vozes do Algarve: Muito bem, Jorge Botelho; muito bem, José Amarelinho; muito bem, Vítor Aleixo.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

SMS 667. Áreas de fábrica da inteligência

19 maio 2016

Estive para colocar no título “Bibliotecas Públicas, lugares de cura”, desisti que cheirava a centro de saúde. Depois redigi “Bibliotecas Públicas, para a primeira, segunda, terceira e todas as idades”, ficou de lado – era extenso e uma misturada. A seguir, surgiu-me “Proibido brincar às Bibliotecas Públicas”, ficou de lado por poder ser acintoso e injusto para quem não brinca. Ainda fui tentado para mais uns seis ou sete títulos corrosivos mas cada um poderia sugerir que é geral, aquilo que deveras é local e excecional. Optei por “Áreas de fábrica da inteligência” e, com isto, relevar que, ao lado das autarquias e das escolas, as bibliotecas públicas tanto podem ser um degrau próximo dos pés de cada um para o futuro, como meros cemitérios de livros geridos por cangalheiros da cultura ou por acompanhantes da defunta eventualmente com muitos “eventos” mas tudo espremido, R.I.P.. Assim mesmo. E entremos, mais uma vez, na questão, e não será a última.

As bibliotecas públicas, como é sabido, formam uma rede no País, um projeto iniciado em 1987, promovido pelo Ministério da Cultura, através da Direcção de Serviços de Bibliotecas do Instituto Português do Livro, e visando parcerias com os municípios. A construção desta rede que envolve 261 dos 308 concelhos do País foi sem dúvida o mais importante passo dado até hoje em matéria de política cultural. Os objetivos gerais são cativantes – animação cultural com promoção da inclusão social e da cidadania, gosto pela leitura e conhecimento do mundo, igualdade de acesso à informação e ao conhecimento, acesso a fontes de informação externas às próprias bibliotecas. Mas, na prática, o êxito destas depende de cada responsável ou diretor, da sua criatividade, nível cultural, competência e sageza. E com a importância decisiva das Tecnologias da Informação e da Comunicação, com um desenvolvimento impensável em 1987, se o responsável não for criativo e competente, a biblioteca falhará no seu objetivo de ser uma fábrica de inteligência. Basta lembrar que há bem pouco tempo, quando se queria ler um livro, era suficiente “ir à biblioteca”. Hoje, estamos perto de que caibam num portátil todos os livros produzidos na história da humanidade (estimativas entre os 42 e 130 milhões) e não tardará que caibam num telemóvel. A Wikipédia, o Google, as versões digitais da Amazon colocam já, com um clique, informações e livros à frente dos olhos. As bibliotecas como meros depósitos de livros e lugares de culto para vaidades pessoais, estão condenadas, não sobreviverão.

Então, qual o futuro das bibliotecas em que o País e autarquias tanto investiram? O futuro é o de serem, cada vez mais, lugares de reflexão, de discussão de ideias, de exploração intelectual. Em suma, fábricas de inteligência.

A primeira e gigantesca biblioteca conhecida no mundo foi, como se sabe, a Biblioteca de Alexandria. Além de livros, ela tinha jardins, nela havia concertos e exposições de arte, e sobretudo discutia-se. Na expressão de um contemporâneo milenar dessa biblioteca matriz, “era um lugar para curar a alma”. Hoje as bibliotecas devem retomar essa fórmula inicial. E assim muito rapidamente, no que toca ao Algarve, há por aí bibliotecas que só estragam a alma, razão porque voltaremos ao assunto.

Carlos Albino
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Flagrante biombo: Em matéria de subsídios designadamente com marca d’água da Europa, a transparência de uma instituição pública local ou regional, começa por informar, com rigor e atempadamente, quanto se dá, a quem se dá, com que condições se dá, quem avalia e quando se avalia… Foi pela arte de fazer pela calada, que Caim matou Abel.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

SMS 666. Dois apelos irrevogáveis de Dália Paulo

12 maio 2016

Dois textos por acaso me chegaram aos olhos, entre o muito que o online efemeramente nos proporciona. Dois textos de Dália Paulo. Um, sobre a premência de um Observatório Cultural, abrangente; outro, sobre o financiamento por via do IRS, de associações, fundações e cooperativas de interesse cultural e com atividade cultural. Relativamente ao observatório, lembra Dália Paulo a boa experiência anterior colhida com o Observatório das Atividades Culturais, criado em 1996 e extinto ingloriamente em 2013 pela lógica de demolição que passou por algumas cabecinhas. Quanto à reversão agora possível do IRS para entidades culturais, Dália Paulo insiste na necessidade de divulgação da medida, observando com justeza que não se trata tanto de uma desresponsabilização do Estado no apoio à Cultura sendo mais um comprometimento dos contribuintes com a mesma cultura. São dois apelos irrevogáveis, usando alguma ironia.

Sobre o Observatório Cultural, além de envolver minimamente, por hipótese, o Ministério da Cultura, o Instituto de Nacional de Estatística, uma estrutura universitária competente e uma equipa de projeto, é uma necessidade premente num país onde o voluntarismo, a improvisação e os lóbis atropelam o essencial e fazem esquecer o fundamental.

Quanto ao financiamento das entidades culturais por via do IRS, há que acrescentar que esse é um dos bons caminhos no combate que está por fazer à subsídio-dependência que, como regra, prática e conveniência, eterniza tantas associações sem associativismo, fundações que nada fundam e cooperativas que nada cooperam. Os subsídios justificam-se e são defensáveis quando se faz o que o Estado não pode ou não quer fazer, mas quando o subsídio cultural se transforma em doença social ou se converte em mero salário de prestígio social para os dependentes, aí a porca torce o rabo. Digamos que a canalização voluntária dos contribuintes de uma percentagem dos impostos para associações, fundações e cooperativas culturais, até é, de certa forma, a irrefutável prova de vida destas e prova de como são aceites e reconhecidas pela sociedade. Mas Dália Paulo tem razão ao reclamar que a medida e seus benefícios tem que ser divulgada. Divulgada pelas associações culturais nas suas áreas de influência, e também pelas entidades públicas (estatais e autárquicas), o que não tem acontecido.

Carlos Albino
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Flagrante insulto: No fundo, ao chamar os algarvios de índios e ao raciocinar que com o petróleo deixariam de ser índios (foi isso que deveras pretendeu dizer, julgando falar para parolos), o ex-ministro Moreira da Silva modificou plasticamente a proeminência dos ossos temporais, e autodecorou-se com a espessura dos lábios, a indigência da barba, os cantos dos olhos convergindo para o nariz chato, o amplo horizonte do nariz com uma argola pendurada no ambiente carnudo, umas penas amarelas na penteadura, e um colar de dentes ao pescoço colecionados uns 15 dias antes das eleições. Uma figura, assim, insulta qualquer índio a sério que um algarvio encontre a oito quilómetros da costa ou dançando sobre xisto.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

SMS 665. A “mexicanização” da política local

5 maio 2016

Em consciência, tenho que o dizer: há fortes sinais, aqui e ali no Algarve, da “mexicanização” da política local pelo que a haver nos próximos tempos alguma política regional se a regionalização avançar, da mesma mexicanização não nos livraremos. Que me desculpem os mexicanos, mas não há palavra diferente de mexicanização para caracterizar uma democracia faz de conta e em que todos os meios se justificam para manter o poder ou ganhar mais poder, numa sábia administração da legalidade com ocultação da ética e numa sábia gestão da ética com ocultação da legalidade. Ou seja, o poder pessoal a tender para o poder arbitrário, com exercício discreto do favorecimento. E a coisa exige naturalmente sabedoria, sobretudo a que leva à procura obsessiva de instrumentos de legitimação pública e de credibilização moral de atuações que contendem com a moral política e que sem colocarem em crise a legalidade fragilizam a legitimidade. Para tal forçada credibilização, a Cultura, os criadores e agentes culturais servem às mil maravilhas.

Numa região com grave problema de comunicação, com baixíssimo índice de leitura (está na cauda do País), forte infoexclusão, e com o acesso à informação de proximidade confinado a uma estreita e elitizada faixa da população além de que a mesma informação é diminuta e tardia, a referida mexicanização da política e dos políticos germina como morangos. E se a plantação desta política se amplia e se os seus frutos apetitosos se multiplicam, é inútil falar-se dos valores da Política, da representação e da participação, do escrutínio e do confronto de ideias para o bem comum. A mexicanização do poder que, por definição, leva à formação de um bloco político que, pela eliminação ou neutralização dos adversários, humilhação da crítica e estigmatização do voto, se transforma em única alternativa do mesmo poder, é a negação do que temos entendido como sendo a Democracia. A nível de Estado, por enquanto, tais sinais de mexicanização são obviamente um escândalo; a nível local, os sinais começam por ser despercebidos, vão definindo pouco a pouco as burocracias montadas e quando menos se espera no lugar do homem ou mulher eleita surge a figura do déspota e seus acólitos de carreira. Já temos experiência disto em Portugal.

Creio que o Algarve está entorpecido por esses sinais de doença política que não mora em exclusivo num dado partido, mas é transversal. Todos têm disso. E se me perguntarem qual é o grande inimigo da região, eis a resposta que em consciência dou: É a manha. A mexicanização tem a manha como ponto de partida, manha essa que tardiamente em Lisboa é identificada mas sem consequências – o manhoso já subiu.

Carlos Albino
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Flagrante lógica: Estás na oposição? Então deves defender a regionalização. É um incómodo que acabará quando chegares ao poder.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

SMS 664. É o petróleo, meu inteligente

28 abril 2016

Oxalá que não seja uma metáfora. Sousa Cintra, muitos antes desse envolvimento com petróleos e apenas envolvido com a bola, indo a conduzir o seu carro e ao mesmo tempo entrevistado pela TSF, ficou célebre naquele desabafo reforçado pelo calão quando partiu o vidro da janela que julgara aberta. Atirou uma garrafa de vidro para a estrada e o vidro rendeu-se à sua força de mão, levando os ouvintes da estação a ouvirem em direto a prova da literacia de Cintra. Oxalá que o episódio não venha a ser metáfora ou antecipação do que se passa com a corrida à exploração de petróleo e gás natural no Algarve, coisa muito mal explicada. Aliás, só avança porque não há explicação credível nem aceitável, já faltando pouco para que os interessados e seus emissários não comecem a imitar o impropério de Cintra contra a janela do seu carro.

Nos contratos assinados, um dos motivos de força maior invocados para a gestão de responsabilidades, por entre hipotéticas rebeliões das populações e supostas guerras civis como inviabilizadoras do negócio, estão terramotos. E aqui é que bate o ponto, sem que se saiba até onde bate. Todos sabemos que os terramotos que ao longo dos séculos assolaram o Algarve, tiveram epicentro no mar a sul de Tavira ou ao largo do Cabo de São Vicente.  É um motivo de força maior para o qual é aconselhável que nos devamos precaver, não esperando que seja a Galp, a Repsol, ou a Portfuel a dizer-nos que “é o petróleo, meu inteligente”, já que quem está de braços cruzados perante o que se está a passar, à exceção dos emissários, não tem direito a ser tratado como palerma, mas como inteligente, como a metáfora do senhor Cintra ensina.

O Algarve, geologicamente, é uma zona altamente sensível e não pode ser tratado como se fosse uma garrafa vazia de água atirada por um caçador de entrevistas. Oito quilómetros de distância, para o caso, não é nada. Comparar petróleo/turismo como mera questão de custo/benefício omitindo que nisto há pessoas cuja cultura vai além do impropério, e que as pessoas devem contar à cabeça e serem ouvidas, é não perceber que há barris de petróleo mas que também há barris de pólvora. Sossegar as consciências com Cádis é julgar que os outros desconhecem que Cádis é Cádis e que para este efeito ou em função das consequências, Cádis pouco ou nada tem a comparar com o Algarve. Pensar-se que Portugal fica menos dependente em petróleo ou no gás, é hoje já apostar no cavalo errado. E quanto a ganhos, uma ninharia que faz rir qualquer escocês que faça contas com o petróleo do Mar do Norte.

Seria melhor os da prospecção arrepiarem caminho e não atirarem a garrafa de vidro sem se certificarem que a janela do seu carro está aberta. Depois de uma tragédia, é tarde.

Carlos Albino
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Flagrante dever de resposta: É vergonhoso que Vossa Excelência não se demita e não perceba que um concurso público tem como limite o interesse privado, seja este individual ou de grupo.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

SMS 663. Dez coisas que poucos desejariam

21 abril 2016

Sim, há Liberdade. Mas há dez coisas que poucos, muito poucos desejariam voltar a ver, ou que se instalassem como que por geração espontânea:

1 – Que o Algarve, com marretada daqui e marretada dali, perdesse identidade. E nessa perda, também as suas terras, as suas instituições regionais, cada vez mais instituições pessoais e de grupo.
2 – Que a Administração pública (local e estatal) acolha os cidadãos, seja nos reparos injustificados, seja naqueles onde a razão impera, sem as regras da civilidade, do respeito e da prestação de ajuda. Há muito chefe sem chefia para tão pouco índio que se afoita.
3 – Que fosse possível fazer experiências com extração de petróleo, numa zona fortemente sísmica, ou, a fazer, pelo menos com debate e esclarecimento público claro, aceitável e credível.
4 – Que os deputados, no seu conjunto, não deputem como deviam deputar.
5 – Que as Assembleias eleitas (municipais e de freguesia) não fossem as casas da participação coletiva, do escrutínio, e da presença constante dos eleitores cada vez mais conformados no papel de marionetas eleitorais, contaminando com esta doença teatral os próprios eleitos, ou por medo ou por conveniência. Raramente são motivos de notícia, como deviam ser sempre.
6 – Que as Escolas não fossem assumidas como instituições de excelência, e conferindo às suas direções a dignidade de tratamento adequado.
7 – Que fosse possível, em 2016, um Algarve com profundo défice informativo.
8 – Que a rede de Bibliotecas Públicas esteja cada vez mais próxima não da literacia mas da iliteracia.
9 – Que a sinalética do Algarve, no Algarve e sobre o Algarve seja uma completa desgraça, designadamente quanto ao património e às centralidades da região. Até estava melhor no tempo dos mouros.
10 – Que não nos calemos, porque ainda falta a agricultura, a Universidade do Algarve (que Faro trata como enclave), os dinheiros europeus, os projetos, os portos… mais 72 coisas pois os sonhos foram mais que dez e os desapontamentos mais que 120.

Carlos Albino
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Flagrante declaração: Gosto muito da Andaluzia. Devia haver mais ligação em todos os aspetos. E quem precisa não se deve fazer rogado.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

SMS 662. Correios e trapalhadas

14 abril 2016

Quando os CTT encerraram dependências a pretexto da preparação da privatização, já se suspeitava que não era a melhoria do serviço público e facilitação para as populações que estava em linha de mira mas sim um atalho para um novo banco. Na verdade, o fecho de serviços instalados em edifícios próprios e que ficaram de portas fechadas à espera de qualquer coisa não claramente anunciada, e a deslocação desses mesmos serviços para lojas particulares ou, à falta disto, para as juntas de freguesia que tiveram que assumir o ónus, tudo isso foi uma trapalhada. Como em todas as trapalhadas, fica-se à espera dos resultados e eles aí vão aparecendo.

A palavra trapalhada tem três entendimentos: ou é apenas uma confusão, mistura de coisas; ou é um enredo obscuro, enfim, coisa que não se entende; ou, pura e simplesmente, trapalhada significa embuste. Ora, quando o mais alto responsável dos CTT e principal agente da ciclópica preparação da privatização, veio a público argumentar que a transferência de serviços para lojas manifestamente desadequadas era para “ajudar a economia local”, ao mesmo tempo que envolvia as juntas de freguesia na trapalhada, ele não foi diretamente ao assunto porque o assunto era já e foi sempre o atalho que os CTT proporcionavam para um banco, coisa que não se cria de um dia para o outro, como a terra firme foi criada no dia a seguir ao da separação dos mares. E viu-se como foi: os CTT despejaram o lixo, quiseram a casa a mais limpa possível da sujeira do serviço público remetido para uns balcões improvisados e eis o banco.

Nada a opor à criação de bancos, à instalação de bancos, e à afirmação concorrencial de bancos. O que se recusa é a trapalhada que cheira a embuste.

OS CTT estão a desarticular caixas de receção, estão a substituir os serviços de proximidade por tarefas entregues a viajantes efémeros, etc.. Nas zonas rurais ou de população dispersa mas intensa, isto é particularmente lesivo e está nos antípodas do serviço público. Ir aos postos de correio está a converter-se no mais recente dos sacrifícios e para quem os pode suportar. Em muitos aspetos, o serviço público só não foi liquidado porque as juntas de freguesia passaram a acolher e a fazer aquilo para que não foram criadas.

O banco, agora chamado Banco CTT, inicia os seus dias publicitando que “nada nos move mais do que a vontade dos portugueses”, e que, “por isso, chegou a hora de fazer nascer um banco que começa do zero”.

Não é verdade que comece do zero, começa da trapalhada e da limpeza do serviço público.

Carlos Albino
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Flagrantes votos: O novo ministro da Cultura, embaixador Luís Castro Mendes, merece os nossos melhores votos de bom desempenho. Não porque o seu pai tenha sido juiz em Faro e colaborador assíduo do Jornal do Algarve; não porque o seu avô, José Rosa Teixeira, do Ameixial e com vida em Loulé, tenha sido intenso descobridor das pedras com a Escrita do Sudoeste (espólio no Museu Arqueológico de Faro); não porque se considere algarvio, por acaso nascido em Idanha-a-Nova. Nada por isso! Luís Castro Mendes é uma das figuras cimeiras da poesia contemporânea portuguesa, foi embaixador de primeira linha nas principais instituições que contam para a Cultura na Europa (UNESCO e Conselho da Europa), e acima de tudo é um homem sério a toda a prova, honesto ao lado de todas as dúvidas e culto.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

SMS 661. Região-Órfã

17 abril 2016

Dissipadas as veleidades de ser uma Região-Piloto, coisa apenas embandeirada por benemerência antes de eleições, o Algarve é uma Região-Órfã. Não tem pai nem mãe. Podia ter padastro ou madastra, mas nem isso. Tem uma múmia de faraó mais ou menos recoberta de ouro que é a CCDR, tem uma marioneta que se move consoante a agilidade dos dedos que a manipulam que é a AMAL, e, além disso, uma pequena coleção de direções e delegações regionais que são uma grande homenagem à burocracia que faz do Estado e do seu aparelho um verdadeiro carrossel oito, com papéis a darem a volta por cima e outros por baixo. Com a extinção do Governo Civil perdeu uma espécie de tutor que, nos últimos dias, estava já reduzido à figura de mero empregado do Ministério da Administração Interna e que só por alguma deferência protocolar sugeria vénia. Com a secundarização ou mesmo a neutralização da RTA reduzida a penacho, até o turismo, principal atividade, é uma conversa pegada. E é assim que o Algarve está reposto no que por certo sempre foi: filho de pai incógnito e de mãe incógnita, se é que teve pai e mãe. Ou seja: uma colónia em que os colonos não se assumem, uma extensão da Costa da Caparica mas onde alguns barracos são mansões sujo valor depende das offshores e das revistas sociais.

Há quem, no meio disto, tivesse depositado e ainda deposita confiança, melhor, esperança na AMAL que nasceu sem mentir na sigla em 1992, com a mesma sigla faltou à verdade em 2004 como Grande Área Metropolitana, e que ainda com a mesma sigla se converteu, em 2008, na inverdade de Comunidade Intermunicipal do Algarve. Mas enfim, é por AMAL que se conhece isso, qualquer coisa como que chapéu de alentejano em cabeça de beirão. Está longe da população, os colonos passam ao lado, mas é a AMAL a única coisa que resta quanto a defesa do bem comum de Aljezur a Alcoutim, do interesse geral de Vila do Bispo a Vila Real, e do chapéu que ainda é Faro.

A anunciada “missão” da AMAL, na verdade, é “potenciar o desenvolvimento dos municípios e reforçar a identidade conjunta da Região, mediante a articulação de interesses e criação de sinergias”. E também como anunciada “visão”, a AMAL propõe-se “ser o guia e impulsionador dos Parceiros Regionais, capaz de conciliar e harmonizar as estratégias para o desenvolvimento sustentado da região”. Quanto à missão, não tem sido muito missionária, e quanto à visão, precisa de óculos. De um todo, falta-lhe iniciativa política, impulso, ganho da confiança geral, golpe de asa, pilotagem, ação nas “casas da frente” e não apenas no quintal, falta-lhe fazer o que um ser desprotegido espera de pai, mãe, padastro ou madastra que seja. E é assim que o Algarve é uma Região-Órfã. Para ser “piloto”, é necessário decreto; para ser “órfã”, é suficiente reduzir a Política ao carreirismo.

Carlos Albino
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Flagrante negócio: O das ambulâncias.

quinta-feira, 31 de março de 2016

SMS 660. Longe do Gabão

31 março 2016

A única forma de testar os sistemas é ir ao encontro dos casos particulares. Este descreve-se assim.

Imagine-se alguém que seja submetido a uma operação melindrosa na sexta-feira antes do Domingo de Ramos, e que vai para casa na segunda-feira seguinte. O pós-operatório é muito delicado. Imagine-se que na madrugada de Domingo de Páscoa a pessoa não se sente bem, cai e parte os braços. Imagine-se que se dirige ao Hospital de Faro, onde fez a operação, e onde julga que vai ser assistida. No Hospital de Faro, a cadeia funciona, é-lhe atribuído o estatuto de doente prioritário, todo o sistema responde, radiografias, análises, verificação das fracturas. Mas subsiste um problema no final da cadeia. Não há um médico ortopedista disponível. Pensa-se que haverá no Hospital de Portimão. Também não. Pensa-se no Hospital de Beja. Também não. Só há uma solução – Ou o Hospital de São José, ou o Hospital de Santa Maria. Trezentos quilómetros de ambulância, a equipa normal nestas soluções. A escala determina São José. Também aí a equipa funciona. Também aí o caso é tratado com a rapidez possível. Mas passou um dia inteiro, e passou uma parte da noite, vários funcionários envolvidos, o sofrimento do paciente, tudo o que se imagina, e existe a despesa. Dizem-nos que devemos imaginar como razão para tudo isso, as contas orçamentais.

Pois, por certo, que o facto de não haver um ortopedista disponível a Sul do Tejo resulta do jogo orçamento. É natural que se diga que a concentração em Lisboa resulta mais leve para o erário público. Diz-se, sim, mas não se acredita. Essas contas têm de ser explicadas. As razões pelas quais faltam médicos em especialidades tão importantes quanto são a ortopedia, surgem desgarradas. Algumas delas roçam o ridículo, como é o caso de os médicos não quererem preencher as vagas no Algarve porque não há incentivos de ordem cultural na região. É verdade que a região tem um défice de atractivos na área da Cultura. O que lhe sobeja em lazer, falta-lhe em oferta cultural. Um médico que esteja habituado a ir ao teatro, à ópera e aos grandes concertos de música clássica, aqui, terá de ir a Sevilha ou a Lisboa. 

Mas aí, também se terá de fazer as contas. Se é uma questão de orçamento, também se terá de perguntar o que sairá mais barato. Se fazer os doentes, em péssimo estado, andarem a percorrer estradas de ambulância, se recompensar médicos competentes de modo a que possam fazer os mesmos percursos para não se sentirem isolados. Tudo isto, enquanto a região não encontra a sua dimensão própria, e o Algarve não se transforma da estância de lazer e passatempo que é, numa região com identidade cultural na modernidade, que ainda não é.

Mas falei de uma desculpa ridícula. Sim, nem todos os médicos serão Albert Schweitzer, o médico pianista que foi para o Gabão e criou o Hospital em Lambaréné.  Se ele tinha necessidades culturais? Sim. Vivia no meio do mato, e vinha à Europa para dar concertos, ganhar dinheiro, e regressar para investir no meio do mato. Nem todos nascemos Schweitzer, claro. Mas também alguma coisa estará errada quando a doença e o sofrimento não entram nas nossas vidas a não ser por via das administrações públicas e das compensações orçamentais. A pessoa que mencionei lá está em casa, imobilizada. Mas o argumento da cultura perde-se-me no traçado da A2 e não sei porquê.

Carlos Albino
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Flagrante previsão: Ou vem aí terramoto, ou para pior já basta assim.

quinta-feira, 24 de março de 2016

SMS 659. Nuno Guerreiro, grande Voz

24 março 2016

Justifica-se um parêntese na prosa que a gente julga ser sempre a bem da pátria e em que tantas vezes nos enganamos. Claro que haveria muito para dizer nesta modorra de semana semana, mas há melhor para dizer. Um parêntese muito melhor.

Quem é Nuno Guerreiro? A pergunta pode parecer insólita para aqueles que conhecem este cantor desde que surgiu na cena pública portuguesa, e nunca mais se esqueceram da sua voz de timbre único, e da sua presença, ao mesmo tempo frágil e forte, terna e audaz, como se tivesse entrado nos palcos, de um mundo desconhecido. Temas que o lançaram, permitiram que fossem trauteados por muitos dos que lhe são fanáticos. Mas, passados vinte anos, ainda há quem pergunte - Quem é Nuno Guerreiro?

Quem esteve no passado fim-de-semana no Cine-Teatro Louletano, e assistiu pela primeira a um concerto dos A Ala dos Namorados, e não conhecia, sabe que Nuno Guerreiro é uma figura singular. Quem apenas voltou a ver actuar o cantor, sabe que estes anos lhe deram ganho, acrescentaram talento e capacidade de chamar a atenção de grandes plateias, apesar  do tom intimista que empresta ao que canta. Quem esteve lá, ao longo desses dois concertos, ficou a saber que Nuno Guerreiro é um dos sérios, talentosos e singulares cantores da música que actua neste momento em Portugal.

Mas no final, quando Nuno Guerreiro vem ao foyer assinar papelinhos para os jovens fãs, a questão que se põe é esta - O que está a acontecer com a divulgação da música ligeira em Portugal? Que espectáculos são estes que a televisão passa, e que figuras menores são essas que promove? Que flutuação é esta que nos está a acontecer, que é possível substituir as grandes figuras da música, como é o caso de Nuno Guerreiro, acompanhado por uma grande banda, e por grandes letristas, João Monge ou José Fialho Gouveia, por roqueiros de última classe, alguns deles mal distinguindo música e guinchos?...

Felizmente que Nuno Guerreiro regressou por dois espectáculos à terra que o viu nascer. Que a sua mãe e seus amigos estavam presentes, que a festa na sala foi de uma grandeza sem medida. E felizmente que não é necessário que Nuno Guerreiro regresse às origens para ser reconhecido como um cantor singular em todos os sentidos. Mas é bom que de vez em quando venha até à sua "prima patria", para ter a certeza de que a flutuação trazida pela comunicação grotesca que tudo ataca e tudo baixa até ao nível do zero, não atinge os que o amam e lhe dão coragem.

Uma grande Voz da música e grande parêntese da excelência que justifica que a sociedade seja Sociedade com o melhor perfume da arte, da sensibilidade e do bem. Obrigado Nuno Guerreiro.

Carlos Albino
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Flagrante irreflexão: Parece paradoxo mas não é – o pior dos abstencionismos é entre eleições ou fora do calendário das eleições, porque não é o poder que estraga os homens, mas, sim, estes é que estragam o poder. E a coisa começa cá por baixo, localmente. Ou seja: há o poder local e há os paradoxos locais.

quinta-feira, 17 de março de 2016

SMS 658. Marcelo e o Algarve

17 março 2016

À parte um ou outro ritual partidário sem maior significado que não fosse dar solenidade à jantarada ou atrair gente ao pavilhão ficando por regra a cismar em palavras sibilinas, o Algarve, pelo país a fora, relacionava-se com Marcelo Rebelo de Sousa por via das chamadas “revistas sociais”. Era o mergulho, era o bronze, era a areia colada ao corpo, era a entrada ou a saída do mar, e a “notícia” da algarviazação do ilustre forasteiro ficava por aí. Mas há um episódio que não entrou nos devaneios da socialite, nem fez parte de ritual de voto, que dá conta de que o agora Presidente da República é solícito para além da política, é sensível para além dos trunfos de aproveitamento e tem humor que por vezes, como é o caso, coincide com a espontaneidade.

Foi assim. No dia 9 de julho de 2014, promoveu-se na Ermida da Senhora da Conceição, em Loulé, uma “maratona de poesia”, dedicada a Sophia de Mello Breyner, entre as 21:00 e as 24:00, a propósito da sua entrada para o Panteão Nacional. Largas dezenas de intervenientes, presencialmente ou por telefone, fopram lendo poemas para gente que, sem desarredar pé, enchia a ermida e o largo fronteiro. Marcelo foi dos poucos que, sem grandes explicações para o que se pretendia, não hesitou em aceitar o convite para ler por telefone um poema. Ficou marcada a sua entrada na “maratona” para as 23:48, cabendo-lhe o seguinte breve poema:

Porque será que não há ninguém no mundo
Só encontrei distância e mar
Sempre sem corpo os nomes ao soar
E todos a contarem o futuro
Como se fôsse o único presente
Olhos criavam outras as imagens
Quebrando em dois o amor insuficiente
Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança

Marcelo leu e bem, sobretudo os dois versos finais: “Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança”.

Mas, bem se pode perguntar, onde está o humor neste episódio? É que, a essa hora e mesmo minuto 48, decorria, em São Paulo, um crucial jogo do Campeonato do Mundo, entre a Holanda e a Argentina, que inesperadamente resultou num empate esgotado o prolongamento. Ninguém na ermida ou fora dela “sofria” com o jogo concorrente dos poemas de Sophia. Chegado o minuto 48, a potente aparelhagem sonora foi conectada ao telefone de Marcelo, pelo que a colaboradora da maratona disse: “Professor! Pode começar a ler, está em direto…”

Mas quando toda a gente estava à espera do poema com a voz de Marcelo, ouviu-se tudo menos um poema, ecoando um “Oh menina! Agora não, estou nos penáltis…”  E foi gargalhada geral mal contida.

Foi já perto da meia-noite, que Marcelo começou por recitar - “Porque será que não há ninguém no mundo…”

Hoje já ninguém ri, mas se Marcelo ler isto, será o último a rir e melhor, porque esse momento acabou por ser um poema de humor, que também há quando um político não tenha cara de pau. Obrigado Marcelo.

Carlos Albino
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Flagrante disparate: Alguém se afirmou “defensor da regionalização da descentralização”… Vai longe.

quinta-feira, 10 de março de 2016

SMS 657. O relógio do Algarve precisa de corda

10 março 2016

No encantatório número 100 dos dias de Governo, o primeiro-ministro António Costa atribuiu à zona da raia ou da fronteira com Espanha, o pesado título de “frente peninsular”, o que considerou como fundamental para a economia portuguesa. E associou essa chamada de atenção, a um necessário esforço de descentralização que não hesitou em definir como "a pedra angular da reforma do Estado”, o que se ouve há anos e anos, mas sem se sair do mesmo lugar como nas bicicletas estacionárias – pedala-se muito, mas a paisagem é sempre a mesma e suor do ciclista é proporcional à mordomia.

Além da frente peninsular que, no imaginário político, anda colada à difusa noção de “interior” do País, António Costa referiu-se também ao mar português como domínio a não perder de vista, mar que, na verdade, a Espanha também perscruta de binóculos, indiferente à raia portuguesa que não facilita caminho para o oceano. E com tudo isso, no escolhido lugar de Idanha-a-Nova, o primeiro-ministro quis dar relevo à Missão para a Valorização do Interior.

E o Algarve, que conta para isso, sendo simultaneamente raia, interior e mar? A Unidade para a Valorização do Interior dispõe do mapa do interior e da raia algarvia? É claro que para os que reduzem o Algarve à estreita faixa de oito quilómetros a começar do ponto em que a água do mar fica à altura dos calções de banho, não há interior nem raia. Para esses, a linha de bordejo com a Andaluzia que já deveria ser estratégica e o curto horizonte com Marrocos que já deveria ter produzido relação madura, são coisas que não existem ou se existem é apenas para alimentar anedotário. Mas, convenhamos, não têm culpa nem responsabilidade. Nem se pode dizer que Faro e Sevilha não são dois pólos peninsulares de semelhante para semelhante, ou que Faro e Rabat são dois ilustres desconhecidos sem pontes institucionais, apenas porque não há descentralização, para não se falar de regionalização, palavra que entrou no dicionário das coisas de que se têm vergonha a partir do momento em que se retirou da Constituição a hipótese de região-piloto. Nem se espere para o Algarve grande coisa da Unidade de Missão, que tem mais interior com que se entreter.

O Algarve tem que contar consigo próprio, pelo que não se pode nem se deve omitir que independentemente da descentralização prometida, é ao Algarve que compete fazer o trabalho de casa, com especial responsabilidade para as poucas instituições de que dispõe com voz própria e naturalmente para os seus titulares que não andem por aí com poderes difusos como que no rabisco da alfarroba. Há muito trabalho de casa a fazer sem que se esteja à espera dos bons humores do poder central, e, para já o relógio do Algarve precisa de corda. O seu ponteiro dos minutos está parado, a hora é a anos e anos sempre a mesma, o pêndulo está vertical parecendo que quem o deveria balancear, está em calções de banho a olhar para as ondas.

Carlos Albino
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Flagrante reparo: Bastantes leitores, diretamente ou por e-mail, nas habituais pré-leituras disponibilizadas ou depois de letras impressas, coincidiram quanto ao “hermetismo” do apontamento da semana passada. Na verdade, foi de propósito que instituições e nomes de titulares não foram referidos. Interessa-nos mais a reflexão e muito pouco julgamentos ou criar réus, coisa que fica muito bem entregue a juízes estagiários.  Muito gostaríamos que houvesse no Algarve uma Avenida Larga da Crítica, do tamanho da 125 e sem acidentes.

quinta-feira, 3 de março de 2016

SMS 656. Conversa de surdos e mudos

3 março 2016

Não as instituições que não têm boca e orelhas próprias, mas os indivíduos que estão à frente das instituições, são no Algarve useiros e vezeiros em ouvir de orelhas moucas e falar de lábios fechados. É o que, como se costuma dizer, conversa de surdos e mudos. Nos patamares do civismo e da política, os resultados desta pose que tem por pai o oportunismo e como mãe a manha, não são visíveis à vista desarmada mas produzem consequências nefastas a prazo por vezes curto, quando a mudez cívica e a surdez política dos indivíduos compromete as instituições, sejam estas quais forem, da que está na base das bases da pirâmide à que nos contempla a todos lá no pino das alturas.  Pergunta-se e não respondem. Responde-se, e fingem não ouvir. Estranha-se a surdez mantida majestaticamente a coberto das instituições, ou desconfia-se de que a mudez decorra de um poder que deu em patologia, e, quando muito sentir-se-á longinquamente uma resposta soletrada na proporção da necessidade de auto-defesa espúria, ou então, mais proximamente, uma voz de carroceiro, adequada à pressão, à chantagem e mesmo à ameaça fátua. Entre um recurso e outro, não é raro o uso da intermediação do que se costuma designar por “voz do dono”.

Esta gente alojou-se na Democracia como poderia ter-se alojado numa ditadura, porque é da sua natureza alojar-se, porque o entendimento que faz da inteligência é saber alojar-se, e a conceção que tem dos poderes públicos é a de que tais poderes são como que coisa da sua propriedade privada. Daí que tais surdos e mudos se incomodem com a crítica fundamentada, com o escrutínio desinteressado e sobretudo com o facto de haver felizmente no mundo gente com olhos e ouvidos.

É verdade que só agrada a todos aquele que não tem olhos, não tem ouvidos, não tem boca, não tem cheiro e não tem tacto. Não tem nada. Mas é maior verdade que é muito mau sinal que algum ser humano consiga viver e conviver como aquele peixe que sobrevive a cinco mil metros de profundidade, nas mais profundas fossas marítimas: sem olhos, sem pavilhão auditivo, sem língua, sem narinas e sem sensibilidade cutânea. Peixes destes nem para caldeirada servem. Estragam as instituições e fazem destas uma caldeirada que até pode repugnar.

Carlos Albino

Para bom entendedor… meia conversa basta.
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Flagrante verificação: Há muitas, muitas associações sem qualquer associativismo, mas algum, ainda algum associativismo sem qualquer associação. A subsídio-dependência explica.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

SMS 655. Desfiguração. Porque todos nos calamos?



25 fevereiro 2016

1. O que se passa com a reabilitação do nosso património edificado, incluindo o património monumental das áreas rurais? A pergunta vai direita para os arquitectos responsáveis pela reformulação dos espaços públicos, conservação dos nossos centros históricos, reformulação dos circuitos de circulação, reedificação dos monumentos que identificam lugares preciosos para a nossa memória colectiva e edificação da memória futura, esse projecto que sempre imaginamos de beleza e harmonia. Mentira. O que se verifica, é que em muitos casos, um excesso de actividade criadora ao invés, encarrega-se de desfigurar o que apenas se pedia que se configurasse.

2. E o que se pergunta é se certas intervenções que se produzem não resultam pior do que o abandono puro e simples a que são votados certos bens preciosos patrimoniais. É que, onde existe abandono, sempre temos a esperança de que um dia tudo vai ser refeito e recomposto, mas quando as intervenções são megalómanas e desfiguradoras, a ideia que se tem é de que a modernidade entre nós chega-nos por via da total desadequação em relação ao conceito moderno de reabilitação. Então, ultimamente, por onde quer que se vá, encontram-se trancadas as ruas, os passeios públicos e os monumentos, por fieiras de metal, alfinetes espetados na carne da paisagem urbana que ferem e não guardam nada.

3. Não escondo que lamento o que acontece um pouco por toda a parte, e hoje, em particular, depois de uma revisita a Querença, o que um grupo de visitantes foi encontrar nesta jóia do barrocal algarvio. Um igreja de portal manuelino cercada de pinos de metal brilhante, tantos e tão poucos que fazem do espaço uma cercadura própria de uma campa cemiterial. Uma fieira de pinos brilhantes, encurralando o monumento e pelos passeios, uma barreira visual extraordinária, que aniquila a povoação, degrada-a, torna-a o fruto do novo-riquismo de metal próprio do espírito que desfigurou Santiago de Compostela no tempo de Fraga Iribarne. Porque nos acontece isto? Porque todos nos calamos, todos somos cordatos, todos somos bons rapazes. Fomos muitos a achar isso mesmo, quando tivemos de fazer a volta em torno dos pinos da igreja. Um horror, diziam alguns. Mas quantos de nós levantam a voz para dizer o que se diz em privado? Que apetecia arrancar um a um o espavento de metal daquelas facas espetadas no coração arquitectónico de uma aldeia maravilhosa?

4. À distância, abrindo ao dia futuro, que os jovens da região, munidos de um novo olhar, arranquem aqueles pinos, e façam uma festa de reconciliação, no adro da igreja branca.

Carlos Albino
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Flagrante conclusão e com destinatário: Errar é humano, não assumir o erro é burrice.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

SMS 654. Caminhos que vão dar a Querença

18 fevereiro 2016

Os números são impressionantes: 10.096 versões de peças do romanceiro tradicional português publicadas entre 1828 e 2010, a somar a 3.632 inéditos, recolhas sonoras contidas em 609 cassetes correspondendo a 660 horas de gravação. Papel e registos magnéticos ficam preservados adequadamente e saltam para uma plataforma digital que fica acessível online.

Tudo isto tem morada com código postal: a Fundação Manuel Viegas Guerreiro, com imponente sede em Querença, a provar que não se trata de um elefante branco. Este importantíssimo acervo vai ser publicamente apresentado pelo coordenador da iniciativa, Pedro Ferré, neste próximo sábado (16 horas) no Auditório da referida fundação. Esse acervo junta-se a outros acervos, coleções e arquivos já em depósito na instituição, pelo que em matéria de fontes culturais, não todos os caminhos mas muitos caminhos vão dar a Querença, terra de fontes.

Seria impensável que, havendo já um Ministro da Cultura, ele não estivesse presente com olhos e ouvidos atentos. João Soares lá vai estar na apresentação desse projeto batizado por “O Arquivo do Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna (1828-2010): sua preservação e difusão”. É um projeto de envergadura, silenciosamente preparado e de cujo alcance estamos hoje longe de poder avaliar. Financiado pela Fundação Gulbenkian e comprometendo, em parceria, a fundação anfitriã e a Universidade do Algarve (Centro de Investigação em Artes e Comunicação), o projeto faz de Querença uma terra de referência para investigadores dessa área que tem tudo a ver com língua e identidade e, já agora, é uma boa e grande homenagem ao patrono da instituição, Manuel Viegas Guerreiro, nascido da terra e um dos mais insignes expoentes da Etnografia portuguesa.

É de coisas como estas que o Algarve precisa. Assim existissem noutros domínios, da economia à ciência e tecnologia, da arte às coisas do mar, porque modas e bordados não são suficientes. Os autarcas, cada um e no seu conjunto, têm enormes responsabilidades na construção de um Algarve de excelência e de eleição, ou seja, o tal Algarve com tesouros mas que nunca vai a eleições, e que tantas vezes fica prejudicado, no bom caminho para o futuro, pelas modas e bordados do provincianismo sorrateiro, populista e calculista. Ponhamos de parte coisas tristes porque, hoje, uma boa notícia pelo menos: há caminhos que vão dar a Querença.

Carlos Albino
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Flagrante Mário Centeno: Independentemente de concordantes ou discordantes, independentemente do Plano A dar certo ou do suplício de algum um Plano B, e independentemente da Política ir em linha reta ou aos ziguezagues, foi reconfortante ouvir o Ministro das Finanças iniciar conversa pública em Faro, assim: “Caros conterrâneos”. Já nos tínhamos esquecido de que um ministro pode ser algarvio e que um algarvio pode ser ministro, uma vez que alguns até parece que escondem. Ou pelo menos dissimulam.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

NOTA OPORTUNA

Incentivos à Comunicação Social do Algarve
Quais os candidatos
e que montantes?

A CCDR/Algarve já deveria ter dado conhecimento público e ostensivo do procedimento relativo aos incentivos do Estado à comunicação social, agora nas competências dessa entidade. Se foram atribuídos, quanto e a quem, ou pelo menos quem se candidatou. O assunto deveria estar com transparência no site oficial da CCDR/A mas ou está muito escondido ou não está, ou então deficiência de quem se interesse saber.

Em julho do ano passado, a CCDR/A promoveu uma sessão de "esclarecimento", antes designara um júri que merece todas as reservas em função do panorama da comunicação social do Algarve, e antes de qualquer juízo porque os montantes em causa não são de desprezar, devia ser dado ostensivo conhecimento dos candidatos. E, caso tenha havido decisão, as verbas atribuídas e a quem, com descrição sumária dos respetivos perfis, projetos e fundamentações.

Consultar

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

SMS 653. O caso da CCDR. Por uma questão de ética

11 fevereiro 2016

A CCDR, em função do que é, do que pode fazer, do que pode impedir que se faça, do que concede, do que decide e do que contrata no âmbito das suas atribuições, é uma instituição de referência de primeira grandeza na região, exigindo-se-lhe credibilidade pública a toda a prova. Não interessa, para o caso, se o presidente é do partido A, B, C ou de nada (o nada é muito pior porque o nada é uma capa que pode esconder tudo). O que interessa é que, exigindo-se à instituição credibilidade pública, isto quer dizer, à cabeça, que se exige ao seu comando ética política.  E esta ética política é independente da forma de nomeação do presidente da CCDR, seja ela por substituição, seja por concurso público, ou como se anuncia, por eleição indireta.

E porque a ética também não depende de despachos e decretos, compete aos empossados avaliar se os seus compromissos, cargos, responsabilidades e estratégias pessoais não põem em crise, direta ou indiretamente, a ética política e, por arrasto, a credibilidade pública da instituição. Ora, se é verdade que a ética política não se mede nem se pesa, também é verdade que fica ferida de morte quando o bom senso dita que “isso é demais”.

Vem isto a propósito do atual presidente da CCDR/Algarve ter sido eleito presidente da estrutura regional do partido a que pertence, e de, com essa eleição, assumir a mensagem de ter como grande objetivo as eleições autárquicas de 2017. Sabendo-se como a CCDR, no âmbito das suas atribuições e competências, interfere e interage com as autarquias e com toda a gama de interesses fortes da região e na região, dita o bom senso que essa acumulação é demais, e que põe em crise a ética política. Ou dirige o partido, ou preside à CCDR. Esteja o partido no poder, esteja na oposição.  Não é a filiação partidária que está em causa, mas o endosso da sua direção. O que, por ética política, não se pode aceitar é que um presidente da CCDR acumule a direção regional do partido a que pertence, seja qual for o partido simpático ou antipático que esteja no poder central. E mesmo não se pondo em causa a ética pessoal desse presidente, é a credibilidade pública da instituição que não fica acautelada, muito menos garantida. Financiamentos, incentivos, programas, parcerias, apoios, contratos, etc., entram no campo público do diagnóstico reservado e a invocação de critérios, mesmo que sejam legítimos e justos, ficam feridos de morte. Dir-se-ia o mesmo se os papéis dos partidos litigantes do poder fossem trocados.

Não se pode exigir a um só homem com uma só cabeça e uma só alma que como presidente da CCDR e em funções públicas decida com independência e liberto do jogo renhido eleitoral como as autárquicas de 2017 irão ser (renhido e presume-se que brutal), e ao mesmo tempo, na porta ao lado, como dirigente de partido interessado, prossiga como grande objetivo as mesmas eleições. Éticamente é demais.

Entre outros episódios que só podem alimentar a chicana política, se “tecnicamente” a forma como o atual presidente da CCDR tratou a Universidade do Algarve no caso das bolsas de mobilidade foi demais (SMS 625, 30 de julho 2015), dirigir regionalmente um partido com um grande objetivo eleitoral anunciado, e dirigir a instituição regional de referencia do Estado com tudo o que esta acarreta e condiciona, é não só demais, como absolutamente nada credível. Nem um anjo consegue passar entre duas gotas de chuva.

Carlos Albino
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Flagrante sugestão: A Entidade Reguladora para a Comunicação Social e a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista deviam fazer uma visita ao Algarve. E não para banhos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

SMS 652. Presidência da CCDR

4 fevereiro 2016

Projeta-se para 2017 o que pode ser considerado como algum arranque da descentralização. Nesse arranque, pelo que está dito, foi posta de lado qualquer hipótese de experiência piloto, designadamente envolvendo o Algarve. E o arranque é a dois tempos: eleição direta dos presidentes das áreas metropolitanas de Lisboa (18 concelhos) e do Porto (17 concelhos), e a eleição indireta dos presidentes das CCDR’s, entidades que fazem uma espécie de convivência difusa com as comunidades intermunicipais. O Algarve que tinha e tem todas as condições políticas para ser também uma área metropolitana, dispõe de uma CCDR que põe em palco alguns serviços desconcentrados, e de uma comunidade intermunicipal que faz que anda mas não pode andar, ambas com a mesmo definição e coincidência territorial.   A CCDR tem sido a expressão do centralismo e a extensão do governo que está e interesses conexos (alguns ocultos) em que só longinquamente a região pode politicamente interferir de forma decisiva, e a comunidade intermunicipal, com clareza, está para a deliberação política e para a representação da região, assim como a cartilha de João de Deus está para a poesia gongórica. A existência cruzada das duas entidades até na região onde a reforma necessária seria mais fácil, torna-se difícil e complexa. Em todo o caso, parece que a eleição do presidente da CCRD pelos municípios já é é um passo no bom sentido – pequeno passo, mas correto se for ato preparatório de algo mais profundo.

E agora, se isso, a acontecer, será em 2017?  Um ano não é muito tempo, e agora, naturalmente que compete apenas ao atual presidente da CCDR avaliar se tem condições políticas para desempenhar o cargo até à concretização da anunciada reforma. Condições técnicas terá, mas políticas, só ele, competindo-lhe igualmente avaliar se partidarizou ou não a função, ferindo o modelo de onde emana.

Significa isto que, quer o atual presidente prossiga no cargo pondo ou não alguma coerência política, quer deixe o lugar para alguém cujo perfil esteja em coerência com a reforma anunciada, os “grandes eleitores” do futuro presidente da CCRD, têm que pensar em nomes de candidatos, numa região farta de ouvir dizer que não tem quadros. Tal como acontece nas outras regiões, designadamente nas duas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, ambas cúmplices do centralismo, tem mais candidatos que quadros. Mas tem bons quadros.

Muita gente não hesitará em avançar com o nome do prof. doutor Adriano Pimpão, como sendo a personalidade que os “grandes eleitores” de 2017 podem assumir como o candidato melhor colocado para a liderança do arranque da regionalização, assumindo isso em consonância com os “pequenos eleitores” que somos todos nós e que, para o caso, não seremos chamados.

Matéria para continuar aqui, sem dúvida. Por ora, ficam uns alinhavos.

Carlos Albino
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Flagrante boa notícia: Até que enfim, vamos vendo escolhas de algarvios e algarvias para o desempenho de funções em gabinetes governamentais. Damos toda a razão ao dr. José Mendes Bota que, com toda a coragem, denunciou recentemente que os algarvios, só por serem algarvios, são punidos nas carreiras de ascensão política. Em todos os partidos, acrescente-se. Também matéria para continuar. Fica o alinhavo…

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

SMS 651. O Grande Festival da Abstenção

28 janeiro 2016

O Algarve viveu um gigantesco “evento” com a participação recorde de 206.666 espectadores e apenas suplantado por Bragança. Foi o inédito Festival da Abstenção que arrastou 55,65 por cento de algarvios e outros pára-quedistas, alguns destes quadros médios e superiores que por aí andaram a influenciar à boca cheia com o “Eu não vou votar”, mas que, se falassem verdade, deveriam dizer “Eu não posso votar”. E de facto, não puderam nem poderiam votar mesmo que quisessem – são residentes no Algarve mas estão inscritos noutros círculos eleitorais, bem longe e onde só vão para rever a família. Estão aqui pelo ordenado, pelo clima e pelo relativo mas felicíssimo anonimato de uma espécie de refugiados de élite. Em todo o caso, serão ainda uma minoria e, não estando inscritos no círculo marroquino de Faro, cabe aos algarvios natos a glória desta gigantesca manifestação cívica perante eleições livres do Presidente da República.

Nenhum mal viria ao mundo se o êxito deste Festival da Abstenção tivesse sido uma exceção de protesto – e motivos não faltariam. O problema é que os eleitores inscritos algarvios estão cada vez mais a abster-se em tudo e abster-se até dos protestos que seriam justos e legítimos. Mais grave ainda, é que a abstenção parece que é estimulada pelos eleitos doutras eleições, para os quais o “evento” das presidenciais nada diz, ou convirá que nada diga, para que não percam votos nas próximas em que se apresentarão como candidatos nas repúblicas locais. Passam ao lado, ou, vá lá, concedem uma participação soft. Por pudor, é de evitar dizer o rombo que isto provoca no custoso edifício democrático, mas a explicação de que não se livram não anda longe daquilo que vai cozendo em lume brando e que pode resultar no grande prato dos déspotas bem conhecidos em ditadura, de resto, quase sempre fervilhados em democracia.

Para os sobreviventes dos anos autoritários quando votar era, na prática, uma proibição imposta pelo receio social e pelo medo de ser marcado, era inimaginável que em Olhão, no século XXI, se registasse 60,11 por cento de abstencionistas, em Albufeira 59,8 por cento, em Loulé 58,37 por cento, com todos os concelhos do Algarve, à exceção de Monchique, a darem este triste espetáculo muito acima da média nacional de 49,93 por cento, já de si elevada.

Para os que nasceram já em democracia ou nesta formaram o corpo e o espírito, para estes que vão sendo a maioria, o que já se torna inimaginável com um festival destes, é o que seria a Sociedade se estivesse entregue a uma legião de déspotas ainda que sorridentes. Aliás, não há déspota que não sorria. Cinicamente, diga-se.

Carlos Albino
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Flagrante exceção: Monchique, com apenas 39,09 por cento de abstencionistas, fez jus à sua altura, e até ver, tornou-se na capital da participação cívica e política do Algarve. Os da serra deram uma lição. E grande.