quinta-feira, 5 de novembro de 2015

SMS 639. Albufeira, o dedo na ferida

5 novembro 2015

Com o tempo, a realidade torna-se lenda. No cemitério de Boliqueime está sepultado um juiz de Albufeira que, a seu pedido, não quis ser enterrado na sua terra. Pelos finais dos anos quarenta do século que passou, insurgiu-se contra intervenções e construções nas linhas de água, ficando isolado na sua opinião inabalável. Pouco tempo depois das suas advertências, ocorreria uma das várias tragédias que têm enlutado Albufeira, cada qual não servindo de emenda. Como resposta aos que não o ouviram, o juiz deliberou descansar para a eternidade numa campa em terra longe da sua e dos surdos. E ali estão os seus restos que, a cada tragédia tanto mais grave quanto maior é o disparate, se fazem lendários. Voltou a acontecer.

A febre imobiliária, com sua teia intrincada de interesses que implica várias profissões de interesse público e várias entidades que em vez de darem cobertura ao interesse público colocam a céu aberto o contrário, leva a que não se possa ver um centímetro quadrado livre para a Natureza, para a sua lógica imparável e que não se mede pelo diâmetro de caneiros, sendo imprevisível em cima dos estiradores e dentro dos gabinetes dos despachos técnicos. Traçar avenidas e erguer enorme massa de edifícios onde as ribeiras deviam continuar ribeiras disponíveis para o previsível e para o previsto, é brincar com o acaso da Natureza e com o destino de quem não sabe se a sua cama pode ser a sua campa, e se os seus bens podem ser a sua perdição. Não há seguro que compense os efeitos de um erro que lesa o interesse público desacautelado, de nada valendo ocultar as causas pelos efeitos.

Tal erro não existe apenas em Albufeira, está espalhado por todo o litoral algarvio. O sonho efémero de fazer grandes cidades onde a doutrina da Natureza aconselha a que se façam apenas as cidades possíveis e com os seus elementos na dimensão e localização, naturalmente que forçará qualquer juiz das coisas a sentenciar que a sua campa fique longe, tornando-se tragicamente em lenda. Hoje as águas, amanhã um sismo, oxalá que não, e fora do registo da nossa memória curta, os próprios movimentos isostáticos da Terra – por aí temos cidades de outrora sepultadas no mar ou mostrando seus vestígios nas arribas muito acima das nossas cabeças.

Mas se a coisa é grave quando o imprevisível acontece, mais grave é quando não se tem em conta o previsto. Um perito em metereologia que comigo se corresponde, bastante, muito antes da entidade competente ter disparado um alerta colorido, enviou-me um email a dizer isto: “Infelizmente receio o pior e na minha humilde opinião de profissional na área, as nossas autoridades já deveriam de ter lançado Alerta Vermelho para o Baixo Alentejo e sobretudo o Algarve, dada a situação, para as pessoas salvaguardarem bens e mesmo por segurança pessoal, atempadamente!”. Depois de alertar para a possibilidade de inundações relâmpago para o SE de Portugal, “onde poderão ocorrer acumulações de precipitação acima dos 100 mm em 9/12h e, dado o tipo de fluxo, suas características, coberto vegetal e tipo de solos da região, poderão ocorrer problemas”,  advertia que “temos de acompanhar a situação entre as 00h. e 18h dia 01 Novembro 2015, em especial no Sotavento algarvio mas podem ser mais abrangentes nesta parte do território”. Terminava assim: “Espero estar enganado... mas se ocorrerem, vai dar problemas sérios”. Creio que não vale a pena discutir comportas, diâmetro de caneiros, seguros, e muito menos olhar para as nuvens ou enterrar a cabeça na areia escavada a repor o leito natural para o curso das águas. O mal está feito. Mal cujas causas é que devem ser sanadas e discutidas à cabeça.

Carlos Albino
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Flagrante quadratura do círculo: Disse o Ministro da Administração Interna, Calvão da Silva, no seu terceiro dia de exercício, a propósito da tragédia de Albufeira, que “Deus nem sempre é amigo”. Pelos registos bíblicos, só o diabo diz uma coisa destas.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

SMS 638. O voto e os dias seguintes

29 outubro 2015

Tão ou mais importante que o voto, são os dias seguintes – todos os dias que se seguem, um a um, até ao próximo voto. E, à exceção do Presidente da República que é um órgão unipessoal, o voto, num primeiro momento, é para escolher assembleias de onde emanam equipas de governo (nacional ou local), onde as deliberações ganham força e onde os governos (de legislatura ou autárquicos) são fiscalizados. Todos sabem isto, mas porque uns tantos se esquecem nos dias seguintes ao voto, os que sabem desculpam que se lembre que as assembleias, seja ela da República, do Município ou da Freguesia, são os pontos centrais da nossa vida coletiva e de cada eleitor que vá tendo também os seus dias seguintes tal como os eleitos.

As campanhas eleitorais, no entanto, subvertem este entendimento que devia estar sempre presente. Tais campanhas centram-se até aos confins do norte na escolha do primeiro-ministro; até à ribeira seca que separa um concelho do outro na escolha do presidente de câmara; ou até ao caminho que separa um compadre de outro na escolha do presidente de junta, quando, nos dias seguintes ao voto, pelo voto e com o voto, o que fundamentalmente está em causa são as assembleias a cuja escolha os votos se destinam. Um primeiro-ministro nada fará sem a vontade expressa da Assembleia da República e sem ela cai; um presidente de câmara fica paralisado se a assembleia municipal lhe disser não e, ao fim de três nãos, o aconselhável é renunciar; um presidente de junta fica a olhar para a parede se a respetiva assembleia o mandar pregar para outra freguesia. Daí que não sejam poucos os que desejam assembleias dóceis, assembleias que sejam maiores ou menores regimentos a marcar passo, enfim, assembleias que não tenham o protagonismo que de facto deviam e devem ter nos dias seguintes ao voto e nas quais a observação e seguimento público, em não poucos casos, seja de evitar ou de restringir. Atas tardiamente publicadas, convocatórias feitas apenas com os mínimos legais, etc., compõem o bolo envenenado que, premeditadamente ou não, se dá à Dona Democracia.

Os partidos, embalados por sua vez neste jogo de distração política, acabam no amorfismo crítico, no seguidismo irracional, na propaganda de claque, no voto contra porque fica de mau tom votar a favor ou no voto a favor porque é de bom tom não trair a marcha do regimento. E com os partidos assim, as assembleias (de freguesia, de município e até a da República) caiem na modorra, adormecem e só de vez em quando acordam quando surge na sala ou no salão, alguma maioria circunstancial de interesses a fazer barulho igualmente amorfo.

Há muito a fazer nas assembleias do Algarve, onde há muito esquecimento nos dias seguintes ao voto, e não vale a pena trocar as vazas: não há democracia sem… democratas nos dias seguintes ao voto.

 Carlos Albino
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Flagrante tristeza: Cavaco Silva na reta final.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

SMS 637. Colunas parlamentares, precisam-se!

22 outubro 2015

Deixei sugerido ao Diretor deste jornal, Fernando Reis, vai para uns três, quatro anos, a criação de uma coluna parlamentar em que se fosse dando conta, com regularidade, rigor e objetividade, do trabalho produzido em S. Bento pelos deputados eleitos pelo círculo do Algarve, no que tenha relação direta e útil com a região.  Se todos os jornais que ainda existem assim procedessem por meios e critérios autónomos, esse registo paciente já seria um bom e proveitoso escrutínio. E além disso, serviço público. Naturalmente que é um daqueles trabalhos que, a ser prosseguido, terá de ser “trabalho de redação”, trabalho próprio e pesquisa autónoma, a cujo valor o leitor (o leitor que ainda exista…) não ficará insensível. Se for bem feito, creio até que será um pequeno fator que contrariará a relutância à leitura.

Que iniciativas legislativas os nove deputados tomam de interesse direto para a região, que intervenções em plenário, que perguntas fazem e que requerimentos apresentam ao Governo e à Administração Pública, que respostas obtém e em que prazo, enfim, tudo isso que faça com que o círculo de Faro não seja quadrado. Na verdade, ao leitor que também é eleitor, repugna-lhe já a propaganda fora do tempo, os comunicados de parlamentares de pura promoção pessoal ou de circunstância, e que, além de fastidiosos, mais parecem cartas “ao meu povo”, gerando expetativas excessivas em torno de iniciativas pessoais sem resultados práticos e muito longe da influência política com que se penteia a prosa. Os arquivos dos jornais algarvios, vivos ou extintos, são um verdadeiro cemitério de pregões que deram em nada.

Agora que começa nova legislatura, era bom começar-se a registar o que os quatro deputados despachados para Lisboa com bilhete do PS (José Apolinário, António Eusébio, Jamila Madeira e Luís Graça) vão de facto fazer; o que os dois parlamentares do PSD (José Carlos Barros e Cristóvão Norte) terão a dizer; o que o estreante do BE (João Vasconcelos) dará como prova; o que o disciplinadíssimo deputado do PCP (Paulo Sá) perguntará e requererá; e o que a deputada da órbita do CDS (Teresa Caeiro) poderá explanar já que entrou na órbita do Algarve.

É claro que os deputados representam todo o País, e não os círculos por que são eleitos, mas o País não existe sem os círculos que elegem deputados. A estes não cabe representar os círculos mas sim e por inteiro intervir a bem dos círculos.

Carlos Albino
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Flagrante desabafo: Com o centralismo por aí em força, o Algarve não tem governabilidade, como numa feira de influências. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

SMS 636. O fim da Casa do Algarve não pode ser

15 outubro 2015

A notícia vinda a público dá conta de que a Casa do Algarve, com 85 anos, vai encerrar. E como uma das explicações para o caso, também se dá conta de que os autarcas algarvios viraram costas à instituição, e que, uns atrás de outros, os municípios foram deixando de pagar as quotas de associados coletivos. A isto juntou-se o divórcio dos algarvios residentes na capital, o desinteresse sistemático dos deputados eleitos pelo Algarve, a apatia dos estudantes algarvios e o alheamento da intelectualidade, sobretudo da que reclama profunda ligação à Província natal. Também, pelo que subiu ao noticiário quotidiano um tanto incorretamente, a própria AMAL (Comunidade Intermunicipal do Algarve) terá optado por não responder a um último apelo de sobrevivência, mas, ao que se sabe, a AMAL disponibiliza-se a receber uma delegação da Casa do Algarve para avaliação da situação.  Isto não invalida reparos a alguns autarcas algarvios que, perante a premência de uma representação cívica do Algarve na capital, confundem causas com efeitos.

Tem sido evidente a inanição da Casa do Algarve, o seu défice de atividade e a sua falta de presença no cenário vizinho do poder central, em contra-corrente com outras regiões do país cujas “casas” lobbies e pólos de influência acima das divergências políticas regionais. Outras regiões sabem e conseguem defender e identificar os respetivos denominadores comuns. Não vem para aqui estender o argumentário da validade e benefício da Casa do Algarve, cujo declínio começou com o despejo da sua sede tradicional no Chiado e com o fim do bom sonho de uma nova sede com residência estudantil em terreno cedido pela Câmara de Lisboa. Com o divórcio e alheamento descrito, com o envelhecimento e a lei da vida a fazerem minguar os sócios históricos, as atvidades da Casa, remetida para um esconso T-1 na Avenida de Ceuta, foram-se reduzindo a ações de benemerência cada vez mais difíceis de manter. As últimas direções da Casa do Algarve não poderiam fazer mais.

Sempre pensei que, em democracia, a Casa do Algarve entraria num novo ciclo de vitalidade e representação cívica, mas infelizmente assim não aconteceu. Quando deviam ser os primeiros a reconhecer essa valência da Casa, estou em crer que há autarcas que nem sequer a conhecem nem a querem conhecer, ou porque nem são do Algarve e fazem da política um mero desempenho profissional, ou porque sendo do Algarve se distraíram numa exagerada visão de quintal. Não os culpo porque são vítimas daquele erro crasso que a acontece quando a política captura a cidadania aberta e útil – aberta acima das divergências, salvaguardando a força da representação; útil, gerando influência em abono das grandes causas regionais que não são poucas nem de desprezar.

Peço ao dr. António Féu, por ora ainda presidente da Casa do Algarve, que envide todos os esforços para que a deliberação de encerramento tomada em assembleia-geral, possa ser revertida. Até porque, presumo, no Algarve ainda haverá Algarvios com sentido de responsabilidade, tenham cargos ou não, e, em Lisboa, Algarvios ainda haverá com responsabilidade de sentido e que não deixarão de abrir a porta ao tocar-se-lhes a campainha. O fim da Casa do Algarve não pode ser.

Carlos Albino
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Flagrante desemprego: Aí vem, sazonal, etc. e tal. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

SMS 635Feitas as contas do 4 de outubro


8 outubro 2015

1 – A abstenção. O número de abstencionistas no Algarve não nos deixa em conforto, antes pelo contrário, esse número causa incómodo. O Algarve com 48.62% de abstenção global, muito acima da média nacional (43.07%), e com os maiores concelhos a rondar ou mesmo acima dos 50%, significa algo nos tempos que correm. Esse algo compete aos partidos decifrar, sobretudo os que descortinam pouco mais que o aparelho, os interesses e interessados no e do aparelho. Num desses concelhos, Albufeira, por exemplo, a abstenção atingiu 54.79%. Arrepia.

2 – Os resultados. Os partidos liderantes na região inverteram posições relativamente a 2011, mas de forma agora relativamente atenuada: o PS que, em 2011, obtivera 22,95%, subiu agora para 32,77% (4 deputados), e o PSD desceu dos seus 37.03% de 20011 para agora, em coligação com o CDS, se fixar nos 31.47% menos que isolado (o CDS em 2011 obtivera 12,71%. A osmose/endosmose destes partidos em coligação resultou num tombo, e só o casamento salvou a comunhão geral de bens e de adquiridos que fica nas mãos de 3 deputados. Depois, BE e PCP/PEV que, em 2011, ficaram quase ombro a ombro, também agora inverteram posições com o ombro do PCP descaído (de 8,57% para 7,19%) e o do BE bastante levantado (de 8,16% para 13,88%). Para isto, cada um dos eleitores terá a sua explicação desde o voto de castigo, ao voto de cansaço, ao voto de descrença, mas seja qual for a explicação é como que procurar uma agulha no palheiro, sendo que muita palha parecerá agulha.

3 – As conjecturas. De modo geral, se é lícito admitir que umas eleições autárquicas podem equivaler a uma avaliação do Governo central a meio mandato, também umas eleições legislativas a determinar novo governo, podem ser entendidas como avaliação das políticas locais ou autárquicas, neste momento a meios mandatos, não havendo, como se sabe, “política regional”. E analisando-se, no Algarve, os resultados de concelho a concelho deste 4 de outubro, cruzando-os com os resultados locais das legislativas de 2011 e os das autárquicas de 2013, da abstenção aos votos expressos, só quem não queira ver é que não encontrará motivos de reflexão. E no caso, aquele bicho que enterra a cabeça na areia, é o pior dos conselheiros. Partidos que obtiveram maiorias absolutas concelhias, sendo expectável que as mantivessem agora, mas as perderam, manda o bom senso que pensem a sério os seus futuros. E partidos que ganharam governanças locais identificadas com a linha maioritária no País, mas agora se viram ultrapassados por ventos contrários, também locais, manda a boa lógica que pensem a sério os seus passados. É que pior que enterrar a cabeça em areia, apesar de tudo firme se é molhada, é enterrar o corpo em areia movediça. Falo de política e de políticos. Falo dos que defendem a cidadania, a participação e a abertura à crítica de planos e projetos que implicam a sociedade ou as sociedades locais. Defendem isso, sim, mas apenas até à chegada ao poder. Depois esquecem-se, e tal esquecimento, num primeiro momento, vitima os seus próprios partidos, num segundo momento vitima os próprios esquecidos. Assim sendo, confiaria mais nas conclusões a extrair destas eleições de 4 de outubro, do que na força da propaganda futura, seja esta local em 2017, seja novamente geral, sabe Deus quando.

Carlos Albino
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Flagrante engano: Bastante gente, muita e alguma influente, por aí disse à boca cheia que não iria votar, que iria abster-se por isto ou por aquilo. Nada disso: não votaram porque não podiam votar – não estão inscritos nos cadernos eleitorais de onde residem e trabalham. Não são abstencionistas, são desenraizados por opção.

SMS 634. Faro 2027, é quase começar do zero


1 outubro 2015

Ninguém desejará que Faro não venha a ser designada Capital Europeia da Cultura, mas terá que ter a humildade de reconhecer que tem que partir do zero. É verdade que tem algum património de valia, tem em excelente museu (obrigado, Dr.ª Dália Paulo!), mas sem livrarias, sem grande teatro, sem vida cultural de referência, com uma população genericamente desmotivada para tais fins, sem jornais próprios, sem centros de rádio e televisão que não sejam meras estâncias, e, nestas circunstâncias, com uma tradição mais hegemónica que agregadora, além da extrema dificuldade económica e financeira que explicará as lassidões e os males mas não todos, Faro terá 12 anos para recuperar muito tempo perdido mas também tempo mal administrado ou administrado longe do horizonte cultural, que é o que está em questão. Mas, convenhamos, partir do zero, por vezes é melhor.

Segundo uma ordem prevista para cada ano até 2033, cabe a Portugal e à Letónia, apresentarem candidaturas para “Capitais da Cultura”, em 2027. Pelos procedimentos estabelecidos, os programas das cidades designadas para o mesmo ano deverão ter alguma relação entre si e a decisão final em muito dependerá de um júri composto por sete altas individualidades independentes, especializadas no setor cultural (duas designadas pelo Parlamento Europeu, duas pelo Conselho, duas pela Comissão e uma pelo Comité das Regiões). O júri elabora um relatório que transmite posteriormente à Comissão Europeia, ao Parlamento Europeu e ao Conselho.

Com dois anos de antecedência, Faro já divulgou que a sua candidatura que, como todas, deverá ter como base um projeto cultural de dimensão europeia e assente fundamentalmente na cooperação cultural, vai ser apresentada oficialmente daqui a dois anos (2017), devendo o resultado ser conhecido em 2019.

Pormenor importante, a União Europeia contribui financeiramente para a "Capital Europeia da Cultura". Até 2010, esse financiamento era de 1,5 milhões de euros por capital europeia, mas, desde então, passou a ser atribuído um prémio em vez de um subsídio. Este prémio, em honra de Melina Mercouri, é atribuído o mais tardar três meses antes do início da realização das iniciativas. Além disso, podem ainda subsidiar esta realização, os fundos estruturais (através dos acordos de parceria entre a Comissão Europeia e os Estados-Membros) e os programas europeus como Erasmus+, Europa Criativa ou Europa para os Cidadãos. Este pormenor não é desprezível, desconhecendo-se, neste momento, se Faro tem concorrência nacional.

Só que, Faro, partindo do zero, tem que fazer muito até 2017, muito mais até 2019 e muitíssimo mais ainda até três meses antes de 2027, para ser deveras uma capital, além disso, europeia e, fórmula máxima, da cultura. E por mais acordos de parceria que surjam para obviar, não há cultura sem gente culta, como não a há deixando-se morrer à míngua a gente culta.

Voltaremos ao assunto.

Carlos Albino

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Flagrante inquérito: Quais seriam os resultados caso se perguntasse em Faro e arredores, que cidades são neste 2015 capitais europeias da cultura? Possivelmente só os deputados a serem eleiotos no dia 4, responderiam certo: Mons (Bélgica) e  Plzeň (República Checa).

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

SMS 633. Os dados da questão


24 setembro 2015

Escusa de se agredirem com facas de cana na algibeira tal como o homem nu de Albufeira e não vale a pena ameaçar com um disparo como antigamente na lota de Faro. Indo à melhor fonte que é o Boletim Estatístico do Banco de Portugal, os dados da evolução da dívida pública portuguesa, são os seguintes:

  1. Em março de 2015, Portugal possuía uma dívida de 226,276 mil milhões de euros, representando uma taxa de 130.3% do PIB;
  2. Em 2011, esse valor situava-se em 175 mil milhões de euros, em 2012 em 195 mil milhões de euros e em 2013 em cerca de 205 mil milhões de euros;
  3. Se contabilizarmos o montante de 2012 e o de 2015 (início), o valor situa-se em cerca de 30 mil milhões de euros de aumento;
  4. Estes 30.000 milhões de euros são relativos a três anos, reportados desde o início de 2012 até  início de 2015. Aquele valor será ultrapassado com a evolução deste ano;
  5. Mais: não é difícil e será irrecusável constatar uma evolução de crescimento da dívida nestes recentes meses de 2015, provavelmente derivado ao doping político que os corredores ingerem sempre antes das corridas eleitorais e ao impacto de todas as medidas lançadas pelo Governo, incluindo medidas de emprego-formação; 
  6. Por último, diga-se que o Novo Banco poderá ter impactos significativos também na dívida - segundo o Jornal de Negócios já foram despendidos cerca de 17 milhões de euros só em consultadorias financeiras e jurídicas. Este caso é em tudo semelhante ao do BPN - é uma nacionalização, mas através de um Fundo Público, podendo configurar mais um caso de polícia, e ter o desfecho de uma venda tal como no desfecho do BPN, em que houve também uma separação dos ativos "tóxicos", mas não em dois bancos.
Portanto, como se dizia e bem em Quarteira, escusa mais paleio de feira.

Carlos Albino
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Flagrante convicção: Quem se abstém de eleger um Governo perde a legitimidade para contestar o Governo eleito e só por oportunismo dirá que o apoia. O arco-íris tem todas as cores, incluindo a cor branca que é a sobreposição de todas as cores primárias (verde, azul e vermelho) e a coisa preta só por lapso é cor... 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

SMS 632. Como Toledo no século XVI

17 setembro 2015

Ocorreu-me, há dias, pensar na sorte de Toledo, antiga capital de Castela a par de Saragoça, capital de Aragão, resultando desta bicefalia a emergência de Valladolid como capital antes de Sevilha, até que Madrid capital ficou. Os de Toledo assistiram a esses saltos da corte espanhola e, conformados, aceitavam e diziam no século XVI que a sua cidade era “ um lugar com um passado ilustre, um próspero presente e um futuro incerto"...

Salvas as devidas proporções, o Algarve está nessas condições de um passado ilustre (embora tenha perdido 85 por cento da sua memória), um próspero presente (embora 65 por cento não esteja nas suas mãos, 20 por cento nas mãos de filipes e 15 por cento ao deus dará das disputas de hegemonias locais que se anulam).

O Algarve parece ter essa sorte traçada. Vê as cortes andarem de um lado para o outro, e conforma-se com o passado ilustre. Assiste ao despejo de números redondos e convence-se de que o presente é próspero. Mas do que fica do nomadismo das cortes e do despejo dos números, é rigorosamente um futuro incerto. Incerto para o Algarve como Algarve, do Algarve como cidade imensa que é mas que filipes, esquecidos, e gestores do acaso apenas vêem como somatório de aldeamentos, cada qual até se esgotar, valendo cada vez menos nas trocas sucessivas.

Neste cenário, do qual está ausente escrutínio sério, objetivo e rigoroso, mas entulhado de promessas, descrições de projetos ornados de linguagem técnica e sugestões políticas, de planos e siglas que apontam geralmente para um século de ouro, é evidente que cada vez mais há mais pobres, há mais precariedade, há mais alheamento da população, deixando porta aberta aos profissionais da caridade que assim cortejam o Estado onde o défice de Algarve é também cada vez mais notório, com os de Toledo igualmente cada vez mais conformados e com temor.

Tenho observado que todos são “algarvios” até ao momento em que tomam as rédeas do poder local exacerbado, e que o “bom político” é o que nesse localismo que não leva a lado nenhum consegue ainda assim pintar a manta. Claro que há exceções e até boas exceções. Mas a regra é a de Toledo: futuro incerto.

Substituiu-se a voz do Algarve pela voz da corte, e paradoxalmente nunca o centralismo foi tão forte, o que não é um mal em si, convenhamos, apenas é um mal quando se torna desdenhoso e implanta o pior do centralismo, imitando-o à escala.

Carlos Albino
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Flagrante acompanhamento: Para os chamados Incentivos do Estado aos Meios de Comunicação Social Regionais e Locais (prorrogado o  prazo das candidaturas sem que, publica e claramente, se indique até quando e para quando) foi nomeada uma “comissão de acompanhamento”. Para a indicação de representantes, não se discute os critérios da Associação Portuguesa de Imprensa, nem os da inclusão confessional da Associação de Imprensa de Inspiração Cristã. Mas o que é estranho é que, pela Associação Portuguesa de Radiodifusão, para coisa do Algarve e para o Algarve, tenha sido designado um elemento da rádio Diana de Évora… Será que a Total FM, a Solar, a RUA, etc., alguma rádio algarvia, vai ser nomeada para o Alentejo?

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

SMS 631. Honoris causa

10 setembro 2015

É um dever, senão mesmo uma obrigação, dizer-se em voz alta que a Universidade do Algarve acaba de dar à Região com idêntico genitivo (do Algarve), um grande conforto, um enormíssimo estímulo e uma parcela de crença. Além disso, dá ao País um sinal – o sinal de que o Sul tem um pólo indelével, credível e esperançoso. Não é uma vitória sobre outros, é uma afirmação entre todos. E, no contexto do Algarve, intra muros, é uma mensagem – para autarquias com cultura regional, para empresas com raiz e não esses aglomerados adventícios, e para as entidades do Estado que por aqui dirigem ou delegam, infelizmente, por vezes, com presunçoso exaquatur de consulado.

E porquê? A Universidade do Algarve regista o maior aumento do número de candidatos 1.ª opção (+ 28% - de 724 em 2014 para 930 em 2015), indicador que acompanha o aumento do número de candidatos colocados, (aumento de 19% na 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior, apresentando o crescimento mais elevado no conjunto das universidades portuguesas. Isto, quando alguns de fora da região ditavam à Universidade o agoiro da integração noutra instituição universitária, senão mesmo a dissolução, e quando alguns de dentro da região, lhe espetaram uma navalhada nas costas, por exemplo com o caso da negação das bolsas do programa “+ Superior”.

Escrever estas palavras, aqui, no Jornal do Algarve, é também, não digo um consolo, mas, além de um ato de coerência, é sentir-se que por vezes a memória ajuda à construção crítica do entendimento que se possa fazer sobre isso “de Algarve”. Foi aqui, neste jornal, que em 1968, o objetivo da Universidade foi lançado no exato sentido e alcance do termo. Contrariamente, alguns mas de peso, defendiam apenas um instituto politécnico, nunca uma Universidade. Este jornal insistiu, promoveu um inquérito ao ensino na região e a criação da universidade foi uma causa assumidamente sua, até que em 1979, já em plena democracia, o objetivo foi tardiamente conseguido, mas conseguido (mérito, reconheça-se, a José Vitorino e seus movimentos nas bancadas parlamentares).

Este passado, que já não move moinhos, só interessa para mais estas palavras: o mesmo argumentário de outrora por apenas um instituto politécnico em desfavor da universidade, foi do mesmo tipo de argumentário dos que hoje tentam anavalhar a universidade com os cálculos oportunistas da sua integração ou dissolução.  Só que, se outrora se poderia desculpar os da não-universidade, ou pela ingenuidade, ou pelo temor dos tentáculos da ditadura, hoje, o caso é outro – é perversão por impedimento de escrutínio, é incompetência própria dos que só vêem ao perto e não ao longe, e é rendição a objetivos não confessados mas seguramente contrários aos interesses gerais da região e ao seu bem-comum. Estes, se a Universidade do Algarve, hoje, em vez de crescimento tivesse registado afundamento, se em vez de mais procura tivesse havido repulsão, se em vez de ter ascendido ao primeiro lugar por entre as universidade portugueses tivesse ficado abaixo do instituto dos pepinos jurídicos do Freixoso de Cima, estes tais, já estariam aí, na praça, cheios de gáudio.

Mas não, a Universidade do Algarve, a nossa universidade é felizmente como se mostra e prova, honoris causa. Oxalá assim continue e que o Reitor António Branco e suas equipas (reitoral, conselho geral, etc…) prossigam na linha certa – a da excelência, da credibilidade, da probidade e da sabedoria (não tenhamos medo desta palavra, que só por esta palavra é se cativam alunos como eu…)

Carlos Albino
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Flagrante decisão coordenadora: A Fundação António Aleixo vai destinar uma quota de bolsas a estudantes do Concelho de Loulé com destino à Universidade do Algarve. Faz o que uma Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve devia ter feito.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

SMS 630. Uma carta recebida

3 setembro 2015

Caro Carlos Albino

O ano tem trezentos e cinquenta e seis dias, cinquenta e duas semanas. Semana após semana, leio as suas crónicas. Cinquenta e duas por ano. Leio-as porque as subscrevo numa percentagem de noventa e cinco por cento. Política, costumes, vivências, desesperos, esperanças. Ano após ano, o que se prevê acontece, quando acontece, então já toda a gente previu. Aposto que na próxima semana, você vai previr o que eu estou a prever. Mas, desta vez, peço-lhe que preveja sozinho, que eu sozinho prevejo também. Esqueça previsões, e faça como eu. Umas férias, e vá ao mar. Bem o merecemos.

Tome um calção, uma toalha e dirija-se para um areal amplo, como aquele que eu frequento. Agora que as praias começam a despovoar-se é altura de os locais falarem com as areias brancas. Em tempos você escreveu poesia? Pois fale com elas, as areias mais lindas do mundo. Fale com a água azul, a água quente do mês de Setembro. Fale com as aves que de madrugada pisaram a areia e lá deixaram as impressões digitais das patas em forma de mãos quase humanas. Milhares de pegadas de aves. E fale com as ondas mansas. Deixe-se ficar. Sem pensar em mais nada. Fale com os barcos que passam carregados de “marinheiros” por umas horas, coisa de ir ao final do Barlavento e voltar. Faça-lhes adeus, de forma pueril, que não faz mal. E mergulhe na água, e nade para longe, e venha para fora cuspindo água, para se deitar ao sol. Desfrute do sol do seu Sul. Você está no seu Sul.

Sim, todos sabemos que você pertence ao grupo daqueles que desfazem do novo conceito administrativo de um Sul, feito a régua e folha de Excel. Pertenço ao seu team. Essa nova concepção de Sul é uma extensão que em vez de unir duas regiões as põe em desconfiança e guerreia, porque se quer unificar o que por natureza e geologia, a Terra, nos deu distintas. Mas, durante esta semana, esqueça. Pense que está deitado numa praia virada a Sul, que fala com o coração da sua terra, sua e minha. Você porque nasceu nela, e eu porque a adoptei aos trinta anos. Durante uma semana, você pode fazer as pazes com a beleza do ar, da água, dos pássaros da nossa Terra ao Sul, e eu, seu leitor, também.

[Concordo e assino a rogo: Carlos Albino]
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Flagrante obediência: Tomei um calção, uma toalha e nadei para longe.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

SMS 629. Influência em Lisboa

27 agosto 2015

Em 1957, no seu primeiro número, o Jornal do Algarve arrancava com este título à cabeça da primeira página: “A influência da Província em Lisboa”, para deixar claro há 58 anos que “mais de setenta por cento dos habitantes de Lisboa são naturais de terras de província”, além de que provincianos eram os comandos políticos de então, das secções, divisões e departamentos de ministérios à chefia do governo. Nesses tempos, sem o escrutínio parlamentar que hoje está disponível e sem a liberdade de expressão e opinião que hoje pelo menos em teoria é regra, os “provincianos” influenciavam a bem dos seus interesses e das suas terras ou regiões de origem, o mais possível e por todos os meios, designadamente os ilegítimos e até os perversos. Era a estrada, era o edifício, era a escola, era a facilidade para fábrica, fosse o que fosse, cada provinciano puxava para si e para a sua terra o mais possível, e tanto mais possível quanto maior era a simpatia captada ou raptada do ditador.

Pensou muita gente que, com a democracia, com o livre escrutínio dos atos e decisões públicas, e sobretudo com o sistema de eleição dos representantes, a defesa da província não ficaria entregue ao arbítrio dos provincianos instalados em Lisboa, ou ao dos seus cônsules destacados para, supostamente, imporem a ordem, a competência, a civilidade e a civilização nesses territórios bárbaros. Ou seja, que a província seria gerida pelos próprios provincianos competentes, civilizados e ordenados; que a luta perversa e clandestina entre os lóbis provincianos de há meio-século seria substituída pela representação parlamentar em coerência com a definição dos círculos eleitorais; e que os benefícios para as províncias não dependeriam em nada das influências em Lisboa, mas sim da forma e dos procedimentos responsáveis das províncias como províncias e não como bantustões. Vê-se que assim não aconteceu.

Eram províncias, mas injetou-se o conceito de regiões e, hoje, não se sabe onde há região na província e onde há província na região, até porque o conceito de região, no ponto de vista de política administrativa, foi chumbado em referendo perverso. Além disso, o municipalismo foi estimulado, até por via legislativa, para entrar pelos caminhos do localismo exacerbado e de autonomia em muitos casos irreal, enquanto que a organismos governamentais e a quase tudo que não seja mais que secções de expediente do poder central se dá a designação “da região”. Para mais, os tais representantes de círculo, ou são já de si filtrações dos aparelhos partidários ou, pior ainda, apuramento de pára-quedistas de conveniência da política partidária – os primeiros, de longe, ainda terão alguma coisa a ver com a “região”, os segundos, esses é que nada têm a ver com a província. E voltamos paradoxalmente à pecha de há 58 anos – quem manda na província é um cônsul de Lisboa (modo de dizer) e quem representa a região em Lisboa é mais patrício do aparelho que da província.

Vendo bem o mapa, mapa político, claro, o Algarve é o que sai e está mais prejudicado. Primeiro, porque é a província mais miscigenada do País, perdendo a memória de si própria; segundo, é a região mais tolerante, aberta e também permissiva à entrada de cavalos de tróia; terceiro, é uma não-região e cada vez menos província que, defraudada com as impotências dos D. Sebastiões, e à falta de verdadeira dinastia eleitoral e sufragada, rende-se facilmente perante qualquer Filipe tratando-o por Algarvio. Ah! Sim! Também há umas duquesas de Mântua, tratadas por Algarvias.

Carlos Albino
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Flagrantes felicitações: A III Feira da Dieta Mediterrânica, em Tavira (4, 5 e 6 de setembro), parece que promete. Poderia e deveria comprometer institucionalmente os 16 concelhos do Algarve, tal como, também instiotucionalmente, os restantes seis Estados parceiros (além de Portugal que foi o último, como sempre, Chipre, Croácia, Espanha, Grécia, Itália e Marrocos). Além disso, mais uma vez o Cante Alentejano, aí, é como beber leite com sardinha assada. Todavia, felicitações. Mas programar-se em Faro (4 e 5) outro festival a coincidir com o de Tavira, é um disparate e uma falta de “coordenação regional”. É uma descoordenação provinciana. Se fosse em Paderne, ainda se desculparia.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

SMS 628. Os sites do poder local

20 agosto 2015

No Algarve, todos os municípios têm os seus sites e assim acontece com a maior parte das autarquias inferiores a concelho. Percorrendo tais sites, verifica-se que, na generalidade, os sites dos municípios são praticamente sites “das câmaras” e que os sites das freguesias não passam de sites das juntas. O curioso é que, também na generalidade, os presidentes de câmaras e de juntas, nas suas solenes mensagens muito ao estilo de sermão redigido para o Cachopo mas pregado na Sé de Faro, justificam os sites porque estamos na era da informação, dos novos meios tecnológicos, e, claro, na era da “aproximação dos políticos” aos cidadãos, como se os políticos não fossem cidadãos que devem antes de tudo aproximar-se de si próprios, e os cidadãos não fossem políticos mesmo que percam a consciência de cidadãos. Mas, enfim, este é apenas um pormenor de personalidade e de carácter de uns e doutros, muito embora a coisa comece cá em baixo e acabe lá em cima, como nas árvores dos frutos secos.

O que está em causa? Apenas isto: quer municípios quer autarquias inferiores a concelhos têm dois órgãos – à cabeça, as assembleias que são os órgãos deliberativos e fiscalizadores, e depois (só depois, protocolar e politicamente) as câmaras e juntas que são os órgãos executivos. Nos sites, a coisa parece ser inversa: as assembleias, na maior parte dos mostruários, surgem como que um departamento da câmara, uma espécie de gabinete de apoio do executivo, algo como que uma divisão da mesma categoria da do saneamento básico, ou até mesmo como que uma secção que foi outrora empresa municipal mas já extinta. A começar pelo nome, de modo geral os sites apresentam-se como sendo desta ou daquela câmara, desta ou daquela junta, e não do Município X ou da Freguesia Y.

Qual informação e quais recursos tecnológicos? As convocatórias das assembleias estão nos confins, além dos papéis colados “nos lugares do costume” mas que ninguém lê porque as aldeias deixaram de ser aldeias e não se resumem ao largo do fim de missa, e porque nos municípios, o placar municipal é uma bolha no meio dos placares das agências funerárias, anúncios dos touros de Albufeira, e papelada da histeria de eventos dos quais, eventualmente, apenas um será acontecimento.

Na prática, que é o que interessa pelos efeitos que provoca na “ideia geral”, retirou-se a dignidade de órgão autárquico N.º 1, deliberativo e fiscalizador, como é a Assembleia seja de município ou de freguesia, apresentando-o como mero apêndice da câmara ou junta… E, embora não haja tal intenção, apresenta-se a câmara ou a junta, órgãos executivos que executam depois da deliberação e que podem deixar de executar se a fiscalização da assembleia rumar para esse cenário, como se a câmara ou a junta não fossem de uma autarquia mas sim de uma autocracia.

Não se venha com esse argumento de que “a coisa foi encomendada a uma competente empresa de comunicação”, como se fosse legítima tal delegação de competências para o analfabetismo organizado, e como se isto de sites autárquicos fosse… mais um evento.

Carlos Albino
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Flagrante artimanha: Estas inaugurações de estradas, de escolas e de obras acabadas à pressa depois de paradas há um ror de tempo, assim a mês e picos das eleições, é um excelente elemento para avaliação do quociente político de quem inaugura e justifica a inauguração. Nem há consciência de que uma artimanha nunca se inaugura…

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

SMS 627. Petróleo de quem e para quê?

13 agosto 2015

Há duas petições relativas a essa questão do petróleo, questão no mínimo esquisita e estranhamente silenciada, envolvendo interesses de larga escala, ou não se trate de petróleo e gás natural. As petições são dirigidas à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu, não sei o que darão e duvido que dêem. Mas como isto ainda não é a Guiné Equatorial, embora já pareça, impõe-se que, lendo os textos das petições, nos interroguemos, e para as perguntas não ficarem no ar, haja respostas.

1 - A prospecção e pesquisa tem sido realizada sem qualquer tipo de avaliação ambiental, que seja do conhecimento público, e todo o processo tem sido conduzido de forma que não se afigura transparente? É verdade. Não há avaliação ambiental que se conheça nem o processo tem sido transparente. Como se Faro fosse Conakri.

2 – É de ver com muita apreensão o futuro do Algarve tendo em conta os possíveis impactos que uma medida destas pode ter numa região com uma elevada dependência do turismo e do mar, com uma elevadíssima biodiversidade, sendo mais de 35% do seu território protegido por convenções e legislação da União Europeia e de Portugal? Com muita apreensão mesmo. Mesmo que o futuro da região esteja entregue a um Obiang de trazer por casa.

3 – Haverá impactos nocivos resultantes de um aumento da intensidade e frequência da actividade sísmica numa região onde não se pode ignorar o elevado risco sísmico e a possibilidade de ser atingida por um tsunami? É muito possível que no Algarve já se estude menos história que na Guiné Equatorial, mas as tragédias sísmicas do passado na Região são advertências de um Deus que não é espanhol.

4 - E um possível acidente tanto na fase de prospecção, como na fase de exploração ou no transporte de hidrocarbonetos (petróleo e gás natural), não originará graves problemas ambientais e sociais, com as perdas de recursos que um derrame acidental de petróleo e/ou gás traria para as actividades dependentes do mar? Um simples barco partido no mar da Galiza ensina isso…

5 – Os projetos de prospeção e exploração de petróleo e gás natural não correspondem já a um modelo energético ultrapassado, que agrava as alterações climáticas e enfrenta cada vez mais soluções alternativas? Claro que sim, por isso a OPEP ficou reduzida a um barril que não vale um xisto dos EUA. A Venezuela e Angola que digam se a pirataria aproveita a alguém.

6 – Este projeto, além de nada transparente e muito submarino, será defensável num ponto de vista económico, já que as contrapartidas financeiras para o Estado Português são ostensivamente irrisórias e nulas para a Região Algarvia? Sim, é verdade – contrapartidas irrisórias para o Estado, nulas para a Região, embora os intermediários (bastantes) tirem partido - os Francis Drakes chegam sempre disfarçados. Apenas os reconhecemos depois da pilhagem, como se diz correntemente na Guiné Equatorial.

Carlos Albino_________________________________________
Flagrante problema: A questão não é de os presidentes de câmara engolirem um garfo a meio do mandato; o problema é quando os subalternos sortudos querem provar que têm valor, engolindo uma colher e uma faca... E assim desaparece o que poderia ser um grande talher político. Mais não digo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

SMS 626. O senhor Simões

6 agosto 2015

Primeiro foi o senhor Pátio que encerrou, toda a gente já esquecida, também porque não se lembrou a tempo e pouco fez para viabilizar a memória. Um livreco vendido ao dia, era uma sorte, numa cidade com elite tão extensa e autoconvencida, enfim a nobreza de hoje, e não será o clero e o povo a substituir a nobreza. Agora a loja do senhor Simões, dos livros antigos aos recentes, já que as editoras parece tudo fazerem para que um livro do ano passado, por melhor que seja e com prova, seja antigo, ou seja “fora do mercado.

Naturalmente que me choca a lassidão (lassidão é a palavra) da Câmara Municipal de Faro. Só que uma livraria, um alfarrabista, ou uma simples banca de livros, não se aguenta sem… vender livros. E não se vende livros se ninguém quiser ser leitor. Por aquilo que falei com responsáveis, das centenas de professores (do universitário ao básico), engenheiros, arquitetos, advogados e demais gente curricularmente culta , apenas um ou outro entrava no Pátio para comprar, como um ou outro recorria ao Simões para se ilustrar. Não dava para a caixa e fecharam.

É claro que algum problema existe e certamente por ausência de política cultural supletiva da Câmara (e não só), mas fundamentalmente é um problema da Sociedade. Mas também da câmara, das câmaras onde “a última livraria” fecha, pois quando uma cidade fica sem qualquer Livraria (letra grande), é como uma freguesia ficar sem farmácia ou uma região inteira ficar sem água nas torneiras.

Mas quando uma Sociedade gera no dia a dia um problema destes, também é um problema de política, de Política Cultural e de Comunicação Cultural, as duas coisas. Na verdade, temos uma política de salamaleques e também uma sociedade de salamaleques, com importâncias a acorrer à Importância em filas de elites pífias nos atos de fingimento cultural, ou, se não são pífias e o ato não é fingimento, são “sempre os mesmos”.

E então, o que interessa discutir no Lethes política cultural, na mesmíssima situação do tal casal de bombeiros que dorme no 2.º andar com o 1.º andar em chamas? Uma câmara lassa, aliás, faz parte da sociedade lassa, e disso, a instituição e a sua base não se livram pelas regras da lassidão. Sim, a lassidão tem regras, as tais regras pelas quais vamos desta para melhor.

Enquanto isto, há que ajudar o senhor Simões.

Carlos Albino
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Flagrante sinal: Vamos ter 60 dias de reflexão eleitoral, em silêncio, como nem a lei prevê.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

SMS 625. CCDR: de “autarquia” a autocracia?

30 julho 2015

Posso estar enganado, mas essa questão das bolsas de mobilidade parece ser uma grande trapalhada. E caso assim seja, aumenta o receio de que a CCDR, que já mais parece uma difusa “autarquia regional”, se vá transformando numa autocracia igualmente difusa. O que é mau, quer para o conjunto das autarquias deveras, quer para os aspirantes a autocratas, seja qual for a espécie de governo que lhes dê chapéu, seja qual for o chapéu com que defendam a calvície do poder central. Mas, como disse, posso estar enganado.

O caso é este, pelo que subiu ao noticiário quotidiano: para o programa “+ Superior” que visa a concessão de 1020 bolsas com o valor de 1500 euros anuais a estudantes que se inscrevam em instituições localizadas fora dos grandes centros, a Universidade do Algarve foi, pelo segundo ano consecutivo, excluída. De entre 14 universidades e politécnicos, a Universidade de Trás-os-Montes é a instituição com mais bolsas atribuídas, e a região Centro concentra os benefícios distribuídos pelas universidades da Beira Interior, Évora e Vila Real, e pelos politécnicos de Beja, Bragança, Castelo Branco, Guarda, Portalegre, Santarém, Tomar, Viana do Castelo, Viseu, Oliveira do Hospital e Coimbra. O Algarve de fora e postergado, com uma seta cravada no coração da sua bela e prestigiada universidade.

Sabendo-se que entre as universidades e politécnicos há uma guerra surda para captação de alunos, e com isto, luta pela sobrevivência, à primeira vista pensou-se que era mais um ato hostil ou de displicência do Ministério da Educação contra esse inútil rincão nacional que se chama por acaso Algarve. Mas não. Ao que se sabe, o Ministério, depois de sublinhar que a CCDR é “autarquia” no assunto, apressou-se a esclarecer: “a CCDR do Algarve optou por não mobilizar essa prioridade de investimento no seu programa regional, alegando que tinha necessidade de concentração dos recursos nos maiores constrangimentos da região e que a mesma não se encontra em perda demográfica”.

Estou em crer que todos os que sentem e vivem o Algarve como o seu chão, registaram com lhaneza e tolerância a notória evolução do pensamento de David Santos, presidente da CCDR do rincão postergado, porquanto em 2014, afirmou dar prioridade “às pessoas e às empresas” e neste ano de 2015, no seu mais recente pronunciamento seletivo, já não falou em pessoas mas apenas em empresas como se estas não fossem constituídas por pessoas, não dependessem de pessoas, mais, da qualidade e do enraizamento das pessoas.

A CCRD ouviu alguém? Ouviu a universidade, principal interessada? Ouviu as autarquias deveras? Promoveu alguma auscultação?

Se não o fez e transmitiu ao Ministério algo que o Ministério sacudiu do capote, então, é lícito que haja receios de que a CCDR, como quem não quer a coisa, se sinta já a navegar nas águas da autocracia, porque a procissão ainda vai no adro.

E se assim for, é mau. Pela boca morre o peixe.

Carlos Albino
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Flagrante deferência: Afirmou António Eusébio que Miguel Freitas “é um quadro valioso do PS, que pode ser encaixado noutros desafios maiores que ser deputado”. Não há qualquer problema em indagar se alguns nomes de candidatos a deputado não poderiam ser “encaixados” em desafios menores, o problema é o uso do verbo “encaixar”…

quinta-feira, 23 de julho de 2015

SMS 624. Deixemos a poeira pousar  

23 julho 2015

Com certeza, esta é a época em que há muito atropelo em festas, festivais, feiras, reconstituições dadas como históricas, encontros disto e daquilo, pretextos desde o chouriço ao marisco, desde tudo a qualquer coisa, por aí fora, umas coisas “nacionais”, outras já “internacionais”, quase não deixando um dia livre no calendário estival. Não há mal grave nesse atropelo. Ainda há uns poucos anos, contava-se pelos dedos de uma só mão o que poderia ser descrito como animação, recreio ou divertimento. Agora é um mapa de “eventos” quase uns sobre os outros, ou, mal acaba um, outro começa mesmo ao lado, seguindo-se outro logo ali, ainda estão a voar pelas valetas, em pilhas nos balcões dos cafés ou nos vidros dos automóveis estacionados há oito dias, os folhetos do que acabou de há três dias. E nisto, mal da terra que não tenha “eventos” que, por natureza, deviam ser eventuais mas até o significado da palavra se alterou. Não mal grave nesse atropelo de que muitos se queixam e com que outros tantos se animam. Algum dia, se descobrirá que tem que haver um esforço de coordenação mínima para o que deva ser considerado com “regional”. Algum dia se reconhecerá que a Animação (letra grande) do Algarve deve ter um planeamento ainda que esboçado, um fio orientador, claro que nada impositivo ou castrador das eventuais criatividades e orçamentos locais, mas Animação conjugada. Para que, pousada a poeira, a qualidade impere e para que tal qualidade não fique apenas nos braços das agências disto e daquilo que, por natureza, programam à distância os “eventos” cá de dentro.

Esse esforço de coordenação ou de conjugação, algum dia, terá de acontecer para que o atropelo não dê em caos e para uma animação em caos não há orçamento que a suporte. Não me perguntem qual é ou deva ser a “instituição” a quem compete dar o pontapé de saída, ou se há mais que uma mas duas, três que entre si tenham dar o exemplo desse mesmo esforço. E, além disso, devam elaborar um dicionário mínimo em que animação turística signifique isso mesmo e não outra coisa, tal como animação cultural deva significar tudo o que queiram mas com cultura e não sem ela.

Algum dia, isso acontecerá. Deixemos a poeira pousar. A natureza não dá saltos, e a natureza humana, então a algarvia, além disso, não é propriamente um “evento”.

Carlos Albino
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Flagrante pedido aos motards e aos combatentes: Calma! Isto não é uma guerra, seja esta de invasores sem invadidos, ou de combatentes sem grandes combates à vista. Calma!

quinta-feira, 16 de julho de 2015

SMS 623. Esperança ou abuso 

16 julho 2015

Deus o ouça, David Santos. Há um ano (2014), pouco antes do “programa operacional” começar a valer, disse desejar que o Algarve viesse a ser em 2020 «uma região com mais emprego, mais economia, onde a sazonalidade não seja tão intensa e onde as pessoas tenham mais qualidade de vida». Foram palavras contidas, que geraram dúvidas mas em sintonia com a generalidade dos Algarvios, sejam estes de raiz ou adventícios. Numa região com a mais elevada taxa de desemprego do País, com muito pouca economia além da economia que foi destruída, e da “outra” que não tem sede na região, com uma sazonalidade próxima do antigo Estatuto do Indígena das colónias, e com uma qualidade de vida só para inglês ver ao longo da 125, as palavras de David Santos, N.º 1 da CCDR e de facto “governador civil”, muito próximo já de “ministro da República”, coincidiram com as palavras que quem queira o bem da Região, poderia dizer. Não estávamos perto de eleições, nem próximos de pontais ou de pontinhas, e as palavras de esperança são como chuva bem-vinda para flores a secar.

Um ano depois, neste 2015, David Santos naturalmente que se afirma satisfeito com os 85 por cento de execução do dito “programa operacional” e quando outra sigla para muitos enigmática – CRESC 2020 - começa a andar de ouvido em ouvido, volta a dizer : “gostaria que, quando terminasse este quadro comunitário 2014-2020, o Algarve fosse a região do país com menor taxa de desemprego”. David Santos usou o verbo “gostar” e não “querer”. Disse “gostaria” e não “quero”. Também gostaríamos e, já agora, quereríamos. Deus o ouça.

De resto, tudo o que mais disse agora – os 140 milhões, o FEDER, etc… - corresponde a sermão que, mais ou menos, se ouve há muito tempo, mudando as siglas que podem ou devem ser mudadas, desde o tempo do abate dos barcos, às piscinas, jipes e moradias para a renovação da agricultura, para não se falar de outros incentivos às “empresas” com todas as histórias da intermediação burocrática e dos gabinetes de interesses difusos, com um pé na responsabilidade púbica e outro pé nos jogos privados.

É claro que a voz de David Santos é, de alguma forma, a voz do governo em altifalante regional. É a voz do poder político executivo. Ele dirige um serviço periférico da administração direta do Estado, serviço esse integrado na Presidência do Conselho de Ministros e tutelado conjuntamente pelos Ministros do Ambiente, do Ordenamento do Território e Energia, e pelo Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional. As áreas de tal serviço, ancorado em Faro, abrangem extensas áreas: ordenamento do território, vigilância e controlo, desenvolvimento regional, ambiente, administração local, gestão administrativa e financeira, comunicação e sistemas de informação.

A dois meses de eleições, oxalá que Deus ouça as palavras de David Santos para 2020, e não as considere apenas um abuso de comissão.

Carlos Albino
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Flagrante arrepio: A colocação da Comunicação Social (apoios, subsídios, o futuro…) exclusivamente nas mãos de um órgão governamental, numa região que pouca e quase nenhuma comunicação social tem.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

SMS 622. Grande animação

9 julho 2015

Temos que nos render. Não há motivo para que o Algarve não seja apenas palco de elogios. Para os municípios, com suas câmaras e assembleias, elogios obrigatórios em tudo e todos os dias; para as freguesias de lés a lés, sem exceção, elogios; para as empresas municipais, elogios; para as associações sejam elas populares, impopulares ou mesmo só para pular, elogios; para as escolas, elogios; para as entidades ditas regionais, sejam direções, delegações ou entidades, elogios; para os deputados que tivemos e havemos de ter, elogios. Atingido este ano de 2015, este mês de julho e esta semana que vai do dia 6 ao dia 12, elogios para este Algarve e quem não for apenas e absolutamente elogioso, não dizemos que deva ser banido porque estamos numa sociedade livre, mas pelo menos deve-se-lhe dizer discretamente que não é merecedor da partilha do elogio geral construído, como se sabe, pelos impostos para uns tais efeitos e pelos votos para outros efeitos separados. Há asneirada? As asneiras passam com elogio, de preferência em abstrato. Há golpaças? Caso sejam bem feitas, os elogios recobrem o golpe já de si elogiável. Há o dito por dito? Diga-se que isso é nobreza de espírito que obriga aos elogios. Ignorantes daqui, néscios dali, ignaros dacolá que nunca se enganam e incultos que raramente têm dúvidas, pois, no tempo que passa, o momento do elogio ainda que este não passe de um ato de exceção sediciosa contra elogiados de outra espécie mas do mesmo género. Não há decreto que obrigue, não há postura municipal que imponha, mas o elogio é lei a cumprir. Elogio, elogio, elogio.

E quando numa terra apenas há matéria, pessoas e eventos para elogiar, pouco mais pode ser dito como pouco elogioso mas sem ofensa, que os passarinhos dessa terra, coitadinhos, fazem os seus ninhos com mil cuidados; arrancam as penas para aquecer os filhinhos nos beirais dos telhados, coitadinhos dos passarinhos, tão lindos são, que fazem esta grande animação.

Carlos Albino
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Flagrante confusão: Entre imigrantes e residentes estrangeiros.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

SMS 621. Maria Barroso


2 julho 2015

Partir não é notícia, abalar não justifica comentário, mas sentir a falta dói. Todos sabemos que Maria Barroso nasceu aqui, sabemos como ao longo destes anos passou como uma nuvem sobre fronteiras despejando uma chuva de afetos. Foi um exemplo vivo da concretização daquela advertência de Malebranche: “É preciso tender para a perfeição, sem a pretender”. A raras pessoas e em muito poucas situações tenho confidenciado que essa é a minha frase de cabeceira desde os 15 anos. E quando confidencio, olho para a cara da pessoa, tentando perceber o efeito em tudo o que os olhos possam apanhar como que num flash. Maria Barroso, quando, já lá vão uns bons e muitos anos, lhe fiz a confidência, abriu os olhos para o seu maior tamanho, apertou os lábios, e após uma forte contração do rosto tal como se faz quando se tenta separar a verdade da mentira, fez um daqueles sorrisos que não têm lugar preciso na cara, porque pertencem a todo o rosto naquele momento em que o rosto é a alma. E é verdade. Maria Barroso tendeu para a perfeição sem a pretender.

Ela não nasceu apenas no Algarve – viveu o Algarve. Queria a excelência no Algarve, nunca negou uma ajuda para que essa excelência varresse o provincianismo, o egoísmo, a invocação da cultura em vão, o jogo trafulha que nasce da ignorância como os cardos. Ao Algarve que lhe batesse à porta, dava sempre ajuda discreta mas eficaz e, para grandes causas, dava o nome.

Sobre Maria Barroso, qualquer notícia será sempre incompleta, qualquer comentário pecará sempre por defeito, mas a sua falta tende para a dor de quem a sente. Possivelmente a perfeição é abalar e partir sem isso se pretender. Obrigado, Maria Barroso.

Carlos Albino
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Flagrante observação: Tem o céu tanta estrela, porque é que há-de retirar as poucas que a Terra tem?

quinta-feira, 25 de junho de 2015

SMS 620. Sem deputados a sério, isto não vai


25 junho 2015

Mais do que nunca, o Algarve precisa de deputados a sério: competentes, probos (não tanto à lei da bala mas fora da lei da selva), interventivos, conhecedores da Região (nas suas contradições e complicações), conhecidos minimamente por provas dadas e não pelo número de chapeladas, aptos a questionarem o governo com fundamento, capazes de redigirem uma intervenção de fundo sem recurso ao Google, à Wikipedia ou à colagem de prosa caída no domínio público, com estofo para a iniciativa legislativa. Precisa de deputados que não usem e abusem do facto de, uma vez eleitos, representarem “todo o País” e não apenas o círculo de Faro por onde são sufragados, como pretexto para se isentarem ou mesmo se ausentarem politicamente do Algarve, encolhendo os ombros. Precisa de deputados influentes que se imponham pela assertividade, cultura e estatura, ou que, pela ação, ganhem influência, consideração e respeito, mesmo que partam do zero. O Algarve precisa de deputados que tenham voz e não apenas garganta. Deputados que nos dias destinados pelo regimento da Assembleia da República aos “contactos com os eleitores”, contactem a sério os eleitores e não apenas os vizinhos do beco.  Portanto, deputados com o bilhete de identidade à antiga ou com o cartão de cidadão à moderna. O Algarve precisa de deputados a sério, e sem isto, isso não vai.

Todos os partidos têm esse dever de apresentarem no Algarve candidatos a sério a deputados a sério. Neste quase final de junho, o lembrete vem a tempo e será, por aqui, o último. É lícito que todos em concreto se julguem candidatos a sério, e legítimo também é que os partidos acreditem que aqueles que escolhem venham a ser, no vago, deputados a sério. Só que o comportamento do eleitor, melhor, da massa anónima dos eleitores, está no epicentro da chamada “sabedoria popular” e esta, em boa parte, já está escaldada. É tarde para “primárias” envolvendo as enormíssimas áreas dos simpatizantes que cada partido poderia pôr à prova, pelo que a minoria filtrada dos militantes cuja filtragem resulta nos “aparelhos”, tem quase o dever da infabilidade que é coisa que só os Papas tinham até há pouco tempo, designadamente dois ou três papas que o Algarve conheceu. Posto isto, nada mais se dirá aqui sobre o assunto até à vitória final de uns e à derrota fatal de outros. Não culpem os eleitores, não culpem os Algarvios que consomem os seus dias no “círculo” e não em “todo o País”…

Carlos Albino
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Flagrante reinado: O número um da CCDR arrisca-se a ser o primeiro rei do Algarve que nem quando foi reino teve. Só falta tutelar a GNR, a PSP, a Judiciária e a Igreja Católica. As seitas não precisam de incentivos.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

SMS 619. Apetece bater-lhes com o martelo no joelho...


16 junho 2015


Está o Algarve cheio de estátuas de Moisés, acredite-se ou não. Nos municípios, nas freguesias, nas direções, delegações e entidades regionais, nas travessas e becos camarários, bem vistas as coisas, descobre-se sempre por aí um Moisés (masculino/feminino), nem que seja fechado num armário e não tão raramente quanto pareça, um Moisés sentado à secretária a telefonar ou a despachar. Uma estátua tão ou mais perfeita como a que Miguel Ângelo esculpiu para o túmulo do papa Júlio II. Quem já tentou contar os Moisés do Algarve, ficou sem saber se serão 42 ou mesmo 67, mas figuras dessas são bastantes, e, além disso, genialmente esculpidas. A perfeição é tal que, cada estátua, para não se descompor, permanece imóvel. Não respondem a nada, não recebem ninguém, e quando fingem receber não é isso que fazem mas apenas dispensar a sua beleza estática a quem desfila e reverencia. E, por um elevado sentido de sobrevivência, cada Moisés admite com muita humildade que apenas é obra-prima no território onde está, território esse que, aliás, trata como um túmulo. O Moisés do túmulo ao lado, é outro Moisés, e cada um que trate apenas de si. Ainda não há, portanto, um Moisés de todo o Algarve, mas sim dezenas de tais obras-primas espalhadas no Algarve retalhado, e que assim é um verdadeiro museu vivo com aspeto de cemitério de estátuas. Cada um dos nossos estimadíssimos Moisés julga-se detentor das tábuas da lei, mas, à cautela, não o diz em voz alta, nem sequer para cada tribo nómada que os segue, tribos tais que, até meio do mandato, cumprem metade dos mandamentos, a partir da metade apenas o quinto (não matarás), e, três meses antes do final, nem este. Ou seja, tais tribos servem para queimar as sarças no terreno por onde cada Moisés, à falta de palavra e de ideia para alguma palavra, irá passar silencioso mas sorrindo majestaticamente, pedregulho vulgar em qualquer pedreira mas obra-prima na galeria virtual em que qualquer poder, seja qual for o patamar, se converteu. E caso se dirija a qualquer destes Moisés, a pergunta: “Você não fala? Não tem uma palavra a dizer perante o que acontece no Algarve, além dos festivais?”, a resposta é nada ou nim.

É sabido que Miguel Ângelo após esculpir a estátua de Moisés, passou por um momento de alucinação diante da beleza da escultura e bateu com o martelo no joelho da figura, gritando: “Por que não falas? Perchè non parli?”  Claro que a estátua nada respondeu mas, segundo se acredita, nela ficou, até hoje a marca do martelo no joelho – uma lasca.

Se repararem bem, os Moisés do Algarve são os que têm uma lasca no joelho. Não é preciso dizer o nome ou os nomes. Basta mostrarem o joelho. Se há lasca, é obra-prima.

Carlos Albino
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Flagrantes seitas: Cada vez mais no Algarve, arregimentando ingénuos e ingénuas, velhotes e velhotas, uns quantos beneficiários do erário público andam pelos campos, fazem ficheiros nas cidades e vilas, servem-se da liberdade de crença quando tudo isso não passa da liberdade da trapalhice, do embuste e do engano. No fundo, sabem que a Sociedade está indefesa.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

SMS 618Quanto aos Excelentíssimos Senhores


11 junho 2015


Se em vez de uma Cantata da Paz, como escreveu, Sophia de Mello Breyner redigisse hoje uma Cantata dos Deputados, voltaria a usar as mesmíssimas palavras iniciais do poema de outrora: Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar… E o que é que o eleitor comum vê, ouve e lê? O eleitor vê que os partidos têm o dever e a obrigação de não condicionarem a democracia com a proposta de maus deputados (maus por impreparação, afetação a interesses difusos ou inconsciência militante da representação que lhes é depositada); o eleitor ouve que oitenta por cento dos que já foram deputados não passaram do turismo parlamentar, do voto de ginástica rítmica em função do medo de se atrasarem na “carreira política” e do uso de binóculos para verem o Algarve ao longe no dia seguinte à tomada de posse; e, finalmente, o eleitor não pode ignorar que não pode votar a sério se o círculo onde vota não fica com deputados também a sério. Ou seja: deputados que reportem no Parlamento os anseios gerais da Região e os problemas de primeira grandeza que fraturam a Sociedade Algarvia, reclamando soluções pelos meios que lhes são próprios. Fazerem isso, não é um incómodo, é o seu dever, estejam as suas simpatias no governo ou na oposição, pelo que a “alternância do poder ” em nada justifica a “alternância da apatia” dos que se revezam. O eleitor algarvio, muito particularmente no recorte da representação parlamentar do País, tem visto, tem ouvido, tem lido e não pode ignorar que o seu Círculo a coincidir com a sua postergada Região, nestes já eternos quarenta anos de eleições, apenas tem saído prejudicada com a também já enorme fila de apáticos, muitos dos quais discursaram muito mas não fizeram nada. E enquanto não houver Região, sem deputados a sério, também não haverá lideranças mobilizadoras, aceitáveis, credíveis e sobretudo respeitáveis. Será, por certo, uma Região de Excelentíssimos Senhores mas que falarão sozinhos cada vez mais.

E como nisto se intromete a questão das quotas, já aqui se falou das mulheres, falemos agora dos homens. Os partidos até agora considerados “pequenos”, a que se juntam os “novos”, podem escolher homens à vontade para os primeiros ou últimos lugares, que pouco se alterarão os resultados expectáveis – mais coisa para este, menos coisa para aquele. Para os chamados “grandes”, o caso mais bicudo será o do PSD e sua carruagem atrelada (outra quota). Com a saída de José Mendes Bota, perdeu sem dúvida um peso-pesado, ficando com plumas. Poderá resolver a questão com um independente, mas um independente, por mais qualidade e currículo que tenha, a pouco tempo político já das eleições, será como aquele caso do sacristão católico de velha cepa que de um momento para o outro se transfere para bispo da igreja universal – perde-se um excelente sacristão, ganha-se um bispo com tiques de sacristia. Haverá outra solução: alguém de fora do Algarve. Claro que haverá bastantes para esse papel de D. Sebastião ou de… Filipe, que o eleitor já viu, já ouviu, já leu e não poderá ignorar o resultado eleitoral da esterilidade do cardeal D. Henrique.

Quanto ao outro “grande”, é bem possível que poucos ousem dizer em voz alta ou em letra de forma sobre o PS, a coisa mais errada deste mundo, erro imperdoável que é este: o PS, nesta sua travessia do deserto, não soube capitalizar valores para uma liderança sólida e sobretudo com argumentário para a região. Mas o seu problema é menos bicudo, se conseguir alinhar gente nova com programa, com ideias, com as virtudes e pelúcias do projeto, e sem os espinhos do carreirismo, ou do aparelhismo fundamentalista que determina e condiciona aquelas jihads internas de que apenas resulta abstenção ou dissensão. O eleitor desta área já viu o suficiente, já ouviu o quanto basta, já leu o essencial e não pode ignorar o fundamental - o PS não terá problema bicudo se, como agora se diz por todos os cantos, “mudar de paradigma”. E não é preciso trocar mais por miúdos.

Carlos Albino
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Flagrante verdade de Monchique: ”Adeus Algarve que vou para Faro” .

quinta-feira, 4 de junho de 2015

SMS 617Listas para as Legislativas

 junho 2015

Ninguém espera ou exigirá que, na premência do calendário para as legislativas, cada partido abra o seu jogo ao público em geral, porque é já uma tradição (má tradição…) que o jogo irreversivelmente caia do céu como facto consumado, ainda que as listas estejam longe de ser dádivas divinas. Com a abstenção, o desinteresse, se não até o achincalhamento do “sistema”, a isso se responde lamentavelmente. E dentro das fronteiras de cada partido acontece o mesmo, com os militantes a afastarem-se emagrecendo os ficheiros reais, a distanciarem-se com a participação a ganhar diabetes tipo II, e a colocarem-se por auto-defesa numa posição de reserva, ou seja atrás do biombo.

Para a eleição de deputados que aí se aproxima, pela primeira vez de forma incontornável, o assunto, além da escolha de nomes, é também o da escolha de homens e mulheres para os lugares chamados “elegíveis”. E se, quanto a homens não há muito por onde escolher pelos padrões da excelência que a representatividade aconselha e exige, quanto a mulheres, o assunto é mais difícil não porque as mulheres não existam e até bastantes a corresponderem aos padrões, mas porque os partidos pouco ou nada fizeram para as colocarem no cenário da afirmação pública, como actrizes políticas de confiança. Uma ou outra foi aparecendo mas como figuras secundárias, peças de decoração e ajudas contidas para a movimentação do palco.

Pela doutrina dos factos, no caso do Algarve, o PCP na sua coligação tradicional, o Bloco e cada um cada um dos novos partidos que pela primeira vez se apresentam, a escolha de mulheres e homens está facilitada: podem escolher seja quem for, mesmo desconhecidos e desconhecidas, que a chancela é suficiente e não altera resultados expectáveis. Já nos casos do PSD e do PS, o assunto é diferente: seja quem for, homem ou mulher que entre para os lugares “elegíveis”, esse ou essa fica desde a primeira hora da escolha, submetida ao escrutínio do lume lento do boletim pré-eleitoral… E será um risco dizer ou pensar em voz alta que o assunto é pior para o PS que para o PSD – este, em função do seu eleitorado, até pode falhar e ninguém dará por isso, aquele não. Se falhar ou cometer erros de casting, todos, de fora e de dentro, lhe cairão em cima.

Quanto às mulheres elegíveis, algumas cometeram já erros insanáveis, sobretudo as que afirmaram os seus nomes quase exclusivamente por via do chamado aparelhismo. Ostracizadas, penalizadas no curriculum pelas convulsões internas, ou não tendo beneficiado do exercício funcional e visível da política (o carisma é coisa que tem prazo, como nos iogurtes…), algumas andaram todos estes anos de braços cruzados, sem discurso, sem trabalho no terreno e perdendo até excelentes oportunidades de dizerem ao eleitorado – “Aqui estou, penso assim, tenho uma ideia, um projeto, um plano, e digo isto com a minha voz, com a minha sensibilidade, para que me reconheçam, independentemente do timbre, da escala e do tom”. Assim sendo, o PS, mais do que o PSD, quanto a mulheres (cremos que escassos dois lugares) o PS apenas tem uma escapatória: escolher alguém pela competência comprovada, e mais alguém pela efetiva juventude sobreposta a reconhecida habilitação que justifique a aposta, e não pela adolescência tardia que é o espelho da senilidade precoce que afeta muita carreira tida como madura.

Quanto aos homens elegíveis, um caso mais bicudo para o PSD do que para o PS, fica para a semana, a SMS 618, longa vida já.

Carlos Albino
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Flagrante abundância: Tertúlias… Só que tertúlia não é nem deve ser uma mini-conferência. Com mini-conferências viveremos acima das nossas possibilidades.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

SMS 616Uma guerra de 50 anos

28 maio 2015

Há uma guerra que o Algarve trava vai para meio século – a guerra da sustentabilidade. Ouvimos e lemos as advertências de Gomes Guerreiro sobre esse caso, ouvimos muito discurso no Parlamento embora, na maioria dos casos, sem grande convicção dos oradores e também sem grandes consequências, e também ouvimos e continuamos a ouvir decisores regionais a falar da sustentabilidade, com maior acento nas fases em que haja dinheiro ou perspetiva de dinheiro para distribuir ou para lotear em função de simpatias. Também nas promessas eleitorais e nos programas redigidos para captar o voto, o adjetivo sustentável tem sido e é amplamente usado como arma que define o atirador. É de admitir que muita gente até fala de sustentabilidade sem saber o que isso implica, significa e exige, de tal maneira que aquilo que é manifestamente insustentável, por exemplo no turismo e atividades conexas, é apresentado como contributo para a sustentabilidade… Raramente se fala e discorre com seriedade e fundamento sobre essa guerra que há muito devia estar ganha mas não está, e longe está, muito longe está de ser ganha. Alguns teimosos não vão atrás dos mais pessimistas, mas cada vez custa menos admitir que essa guerra está perdida.

Daí que, para alimentar algum otimismo, se deva atribuir elevada importância ao documento elaborado pela Ordem dos Economistas/Algarve - “Linhas Orientadoras de Um Modelo Económico Regional”. Linhas que devem ser lidas nomeadamente nas entrelinhas, onde se descobrem as mesmas advertências feitas há décadas por Gomes Guerreiro e por uns tantos rezingões que, desinteressadamente da política e dos lóbis das negociatas circunstanciais, amiúde chamaram a atenção para a falta de sustentabilidade e para as consequências nefastas para o Algarve que dessa falta adviriam. Mas, para além do diagnóstico e da posologia que a Ordem dos Economistas/Algarve colocou sustentavelmente nas mãos de quem queira pensar, houve duas breves intervenções na apresentação desse documento que deveriam constar em dois outdoors, um à entrada e outro à saída do Algarve – as intervenções de Francisco Murteira Nabo e de Paulo Neves. Mais ou menos, Murteira Nabo referiu-se à tragédia que será para o Algarve a falta de uma “estratégia conceptual”, e também mais ou menos, Paulo Neves lançou um alerta que apenas se pode e deve colocar em letra de forma, na presença dos responsáveis pelo turismo e decisores conexos do Algarve. Alguns destes, parece que ainda não entenderam uma guerra de há 50 anos.

Carlos Albino
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Flagrante atalho: Em vez de se andar às curvas, porque é que não vão diretamente à questão, criando a nova Província do Sul com dois distritos (Évora e Beja) e um balcão de vendas, outrora o distrito de Faro?