quinta-feira, 25 de junho de 2015

SMS 620. Sem deputados a sério, isto não vai


25 junho 2015

Mais do que nunca, o Algarve precisa de deputados a sério: competentes, probos (não tanto à lei da bala mas fora da lei da selva), interventivos, conhecedores da Região (nas suas contradições e complicações), conhecidos minimamente por provas dadas e não pelo número de chapeladas, aptos a questionarem o governo com fundamento, capazes de redigirem uma intervenção de fundo sem recurso ao Google, à Wikipedia ou à colagem de prosa caída no domínio público, com estofo para a iniciativa legislativa. Precisa de deputados que não usem e abusem do facto de, uma vez eleitos, representarem “todo o País” e não apenas o círculo de Faro por onde são sufragados, como pretexto para se isentarem ou mesmo se ausentarem politicamente do Algarve, encolhendo os ombros. Precisa de deputados influentes que se imponham pela assertividade, cultura e estatura, ou que, pela ação, ganhem influência, consideração e respeito, mesmo que partam do zero. O Algarve precisa de deputados que tenham voz e não apenas garganta. Deputados que nos dias destinados pelo regimento da Assembleia da República aos “contactos com os eleitores”, contactem a sério os eleitores e não apenas os vizinhos do beco.  Portanto, deputados com o bilhete de identidade à antiga ou com o cartão de cidadão à moderna. O Algarve precisa de deputados a sério, e sem isto, isso não vai.

Todos os partidos têm esse dever de apresentarem no Algarve candidatos a sério a deputados a sério. Neste quase final de junho, o lembrete vem a tempo e será, por aqui, o último. É lícito que todos em concreto se julguem candidatos a sério, e legítimo também é que os partidos acreditem que aqueles que escolhem venham a ser, no vago, deputados a sério. Só que o comportamento do eleitor, melhor, da massa anónima dos eleitores, está no epicentro da chamada “sabedoria popular” e esta, em boa parte, já está escaldada. É tarde para “primárias” envolvendo as enormíssimas áreas dos simpatizantes que cada partido poderia pôr à prova, pelo que a minoria filtrada dos militantes cuja filtragem resulta nos “aparelhos”, tem quase o dever da infabilidade que é coisa que só os Papas tinham até há pouco tempo, designadamente dois ou três papas que o Algarve conheceu. Posto isto, nada mais se dirá aqui sobre o assunto até à vitória final de uns e à derrota fatal de outros. Não culpem os eleitores, não culpem os Algarvios que consomem os seus dias no “círculo” e não em “todo o País”…

Carlos Albino
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Flagrante reinado: O número um da CCDR arrisca-se a ser o primeiro rei do Algarve que nem quando foi reino teve. Só falta tutelar a GNR, a PSP, a Judiciária e a Igreja Católica. As seitas não precisam de incentivos.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

SMS 619. Apetece bater-lhes com o martelo no joelho...


16 junho 2015


Está o Algarve cheio de estátuas de Moisés, acredite-se ou não. Nos municípios, nas freguesias, nas direções, delegações e entidades regionais, nas travessas e becos camarários, bem vistas as coisas, descobre-se sempre por aí um Moisés (masculino/feminino), nem que seja fechado num armário e não tão raramente quanto pareça, um Moisés sentado à secretária a telefonar ou a despachar. Uma estátua tão ou mais perfeita como a que Miguel Ângelo esculpiu para o túmulo do papa Júlio II. Quem já tentou contar os Moisés do Algarve, ficou sem saber se serão 42 ou mesmo 67, mas figuras dessas são bastantes, e, além disso, genialmente esculpidas. A perfeição é tal que, cada estátua, para não se descompor, permanece imóvel. Não respondem a nada, não recebem ninguém, e quando fingem receber não é isso que fazem mas apenas dispensar a sua beleza estática a quem desfila e reverencia. E, por um elevado sentido de sobrevivência, cada Moisés admite com muita humildade que apenas é obra-prima no território onde está, território esse que, aliás, trata como um túmulo. O Moisés do túmulo ao lado, é outro Moisés, e cada um que trate apenas de si. Ainda não há, portanto, um Moisés de todo o Algarve, mas sim dezenas de tais obras-primas espalhadas no Algarve retalhado, e que assim é um verdadeiro museu vivo com aspeto de cemitério de estátuas. Cada um dos nossos estimadíssimos Moisés julga-se detentor das tábuas da lei, mas, à cautela, não o diz em voz alta, nem sequer para cada tribo nómada que os segue, tribos tais que, até meio do mandato, cumprem metade dos mandamentos, a partir da metade apenas o quinto (não matarás), e, três meses antes do final, nem este. Ou seja, tais tribos servem para queimar as sarças no terreno por onde cada Moisés, à falta de palavra e de ideia para alguma palavra, irá passar silencioso mas sorrindo majestaticamente, pedregulho vulgar em qualquer pedreira mas obra-prima na galeria virtual em que qualquer poder, seja qual for o patamar, se converteu. E caso se dirija a qualquer destes Moisés, a pergunta: “Você não fala? Não tem uma palavra a dizer perante o que acontece no Algarve, além dos festivais?”, a resposta é nada ou nim.

É sabido que Miguel Ângelo após esculpir a estátua de Moisés, passou por um momento de alucinação diante da beleza da escultura e bateu com o martelo no joelho da figura, gritando: “Por que não falas? Perchè non parli?”  Claro que a estátua nada respondeu mas, segundo se acredita, nela ficou, até hoje a marca do martelo no joelho – uma lasca.

Se repararem bem, os Moisés do Algarve são os que têm uma lasca no joelho. Não é preciso dizer o nome ou os nomes. Basta mostrarem o joelho. Se há lasca, é obra-prima.

Carlos Albino
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Flagrantes seitas: Cada vez mais no Algarve, arregimentando ingénuos e ingénuas, velhotes e velhotas, uns quantos beneficiários do erário público andam pelos campos, fazem ficheiros nas cidades e vilas, servem-se da liberdade de crença quando tudo isso não passa da liberdade da trapalhice, do embuste e do engano. No fundo, sabem que a Sociedade está indefesa.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

SMS 618Quanto aos Excelentíssimos Senhores


11 junho 2015


Se em vez de uma Cantata da Paz, como escreveu, Sophia de Mello Breyner redigisse hoje uma Cantata dos Deputados, voltaria a usar as mesmíssimas palavras iniciais do poema de outrora: Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar… E o que é que o eleitor comum vê, ouve e lê? O eleitor vê que os partidos têm o dever e a obrigação de não condicionarem a democracia com a proposta de maus deputados (maus por impreparação, afetação a interesses difusos ou inconsciência militante da representação que lhes é depositada); o eleitor ouve que oitenta por cento dos que já foram deputados não passaram do turismo parlamentar, do voto de ginástica rítmica em função do medo de se atrasarem na “carreira política” e do uso de binóculos para verem o Algarve ao longe no dia seguinte à tomada de posse; e, finalmente, o eleitor não pode ignorar que não pode votar a sério se o círculo onde vota não fica com deputados também a sério. Ou seja: deputados que reportem no Parlamento os anseios gerais da Região e os problemas de primeira grandeza que fraturam a Sociedade Algarvia, reclamando soluções pelos meios que lhes são próprios. Fazerem isso, não é um incómodo, é o seu dever, estejam as suas simpatias no governo ou na oposição, pelo que a “alternância do poder ” em nada justifica a “alternância da apatia” dos que se revezam. O eleitor algarvio, muito particularmente no recorte da representação parlamentar do País, tem visto, tem ouvido, tem lido e não pode ignorar que o seu Círculo a coincidir com a sua postergada Região, nestes já eternos quarenta anos de eleições, apenas tem saído prejudicada com a também já enorme fila de apáticos, muitos dos quais discursaram muito mas não fizeram nada. E enquanto não houver Região, sem deputados a sério, também não haverá lideranças mobilizadoras, aceitáveis, credíveis e sobretudo respeitáveis. Será, por certo, uma Região de Excelentíssimos Senhores mas que falarão sozinhos cada vez mais.

E como nisto se intromete a questão das quotas, já aqui se falou das mulheres, falemos agora dos homens. Os partidos até agora considerados “pequenos”, a que se juntam os “novos”, podem escolher homens à vontade para os primeiros ou últimos lugares, que pouco se alterarão os resultados expectáveis – mais coisa para este, menos coisa para aquele. Para os chamados “grandes”, o caso mais bicudo será o do PSD e sua carruagem atrelada (outra quota). Com a saída de José Mendes Bota, perdeu sem dúvida um peso-pesado, ficando com plumas. Poderá resolver a questão com um independente, mas um independente, por mais qualidade e currículo que tenha, a pouco tempo político já das eleições, será como aquele caso do sacristão católico de velha cepa que de um momento para o outro se transfere para bispo da igreja universal – perde-se um excelente sacristão, ganha-se um bispo com tiques de sacristia. Haverá outra solução: alguém de fora do Algarve. Claro que haverá bastantes para esse papel de D. Sebastião ou de… Filipe, que o eleitor já viu, já ouviu, já leu e não poderá ignorar o resultado eleitoral da esterilidade do cardeal D. Henrique.

Quanto ao outro “grande”, é bem possível que poucos ousem dizer em voz alta ou em letra de forma sobre o PS, a coisa mais errada deste mundo, erro imperdoável que é este: o PS, nesta sua travessia do deserto, não soube capitalizar valores para uma liderança sólida e sobretudo com argumentário para a região. Mas o seu problema é menos bicudo, se conseguir alinhar gente nova com programa, com ideias, com as virtudes e pelúcias do projeto, e sem os espinhos do carreirismo, ou do aparelhismo fundamentalista que determina e condiciona aquelas jihads internas de que apenas resulta abstenção ou dissensão. O eleitor desta área já viu o suficiente, já ouviu o quanto basta, já leu o essencial e não pode ignorar o fundamental - o PS não terá problema bicudo se, como agora se diz por todos os cantos, “mudar de paradigma”. E não é preciso trocar mais por miúdos.

Carlos Albino
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Flagrante verdade de Monchique: ”Adeus Algarve que vou para Faro” .

quinta-feira, 4 de junho de 2015

SMS 617Listas para as Legislativas

 junho 2015

Ninguém espera ou exigirá que, na premência do calendário para as legislativas, cada partido abra o seu jogo ao público em geral, porque é já uma tradição (má tradição…) que o jogo irreversivelmente caia do céu como facto consumado, ainda que as listas estejam longe de ser dádivas divinas. Com a abstenção, o desinteresse, se não até o achincalhamento do “sistema”, a isso se responde lamentavelmente. E dentro das fronteiras de cada partido acontece o mesmo, com os militantes a afastarem-se emagrecendo os ficheiros reais, a distanciarem-se com a participação a ganhar diabetes tipo II, e a colocarem-se por auto-defesa numa posição de reserva, ou seja atrás do biombo.

Para a eleição de deputados que aí se aproxima, pela primeira vez de forma incontornável, o assunto, além da escolha de nomes, é também o da escolha de homens e mulheres para os lugares chamados “elegíveis”. E se, quanto a homens não há muito por onde escolher pelos padrões da excelência que a representatividade aconselha e exige, quanto a mulheres, o assunto é mais difícil não porque as mulheres não existam e até bastantes a corresponderem aos padrões, mas porque os partidos pouco ou nada fizeram para as colocarem no cenário da afirmação pública, como actrizes políticas de confiança. Uma ou outra foi aparecendo mas como figuras secundárias, peças de decoração e ajudas contidas para a movimentação do palco.

Pela doutrina dos factos, no caso do Algarve, o PCP na sua coligação tradicional, o Bloco e cada um cada um dos novos partidos que pela primeira vez se apresentam, a escolha de mulheres e homens está facilitada: podem escolher seja quem for, mesmo desconhecidos e desconhecidas, que a chancela é suficiente e não altera resultados expectáveis. Já nos casos do PSD e do PS, o assunto é diferente: seja quem for, homem ou mulher que entre para os lugares “elegíveis”, esse ou essa fica desde a primeira hora da escolha, submetida ao escrutínio do lume lento do boletim pré-eleitoral… E será um risco dizer ou pensar em voz alta que o assunto é pior para o PS que para o PSD – este, em função do seu eleitorado, até pode falhar e ninguém dará por isso, aquele não. Se falhar ou cometer erros de casting, todos, de fora e de dentro, lhe cairão em cima.

Quanto às mulheres elegíveis, algumas cometeram já erros insanáveis, sobretudo as que afirmaram os seus nomes quase exclusivamente por via do chamado aparelhismo. Ostracizadas, penalizadas no curriculum pelas convulsões internas, ou não tendo beneficiado do exercício funcional e visível da política (o carisma é coisa que tem prazo, como nos iogurtes…), algumas andaram todos estes anos de braços cruzados, sem discurso, sem trabalho no terreno e perdendo até excelentes oportunidades de dizerem ao eleitorado – “Aqui estou, penso assim, tenho uma ideia, um projeto, um plano, e digo isto com a minha voz, com a minha sensibilidade, para que me reconheçam, independentemente do timbre, da escala e do tom”. Assim sendo, o PS, mais do que o PSD, quanto a mulheres (cremos que escassos dois lugares) o PS apenas tem uma escapatória: escolher alguém pela competência comprovada, e mais alguém pela efetiva juventude sobreposta a reconhecida habilitação que justifique a aposta, e não pela adolescência tardia que é o espelho da senilidade precoce que afeta muita carreira tida como madura.

Quanto aos homens elegíveis, um caso mais bicudo para o PSD do que para o PS, fica para a semana, a SMS 618, longa vida já.

Carlos Albino
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Flagrante abundância: Tertúlias… Só que tertúlia não é nem deve ser uma mini-conferência. Com mini-conferências viveremos acima das nossas possibilidades.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

SMS 616Uma guerra de 50 anos

28 maio 2015

Há uma guerra que o Algarve trava vai para meio século – a guerra da sustentabilidade. Ouvimos e lemos as advertências de Gomes Guerreiro sobre esse caso, ouvimos muito discurso no Parlamento embora, na maioria dos casos, sem grande convicção dos oradores e também sem grandes consequências, e também ouvimos e continuamos a ouvir decisores regionais a falar da sustentabilidade, com maior acento nas fases em que haja dinheiro ou perspetiva de dinheiro para distribuir ou para lotear em função de simpatias. Também nas promessas eleitorais e nos programas redigidos para captar o voto, o adjetivo sustentável tem sido e é amplamente usado como arma que define o atirador. É de admitir que muita gente até fala de sustentabilidade sem saber o que isso implica, significa e exige, de tal maneira que aquilo que é manifestamente insustentável, por exemplo no turismo e atividades conexas, é apresentado como contributo para a sustentabilidade… Raramente se fala e discorre com seriedade e fundamento sobre essa guerra que há muito devia estar ganha mas não está, e longe está, muito longe está de ser ganha. Alguns teimosos não vão atrás dos mais pessimistas, mas cada vez custa menos admitir que essa guerra está perdida.

Daí que, para alimentar algum otimismo, se deva atribuir elevada importância ao documento elaborado pela Ordem dos Economistas/Algarve - “Linhas Orientadoras de Um Modelo Económico Regional”. Linhas que devem ser lidas nomeadamente nas entrelinhas, onde se descobrem as mesmas advertências feitas há décadas por Gomes Guerreiro e por uns tantos rezingões que, desinteressadamente da política e dos lóbis das negociatas circunstanciais, amiúde chamaram a atenção para a falta de sustentabilidade e para as consequências nefastas para o Algarve que dessa falta adviriam. Mas, para além do diagnóstico e da posologia que a Ordem dos Economistas/Algarve colocou sustentavelmente nas mãos de quem queira pensar, houve duas breves intervenções na apresentação desse documento que deveriam constar em dois outdoors, um à entrada e outro à saída do Algarve – as intervenções de Francisco Murteira Nabo e de Paulo Neves. Mais ou menos, Murteira Nabo referiu-se à tragédia que será para o Algarve a falta de uma “estratégia conceptual”, e também mais ou menos, Paulo Neves lançou um alerta que apenas se pode e deve colocar em letra de forma, na presença dos responsáveis pelo turismo e decisores conexos do Algarve. Alguns destes, parece que ainda não entenderam uma guerra de há 50 anos.

Carlos Albino
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Flagrante atalho: Em vez de se andar às curvas, porque é que não vão diretamente à questão, criando a nova Província do Sul com dois distritos (Évora e Beja) e um balcão de vendas, outrora o distrito de Faro?

quinta-feira, 21 de maio de 2015

SMS 615. Pedro Jóia, como o tempo passa e bem

21 maio 2015

Os seus dedos são de oiro fino, a sua música faz da península uma guitarra de prata, o sentimento que expressa, faz de Portugal, ao mesmo tempo, uma lembrança e uma premonição de bronze. É Pedro Jóia que, neste sábado, sobe ao palco do Cine-Teatro Louletano. E já lá vão vinte anos que estes mesmos dedos de oiro fino, guitarra de prata e sonho ou pesadelo de bronze, se estrearam numa apresentação pública perante aquilo que então era e se podia dizer “o estado-maior” dos jornalistas profissionais do ou no Algarve. Tudo aconteceu numa boa sala de Vilamoura. Ninguém tinha ouvido falar de Pedro Jóia e alguém que sabia que ali estava oiro, prata e bronze ousou dizer mais ou menos estas palavras: “E agora, terminado o debate, caros colegas, uma surpresa – vamos ouvir um jovem que daqui a dez, vinte anos, será oiro da música portuguesa, prata dos nossos sentimentos e bronze na larga praça da nossa convivência. Pedro Jóia, toque!”

Assim fez e encantou.

Passados vinte anos, regressa ao concelho de Loulé sem serem necessárias mais provas de que a profecia se realizou. Ele tem o condão de agarrar na guitarra como se um deus fugitivo a agarrar num pequeno asteróide, e o som que dali sai desafia os astros, a alma que dali emana atinge a proporção de constelações, o milagre que produz é daqueles que só a Música pode concretizar e faz com que qualquer ser humano, do mais bruto ao mais culto, sinta a prova definitiva de que o espírito existe e que o “estado de espírito” não deveria durar apenas um instante.

Jóia não corresponde à última palavra do seu nome. No início dos anos noventa, quando o ainda aluno de Belas Artes teve de criar o seu nome artístico, o então jovem guitarrista foi buscar essa palavra intermédia do seu nome pedindo desculpa ao último. Felizmente que o fez. Jóia transformar-se-ia ao longo dos anos seguintes, no símbolo do seu trabalho artístico. Andou pelas cidades, concertos, discos... Mas os anos noventa foram ontem. Curiosamente, pode ler-se agora, nas suas biografias, referência à sua longa carreira. Já longa carreira? Parece ter sido ontem que Pedro Jóia teimou em ser artista da Música e não das Artes Visuais. Só que pouco importa o tempo. Falemos antes do lugar. É que, já agora, talvez seja bom recordar que Pedro Jóia estreou-se para o grande público, no Algarve, mais concretamente, em Loulé. Ainda bem que o tempo passou e que os crédulos no seu virtuosismo não se enganaram.

Carlos Albino
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Flagrante contributo para pôr fim à desordem: A Ordem dos Economistas/Algarve, apresentou ontem (dia 20) a sua proposta de  Linhas Orientadoras do Modelo Económico Regional do Algarve, e assinou um protocolo de cooperação com a Faculdade de Economia da Universidade do Algarve. As associações públicas, no caso a Ordem dos Economistas, têm um indeclinável compromisso com a sociedade e não apenas a defesa de interesses corporativos legítimos, e é por isso que o Estado lhes delega funções próprias. A Ordem dos Economistas deu um bom pontapé de saída. E um bom exemplo a ser seguido por mais Ordens.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

SMS 614. Um “Dia do Município” muito pouco municipal

14 maio 2015

Falemos claro. A Câmara Municipal da minha terra comemora o Dia do Município (hoje, 14 de maio) e, pelo convite que me dirigiu, tem como ponto principal uma "homenagem aos militares falecidos na Guerra do Ultramar". Julgava eu que tinha havido uma Guerra Colonial, e que o ideário e a terminologia da ditadura fascista tinham perdido definitivamente essa guerra. Guerra do Ultramar foi a designação oficial portuguesa do conflito até à revolução de 25 de Abril (Guerra da Libertação, para os Estados Africanos, e Guerra de África para satisfazer a todos os que não ousavam demarcar-se).

A Câmara de Loulé, pelos vistos e como se isto fosse já Santa Comba Dão, conserva a designação oficial usada pela ditadura que, através dos seus serviços de censura, proibia a designação escrita ou dita de Guerra Colonial. Portanto, o Dia do Município da minha terra é o Dia da Guerra do Ultramar. Podia a Câmara, naturalmente, fazer uma homenagem aos Empresários Vivos do Concelho, uma homenagem aos Escritores Oriundos, aos Desempregados Meio-mortos, aos Professores Atentos, aos Médicos que Não Enriquecem Sem Justa Causa, ou até uma homenagem aos Detentores de Vistos Gold, mas Guerra do Ultramar quando o ultramar de Loulé é o do peixinho e marisco fresco de Quarteira?

Além disso, desculpem-me lá os homens vivos do Núcleo de Loulé da Liga dos Combatentes que muito respeito, o que é demais não presta, perde o sentido e é uma inútil volta à parada a toque de caixa húmida e cornetim entupido, até porque falecidos não diz bem o que aconteceu – há mortos, matados e morridos. Os militares falecidos seja onde for, apenas se homenageiam com a Verdade, e não com aquelas nostalgias que são um cancro em estado terminal ou com aquele ânimo leve que é a hepatite C da política. Está longe de ser homenagem aos falecidos, servirmo-nos deles para levar a água ao moinho, independentemente de terem sido mortos, matados ou morridos.

Carlos Albino
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Flagrante insistência: Já o disse ao presidente da Câmara e ao presidente do Núcleo de Loulé da Liga dos Combatentes, vai para um ano e sem pronta correção até hoje, que, num bizarro e patético “monumento” aos combatentes, mais bizarro ainda se ousarem colocar soldados com metralhadoras como se isto fosse o Irão, a frase lá colocada e declaradamente extraída de “Os Lusíadas” é um absoluto desrespeito por Camões. Está lá escrito: “Ditosa a Pátria que tais filhos tem”, com o nome do Poeta Nacional a subscrever. Ora o que Camões redigiu no Canto VIII, estrofe 32, 5.º verso, foi: "Ditosa Pátria que tal filho teve!", referindo-se a Nuno Álvares Pereira e ponto final. Será exigir-se muito ou demais que a arquitetura da câmara ou o presidente do núcleo reescrevam “Os Lusíadas” ou corrijam Camões por alguma conveniência que faça da Pátria uma desditosa. Além disso, quem cometeu essa calinada monumental, se for ao concurso da Manuela Moura Guedes, perde.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

SMS 613. Como te recordo, Teixeira Gomes…

7 maio 2015

O nosso Teixeira Gomes, como se sabe, cultivou uma ideia helénica do Algarve. Em páginas ou passagens apuradas, ou ele não fosse um dos maiores estilistas da língua portuguesa, deixou-nos a ideia de um mar grego, rochas gregas, praias gregas, rostos e corpos gregos. Apenas não referiu a existência de cidades-estado porque, também, no seu tempo, Portimão não era Esparta, Faro não era Atenas, Tavira muito longe de ser Tebas, e Loulé ainda mais longe de ser Tróia embora fosse a Turquia do Algarve. Sem cidades-estado à vista, Teixeira Gomes construiu um Algarve lendário e tudo o que a realidade apresentasse como mau exemplo de civilização e de cultura, isso estava ao nível das ruínas, ainda assim belas ruínas para reforçar romanticamente a última zona da terra ainda povoada de heróis, deuses, ninfas, com sibilas e seus maridos, para não falar de algum Menelau em Olhão, algum Agamemnon em Albufeira, um Heitor em Monchique, Acrísio em Alcoutim, Teseu em Castro Marim, Príamo em Lagos, Aquiles em Lagoa, Jasão em Vila Real, um Estentor na RTA, um Belerofonte na CCDR, algum Odisseu em Aljezur, certo Academo na UALG, imaginem, um Ájax em São Brás, e qual Leonteu em Loulé, Neoptólemo em Tavira, Páris em Portimão, Pátroclo na AMAL, Protesilau em Vila do Bispo, um inesperado Sufax em Faro, e, muito embora a frase vá longuíssima, ainda cabe um Astíanax em Quarteira numa homenagem aos mega-aldeamentos turísticos cheios de gregos, às empresas municipais cheias de troianos e aos majestosos hotéis cheios de cavalos de madeira low cost.

Todo este mundo helénico que Teixeira Gomes não conheceu nem anteviu, permitiu-lhe ver no Algarve, a Grécia Antiga que modelou a Europa. Hoje ser-lhe-ia difícil sustentar a lenda, embora o céu continue azul, as praias estejam cheias de deusas desembarcadas, e o mar seja um mediterrâneo um bocadinho maior do que aquele que Ulisses atravessou mas permitindo que cada cidade-estado tenha o seu mar Egeu sem as mil ilhas – Faro e Olhão ainda têm algumas mas não chega, sobretudo com as demolições.

Estamos, portanto, com as nossas cidades-estado cheias de heróis, de deuses e até de guerreiros, com um brutal senão: sem cultura, mesmo a clássica. Muita animação de heróis, muito espetáculo de deuses e até muita gritaria eufórica de guerreiros, mas sem cultura, na definição clássica. Numa Grécia destas, em algum ano próximo, até Agosto deixa de ser Azul.

Carlos Albino
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Flagrante condecoração: A Polónia, dia 12 de Maio no Palácio Foz, por intermédio do seu Embaixador em Portugal, Prof. Bronisław Misztal, confere a José Mendes Bota a Cruz de Cavaleiro da Ordem de Mérito da República da Polónia. Mais um louletano distinguido, no caso, por factos, independentemente dos argumentos. 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

SMS 612. Dieta mediterrânica…

30  abril 2015

Não é a essa que nos referimos. Essa é milenar, comestível, companheira do espírito e que bem justifica o brinde de uns à saúde dos outros. Referimo-nos a outra dieta, não menos mediterrânica mas intragável, a que destrói instituições, arrasa ideias de progresso, mina a convivência, faz quebrar compromissos e parte a espinha da esperança.

Essa horrível dieta é aquela com que tantos se alimentam quando transformam o poder (qualquer poder) em coisa da sua propriedade privada. Conquistam o poder em nome do serviço pela causa pública, ou são nomeados para servir a mesma causa pública, mas a tal dieta mediterrânica, a breve prazo, não lhes disfarça os efeitos perversos.

Não sendo autistas, fingem-se autistas por conveniência, num fingimento a que a sabedoria popular costuma designar por manha; não se lhes reconhecendo no passado mérito de jogadores, jogam; tendo ganho a confiança geral do voto ou a deputação do chefe, desconfiam de quem julgam que lhes estraga o apetite; os seus quintais cheios de roseiras entre duas palmeiras com ninhos de passarinhos, são uma espécie de estados islâmicos onde decapitam a crítica que foge à dieta, executam o reparo que fira o culto pessoal, apedrejam quem lhes observe que, em política, o verbo “eu” não é conjugável nem é verbo, e redigem, para cima e para o lado, o índex com os nomes dos que querem mandar para baixo, e mandam mesmo.

Tudo pela calada, como mandam as boas dietas. E, além disso, os que seguem esta dieta, estão conscientes de que numa sociedade sem bases de anonimato social, os seus nomes permanecerão, por isso mesmo, anónimos e tanto mais anónimos quanto mais na província a avaliação nutricional é feita. Por isso, os bons seguidores da dieta gostam da província profunda e recôndita.

Mas os efeitos notam-se, saltam à vista e por isso aí vemos, nos serviços públicos, estatais e municipais, verdadeiras legiões de gente proletarizada, com lassidão dos pés à cabeça, cumprindo estritamente o obrigatório, com cortesia se o chefe obriga mesmo que não saibam redigir uma carta, com lhaneza se o chefe determina mesmo que o atendimento qualificado de um telefonema lhes cause cansaço cerebral. Se o chefe confunde animação com cultura, é uma animação constante; se o chefe confunde património com matrimónio, é um casamento contínuo; se o chefe é um néscio embora com bons fatos, então, está na mão.

Mero apontamento, por hoje, observando por aí tanta obesidade política e mediterrânica.

Carlos Albino
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Flagrante prova dos nove: Naturalmente que aqueles que lutaram sempre, lutam e lutarão contra a corrupção, geram anti-corpos… E um anti-corpo, apesar das provas da sua existência, nunca se vê e raramente se dá a ver.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

SMS 611. O livro, essa fita métrica da sociedade

23 abril 2015

Feliz coincidência com o dia deste apontamento, hoje é o Dia Mundial do Livro. E com este dia, além dos leitores, estão comprometidas diretamente as instituições que com o livro têm ou deviam ter um pacto íntimo: escolas, bibliotecas públicas e associações que não sejam subsidiodependentes.  Pacto com o livro portador de arte, de ciência, de pensamento e de excelência. E quem diz, pacto com o livro, diz pacto com os seus autores, e com os seus críticos também de excelência. Dir-me-ão que a “excelência” ou a qualidade, são conceitos relativos. Pois são relativos, mas tais conceitos são facilmente reconhecíveis à distância, tal como à distância se distingue um pedregulho de um grão, seja este grão de oiro, de prata ou de bronze…

Mas enquanto as escolas ainda têm, felizmente, mecanismos de escrutínio interno (um grande disparate dificilmente aí se repete), já algumas bibliotecas públicas, lamentavelmente, parece que agem isentas ou isentam-se de escrutínio, não conseguindo conviver com a observação crítica e prosseguindo uma eterna festa infantil e, nos intervalos, promovendo confraternizações de amigos bem encadernados. Claro que não são todas – há bibliotecas, poucas mas há, que, por exemplo no Algarve, têm programação cuidada e rigorosa, cumprindo a missão de promover a leitura, aproximando autores a sério dos leitores que também lêem a sério. Não entram nos esquemas da papelada com o embuste da auto-ajuda, do exoterismo, da prosa com a chamada pornografia espontânea que está longe de ser erotismo, e desse amontoado supostamente poético que o erário público candidamente subsidia mas que não passa de manifestação serôdia de frustrações ou de temporão exercício de narcisismo frente ao espelho.

E, as bibliotecas públicas, ao lado das escolas, têm uma missão naturalmente pública e que não se compadece com a proletarização dos seus responsáveis. Num país que é dos mais retrógrados da Europa em matéria de leitura, como os índices comprovam, e numa região que nessa matéria está na cauda do País , como o fecho geral das livrarias igualmente comprova, as bibliotecas públicas não podem nem devem abdicar dessa missão, mesmo que à custa da “programação cultural", politicamente imposta pelos poderes locais, onde tudo conta para contabilizar votos futuros, por via do populismo, dos favores, das simpatias, da condescendência ao rude. Neste aspeto da rudeza que está nos antípodas da arte e da excelência, em 40 anos de democracia – democracia esta que não existe com solidez sem democracia cultural – o Algarve já produziu umas boas centenas de toneladas de livros sem peso na balança da história e sem leitores que não vão além dos sobrinhos e primos de seus autores, contra uns poucos quilos de livros com dignidade e qualidade para figurarem num Dia Mundial do Livro.

O que se passa em algumas bibliotecas públicas do Algarve, é de cair para o lado. Desmotivação dos seus responsáveis? Incapacidade? Falta de meios? Em alguns casos, será até de perguntar: criancice, imaturidade? Não sei. Também não sei se em todas as bibliotecas públicas se lerá a mensagem de Irina Bokova, Diretora-Geral da UNESCO, a mesma UNESCO que instituiu este dia mundial. Aprender-se-ia muito com essa leitura, como se concluirá muito se os próprios responsáveis das bibliotecas públicas desconhecem tal mensagem.

Celebramos, por vezes orgulhosos, o Algarve e suas terras como terras e região de Autores. Mas, acabada a festa, e desarmada a igreja, verifica-se que, além dos muitos que omitiram ou trocaram Autores e Livros por devaneios,  alguns falaram deles sem os reconhecerem e muitos continuam a falar sem os lerem – nem os sobrinhos, nem os primos.

E assim, neste breve apontamento se celebra o Dia Mundial do Livro, livro que é a fita métrica da Sociedade. Diz-me o que lês, dir-te-ei o que e quem és, e também quanto medes.

Carlos Albino
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Flagrante surdez: Um democrata está surdo ou perto disso, quando lhe dizem que estará a gastar ou a usufruir dos últimos cartuchos, e não ouve. E até diz: “Nã s’nhôr! Né nada, come assim!...”

quinta-feira, 16 de abril de 2015

SMS 610. Günter Grass, obrigado

16 abril 2015

A Günter Grass, devemos dizer obrigado. Gostava da natureza e das pessoas do Algarve que considerava pacíficas. Para quem viveu a guerra e que pelas suas causas teve uma vida atribulada, é um elogio para a nossa terra. Dizia isso sem hesitações, ele, que acima da polémica que gerou por nunca querer desculpar-se e desculpar a Alemanha da catástrofe, acabou por ser a consciência moral da própria Alemanha.

Desde há muito, vinha ao Algarve duas vezes por ano, na primavera e no Outono, sempre com um manuscrito na mão – o seu próximo livro. Era aqui que lhe dava a forma final.  Obra vasta, Nobel da Literatura, tivemos como vizinho que, além do trabalho das palavras, pintou, esculpiu e escolheu Almancil para mostrar o que, rodeado pela natureza pacífica e por pessoas pacíficas, ia criando. Foi assim que nada custa dizer que Günter Grass chegou alemão algarvio e, sem alardear, fez-se algarvio alemão.

No “Tambor de Lata”, escrito em Paris, obra inicial que lhe deu logo vastíssima notoriedade internacional, Günter Grass inventou um menino que se recusou a crescer. Possivelmente, esse menino acabou por crescer na Mexilhoeira Grande, quem diria, acordando a consciência dos alemães e dando ao mundo obras que fazem estremecer as pessoas relativamente a uma reedição do poder alemão, oferecendo-se ele próprio como culpado. A sua obra foi uma obra sobre a consciência de culpa, por isso um constante aviso e uma constante advertência contra a hipocrisia e o cinismo.

Günter Grass, a partir de agora, já não voltará ao Algarve no próximo outono e na próxima primavera, com o seu manuscrito,  e para a sua pintura ou escultura. Mas o Algarve deve reviver a sua obra e fazer com que Günter Grass não desapareça, mas perdure nesta natureza pacífica e por entre estas pessoas pacíficas. Deve continuar como nosso vizinho pacífico e essa será a melhor homenagem.

Carlos Albino
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Flagrante epidemia: A falta de cortesia é já uma epidemia no Algarve, tão normal e tão aceite que se esgota nos amigos e correligionários.      

quinta-feira, 9 de abril de 2015

SMS 609. Está tudo refundado, reformado, aproximado…

9 abril 2015


Deste modesto posto de observação, não nos compete mudar o mundo, mas tanto quanto possível observar se o mundo está a mudar para pior ou para melhor. E nesta tarefa, naturalmente que há erros e acertos. De modo que é sempre um risco, continuado risco, fazer o papel de observador observado. Todavia, há factos, realidades, sentimentos gerais e constatações comuns que permitem observar à vontade, e de tal modo à vontade que até nos distraímos da possibilidade de erro. Uma dessas constatações é a da abstenção crescente nas consultas eleitorais, um dos sentimentos é o do afastamento dos partidos rotinados no poder relativamente aos cidadãos, uma das realidades é a a da escolha de candidatos a isto e àquilo depender exclusivamente dos “aparelhos” partidários muito pouco aparelhados, e o facto é o que vem à boca de que é consciente de que pode estar a errar: a “crise do sistema” que é tanto mais grave crise quanto os políticos se desacreditam nas palavras, nos atos, nas omissões e quando abrindo a boca não dão uma para a caixa.

Quando o Partido Socialista ousou escolher o seu ”candidato a primeiro-ministro”, através de uma ampla consulta aberta para além da fronteira dos seus militantes e ficheiros, fê-lo certamente como resposta ao que então corria de boca em boca: que o Estado tinha que ser refundado, que o sistema democrático tinha que ser reformado, que os partidos tinham que se abrir à participação ativa dos cidadãos (e não estes como ovelhinhas controladas no curral), e que os candidatos, para além de qualidade e excelência, deviam ter manifesto apoio da sociedade ou pelo menos sinais disso. Por aí fora. As “primárias” que levaram António Costa à corrida de 100 metros/obstáculos para primeiro-ministro, decorreram nessa crença de reforma do sistema partidário, de resto mais ou menos saudada, como se costuma dizer, nos “mais diversos quadrantes” e de tal forma que influenciou até a escolha de muitos dos candidatos autárquicos, conforme as regras de diabolização local.

E agora que estamos à beira de legislativas, com a escolha de candidatos pelos círculos? À bera de uma presidenciais que, tanto quanto a minha vida permitiu observar de circunstância em circunstância, vai ser uma das escolhas mais sérias desde Américo Tomás que não foi escolha mas AVC do sistema? E também quando já as próximas autárquicas batem à porta, determinando estratégias veladas, quer da parte dos que, recentes vencedores, estão a dobrar a metade de mandato, quer da parte dos que, frescos vencidos, distribuem comprimidos não para reforçar a memória mas para a apagar? Agora? Agora, a avaliar pelo silêncio geral, parece que o sistema está reformado, que os cidadãos participam em pleno, que está reformado tudo o que, há pouco tempo, todos aceitavam que tinha de ser reformado… Só que, nada está reformado, a participação é escassa, os discursos são do género “vira o disco e toca a mesma música”, o escrutínio público ou mesmo o simples pedido de escrutínio é diabolizado, a lealdade volta a ter como sinónimo vassalagem, avisos e advertências fundamentadas são amesquinhados e subalternizados por segredos de gabinete. Sem qualquer prévia consulta, aberta, ousada, participativa e verdadeiramente reformadora, tudo leva a crer, os próximos deputados já estão escolhidos; é muito provável que o próximo Chefe de Estado, mesmo que chefie pouco, já esteja filtrado; e que os próximos autarcas já tenham fato talhado, mesmo que o populismo distribua escassos 35 por cento, a dispersão da esperança inútil 5 por cento (ou 7) e a abstenção 60 por cento, ou perto.

Muito gostaria que este fosse um colossal erro de observação. E também um astronómico erro do observador, caso este afirme que o Algarve tem muitos líderes, líderes por todos os cantos, mas nenhuma liderança.

Carlos Albino
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Flagrante pedido: Às universidades, mais ainda à que está perto, que evite dissertações de mestrados (e até de doutoramentos) que não passam de brincadeirinhas e criancices maquilhadas de calões técnicos.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

SMS 608. Para a unidade do Algarve 


2 abril 2015

Nestes 58 anos do Jornal do Algarve, ocorre e é imperioso que se diga que o desiderato do seu fundador, José Barão, está a ser cumprido, de uma forma quase milagrosa. Desiderato que, mais do que nunca, está atual. Uma sociedade esboroa-se sem comunicação, e como na natureza, detesta o vazio. Os novos meios tecnológicos, só por si, não preenchem esse vazio, são e devem ser complementares. O Jornal do Algarve soube atempadamente perceber isso – o Algarve precisa de que o desiderato de José Barão seja prosseguido, sem anulação da concorrência, antes pelo contrário, quanto mais concorrência melhor, desde que haja um objetivo comum: a unidade do Algarve e o fortalecimento dos valores de sociedade aberta que configuram a sua identidade

Não é difícil entender que a comunicação do ou no Algarve, atravessa uma profunda crise. A atividade noticiosa depende em larguíssima medida da informação institucional dos poderes públicos, informação essa amiúde condicionada pelas vorazes agendas políticas e por interesses difusos; não tem pé na televisão; e, além das grafonolas locais que com alguma heroicidade e proporcional dependência sobrevivem, não há uma rádio regional que coloque o Algarve na agenda de informação do Pais – tem repetidores usurpando o legítimo direito das comunidades concelhias a terem voz própria, licitamente mas usurpam. À parte isto, com recurso aos novos meios tecnológicos, aí estão implantados por todos os cantos jornais online sem papel complementar ou complementares deste, não constituindo documento, arquivo, memória palpável mas também amiúde não constituindo responsabilidade expressa, designadamente a responsabilidade pública em matérias do interesse público. Diga-se, claramente e sem equívocos, que, no novo mundo virtual, há bons jornais on-line, dentro da legalidade, com propósito ético no bilhete de identidade e princípios deontológicos no cartão de cidadão. Mas, diga-se igualmente sem equívocos, que estas ilhas de bom senso e até de bom serviço público, estão rodeados por atrozes ilegalidades, havendo “redações” sem jornalistas, empresas de “informação”, contra todos os princípios, alojadas nas barrigas de aluguer de agências de publicidade quando não nas agências imobiliárias. Assim não se vai a lado nenhum e, pasme-se, há ilegalidades financiadas ou protegidas por poderes locais que, sem critério e por benefício reciprocamente servil, usam o erário público com a maior das leviandades ou distraídos pela inexistência do adequado escrutínio – somos todos vizinhos, e quanto mais próximo é o vizinho, menor o exercício de avaliação do dano público e seu autor. Se a Entidade Reguladora para Comunicação Social e a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, alguma vez, descessem ao Algarve, estamos em crer, haveria uma apreciável razia, a vários níveis.

É neste panorama que, no Algarve, as poucas empresas deveras jornalísticas (com jornais impressos, apenas online, ou mistas) sobrevivem e dão contributo para a unidade do Algarve, sobretudo as empresas que têm, prosseguem e apostam, não numa manta de retalhos de quintais mas num desiderato regional do Algarve. O Jornal do Algarve está neste caso e se há mais, que há, oxalá continue bem acompanhado. Recordo-me, era eu um adolescente, ouvir da boca de José Barão, no saudoso Café Martinho – emblema da Lisboa de outrora, que queria do seu Jornal do Algarve um “jornal provincial” e não um “jornal provinciano”. Passados 58 anos, esse seu desiderato está atual, pelo que se um abraço tem peso, um forte abraço para o atual diretor, Fernando Reis. Prossiga!

Carlos Albino
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Flagrante pergunta: Um jornal online tem obrigação de ter muito espírito, mas será sempre carne sem osso; um jornal impresso tem o dever de ter bons ossos, tendo a obrigação de não perder o espírito. O ideal é ser misto: com o espírito do online a recobrir o osso do papel. Esse será o futuro.

quinta-feira, 26 de março de 2015

SMS 607. Políticos e técnicos

26 março 2015

O mais correto seria colocar aspas nas duas palavras do título deste apontamento: “políticos” e “técnicos”. Ou então, aspas numa e noutra não. É claro que, em função daquilo a que a generalidade das autarquias chegaram, me refiro às duas classes que determinam o mapa dos corredores por onde circula quem decide, e também dos gabinetes onde são congeminadas as decisões. Os políticos são eleitos, chegam e partem como entraram, ou mais ou menos avantajados, mas um dia partem, acompanhados da corte ou por metade dela; os técnicos são nomeados, seja qual for o desvio ou atalho, não têm corte mas têm hierarquia, e o chefe, das duas uma – ou leva muito a sério a importância de não ser eleito e faz o que quer, o que lhe apetece e o que lhe interessa; ou não leva isso a sério e permite que sejam os políticos a fazerem o que lhes interessa, o que lhes apetece e o que querem. Conforme os casos, assim uns e outros merecerão dos eleitores e dos contribuintes, aspas ou não, se é que eleitores e contribuintes, já eles mesmos não sejam contribuintes entre aspas e eleitores entre comas.


É claro que há técnicos que não têm nem podem ter problemas com as aspas. Assim por exemplo, o técnico municipal que iça as bandeiras, trabalho, como se sabe altamente especializado e para o qual se exige no mínimo um mestrado. Em contraste, há outros técnicos que apenas têm problemas e estes são, de manhã até à noite, problemas com aspas. Assim, também por exemplo, engenheiros e arquitetos, que são os “técnicos” que, nas autarquias, podem colocar aspas ou retirá-las ao sistema de saneamento ou escoamento dos interesses e à armação da “arte pública” do favorecimento privado, são os que estão mais à vista, alguns até auto-convencidos de uma infalibilidade em que nem o papa já acredita.

Há políticos que, temerosos, assinam de cruz o que os técnicos lhes ditam; há técnicos que, impedantes, vão colocando os políticos na cruz. Também há o contrário, mas em todos os casos, o único acordo tácito entre uns e outros e que traduz uma das poucas “sabedorias” adquiridas nestas décadas de democracia, é que procedem e decidem com um fito nunca deveras reciprocamente confesso – o da fuga à acusação de favorecimento indevido, e o evitar deixar pernas de fora nos esquemas da mesma sabedoria.

Atrás de cada um destes “eleitos” e de cada um destes “técnicos”, há pequenas legiões de funcionários proletarizados, grupos de burocratas em que o cumprimento de formalidades, algumas horrorosas, suplanta o espírito de função e missão pública. E é assim que algumas autarquias em que eleitores e contribuintes sem aspas, na hora da eleição e do pagamento dos impostos, acreditaram que haveria mudança, se converteram em pólos de descrença. Descrença nos “políticos” e “descrença” nos técnicos, sobretudo na hora em que se verifica que, em matéria de aspas, estão uns para os outros.

Carlos Albino
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Flagrante constatação: As demolições na Ria Formosa que são um abuso quanto à forma e uma falta de bom senso quanto ao conteúdo…

quinta-feira, 12 de março de 2015

SMS 606. Retrocesso

12 março 2015

É daquelas frases que muitos não gostarão de escrever e poucos gostarão de ler – o Estado está em retrocesso e o Algarve em retrocesso está. Não é que a história tenha parado – não pára; ou voltado para trás – não volta. A história vai par a frente - os que a fazem é que deram passos para trás. Uns propositadamente, outros inadvertidamente. No que toca ao Algarve, a região está mais ou menos decapitada de capacidade de decisão autónoma. Tal como está, o Algarve é gerido como se fosse a Secção VIII da 8.ª Divisão do IX Departamento Central, e o poder local ou está em carnaval ou em quarta-feira de cinzas – impreparado, sem qualidade, burocratizado, e consumando o paradoxo de tornar simultâneo o populismo e o distanciamento político do cidadão.


Da parte do Estado, não é difícil fazer-se o reconhecimento de que raramente se teve como em 2014 e já nestes dois meses de 2015, uma tempestade de factos negativos, despejados sem descanso sobre o cidadão. Dos mais altos decisores, passando pelos decisores intermédios, até aos de mais baixo escalão. Não tem havido dia, sem uma má surpresa proveniente quer dos eleitos quer dos nomeados. E logo a começar pelo Presidente da República que, tanto no que diz como no que omite, fala como uma espécie de monarca. Dá mau exemplo.

Da parte do Algarve, também não é difícil reconhecer-se que está muito mais longe da regionalização e que esta, a regionalização, nas atuais circunstâncias é coisa para não se desejar. Ou seja: o Algarve não está preparado para ser Região, a começar pela sua massa crítica e a terminar na crítica da massa. Não é que não se deseje e essa finalidade, a da Região e que esta não seja defensável e até desejável. Mas não temos condições, não temos gente que esteja, veja e aja para além do jogo de poder, do carreirismo e dos interesses difusos. No que falam e no que omitem, fazem-no como uma espécie de duques nos municípios e de condes nas freguesias. Dão mau exemplo.

Claro que há exceções, as quais não cito pelo pudor de não deixar às claras como é a generalidade. A isto chama-se retrocesso e quando isto acontece são os eleitores que se enganaram.

Carlos Albino
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Flagrante dilema: Quanto à maior parte dos estrangeiros que se fixaram no Algarve fugidos do frio, eles têm um dilema – ou são e se comportam como colonizadores, ou se inserem na condição de aqueles que os aceitam como vizinhança, estarem já colonizados. Vai dar no mesmo.

quinta-feira, 5 de março de 2015

SMS 605. Três poetas populares

5 março 2015

Sabia que existiam, foi muito difícil encontrar estes três poetas populares algarvios: Carcominda Figão, Fernão Barranco e Filomeno Querenço. Incompreensivelmente, os seus livros estão por publicar. Ao acaso e por entre centenas e centenas, retiro quadras soltas das suas obras inéditas, a seguir referidas entre aspas, para ajuda de eventuais investigadores à procura de pretexto para subsídios:

1 – Carcominda Figão, in "Linha Amarela, Paragem 13”

Qual pior, se náufrago só numa ilha
Se ilha já sem lugar para naufragados.
Um náufrago sozinho não pilha,
Em ilha de ladrões, são todos “alegados”.

Perante chineses, só deves rir
Da desgraça, com riso amarelo:
Eles sabem bem distinguir
Uma laranja de um marmelo.

2 – Fernão Barranco, in "Constatações do Tesouro Municipal"

Um agente duplo pede-me resposta
A se é um vertebrado ou invertebrado.
Digo-lhe: “O que tens, é fratura exposta,
E o que não tens, é osso emprestado".

Relógio pára à falta de corda,
Falta de relógio o tempo não pára.
Acaba por dar horas numa açorda
Quem canta de galo sendo uma arara.

3 – Filomeno Querenço, in "Manuscritos da Benémola"

Seja a sondagem a mais correta,
Por Portugal ser Portugal,
Quando a coisa está mesmo preta,
Ou dá petróleo, ou gás natural…

Pensas que apertar as mãos dá votos:
Quem à cruz apertou as mãos de Cristo
Apenas teve apoio de uns canhotos
Com o resultado que estava previsto.


Carlos Albino
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Flagrante nome: Aeroporto Internacional do Algarve, diria Sacadura Cabral, o qual, a não ser isso proporia Gil Eanes – nome maior.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

SMS  604. Entrevista coletiva

26 fevereiro 2015

Senhores médicos, advogados, arquitetos, autarcas, dirigentes distritais, diretores de hotéis e jornalistas, bem vindos a esta sala e por favor ocupem os vossos lugares nas cadeiras que vos estão reservadas. Muito agradecemos que cada um aguarde a sua vez para responder, lembrando que temos à vossa disposição, serviço de tradução simultânea para português para que ninguém diga que não entende:

1 – Senhores médicos, como se sabe há falta de médicos no Algarve, designadamente em determinadas especialidades em que haver poucos para muitos, é a alma do negócio. Podem dizer se é verdade ou não que médicos de outras zonas de País que querem trabalhar no Algarve, não o conseguem, porque esbarram com barreiras protecionistas do mercado da saúde que por aí mercadeia sem escrutínio ?

2 – Senhores advogados, é verdade ou não que a imobiliária que necessita dos vossos distintos serviços se move com dinheiro por fora, condição designadamente colocada por nacionais de países que querem dar lições aos portugueses?

3 – Senhores arquitetos, por que motivo, nuns sítios e nuns tempos, os projetos, sobretudo nos chamados centros histórico e nas zonas rurais, têm de obedecer a características invocadamente tradicionais, paisagísticas, etc., e noutros sítios e noutros tempos, se faz e aprova o contrário da véspera em função da sintonia ou não entre ateliers privados e gabinetes públicos?

4 – Senhores autarcas, podem com rigor distinguir nesta casa comum que é o Algarve, o que é para VEXAS a sala de estar e o quintal? E já agora, que distinção VEXAS fazem entre poder local e poder central localizado sob disfarce?

5 – Senhores dirigentes distritais, podem VEXAS esclarecer se atuando no Algarve são Algarvios, ou são Emissários com as características dos decisores em Terras de Missão?

6 – Senhores diretores de hotéis, podem Vossas Excelências garantir que Zurique, Londres, Paris, Madrid e Frankfurt não são autarquias do Algarve?

7 – Senhores jornalistas, podem definir o que é uma avença seja esta formal ou informal?

Apenas perguntamos, já que perguntar não ofende.

Carlos Albino
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Flagrante SIADAP: Não será difícil perceber que o SIADAP é a guerra civil dos funcionários que funcionam muito na quantidade e muito pouco na qualidade.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

SMS 603. Nestes tristes dias

19 fevereiro 2015

A verdade é que o Algarve é a região do País onde o desemprego mais subiu. E não se viu por aí grande preocupação pelas causas e pelos efeitos. A verdade é que há fome e ou se oculta ou se disfarça. E a verdade também é que, em contraste, para muitos o Algarve é uma região de enriquecimento fácil à custa de expedientes. Faltam médicos, mas a coisa está discretamente montada para impedir a vinda dos médicos que queiram vir para cá, para proteção de pequenos reinos e reinados. Falem os advogados e digam se é verdade ou não o chamado dinheiro por fora, sobretudo na imobiliária. Falem os arquitetos, os engenheiros, etc., e digam se é verdade ou não que a transparência, os jogos de influência e de interesses moram numa travessa. Falem os autarcas e digam se é verdade ou não que a generalidade dos funcionários está proletarizada, fazendo o estritamente necessário ou menos que isso, altamente preparados para lidar com a burocracia cada vez mais asfixiante. Falem os professores e digam se é verdade ou não que a maioria está desinserida da sociedade, o mesmo acontecendo com juízes, magistrados.

Não há região, a regionalização recuou vinte anos e a preparação séria para isso é uma cópia disforme dos valores que a regionalização supõe. Não há participação porque também os potenciais participantes esbarram com os cenários montados, pré-determinados e pré-moldados. A representação política está nas lonas e a crise do sistema aparece por todos os lados, com meia-dúzia a falar em nome de todos e, paradoxalmente, em nome da “identidade” do Algarve.

E começou já um pouco por todo o lado a corrida para as próximas autárquicas, as listas para as legislativas estão a ser geridas como os deuses gerem os seus segredos, o populismo anda por aí na militância de gente que parece séria e que sobrevive à custa de uma sociedade que não fala em voz alta porque não tem as bases do anonimato social nem pode ter pela diminuta base demográfica, e à custa também de uma sociedade que não tem comunicação nem local e muito menos regional, coisas não só dispensáveis como até inconvenientes.

Como é que esta gente se há-de preocupar com o desemprego gritante, com os desvalidos mais que muitos, com os que passam fome geralmente pela calada, com os que os que sofrem e morrem por uma saúde pública em derrocada e uma saúde privada sem controle, sem escrutínio? O caso que aqui se referiu por alto na semana passada, é verdade: uma pequena intervenção cirúrgica num olho custou 2000 euros no Algarve e a mesma intervenção cirúrgica no outro olho custou 50 euros na Alemanha… Isto diz tudo: há um algarvio com um olho algarvio de 2000 euros e o outro olho alemão de 50 euros. Tristes dias e mal de quem expõe o seu estado alma em voz alta.

Carlos Albino
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Flagrante pergunta: Já se pergunta, à falta de melhor dúvida, se “o meu coração é árabe”. E os rins, a bexiga, a vesícula, etc., não serão também árabes? Ficam de fora? Triste cóltura.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

SMS 602. A morte das amendoeiras

12 fevereiro 2015


Já delas se disse tanta coisa, que cobriam de neve os caminhos, que Deus por via delas escrevia versos algarvios com tinta de luar, que eram Meninas da primeira comunhão, ascéticas, descendo da montanha à beira do caminho em procissão. Já foi notícia obrigatória nas primeiras páginas dos jornais, já foi cartaz turístico e bilhete de identidade de encher os olhos, já foi riqueza quando chegava ao miolo, alimentou lendas, deu como verdade que um rei mouro desposara uma rapariga do norte da Europa, à qual davam o nome de Gilda. Tudo isso não serviu de nada. As amendoeiras estão à morte, abandonadas. Não são varejadas, não são podadas, não são tratadas e estas com sorte porque as que não têm essa triste sorte são arrancadas e substituídas por umas exotices compradas na Guia. Não revigoram, o rei mouro já perdeu a coragem para dar ordem para que em todo o Algarve se fizessem plantações de amendoeiras, a “Bela do Norte” volta a estar em pranto e soluços, a Gilda volta à sua tristeza mortal de não ver os campos cobertos de neve, como na sua terra, e os poetas, desde os de alto gabarito aos de fatela, já não têm matéria-prima para patranhas rimadas.

Há, aqui e ali, algumas chapadas com essas flores de janeiro e fevereiro, mas são resistências de um sonho moribundo. Num momento em que tanto arquiteto e engenheiro paisagista por aí apareceu e cresceu como erva nas burocracias municipais e estatais, ninguém acode à moribunda apenas porque supostamente não tem valor no mercado, perdeu expressão económica e ficou derrotada pelas amêndoas vindas de todo o lado apesar destas não terem sabor algum, embora bem embaladas como acontece para o embuste ser aceite – “sabem a amêndoa”, e é quanto basta para encherem as prateleiras dos aspiradores dos dinheiros locais. É a morte das amendoeiras, numa mortandade que atinge igualmente as alfarrobeiras e as figueiras. E como um mal não vem só, os detentores do saber tradicional também estão a desaparecer, sem se recolher e fixar o que sabem. Há também, aqui e ali, uns choradinhos, umas nostalgias efémeras, umas leituras de Cândido Guerreiro, uns românticos tardios que quase convencem que a lenda foi um facto. Mas as amendoeiras em flor no Algarve já não são notícia anunciadora da fertilidade da Mãe Natureza e muito menos pretexto para a fotografia, para o cinema e para fixar o domicílio das Belas do Norte que para o Algarve vêm reformadas tal como o rei mouro já se reformou. Mas ainda há flores e as que chegam ao fruto com a sua semente, sabem muitos, têm um sabor inigualável e incomparável, além de um imenso valor económico escondido, não aproveitado, como a Gilda, que era esperta, conhecia. Ou não percebesse de neve o suficiente para enganar o mouro.

Carlos Albino
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Flagrante advertência: Muita cultura, por aí, não passa de cóltura que é como o peixe frito em óleo velho.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

SMS 601. Quadra inédita de Aleixo

5 fevereiro 2015

A situação foi-me descrita, já lá vão uns bons anos, por quem ouviu relato direto. Volta e meia contei o caso em alguns sítios e em certa ocasião, também já lá vai tempo, tive a sensação de que uma quadra que Aleixo de repente atirou a quem ele julgou que a merecia, estava desatualizada, completamente fora do contexto e que pertencia à pré-história de um país cuja mentalidade era suposto que tivesse sido reformada. Esta semana, nem sei porquê, a quadra de Aleixo subiu à memória e, para espanto meu, está atualizada em função do que ouço, do que vejo e, mais importante, do que sinto – aquilo que por vezes a gente ouve e vê trai ou atraiçoa o que sente. Ora, verifico que essa quadra do genial Aleixo não trai nem atraiçoa. Vamos ao caso.

Estava Aleixo a trabalhar nos jardins da Quinta do Alto, quando a viúva de Júdice Fialho recebeu no palácio farense o poeta António Botto. No meio de um almoço, a viúva anfitriã comentou para Botto que “temos aí um homenzinho simples a trabalhar no jardim que dizem ser poeta”. Boto não hesitou em solicitar a presença do homenzinho. A viúva, no receio do homenzinho sujar o salão e estragar a solenidade do repasto, resistiu mas Botto levou a melhor e o homenzinho foi chamado. Aleixo entrou com o chapéu na mão, olhou, olhou, nada disse. A viúva repreendeu-o: “Então, Aleixo, não dizes nada? Diz uma dessas tuas quadras para este senhor ouvir”. E Aleixo, nada. “Fala! Não sejas malcriado!”. Aleixo, nada, e cada silêncio com o olhar a fixar os nutridos pratos mais enfurecia a viúva Fialho já disposta a expulsar o homenzinho do salão. Então Botto decidiu atalhar observando que Aleixo talvez se sentisse envergonhado e daí o seu silêncio. “Aleixo, fala!”, voltou a vúva à carga. Para evitar o desfecho previsível da cena, Botto dirigiu-se a Aleixo nestes termos: “Caro colega. Peço-lhe que me diga uns versos seus que é a melhor forma de nos conhecermos”. Parce que estas palavras convenceram Aleixo que levantou o rosto, fixou os olhos da viúva e disse num daqueles seus repentes:

“Anda toda esta canalha,
De banquete em banquete,
Enquanto o Povo que trabalha
Come o caldo sem azête.”

Sei que, dito isto por Aleixo, Botto fez questão de passear com ele pelos jardins, com a viúva a observá-los pelos vidros da janela. Creio que. além da quadra, a figura da viúva está atual. Anda por aí.

Carlos Albino
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Flagrante comparação: Quem viveu a situação garante – uma intervenção cirúrgica num olho custou dois mil euros (2.000 €) no Algarve, e intervenção do mesmo tipo no outro olho, duas semanas depois, custou cinquenta euros (50 €) na Alemanha… Estão a ver os palácios que se constroem por aí, não estão? Há mais.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

SMS 600. Isso parece que ficou pelo caminho

29  janeiro 2015

De modo geral, aquelas tais primárias que levaram António Costa à liderança do PS, provocaram uma onda de entusiasmo. Chegou-se a pensar que esse seria um caminho certo para recolocar a crença nos procedimentos democráticos quanto à escolha de candidatos e que tal caminho poderia e deveria comprometer as escolhas do essencial do regime: os deputados.

Chegou-se a pensar que esse seria um método acertado para se acabar com o carreirismo político que, à evidência, levou à confusão entre cargo eletivo e emprego cativo, entre mandato e mordomia, entre exercício público do poder de representação e coisa da propriedade privada dos beneficiários do sistema. Chegou-se a pensar que essa seria um bom remédio para a cura da doença coletiva da abstenção e que, aplicado com a posologia prudente e adequada, haveria de repor a aproximação entre eleitos e eleitores. Foi um sinal de esperança dentro e fora do PS que teve a iniciativa e esse sinal contaminou o melhor que as força partidárias ainda têm para oferecer na tentativa de sobrevivência em pluralismo. Ficou também à evidência que os democratas convictos, sem interesses pessoais e diretos nas disputas de poder, e que, além disso, podem pronunciar a palavra Valores sem peso na consciência, se manifestaram favoráveis a que o processo de escolha do “candidato a primeiro-ministro” não ficasse por aí, chegasse às listas de candidatos a deputados (com primárias nos círculos eleitorais) e aos candidatos a presidentes de câmaras (com primárias locais). Mas parece que tudo isso ficou pelo caminho.

A oito meses das eleições legislativas de 2015, que irão decorrer entre 14 de setembro e 14 de outubro, nenhum dos partidos abre jogo para a disputa dos nove lugares cabem ao Algarve. As listas estão naturalmente já nas cozinhas e estão a ser cozinhadas, e voltamos, portanto aos lugares talhados, negociados, conseguidos, convidados, instados, possivelmente alguns impostos ou pelas circunstâncias, ou pelo labor populista dos interessados ou ainda pela esperteza dos chamados aparelhos onde tanto nadador-salvador da democracia se tem instalado sem saber nadar ou sabendo apenas nadar de costas. Com eleições em setembro, listas a terem de ser fechadas em julho, para primárias este final de janeiro já é tarde. Aliás, a democracia, quando quer, chega a horas; alguns democratas é que se atrasam, e outros nem precisam de relógio julgando-se senhores do tempo.

Mais uma vez, repetem-se os motivos não para se desejar “Boas Eleições!”, mas “Bons Empregos!”

Carlos Albino
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Flagrante saber alentejano: Por aí, nas prateleiras dos supermercados da região, frascos de mel rotulado como “Mel do Algarve” (Honey of Algarve, p’ró turista não se enganar), mas “produzido e embalado” na Messejana… Ou as abelhas alentejanas já voam tão depressa que perderam a noção de que o Ameixial e a Messejana são da mesma freguesia e lado a lado, ou as abelhas algarvias são lentas a perceber os rótulos. Além disso, o mel é péssimo.