quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

SMS 592. Menosprezo pelo que é nosso


4 dezenbro 2014

Toda a gente sabe que a identidade de uma região, começa logo pelo território e pela assumpção dos bens e valores que essa mesma região pode e deve exibir no seu bilhete de identidade, designadamente por onde se transita. E como há muito já não estamos com os caminhos de almocreves da Idade Média, agora falamos de estradas, aeroporto, caminho-de-ferro, portos e marinas, tudo por onde passe quem vem e onde esteja quem recebe. Quanto ao Algarve, é uma desgraça, há anos e anos. A RTA se fez outrora pouco, agora não faz nada, nem tem lampejo para dar sinal de Algarve. A Via do Infante atravessa o Algarve como podia atravessar a Mauritânia - apenas tem placas de desvios para ali e acolá, como se os viajantes fossem caravanas de camelos. As estações dos caminhos-de-ferro parecem morgues onde o Algarve entrou morto e está congelado à espera da autópsia. Nas marinas e no porto de cruzeiros, a palavra Algarve não existe, e é tudo muito local, muito quintal, muito casa de arrecadação municipal. Na 125 e suas derivas, as autarquias metem-se umas com as outras, sobrepõem-se em cartazes com direções e quilometragens como se cada uma fosse capital da próxima e dentro das outras, todas a dizerem que sejam bem vindos, como pretexto para marcação do quintal e não mais que marcação, sem Algarve e sem o que, de valores e bens de relevância, sirva de bilhete de identidade do Algarve, caindo na fatela, no ridículo, no novo-riquismo de analfabetos. Os hotéis, na generalidade, nos seus folhetos, nas suas páginas electrónicas e nos seus guias para o turista, exibem erros, omissões e indicações sem rigor que são para estarrecer. No aeroporto, é como se todos chegassem à República Centro-Africana – nada de Algarve, a não ser, no pior sentido, a confusão dos parques às voltas e às curvas - não há acolhimento de Algarve, cada um que vá à sua vida, nos seus transfers, táxis ou carros alugados, ao seu golfe e aos seus bares e discotecas, e nada de conversa fiada sobre Algarve.

Bem podem dizer que, quem vem de Lisboa pela auto-estrada, depois do Viaduto das Ribeiras após dezenas de viadutos no Alentejo assinalados como que pontos de referência mundial, há um placar a indicar Algarve com umas amendoeiras debotadas, e depois a indicação da fortificação militar de Paderne (como se esta estivesse em Messines…) e a do Castelo de Silves. E terminou. Depois disso até Vila Real de Santo António num sentido ou até Lagos noutro sentido, mais nada.

É o menosprezo pelo que é nosso, pelo muito que em património material e imaterial temos, pelo muito que em bens culturais possuímos, algumas coisas únicas na Europa e únicas no País. Se calhar, os responsáveis nem sabem. Falando com alguns, parece que é isso.

Carlos Albino
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Flagrante má educação: Há gente por aí que, antes de subir ou para subir o degrau do poder, escreve, insiste, exige resposta, roja-se aos pés; depois de conquistado o degrau, não responde aos emails, desconhece o remetente, ou manda terceiros dar resposta lacónica e até saloia, como se tivessem o mundo a seus pés. Não vão longe, ou se forem, é a má educação que os acompanha.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

SMS 591. Sócrates


27 novembro 2014

Terminou o que já parecia um auto de fé. Independentemente da acusação que supostamente será deduzida, a carreira política de Sócrates terminou.

Ninguém, à direita ou à esquerda pode vangloriar-se com o destino que José Sócrates foi traçando até este desfecho que em primeiro lugar afeta todos os que acreditaram nele, especialmente a roda da sua proximidade e, nela, os que usufruíram, à confiança, algum benefício político legítimo.

Mas também ninguém, à direita ou à esquerda, pode ou deve vangloriar-se.

Por um triz, outras figuras não caíram, outras caíram mesmo e pertencem a comboios diferentes daquele que Sócrates tomou. A prisão de Sócrates não permite, só pela prisão, vivas à Democracia, como se a saúde desta dependesse da prisão de um homem que já foi poderoso, mas, agora, está reduzido à dimensão de quem tem que explicar porque não cumpriu deveres e obrigações.

Na verdade, é triste que, para esse homem, agora tenhamos que lhe destinar aquele sentimento da Grécia Antiga e que tem o nome de piedade. Não está condenado, poderia ter fugido como muitos podem fugir neste mundo e fugiram, mas a sua carreira terminou.

É certo que, no território da probidade e da seriedade, deixa muita gente atónita, e permite que, no território do engano, muita gente também ande por aí ululante mas com pernas de fora ou tapando muita perna.

A ver vamos.

Esta é uma lição da qual todos, sem exceção, eleitos e eleitores, devem extrair conclusões. Aquele que foi eleito e sobre o qual possam recair dúvidas baseadas em factos, documentos e procedimentos, prejudicando gravemente a respetiva idoneidade moral, têm o dever de, atempadamente, se demitir ou de se auto-suspender, não entrando no jogo da presunção de inocência ou da invocação de que “nunca fui condenado”, sabendo-se como a lei, sempre imperfeita e lacunar, pode ser contornada e ladeada. Desde o Presidente da República, Primeiros-Ministros e Deputados cuja consciência tem um espelho como qualquer cidadão mas cujos exercícios decorrem perante uma massa de anónimos desconhecidos, até ao Presidente de Câmara do qual todos são vizinhos e conhecidos, têm essa obrigação de não entregar a sua idoneidade aos tribunais. A idoneidade moral não é assunto de tribunal, de sentença ou de acórdão – é assunto de consciência. E os que elegem têm o dever de, pelos menos, não se enganarem duas vezes seguidas. A ver vamos.

Carlos Albino
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Flagrante alerta: Houve alguém que, um dia, perante a campanha anti-partidos, saiu-se com este: “Os partidos são melhores que os seus líderes”.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

SMS 590. Patrimónios

Magnífica obra de betão junto da Muralha remanescente da Torre da Corredoura
do Castelo de Loulé (Monumento Nacional)
20 novembro 2014

Não é agora que vou diretamente a um exemplo concreto que me força a adaptar o tal verso do Fernando Pessoa para o que não é verso mas controverso: “A autarquia faz ronha, o homem requer, o monstro nasce”. Isto, a propósito de património, designadamente património classificado de monumento nacional ou de interesse público. E não é agora, porque ainda espero que a autarquia e a tutela tenham o bom senso e o bom gosto de tratar da ferida. Da ferida, não; do monstro.

Patrimónios em geral, por ora, e do edificado. Como se sabe, o Algarve não é possuidor do chamado património gigantesco, esmagador aos olhos, a tocar nas nuvens. É quase tudo rasteiro, discreto, mas muita pérola. Ou seja, o património algarvio é como a gente olhar para um ser humano de corpo normal, de beleza absolutamente normal e que passa desapercebido, só que com um anelinho nada normal no dedo e é esse anelinho que luz como património. Há muito e bom anelinho por aí, dos tempos mais antigos da ocupação humana do território aos tempos mais recentes. E estamos tão habituados aos anelinhos que quase sempre não damos por eles, desvalorizamo-los, achamos até estranho que alguém fale do seu valor. Os que vêm de fora, sim.

Passam anos e anos, e projetos de valorização dos nossos anéis, não passam de boas intenções. Deixamos até, com a maior das indiferenças, que sejam vandalizados e roubados. O que é feito não passa de caidela e por vezes o que é feito é mal feito. E o que é bem feito, que também há bastante, passado o período de propaganda que normalmente não incide no património mas na figura promotora que da propaganda parece que precisa mais que o próprio património, isso volta a cair no esquecimento. O somatório deste património enterrado ou mesmo cremado e posto à margem, dá assim a ideia de que o Algarve “não tem nada” ou mais nada a não ser praias por dois meses, sol na faixa costeira e uns copos nas lojas dos indígenas, já que muita gente entra e sai do Algarve julgando que o Barrocal e a Serra são áreas de noites eternas que não dão para ver nada, além de que até as próprias cidades costeiras têm o seu património fechado ou a funcionar “nas horas de expediente” do funcionalismo público…

Não admira assim que o autarca anterior ao autarca atual tenha feito ronha, que o homem beneficie do requerimento despachado de ânimo leve e que o monstro nasça. Mesmo que nasça encostado a monumentos nacionais, a património de interesse público e zonas remanescentes protegidas ou que deveriam estar protegidas, até porque, lá longe, gente fechada em gabinetes que só vê a coisa por mapas e fotografias decide ou homologa de tal forma que em matéria patrimonial, no Algarve, vão-se os anéis e ficam os dedos.

E depois ficamos a olhar uns para os outros, ninguém tendo culpa nisto, uns por absoluta impreparação e falta de preparação para os cargos que ocupam, outros por falta da competência legal que deveriam ter, por falta de autoridade para intervir e porque estão reduzidos a meros “correios” para os gabinetes de Lisboa onde o Algarve não conta, ou conta cada vez menos de há uns anos a esta parte. Por isto mesmo, a gente erudita que há no Algarve e muita, sofre; gente culta que há no Algarve e muita, sofre. Sem sofrer ficam os que fazem ronha, requerem, e felizes estão com os monstros nascidos.

Carlos Albino
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Flagrante dieta mediterrânica: O populismo começa, por regra, por engolir-se um garfo. E acaba com o rei na barriga. Mas, independentemente do que, por esta dieta, é engolido, o curioso é que todos os candidatos são anti-populistas até chegarem ao poder.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

SMS 589. Gatos e ratos

Toda e qualquer coincidência com nomes conhecidos
 ou com a realidade, é simples semelhança”
8 janeiro 2014 

Por muito que haja, o debate local autárquico e também o debate regional, não ganham vigor e muito menos verdade, se tudo isso se resumir a uma luta de gatos e ratos. Os ratos nos seus esconderijos, resistindo com as possíveis provisões de queijo e toucinho, à espera de que o gato se afaste ou que, desalentado, vá à caça de outro roedor; o gato disfarçando-se em vegetariano, comendo cenoura, alface e até ovos de perdiz, para iludir o rato sobre o instinto carnívoro dos felinos.

Este jogo de disfarce até tem a sua piada quando gatos e ratos atuam no mesmo território, seja ele o de uma freguesia ou o de um mesmo concelho. Reuniões públicas de câmaras e de juntas, ou de assembleias municipais e de fregueses, naturalmente que propiciam divertidíssimos momentos em que os ratos exercitam com esperteza a paciência da clausura política (toda a clausura de rato é sempre política), e em que os gatos abdicam de um passarinho na ementa – quanto mais de um rato! – para provarem à sociedade que, por coerência com os resultados do último sufrágio, passaram a comer brócolos políticos (todo o bróculo na boca de um carnívoro é sempre político).  Todavia esse divertimento entre gatos e ratos, se é feito no mesmo território que os bichos partilham, até pode favorecer o escrutínio das ementas de cada um, ou seja, ajuda a esclarecer se gato come brócolos e se rato ainda tem queijo para se aguentar no esconderijo. Em cada concelho, em cada freguesia, poderíamos dar nomes aos gatos e ratos locais, mas ter-se-ia que usar a tal legenda dos filmes: “Toda e qualquer semelhança com nomes conhecidos ou com a realidade é simples coincidência”. Assim foi na Arca de Noé, onde este almirante bíblico conseguiu a proeza de evitar que os ratos fossem extintos pelos gatos e estes, por sua vez, extintos por abocanharem politicamente ratos envenenados (todo o veneno dado a rato é sempre político). Por aqui não há problema.

O problema é quando, sem que o gato saiba ou disso se aperceba, o rato escolhe outro território, outro concelho, outra freguesia com a proteção dos gatos locais, para espreitar a ocasião da extinção do gato no território onde campeou. E igualmente problema será quando o gato, alterando de igual forma as regras do confronto, vai à caça dos ratos do concelho a que não pertence ou da freguesia onde não é freguês, fazendo a caça de forma perversa: comendo brócolos, ou cenouras como coelhinhos da banda desenhada. A esta troca de terrenos sempre se chamou emigração política de conveniência, mas também sempre com maus resultados. Ou seja: entre gatos e ratos apenas muda uma letra. E essa letra mutante é politicamente suicidária.

Isto é uma fábula, e, tal como em todas as fábulas, “Toda e qualquer coincidência com nomes conhecidos ou com a realidade é simples semelhança”.

Carlos Albino
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Flagrante modalidade paraolímpica: Espionagem autárquica.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

SMS 588. O que caiu na rede social…



6 novembro 2014

Salta para o papel o que até agora tem jazido na rede social que não tem nem pode ter chão, e embora mais valha jazer numa rede social do que numa rede anti-social, dar chão às palavras como só o papel pode dar, é torná-las habitantes da nossa própria casa. Portanto, aqui ficam em papel:

Se o Facebook é um mural de emoções, de desabafos, de ordens para salvar o mundo ou de receitas para o afundar mais depressa, enfim, mural de tudo o que venha à cabeça ou fique atravessado no coração, não resisto a dar conta de pequena emoção.

Estava para entrar em casa, chave na fechadura, 23:02, ouvi música na proximidade, daquela música que apenas podia ser ao vivo e não ao morto. Retirei a chave, e a primeira emoção foi a de ir atrás do som. Atrás, ou atraído. Atravessei a rua, entrei por pequena travessa, oito passos e virei para pequena rua esconsa, um portão aberto, a música vinha dali. Espreitei, entrei, encostei-me à parede de fundo forrada de cortiça tal como as outras paredes, um salão térreo apinhado de músicos. A batuta do maestro verberava como asas de libelinha acima das cabeças de rapazes, homens velhos, mulheres de meia-idade e raparigas de perfil, um quadro que dava para retrato do Louvre, seriam uns 60 ou mais.

A música tocava, mas de repente deixei de a ouvir porque os olhos suplantaram os ouvidos como naqueles momentos em que as coisas nos parecem irreais ou quando muito inverosímeis como perante um fresco de Miguel Ângelo, em que o humano se torna divino e com o divino se confunde.

E estava eu convencido de que estava perante uma obra-prima da Renascença, quando o maestro, lá ao fundo, me cumprimenta com um sinal de batuta, como se eu fosse mais um músico. Se tivesse um instrumento, tocaria, tocaria qualquer coisa, nem que fosse um sopro que provocasse o som de um Obrigado. Mas foi nesse momento também que senti que estava a violar um espaço sagrado. Fiz uma vénia ao maestro, abandonei o local com uma emoção esmagadora, e até meter novamente a chave na fechadura, fui dizendo para mim: Obrigado, Artistas de Minerva, obrigado banda magnífica que Loulé tem, obrigado músicos de várias gerações e géneros, obrigado, vocês não são eleitos mas são de eleição, obrigado pérolas da noite.

Carlos Albino
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Flagrante evidência: Nenhuma terra se pode proclamar capital de qualquer coisa, se não capitalizar seja o que for. É óbvio.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

SMS 587. Identidade do Algarve


30 outubro 2014

Não é difícil concluir que a identidade do Algarve é o segredo mais mal guardado da Europa… A questão da identidade coloca-se a várias escalas e níveis, e por assim dizer, se o Algarve tinha outrora um já obsoleto Bilhete de Identidade, está hoje longe de possuir o moderno Cartão de Cidadão. Falo por metáfora, claro. O Algarve foi invocadamente, por séculos, um Reino, mas sem instituições de reino - mero título de monarcas e mera legenda de mapas. Por isso mesmo, tal título nunca até hoje teve sequenciação desde a República de 1910. Foi sendo Província, Distrito e até, por exagero e falta de pudor, Região, mas como província nunca foi institucionalmente provincial (esteve sempre num dos últimos degraus do provincianismo português), como distrito esteve sempre adstrito ao poder central de Lisboa (o chamado governo civil foi sempre um bispado laico com sacristia política primeiro no partido único da Ditadura, depois, em Democracia, no partido dominante), e como Região não passou, nem passa da geografia e mesmo esta, no que toca a “identidade geográfica” já está em crise. Muito do Algarve já é comandado em Sines e em Évora. A Região Piloto nunca se concretizou, ou por falta de pilotos com roda do leme para a Região (o que tem sido um facto), ou por excesso de pilotos cada um com seu leme mas sem navio (o que levou a veleidade da região ao absurdo).

Claro que depois de tudo isto, há alguma coisa. Há uma RTA que é mera secção, sem alma, sem asa, sem poder e quase sempre sem saber; há uma CCDR que é mera extensão autocrática e burocrática que representa o que não pode representar autarquicamente falando; há uma AMAL, que apesar das suas asas autárquicas, não decola, como dizem os brasileiros; há direções regionais cuja direção é Lisboa e sujo sentido é concretizar Lisboa lá nas alturas e distribuir migalhas aos provincianos de boa vontade. E pouco mais haverá, para além da Federação Regional dos Bombeiros. Perdão, há ainda o Círculo Eleitoral do Algarve, mas como o Estatuto dos Deputados estipula logo no N.º 1 que “Os Deputados representam todo o País, e não os círculos por que são eleitos”, cada um dos deputados até pode nada fazer ou fazer tudo menos pela província, pelo distrito e pela região, que ninguém lhes pode tocar. Alguns deputados são como o Duque de Loulé: não nasceram na terra, nunca foram à terra, nunca se interessaram pela terra e até combateram a vontade da terra. Outros, nada mais podem fazer do que fazer perguntas, o que já é notícia por si só.

Perante o facto, que não é metáfora, dos eleitores darem a resposta que podem dar com a abstenção e o desinteresse pela causa pública, agora, a identidade do Algarve, tal como as restantes identidades do país, assistem à revoada da “aproximação dos políticos aos eleitores”, da “cidadania participativa” e da “defesa das pessoas”. O sentido de sobrevivência dos que, sejamos claros, traíram a identidade em benefício de carreiras pessoais, leva-os a isso.  Não sei se será tarde ou se ainda vem a tempo. Os otimistas dizem que sim. Só que já lá vai um ano sobre últimas autárquicas, e, aqui e ali, vamos verificando cada vez mais que a aproximação aos eleitores, ou é meramente virtual e através de expedientes, ou , pior, que ela só existe até ao momento da conquista do poder.

E é assim que, tudo o que não é autárquico mas falsamente regional, ou, sinónimo, destruidor da identidade algarvia e centralista, centralizador e provinciano (o poder central é a coisa mais provinciana de Portugal), vai tendo asas para voar.

Carlos Albino
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Flagrantes doutores: Segundo parece, em cada canto de emprego público, há um doutor ou uma doutora. Seria de fazer um inquérito sobre quantos sabem escrever uma carta a preceito, redigir um e-mail nas mínimas normas da civilidade, falar ao telefone pelo menos com o antigo nível do português da IV Classe. Já ouvi um que em vez de “sinto-me dedraudado” disse com inteira segurança académica: “sinto-me desfraldado”… 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

SMS 586. Lamentação às portas da matriz da terra natal


23 outubro 2014

Na hora em que percas a crença, senta-te.
Senta-te à hora em que ninguém circula e te veja,
Senta-te nos degraus de uma igreja qualquer
Onde nenhum deus durma, nenhuma voz te minta,
E não chores por ti, chora pela cidade que te viu nascer
Chora até ao fim, mas não digas uma palavra que seja,
Pois quando crês que a palavra sustenta-te,
É a descrença que fala por ti  e não tu a dá-la por extinta.

Quieto, fica aí nesses degraus que foram talhados
Por crença e embuste, que são os degraus onde
Um país sentado talhou e talha o seu desengano.
Chora, que a tua terra natal é também a tua terra mortal.
Mas esquece o segundo, a hora, o dia, o mês e o ano
A que a tua inteira crença perdida corresponde,
Para que jamais te lembres quantos anos foram passados
Desde o momento da crença pura e inicial.

E quando sentado nesses degraus sentires falta
De alguém que passe, mesmo que não seja ninguém,
Alguém que te bata no ombro, e seja apenas o vento,
Ou espelho em que a imagem da descrença é a crença,
Então, a primeira palavra que te nascer do pensamento
Terá as sílabas e o som que o teu choro contém,
Que o choro é sempre a primeira palavra que assalta
Quem nasce crente e morre descrente, por secreta sentença.

Na Matriz de Loulé, 21 outubro 2014 (02:10)
Carlos Albino
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Flagrante ignorância de luxo: Um importante hotel implantado no litoral louletano, diz no seu site oficial e em várias línguas, que a gastronomia da zona “ veio dos povos Visigodo e Romano que se estabeleceram neste local de Vilamoura, deixando traços inconfundíveis de distintas civilizações”… Essa dos visigodos não deixa traços – deixa indigestão, para não falar de consequências piores. Se a ignorância tivesse estrelas, esta teria oito.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

SMS 585Primárias para Deputados e Presidentes de câmaras


16 outubro 2014

Toda a gente, de uma maneira ou doutra, fala da “crise da democracia”. E se é verdade que uns sabem bem qual é o problema e o que é que a põe em crise, outros dissimulam o que é que está em causa, falam no vago em reforma sem indicarem a reforma de quê, por certo na expetativa de virar o disco e tocar a mesma música. Falando claro, uma democracia entra em crise quando o acesso à representatividade dos eleitores em pouco ou nada difere dos procedimentos de um regime autoritário, e quando a eleição mais não é do que uma mera formalidade de legitimação de gente nomeada e, no fundo, previamente imposta. Entra em crise, quando os candidatos ao poder são pré-determinados por pequenos grupos auto-organizados, os quais tendo capturado os partidos confinando-os a si mesmos, estão longe de representarem as grandes áreas alargadas do eleitorado. Portanto, na prática, nomeiam os futuros eleitos, independentemente da qualidade, da honestidade e das provas dadas. Se as circunstâncias propiciam a chamada sorte eleitoral, os nomeados ganham a sorte grande. Quando a democracia entra em crise, o que é preciso é ganhar, não se olhando ao comportamento do eleitorado que, cada vez mais descrente, dá a resposta que pode dar: a abstenção galopante, o desligamento crescente pela Causa Pública, a indiferença, o tanto faz que seja este ou aquele.

Recentemente, o Partido Socialista teve a coragem de quebrar a onda em que já ia distraído no seu longo surf do poder, surf esse que, entre nós, já é modalidade olímpica. Começou e concretizou esse quebrar de onda, submetendo a escolha do seu próximo candidato a primeiro-ministro aos declarados simpatizantes da sua área eleitoral, não o deixando refém do reduzido esquema de sócios. A resposta foi imensa, deixando patente aqui e ali, o contraste entre a ár
ea eleitoral e o esquema fechado do sínodo partidário, com seus bispos regionais e monsenhores locais. O Partido Socialista abriu-se e já obrigou os outros partidos a repensarem procedimentos, todos eles a não poderem já esconder o que significa isso de “crise da democracia”. As primárias funcionaram, sabe-se hoje como essa consulta é possível e como é mobilizadora. No Algarve, particularmente, tirou um retrato que obriga a pensar, levando a concluir que, caso se queira resolver a “crise da democracia”,  deve-se ir mais além.

Candidatos a deputados predeterminados por pequenas cliques regionais para os calculados “lugares elegíveis”, candidatos a presidentes de câmara por escolha concertada entre grupos de militantes com quotas em dia mas cada vez menores em número, em atividade e em qualidade, de eleição em eleição, foram fazendo o seu estrago, porque cada eleição, em relação à eleição anterior, foi acentuando mais a conquista do poder do que o exercício do mesmo poder. Foi acentuando o significado de “carreira política” mais como uma espécie de carreira profissional para a satisfação de interesses pessoais ou difusos, e menos como missão de elevado interesse público, pautada pelos valores da ética política, pela proba representatividade dos eleitores e pela defesa atenta dos problemas concretos das populações e dos diversos agentes da Sociedade.

Se o Partido Socialista deu exemplo pioneiro para a escolha do seu candidato à chefia do governo, que avance com o mesmo pioneirismo com primárias regionais para a próxima escolha dos seus deputados e depois com primárias concelhias para a escolha dos seus candidatos às presidências de câmaras.

O recurso a pré-sondagens, a sondagens e ao marketing político por via do qual muitas vezes se elevou nos outdoors um sultão de Marraquexe à escala de Presidente da República engravatado, fez parte de um período que já deu tudo o que tinha a dar. A “escolha” não é por aí. Esse recurso acabou. Acabou e contribuiu muito para a “crise da democracia”. Insistir nesse erro é chamar, por certo sem querer, a cultura do autoritarismo dissimulado – dissimulado até ser assumido, e então nem haverá crise.

Carlos Albino
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Flagrantes cortinas de ferro: O que se diz sobre o que a REFER fez em Olhão (dividindo a cidade) e o que já se fez na chamada “requalificação” da 125 e por certo se vai continuar a fazer (dividindo populações), não é só espécies de Tejo a dividir Lisboa de Almada. São cortinas de ferro.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

SMS 584. Os arquitetos têm razão, muito embora…


9 outubro 2014

Corre uma petição pública dirigida à Presidente da Assembleia da República, lançada pela Ordem dos Arquitetos nesta segunda-feira passada, Dia Mundial da Arquitetura, contra duas propostas de lei em estudo no parlamento. As propostas de lei incidem no regime jurídico da atividade da construção e às qualificações dos técnicos na elaboração e subscrição de projetos, e ainda à fiscalização e direção das obras. Em causa está a hipótese dos arquitetos voltarem a ser excluídos de atividades que a eles no interesse público diz respeito por inteiro e ficar desvalorizada a sua qualificação. João Santa-Rita, presidente da Ordem dos Arquitetos, tem toda a razão em alertar que, se tais propostas forem aprovadas, isso significa um grande retrocesso no exercício da profissão de arquiteto, e até representa, futuramente, um risco para a sociedade, ao pôr em causa a qualidade das suas construções”.

Ou seja: técnicos que não são arquitetos poderão voltar a assinar projetos, voltando o País à triste fase da construção generalizada de galinheiros, casotas de cão por dá cá aquela palha, e reconstruções macacas que um pouco por todo o lado fizeram de belos edifícios do passado meras casas de banho e transformaram vastas áreas da paisagem urbana em pardieiros. O Algarve está cheio disso, entra pelos olhos adentro, e houve disparates que pela grandiosidade e extensão só podem ser corrigidos com um bombardeamento aéreo.

Não estou a dizer que os arquitetos não tenham cometido também eles erros – já aqui temos escrito sobre arquitetolas que mais não imitam que os engenheirolas que nada têm a ver com os Engenheiros de letra maiúscula. Também não estou a dizer que a Ordem dos Arquitetos tenha feito tudo o que devia fazer para pôr “na ordem” alguns dos seus membros, sobretudo alguns instalados nas câmaras que usam régua e compasso como instrumentos autoritários da estética invocada em vão, num afã arbitrário e por vezes infantil. Mas esta é outra ordem de ideias e compete e competirá à Ordem escrutinar a qualidade dos seus membros e a forma como gerem ou impõem supostos critérios “técnicos” quer aos decisores políticos, quer à Sociedade, a mesma Sociedade que é destinatária dos apelos da Ordem para que se evite o pior. Eu que sou mera linha de fuga dessa Sociedade, assinei a petição e não estou arrependido. Não sei se a petição da Ordem conseguirá evitar o pior, mas também peço à Ordem que os seus membros não dêem pretextos para que não se tenha ou perca confiança nos arquitetos.

Desejo que João Santa-Rita leve a bom porto a sua cruzada, mas também lhe peço: ponha os seus arquitetos na ordem. Em quase todo o Algarve, onde há muita brincadeira de menino e menina de parque infantil, isso se lhe agradece. Mas, enfim, a gente só se lembra de Santa Bárbara e possivelmente de Santa Rita quando faz trovões.

Carlos Albino
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Flagrante vontade de rir: Há anos e anos que se espera pela “sinalética turística”, e com isso pela sinalética cultural, histórica e do património, nas principais estradas do Algarve e às entradas das nossas cidades. Os responsáveis nada fazem nem deixam fazer, e possivelmente não percebem e não entendem o que deveriam fazer. Gente desta, dá vontade de rir.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

SMS 583. Algarve e primárias do PS


2 outubro 2014

Valendo o que valem, os resultados das eleições primárias no Algarve dão bastantes sinais de que existe uma vitalidade democrática até agora escondida que este tipo de mecanismo, felizmente, pôs em evidência. A partir de agora torna-se defensável que os restantes partidos sigam as pisadas do PS, e que o mesmo método seja aplicado para a escolha de candidatos a cargos eletivos, designadamente deputados e presidentes de câmaras. Se tal fosse possível, os sinais do eleitorado passariam a indicações, e estas, caso fossem respeitadas, em muito contribuiriam para a melhoria e solidez das instituições, reduzindo-se em boa escala as permanentes suspeitas de jogos de poder, e do tráfico de influências, na disputa dos cargos políticos eletivos. A Sociedade apenas teria a ganhar com isso.

Primeira indicação, a radiografia do PS, com as suas abas sociais de influência assumida, ou seja, o esqueleto do partido em contra-luz. À cabeça, com elevada importância para diagnóstico, a visibilidade dos inscritos por concelho, acabando-se de vez com cálculos subjetivos de importância. Objetivamente, nessa radiografia do PS/Algarve, Loulé lidera com 1.188 inscritos, seguindo-se Faro (1.163), e depois, já relativamente longe da fasquia do milhar, Olhão (894) e Portimão (801). Abaixo do meio-milhar ficam Tavira (489), Lagos (348) e Vila Real SA (295), seguindo-se o grupo das duas centenas – Lagoa (231), Castro Marim (224) e Silves (223). Mais dois com centena e picos, São Brás (141) e Vila do Bispo (120), e, finalmente, onde à centena não se chega, Monchique (97), Aljezur (88) e Alcoutim (66). Esta é a radiografia.

Segunda indicação, os resultados. À exceção de Aljezur, onde, dos escassos 71 votantes, António José Seguro obteve 54,9 % contra 24% de António Costa, este ganhou em todos os concelhos, sendo mais expressivos politicamente os 87,2% em Faro, 84,8% em Loulé e 84,3% em Portimão, a dar alguma explicação aos resultados do PS nas autárquicas, exitosos ou não, conforme os candidatos locais já então vinham a posicionar-se na questão interna, mas já latente no partido. Os êxitos foram geralmente por mérito próprio dos candidatos locais e os fracassos foram ditados pela desmotivação ou mesmo divisão do partido. As primárias provaram suficientemente isto.

Terceira indicação, a votação maciça do Algarve em António Costa, além da explicação pontual de enormes êxitos e também de paradoxais fracassos nas autárquicas, não anda longe de traduzir o desapontamento da área geral do PS/Algarve pelas escolhas de António José Seguro para a Assembleia da República e para o Parlamento Europeu, ferindo a visibilidade política mas também a sensibilidade da Região. Para São Bento, o PS apenas conseguiu carrear dois deputados, mas na prática tem apenas um. E para o Parlamento Europeu, o ex-secretário geral apenas despendeu o esforço para colocar, em 19º lugar simbólico, um candidato do Algarve. Esta secundarização da representação política do Algarve, conjugada com a omissão constante dos problemas dramáticos da Região, ditou o desfecho das primárias.

Carlos Albino
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Flagrantes preços: Uma ida, avião de Faro-Porto, por exemplo dia 8 (quarta) – pela TAP 205,31€ (partida 11:20, 3 horas de viagem com mudança em Lisboa); pela Ryanair 18,23€ (partida 20:15, uma hora de viagem).

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

SMS 582. Teoria da Relatividade


25 setembro 2014

Por brincadeira, lembrei-me há dias de exemplos que comprovam a Teoria da Relatividade também no Algarve, onde tem sido regra entender-se que a relatividade não chega, a contrariar Einstein nas suas reflexões sobre velocidade, tempo e matéria.

Primeiro exemplo, sabe-se que a Ponte Vasco da Gama tem exatamente a mesma distância de Faro-Loulé, 16 Kms. A gente parte dos Olivais ou da Goncinha, chega ao Fórum Algarve que é Alcochete, e com isso atravessámos a ponte – 15 minutos. Mas em Faro pensa-se que Loulé fica na Escandinávia e em Loulé julga-se que até Faro fica a Suíça, com o Cerro da Goldra a fazer de Alpes.

Segundo exemplo, de Quarteira a Loulé são 12 Kms, metade da distância entre Lisboa e Cascais. A gente parte do Terreiro do Paço que é ali a rotunda da BP, e quando chega a Algés (o que não falta para Cascais!) já estamos na rotunda do Ciclista – 10 minutos. Mas em Quarteira pensa-se que para chegar a Loulé é como um mexicano ir cumprimentar um esquimó no Alasca, e em Loulé, a não ser para banhos, julga-se que ir a Quarteira é tão custoso como ir do Vaticano a Meca.

Há mais exemplos, pelo Algarve afora – Silves então, para muitos ali tão perto até parecerá uma Ilha do Norte vista da Cornualha. Mas pelo contrário, já em Lisboa, onde apenas se olha para o mapa do Sul do País como de um avião se olha para a Sibéria, de olho franzido a servir de régua, sobretudo no Ministério da Educação (os diretores de escolas que o digam) julga-se que de Faro a Évora é um salto mais curto que um salto a Lisboa, e lá vão de pasta na mão para exercícios de regionalização “do Sul”. No entanto, de Faro até Évora são 3 horas e meia (no mínimo) e até Lisboa 2 horas e 20 minutos nas calmas, sendo por acaso muito mal calmo, e até, se calhar, muito mais interessante ir a Sevilha.

Moral da história: quanto mais quintal uma terra se torna e quanto mais se fecha no seu quintal, segundo a teoria da relatividade, maior é a probalidade de ficar parada seja qual for a sua massa, pelo que a sua energia será tanto mais reduzida quanto mais ficar a olhar para o umbigo. E olhar para o umbigo tem sido o mal capital destas terras algarvias, todas elas contíguas mas que não há meio de concretizarem o tal sonho de Cidade Estado visionado por Manuel Teixeira Gomes.

Carlos Albino
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Flagrante asneirada: Profusamente distribuído pelas estações serviço (GALP, por exemplo), um mapa do Algarve com o pomposo qualificativo de “Official Passport”. Como principais áreas, o mapa destaca Portimão, Faro e… Almancil e Vilamoura. Quanto a Castelos, por exemplo, só há dois: Alcoutim e Silves. E quanto a Praias, nem Quarteira existe. E em vez de Faro, uma cidade chamada “Algarve”, além de, em vez de “ã” aparecerem c’s com til… Uma asneirada completa.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

SMS 581. É o que temos, é o que somos

18 setembro 2014

Acabam de subir ao noticiário quotidiano, duas notícias que, devido às causas, não parecendo parentes pelos efeitos, são da mesma família. A primeira das notícias dá conta de que há mais candidatos à Casa dos Segredos (105 mil) do que às universidades (42 mil).  A segunda das notícias vem do Eurobarómetro: Portugal apresenta um dos índices de leitura mais baixos da Europa. E como corolário, a queda a pique de editoras e livreiros um pouco por todo o País, com João Alvim, presidente da APEL, a advertir que o comércio do livro e com ele a sua importância e função cultural, está numa encruzilhada. A estas duas notícias somam-se as do encerramento de jornais locais e regionais a contrastar com o progresso das revistas da mais degradante cuscuvilhice típica dos bordéis, da conversão dos grandes jornais em meras vozes dos donos, da sina das rádios locais serem meras grafonolas numa tentativa de sobrevivência, etc., até se chegar às rádios e televisões, a pública e as privadas de cobertura “nacional”, saturadas não com desporto mas com o entulho do desporto e outros entulhos, numa competição de “audiências” em que o nivelamento é por baixo e não por cima, é para o que tende para o abjeto e não para o que devia ser trajeto para a melhoria da Sociedade. É o que temos e é o que somos.

O Salazar, contrariamente a Franco, teve um objetivo que cumpriu: o de impedir, ou pelo menos o de dificultar tudo o que lhe cheirasse a fator de multiplicação de cultura, informação e ciência, coisas que apenas podem existir com a Liberdade de pensamento, de expressão e de criação. Foi assim que ele deixou um país de analfabetos e de gente que não teve acesso ao ensino, não teve acesso ao saber e que perdeu quase até ao ponto zero, o sentido de convivência, do associativismo e do conhecimento. Essa foi a grande diferença entre a ditadura portuguesa e a ditadura espanhola. O Franco, sobretudo na fase final do seu franquismo, tolerou e até fomentou, embora contidamente sobretudo nas universidades, o que o Salazar proibia e policialmente perseguia numa linha que o Caetano manteve, descontada uma leve e tão ilusória quanto passageira aragem. Por isso, a Espanha enfrentou relativamente bem preparada o seu período de “transição”, enquanto Portugal teve que construir tudo de raiz, desprovido que estava dos tais fatores de multiplicação de ciência, informação e cultura.

E quando parecia que Portugal, enfim, tinha pernas ara andar, com as suas universidades por todos os cantos, a sua comunicação social, o seu novo aparelho de investigação, o seu novo edifício de criatividade literária e artística, a sua nova montanha de novas tecnologias supostamente ao serviço da ciência e da cultura, coisas sem as quais, pessoas, empresas e a própria sociedade ficam sem alma, pese aparentarem bom corpo, eis o paradoxo: temos, e de sobra, os tais fatores de multiplicação, mas estes, em vez de terem condições para agirem e ocuparem os lugares certos, ou emigram de cabeça baixa, ou por aqui ficam como uma legião de condenados.

E não posso evitar dizer: a política atual, perversamente, parece cumprir o velho desígnio da Ditadura, o de impedir a multiplicação dos factores de cultura e de ciência, da educação à informação, das pessoas e empresas à Sociedade. Estamos numa enorme Casa dos Segredos e muitos de nós para aí entrámos por absoluta ingenuidade, com a política enganosa a fazer de apresentadora.

Carlos Albino
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Flagrante concurso público: Para D. Sebastião do Algarve. Alguns deputados e líderes não passam de Cardeais D. Henrique, outros de Filipes. O Prior do Crato tem uma chance…

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

SMS 580. O roubo da paixão

11 setembro 2014

O Algarve tem, reconhecidamente, das melhores praias do planeta, um clima ímpar e uma Natureza que funciona como deus regular. Muito tarde conquistou fama – os hotéis e toda a armadura do turismo como indústria, são coisas relativamente recentes, muitas vezes implantadas ao deus-dará, sem bom gosto e sem bom senso. Até meados do século passado, o Algarve, sobretudo o litoral mais vistoso, era quase apenas um segredo para pequenas elites nómadas, vindas daqui ou dali.

Com as ligações terrestres ao resto do País a chegarem sempre tarde e desfasadas, o avião mudou a paisagem humana, e às antigas elites sucederam-se multidões circunstanciais que chegam e abalam, com os que estão a preencherem o tempo com os cálculos e proveitos do IVA, das taxas de ocupação, das dormidas, da imobiliária, do emprego quase limitado a serviçais, e, agora menos, da construção civil, restando ainda algum trabalho para os profissionais dos contenciosos.

Muito atentas ao consumo, por aí se espalharam as chamadas grandes superfícies – há terras onde o número de tabuletas para os hipernercados é mais que as ruas. Instalaram-se sem contrapartidas, estoiraram com o comércio tradicional, parte do qual poderia e deveria fazer parte de um turismo sustentável e integrado, e nos seus escaparates, trocaram os produtos agrícolas locais, as primícias da terra e o peixe fresco das lotas, pelos congelados da Cochinchina, sobretudo da Cochinchina espanhola. Além disso, o Algarve dos meses de consumo, rapidamente transformou o litoral numa fastidiosa banca de vendas de tudo o que não é da região cujo sistema produtivo partiu a espinha. São vinhos do Alentejo, muito dos quais horroroso, é artesanato do Alentejo, muito do qual horroroso é, é até pão do Alentejo a fazer uma espécie de ocupação quando cá pão e padarias não faltam. No fundo, imitam alguns grandes hotéis que também por aqui se implantaram como califados cujos sultões estão distantes, importando-se apenas com as odaliscas.

O turismo vive deste círculo vicioso e alimenta-o, os dias, meses e anos passam, e estamos nisto. Outrora o ano bom era o muita alfarroba, muita amêndoa, muito figo e muito e bom peixe, agora o ano bom é o da faturação da banca de vendas, sem se olhar a mais, sem se ver mais, sem se perceber que um turismo como indústria a sério, já que essa parece ter sido a aposta, assim morre na casca, mais dia menos dia, e se não morre vegeta. E os vendedores, tão rapidamente se instalaram desenraizados e alheios à terra de acolhimento, como mais rapidamente levantarão asas ao primeiro sinal de trovoada.

Os que vieram para aqui para roubar uma paixão, da banca de vendas aos serviços, acabarão com a própria paixão. Mas não estamos isentos disso, o Algarve não está isento disso. Aliás, a maior parte da culpa lhe caberá. Continuem com a “cultura” capturada pela animação pimba, continuem com o desdém pelo património e a patrocinar belas palhaçadas, continuem a proceder para que o Algarve se esqueça do próprio Algarve, e verão. Estamos em 2014, e oxalá que em 2034 ou mesmo já em 2024 não tenhamos que lembrar a advertência. Caso então não exista já SMS, outros pela certa o farão, se até os arquivos de jornais não desaparecerem.

Carlos Albino
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Flagrante chumbo: A RTA neste exame que já leva anos. Não passou da escrita.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

SMS 579. De Luís Castro Mendes, poeta.


4 setembro 2014

Aqui fica a resposta a um pedido. O poeta Luís Castro Mendes (o avô, José Rosa Madeira, de Loulé, e pai, o juiz Castro Mendes, saudosa e emblemática personalidade moral de Faro), foi, como embaixador, em missão do Conselho da Europa, a Baku, capital do Azerbaijão, na semana finda. Foi-lhe pedido que fizesse a dádiva de um poema sobre os alicerces do Algarve e os alicerces dessa remota capital. Um jogo que só a Poesia permite e a História deve aceitar. A resposta veio prontamente, com a imagem que antecede e o poema que se segue.

Poema dos alicerces de Baku
prometido a um algarvio desconhecido

O mausoléu do Xa Sirvan
é igual a tantos túmulos mongóis que visitei na Índia.
E as delicadas miniaturas que vejo no museu
são em tudo semelhantes
as que vi na Índia do norte.
Mas já a sepultura do santo sufi me lembra o mosteiro
que existiu  na falésia da Arrifana, no Algarve mouro,
e as ruínas que ficaram do hamman
neste palácio imperial, destruído pelo Czar de Todas as Rússias
do antigamente,
vem lembrar-me os alicerces mouros de Loulé destruídos pelos reis cristãos
e pelos tremores de terra, que ajudam muito
a renovar as civilizações e a limpar as culturas
(tal como as guerras).

Rumi disse "viemos ao mundo para unir, não para dividir".
Mas à beira do mar de Azov preparam-se para continuar a dividir
até a ultima gota de sangue. Aqui é como se estivéssemos longe.
Bebemos bom vinho do país
e as raparigas passeiam pela avenida de cabeça erguida
e cabelo descoberto, só as turistas turcas e iranianas andam de véu
e pouco se fala aqui da guerra dos russos,
pois jorra o petróleo, o petróleo sobe mais à cabeça
do que o vinho neste país.
Eu queria falar em alicerces, tinha prometido a um amigo,
mas acabei a olhar para as suaves e firmes raparigas
do Azerbaijão
e a sonhar com guerras e impérios.
Deus me perdoe...

Luís Castro Mendes
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Flagrante fenómeno: Não é que por essas praias afora, se descobre que na hora de decidir no Algarve, há um sem-número de avestruzes com as cabeças enterradas na areia?

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

SMS 578. Arte pública e coisas afins

A urna de pedra rodeada ainda de calhaus substituídos rapidamente por calçada
28 agosto 2014

Admito que este apontamento esteja destinado a não receber grandes aplausos dos chamados setores implicados, mas depois de ter observado muita arte pública por aí plantada no Algarve e muitas coisas afins que, sendo gostos privados, se impõem à vista pública e à paisagem comum de todos, não adio o comentário que também há muito ferve. É que aprecio muito as obras do Siza Vieira e do Souto Moura mas confesso que me repugam as sizanices as soutelezas que, com vistos e aprovações camarárias, colocam nas cristas dos montes com o mar ao fundo, brigando com tudo, rompendo com tudo, adulterando tudo, estragando tudo. Qual património paisagístico, qual enquadramento arquitetónico, qual padrão estético, qual bom gosto, qual bom senso! Há, no Algarve, casas novas, construídas de raiz, que se justificam sem dúvida no Pólo Norte para esquimós, ou no Pólo Sul para donos de pinguins. Há “monumentos” que, Santo Deus, não passam de brincadeiras de crianças. Um, por exemplo, destinado a homenagear os Combatentes, não passa de uma urna de pedra para um soldado desconhecido com cinco metros de comprimento e, mesmo assim, ficando este com as botas de fora – mais grave, não se vendo as botas. Além disso, com uma frase inscrita na chapa de pedra atribuída a Camões e invocando os Lusíadas. Assim mesmo: “Ditosa a Pátria que tais filhos teve”. Ora nem Camões escreveu isso, nem consta nos Lusíadas, nem o que deveras escreveu se destinou, no plural, a combatentes da I, da II ou da III Guerra, mas, no singular, a Nuno Álvares Pereira – Ditosa a Pátria que tal filho teve (Os Lusíadas, VIII, 32, 5). Este erro crasso e, por assim dizer, esta falta de respeito por Camões e pela sua obra maior, está à beira de escolas.

Culpa da câmara, do seu presidente de ocasião ou do vereador circunstancial? Claro que não. Possivelmente ninguém tem culpa, embora alguém seja ou tenha que ser responsável. Uma asneira nunca cai do céu. A a asneira dá azo à asneira seguinte, que tanto pode ser a viabilização de uma sizanice que põe em crise a paisagem, seja esta urbana ou rural, seja a asneira que transforma uma praça redesenhada numa armadilha pública, por exemplo, com a introdução de regatos e mais regatos onde qualquer cidadão desprevenido pode partir uma perna. Brincadeiras de crianças arvoradas em arte pública, feitas ou concebidas por quem não foi eleito mas que impõe a quem foi eleito critérios mais que duvidosos e erros crassos.

E porquê, isto? Porque, para a arte pública, falta escrutínio público. Mas falta também a atenção da Ordem dos Arquitetos que, na matéria, tem deveres públicos e responsabilidades igualmente públicas. Siza Vieira é que não tem culpa das sizanices no alto dos montes com mar ao fundo e Souto Moura culpa não tem dos regatos que vão partir pernas.

Carlos Albino
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Flagrante balde da água fria: O encerramento do Pátio das Letras, em Faro, após o encerramento de outras livrarias no Algarve. Dirão que a FNAC vai abrir em Faro e os supermercados e hipermercados vendem livros como amêijoas do Japão, sobretudo livros mais destinados a curar a disfunção do que as amêijoas. Todavia, oh cidade, diz-me as livrarias que tens e dir-te-ei quem és.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

SMS 577. “O senhor sabe com quem está a falar?”

21 agosto 2014

Tem sorte, muita sorte, quem não ouve, por dá cá aquela palha, da boca de alguém a quem se fez reparo calmo e justo, a seguinte resposta de dedo esticado e apontado ao peito: “O senhor sabe com quem está a falar?” Há gente que vem ao Algarve por dois dias e meio e procede como se entrasse numa colónia na qual todos os indígenas são mainates. Outros que aqui se estabelecem e pensam que, após mês e meio ou dois anos, a integração lhes dá o direito a serem superiores aos indígenas. Outros ainda que, sendo indígenas, julgam que deixam de o ser, imitando quem se julga com o rei na barriga mal passa as portagens de Paderne. Se por pouco não atropelava o pobre peão, e este interpela com um “por favor, tenha mais cuidado”, lá vem a resposta do homem ou mulher do volante: “Você sabe com quem está a falar?”. Esta semana, por exemplo, contaram-me que um reconhecido oficial superior do exército à paisana com sotaque beirão adaptado a alfacinha, atravancou com o seu carro, a entrada de uma garagem particular. Quem queria sair, teve que esperar que o ilustre desfardado almoçasse, bebesse, risse e até falasse mal dos algarvios – “Uns bárbaros! Uns mal carosos, malcriados até dizer basta!”, houve quem ouvisse. Chegado ao carro, o dono da garagem, com paciência de santo, apenas observou: “O senhor estacionou mal…” e foi o suficiente para pergunta colonial – “Você sabe com quem está a falar?”

É claro que nem todos são assim ou assim procedem, embora cada vez mais sejam as exeções à regra. E na generalidade dos casos, a coisa fica por breve discussão, com o malcriado a partir para o anonimato que o deu à luz. Já é grave, quando o malcriado, em vez de desaparecer no horizonte dos filhos de pai incógnito, tem uma tribuna pública, generaliza a resposta de algum mainate menos paciente, inverte os factos, escreve, por exemplo, uma crónica moralmente destinada ao todo nacional intitulada “Os Algarvios”, e enfrenta os indígenas todos e sem exceção, com a mesmíssima pergunta do perverso desfardado: “Vocês, algarvios, sabem com quem estão a falar?” Também é claro que sabemos – estaremos a falar com alguém que se julga da pura raça ariana e que pensa ter bota suficientemente grande para esmagar os donos legítimos da pequena e modesta garagem.

Que os Algarvios não o imitem, são os nossos votos. E, se lerem uma crónica dessas, se limitem a perguntar: “Julga que a gente não sabe esperar até que o senhor perca a sobranceria da farda com que gostaria de passear, ficando tão feio em calções de banho?”

Carlos Albino
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Flagrante surpresa: Não se retira uma linha ao anterior apontamento sobre associações sem associativismo e sobre subsídios que só por si fazem associações, como se conclui de uma dissertação de mestrado, apesar de verde e com lacunas. Mas foi uma surpresa, quando na leitura de pormenores, se verificou que a dissertação foi dedicada pela autora, aos pais, a uma irmã e… “Ao meu gato Ruca”. Para não se humilhar o gato, mais não se diz.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

SMS 576. Tal como a água se some na areia

14 agosto 2014

Por vezes a gente embate com um estudo criterioso, com uma pesquisa fundamentada e com uma conclusão que se devia respeitar, não como artigo de fé, mas como pista para melhoria da Sociedade, e é como se agente embatesse com um meteoro, um pedregulho à deriva e que depois do embate, à deriva continuará por esse caos das inutilidades, sem aproveitamento, submergindo na escuridão. As universidades estão cheias desses pedregulhos que resultam em mestrados e em doutoramentos em número e com temas sem fim, muitos deles que deviam fazer parte do acervo da Política e basear as decisões, planos e programas políticos, mas, desaproveitados, ficam a andar por aí às curvas desaparecendo como meteoros nos confins. Ou, tomando como metáfora, verificações mais próximas dos olhos, são como a água que se some na areia. A Universidade do Algarve também tem disso, e se a sua água se some, a culpa não será da universidade, mas da areia dos poderes, todos, dos locais aos centrais, qual deles melhor ou pior que o outro. Se a conclusão incomoda e colide, some-se.

Ora aconteceu que, andando eu por esse caos, embati com o meteoro de uma dissertação de 2011, em sede da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, precisamente com este título: “O Universo Associativo no Concelho de Loulé - Formas de interacção entre a Câmara Municipal e as suas Associações: estudo de caso”. Foi uma dissertação para a obtenção do grau de Mestre em Administração e Desenvolvimento Regional, da autoria de Carina Castanheira Guerreiro, que não conheço mas que logo lhe retirei o peso da metáfora de meteoro errante, vendo que se trata de boa água, tão boa que não devia sumir-se na areia. Certamente que haverá mais estudos sérios, envolvendo o Algarve no seu todos ou nas suas partes, e sobre os mais diversos temas de elevado interesse para a Sociedade.

O trabalho é longo, 329 páginas, estou a ler atentamente, até porque 2011 não é assim tão longínquo. Vou pela metade, mas já deu para validar a conclusão enunciada à cabeça: “Os resultados confirmam as hipóteses de partida, isto é, o Associativismo Louletano está muito dependente dos subsídios atribuídos pela Câmara, subsídios que são pouco objectivos e criteriosos, existindo o risco de alguma arbitrariedade. Paradoxalmente, assiste-se a um aumento do número de associações, mas ao mesmo tempo, a uma diminuição da participação pública. Podemos concluir, pois, que na ausência de uma definição estratégica municipal, o Movimento Associativo Louletano não é parte integrante das políticas públicas locais. Esta é, afinal a característica mais relevante das políticas públicas locais de primeira geração”.

Claro que, com uma conclusão destas em 2011, a água teria que sumir-se pela areia e, hoje em 2014, a areia está seca. Para conveniência geral: dos que beneficiam do caos e dos que são beneficiados por tudo isto andar à deriva. Todavia, oportuna adversativa, parabéns Carina Castanheira Guerreiro. Mais vale tarde que nunca.

Carlos Albino
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Flagrante constatação: A Comunicação Social do Algarve, toda, das empresas a agentes devia começar por duas coisas simples: a legalidade e a transparência. Devia deixar-se das paredes-meias. Ninguém nisso sobrevive em verdade, e, sem isso, invocar a Ética é o mesmo que invocar o santo nome de Deus em vão.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

SMS 575. Orquestra do Sul, uma metamorfose

7 agosto 2014

No passado dia 2 de agosto, a Orquestra do Sul fez um ano. À mesma data, se fosse viva, a Orquestra do Algarve faria doze. Para comemorar o nascimento da segunda e o adeus à primeira, houve um concerto no Conrad Hotel, e ao que parece nenhum presidente de câmara do Algarve assistiu. Foi pena, fizeram falta. Deveriam ter estado para contemplar aquilo que a sua incompreensão levou à falência. A falência de um projeto que os seus antecessores e as forças económicas que movem o Algarve não permitiram fazer vingar em tempo útil.

Ninguém duvida da dificuldade de manter uma orquestra sinfónica digna desse nome e conceito, numa região em que os principais cultores da música clássica são os residentes estrangeiros, e os amantes nacionais, não tão escassos quanto isso, no momento de sair de casa, primam por outras escolhas. Um erário público deficitário, uma crise financeira instalada a nível nacional, e uma moda internacional de tudo desmantelar para agradar aos mercados, fizeram o resto. Demasiada adversidade contra um sonho belo. Para não se fecharem as portas e vender-se em hasta pública casacas e violinos, os responsáveis fizeram o que lhes pareceu possível ser feito – Transformaram a sinfónica numa orquestra versátil. Na noite do primeiro aniversário, passou-se da ópera ao jazz, do jazz ao fado, do fado à eletrónica, e como mostruário, foi bem sucedido. Nós ficámos a saber do que a nova orquestra é capaz, e os investidores presentes, se os havia a sério, folhearam um mostruário. O problema é que da versatilidade à metamorfose vai um breve passo.

Onde vai parar a Orquestra do Sul?

Parece que em breve irá acompanhar a fadista Gisela João, e que se seguirão outros e vários acompanhamentos. Casamentos? Jantares de ocasião? Cómicos? Danças de roda? Emanuel? Batizados? - Cuidado. Quem nos avisa nosso amigo é. A noite da celebração do primeiro aniversário foi simpática, e dói escrever estas linhas. Mas nas mesas redondas sobre as quais se serviu um magnífico jantar, muitos fizeram silêncio com receio da metamorfose. Em breve, o rebento que saiu da Orquestra do Algarve poderá não mais ser um sítio honrado para os grandes intérpretes, como no caso, felizmente, foi o trompetista Francisco López, e o barítono Job Tomé. Quando isso acontecer, nós todos seremos responsáveis. Por não nos movermos, não dizermos, não nos cotizarmos, não exigirmos, não mostrarmos que o Algarve precisa de música diferente da que se ouve nos supermercados e se escuta nos telemóveis. Confesso, na inevitabilidade da escolha destes hibridismos, eu não queria dormir sobre a almofada onde os que dirigem a Orquestra do Sul repousam a sua cabeça. Mas ficaria de mal com a minha consciência se não lembrasse que um híbrido tem de manter a natureza do seu elemento fundador intacta, de contrário, está destinado a perder-se na sua metamorfose e a morrer.

Carlos Albino
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Flagrante falta: Agora, sim. Faz falta um Congresso do Algarve, com reuniões regulares e que seja a voz plural e institucionalmente credível da Região. E não apenas uma assembleia circunstancial de boas vontades. Não se vê outra instituição que possa fazer isso, a não ser a AMAL. De outra forma, toleramos que isto se transforme numa freguesia de Évora.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

SMS 574. Política por e-mail e telefone

31 julho 2014

Os partidos – do CDS, pelo PSD, PS, BE e PCP até aos extra-parlamentares – existem porque há liberdade dos eleitores, e por entre estes a liberdade de associação política dos militantes. Monsieur de La Palice diria isto. Quando um partido pode invocar que o conjunto dos seus militantes traduz uma “minoria esclarecida”, isso será um bom sinal, desde que a minoria não seja prepotente e não se julgue escolhida por inspiração divina. Será mau, péssimo sinal quando tal minoria entre em rutura com o eleitorado, deste se distancia ou dele apenas se aproxima oportunistamente nas vésperas e nos dias de eleições, esquecendo-o no dia seguinte ou no dia em que, por via do poder conquistado pelo sufrágio, passem a exercer os mandatos e tomem o comando das funções e cargos públicos que foram os alvos da disputa. Ninguém que se submeta ao voto pode dizer, sem hipocrisia, que o poder não lhe é coisa apetecida. E não há mal nenhum nisto, antes pelo contrário. Mal haverá, sim, se a conquista do poder decorre exclusivamente do carreirismo e do elitismo. Daí a responsabilidade dos partidos, primeiramente perante os seus próprios militantes, depois perante os eleitores circunstancialmente afins, e, finalmente perante a Sociedade. Além disso, quanto maior for o partido, também maior a responsabilidade.

A nível nacional, o carreirismo e o elitismo poderão ser fenómenos que ficam diluídos por pressão das centrais partidárias ou pelo “sábio” uso dos meios de comunicação, por vezes numa promiscuidade irritante, mas a nível regional e local, os danos são imediatos – os eleitores afastam-se e o défice democrático avoluma-se. É o que tem acontecido no Algarve, sempre que os seus eleitos (deputados e autarcas) estão na política como aqueles a quem tenha saído a sorte grande. Estão em mandatos, cargos e funções porque tiveram a sorte ou receberam o favor de figurarem nos chamados “lugares legíveis” e nada mais. A pessoa pode ser de uma honestidade à prova de bala, isso não está em causa, mas se é verbo de encher, ou se mandato e cargo é apenas para encher o seu “eu”, a carreira do seu “eu” e a elite do seu “eu”, fica tudo estragado.

Ora, tudo começa nas direções regionais dos partidos. É incompreensível que, sendo regionais, estas fiquem entregues a gente que vive fora da região semanas, meses e anos, trabalha fora da região de dia e possivelmente de noite, com carreira fora da região de segunda a sexta, e eventualmente vindo à região nos sábados e domingos para ver quatro primos, ralhar com os pais e lanchar com dois vizinhos, pelo que é gente literalmente desconhecida na região ou cujo nome é reconhecido, vá lá, apenas pelos canais de imposição da central do carreirismo e do elitismo. Caso se pergunte a essa gente o que é que deveras fez pelo Algarve ou pela sua terra, a resposta, se for sincera, terá que ser esta: “Nada”. Poderá ter discursado muito, poderá ter figurado ao lado de todas as celebridades nacionais, mas não fez nada.

E caso dirijam regionalmente as estruturas regionais que precisam dos eleitores da região como de pão provinciano para a boca provincial, naturalmente que essa “direção” só pode ser exercida por e-mail e por telefone, ou aos sábados e domingos, desde que não haja praia, faça vento e não caia chuva. Com prejuízo dos primos, dos pais e dos dois vizinhos.

Ficou bastante por dizer. Temos tempo. Por ora, para bom entendedor, mais palavra basta. Para os maus entendedores, Monsieur de La Palice dá a resposta.

Carlos Albino
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Flagrante Mendes Bota: Justiça lhe seja feita e reconhecimento devido lhe seja prestado. Neste dia 1 de Agosto, entra em vigor a Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e o Combate à Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica, conhecida, como é da praxe, por Convenção de Istambul, cidade onde foi assinada. Mendes Bota foi o promotor e persistente pugnador da convenção, que é tão importante que deve entrar na casa de cada um. É o Pai da Convenção que por sinal também teve um bom padrinho algarvio: o embaixador Américo Madeira Bárbara.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

SMS 573. E o rali pouco ralado com o Algarve


17 julho 2014

A questão da retirada do Rali para o Norte, subiu (ou desceu) para a chicana política, com algum argumentário passível de discussão, mas também com outro argumentário próprio de espíritos com motor gripado e provincianismo atroz. O passível de discussão, refere-se à RTA, que não pode fazer mais porque nada pode fazer: é uma entidade esvaziada pelas sucessivas leis que a reduziram a pó. Sem relevância política e espartilhada pelas tutelas. Se a tutela é do Norte, esta tudo faz pelo Norte, e se foi nomeada pelo Norte ainda que por concurso público talhado à medida do fato do Norte (não é, Pires de Lima?), a RTA é uma “área”, mas sem superfície política. A total sujeição dos seus atos aos poderes de tutela, às homologações e às autorizações, colocam a RTA na mesma posição do cabo da GNR em patrulha no Cachopo face ao Quartel do Carmo. Isto tem a ver com a retirada do rali e com tudo o mais. E os que criticam a RTA pela retirada, apenas pecam por não dizerem claramente que há um erro de política legislativa, ou, se não é erro, tal política é uma deliberada serventia à constelação de lóbis do Norte, que é mesmo constelação, diria o cabo ao Quartel do Carmo

Mas se a RTA tem gente de bem e proba, assim estamos em crer, tome-se nota de como a RTA avalia a retirada do rali, além de se dizer “desolada”, o que é um desabafo sem cotação em bolsa. Em síntese e entre aspas, ou seja, por palavras próprias:

  1. – que “nunca foi pedido nada pelo Automóvel Clube de Portugal que não fosse feito pela RTA no último ano e meio, incluindo no envolvimento com os municípios”
  2. que “o presidente do ACP foi muito claro: a FIA exigiu levar o rali para Norte, face à maior presença de público
  3. que a RTA “falou sempre com o ACP e com as câmaras municipais”, que “não houve falta de empenho”, mostrou sempre “disponibilidade para assumir as exigências apresentadas”, e que “aquilo que a FIA encontrou no Algarve foi uma prova excecional em todos os aspetos”
  4. que a direção da RTA espera agora que a região seja “compensada” pelo Turismo de Portugal pela saída do rali
Perante isto, se alguém tivesse a consciência de ficar reduzido a cabo do Cachopo, demitia-se e não deixava os algarvios probos a atirarem-se uns contra os outros para gáudio do Norte, não tanto do público do Norte, mas dos lóbis do Norte. Dos não probos, a gente trata deles, e quanto a “compensações” serão esmolas tardias e humilhantes por mais brilhante que seja a prosápia do esmoler.

Carlos Albino
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Flagrante logística: Com que então, o Algarve não tem público para um rali de Portugal e tem público para tanto hipermercado do Norte, que anda por aí sobre rodas e sem contrapartidas?

quinta-feira, 10 de julho de 2014

SMS 572. Estação pateta

10 julho 2014

Como era de esperar e muita gente avisou, naturalmente que aquele tal Allgarve não deu em nada. Não deixou nem inculcou hábitos culturais, não promoveu a crença na cultura (antes pelo contrário, deu motivos para a descrença). Muita gente se iludiu porque a região, por relativamente largo período, entreteve-se com algumas dessas tribos nómadas que descem de Lisboa ou do Porto, empurradas pelo subsídio, com muita cultura às costas e pouca na cabeça, ou então muita na cabeça e pouca às costas. Muita gente andou de boca aberta por exposições, performances e outros trejeitos que deveras ninguém entendia porquê, como, para quê. Tudo se esvaziou com um balão, e essa tal sealy season da espampanância de uma cultura fora de órbita, abriu caminho à sealy season da cultura pimba mais pimba que há. Neste mundo pimba em que o Algarve se transformou, até houve já por aí um “evento” cujo ponto alto foi, nem mais nem menos, um anunciado “streap tease clássico”… E está certo, porque o uso da palavra “clássico” tira alguma roupa que ainda fique a tapar o resto da vergonha em que o Algarve se converteu.

Há exceções, evidentemente, mas são poucas. E as poucas exceções estão condenadas ao fracasso. A estação pateta domina o Algarve de lés a lés, com o elogio e prática da barriga, do berro e da manha. E se pela pela promoção da barriga, pela inflação do berro e da regra da manha houver pecado, as juntas de freguesia lá conseguirão o perdão para os fregueses com mais umas excursões culturais a Fátima, ao Castelo de Guimarães e ao Alqueva. Para além disto, sim, ainda temos as praias, e é preciso que o sol não se esconda e a água não esteja fria. Dizem os catalães que “é preferível ser cabeça de sardinha que rabo de atum”. Não sei deveras o que é que no Algarve se pretende atrair, se sardinhas com cabeça, se rabos de atum.

Carlos Albino
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Flagrante suspeita: Pelo que se houve dizer, por aí se prepara uma nova divisão geográfica e administrativa do País: do Tejo para baixo, constará apenas a Região Sul com capital em Évora, e o Algarve ficará reduzido a um concelho com 16 freguesias.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

SMS 571. Sophia, a quem o Algarve deu os nomes de tantas coisas

3 julho 2014

O Algarve dispõe de uma biblioteca pública com o nome de Sophia de Mello Breyner Andresen. Ou melhor, Loulé batizou assim a sua Biblioteca Municipal, ainda antes do falecimento de Sophia, embora a cerimónia de atribuição já tenha ocorrido depois, o que aconteceu sob forte clima emocional.

Os portugueses gostam de Sophia, os algarvios, muito. Não admira. O facto de ter escrito sobre o Algarve, de ter tido residências por estes locais, e de várias vezes ter assinalado o valor e os riscos por que poderia correr esta região, fazem dela nossa parente dilecta. Mas, mais do que por esses motivos, nós gostamos de Sophia. Gostamos, sobretudo, porque a sua poesia tem limpidez meridional, síntese clássica, traços de paisagem luminosa, inspiração em rostos que lembram que ela viveu aqui e amou este mar, esta paisagem e os nossos rostos que ela procurava como pérolas no Mercado de Loulé.

Agora, que passam dez anos sobre a sua morte, alguns que muito a amam e a lêem, e outros que nem olharam para a lombada de um livro seu, resolveram aproveitar o momento para fazer passar os seus ossos do local onde estava para o Panteão Nacional. Não vamos discutir o que fará Sophia ao lado de Amália e eventualmente de Eusébio, mas que o seu diálogo à sombra daqueles mármores deve ser interessante, lá isso deve. Seja como for, já que o critério de escolha de quem para lá vai sempre será aleatório, e sempre acarretará ridículo, deixemos que as coisas estejam como estão. Lá estão os restos mortais de Sophia naquele lugar abobadado, e será uma forma de se lembrar que Sophia, Eugénio de Andrade e Ramos Rosa, são poetas imensos.

Mas há um ponto que é de ressaltar. É que existem vozes de familiares indiferentes ao Panteão a que a sua mãe acedeu, refutando a honra e lembrando que antes a sua obra fosse estudada nas escolas de onde foi não completamente varrida, mas quase. E nós também estamos de acordo. Mas o que nos magoa, e é bom que se diga, é que nenhum dos familiares, sabendo que a Biblioteca que leva o nome de Sophia no Algarve, faz uma divulgação extraordinária das obras da sua mãe, junto dos jovens, jamais tenha tido a honra de receber um dos filhos, sobretudo os que são ligados às Letras, ao menos para dizer ao bibliotecário, Obrigado. Isso dá-nos que pensar e muito. Talvez a Sophia, que soube dar os nomes às coisas, tivesse um nome para essa atitude. Nós também temos um nome, mas não o dizemos em voz alta.

Aqui, no Algarve, dizem que as pessoas falam muito alto. Falam alto, para não dizerem o que lhes dói em voz baixa.

Carlos Albino
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Flagrante complicação: A burocracia oficial impõe que se chame Biblioteca Municipal de Loulé Sophia de Mello Breyner Andresen”, nove palavras para um nome de coisa tão simples e que entra no ouvido: Biblioteca Sophia. Basta.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

SMS 570. O Algarve de que muitos gostariam

26 junho 2014

Lamento dizer, o Algarve onde tanta gente nasceu e que tanta gente assumiu como berço tardio não é o Algarve de que muitos gostariam. Muitos, mesmo. Uns que até nasceram na terra mas que no lugar do coração têm uma carteira, outros que por aqui estão e vão estando até ao fim como se estivessem em Zurique sob sigilo bancário, ou, o que dá na mesma, em Marraquexe como negociantes de camelos.

Estes, que são muitos, gostariam de que o Algarve não tivesse cidades, nem vilas, nem sequer aldeias – basta-lhes a sua casinha, com leõezinhos na portada ou um Cristo-Rei com icterícia comprado naquela feira do mau gosto da Guia para simular catolicidade. O Algarve, para esses, termina nos muros da casinha e a sociedade limita-se aos dois Labradores, três Rottweilers e um Basset Hound para entretenimento das criancinhas na sala. Nos empregos, públicos ou privados, procedem como os antigos colonos da Rodésia mas sem chibata, porque, nos tempos que correm, não é conveniente exibir a chibata, embora a tenham pendurada atrás da porta. Caso sejam técnicos, desde matérias de leis e de saúde a projetos ou mesmo ao arranque de dentes, gostam de ser tratados como especializados geralmente em tudo, fazendo tudo também não propriamente sobre o joelho mas sobre contrapartidas que entram no rol dos segredos de confissão. Dão-se bem, enriquecem e a casinha vai-se ampliando até à imitação de um palácio de Sintra, não faltando janelas manuelinas. Para estes, as eleições no Algarve estão a mais, as câmaras apenas se justificarão caso tenham sintonia com os interesses da casinha, o mar até é dispensável sendo coisa horrível em comparação com as piscinas de água quente e água fria, o património histórico e arqueológico do Algarve é coisa de doidos gastadores do erário público, e quanto a bibliotecas públicas apenas se toleram para a apresentação de algum livro de “poesia” da sua autoria, pois também fazem “poesia” nas horas vagas para mostrarem vigor intelectual às esposas, embora a “poesia” não passe de versos do género – Comi um figo inchário/ e o meu Rottweiler ladrou./ Será amigo que bate à porta?/ Será ladrão?/ Diz-me o meu Cristo-Rei/ que já não está quem aqui falou./

As televisões, todas, a pública e as privadas, não falam do Algarve pelo que até na abertura da época balnear omitem o Algarve programando reportagens exaustivas sobre uma praia de calhaus do Oeste ou sobre uma poça de água promovida a estância? Dizem esses que ainda bem, é assim que Portugal se mostra como República Unitária. A linha de caminho de ferro é uma desgraça? A saúde uma desgraça é? A segurança vive do milagre de até os assaltantes não terem dinheiro para a gasolina necessária ao ataque? O governo obriga os professores do Algarve a deslocarem-se a Évora para reuniões que só aos professores do Algarve interessam? Ainda bem, porque Évora precisa de movimento e o Algarve tem movimento a mais na minha casinha, com os meus Labradores, os meus Rottweilers e o meu Cristo-Rei da Guia para o senhor padre se convencer que sou daqueles que têm fé, esperança e caridade que é aquilo que torna perfeito um pseudoalgarvio em Zurique ou em Marraquexe.

Carlos Albino
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Flagrante conclusão: Há motivos para concordar com Cavaco Silva: os défices das câmaras de direita, por maiores que sejam, são superávits; os défices de câmaras de esquerda, mesmo que sejam insignificantes, são estrondosos rombos nos dinheiros públicos e exemplos da mais danosa gestão.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

SMS 569O trabalho de sapa

19 junho 2014

Nisso, o mar é professor. Sabe como levar a cabo essa ação, sempre pela calada, contra rochedo aparentemente fortificado. Mas essa engenharia própria do mar também existe em terra. Basta uma simples viagem por autarquias, câmaras ou juntas, para se constatar que o trabalho de sapa não é apenas metáfora, mas sim ação oculta e ardilosa do dia-a-dia, geralmente atribuída pelos lesados às “estruturas intermédias” e que serve para tudo, como ação oculta que é. Tais “estruturas intermédias” são o enorme bojo onde cabe de tudo um pouco. Aí cabem os leais e os desleais, os beneficiários de mordomias e os purgados de mordomias anteriores, os justiçados e os injustiçados, os sábios promotores da lassidão pública e os zelosos na aplicação das decisões, os manhosos no retardamento da execução de medidas urgentes e os cumpridores avessos ao favor de circunstância, os distraídos para quem o horário do serviço público é menor do que o horário dos interesses difusos e os atentos com rigor ao bem comum - a lista é longa. Nem todos os que parecem desfavoráveis aos poderes eleitos, legítimos e consolidados, serão sapadores, como também alguns dos que aparecem colados à eleição, à legitimidade e à solidez do poder não passam disso mesmo – sapadores, especialistas da trama e da ação oculta na expetativa de benefício a prazo.

O sapador que faz trabalho de sapa, por vezes e porque está no seu carácter, é o primeiro a dar a pancadinha nas costas, fazendo-o para dissimular a ação oculta, sendo assim coerente, mais coerente do que aqueles que não são sapadores. Consegue minar e até desminar, sem que alguém possa dizer ou provar que o seu trabalho é demolidor. O bom sapador nunca é crítico, nunca está contra, diz sempre que está a favor no que é circunstancial e esconde-se atrás do primeiro biombo que encontra quando instado a pronunciar-se sobre o que é essencial. É tão coerente consigo próprio a tal ponto que surge aos olhos do cidadão comum como o verdadeiro sufragado e eleito em detrimento do poder do qual depende, porque na ocultação que faz de si próprio tem a faca e queijo na mão.

Nas sociedades onde haja um razoável anonimato social, os sapadores têm nome e até fazem gala com seus nomes. Onde não há anonimato social, também ficam sem nome ou deixam perder o nome, porque, nestas circunstâncias, também rapidamente perderiam a coerência. A coerência do trabalho de sapa. E nisso o mar é professor. Designadamente o mar do Algarve.

Carlos Albino
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Flagrantes desabafos: Não se sabe bem lá porque motivo mas cada vez mais se ouve no Algarve desabafos sobre a vontade de ligar as antenas ou o sinal exclusivamente para a televisão da Andaluzia, já que a de Marrocos é idêntica às de Lisboa e Porto.