quinta-feira, 31 de julho de 2014

SMS 574. Política por e-mail e telefone

31 julho 2014

Os partidos – do CDS, pelo PSD, PS, BE e PCP até aos extra-parlamentares – existem porque há liberdade dos eleitores, e por entre estes a liberdade de associação política dos militantes. Monsieur de La Palice diria isto. Quando um partido pode invocar que o conjunto dos seus militantes traduz uma “minoria esclarecida”, isso será um bom sinal, desde que a minoria não seja prepotente e não se julgue escolhida por inspiração divina. Será mau, péssimo sinal quando tal minoria entre em rutura com o eleitorado, deste se distancia ou dele apenas se aproxima oportunistamente nas vésperas e nos dias de eleições, esquecendo-o no dia seguinte ou no dia em que, por via do poder conquistado pelo sufrágio, passem a exercer os mandatos e tomem o comando das funções e cargos públicos que foram os alvos da disputa. Ninguém que se submeta ao voto pode dizer, sem hipocrisia, que o poder não lhe é coisa apetecida. E não há mal nenhum nisto, antes pelo contrário. Mal haverá, sim, se a conquista do poder decorre exclusivamente do carreirismo e do elitismo. Daí a responsabilidade dos partidos, primeiramente perante os seus próprios militantes, depois perante os eleitores circunstancialmente afins, e, finalmente perante a Sociedade. Além disso, quanto maior for o partido, também maior a responsabilidade.

A nível nacional, o carreirismo e o elitismo poderão ser fenómenos que ficam diluídos por pressão das centrais partidárias ou pelo “sábio” uso dos meios de comunicação, por vezes numa promiscuidade irritante, mas a nível regional e local, os danos são imediatos – os eleitores afastam-se e o défice democrático avoluma-se. É o que tem acontecido no Algarve, sempre que os seus eleitos (deputados e autarcas) estão na política como aqueles a quem tenha saído a sorte grande. Estão em mandatos, cargos e funções porque tiveram a sorte ou receberam o favor de figurarem nos chamados “lugares legíveis” e nada mais. A pessoa pode ser de uma honestidade à prova de bala, isso não está em causa, mas se é verbo de encher, ou se mandato e cargo é apenas para encher o seu “eu”, a carreira do seu “eu” e a elite do seu “eu”, fica tudo estragado.

Ora, tudo começa nas direções regionais dos partidos. É incompreensível que, sendo regionais, estas fiquem entregues a gente que vive fora da região semanas, meses e anos, trabalha fora da região de dia e possivelmente de noite, com carreira fora da região de segunda a sexta, e eventualmente vindo à região nos sábados e domingos para ver quatro primos, ralhar com os pais e lanchar com dois vizinhos, pelo que é gente literalmente desconhecida na região ou cujo nome é reconhecido, vá lá, apenas pelos canais de imposição da central do carreirismo e do elitismo. Caso se pergunte a essa gente o que é que deveras fez pelo Algarve ou pela sua terra, a resposta, se for sincera, terá que ser esta: “Nada”. Poderá ter discursado muito, poderá ter figurado ao lado de todas as celebridades nacionais, mas não fez nada.

E caso dirijam regionalmente as estruturas regionais que precisam dos eleitores da região como de pão provinciano para a boca provincial, naturalmente que essa “direção” só pode ser exercida por e-mail e por telefone, ou aos sábados e domingos, desde que não haja praia, faça vento e não caia chuva. Com prejuízo dos primos, dos pais e dos dois vizinhos.

Ficou bastante por dizer. Temos tempo. Por ora, para bom entendedor, mais palavra basta. Para os maus entendedores, Monsieur de La Palice dá a resposta.

Carlos Albino
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Flagrante Mendes Bota: Justiça lhe seja feita e reconhecimento devido lhe seja prestado. Neste dia 1 de Agosto, entra em vigor a Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e o Combate à Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica, conhecida, como é da praxe, por Convenção de Istambul, cidade onde foi assinada. Mendes Bota foi o promotor e persistente pugnador da convenção, que é tão importante que deve entrar na casa de cada um. É o Pai da Convenção que por sinal também teve um bom padrinho algarvio: o embaixador Américo Madeira Bárbara.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

SMS 573. E o rali pouco ralado com o Algarve


17 julho 2014

A questão da retirada do Rali para o Norte, subiu (ou desceu) para a chicana política, com algum argumentário passível de discussão, mas também com outro argumentário próprio de espíritos com motor gripado e provincianismo atroz. O passível de discussão, refere-se à RTA, que não pode fazer mais porque nada pode fazer: é uma entidade esvaziada pelas sucessivas leis que a reduziram a pó. Sem relevância política e espartilhada pelas tutelas. Se a tutela é do Norte, esta tudo faz pelo Norte, e se foi nomeada pelo Norte ainda que por concurso público talhado à medida do fato do Norte (não é, Pires de Lima?), a RTA é uma “área”, mas sem superfície política. A total sujeição dos seus atos aos poderes de tutela, às homologações e às autorizações, colocam a RTA na mesma posição do cabo da GNR em patrulha no Cachopo face ao Quartel do Carmo. Isto tem a ver com a retirada do rali e com tudo o mais. E os que criticam a RTA pela retirada, apenas pecam por não dizerem claramente que há um erro de política legislativa, ou, se não é erro, tal política é uma deliberada serventia à constelação de lóbis do Norte, que é mesmo constelação, diria o cabo ao Quartel do Carmo

Mas se a RTA tem gente de bem e proba, assim estamos em crer, tome-se nota de como a RTA avalia a retirada do rali, além de se dizer “desolada”, o que é um desabafo sem cotação em bolsa. Em síntese e entre aspas, ou seja, por palavras próprias:

  1. – que “nunca foi pedido nada pelo Automóvel Clube de Portugal que não fosse feito pela RTA no último ano e meio, incluindo no envolvimento com os municípios”
  2. que “o presidente do ACP foi muito claro: a FIA exigiu levar o rali para Norte, face à maior presença de público
  3. que a RTA “falou sempre com o ACP e com as câmaras municipais”, que “não houve falta de empenho”, mostrou sempre “disponibilidade para assumir as exigências apresentadas”, e que “aquilo que a FIA encontrou no Algarve foi uma prova excecional em todos os aspetos”
  4. que a direção da RTA espera agora que a região seja “compensada” pelo Turismo de Portugal pela saída do rali
Perante isto, se alguém tivesse a consciência de ficar reduzido a cabo do Cachopo, demitia-se e não deixava os algarvios probos a atirarem-se uns contra os outros para gáudio do Norte, não tanto do público do Norte, mas dos lóbis do Norte. Dos não probos, a gente trata deles, e quanto a “compensações” serão esmolas tardias e humilhantes por mais brilhante que seja a prosápia do esmoler.

Carlos Albino
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Flagrante logística: Com que então, o Algarve não tem público para um rali de Portugal e tem público para tanto hipermercado do Norte, que anda por aí sobre rodas e sem contrapartidas?

quinta-feira, 10 de julho de 2014

SMS 572. Estação pateta

10 julho 2014

Como era de esperar e muita gente avisou, naturalmente que aquele tal Allgarve não deu em nada. Não deixou nem inculcou hábitos culturais, não promoveu a crença na cultura (antes pelo contrário, deu motivos para a descrença). Muita gente se iludiu porque a região, por relativamente largo período, entreteve-se com algumas dessas tribos nómadas que descem de Lisboa ou do Porto, empurradas pelo subsídio, com muita cultura às costas e pouca na cabeça, ou então muita na cabeça e pouca às costas. Muita gente andou de boca aberta por exposições, performances e outros trejeitos que deveras ninguém entendia porquê, como, para quê. Tudo se esvaziou com um balão, e essa tal sealy season da espampanância de uma cultura fora de órbita, abriu caminho à sealy season da cultura pimba mais pimba que há. Neste mundo pimba em que o Algarve se transformou, até houve já por aí um “evento” cujo ponto alto foi, nem mais nem menos, um anunciado “streap tease clássico”… E está certo, porque o uso da palavra “clássico” tira alguma roupa que ainda fique a tapar o resto da vergonha em que o Algarve se converteu.

Há exceções, evidentemente, mas são poucas. E as poucas exceções estão condenadas ao fracasso. A estação pateta domina o Algarve de lés a lés, com o elogio e prática da barriga, do berro e da manha. E se pela pela promoção da barriga, pela inflação do berro e da regra da manha houver pecado, as juntas de freguesia lá conseguirão o perdão para os fregueses com mais umas excursões culturais a Fátima, ao Castelo de Guimarães e ao Alqueva. Para além disto, sim, ainda temos as praias, e é preciso que o sol não se esconda e a água não esteja fria. Dizem os catalães que “é preferível ser cabeça de sardinha que rabo de atum”. Não sei deveras o que é que no Algarve se pretende atrair, se sardinhas com cabeça, se rabos de atum.

Carlos Albino
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Flagrante suspeita: Pelo que se houve dizer, por aí se prepara uma nova divisão geográfica e administrativa do País: do Tejo para baixo, constará apenas a Região Sul com capital em Évora, e o Algarve ficará reduzido a um concelho com 16 freguesias.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

SMS 571. Sophia, a quem o Algarve deu os nomes de tantas coisas

3 julho 2014

O Algarve dispõe de uma biblioteca pública com o nome de Sophia de Mello Breyner Andresen. Ou melhor, Loulé batizou assim a sua Biblioteca Municipal, ainda antes do falecimento de Sophia, embora a cerimónia de atribuição já tenha ocorrido depois, o que aconteceu sob forte clima emocional.

Os portugueses gostam de Sophia, os algarvios, muito. Não admira. O facto de ter escrito sobre o Algarve, de ter tido residências por estes locais, e de várias vezes ter assinalado o valor e os riscos por que poderia correr esta região, fazem dela nossa parente dilecta. Mas, mais do que por esses motivos, nós gostamos de Sophia. Gostamos, sobretudo, porque a sua poesia tem limpidez meridional, síntese clássica, traços de paisagem luminosa, inspiração em rostos que lembram que ela viveu aqui e amou este mar, esta paisagem e os nossos rostos que ela procurava como pérolas no Mercado de Loulé.

Agora, que passam dez anos sobre a sua morte, alguns que muito a amam e a lêem, e outros que nem olharam para a lombada de um livro seu, resolveram aproveitar o momento para fazer passar os seus ossos do local onde estava para o Panteão Nacional. Não vamos discutir o que fará Sophia ao lado de Amália e eventualmente de Eusébio, mas que o seu diálogo à sombra daqueles mármores deve ser interessante, lá isso deve. Seja como for, já que o critério de escolha de quem para lá vai sempre será aleatório, e sempre acarretará ridículo, deixemos que as coisas estejam como estão. Lá estão os restos mortais de Sophia naquele lugar abobadado, e será uma forma de se lembrar que Sophia, Eugénio de Andrade e Ramos Rosa, são poetas imensos.

Mas há um ponto que é de ressaltar. É que existem vozes de familiares indiferentes ao Panteão a que a sua mãe acedeu, refutando a honra e lembrando que antes a sua obra fosse estudada nas escolas de onde foi não completamente varrida, mas quase. E nós também estamos de acordo. Mas o que nos magoa, e é bom que se diga, é que nenhum dos familiares, sabendo que a Biblioteca que leva o nome de Sophia no Algarve, faz uma divulgação extraordinária das obras da sua mãe, junto dos jovens, jamais tenha tido a honra de receber um dos filhos, sobretudo os que são ligados às Letras, ao menos para dizer ao bibliotecário, Obrigado. Isso dá-nos que pensar e muito. Talvez a Sophia, que soube dar os nomes às coisas, tivesse um nome para essa atitude. Nós também temos um nome, mas não o dizemos em voz alta.

Aqui, no Algarve, dizem que as pessoas falam muito alto. Falam alto, para não dizerem o que lhes dói em voz baixa.

Carlos Albino
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Flagrante complicação: A burocracia oficial impõe que se chame Biblioteca Municipal de Loulé Sophia de Mello Breyner Andresen”, nove palavras para um nome de coisa tão simples e que entra no ouvido: Biblioteca Sophia. Basta.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

SMS 570. O Algarve de que muitos gostariam

26 junho 2014

Lamento dizer, o Algarve onde tanta gente nasceu e que tanta gente assumiu como berço tardio não é o Algarve de que muitos gostariam. Muitos, mesmo. Uns que até nasceram na terra mas que no lugar do coração têm uma carteira, outros que por aqui estão e vão estando até ao fim como se estivessem em Zurique sob sigilo bancário, ou, o que dá na mesma, em Marraquexe como negociantes de camelos.

Estes, que são muitos, gostariam de que o Algarve não tivesse cidades, nem vilas, nem sequer aldeias – basta-lhes a sua casinha, com leõezinhos na portada ou um Cristo-Rei com icterícia comprado naquela feira do mau gosto da Guia para simular catolicidade. O Algarve, para esses, termina nos muros da casinha e a sociedade limita-se aos dois Labradores, três Rottweilers e um Basset Hound para entretenimento das criancinhas na sala. Nos empregos, públicos ou privados, procedem como os antigos colonos da Rodésia mas sem chibata, porque, nos tempos que correm, não é conveniente exibir a chibata, embora a tenham pendurada atrás da porta. Caso sejam técnicos, desde matérias de leis e de saúde a projetos ou mesmo ao arranque de dentes, gostam de ser tratados como especializados geralmente em tudo, fazendo tudo também não propriamente sobre o joelho mas sobre contrapartidas que entram no rol dos segredos de confissão. Dão-se bem, enriquecem e a casinha vai-se ampliando até à imitação de um palácio de Sintra, não faltando janelas manuelinas. Para estes, as eleições no Algarve estão a mais, as câmaras apenas se justificarão caso tenham sintonia com os interesses da casinha, o mar até é dispensável sendo coisa horrível em comparação com as piscinas de água quente e água fria, o património histórico e arqueológico do Algarve é coisa de doidos gastadores do erário público, e quanto a bibliotecas públicas apenas se toleram para a apresentação de algum livro de “poesia” da sua autoria, pois também fazem “poesia” nas horas vagas para mostrarem vigor intelectual às esposas, embora a “poesia” não passe de versos do género – Comi um figo inchário/ e o meu Rottweiler ladrou./ Será amigo que bate à porta?/ Será ladrão?/ Diz-me o meu Cristo-Rei/ que já não está quem aqui falou./

As televisões, todas, a pública e as privadas, não falam do Algarve pelo que até na abertura da época balnear omitem o Algarve programando reportagens exaustivas sobre uma praia de calhaus do Oeste ou sobre uma poça de água promovida a estância? Dizem esses que ainda bem, é assim que Portugal se mostra como República Unitária. A linha de caminho de ferro é uma desgraça? A saúde uma desgraça é? A segurança vive do milagre de até os assaltantes não terem dinheiro para a gasolina necessária ao ataque? O governo obriga os professores do Algarve a deslocarem-se a Évora para reuniões que só aos professores do Algarve interessam? Ainda bem, porque Évora precisa de movimento e o Algarve tem movimento a mais na minha casinha, com os meus Labradores, os meus Rottweilers e o meu Cristo-Rei da Guia para o senhor padre se convencer que sou daqueles que têm fé, esperança e caridade que é aquilo que torna perfeito um pseudoalgarvio em Zurique ou em Marraquexe.

Carlos Albino
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Flagrante conclusão: Há motivos para concordar com Cavaco Silva: os défices das câmaras de direita, por maiores que sejam, são superávits; os défices de câmaras de esquerda, mesmo que sejam insignificantes, são estrondosos rombos nos dinheiros públicos e exemplos da mais danosa gestão.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

SMS 569O trabalho de sapa

19 junho 2014

Nisso, o mar é professor. Sabe como levar a cabo essa ação, sempre pela calada, contra rochedo aparentemente fortificado. Mas essa engenharia própria do mar também existe em terra. Basta uma simples viagem por autarquias, câmaras ou juntas, para se constatar que o trabalho de sapa não é apenas metáfora, mas sim ação oculta e ardilosa do dia-a-dia, geralmente atribuída pelos lesados às “estruturas intermédias” e que serve para tudo, como ação oculta que é. Tais “estruturas intermédias” são o enorme bojo onde cabe de tudo um pouco. Aí cabem os leais e os desleais, os beneficiários de mordomias e os purgados de mordomias anteriores, os justiçados e os injustiçados, os sábios promotores da lassidão pública e os zelosos na aplicação das decisões, os manhosos no retardamento da execução de medidas urgentes e os cumpridores avessos ao favor de circunstância, os distraídos para quem o horário do serviço público é menor do que o horário dos interesses difusos e os atentos com rigor ao bem comum - a lista é longa. Nem todos os que parecem desfavoráveis aos poderes eleitos, legítimos e consolidados, serão sapadores, como também alguns dos que aparecem colados à eleição, à legitimidade e à solidez do poder não passam disso mesmo – sapadores, especialistas da trama e da ação oculta na expetativa de benefício a prazo.

O sapador que faz trabalho de sapa, por vezes e porque está no seu carácter, é o primeiro a dar a pancadinha nas costas, fazendo-o para dissimular a ação oculta, sendo assim coerente, mais coerente do que aqueles que não são sapadores. Consegue minar e até desminar, sem que alguém possa dizer ou provar que o seu trabalho é demolidor. O bom sapador nunca é crítico, nunca está contra, diz sempre que está a favor no que é circunstancial e esconde-se atrás do primeiro biombo que encontra quando instado a pronunciar-se sobre o que é essencial. É tão coerente consigo próprio a tal ponto que surge aos olhos do cidadão comum como o verdadeiro sufragado e eleito em detrimento do poder do qual depende, porque na ocultação que faz de si próprio tem a faca e queijo na mão.

Nas sociedades onde haja um razoável anonimato social, os sapadores têm nome e até fazem gala com seus nomes. Onde não há anonimato social, também ficam sem nome ou deixam perder o nome, porque, nestas circunstâncias, também rapidamente perderiam a coerência. A coerência do trabalho de sapa. E nisso o mar é professor. Designadamente o mar do Algarve.

Carlos Albino
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Flagrantes desabafos: Não se sabe bem lá porque motivo mas cada vez mais se ouve no Algarve desabafos sobre a vontade de ligar as antenas ou o sinal exclusivamente para a televisão da Andaluzia, já que a de Marrocos é idêntica às de Lisboa e Porto.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

SMS 568. Descaminhos de ferro

12 junho 2014

Recordo-me daquele tempo (2003) em que ouvi Durão Barroso, então primeiro-ministro, anunciar ao lado de Aznar na Figueira da Foz, uma linha de alta velocidade de Faro até Huelva. Logo lhe disse que não acreditava. E não acreditava por três razões: primeiro, pelos portugueses; segundo, pelos espanhóis; e, terceiro, porque a medida foi traçada com olho semi-fechado sobre o mapa. Vai ver, respondeu. E estamos a ver. Lá se conseguiu a eletrificação da linha até Faro, lá foram feitas umas obras mal planeadas numa ou noutra estação, e pouco mais. Qual linha dupla! Qual Huelva! Nada.  Segundo Barroso, o corredor Faro-Huelva seria planeado “em função dos resultados dos estudos a desenvolver”, por forma a que estivesse concluída antes de 2018 e, questionado sobre o financiamento necessário para colocar em prática o plano em período de contenção orçamental, o então primeiro-ministro assegurou existirem parcerias com a Refer, com empresas privadas e 20 por cento do Orçamento de Estado. Agora, o atual governo já não fala em Huelva, nem de 2018, mas promete, além da eletrificação total da linha do Algarve, uma ligação por comboio ao Aeroporto de Faro, segundo um plano de infraestruturas prioritárias a concretizar até 2022.

Temos todas as razões e motivos para não se acreditar nas profecias em matéria de comboios no Algarve e para o Algarve, até porque aquilo que está à frente dos olhos não são caminhos, mas sim descaminhos de ferro. As estações estão no colapso e sem sentido de serviço público, os comboios são sujos, porcos e maus, os serviços de ligações complementares para as localidades não existem nem os vinculados (ferroviários e rodoviários) querem que existam (invocam que são “concorrentes”…) e algumas obras feitas com razoável dispêndio (passadeiras aéreas, por exemplo) foram dinheiro deitado à rua. Estações sem funcionários ou com funcionários trazidos de longe por escassas horas; chegam pendulares e inter-cidades com as portas e serviços fechados, sem que ao menos haja a mínima indicação por onde os passageiros possam sair do cais de desembarque ou obter informações de orientação (então quanto a estrangeiros, presenciei estupefacção e atabalhoamento); as linhas numa imundície completa, com a CP a remeter responsabilidades para a Refer e esta para a CP, segundo me garantem funcionários impedidos de explicar mais. Isto não acontece no deserto, mas em zonas nevrálgicas, populosas e, já agora, de excelência turística, invocação de bom-tom que fica sempre bem fazer nas reivindicações normais.

Ora, a CP apresenta-se, desde de Junho de 2009, como uma entidade pública empresarial, detida a 100% pelo Estado Português, responsável pela prestação de serviços de transporte ferroviário nacional e internacional de passageiros, articulando-se a REFER  e com o IMTT - Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres (entidade responsável pela regulação e pela coordenação e planeamento).

E a REFER, criada em 1997, também embandeira como seu objeto principal, o serviço público de gestão da infraestrutura integrante da rede ferroviária nacional, dizendo desenvolver as suas atividades de acordo com princípios de modernização e eficácia, de modo a assegurar o regular e contínuo fornecimento do serviço público e proporcionando ao mercado uma infraestrutura de transporte competitiva e segura.

São responsáveis pela vergonha das linhas de comboios no Algarve não serem paralelas. Estão no descaminho. A Estação Loulé-Quarteira, é exemplo gritante dessa vergonha.

Carlos Albino
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Flagrante abraço: Foi feita uma homenagem a João Leal pelos seus anos de escrita. Por razões imperiosas não estive lá. Se lá tivesse estado, diria: “Aqui está um homem que raramente escreveu sobre si próprio, escreveu sempre sobre os outros, e, para ele, o Algarve não foi nem é um outro qualquer, é ele próprio entregando-se-lhe na escrita”. Tenho dito porque sou testemunha desse amor à terra.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

SMS 567. Gil Vicente esteve em Salir

5 junho 2014

Impossível de ser captada por máquinas de fotografar ou de filmar, mas não foi difícil verificar que a alma e o espírito de Gil Vicente esteve em Salir. E que, como todas as almas sem mãos para escrever mais autos e sem boca para os recitar em voz alta, Gil Vicente confiou nas mãos e nas bocas de anónimos para representar o Auto da Espiga, para mim inesperado.

Refiro-me, claro, à Festa da Espiga, portentoso teatro de rua, seguimento de farsas e de monólogos cortantes, enfim, ecos de tudo aquilo que Gil Vicente cultivou há séculos e que nunca me passara pela cabeça que estivesse na alma de Salir neste já adolescente século XXI. E tudo em verso. Versejadores e versejadoras, ali despejaram descrições de costumes, sátira, ironia e irreverências com o acordeonista João Carrusca a fazer alegre ligação às forças telúricas que irrompiam dos carros em desfile. Quem, neste mundo, busca personagens, ali estão ou com cabras trazidas pela mão, ou a propósito do vinho da Nave do Barão, das colmeias de Montes Novos, da padeira dos Toris, das lavadeiras do Almarginho, das mondadeiras das Barrosas, das mil verdades do Portel do Barranco bem provadas pelo medronho das Ameixiarinhas, da Califórnia e das Sarnadinha, da tiragem da cortiça do Barranco do Velho, da matança do porco da Cortelha, da empreita das Palmeiras – nomes e nomes que, por sí só, são poesia como aquele sol que nasce num verso a nascente e se põe no último verso a poente.

Estupefacto, assisti a tudo isto, encostado à casa de José Viegas Gregório que dá nome à biblioteca da terra e com quem mantive cumplicidade na guerra que travou para afirmar Salir, a sua terra, em tudo o que fosse canto onde coubesse uma palavra escrita ou dita. Ele não foi o inventor da Festa da Espiga mas foi ele que a fixou no espaço e no tempo, e a retirou da memória inorgânica certamente herdada de séculos. Não vem para o caso descrever essa cumplicidade, mas, palavra de honra, dei sempre o desconto ao entusiasmo e até à fé dele pelos autos da Espiga. Enganei-me e tive agora a prova. Não só por ali, em Salir, andou Gil Vicente cuja alma nunca se engana em andar pelo lugar da sátira e da ironia, como senti que também o espírito de José Viegas Gregório ali se vingou da minha descrença, ao me apresentar a heroína da festa, a D. Cremilde que há 47 anos é autora, actora e espectadora deste teatro cujo palco é uma rua do princípio ao fim, com Gil Vicente em cada cara. Gil Vicente que, como toda a gente sabe, era ourives e fez a Custódia de Belém em ouro fino. Nada me admira que Salir já esteja a fazer a sua custódia porque ouro e alma já tem. Falta apenas um pequeno sopro para que a sua Festa da Espiga, cheia de sátira, não seja mesmo um caso sério. Um pequeno sopro.
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Flagrante tema: Inacreditável o que acontece em estações ferroviárias do Algarve, sobretudo em áreas que são coração do turismo e da mobilidade dos algarvios. Partindo de um caso (Estação de Loulé-Quarteira), fica para a semana.
Carlos Albino

quinta-feira, 29 de maio de 2014

SMS 566. Europeias absolutamente nada algarvias

29 maio 2014

Passaram as europeias, com os resultados já esperados: abstenção, designadamente abstenção dos estrangeiros recenseados no Algarve, os quais, aparentemente, se isentam por autodefesa das questiúnculas domésticas mas que em matéria europeia não têm motivos para se isentarem, sobretudo eleitores alemães e britânicos. Para além da abstenção, o chamado fenómeno Marinho Pinto que não é fenómeno – o ex-bastonário há muito que vinha a fazer campanha e foi o único que há muito fez a chamada campanha de proximidade, sem esperar por listas, mastigações partidárias, convites do líder ou obtenção de consenso e apoios de “sensibilidades”. Marinho Pinto começou há meses e meses pela calada, precisamente com uma cultura de proximidade (conferências, colóquios, intervenções nos intervalos), entrou pela calada (clamando contra o mal comum que é a corrupção contra a qual se afirmou como advogado do diabo) e ganhou obviamente votos pela calada. Nenhuma surpresa quanto a este fenómeno, numa campanha eleitoral sem proximidade entre candidatos e eleitores, com maior e comprovada evidência no caso do Algarve onde as europeias não foram absolutamente nada algarvias. E porquê? Por causa das estatísticas, e do malfadado raciocínio político analógico que das estatísticas decorre, que é um raciocínio típico da senilidade precoce, quer quanto a indivíduos, quer quanto a instituições, regimes e sistemas.

O Algarve que, por esse raciocínio senil, foi, como região, erradicado dos apoios da União Europeia por alegadamente entrar no patamar dos níveis ricos, foi também pelo mesmo raciocínio estatístico desconsiderado pelos partidos na elaboração das suas listas, feitas em função do número de eleitores, e não em função da expressão política e da importância estratégica de afirmação das forças concorrentes. Em nenhum partido o Algarve contou, nenhum algarvio foi colocado em lugar potencialmente elegível, pelo que o grosso das campanhas aconteceu a norte. Mas também, reconheça-se, também no Algarve não houve lá grandes protestos por causa disso, pelo que uma senilidade pagou a outra, acrescentando-se que a abstenção do Minho, de todos os Douros, de todas as Beiras e de tudo o que tem Tejo depois do advérbio, pouco tem a ver com a abstenção do Algarve.

Caso cada partido se tivesse apresentado ao eleitorado algarvio, com candidatos da região ou identificados com a região, o caso teria mudado de figura. Não estaria tanto em causa a questão doméstica do governo, ou mesmo a descrença nesta Europa reduzida a Bruxelas que diz mata (em português) e a Berlim que acrescenta esfola (naquele alemão que prescinde de tradução simultânea), mas estaria em causa a capacidade deste ou daquele em colocar o Algarve mais e melhor na possível agenda europeia. O que, reconheça-se também, pouco importará aos operadores que sem escrutínio dominam a região onde não vivem nem residem, mas onde agem e não raras vezes subjugam por via de pró-cônsules como no tempo dos romanos.

E então, ou se muda de critérios, e a política, quando há senilidade, sabe qual a terapêutica para o rejuvenescimento, ou para a próxima será pior. A não ser que o Algarve passe a votar em conjunto com a Andaluzia. Do mal, o menos.

Carlos Albino
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Flagrante aparição de relojoeiros: É que para além do relojoeiro José João dos Santos Guerreiro, em Loulé, e Saul Silva, em Tavira, em Loulé há mais: o relojoeiro Albano Carvalho dos Santos, o relojoeiro José Manuel Farrajota, e, tal como me disseram, também ainda o “senhor Geraldo” e o “senhor Zeca Duarte”, este, embora já retirado, o grande consultor reverenciado por todos em matéria de mecanismos do tempo. Dá para fazer uma escola profissional.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

SMS 565Os novos corsários

22 maio 2014

Nada, nada temos contra a internacionalização das escolas, nada contra a mobilidade dos alunos além-fronteiras, nada contra novas perspetivas num mundo cada vez mais aldeia. Antes pelo contrário, é disso que a humanidade precisa para se conhecer e para se entender sem discriminação de nacionalidades, cores de pele, línguas faladas. Mas já nos repugna que alguns se aproveitem disso para explorarem “nichos de mercado”, para irem “ao ataque” nas escolas dos países mais fracos a fim de “fornecerem” jovens transformados em produtos, aos países mais ricos. Os corsários fizeram isso com outros produtos, e pelos vistos, os corsários também evoluíram. Se os corsários britânicos roubaram de Faro, em 1596, os incunábulos da riquíssima Biblioteca do Bispado do Algarve, porque não hão-de roubar os novos incunábulos das escolas, que são os jovens transformados em produtos de mercado, pelos critérios do mercado e pelos interesses do mercado? Repetimos: não é a mobilidade dos alunos e a cooperação internacional das escolas que se põe em causa. O que se põe em causa é o “ataque” dos novos condes de Essex, a “abordagem” dos corsários, o “desembarque” ao serviço da rainha que já é o novo feminino de mercado. E neste feminino, está em causa o recrutamento de alunos portugueses do ensino secundário para as universidades britânicas, onde os candidatos britânicos não são suficientes.

Nesta semana, o Diário de Notícias levantou o problema a seco e na forma indolor de peça jornalística, dando conta também, indiretamente, da qualidade do empresariado português que nem com os corsários aprende quanto mais com os professores e escolas, nos seus apelos. Aí se diz que uma aluna de 19 anos, estudante de hotelaria em Birmingham, três dias após a chegada à Inglaterra já estava a trabalhar num restaurante, cumprindo semanalmente 13 aulas, e que no fim de Junho seguirá para os EUA para estágio remunerado. E esta é coisa que, por exemplo no Algarve não acontece, mesmo por parte da maioria dos “operadores” britânicos que fora da pátria não fazem o que na pátria é regra, para gáudio dos condes de Essex. Mas isto ainda se compreende, é da crise, da invocada crise que tanto dá para surgir como imaculada filha da corrupção, como depressa aparece como mãe protetora dos seres errantes que vitimou.

Aquilo que não se entende de um todo, é quando o desplante do corsário é colocado à proa. Disse o homem desta façanha, o seguinte, como que para pedir perdão pela abordagem: “Posso dizer que 50 alunos angolanos nos rendem mais do que 200 portugueses”. E com isto, está tudo dito por parte do conde de Essex.

E o mais grave é que por cá ficam os alunos postergados pelo conde, com o sentimento de vergonha de valerem tanto que nem um corsário lhes pega. Como é que o empresariado apátrida, já de si corsariante, lhes pode pegar, remunerando pelo menos os estágios, e atraindo para cá alunos britânicos tal como a Inglaterra atrai alunos portugueses?

Carlos Albino
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Flagrante deus em Tavira: Por via fiável, somos informados de que para além do relojoeiro José João dos Santos Guerreiro, em Loulé, outro há em Tavira: Saul Silva. Foi o filósofo britânico William Paley que usou a figura do relojoeiro como analogia para deduzir a existência de Deus. Com tais deuses em Loulé e em Tavira, já não é preciso ir a Serpa, para se acreditar na eternidade dos relógios de parede.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

SMS 564. Um relógio de parede

15 maio 2014

Aconteceu que um relógio de parede, ao cabo de 30 anos a pendular, parou. Pensava eu que numa cidade como Loulé, havia relojoeiros, não digo um em cada esquina, mas enfim, dois, três, até mesmo quatro que não seriam demais, com dois a dois trabalhando lado a lado. Fui a relojoarias, mas sem relojoeiros para “relógios de parede”, e numa delas lá me indicaram que só teria duas hipóteses para resolver a questão: uma hipótese, era a de tentar naquela tal casa, vinte metros antes de tais semáforos, mas sem certeza; outra hipótese, seria ir a Serpa, ao Museu do Relógio… E perguntei, então em Faro? Nada nem ninguém, responderam. E Olhão, Tavira, Portimão que seja? Nada, não há conhecimento, o homem de Boliqueime deixou o ofício, um outro morreu, aqueloutro ficou com a mão incapaz depois de um ataque, é dos tempos. Ora, gosto muito de Serpa mas ir lá por um relógio de parede, seria fraca homenagem ao bom vinho local e aos bons queijos. Portanto, a única esperança era de contar os vinte metros até aos semáforos. Contei os vintes metros, e de facto, junto a uma janela, lá estava alguém com aquela lupa atarraxada nos óculos, cercado de relógios perfeitamente alinhados como um exército em ordem unida na parada. Respirei fundo. Estaria ali o salvador do relógio de parede.

Foi assim que fiquei a conhecer o senhor José João dos Santos Guerreiro, o resistente e sobrevivente relojoeiro de toda uma cidade e arredores. Entreguei-lhe a peça. E ele, como cirurgião do tempo (um relojoeiro é isto), espreitou, encostou o ouvido para o diagnóstico rápido, e disse-me que, dado o trabalho que tem entre mãos, só daqui a quinze, vinte dias, poderia fazer a operação ao doente. Com toda a delicadeza de profissional de cuidados intensivos, pendurou o relógio vitoriano num prego ao lado de um outro relógio de capela em convalescença. Despedimo-nos, até daqui a quinze dias. Dispensada ficou uma viagem a Serpa.

Mas porque se chegou a isto em matéria de ofícios? Não é por falta de trabalho, nem por falta de gente para trabalhar e que queira trabalhar (deixem-se de patranhas), nem por falta de gente que, não sabendo um ofício, queira aprender algum que bata horas certas com as horas de alguma vocação escondida (deixem-se de patranhas). Chegou-se a isto porque se criou uma espécie de vergonha e até de desonra em torno dos chamados “ofícios tradicionais”, iniciando-se um círculo vicioso que ninguém ousa romper, a começar pelos responsáveis públicos que gerem a legião de desempregados que as universidades e escolas engrossam também já tradicionalmente, por via de cursos desligados da realidade social e que debitam “especialistas em coisas gerais” para setores de trabalho altamente saturados e, mais grave, para atividades supostamente modernas mas empresarialmente inexistentes. Os especialistas especializados com muita honra e prestígio acabam por limpar quartos e sanitas, por serem telefonistas em consultórios dentários, e é uma sorte, sem grande honra. Falamos por metáfora, para não irmos mais longe.

Exposto o problema (o de numa cidade e arredores não haver um relojoeiro a não ser o senhor José João dos Santos Guerreiro, a vinte metros dos semáforos), não nos compete indicar a solução, aqui. Mas noutro local, iremos contribuir para isso. Professor já ou ainda existe: a vinte metros dos semáforos. Pelo que verifiquei, é mesmo professor e não precisa de recorrer à Wiquipédia para operar um relógio.

Carlos Albino
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Flagrante correção: Há duas semanas, meti-me com a Mãe Soberana de Loulé, referindo que colocaram no andor uma filha de gesso, engendrada, esta sim, por puro paganismo, e não a mãe secular talhada em madeira de oliveira. Dizem-me que afinal que não era a filha mas a mãe restaurada em Faro e que no restauro ficou com a cara da filha. Assim se prova que tudo o que é restaurado em Faro fica com a cara da filha. As minhas desculpas à mãe, se o reparo que me fizeram for filialmente verdadeiro. Mas que há duas mães, uma das quais pagã, lá isso há. Não há paganismo que não seja filho da mãe.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

SMS 563. A Ex.ma Sr.ª D. Irracionalidade

8 maio 2014

TEM NOME, tem código postal, não é um ser virtual como aparentemente parece. Chama-se Irracionalidade e nem uma nem duas vezes mas muitas, deixou de entrar na História Portuguesa assumindo até a função de dona de casa. Sempre que ela conseguiu atingir em pleno o seu poder de matriarca, deixou sempre as marcas dos pés e das mãos nas escolas, nas empresas, nas autarquias, nas associações e, como a principal função para a qual foi adestrada desde pequenina é espreitar, a Irracionalidade também está plantada à esquina das ruas e conhece todas as travessas e becos, mesmo os que o GPS não regista. Além disso, para entrar na casa de cada um, ela não bate à porta nem precisa de chave. Entra sem que alguém dê por ela. E se não entra, mostra-se na televisão fazendo com que tudo e todos, por mais célebres que sejam e por mais inteligentes sejam reconhecidos, entrem racionais para o ecrã e dois segundos após se comportem como irmãos gémeos da D. Irracionalidade.

Esta senhora, é bom que se registe, tem na verdade um alvo escondido. Esse alvo é a Comunicação. Sempre que uma Sociedade revelar possuir alguma comunicação, uma rádio, um jornal, um megafone que seja, a D. Irracionalidade não descansa enquanto não acabar com esses instrumentos da Racionalidade, que é filha de outra família. Família por regra perseguida pela família da Irracionalidade. Primeiro começa por tentar controlar o jornal, a rádio ou mesmo o megafone. Depois, quer o controle quer não, provoca-lhe a asfixia, ou por considerara a sua inutilidade ou para acabar de vez com a ousadia da crítica, do relato fidedigno ou do simples dos factos. Para a D. Irracionalidade, tudo começa a ser sério apenas quando todas as vozes da Racionalidade ficam abafadas.

E tem uma estratégia. Começa pelas províncias. Algum dia chegará a Lisboa, ao Porto, ou, vá lá, a Coimbra dos doutores, pois a D. Irracionalidade gosta do fado, gosto que cultiva a par da invenção de milagres. Mas começa pelas províncias, com pequenos gestos indolores cujos efeitos não ultrapassam a comarca. Começou por exemplo no Algarve. Começou, quer dizer: está instalada. Até dizem por aí que tem alojamento reservado nos principais hotéis, que faz turismo de saúde em inúmeros departamentos camarários e que até organiza procissões. Dizem isso, mas a D. Irracionalidade vem logo a terreiro desmentir, dizendo que não, que isso não é da sua cultura, nem da sua educação, nem faz parte da sua saúde, nem para isso passou a ser eleita. Passe bem!

Carlos Albino
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Flagrante sismo: Na saúde, no ensino, na cultura, na economia, na agricultura, nas pescas, nos transportes, nas infra-estruturas e nas super-estruturas. E perante um sismo destes, a alternativa ou alternativas não oferecem segurança, até porque está longe de ter sido feito o rescaldo. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

SMS 562. Segregação por se ser “algarvio”

1 maio 2014

Julgava-se que estava definitivamente enterrado aquele velho ditado vigente a Norte e Centro-Norte do País segundo o qual “Algarvios, Marroquinos e cães de caça são todos da mesma raça”. Segundo as conveniências, os marroquinos eram substituídos por alentejanos, mas a coisa dava no mesmo. Esse ícone da cultura racista portuguesa (que também é cultura…) produziu efeitos, a tal ponto que não foram poucos os algarvios que, até muito recentemente se não hoje mesmo, tiveram ou têm vergonha de assumir a sua terra natal nos salões de Lisboa e nas escadas por onde sobem os candidatos ao poder, seja no Estado ou mesmo nos partidos e centros de influência. Digamos que, para muitos, assumir o Algarve como terra natal funciona como mancha curricular e como fator inibidor de progressão na carreira de influência pública. Assim foi no Estado Velhíssimo: o Regulamento de Disciplina Militar, já em plena vida republicana do Século XX, chegava ao ponto de estatuir que os mancebos algarvios apenas poderiam ser cozinheiros e corneteiros. Foi assim no Estado Novo: o algarvio, pelo seu espírito liberal de nascença, era tomado como elemento de exceção sediciosa a quem não se poderia outorgar confiança. E de certo modo continuou a ser assim no Estado Novíssimo em que começámos a viver, convencidos de que o preconceito racista e discriminatório iria desaparecer e seria enterrado na vala comum das coisas podres do Estado Novo e do Velhíssimo.

Mas nada disso! A coisa continua, embora camuflada, e nota-se muito bem o esforço de muitos que subiram degraus, em evitar dizer que são algarvios. Nota-se uma espécie de vergonha e até de medo em que isso funcione como nódoa curricular que nenhuma lavagem a seco limpará, sobretudo se a lavagem for encomendada a lavandaria do Norte ou às suas inúmeras delegações na Capital. A rede está bem montada.

E a coisa continua nas listas concorrentes ao poder onde o algarvio só pode ser cozinheiro, nas bancadas do poder onde o algarvio só pode ser corneteiro, chega aos concursos públicos onde o algarvio só pode ser marroquino, e chega às esplanadas dos cafés onde até os cães de caça não disfarçam um riso obediente à voz do dono, quando lhes cheira a algarvio. Pior ainda: a coisa já chegou ao próprio Algarve, à coisa pública do próprio Algarve onde já, por vezes, o ser da terra é uma contra-indicação. Assunto para continuar.

Carlos Albino
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Flagrante turismo religioso: A substituição da secular Mãe Soberana de Loulé no andor, por uma filha de gesso e com ar de mãe precoce que nem completou o 8.º ano de escolaridade, é não só o pior dos paganismos, como, a continuar esse embuste, dita o fim da festa.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

SMS 561. Europeias, um bico-de-obra

24 abril 2014

Como em todos os parlamentos, os deputados representam os eleitores de todo o território a que digam respeito. Assim, no doméstico parlamento português onde os deputados da Madeira não representam a Madeira, mas o malfadado continente e ilhas, e os do Algarve, no rigor estatutário, também não podem fazer casulo. Os deputados são eleitos por cada círculo para representarem tudo. A rigor é assim, e esse é o argumentário para a disciplina de voto, mas também para impedir que o parlamento se torne numa assembleia parlamentar composta por delegações regionais fragmentárias. No Parlamento Europeu assim também é, muito embora os alemães deixem de ser alemães nas matérias melindrosas que digam respeito à Alemanha, o mesmo acontecendo com espanhóis, franceses, italianos, etc., e com portugueses. Se algum eurodeputado vota contra algum expresso interesse português, independentemente de ser do partido A ou B, cai o Carmo e a Trindade. Daí que, o Parlamento Europeu, não tão raro quanto se possa pensar, acaba muitas vezes por parecer mais uma assembleia parlamentar com delegações nacionais do que um parlamento.

Acresce que, em quase todos os casos, as campanhas ditas europeias, são desenvolvidas mais em função das políticas internas e dos despiques domésticos, do que em torno da política geral europeia. E nas chamadas eleições europeias, o que é europeu fica no abstrato e por vezes ininteligível (é preciso descodificar a linguagem) e o que é nacional é bom, como no velho slogan. Acresce ainda o desfasamento entre as legendas nacionais dos partidos e as dos “partidos europeus” a que se chama famílias. Também acresce que as campanhas europeias mais não são que testes intercalares do xadrês político doméstico, tidos como úteis para avaliar domésticas políticas. E ainda acresce que as listas de candidatos espelham ou procuram satisfazer as ânsias regionais já de si insatisfeitas ou então satisfeitas no doméstico parlamento. Em Portugal tem sido assim, pelo que o Norte, o Oeste, as Beiras, a Madeira, os Açores e de vez em quando o Alentejo lavrado pelo Ribatejo, através dos estados-maiores dos partidos, apenas se não podem é que não entalam um eurodeputado “regional” na delegação “nacional” para a família “europeia”. Para a eleição dos 21 deputados, no próximo dia 25 de maio, assim é, pelo menos por parte dos partidos já rotinados no conhecido exercício dos elegíveis.

No meio disto, para o Algarve as coisas estão pretas. Na lista do PS, Júlio Barroso está no 19.º lugar, não tem hipótese. Na CDU, Paulo Sá está em 9.º, hipótese não tem. No PSD com o CDS mais uma vez à boleia para três eurodeputados, José Mendes Bota figura no 9.º lugar, ainda assim o que pisa a porta desde que o eleitorado nacional não agite demasiado o caleidoscópio. A quem pergunte se interessa ao Algarve ter um eurodeputado em Estrasburgo e nos meandros de Bruxelas, claro que a resposta é: “Interessa, seja de que partido for”.  Não porque o Parlamento Europeu seja praticamente uma assembleia parlamentar com delegações nacionais, mas porque estas delegações são fundamentalmente expressão de pressões regionais. Os partidos que não colocaram nomes de algarvios em lugares elegíveis, nem sequer à porta, têm assim todas as condições para fazerem no Algarve campanha verdadeiramente “europeia” liberta do “nacional” e do “regional”, o que não deixa de ser um bico-de-obra.

Carlos Albino
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Flagrante reforço de agradecimento: A propósito dos dinheiros para as regiões, no que toca ao Algarve já aqui dissemos – “Obrigado, Poiares Maduro!”.  Agora que muita gente já percebeu, reforçamos – “Muito obrigado, muitíssimo obrigado Poiares Maduro!!!”

quarta-feira, 16 de abril de 2014

SMS 560. Duas festas milenares

17 abril 2014

São festas da convivência humana, não são imitação, continuam ano após ano como se tivessem nascido do chão, congregam crentes, descrentes e até quem não é uma coisa nem outra. O concílio de Trento, no longínquo século XVI, cristianizou-as, purgou-as do paganismo, deu-lhes novos nomes. Mas se é verdade que os deuses se foram embora despedidos por justa causa, os nomes ficaram como ficou a finalidade das festas: a convivência. A sã convivência. E quando assim é, uma festa popular nunca é contra o povo, e resiste como festa contra todas as tentativas para a separar das raízes que estão lá no fundo dos tempos e da sociedade. O documento que prova a sua proveniência não está em pergaminho, nem em papel. Está na raiz e no tempo. Refiro-me à Festa das Tochas Floridas ou Festas das Flores de São Brás de Alportel, e às Festas da Mãe Soberana de Loulé (a pequena e a grande) que cumprem a rigor o calendário lunar e assentam em chão fortemente romanizado. As explicações são muitas, cada qual com a sua lenda, a sua ficção e a sua história debitada mais pela intuição do que pelo documento. Mas nota-se que em qualquer dessas duas festas, há algo que não é apenas secular, é milenar. Que se filia em culturas que vêm dos confins do tempo. Aqui, há trabalho para historiadores e ofícios correlativos.

O que importa é destacar que. tal como chegam aos nossos dias, as festas lunares de São Bás e de Loulé são enormes festas da convivência, portentosas festas, resistentes à mística (boa ou má) e à mistificação (bem intencionada ou perversa). Nessas festas, o ator verdadeiro é o género humano com o seu instinto de pacífica apoteose quando se sente em reunião puramente humana, sem deuses, sem chefes, sem cabeças iluminadas. É claro que o pretexto, em São Brás, são as flores e também, um pouco às escondidas (já foi mais) a raiz quadrada do medronho, e que, em Loulé, é a Mãe Soberana (os romanos nunca designavam Diana pelo nome mas por Mater Soberana, assim mesmo). À parte o medronho e Diana, e à parte também o concílio de Trento, ficou como herança dos tempos, a convivência a galvanizar multidões cujas imagens fixadas por um fotógrafo de bons olhos, são imagens da paz em verdadeiros espetáculos da paz. Coisas destas como as de São Brás e de Loulé não se fazem de um ano para o outro, levam tempo, precisam de tempo, de séculos, possivelmente de milénios.

Como dizem os empresários de “eventos”, são espetáculos a não perder. E é pena que o turismo algarvio, perante tais eventos milenares, não ultrapasse o raciocínio analógico. E parou.

Carlos Albino
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Flagrante fronteira: Entre-se no Algarve por onde se entrar e não há uma placa, um post-it pelo menos, a sugerir que aqui ou ali começa ou termina o Algarve. Saudosos os tempos em que o governador civil dava as boas vindas ou em que havia aquele cartaz com uma chaminé da Mealhada e amendoeiras em flor até em agosto… Ao menos um disparate que marcasse a fronteira do Algarve. 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

SMS 559. Brutal défice de cidadania


10 abril 2014

Nestas semanas em que tenho contactado mais de perto com comunidades locais sem bases de anonimato social – todos praticamente se conhecem, todos são mais ou menos vizinhos uns dos outros ou primos dos outros vizinhos – têm-me levado a uma conclusão: há um défice brutal de cidadania. Sabia naturalmente que havia grande défice. Nunca imaginei que fosse brutal. Numa sociedade em que, por ser grande, a base do anonimato social impera, a gente não se apercebe bem desse défice, embora o sinta. Mas é disfarçado, ou pelo bom-tom, ou pelo respeito natural pelo cidadão desconhecido, ou por cerimónia, ou mesmo por interesse. E então pensa-se e até se inveja, como serão felizes os que vivem numa comunidade em que todos se conhecem e em que as regras da convivência, desde a convivência quotidiana à convivência política, não fica nos livros mas passeia na rua, está em cada casa, anima cada cabeça. Ora, nada disso!

As regras da convivência, a começar pelas da convivência política, são desconhecidas, cada vez mais desconhecidas e nem se disfarça o desconhecimento como acontece nas grandes sociedades. Nas pequenas comunidades locais até há quem se gabe e sinta orgulho do desconhecimento. Julgava eu que isso apenas se verificaria por resultado da iliteracia galopante, do egocentrismo cavado pelos profetas da Igreja Universal do Reino do Eu, por aí fora. Julgava que isso era próprio dos que, em termos de educação contínua, apenas reconhecem três aulas: a da telenovela balofa,  a do Sport TV e a dos saltitões da televisão pública. Ora, nada disso!

Encontro altos professores, magníficos arquitetos, eminentes advogados, gentilíssimos engenheiros, primorosos médicos, astutíssimos empresários e até santíssimos padres que gerem 17 paróquias, que não sabem nem nunca quiseram saber como funciona uma assembleia de freguesia ou que poderes e deveres tem a junta, que desconhecem os mecanismos básicos de uma assembleia municipal embora conhecendo muito bem os canais informais da câmara da respetiva comunidade local, quer para viabilização quer para torpedeamento daquelas decisões que raramente se livram de colagem a interesses difusos. Quer isto dizer que, se isto fosse futebol, coisa que todos entendem, o resultado seria este: Cidadania, 0 – Espertalhice, 7

Um brutal défice que afeta tudo, desde a Universidade do Algarve à Escola Básica da Fóia, da mansão em Vilamoura à casinha telhada na nascente da Ribeira de Algibre. Voltaremos ao assunto.

Carlos Albino
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Flagrante verdade: O Sporting Club Farense foi fundado a 1 de abril de 1910, um já remoto dia das mentiras. Até parece não ser verdade.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

SMS 558. A dívida de quem nada deve

3 abril 2014

 A palavra dívida arrumou-se ao lado de outras palavras de consolo ou tristeza nacional e que são mais três ou quatro. Palavra que, pelo desmedido abuso político com que é manuseada, acabou por fazer que todo um povo se sinta punido por ter praticado coletivamente algum enorme crime contra a República Portuguesa, contra a Europa e contra o Mundo.

Primeiro, pelas artes matreiras alojadas na política, com uns tais artistas a resumirem a a política ao combate contra outros artistas, ocultou-se ou dissimulou-se que o aumento sem precedentes da dívida foi fundamentalmente devido à crise internacional que marcou o ano de 2008. Depois ninguém quis esclarecer bem qual a parte do endividamento externo público, a parte do endividamento externo privado e, muito em especial, a parte o endividamento do setor empresarial. Apenas se disse claramente que o povo teria que assumir que a dívida é insustentável, para além de duradoura, ficando na glória quem melhor conseguisse ou consiga nque o povo aceite uma culpa que não tem. E vieram os cortes a torto e a direito, na saúde, na educação, nas reformas, nos salários, cortes em tudo para todo o povo castigado. Longas explicações cifradas acompanharam e vão continuar a acompanhar este magistério de que as televisões se encarregam.

Por via da invocação em vão do santo nome da dívida, parece que chefes e candidatos a chefes querem inscrever os seus nomes (de preferência um só) no rol histórico dos homens que reabilitaram o País. Não ouvem ninguém, só eles sabem, curiosamente estando cercados ou mesmo tutelados pelos grandes responsáveis pela falta de previsibilidade das causas efetivas da dívida, senão até responsáveis pelo caminho direto para a crise, com o beneplácito que deram à prolongada especulação financeira a que se atrelou a enorme rede de interesses que cavou o poço da crise e, paradoxalmente, acabaram por beneficiar e beneficiam da dívida. Daí que não queiram ouvir falar de reestruturação da dívida, que não queiram ouvir falar de crescimento e de respeito pelas normas constitucionais, que apenas abstratamente concordem que tal reestruturação deva ocorrer no espaço europeu. O poço da crise é-lhes vantajoso e a dívida assumida pelo povo dá-lhes vantagem nas colunas do desemprego que é um grande mercado de recrutamento, nas colunas do trabalho barato e inseguro, por aí fora.

Como o que tem havido por aí não leva a nada, antes tudo se agrava cada vez mais até porque o tempos dos homens que sozinhos reabilitam países já passou (parece que passou, nunca se sabe) e se não passou termina sempre mal, é claro que, no mínimo, o que se impõe é que, no decisivo nível de representação nacional, haja debate que leve à preparação, em prazo útil, das melhores soluções para a reestruturação da dívida. É o que consta numa petição pública que acabo de assinar.

Carlos Albino
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Flagrante política cultural : Pintura de campanários.

quinta-feira, 27 de março de 2014

SMS 557. As Escolas e a Sociedade

27 março 2014

Sou dos que entendem que as Escolas, do ensino superior ao básico, são ou devem ser os centros de cidadania por excelência. Não por rótulo, mas na prática. Não as vejo cercadas de muros confinando alunos e professores, com umas aberturas de fronteira por onde entram pais ou encarregados de educação, e circunscrevendo um espaço de misteriosa concentração humana por onde circulam uns seres dos quais as famílias se vêem livres por uma horas, cruzando-se com outros que eventualmente se julgam livres da Sociedade em idêntico horário. Ninguém, por certo, quer isso ou declara, mas sem darem bem por isso, os grupos movediços que entram e saem pelos postos fronteiriços das escolas vão construindo os seus muros. Cada qual, por ocultada conveniência própria.

E o problema é tanto maior e mais grave, quando a política educativa geral, em vez de estimular e apoiar ativamente a inserção das escolas na Sociedade, as leva, num primeiro passo, para o isolamento, num segundo passo, para a segregação triunfante, e, finalmente, para a afirmação de quartel. Ou seja, a escola, estando tão perto, torna-se num lugar longínquo. Sabemos que há professores, conscientes deste perigo, que estão contra isso, que há pais que não olham apenas para os interesses diretos dos seus próprios filhos mas para todos os filhos de todos. Sabemos que há escola que se esforçam o mais possível para evitar esse rumo. Mas as circunstâncias inevitavelmente reduzem a pó a consciência de uns e os esforços de outros, acrescendo que o desenraizamento e a sociofobia é uma situação conveniente para alguns outros (pais, professores e, pela natureza das coisas, alunos).

A burocracia asfixiante e a competição acéfala que se instalou nas escolas, em doses próprias do controleirismo de regime autoritário, está a cortar pela raiz a árvore educativa. Não me refiro à burocracia razoável das organizações, mas à burocracia que impede a criatividade, a inovação e a construção da avenida larga entre Escola e Sociedade. Não me refiro à competição conjugada com a solidariedade que é a sua irmã gémea, mas à competição que conduz a uma espécie de canibalismo escolar por via do qual, todos (professores e alunos) acabam por se comer uns aos outros. E intra-muros, o que é anda pior.

Não peçam exemplos de onde e como, porque que os sinais estão à vista.

Carlos Albino
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Flagrante europeísmo: Vai ser interessante saber quais os algarvios que os partidos apresentarão como elegíveis, já que dos inelegíveis não reza a história.

quinta-feira, 20 de março de 2014

SMS 556. O que une os portugueses

20 março 2014

Mais um estudo, por aí lançado e apresentado, sobre o que une os portugueses. Pelo que foi apresentado nas ideias mais fortes, parece que aquilo que une os portugueses é o fado, o futebol e Fátima, com alguns acrescentos. Confesso que não sei para quê estudar-se tanto. Com as televisões, designadamente a do “serviço público”, a desconstruírem na mira de audiências, dia a dia, noite a noite, aquilo que as Escolas tentam construir, reservando, por sua vez, para canais fechados aquilo que uma minoria da sociedade entende, não admira absolutamente em nada que os portugueses se julguem unidos pelo preço certo, não porque o mereçam, mas porque os produtos “à venda” são praticamente aqueles e apenas aqueles.

É claro que o estudo não refere algo mais evidente que une os portugueses, talvez porque não tenha sido referido nos inquéritos. Por exemplo, o oxigénio ou o ar que se respira. A omissão é lamentável num estudo desses, porquanto, à partida, o oxigénio une os vivos e certifica os mortos. Há outras realidades e factos que unem os portugueses, mas não nos compete completar o estudo. Fiquemos pelo oxigénio que já vai faltando à grande parte se não à maioria dos portugueses.

Mas, com ou sem ar para respirar como factor de união e como condição para articular palavras, os portugueses que citam o fado, o futebol e Fátima como instrumentos de coesão, não o fazem por medo. Fazem-no por pavor. O medo, até se expressa. O pavor, não. O pavor engole-se, torna-nos mudos, torna a sociedade muda e, paradoxalmente, até se transforma em factor de união.

O pavor do desemprego, o pavor dos salários baixos aceites pelo medo de nem isso se ter, o pavor por quem contrata livre de condições, o pavor do fisco do qual ninguém tem medo mas pavor, a que se acrescenta para muitos e para cada vez mais, não o medo mas o pavor da fome. Para não se falar do pavor do isolamento e da exclusão, o pavor da saúde se transformar num produto de mercado deixando de ser direito, o mesmo podendo acontecer com a educação, por aí fora, salvando-se apenas o fado, o futebol e Fátima. Não é preciso estudar muito, nem fazer-se grande esforço para os portugueses, na sua longa História, não por medo mas por pavor, mais uma vez se declararem muito agradecidos ao Clero, à Nobreza e ao Povo, por aquilo que os une. Obrigado.

Carlos Albino
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Flagrante capacho: Para as televisões do Porto e de Lisboa (não há outras), o Algarve é um capacho.

quinta-feira, 13 de março de 2014

SMS 555. As empresas, as pessoas e o Algarve

13 março 2014

No terreno, sejamos claros, as empresas que operam no Algarve, colocam-se completamente à margem do Algarve e à margem das pessoas do Algarve, ou seja, à margem da sociedade. Há pequenas exceções, que são pequenas, muito pequenas. E porquê? Porque vêem o Algarve como um bom balcão e nada mais do que balcão para venda dos seus produtos, sejam estes produtos uma dormida, uma garrafa de vinho, uma entrada para o golfe, um bilhete de avião, um aluguer de carro, um saco de plástico. O Alentejo vende aqui vinhos, queijos e artesanato (muito deste, fatela), como se o Algarve fosse apenas o seu balcão; os dois ou três homens mais ricos de Portugal e mais dois da Alemanha aqui têm os seus hipermercados, supermercados, fóruns e shopings, tratando o Algarve como seu balcão; os casinos, enfim, lá têm que deixar alguma “generosidade” mas por imposição legal, não é convicção por quanto a convicções elas ficam todas lá no Norte do País; as cadeias de hotéis têm os seus centros decisão longe do Algarve e para tais centros a “sociedade algarvia” diz-lhes tanto como uma caravana de camelos estafados indo da Argélia para a Mauritânia; a gente vê e ouve os aviões e sabe que aterram no aeroporto de Faro, mas fora o IVA, os aviões passam por cima da sociedade e o aeroporto é um ducado sem duque; a gente também sabe que há uns quantos cartões gold que por aqui se instalaram mas a quem a sociedade algarvia não lhes respeito, como se isto aqui fosse mera extensão da pata descalça da Índia e da China; para os dos golfes, também, a mesma sociedade algarvia é apenas mais um buraco.

Claro que quando há “projeto” para mais balcão e quando há plano “calculado” a pôr em crise o ordenamento, todos, desde os das grandes superfícies até aos dos buracos, passando pelos dos hotéis, aproximam-se visivelmente da sociedade, ou do que da sociedade lhes interessa, não pela porta da frente mas pela porta de trás. Daí que alguns até nem tenham hesitação em dar a cara ou fazer pressão nos pleitos eleitorais locais, para que o apoiado lhes facilite o projeto de balcão e o plano calculado. Estes são os chamados “artistas”. Fora isso, a sociedade algarvia e as pessoas, não lhes diz respeito, porque para esses o Algarve é um balcão e estar no Algarve ou operar no Algarve pouco mais será do que estar ao balcão e venha a clientela.

Fora dos tempos de crise, a atuação destes artistas e o tipo ou grau de consciência que revelam, até passa ou passou despercebida porque Estado e Autarquias, designadamente por via da chamada “animação”, compensam ou compensavam generosamente o divórcio das empresas para as quais o Algarve não tem pessoas, muito menos Sociedade, mas apenas clientes. Em plena crise, o retrato dessas mesmas empresas de costas voltadas para a terra onde operam mas da qual não dependem está bem revelado a preto e branco, e mesmo a cores. Qual apoio à cultura! Qual apoio social! Qual apoio à educação! Qual inserção na Sociedade! Nada. Os algarvios, para essa gente, e gente ao balcão que começa logo aqui ao pé da porta, no Alentejo, são uma espécie de condenados a cumprir pena domiciliária com pulseira eletrónica. Por mais que digam que não, é assim que vêem.

Carlos Albino
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Flagrante aparelho fonador: Ouvi dizer que Jorge Botelho disse que a AMAL vai ser a voz dos algarvios. O problema é que a voz depende do aparelho fonador, a saber – pulmões, traqueia, laringe (cordas vocais e glote, lábios, dentes, alvéolos, palato duro, palato mole (véu palatino e úvula), parede rinofaríngea, ápice da língua, raiz da língua e ainda o nariz. Está tudo dito.

quinta-feira, 6 de março de 2014

SMS 554. Maldita censura

6 março 2014

Nos ecrãs do Multibanco, pelo que veio a público, foi censurada a publicidade do Carnaval de Loulé, por conter uma caricatura de Cavaco Silva constante no cartaz desse carnaval. A empresa que explora esse espaço publicitário, Spectacolor, justificou o ato, alegando que a imagem constituía um “atentado contra a dignidade da pessoa constante da caricatura” e invocou a aplicação do Código de Publicidade. Na verdade, este código proíbe a publicidade que “se socorra, depreciativamente, de instituições, símbolos nacionais ou religiosos ou personagens históricas”. Mas vendo bem o cartaz, não é depreciativo, em nada toca em pormenores da vida privada ou apreciações de probidade ou moralidade da figura em questão, trata-se de mera e inofensiva sátira comum em todos os carnavais, muito menos “um atentado” contra a instituição da Presidência da República ou contra um símbolo nacional. E tratando-se da circunstância do carnaval, longe também de ser um ato de exceção sediciosa, aquilo mais não é que brincadeira folgazã perfeitamente banal e tolerável num quadro de liberdade de expressão. E assim sendo, a empresa, não atendendo às circunstâncias, pôs em crise esse princípio de liberdade de expressão e entrou no terreno da prática de um ato censório por livre arbítrio, não se livrando de ser mais papista que o papa, pois sendo Cavaco Silva da terra e conhecendo desde miúdo o carnaval, ele, se tivesse sido consultado, seria o primeiro a menosprezar a alegada gravidade da caricatura. E se foi eventualmente consultado, pior a emenda que o soneto.

O Código de Publicidade, em nenhum lugar institui uma comissão de exame prévio ou de censura, apenas põe em ação um Conselho Consultivo da Atividade Publicitária a quem compete “dar parecer técnico consultivo” sobre a aplicação do Código de Publicidade. Aparentemente, a empresa não recorreu a esse parecer, como devia fazer em caso de dúvida, procedeu a uma interpretação exacerbada da lei, sem atender às circunstâncias e se, com zelo evidente, quis proteger a instituição do Presidente da República, acabou por prejudicá-la. A proibição de uma caricatura inofensiva acabou por ser mais ridícula que uma caricatura que fosse ofensiva.

E é assim que, se este for um indício do surgimento de censores à paisana, seja caso para se dizer: “Maldita Censura”.

Carlos Albino
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Flagrante constatação: E se não fossem as Câmaras Municipais enquanto podem, e, aqui e ali, a Juntas de Freguesia enquanto conseguem, isto seria muito pior. Oxalá continuem a poder e a conseguir.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

SMS 553. Os novos Bordas d’Águas…

27 fevereiro 2014

Para agradarem ao chefe ou porque receberam indicações de intermediários do chefe (possivelmente o chefe não se presta a isso), aí temos uma falange de gente que, segundo parece, anda a brincar com coisas sérias. Gente que pensa estar isenta do escrutínio público ou que, pior ainda, dá um estalido com os dedos no chumaço do casaco quando alguém lhe fala dos factos e do escrutínio público. São os novos Bordas d’Águas cujo estilo, como se sabe, corresponde à arte de adivinhar o futuro por qualquer coisa e seu contrário, de emitir vaticínios para agradar a gregos e troianos (sobretudo a troianos enganados ou desenganados), enfim, à arte da trapalhice sorridente.

Turismo? Vai ser um ano em grande, apesar dos hotéis andarem a cobrar já 20 euros por noite, pressionarem trabalhadores a rescindir contratos por 60 por cento (contratando depois pelo valor dos sobrantes 25 por cento, restando ainda 15 por cento para o bolo das aplicações). Vai ser um ano em grande. Cultura? Vai ser um mar de cultura, apesar do pouco e ainda resistente teatro que o Algarve tem estar nas lonas, apesar das poucas ações culturais relevantes viverem dos carolas a que se junta a carolice a custo zero de alguns protagonistas de boa vontade. Economia? De vento em popa, apesar das empresas de monta não terem sede financeira no Algarve e bastantes das mais relevantes nem sequer a têm no País, pouco mais deixando na terra onde operam e que transformaram em mero balcão de vendas, pouco mais que os salários para quem limpa o pó; apesar das empresas de serviços não saberem na generalidade como vai ser o dia de amanhã; e apesar do desalento profundo na agricultura e do desânimo de alguma indústria transformadora que também na generalidade quer ver se algum espanhol a compra. Área social? Santo Deus, porque não também ano em grande, apesar da fome envergonhada ser cada mais um facto não envergonhado (as escolas que o digam e que o digam quem surpreende gente até há pouco da classe média, às tantas da madrugada, à procura de restos de comida nos contendores das imediações dos restaurantes, como comovidamente tenho verificado nestes dias em que circunstancialmente tenho deambulado pelo Algarve). E o desemprego  (a mais elevada taxa do País) já não é de gente que “não quer trabalhar” como era do argumentário até há pouco usado por empresários hoje também na generalidade falidos e entalados – o desemprego é de quem quer trabalhar e sabe trabalhar mas não encontra trabalho nesta economia que os Bordas d’Água, nos seus vaticínios, dizem que vai ser de sucesso nos próximos meses. E a saúde? Um sucesso, um completo sucesso em Faro e em Portimão, um sucesso sucessivamente sem cessar nos centros e extensões de saúde pública onde não faltam médicos falando espanhol a diagnosticarem diabetes apenas por um calo na sola do pé, enquanto os médicos competentes são marginalizados e tratados com os pés. A segurança? Outro sucesso sobre o qual, paradoxalmente, assaltantes e assaltados estão de acordo, porquanto nem os primeiros relatam para eficácia e sucesso da profissão, nem os segundos reportam confiados em que o silêncio sobre o sucesso de um assalto evita um segundo e terceiro ataque à propriedade, como poupa trabalho desnecessário às autoridades tão envolvidas que estão com o farolim da frente, o selo dos seguros, o 55 à hora na zona de 50.

Isto são só sucessos, e o curioso é que os Bordas d’Águas (uns três ou quatro no Algarve) não se apercebem de como caiem no ridículo por, em cada um dois 365 discursos que fazem por ano para meros e obsessivos efeitos mediáticos, julgarem que estão a fazer o “Discurso do Ano”, proeza que só o homem da cartola, fraque e monóculo, o autêntico, pode fazer.

Carlos Albino
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Flagrante conselho deixado por D. Afonso III: “Mal do Algarve se não for o Algarve a cuidar de si próprio, pois o conde Barcelos não distingue duas alfarrobas de três marmelos”.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

SMS 552. Para que conste, passados 630 anos

20 fevereiro 2014

Para quem tem menos de 40 anos, a palavra Ditadura é apenas estranha. Ela foi, no entanto, sinónima de um pesadelo que tirou o sono a Portugal por mais de quatro décadas no século passado, uma longa e degenerada experiência de empobrecimento das populações que culminou numa guerra colonial utópica que isolou o País do mundo. Convém lembrar que as ditaduras valem-se de variados caminhos para chegar ao poder e nele se perpetuarem. De golpes militares repentinos a vitórias em eleições de farsa, seguidas de lenta e inicialmente indolor supressão gradual das liberdades (como foi o caso da portuguesa), os regimes ditatoriais que aqueles que têm 50 ou mais anos foram conhecendo, têm um traço em comum: a tentativa de eliminação da democracia local. É por aí que a coisa começa e a história está repleta de exemplos confirmando que quando governos de rótulo democrático começam a empenhar-se na submissão dos poderes locais e no esvaziamento das funções dos eleitos mais próximos das populações, isso é sinal claro de que estão por vir ruturas das regras de convivência democrática.

Daí que a existência de uma democracia local (seja qual for a designação que esta tenha recebido ao longo do tempo) é uma das manifestações mais claras do grau de civilização atingido pelas sociedades abertas. E também, nos dias que correm, a principal garantia do estado direito. Por essa razão, a democracia local é abominada pelas ditaduras e pelas plutocracias estatais com seus séquitos de acólitos. E também pela mesma razão, ela torna-se no primeiro alvo de grupos políticos que pretendem perpetuar-se no poder ou dominar o Estado em benefício dos seus próprios interesses. Sem democracia local, não haverá mais o que celebrar em qualquer dia que se denomine por Dia da Liberdade.

Por felicidade, temos no Algarve, concretamente no Arquivo Municipal de Loulé, os documentos mais antigos do País probatórios de democracia local. O primeiro desses documentos data de 1384, tratando-se das Atas de Vereações do município. É um assunto conhecido por bastantes, estudado à lupa por alguns, mas convém recordar isso de vez em quando, para que conste. Passados 630 anos, termos no Algarve e ser do Algarve a prova mais antiga de democracia local no País, é caso para se dizer: “É obra!” E para se acrescentar: “Celebremos!”

Carlos Albino
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Flagrantes duas perguntas: Primeiro, ao ministro Poiares Maduro, se pensa que, no Algarve, há gente que ainda confunde descentralização com desconcentração e com delegação. Segundo, ao mesmo ministro, se também julga que uma distribuição de verbas, em última análise pelo critério do per capita ou, como dizem, percapitação, numa região cujos habitantes duplicam ou triplicam, conforme, isso não será mais do que uma perdecapitação…

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

SMS 550. Apenas mau? É péssimo sinal

6 fevereiro 2014

Quanto à imprensa, designadamente imprensa local e regional do Algarve, não é apenas crise, é morte, é fim. Fim em quantidade, e perto disso em qualidade. Ligando-se isto a uma região sem centro televisivo ou sem espaço autónomo condigno nas televisões, com as rádios locais convertidas em barrigas de aluguer sem qualquer ligação à terra ou em gira-discos com mais ou menos volume, com atividade noticiosa própria reduzida a zero ou dependendo do controlo remoto sem pilhas, não é apenas um mau sinal, é um péssimo sinal.

De há uns cinco anos para cá, sobretudo desde que se liquidou a obrigatoriedade de publicidade local dos concursos públicos,  vários alertas foram lançados pelos desistentes. Não serviram de nada, pelo que as estocadas na sustentabilidade da imprensa das comunidades locais e da comunidade regional (que, bem vistas as coisas, nunca chegou a ser comunidade) foram sendo dadas sem dó nem piedade. Noutras regiões do país, onde se pode falar apenas de crise, as empresas ancoradas nessas mesmas regiões, e, ainda assim, práticas e hábitos de leitura, têm assegurado a existência mais ou menos sólida de jornais que, ao mesmo tempo, souberam capturar vantagens associadas pelo recurso às novas tecnologias. Outras regiões mantêm os seus semanários locais e regionais, bissemanários, diários até. No Algarve, às estocadas legislativas, somou-se o tradicional divórcio das empresas que operam na região mas que na região não têm nem querem simuladamente ter nem o coração nem a carteira. Estão fora disto, o seu território não é o da Sociedade, é o dos clientes que chegam e partem.

Não é apenas uma causa mas várias causas que estão na base da derrapagem da imprensa no Algarve, onde o surgimento da informação on-line não chega a ser causa do desastre nem de concorrência da palavra impressa, muito menos da liquidação do braço armado das opiniões públicas e do escrutínio digno de ficar em arquivo.

É uma opinião que vale o que vale, mas não hesito em referir que, no Algarve, há uma elevadíssima taxa de relutância à leitura, auto-justificada por falta de interesse pela matéria publicada com enorme desfasamento no tempo (a região não dispõe de equipamentos de produção adequados pelo que uma imprensa sem produção própria é como portos sem rebocador). Não há leitores e esta é a questão. E porque chegámos a uma situação de sociedade sem leitores do que mais diretamente lhes deveria interessar, é o problema que urge debater.

Carlos Albino
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Flagrante alteração climática: Felizes aqueles tempos em que o começo das amendoeiras em flor era notícia de primeira página nos diários nacionais. Agora, nem na necrologia constam. Efeito de estufa.

SMS 551. Portugueses, a  graça  do coração

13 fevereiro 2014

Muito admirados andam os estrangeiros com a brandura do povo português.

Ao inteirarem-se da dieta rigorosa, quando não mortífera, que nos está a ser aplicada, admiram-se de que não se verifiquem motins nas praças de Lisboa e noutras, cenas que encham os telejornais europeus de imagens de violência, admiram-se que as ruas se mantenham calmas, e até mesmo vazias das antigas enchentes de há dois anos, quando fomos notícia no mundo inteiro por que nos manifestávamos, ao contrário dos outros, com flores e cantando. Admiram-se da nossa brandura, da nossa capacidade de espera, da nossa desiludida ilusão, da nossa emigração forçada, sem um pio, sem um ai. Admiram-se do nosso temperamento submisso, da nossa forma de ser sumida, mas e apesar de nos elogiarem em público, à volta das mesas, em privado, riem-se de nós. É que um dia, quando a mudança se der, ela será feita entre nós a reboque dos outros, e não por nós. De novo, nós seguiremos os outros.

Explicações para a nossa conduta? Há muitas. Desde a explicação pelo medo à explicação pelo bom senso, até à explicação da rendição temporária e tática. Mas por vezes, as explicações vêm de longe e encontram no olhar dos estrangeiros, os argumentos que nós não temos, ou que a proximidade não nos deixa vislumbrar. Foi assim que em 1994 Doris Lessing deu uma ajuda antecipada para uma outra interpretação do nosso temperamento. Escreveu no primeiro volume da sua autobiografia, publicada em 1997, recordando a sua festa de casamento em África – “No baile para os jogadores de râguebi, sentei-me ao lado de uma jovem portuguesa e, para encetar conversa, elogiei a sua bolsa de noite, de lantejoulas vermelhas e douradas. Na mesma hora, ela me ofereceu a bolsa. Fiquei aborrecida porque sabia que eram pobres. Porém, não adiantava argumentar. Explicaram-me que havia sociedades em que um elogio era inevitavelmente seguido por um presente e em que era preciso tomar cuidado com o que se admirava. Portugal fora colonizado pelos mouros, os portugueses aprenderam os modos cavalheirescos da civilização árabe. Guardei a bolsa durante anos, como um talismã, e toda a vez que dava com ela no fundo de alguma gaveta, lembrava-me de que havia alguns lugares no mundo onde reinava a graça do coração.”

Doris Lessing ganhou o Prémio Nobel em 2007. Uma pena que não possa, hoje em dia, escrever sobre o temperamento do nosso povo. Em face do que está a acontecer, talvez a sua explicação fosse diferente.

Carlos Albino
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Flagrante cabeça no ar: Ouvimos e vimos uma jovem do Algarve, ou em nome de estudantes do Algarve, a falar das praxe numa da televisões, botando meia dúzia de baboseiras, designadamente a desconhecida praxe dos “jornalistas” com absinto… Era melhor que estivesse calada.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

SMS 549. Praxes e desvarios

30 janeiro 2014

Pelo que se sabe, no Algarve, onde há uma universidade pública e institutos superiores privados, não há a registar casos em que as praxes académicas resvalaram para o desvario. Pelo que nos toca, até agora, apenas há a registar casos de vítimas algarvias noutras paragens. Justifica-se uma reflexão. Claro que nada há contra praxes ou contra quaisquer iniciativas que tenham relação direta e útil com a inserção na vida e ambiente académico. A questão coloca-se quando tais praxes e iniciativas se tornam em violação dos direitos humanos, que são direitos inalienáveis e dos quais, mesmo com consentimento, alguém pode abdicar.

Ora, quando se julgava que tortura, tratamentos cruéis ou desumanos e ofensas à dignidade das pessoas, especialmente os tratamentos humilhantes e degradantes, apenas poderiam ocorrer por arbitrariedade dos Estados, em prisões ou nos patamares policiais e judiciais, eis que algumas praxes, com a cobertura jubilosa de universidades, se transformaram precisamente em exercícios de pura selvajaria e sadismo. O Estado Português ratificou o corpo principal das convenções contra a tortura e tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, assumindo a responsabilidade da sua prevenção, designadamente nos locais onde se encontram pessoas privadas de liberdade, como é o caso em que os territórios de algumas dessas praxes se converteram, como verdadeiros espaços de execução extra-judicial. Assim sendo, não é apenas em casos em que há mortes que o tema é relevante. É sempre. O Estado é responsável, competindo-lhe, além do desenvolvimento de programas de educação, conjugar medidas legislativas, administrativas e judiciais, na prevenção e na repressão dos talibãs de trazer por casa. E as universidades que cobrem tal folclore de sadismo não devem limitar-se a promover "inquéritos" quando há mortos. A proibição de tortura e de outros tratamentos cruéis ou desumanos e ofensas à dignidade das pessoas, especialmente os tratamentos humilhantes e degradantes, é reconhecida como norma consuetudinária no estudo do Direito Internacional Humanitário Consuetudinário, e mal está uma universidade, seja ela pública ou privada, quando desconhece isso, quer passar ao lado disso ou quando julga que pode sacudir isso do capote.

Não é mal de agora. As praxes académicas são tão velhas como a abolida Inquisição. As duas "festas" andaram historicamente uma ao lado da outra, uma a sério e com supliciados a sério, sobretudo em Lisboa e Évora, outra a brincar e com supliciados a brincar, com capital em Coimbra. À nascença, as praxes imitaram, umas satiricamente, outras zelosamente, rituais e vestimentas dos autos de fé, com o mesmo sermão inicial, procissões dos condenados e suplícios. Todos temos visto os "praxados" vestidos de sambenitos amacacados, com "máscaras de infâmia" igualmente amacacadas, submetidos a um “inquisidor-mor” amacacado, por aí fora. A coisa pode dar para a brincadeira, e ser vista com óculos de tolerância, mas tem estado à vista desarmada, que a coisa tem resultado em exercícios histéricos de delinquência, com tratamentos violentos, humilhantes e degradantes. Quanto a praxes, é das violações dos direitos humanos que compete tratar e prevenir. Essa é a linha divisória.

Carlos Albino
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Flagrante erro e desfeita: A transferência da gestão dos portos de Faro e Portimão para… Sines. Nem dá para acreditar. Mais uma. Qual será a próxima?