Além da Página PRINCIPAL, como se pode reparar nos botões acima, estão criadas páginas suplementares: PARA que CONSTE e NOTA do DIA. Basta clicar no botão para abrir a página respetiva.
Na NOTA do DIA será colocada observação datada, sempre que se justifique.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
quinta-feira, 16 de maio de 2013
SMS 513. Não dá para acreditar
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| Foto disponibilizada pelo deputado Mendes Bota |
Lêem-se as perguntas diretas do deputado Mendes Bota ao Governo,
designadamente ao Ministério da Economia, e custa a acreditar. Custa a
acreditar que seja necessário um deputado a denunciar o que está a acontecer no
aeroporto de Faro, sem que antes a comunicação social, as instituições a quem
compete o zelo regional e os próprios interessados, não o tivessem feito desde
a primeira hora. E custaria a acreditar no que o próprio deputado denuncia se
ele não se tivesse munido de fotografias. A principal porta de entrada do
Algarve, para o que interessa, é deveras o aeroporto, e a imagem da região cai
por terra logo aí. Afirma o deputado que
as ações praticadas pela concessionária ANA, indiciam situações de abuso de
posição dominante, prepotência e coação sobre cerca de 40 pequenas empresas
algarvias de rent-a-car, forçadas a subscrever uma declaração humilhante. Mas
não é apenas isso que está em causa. O que está em causa é a imagem do Turismo
algarvio e a ideia que se faz de quem nos visita como se quem nos visita e de
quem o Algarve precisa tivesse que ser tratado como parte de um rebanho de
cabras, sem a mínima consideração, atenção e acolhimento.
Desconheço se outros deputados cá do nosso círculo se interessaram
pela questão, mas se um oitavo da situação de Faro ocorresse no Porto, estou
convicto de que as televisões já se tinham encarregado de arvorar um escândalo
nacional, que as rádios sem coração a Sul reportariam sem parar, e que os
jornais e lóbis do Norte que estão atrás das respetivas fichas técnicas já
tinham desfeito em pedaços as inteligências que estão colocadas na portaria do
Algarve, forçando o governo a mexer-se. Como é no Algarve, boi manso, paciente
e sem grande voz ativa, as coisas chegam ao limite e ainda bem que Mendes Bota
denuncia esse limite.
Obviamente que só por ingenuidade se espera que seja a ANA a
acautelar e a defender os interesses do Algarve numa atividade da qual a região
depende. A ANA não é uma autarquia eleita, não é uma delegação estatal, não é
um órgão de comunicação regional e muito menos uma representante sufragada pelo
círculo eleitoral do Algarve. Sendo uma empresa concessionária, é bem possível
que tenha as suas razões e motivos face a quem gere o Aeroporto de Faro ou face
a entidades responsáveis pelo turismo e cujo descuido fica sugerido. Mas então
explica, remete ou endossa, como se queira.
Quando havia obras no aeroporto, eram as obras. E agora? Não dá
para acreditar. A gente, por exemplo, vai à Suíça e só falta levarem os
turistas num andor. Aqui são tratados como intrusos vindos do sertão, atirados
para ali, a um canto. Que se amanhem. Há que pôr um ponto final a isso.
Carlos Albino
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Flagrante laxismo: A sinalética cultural (património arqueológico, histórico, natural e artístico) do Algarve não existe. A região parece um sítio ermo de história. Pior que os terramotos é o sismo que abala as inteligências.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
SMS no Facebook
Para além deste blogue, estes apontamentos passam a constar também no Facebbok → SMS-Apontamentos. De gosto em gosto se enche o entreposto.
Meramente simbólico. É que precisamente hoje, 15 de maio, perfaz dez anos sobre o início dos apontamentos "SMS", no Jornal do Algarve, a convite do seu diretor, Fernando Reis. Foi isso uma espécie de reencontro com os leitores algarvios dessas páginas onde, na década de 70, mantivemos também longa série de apontamentos, então massacrados pela censura. Chamava-se "Filtrações", apontamentos coevos de outros do mesmo período e também algarvienses, sob a designação de "Sintaxe Oportuna", publicados no bem escrito "Correio do Sul", sob a direção do saudoso e bom homem Mário Lyster Franco. Digamos que o Algarve podia ficar-me longe da vista, mas esteve sempre perto do coração. Ora, dez anos de pequenos e modestos apontamentos não se celebram com bolos, muito menos com foguetes, jamais com galas. Uma página no Facebook que os recolha, basta.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
SMS 512. O Algarve em risco de implosão
9 maio 2013
A advertência vem de vários sítios, seja a propósito das provas de crise social profunda, seja pelas evidências do estado da economia da região, seja pela asfixiante constatação da falta de política coerente e esperançosa, seja ainda pelo jogo do empurra por parte dos responsáveis que não assumem erros de ação ou de omissão.
Quanto à crise social, o desemprego algarvio é o mais elevado do
País, a situação de fome não é já contabilizável e a exploração do trabalho barato
atinge níveis que apenas podem ser sinais de uma sociedade em profunda angústia.
A voz mais recente a erguer-se foi a da Igreja da região que, com o que disse e
com o alcance dos avisos que lançou, não hesitou no incómodo de ser quase uma
voz a clamar no deserto, pois na verdade o Algarve não tem voz que protagonize
o bem-comum com firmeza reivindicativa, com argumentário acima de interesses
parcelares e com propostas que não decorram meramente do combate político
sumindo-se nesse combate como a água na areia.
Quanto ao estado da economia, não são dois meses e meio de turismo
a preços de saldo que irão evitar a trajetória para a implosão da atividade da
qual a região está dependente e até prisioneira, se não houver uma política
firme e sábia que salve o que pode ser salvo, política essa que não pode ser
apenas política fiscal, obsessivamente fiscal e fundamentalmente fiscal. A
cultura, da criação à animação, que é uma das asas indispensáveis para um
Turismo viável e integrado numa estratégia de desenvolvimento, tem a coluna
vertebral partida e não tem agenda. A promoção externa e interna é uma lástima.
O acolhimento lástima é. As coisas vão acontecendo como se bastasse despejar
pessoas nas praias até à hora de embarque. A caminharmos assim, pouco faltará
para que o património hoteleiro construído tenha o epílogo das fábricas de
conserva cujos silvos de chamada ao trabalho outrora acordavam algumas vilas e
cidades para um sonho de efémera prosperidade mas que acabaram geralmente no
abandono, com telhados caídos e paredes em ruínas. Os sinais da derrocada estão
já aí no desemprego que não é apenas causado pela paragem da construção civil e
pela ausência de obras públicas, é em grande parte corolário da perda de ritmo
e da falência por ora adiada da atividade.
A regionalização não foi implantada porque o poder central chamou a
si a responsabilidade de conduzir diretamente os destinos à exceção de umas
derivas que um municipalismo sem quadros, sem meios e sem suficiente
entrosamento e inter-ligação deu como ilusória proximidade entre administração
e administrados, e também à exceção de uma malha de delegações governamentais
que longe de delegarem, funcionam como sinecuras, mordomias calculadas e
pespontos desenraizados. Muitos choram confrontados com os efeitos mas omitem
as causas, furtam-se a atacar as causas, evitam o debate das causas e fogem da
identificação das causas como o diabo da cruz.
A agravar o quadro, o Algarve tem ou sofre de um gravíssimo
problema de comunicação. A sociedade algarvia desconhece-se a si própria como
tal, entregue a localismos cada vez mais reduzidos de tal modo que é já quase
regra geral que pouco saibam o que acontece na própria rua, a começar pela
fome, pelo desemprego, pelos factos da insegurança. E uma sociedade sem política
e sem comunicação, além de se abandonar aos oportunismos mais inconcebíveis e
de se conformar com os vira-casacas transformados em santos milagreiros, não
pode ter esperança, e se algum rumo pode ter, esse será um rumo caído ao acaso do
céu, como alguma chuva inesperada consoante a nuvem.
É hora de fazer alguma coisa contra o risco da implosão. Numa
democracia, a hora do voto é o momento adequado para responder, mas não basta.
E não basta porque a economia regional está nas lonas, estriçada pelo fisco e
pela anemia política; porque a fome já não é apenas um espectro, é uma multidão
de seres; e porque o desemprego não é já vício de uns tantos, mas calamidade
social. Identificar o problema, e assumir o problema, é o ponto de partida para
alguma solução. Para uma solução que encontre porta-voz.
Carlos Albino
Carlos Albino
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Flagrante símbolo: Volta a estar atual o velho mas abandonado símbolo constante do brasão de armas do Algarve – dois reis mouros e dois reis cristãos...
quinta-feira, 2 de maio de 2013
SMS 511. Facebook, blogues, websites...
2 maio 2013
É a tentação do clique. Não se pode falar em inundação, mas em cheia. A contrastar com uma Imprensa que, em particular no Algarve, se debate numa crise sem precedentes (crise sobretudo por excessiva dependência de fontes noticiosas estranhas, por inevitável produção sediada a centenas de quilómetros e por cada vez maior desligamento do potencial leitor), aí temos a região inundada por blogues, por websites, pelas mensagens do facebook, pelos emails distribuídos por listas mais ou menos amplas, enfim, pelos vídeos do youtube em que, descontada a paisagem, até se conseguem filmar inverdades. E há de tudo. Há o belo e o feio; há o limpo e o porco; há o bom e o mau. O feio, porco e mau, por regra, é anónimo, e tão mais anónimo quanto os alvos são bem identificados e dados como alvos a abater, embora os fins não sejam confessos. O belo, o limpo e o bom, também por regra, parte de gente que assume a autoria ou que, por pudor, se fica pelas iniciais, mas cuja generosidade, sentido crítico e interesse pelo bem-comum são patentes, haja convergência ou divergência com os pontos de vista.
É a tentação do clique. Não se pode falar em inundação, mas em cheia. A contrastar com uma Imprensa que, em particular no Algarve, se debate numa crise sem precedentes (crise sobretudo por excessiva dependência de fontes noticiosas estranhas, por inevitável produção sediada a centenas de quilómetros e por cada vez maior desligamento do potencial leitor), aí temos a região inundada por blogues, por websites, pelas mensagens do facebook, pelos emails distribuídos por listas mais ou menos amplas, enfim, pelos vídeos do youtube em que, descontada a paisagem, até se conseguem filmar inverdades. E há de tudo. Há o belo e o feio; há o limpo e o porco; há o bom e o mau. O feio, porco e mau, por regra, é anónimo, e tão mais anónimo quanto os alvos são bem identificados e dados como alvos a abater, embora os fins não sejam confessos. O belo, o limpo e o bom, também por regra, parte de gente que assume a autoria ou que, por pudor, se fica pelas iniciais, mas cuja generosidade, sentido crítico e interesse pelo bem-comum são patentes, haja convergência ou divergência com os pontos de vista.
Depois de algum período de incerteza e também de desconfiança
quanto ao valor e eficácia, os novos instrumentos de comunicação instalaram-se no
Algarve e vieram para ficar. Dos websites mais ou menos aprimorados de
instituições às páginas de associações culturais, cívicas ou recreativas, dos
portais das câmaras melhor ou pior entrosados no serviço público aos sites de empresas,
escolas e bibliotecas uns mais parados que outros, do reclamado online dos
jornais que resistem com papel mas que viram nos novos meios sistemas
complementares e de promoção dos seus cabeçalhos aos espontâneos navegadores da
internet, o Algarve não fugiu à regra do mundo, juntando-se a isso, as newsletters
de deputados e de candidatos que se prezam, os emails apelativos ao seguidismo
político ou à participação em “eventos”, e sobretudo, as irresistíveis
mensagens no facebook e os blogues de cidadãos, uns que nascem para funcionar
como pretendida espécie de jornais locais ou até regionais mas também morrendo
longe disso, outros que brotam como sinceras páginas literárias ou como recursos
de intervenção política, da geral à local, mas que se esboroam ou pelo cansaço
ou pelo laxismo dos que não conseguem conviver com a crítica.
A enxurrada de informação expedida e recebida é já apreciável, sem
dúvida que foi criado um público destinatário novo, ainda não contabilizado mas
que é um nicho na sociedade, aqui maior, ali menor, mas nicho. Esta enxurrada
de informação, com as suas verdades e inverdades, corre abertamente mas em
grupos fechados, enquanto os tradicionais meios de comunicação não saíram do
ponto onde se encontraram sempre no Algarve, e que, quanto ao papel, é o ponto
da insuficiência tecnológica de produção e da relutância à leitura em que o
algarvio é incorrigível, porque quanto à rádio é gira-discos com verbos de
encher, e quanto à televisão é inexistente. Resumindo e concluindo, apesar dos
novos meios e do esforço que alguns meios tradicionais fazem, o Algarve tem um
problema de comunicação. Um grave problema de comunicação, apesar do facebook, dos blogues, dos websites...
Carlos Albino
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Flagrante ouro: A atribuição da medalha de mérito (grau ouro) pela Câmara de Loulé a Guilherme d’Oliveira Martins, antigo ministro da Educação, das Finanças e da Presidência, e atual presidente do Tribunal de Contas, com fortes ligações familiares a Boliqueime que até considera a sua terra natal, significa que Boliqueime não é só isso ou se resume a isso. E o ouro também ao deputado Mendes Bota, é justo reconhecimento pelo seu trabalho no Conselho da Europa, designadamente pelo seu desempenho e brio em levar a bom porto a Convenção para a Prevenção e o Combate à Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
SMS 510. Alcatrão
25 abril 2013
Já andam por aí de porta em porta ou através de folhetos, a
prometer às populações e até a garantir estradas, caminhos asfaltados,
manilhas, obra. Como se fosse possível prometer e garantir betão e alcatrão
quando a fome bate à porta, o desemprego atinge níveis insustentáveis, o
desamparo é galopante, as obras sociais, algumas modelares e produto da pura
generosidade e desinteresse, já fazem das tripas coração para não fecharem
portas e quando nas escolas, algumas também modelares, se recua em décadas nos
objetivos igualitários. Muitas dessas
promessas são feitas ou as garantias são dadas por gente que não se apercebe
que ou já se transformou em cacique ou que para isso tende, porque se disso tem
consciência, o caso é mais grave. Um cacique, por definição, entende que o
mandato que possui ou que pretende é como que coisa da sua propriedade privada,
recorrendo a todos os expedientes para o conservar ou para o conquistar. Talvez
não saibam mas trata-se uma cultura de ditadura e não de democracia o fazer
promessas sabendo-se de antemão que não podem ser cumpridas e o dar garantias
quando se sabe que não há condições, nem haverá tão próximo, para se poder
executar o que só Deus sabe.
É claro que as terras, da cidade à aldeia, têm que seguir adiante
apesar da crise. Mas isso apenas será possível com gente no comando que seja
sabedora, proba, abnegada e que, sobretudo, tenha comprovada consciência do
interesse público e dos meios que, com realismo e verdade, dispõe. Nas mãos de
espertalhões e de oportunistas nenhuma sociedade se protege das ondas de choque
da crise, e dos desatinos ou aventureirismos dos que elegerem.
Não há lei possível nem decreto que possa, por inteiro, impedir que
cada cidadão tenha a oportunidade de construir o próprio destino e o destino da
sociedade onde está inserido, sem interferências indevidas. A lei de limitação
de mandatos, de alguma forma, visou e visa acautelar abusos causados pelo poder
quando se transforma em rotina e, aí está, quando o mandatado para esse poder,
por mera distração ou gozo de exercício, é levado a pensar que o mandato é sua
propriedade privada. Mas nem tudo pode ou deve ser evitado por lei. Depende
apenas do olho aberto do cidadão. E, em matéria de promessas de alcatrão e
betão, é preciso ter os dois olhos
abertos, em momentos em que a pobreza envergonhada, a miséria social já à
mostra e as falências de empresas moram em todas as ruas e nos cercam.
Carlos Albino
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Flagrante evidência: A Associação 25 de Abril pediu para os partidos expulsarem militantes que estejam envolvidos em crimes de corrupção. É óbvio, como óbvio seria não os admitirem.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
SMS 509. Esse desejo de ditadura
18 abril 2013
Dia a dia, somos confrontados por desabafos que velada ou
abertamente têm, como traço comum, o desejo de ditadura. No fundo, os que
desabafam, querem que alguma coisa ponha cobro a isto. E esse “isto”, regra
geral, significa os atropelos à moralidade pública e a moralidade política como
questão essencial. Na verdade, ao longo de anos, temos assistido a lamentáveis
demonstrações do desprezo que representantes e decisores eleitos têm pelo
decoro, pelas próprias normas de conduta e pela opinião pública. De vez em
quando, há uma réstia de esperança mas rapidamente esbatida por malabarismos
verbais, por incongruências e lentidão da justiça, por incumprimento ostensivo
de promessas juradas na mira do voto, pelo artifício de encontrar culpados
quando os erros são próprios, repetindo na política e na vida pública
portuguesa a fábula do lobo e do cordeiro, com o lobo, no apuramento das
culpas, a concluir que "se não foste tu foi o teu pai" e estrangulou
o borrego. É claro que, amiúde, daqui e dali, nos dizem que o desafio é não
esmorecer,
Como já prescrevia Montesquieu no século XVIII, “não se constrói
uma sociedade baseada na virtude dos homens, e sim na solidez das
instituições”. Nunca é demais lembrar que o fortalecimento das instituições
depende – acima de tudo – de uma população bem educada, bem informada por meios
de comunicação responsáveis e empenhada na manutenção da liberdade, de
democracia e da justiça. Sem isto, as ideias nostálgicas propagam-se como os
vírus, sobretudo quando se está no epicentro da crise e quando, quer decisores
quer representantes julgam a agem como se os seus mandatos fossem propriedade
privada, abusando dos efeitos daquilo que é a maior conquista de uma democracia
– o direito de votar que nenhuma ditadura, por definição, aceita e tolera. Daí
a responsabilidade dos eleitores numa democracia. Mas não basta essa
responsabilidade, é preciso que as instituições, tal como leite na fervura,
venham acima e não se revelem estragadas pois não é a virtude dos homens que as
ocupam que evita estarem atalhadas.
Diz uma máxima de Goethe, o genial poeta alemão, que “o melhor
governo é aquele que nos ensina a governarmos a nós mesmos”. Estamos longe
disso e, de certa maneira, foi a sociedade portuguesa que, na implantação da
democracia, ensinou a si própria a não esperar salvação pelas mãos do Estado e
deu lições ao governo, tal como possivelmente está a dar, atónita, perante a
sucessão de escândalos, aguardando apenas o momento oportuno de responder caso
o governo não perceba que a sua presença forte deve ser sentida na garantia de
oportunidades iguais para todos na educação, na saúde, na segurança pública,
bem como na fiscalização do jogo económico e na aplicação das leis. A receita é
tão rara quanto antiga. Está retratada de modo admirável num fresco pintado na
cidade italiana de Siena, no século XV, por Ambrogio Lorenzetti: “Os Efeitos do Bom e do Mau Governo na Cidade e no
Campo”. Tais efeitos, no Algarve, notam-se.
Carlos Albino
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Flagrante
flamenco andaluz: Esse pedido a Passos Coelho
para abolir portagens a espanhóis nos fins de semana. Os portais eletrónicos
identificam espanhóis?
quinta-feira, 11 de abril de 2013
SMS 508. Boliqueime, esse símbolo…
11 abril 2013
Pelas razões que são por demais conhecidas, Boliqueime
transformou-se numa terra de citação incontornável, tomada para o bem e para o
mal como um lugar de exceção. Mas vale a pena lembrar o que diz Onésimo Teotónio
de Almeida a propósito da representação dos lugares. Escreveu o professor da
Brown University que nunca somos um lugar à parte, na sua oportuna
expressão de que todo o universal tem o seu chão.
Falemos do chão de
Boliqueime com simplicidade. Trata-se de uma freguesia de cerca de 5.000
residentes (uns 1.300 reformados, 1.900 desempregados, 2.000 sem atividade
económica) e 3.900 eleitores, que a democracia surpreendeu em pleno regime
feudal, uma população que à data da Revolução se mantinha ainda muito analfabeta,
presa do mundo agrícola em estado arcaico, mas que soube adaptar-se e
aproveitar o que o estado lhe deu e a iniciativa própria de que os seus habitantes
foram capazes. Assim, para além de se ter convertido, em conformidade com os
ditames centrais e europeus, a uma zona de vivência rural adaptada ao turismo
de sinecura, confiada na rotina de um ou dois pólos de indústria (pedreiras e cimentos
em brutal queda), desenvolvido efemeramente algum comércio, e mantido bolsas de
resistência na agricultura, Boliqueime tem-se modernizado em termos sociais
acompanhando a evolução da região. Uma população estrangeira residente perto do
mar, mas não em cima do mar, uma população local bem mobilizada, que trabalha
nas cidades e à noite recolhe a casa....
Mas o equilíbrio que até aqui se tem mantido, enquanto zona
residencial, ameaça ruir sob os olhos de quem aqui vive. Já não se fala da
questão da segurança que colocou casas e casas de pessoas estrangeiras à venda,
fala-se do perigo em que irão ficar as instituições que sustentam a sociedade,
se de facto os cortes que se anunciam vierem a verificar-se. Boliqueime que
tinha uma estação ferroviária que era o ponto de escoamento dos produtos da
terra, enfim, tem uma Escola Básica que é o coração da terra. Mas até esta
escola já foi afetada pela integração num mega agrupamento que ameaça
transformar-se num giga agrupamento, perdendo o seu diretor e com isso perdendo,
inexplicável e irracionalmente, a sua autonomia. O que mais irá acontecer, não
se sabe. O que irá acontecer à Misericórdia que sustenta o Lar para Idosos? O
que irá acontecer ao modelar Centro Comunitário de Vale Silves? O que irá
acontecer ao Centro de Saúde? A manutenção do Parque Desportivo? Os apoios
diminuem, o desemprego e a pobreza aumentam dia após dia, como se sabe. E se
assim for, voltar-se-á ao tempo dos armazéns dependentes do casino do figo e da
empreita, ao tempo da caridade da Igreja como no tempo de Salazar?
Estas questões dão que pensar. Boliqueime hoje em dia é um lugar de
referência simbólica, para o bem e para o mal. Mas a fragilidade da sua
estrutura bem que pode transformar-se de um caso raro, como muitos lhe têm
chamado, num caso de fragilidade simbólica à escala do país, sobretudo do país rural,
estagnado na sua base antiga de sobrevivência, e desapossado agora dos bens de
sustentação que até agora o têm mantido como exemplo de conversão e resiliência.
Ou, controvertendo o aforismo de Onésimo Teotónio de Almeida, o chão estremece ao
ritmo do que lhe é nacional. Ora entre a consciência do estado para que
caminhamos e uma estratégia de sobrevivência, nos dias que correm, é preciso
ter os olhos na realidade, é preciso olhar para o chão.
Carlos Albino
Carlos Albino
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Flagrante
laxismo: O Algarve está a perder
eventos de referência atrás de eventos, deslocados para outras bandas. E não há
resposta porque não há quem responda, possa responder e tenha força para
responder.
quinta-feira, 4 de abril de 2013
SMS 507. Sua Excelência o Residente da República
4 abril 2013
Há uns meses atrás, aqui neste mesmo espaço, sem querer fazer trocadilho, levantei a
questão de que o tempo se encarregaria de demonstrar se Cavaco Silva, eminente
estadista português, filho do Algarve, iria passar à história, nesta sua última
fase, como um Presidente da República honorável ou um simples residente do
palácio Cor de Rosa. Ora, Infelizmente, à medida que os dias passam e o País
mergulha numa crise que parece incontrolável, o Presidente da República
mostra-se incapaz de garantir aos portugueses que o papel de um presidente, no
actual regime, é uma figura indispensável. Pelo contrário, para desgosto tanto
dos seus apoiantes quanto dos seus detractores, a sua figura tornou-se, desde
há uns bons meses, clamorosamente dispensável. O seu isolamento em face do
país, das suas urgências, conveniências e aflições, tornou-se clamoroso. É
triste mesmo que até os menos críticos comecem apreciações sobre os
procedimentos do actual presidente, dizendo que não querem ser demasiado
cruéis. E assim, Cavaco Silva, dia após dia, desgasta gravemente, a sua imagem
pública. Isto é, não serve como deveria o país que jurou servir e ao qual se
ofereceu como seu garante de unidade máxima.
Ninguém o constata com felicidade, e talvez valha a pena lembrar que a ideia de que o
chefe de um estado representa um povo, e que perante ele responde, é tão antiga
quanto a ideia de estado. Esse conceito, na antiga Grécia está na base da
concepção da Tragédia Grega, século V antes de Cristo, e vem até aos nossos
dias. O texto admirável de Milan Kundera que é "A Insustentável Leveza do
Ser", escrito nos anos oitenta, fala exactamente do aspecto decisivo da
representação. Nessas páginas, o escritor checo demonstra como a fragilidade e
a anomia dos chefes derramam a sua ineficácia e a sua omissão em cadeia, desde
o topo até à base de uma sociedade, quer
ela seja ditatorial quer seja livre.
Assim, quando um Presidente da República é grande, generoso, aberto e magnânimo, é toda a sociedade que
se eleva. Eleva-se a ele mesmo, eleva as instituições do regime, o partido de
onde provém, aqueles que o elegeram, os que não o elegeram, a sua família
política, e eleva a sua cidade, a sua província, ou a aldeia que o viu nascer.
Mas se assim não é, se um presidente se apouca, foge, não passa de um estratega
escondido, de quem se sabe traços da vida privada, mas não se conhece grandeza
na vida pública, é o partido de onde provém que se diminui, e diminui a
sociedade, as instituições, a sua família política, e a sua terra. Escrevo esta
crónica, precisamente, na terra que viu nascer Cavaco Silva e como tal o tem
reconhecido. Escrevo com muita pena.
A minha pergunta, escrevendo para este 4 de abril, é esta - Será que os dias de amanhã conseguirão
dar-nos já, nem digo uma boa notícia, mas uma qualquer notícia que nos
honre? Uma notícia que eleve a
Residência à categoria de uma necessária Presidência da República? Ou será que
um homem nascido na nossa terra, oriundo como nós, dos nossos montes agrestes,
se quer tornar num monarca espanhol, presente nas caçadas, mas indiferente aos
milhões que, cada dia, perdem o direito ao pão?
Carlos Albino
Carlos Albino
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Flagrante instituição: Faz o Jornal do Algarve 56 anos. Que dure enquanto o Guadiana, o Arade e o Gilão durarem como rios, porque mal ficará o Algarve se secarem.
quinta-feira, 28 de março de 2013
SMS 506. A crise: oportunidade ou risco?

Coincidem estas já próximas eleições autárquicas com uma crise brutal, particularmente brutal no Algarve, e que, tudo leva a crer, se vai agravar. Alguma esperança de alguns se deposita apenas nos dois ou três meses de sol e praias, e que não são seis, nem sete meses como alguns zelosos pretendem fazer crer. E há duas maneiras de enfrentar as crises, não importando a sua natureza: a pessimista, segundo a qual as tormentas são prenúncio do caos inevitável, e a otimista, que para além do risco vê nas tempestades, oportunidade. A atual crise que se desenrola no País – que não é apenas económica e social, mas também de mentalidade, de inteligência, de compostura, de honestidade e de espírito público – é de facto um espetáculo deprimente aos olhos dos cidadãos que vêem políticos eleitos com voto de confiança alterarem promessas, falharem nos compromissos e fracassarem nos resultados. Os cidadãos que se disponibilizaram e aceitaram os sacrifícios estão a verificar que o seu esforço foi inútil e que o poder é exercido como se fosse próprio de um clube de privilegiados. O risco desta visão pessimista é o seu corolário: a desmoralização do regime democrático. Ora, não pode haver equívoco maior, porque é justamente no fortalecimento da democracia que reside o antídoto contra os desmandos, abusos e autismos do poder. A crise galopou a uma tal velocidade que já não deixa tempo para reformas que visem uma melhoria da representatividade política e a elevação dos poderes locais para um patamar superior de qualidade, pelo que tudo tem que ser feito com o sistema tal como está, ou seja, com tão pouco trigo no meio de tanto joio. Mas se até há pouco, os eleitores foram arrastados quase automaticamente pelos absurdos que entronizaram representantes que não representam, a crise é uma boa oportunidade para depurar o sistema com o voto consciente e responsável daqueles a quem se têm pedido sacrifícios sem retorno. E essa oportunidade, num primeiro passo, surge já com estas autárquicas em que os eleitores não têm desculpas para procederem como autómatos condicionados pelas propagandas, pelo populismo e por vãs promessas, cabendo-lhes, de forma consciente, escolher nas urnas de voto quem entra, quem continua e quem precisa de ser mandado para o monturo. A crise força a que eventuais aldrabões, mesmo os sorridentes, sejam colocados no local adequado. São os eleitores que determinam e não há melhor sistema para que sejam os eleitores a determinar, desde que, por via de propaganda enganosa e bem urdida, não sejam levados a confundir macacos com passarinhos. Mas, quanto a isso, cada um sabe.
Carlos Albino
________________
- Flagrantes monumentos nacionais: Na maioria, fechados a horas úteis.
quinta-feira, 21 de março de 2013
SMS 505. Os números do turismo

De enchentes repentinas a casas fechadas para obras seguidas de encerramentos e despedimentos, o turismo arrasta-se na incerteza dos números do noticiário quotidiano. Num dia, noticia-se que os hotéis estão cheios, no outro dia diz-se que estão a meio vapor, ora se garante que a enchente se dá apenas onde há muitas estrelas, ora com a mesma ligeireza se vaticina que ingleses compensam a ausência de espanhóis ou que alemães fazem fila à mistura com uns quantos franceses. Ora se diz que no domingo de Páscoa está tudo a abarrotar, ora se avança com a previsão de que na segunda-feira é o deserto. Não há segurança nas previsões porque também não há muito por onde colher informação confiável, e, além disso, a informação disponível é do curto prazo e depende do que os operadores disserem. O Algarve que apresenta um défice informativo brutal e que por isso depende da informação ancorada noutras paragens e por certo colada a interesses concorrentes, ora adormece com títulos pessimistas que por vezes parecem redigidos com gáudio, ora acorda com anúncios de muitas dormidas mas sem ganhos, o que vai dar na mesma. Não há, pois, um Observatório do Turismo, algo que já foi tentado mas politicamente liquidado, que imponha credibilidade aos números, às tendências e aos quadros previsionais que dizem respeito à principal atividade económica da região; há quando muito uns apanhados que dependem da boa vontade de quem colabora e também da verdade que se revele conveniente, com as dezenas ou centenas de atividades que vivem a jusante com a porta aberta à espera do acaso. Temos uma Universidade pública com cartas dadas na área, com estudos e saber consolidado mas que ou é ela que vive à margem dos interessados ou são os interessados que se colocam à margem. Pelo menos assim parece, e se ou quando assim não é, não deixa de ser coisa quase de segredo dos deuses. Chama-se a isto défice de informação. Défice de comunicação, défice noticioso, défice de imprensa, imprensa essa que, sem autonomia de produção e sem proximidade de fabrico, não pode deixar de ser retardatária. A agravar a situação, não existe aquilo que possa ser designado por agenda do Algarve, uma agenda que, pelos canais complementares, sirva o turismo e as populações onde ele se desenvolve, não podendo um elemento ser dissociado do outro. Neste campo, está quase tudo por fazer e o pouco que chegou a ser feito ou tentado, foi lamentavelmente destruído. Como resolver? Há responsáveis que podem e devem sentar-se a uma mesa, porque bastante mais pode e deve ser feito sem se estar à espera do orçamento e que chova algum milagre do centralismo.
Carlos Albino
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- Flagrante boa-nova: Dália Paulo, diretora regional de Cultura, anunciou para 2015 uma nova face para Sagres, apostando-se num polo cultural de referência. Era por aí que se devia ter começado há muito, mas como ainda faltam dois anos, aguardemos. Ver para crer.
quinta-feira, 14 de março de 2013
SMS 504. Pedragosa à chuva
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Sempre detestei a crónica dos passarinhos. Refiro-me aos apontamentos líricos sobre o céu azul, as ondas do mar, os rebentos verde-claro da Primavera e outras delícias com que a prosa dos jornais e revistas se enche aos fins de semana, para se fugir da realidade. A poesia da província está repleta desses enlevos românticos, em que o recanto do nosso quarto permite imaginar que o mundo é apenas a ampliação dos nossos malmequeres. Confesso, detesto esse tipo de apontamento. Fujo dele, amo por demais as pessoas da minha terra e do meu país, para incitar a que adormeçam a sua sede de justiça e de verdade.
Mas neste domingo passado, fiz a minha crónica dos passarinhos. Cansei-me da Troika e dos jogos que acontecem dentro de gabinetes, atafulhados em silêncios de onde só saem uns fumos de notícias, sempre demasiado traumatizantes de modo a que a triste realidade apenas um pouco mais leve, seja aceite por todos. De degrau em degrau, cada vez mais duro, cada vez mais drástico, cansei-me dessa espera. Cansei-me da troca dos sapatos vermelhos de Bento XVI pelos sapatos castanhos, cansei-me de não se entender o que as pessoas pretendem quando cantam Grândola e de surgirem patriotas a dizerem que antes se cante O Coro dos Escravos de Verdi - Oh minha pátria, tão bela e tão perdida!... Cansei-me, quando nós não temos ópera, não a produzimos, produzimos, sim, coros de homens com serrão e chapéu preto, unidos, ombro a ombro, reclamando uma pequena justiça, a justiça da repartição de um baixo soldo que sobeje dos negócios dos outros. Cansei-me, e meti-me no carro ao acaso, enfiei pela Estrada da Pedragosa, a caminho do interior do Algarve. Os campos estavam molhados, a chuva batia nos vidros, o tempo recuava até um tempo sem casas, quando no meio das casas, a escrita tinha desaparecido, e a contrariá-lo, apenas se podia ler, entre os pingos da chuva, o aviso a vermelho, escrito num velho casarão AQUI, CABRAS, NÃO. Um aviso primitivo, rude, como se fosse no tempo de Caim e Abel. E a paisagem lá estava. Bela, altiva, resistente, desafiando a alma. E eu pensei que sim, que em dias assim, quando a sociedade civil parece destinada ao auto-flagelo, ainda resta a consolação de uma crónica de passarinhos.
Carlos Albino
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- Flagrantes jogos: As contas e cálculos de alguns que por aí já não se fazem quanto a listas para as legislativas, ainda as autárquicas vão no adro. Quanto mais provincianos nos tornamos, mais o rei vai vestido.
quinta-feira, 7 de março de 2013
SMS 503. Na verdade, é o alicerce

Ao longo destes anos de vivência democrática, os órgãos das
freguesias (assembleia e junta) acabaram por se encaixar como que um adorno do
sistema e pouco mais, pelo que a generalidade dos eleitores nem sabe bem como
funcionam, que exatas competências têm, o muito que criativamente podem fazer e
também o muito para que podem servir, desde os interesses inequívocos da
população aos interesses difusos e jogadas obscuras. Na hora do voto, a atenção
geral polariza-se no candidato a presidente de câmara, e quanto a freguesias, a
decisão é tomada em função do que parece ser boa ou má figura da terra, do seu
feitio e também por vezes do maior ou menor número de peregrinações de baixo
custo a Fátima.
Nas terras em que as câmaras têm a sua sede, então, a importância
dos órgãos da freguesia some-se, a sua eleição, de modo geral, dá-se por
arrastamento, e acabada a eleição quase ninguém dá pela junta ou pela
assembleia cujas reuniões também se convertem numa formalidade de significado
menor. Ora, não é bem assim, ou não deveria ser assim. Os alicerces da democracia
estão deveras nas freguesias, tudo começa por aí e é por aí que se pode avaliar
se a democracia tem ou não qualidade, e se os órgãos eleitos agem com a
consciência de que receberam um mandato para ser exercido com responsabilidade
e verdade, ou se, pelo contrário, atuam como se o poder de que estão investidos
ainda que seja pouco seja coisa da sua propriedade privada ou como se estejam a
fazer um favor mais ou menos pavoneado.
É verdade que a qualidade de uma democracia se avalia a olhos
vistos pelos exemplos que vêm de cima ou que são dados nas instituições lá em
cima, mas a fortaleza do sistema depende dos alicerces, e estes começam nas
freguesias, cuja voz será rouca se o presidente da junta for rouco e cuja
caligrafia será engelhada se a assembleia eleita não passar de um grupo de
analfabetos funcionais. Admito que os partidos tenham dificuldade em encontrar
quadros que, além de quadros, sejam de uma generosidade que nem sempre a
sociedade paga nem o Estado reconhece, mas já é tempo de fazerem listas limpas
de oportunismos, limpas de chicos-espertos, limpas de clientelas que sobrevivem
à custa de um populismo que nada tem a ver com as finalidades e nobreza do
exercício político do poder, limpas dos números de encher. Admito ainda que
essa dificuldade seja acrescida quando na engrenagem entram os grupos de
independentes, sobretudo nascidos do ressaibo do partidarismo ou jogando com as
contradições deste. É um esforço que se lhes exige, terra a terra, porque a
democracia não é coisa que vogue nos céus, começa por ser o somatório das
democracias locais. Diz-me a qualidade desse somatório e dir-te-ei o que pode
acontecer lá em cima, ou que se permite que lá em cima aconteça.
Carlos Albino
Carlos Albino
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- Flagrantes erros de palmatória: O que não vai por aí quanto
a erros de português nos cartazes sobre isto e aquilo, na toponímia e na
sinalética… Não há olhos?
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
SMS 502. A questão dos mandatos

Se houve lei com intenção declaradamente moralizadora do exercício de cargos públicos foi esta, a da limitação de mandatos de presidentes de câmaras e juntas. Independentemente de com tal lei se penalizarem bons presidentes, ela foi bem acolhida como um sinal claro e balizador de que o exercício do poder a que se ascenda por via do voto não é um eterno emprego de carreira mas um transitório serviço público e sem apegos. Na verdade, um mandato obtido por eleição não é propriedade privada de quem é eleito, e a lei em referência foi feita, assim se entendeu, para dissipar dúvidas, travar carreirismo político e colocar um obstáculo a que os eleitos não fiquem prisioneiros de lóbis ou que os lóbis não usem os eleitos como marionetas de interesses não esclarecidos. A possível prevenção moralizadora, portanto, incidindo nas pessoas titulares e não nas autarquias porque o objetivo foi ou será o de impedir o carreirismo, seja este sempre na mesma autarquia ou ali ao lado que é o mesmo, pois os lóbis não têm as fronteiras que os cadernos eleitorais traçam.
Não se entende assim o expediente de contornar a lei explorando alguma indefinição desta ou mesmo lacuna, sendo o propósito moralizador, e muito embora sejam poucos os casos em que se tenta forçar esse propósito, não é de excluir que em muitas situações de presidentes reconhecidamente bons mas inibidos de novo mandato e agora remetidos ao hiato, se possa dizer que afinal eram tão maus presidentes que nenhuma autarquia ao lado os aceitou para encabeçar listas para um quarto mandato que será o primeiro ao lado. Independentemente das vertentes jurídicas que são sempre uma forma de encomendar fato a alfaiate à medida do corpo, a finalidade da lei é uma finalidade moralizadora e esta não tem vertentes – ou é moralizadora ou não é, ou é para todos ou não é para minguem, ou se aplica a todas as autarquias mesmo que estas distem mil quilómetros entre si ou é fogo de vista.
Admite-se que em algumas autarquias, este ou aquele partido “não tenha mais ninguém” a não ser alguém cuja transferência por aquisição de passe possa salvar a situação como nos clubes em aflição. Mas isso, independentemente das tais vertentes jurídicas, põe em crise o propósito moralizador da lei pelo que se torna possível que alguém vá cumprindo três mandatos de autarquia em autarquia pelos 278 municípios do continente a começar em Valença do Minho e a acabar em Vila Real de Santo António se a vida der para isso, porque a moral e a ética política seguramente é que não dá.
Carlos Albino
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- Flagrantes equivalências: Santo Deus! O número de
licenciados em ciências empresariais e afins que por aí não há mas que nem
sabem o que é a regra de três simples.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
SMS 501. Promiscuidade

17 fevereiro 2011
Sei que a palavra promiscuidade, em título, causa arrepios, mas não há outra que retrate a vida ou a atividade política portuguesa quanto a condicionar e a orientar a chamada opinião pública. Há comentadores que falam para todo o País e que metade ouve, mas que são ao mesmo tempo titulares de altos cargos ou funções de Estado, e ainda ou sobretudo nos intervalos, são também interventores ativos dos partidos – como nas lixívias de lavar o chão, três em um. Há comentadores diariamente ativissimos que metem pitada sobre tudo, da política interna à externa, mas que se somem como água na areia e desaparecem das televisões onde fincaram pé, mal ficam à frente do grande negócio consumado para o qual, pelo comentário ou também pela intervenção política espúria e difusa, contribuíram como iniludível parte interessada. Há comentadores que surgem no pequeno ecrã como cordeiros de lã fofa mas que dão nome, representam ou são eles mesmos o mundo que gravita em torno de sociedades de advogados, de empresas de comunicação e marketing político, e de lóbis bancários que no tempo de Sócrates estimularam o homem para as grandes obras e, agora sendo os mesmos, estimulam outro homem na perseguição ao contribuinte, na transformação dos pequenos pensionistas em inimigos públicos e no despautério de chamar ociosos aos jovens desempregados e sem perspetivas. Em emissão televisiva nacional são capazes de dizer que Relvas deu o beijo da morte a Seara no apoio a Lisboa, mas que andam por aí pelo país a beijarem candidatos a autarquias tão ou mais meteoricamente licenciados que Relvas e cujo passado, bem contado e não omitido nos pormenores, até faria Seara corar de vergonha.
Naturalmente que, em democracia, todo o homem e mulher é livre, mas
há leis que por definição não esgotam a ética e há ética que, embora não
constando das leis, deve ser seguida. Assim como é inconcebível que um
conselheiro de Estado, nessa qualidade, apresente o Preço Certo, também a
qualidade de apresentador reboludo que rebola nas baixas emoções, não lhe dá
credencial para conselheiro de Estado. E um comentador que seja deveras
comentador sério, não deve sair desse estrado, porque se saltar amiúde para o
estrado seja deste ou partido, ora para cá ora para lá, parte-se-lhe a coluna
da ética como comentador, se for vertebrado. A lei não o proíbe a não salte de
estrados mas a ética aconselha-o e a democracia exige-lhe que não se sirva de
um estrado para saltar para o outro, sobretudo uma democracia com opinião
pública frágil, crédula e formada à base de ingénuos ou confiantes em que não
há gente má no mundo.
Seja como for, a promiscuidade está instalada e pouco há a fazer a
não ser uma reforma das mentalidades, até porque, aqui e além para salvar algum
decoro, há sempre uns quantos convidados para fazerem figura de contraditório
mas que vão no jogo, aceitam o jogo e legitimam o jogo. Promiscuidade, é a
palavra. Até quando, não se sabe, e pelo que constatei em nenhum país da Europa
acontece o que em Portugal é o pão-nosso de cada dia, e, no Algarve, com uma
Imprensa geralmente acrítica, com as rádios reduzidas a grafonolas, e que
quanto a televisão esta está para lá do Caldeirão, é pior.
Carlos Albino
Carlos Albino
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- Flagrante prova real: O PSD/Algarve que teve o mérito de exigir a publicitação de currículos sem omissões dos nomeados ou candidatos a cargos políticos, tem nestas autárquicas a obrigação de não pregar
como frei Tomás.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
SMS 500. Toda a gente vê e percebe

Por todos os cantos se fala da “reforma do Estado”, associando-se a
tal pretendida reforma cortes orçamentais aqui e ali e não àquilo que deveras
merecia reforma urgente – a reforma das mentalidades, a reforma dos
procedimentos e usos da democracia, a reforma do centralismo estatal gerador
de uma cadeia infinda de mordomias e postos de ociosidade, a reforma dos
frágeis mecanismos do Estado que permitem a prática de verdadeiros crimes
públicos cujos efeitos são pagos dura e cruelmente por aqueles que os não
cometeram. As causas do estado a que o Estado chegou ou em que está, são tão
velhas como Portugal, tala como vem dos antigos saber-se que quem enuncia e
denuncia tais causas ou é afastado da sociedade ou atirado para o esquecimento
por aqueles a quem uma verdadeira reforma do Estado não interessa. Como exemplo
dos tempos que passam, basta citar o caso do BPN e da constelação de burla e
dolo que andou à volta da instituição bancária, para nos certificarmos que uma
reforma autêntica do Estado não interessa. Dizem os apressados e falsamente
chamados reformistas ou que da designação se reclamam, que há gastos a mais na
saúde, na educação, na segurança social, por aí fora, mas silenciam o
astronómico buraco deixado pelo dinheiro que se sumiu e ninguém sabe ou,
sabendo, ninguém diz onde pára sob as desculpas de se terem encontrado um ou
dois bons bodes expiatórios. A justiça não é responsável mas leis desfasadas,
leis omissas e leis deliberadamente redigidas no terreno do equívoco que
competiriam ao Estado corrigir, aclarar ou introduzir, permitiram que muito do
que devia ser punido exemplarmente acabasse por ser tolerado e aceite apenas
não ser ilegal, cobrindo jogadas de dolo e enriquecimentos à tripa forra por
via de negócios especulativos sob o manto diáfano das próprias instituições do
Estado cuja reforma agora se diz urgente apenas para que os justos, os ingénuos
e a generalidade dos cidadãos confiantes paguem os desvarios. Podem reformar
por decretos punitivos para quem nunca cometeu crimes públicos e podem invocar
causas internacionais e episódios da política doméstica insuflados pela
conquista ou manutenção do poder, mas toda a gente vê e percebe que um Estado
assim não tem emenda, até porque logo à partida os reformadores, num Estado a
sério, deveriam ser logo identificados como prevaricadores ou seus aliados quer
por via da omissão, quer por via de atos de exceção permissiva. Chegámos, sem
dúvida, a um Estado que na sua grande parte é uma pirâmide de ociosos, de
cargos inúteis, de mordomias distribuídas por prosélitos, de oficialidades
impantes, de cortejos de burocratas que levam quinze dias para rubricar um
papelinho, de palradores que falam horas e horas ou do que não percebem ou se
percebem ninguém emtende porque não passam dos chavões e das linguagens
cifradas que camuflam a estreiteza do espírito, a ausência de alma e,
sobretudo, um egoísmo muito maior que a Ponta de Sagres a entrar no oceano dos
cidadãos honestos e que logo às primeiras horas da democracia acreditaram e
disseram em voz alta “Isto agora vai”. Não foi e assim não está a ir.
Carlos Albino
Carlos Albino
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- Flagrante
exemplo papal: O papa abdicou porque sentiu
chegada a sua hora de abdicar. Mas esse foi o pepa real, porque há por aí muitos papas de pacotilha que há muito deveria abdicar e não abdica e que em vez de
sentirem chegar a sua hora, pelo contrário, dizem – “Estamos na hora e há que
papar mais enquanto é tempo!
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
SMS 499. De braços cruzados é que não

Quando uma das coleções da Salvat, nos anos
sessenta, inaugurou uma série de livros sobre o devir das sociedades, um
dos aspetos que já então se ressaltava era o aumento da insegurança que iria
dominar o nosso futuro. Se noutros campos se registaram rotundos enganos,
infelizmente, em relação à violência que iria vir, os futurólogos acertarem por
completo. O panorama que nos chega diariamente dos Estados Unidos, de Espanha, d
França, ou mesmo da até há pouco considerada fleumática Inglaterra, só para nos
circunscrevermos aos países ocidentais, dá até que pensar. E entre nós,
considerados pessoas de costumes calmos, desde que se deram os crimes da Meia Culpa e do Bar do Avião, ficou dado o alerta – o crime violento de grandes
dimensões tinha começado, a sociedade portuguesa não iria mais ser o que era.
O Algarve, terra do Sul, de calor e lazer,
bem que poderia ter ficado recuado, o que até há pouco parecia acontecer.
Mas de súbito, pelas razões que sobejamente todos conhecemos, esta região
passou a fornecer casos típicos de violência que, dia a dia, preenchem as
páginas do crime e abrem os telejornais. Não vale a pena voltar a falar da
insegurança que se vive nas cidades, nas praias e nos campos do Algarve. Nem
vale a pena amedrontar as pessoas, contando casos e descrevendo pormenores.
Vale a pena ver, isso sim, como inverter uma situação que pode ser altamente
gravosa para os seus naturais, seus residentes e seus visitantes. Vale a pena
pensar naquilo que a política pode impulsionar, no que as autoridades têm a
fazer e na forma como nós, os habitantes, podemos contrariar esta tendência.
Todos gostaríamos que, no Algarve, por
todo o lado, se pudesse colocar cartazes dizendo: “Terra livre, aqui vive-se em
paz e segurança”. Sabemos que assim não pode ser, mas lá por isso não podemos
ficar de braços cruzados, com as autoridades à espera da próxima participação,
e os habitantes a disputarem a página do jornal de amanhã com os pormenores do
crime de ontem à noite. As políticas de segurança têm que ser mais eficazes e
mais atentas, com a consciência de que proteger uma população dispersa pelos
montes é diferente do que protegê-la em ruas de prédios apinhados. Mas além de
que as autoridades já deveriam ter iniciado novas rotinas com reforço da
polícia de giro, ligação da polícia com a população, enfim, serem uma polícia
protetora, presente e disciplinadora, em vez de uma polícia só punitiva e
ameaçadora sem motivo aparente, também os habitantes já deviam ter mudado e
muito, designadamente no estabelecimento de novas relações de vizinhança,
criando dispositivos de associação de moradores, com ligação dos vizinhos em
rede, serviços de alerta com roteiro de proteção, um mapa de sinais de alarme e
identificação, em tempo útil, de ocorrências extraordinárias.
O que significa que nos próximos tempos, políticos e autoridades
têm muito a fazer mas os habitantes, sem caírem na tentação de se substituírem
às autoridades, também não podem de ficar de braços cruzados. Um novo conceito
de responsabilidade cívica assim o exige.
Carlos Albino
Carlos Albino
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Flagrante
aparência: Ser presidente de câmara ou
de junta, ou ser deputado, não é um emprego, nem sequer deveria tal parecer. Só
numa ditadura é que há empregos desses.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
SMS 498. A crise dos que estão em crise

31 janeiro 2013
É nos momentos de crise que muita coisa devia estar mais forte e com mais vida do que nos momentos de vacas gordas quando muita força e muita vida é força e vida à custa de subsídios, subvenções, esquemas, parcerias de conveniência e tudo o que se foi vendo, não por virtualidade própria. A escola, do básico à universidade, devia estar a dar respostas e não apenas a fazer perguntas; os jornais deviam ser procurados e não encostados ao muro das lamentações; os sindicatos deviam prestar orientações mesmo sem serem procurados e não à espera do comando central para a próxima jornada; as associações empresariais deviam mobilizar-se para o investimento próprio dos congregados ou captado em parcerias sérias e projetos sérios em vez de carpirem o fim dos negócios fáceis com voos rasantes pelos paraísos fiscais como segredo de ofício; os da segurança deviam pensar mais na defesa dos inseguros, no apoio ativo aos indefesos e na prevenção do que é previsível do que andarem por aí na obsessiva caça à multa e nas manifestações de combate ao crime depois do crime ter sido cometido; o voluntariado devia surgir diariamente como resposta onde o Estado não responde porque não quer ou não pode; a noção, mentalidade de região devia estar na cabeça das pessoas, nos propósitos das autarquias e na ponta da língua dos líderes políticos que se reclamam paradoxalmente como líderes regionais; e por aí fora, não se deixando de dizer que a sociedade devia mostrar e ter canais de solidariedade permanente, atenta e eficaz para as tragédias que se sabem ser quotidianas e já de rotina para um imenso número de envergonhados que sofrem pela calada porta sim, porta não, além de que deviam mostrar debate de ideias, debate sobre caminhos a seguir e soluções a encontrar, debate combativo e não tanto combate de pasmaceira ou permanente luta acesa pela qual tantos desperdiçam a alma. E quando não há isso, é sinal de que há uma crise mais profunda do que a crise de não haver vacas gordas. É uma crise estrutural que não se disfarça por mais festas que se promovam, por mais festivais que animem a aldeia, por mais peregrinações a Fátima em que as juntas de freguesia se comprometam. É claro que não se nega há, aqui e além, debate, solidariedade, uma ou outra ideia de projeto, um ou outro empresário com resposta, uma ou outra escola ativa, como também não se nega que há voluntários quando há enxurrada. Mas são casos isolados ainda que emblemáticos. Falta Algarve no Algarve, há muito quintal, há muito ego a querer fazer figura de proa. E essa é que é a pior crise dos que estão em crise porque não se resolve por decreto, nem a solução nasce de um dia para o outro.
Carlos Albino
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Flagrante
pergunta: Não foi VEXA, senhor
presidente da Comissão Europeia que quando era primeiro-ministro prometeu uma
linha de alta velocidade Faro-Huelva e até mostrou o mapa?
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
SMS 497. O reino do eleitor
24 janeiro 2013
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Esta crise é uma oportunidade para os eleitores afirmarem a sua
responsabilidade na escolha dos poderes. É nas horas difíceis que se conhecem
os amigos, não é? Nas anteriores eleições autárquicas, em todas elas, os
eleitores bem tiveram mil desculpas para, em algum momento, justificarem que se
enganaram. Agora não será assim. Os eleitores, do mais letrado devido às
toneladas de livros que meteram na cabeça até ao perfeito e já vulgar
licenciado em telenovelas, futebol e Correio da Manhã, agora, se são enganados
é porque querem, ou porque têm interesse no engano, porque será difícil haver
distraídos. Não há desculpas para uma irresponsabilidade naqueles dois ou três
minutos que se gastam no voto. Nas anteriores eleições locais, é muito provável
que muitos, endossados por partidos ganhadores, tivessem sido eleitos apenas
porque granjearam a fama de bons organizadores de festas e peregrinações, ou
então porque beneficiaram de campanhas faustosas financiadas pela imobiliária
desde o porta-chaves até à avioneta com faixas nos ares para influenciar o
pacóvio, ou ainda porque, como se diz, estavam ou pareciam estar por dentro das
coisas, ou seja, inspiravam aquela confiança de quem se mexe bem em Lisboa a
benefício da terra. Claro que outros não. Outros, até independentemente dos
partidos, foram eleitos pela competência e saber, pela honestidade e probidade,
pelo bom coração e por serem gente de palavra. É por isso mesmo que se lamenta
que, por força da lei de limitação de mandatos, alguns bons autarcas tenham que
ficar fora da carruagem para serem rendidos não se sabe por quem. E não se sabe
porque, nestas eleições de horas difíceis, mais do que nunca, o reino é do
eleitor.
Daí que, em momento de grande renovação no poder local, os candidatos
tenham a obrigação de serem verdadeiros e que sobre o seu passado não cometam
omissões. Não basta a fotografia, o slogan, o discurso empolgado do comício a
mostrar proa e três ou quatro ideias para exacerbar o bairrismo num mega-jantar
de feijão com massa. É preciso que sejam verdadeiros no currículo profissional
e académico, que nada omitam sobre os interesses que eventualmente os movem, e,
além disso, que esclareçam as dúvidas se dúvidas existirem. Que digam por
completo onde trabalharam, por onde andaram, se avançaram passos por mérito,
que provas podem exibir para a experiência requerida. Sobretudo se são capazes
de serem amigos nas horas difíceis. A democracia fez-se para isso, não se fez
para aldrabões sorridentes. Daí a responsabilidade do eleitor porque a
democracia é o seu reino.
Carlos Albino
Carlos Albino
Flagrante
regabofe publicitário: Agora, as agências
funerárias para além de encherem as paredes de fotocópias com os mortos tal
como os circos fazem, já publicitam também as missas de 7.º dia, as missas do
30.º dia e até as missas do 1.º aniversário do morto como morto. Em vez dos
normais anúncios nos jornais é o regabofe e, pelo que se diz, bem pago para o
que é. Que Deus lhes perdoe a intromissão nas sacristias.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
SMS 496. E não foi sempre assim?
17 janeiro 2013
Cinco histórias
do dia-a-dia:
do dia-a-dia:
1 – O alemão por equivalência. O homem discursava no lugar popular de frutas e
legumes como o dedo em riste para a dona preocupada com o novo regime de
faturação: “Tem que ser! Estamos na União Europeia e isso tem que ser! Como
sabe sou alemão! Portugal não produz nada, ninguém quer trabalhar! Lá minha
terra não é nada disto. Aqui, o pagode vive acima das suas possibilidades, é só
auto-estradas, é só feriados… Não sabe que temos de lutar contra a economia
paralela?” Foi então que decidi
cortar-lhe as vazas com uma
comparaçõeszitas entre Portugal e a Alemanha em matéria de adoção de normas
europeias, de autoes-estradas, de feriados. Enrolou o estoijo e depois de ter
saído, alguém no lugar comentou: “O que este me saiu! Lá por ter nascido na
Alemanha, filho de emigrantes e que anda por aí sem fazer nada a viver dos
rendimentos do pai, diz-se agora alemão para pregar sermões…”
2 – Educadoras. São educadoras infantis no jardim-escola e todos os
dias estacionam as careros em cima do passeio a dar para uma passadeira de
peões. Alguém lhes chamou a atenção e mesmo à frente da criançada, guinchou
uma: “Você é da GNR?”
3 – Mortos privativos. Como se sabe, as funerárias em vez de
anunciarem nos jornais da terra, andam por aí a colar pelos cantos fotocópias
com os falecimentos e até para as missas de sétimo dia. Algumas até têm
placares privativos que são verdadeiros jornais de parede como na China. Uma
noite destas, vi um funcionário de3 uma dessas funerárias arrancar as
fotocópias de uma funerária concorrente…
4 – Inglês acima da lei. Presta serviços de construção, tem um
camião, vive à beira de uma estreita estrada municipal mas bastante
movimentada, entre curva a 15
metros e uma contra-curva a outros 15. Tem um parque
para estacionar o veículo, mas qual coisa! Estaciona na berma da estrada
ocupando parte desta, a qualquer hora do dia ou da noite. Por essa estrada,
pelo que já observei, passam regularmente veículos da GNR, não sei de em
serviço de patrulha, se em alternativa de táxi, mas passam e fazem vista
grossa. Até que um dia se dê por ali um desastre fatal. Nas quem vai falar com
um iuglês acima da lei?
5 –
Alemã de bom feitio. Não sei o que fez nem o que faz, vive numa pequena
casa rural à beira de um caminho municipal, a portada dá para uma lomba onde a
circulação está limitada aos 40 à hora mas por onde grande parte dos vão sem
visibilidade dos que vêm, passa a 100, 120, quando não mais. Pois a senhora
alemã, para não ter o trabalho de abrir a portada, faz do caminho e da lomba o
seu parque de estacionamento. Alguém lhe chamou a atenção e a receção foi a
sete pedras. Se todos os alemães tiverem este fetio, estamos feitos.
Carlos Albino
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Flagrante
falta de prémio: Nada, ninguém no horizonte
algarvio a quem, pudesse ser atribuído o Prémio SMS de Jornalismo 2012. Segundo
o júri, isto vai de mal a pior, tanto que apenas se justificaria um prémio de
anti-jornalismo àquela reportagem da televisão sobre a criança de Quarteira.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
SMS 495. Vamos a votos
10 janeiro 2011
Vão ser quatro anos de eleições seguidas, como se sabe. A abrir o
ciclo, aí temos, em outubro, as eleições autárquicas que, no Algarve, por este
ou aquele motivo, vão ditar uma extensa reformulação na galeria dos líderes
locais. No próximo ano, 2014, são as eleições para o Parlamento Europeu que,
independentemente das sinecuras e dos bónus a figuras dos partidos, costumam
funcionar como barómetro interno. Depois, em 2015, o primeiro de dois pratos
fortes, as eleições legislativas, se nada ocorrer que as antecipe, o que é
improvável. E finalmente, em 2016, o segundo prato forte, com as eleições
presidenciais a marcarem a entrada do retrato de Cavaco Silva para a galeria
dos antigos presidentes. Portanto, vão ser quatro anos em que os partidos, mais
do que nunca e que por vezes se esquecem, precisam dos eleitores que são também
contribuintes e que, além disso e também mais do que nunca, sentem na pele a
maior ou menor seriedade do Estado e têm gravada na memória a comparação entre
as promessas feitas e garantias dadas em eleições anteriores e os factos. Um
eleitor isolado pode ser enganado e um contribuinte solitário pode ser iludido,
mas o conjunto do eleitorado, como está provado, tem uma sabedoria tal que até
determina as sondagens, tal como o conjunto dos contribuintes tem uma tal
perceção das coisas que, mais dia menos dia, até determina a desgraça dos
aldrabões de Estado que, à semelhança da criação divina, são aqueles anjos que
deram em diabos.
Para as próximas autárquicas de outubro, no Algarve, salvo este ou
aquele caso mais bicudo, estão mais ou menos completadas as nomeações dos
partidos. Uns sabem que podem ganhar, outros sabem que farão apenas figura de
corpo presente o que não deixará de ser um abnegado sacrifício, outros ainda
outra expetativa não têm do que dar nas vistas o melhor possível, mas todos
fazem parte deste jogo democrático em que os eleitores que são também
contribuintes, têm a palavra decisiva, apesar de um ou outro enganado e de este
ou aquele ludibriado. Não é um jogo que instale na terra o paraíso, mas é o
melhor jogo humano possível desde que os candidatos, começando por parecerem
anjos e arcanjos, não acabem por se revelar uns verdadeiros em diabos.
Ora, para se evitar em grande parte essa metamorfose de que o inferno
está cheio, é importante que cada candidato, designadamente às funções de
presidente de câmara, diga em verdade aos eleitores e contribuintes o que fez,
o que estudou sem equivalências da macaca, que experiência tem, quais os
interesses a que está ligado, onde trabalhou, se tem processos arquivados por
conveniência das partes, enfim, que dê as mínimas garantias de não ser ou não
ter sido aldrabão sorridente de Estado – o currículo completo e não amputado.
Depois disso, vamos a votos, haja vida, saúde e paciência.
Carlos Albino
Carlos Albino
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Flagrante
coincidência: Neste ano de 2013, o número
da paragem à porta do Cemitério da chamada Linha Amarela dos transportes
urbanos de Loulé, é precisamente 13, além de ser amarela.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
SMS 494. Grande incerteza, enorme desconfiança
3 janeiro 2013
Todos gostaríamos que as palavras fossem outras mas não vale a pena
pintar a manta: este ano de 2013 vai ser de grande incerteza e enorme
desconfiança. Incerteza porque o compromisso do poder eleito com os eleitores
deixou de ser um valor respeitável como ficou comprovado em 2012 e que já vinha
de trás, cada um culpando o anterior para se desculpabilizar e sacudir a água
do capote. Desconfiança porque os escândalos, quer os financeiros, quer os
comportamentais, quer ainda os de incompetência, tornaram-se numa coisa normal
e banal – factos ficam por explicar com uma justiça presa a formalidades
eternas e fintada pelas lacunas das leis, responsabilidades ficam por apurar
com os magistérios de influência a trabalharem afanosamente para salvar os
compadres, e depois, o silêncio dos que deviam ser exemplos de moralidade
pública e garantes da seriedade do Estado mas que, apanhados com uma perna de
fora, usam e abusam da tolerância e do respeito que o cidadão comum nutre pelas
instituições. E ainda há os que, sendo esbanjadores reconhecidos, populistas
refinados e demagogos para quem a democracia é já burro velho, ainda há esses
que, até à exaustão, julgando que convencem um povo atónito, repetem esse
refrão de que vivemos acima das nossas possibilidades como se todos tivéssemos
sido uns esbanjadores, como se fosse esse povo atónito a ocultar as causas da
crise, e como se fossem os eleitores de boa a fé que dissimularam os motivos da
confusão que grassa de alto a baixo no Estado e o colocou na dependência externa
e à beira da miséria interna, Na verdade, neste anos todos que passaram com
grandes certezas e enormíssima confiança, o que aconteceu é que elegemos gente
que estava muito abaixo das capacidades que diziam possuir, gente sem fio de
prumo moral, gente jogadora, gente manhosa que fez da manha a arte da política.
É importante que se diga a esses que não foi o cidadão comum que viveu acima
das suas possibilidades, mas sim que quem foi por ele eleito agiu e decidiu muito
abaixo das capacidades que todos acreditámos terem. Não se pode fazer uma
geração de um dia para o outro e certamente por bastante tempo, designadamente
em 2013, teremos de suportar uma geração que errou, que não reconhece o erro e
insiste no erro. O cidadão comum, eleitor de boa fé, só tem culpa numa coisa –
ter escolhido mal ou ter escolhido também por não ter havido muito por onde
escolher. Possivelmente, nas próximas eleições autárquicas, é isso que também
irá acontecer. Oxalá que não.
Carlos Albino
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Flagrante
agricultura: Como há muito não se via,
terras e terras arroteadas para sementeiras, muitas árvores novas plantadas
para dar frutos e, portanto, ainda algum ânimo na serra e algum empenho no
barrocal. Vamos ver no que dá.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
SMS 493. Aos leitores acima de tudo
27 dezembro 2012
Porque não há jornal sem leitores, não há leitores fiéis sem
assinantes e não há assinantes sem que o jornal sirva o interesse público e o
bem-comum com independência, isenção e aquele esforço próprio que o faz porta-voz
de uma comunidade – a comunidade dos leitores fiéis, dos por estes influenciados
a que se juntam, ainda bem, os curiosos do online -, é aos leitores acima de
tudo que deixamos aqui os votos de que 2013 seja um ano de esperança em que
tudo isto melhore, de coragem para se enfrentar este dia a dia em que a
generalidade da gente séria faz das tripas coração para honrar compromissos e
continuar com palavra de honra, e sobretudo um ano de saúde, segurança, cultura
e justiça.
A Imprensa, de forma muito particular e gritante no Algarve, vive
dias negros na onda geral dos dias negros que afeta pessoas, empresas e
instituições. Numa região, como a nossa, a mais flagelada pelo desemprego e
pelas consequências calamitosas de erros já em décadas na política de desenvolvimento
que desencorajou a agricultura, decapitou as pescas, levou o comércio a viver
aos supetões e instalou um turismo sem sede no Algarve feito balcão, mais do
que nunca essa Imprensa – a local e a regional – é necessária e é um bem
imprescindível. Se queremos que a Região tenha um correio público que preserve
a sua identidade cultural já de si tão esbatida, ponha em letra de forma a
defesa dos interesses gerais e transcreva os anseios da sociedade em documento
que os poderes sejam obrigados a sentir e a registar desde que essa mesma
Imprensa não seja mera montra da política e dos políticos, tentação que, a bem
da verdade, a contaminou bastante e muito perverteu, não há volta a dar a não
ser com os leitores e os assinantes acima de tudo. Tal como os políticos, num
regime democrático, não sobrevivem muito tempo sem eleitores, um jornal, seja
local e atento à rua e ao número da porta, seja regional dedicado aos grandes
assuntos e aos factos relevantes de lés a lés, não sobrevive sem leitores. Uma
política desfasada dos eleitores é o cancro da liberdade, morre da doença; um
jornal sem leitores firmes e que respondam à chamada é andar enganado na mesma
doença da liberdade, morre da cura. É do Bê-á-Bá.
Assim sendo, Bom Ano para os leitores acima de tudo.
Carlos Albino
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Carlos Albino
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Flagrante
correio azul: E por último, mas só depois
dos leitores, Bom Ano e muita força anímica para o o diretor do Jornal do
Algarve, Fernando Reis, para aguentar o barco, e, se me permitem, para os
que semana a semana mais direta e pacientemente recobrem o autor destes
apontamentos com benevolência, desde a voz castelã da Filomena, ao Domingos Viegas
que é o jornalista mais alto do Algarve e ao trio de combate da Lídia Palma, da
Irene e Ana Reis.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
SMS 492. O burro e a vaca
20 dezembro 2012
Carlos Albino
Se há religião do mundo que tenha dado à humanidade algum símbolo
de sublime afetividade e de paz, sem dúvida que essa religião foi ou tem sido o
cristianismo mais ou menos já purgado do fundamentalismo que o arrastou para os
extremos da inquisição, para as chantagens do confessionário, para as histerias
de púlpito e para as incongruências dos apetites pelo poder temporal em, nome
de um Deus que, segundo santos bem informados, nunca permitiu isso nem está no
seu feitio. E de tudo o que o cristianismo deu de aproveitável para crentes e
não crentes, o exemplo mais acabado símbolo de magia afetiva e de poética da
paz está indubitavelmente no presépio, construção forjada ao longo de séculos
onde o inverosímil é lógica pura, não importando se foi falso ou verdadeiro,
importando apenas o símbolo mágico da afetividade e da paz e o código genético
da tolerância que todos temos pensado ser a matriz da civilização que
transportamos como se fosse uma chama olímpica. E nessa construção mágica e
poética do presépio, tudo é importante mesmo que inverosímil, mesmo que se
saiba tratar-se de invenção circunstancial a que se foi somando, ao longo dos
tempos, a imaginação empurrada pela força simbólica.
É assim surpreendente que o papa, como não tendo mais nada no mundo
com que se preocupar, se venha meter com o burro e com a vaca do presépio,
pretendendo emendar a história naquilo que não pertence à história. O burro e
vaca, tal como o anjo, os reis e as estrelinhas, a palha do menino, a
samaritana, os pastores e as ovelhinhas, por aí fora, são peças desse puzzle
simbólico que tem sido o jogo anual de paciência para gerações, ponto de
encontro de famílias e olhares, enfim, suave magia que pacifica o espírito e dá
alminha de paz ao corpo mesmo que esse corpo seja o do pior bruto.
Entender-se-ia que o papa questionasse o burro e vaca ao pequeno-almoço com
dois cardeais, já não se entende que ele não perceba o que um símbolo e faça
doutrina. Por mim, vou armar o presépio de sempre com o mesmo burro e a mesma
vaca, justificando-se ainda mais, nos dias que correm, que torne mais vivo esse
símbolo de conforto anímico.
Andando pelas ruas, vê-se que as pessoas estão tristes e que as
ruas estão tristes. Além de não haver o espalhafato autárquico das iluminações
com milhões de lâmpadas da China, é raro ver um Pai Natal pendurado das
janelas, um paninho onde se leia o bordado de um Feliz Natal, uma lampadazinha
portuguesa a dar um tom de mágica exceção à fachada da casa. Ao menos que, num
recanto da casa, haja um presépio, haja uma ceia, haja um presente, haja um símbolo
sendo verdade que todo o símbolo tem a sua vaca e o seu burro, tenha Sua
Santidade santa paciência na sua frieza alemã pois não foge à regra. E já,
agora, que p melhor presente do Natal deste ano seja já o Natal do próximo ano
com um milagre, o milagre de que isto mude, o milagre de que haja alguém,
inspirando confiança, a dizer basta e que retire os falsos burros e as falsas
vacas de um presépio onde não têm lugar. Alguém que reponha o símbolo da esperança.
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Flagrante
assalto: Ao Estado.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
SMS 491. Pés de guerra
13 dezembro 2012
Carlos Albino
No fundo, para além da papelada, dos belos objetivos gerais e dos
defensáveis objetivos específicos, dos cronogramas e dos anexos que são o
principal do filme, quanto à chamada reforma das juntas de freguesia, vira o
disco e toca a mesma música. Mais ou menos, fica-se como há uns anos atrás,
esquecidos já que estamos do populismo e do eleitoralismo que semeou
freguesias, para não se falar da sementeira de concelhos em grande parte
falhada mas a que não eram, alheios interesses imobiliários e outros dos
promotores, servindo-se de uns tantos ingénuos, de outros tantos distraídos mas
também de muita gente de boa fé que, por isso mesmo, não lhe é dado perceber o
que está por trás das causas difusas. Nem sempre foram intuitos genuinamente
democráticos a basear tais movimentos alinhavados pela exacerbação do
localismo. Em todo o caso, a dita reforma, aí está, resumindo e concluindo, com
um vasto leque de “uniões de freguesias”.
Em boa parte dos casos, deixando-nos de figuras de estilo, trata-se
de anexações e em bastantes tais uniões de freguesias, o poder é nómada, anda
com a casa às costas de quatro em quatro anos, rotativamente, ora somos nós,
ora são vocês. Portanto, a reforma não parece ser do território, mas do mando
ou do comando, como se queira, haja anexações ou o poder local ande como as
caravanas dos que falam caló. No intuito de reduzir o número de freguesias,
reduzem-se apenas os comandos, criando-se reinados temporários e, não se deseja
isso, mas é de prever que a cada eleição corresponde um pé de guerra.
Uma reorganização do território, se é isso que se pretende, deveria
começar pela regionalização, com o Estado a transferir o que há muito deveria
já ter transferido para os administrados. Mas não, o Estado preferiu manter a
sua pesada rede de direções regionais e de delegações ao mesmo tempo que
estimulou um municipalismo anti-regionalista e agitou o caleidoscópio colorido
das freguesias onde cada presidente, outrora regedor, se foi habituando, tanto
quanto possível, à ideia de que era chefe de governo proclamando em muitos
casos fronteiras ridículas com placas não menos ridículas, além da promoção das
excursões a Fátima e de outros trajetos que sempre dão votos. Naturalmente que
o sistema não poderia funcionar sem ser excessivamente oneroso e sem que criar
uma ampla teia de burocracias inúteis, repetidas e de jogos de empurra das
câmaras para as freguesias e das freguesias para as câmaras, que foram deixando
o cidadão comum cada vez mais atónito, descrente e, por defesa, também cada vez
menos participativo. A democracia local viveu à custa das obras e do fogo de
vista, o que, em abono da verdade, castrou os sentimentos de região, delapidou
acervos seculares de identidade e quebrou figurinos de comunidade em que
território, cultura e desenvolvimento deveriam ser denominadores comuns e não
mantas de retalho com cada um a puxar para o seu lado. E foi assim que se adiou
o Algarve com o fomento de algarvezinhos.
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Flagrante
estratégia: Em alguns municípios, quem
vier a seguir que apague a luz que quem a acendeu já se safou.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
SMS 490. Bibliotecas Públicas em maré vazia
6 dezembro 2012
Vem do centro da Europa aquele velho provérbio que diz que, quando a maré desce, quem está nu dentro do mar mostra as vergonhas. Se este princípio se aplica às economias em geral, nos tempos que passam, tal como o disse há pouco tempo Christine Lagarde, o que não dizer de certos sectores, como a Cultura, as Artes e a Leitura, actividades sempre frágeis, sempre balouçando financeiramente na corda bamba, não pelas más administrações, ou vício de parasitismo, como em geral se diz, mas pela sua própria natureza. Como se sabe, estas são actividades que geram as riquezas motoras fundamentais para o desenvolvimento, mas não se autofinanciam.
Carlos Albino
Vem do centro da Europa aquele velho provérbio que diz que, quando a maré desce, quem está nu dentro do mar mostra as vergonhas. Se este princípio se aplica às economias em geral, nos tempos que passam, tal como o disse há pouco tempo Christine Lagarde, o que não dizer de certos sectores, como a Cultura, as Artes e a Leitura, actividades sempre frágeis, sempre balouçando financeiramente na corda bamba, não pelas más administrações, ou vício de parasitismo, como em geral se diz, mas pela sua própria natureza. Como se sabe, estas são actividades que geram as riquezas motoras fundamentais para o desenvolvimento, mas não se autofinanciam.
A que vem isto a própósito? Vem a propósito de que a imagem da maré
vazia, aplicada ao caso particular das Bibliotecas Públicas do Algarve, lembram
o que foi feito durante a maré cheia.
Durante a maré cheia, governos centrais e autarquias criaram uma
rede de bibliotecas invejável, numa zona completamente desprovida de
equipamentos culturais do género. As cidades principais desta região muniram-se
de espaços polivalentes extraordinariamente bem concebidos, os arquitectos
foram prendados, algum luxo foi mesmo aplicado. Mas aos pilares e escadarias de
bom desenho e às boas cadeiras de encosto, candeeiros de tecto que poderiam ser
do Siza, não correspondeu a elevação do nível cultural esperado. Esgotado o
dinheiro que permitia tapar o sol com a peneira, encomendando serviços
externos, pagos e bem pagos, promovendo e até mesmo publicando livros ou
cobrindo edições municipais de valor zero, mas impressos em papel sumputário,
agora, as Bibliotecas do Algarve ficaram entregues à verdade nua e crua daquilo
que são os talentos dos seus bibliotecários. É aí que entra a maré vazia.
Na maré vazia, não vamos de
dedo em riste entrar pela porta das bibliotecas acusá-los, mas apenas
manifestar o desgosto, de que terminado o tempo das marés cheias, alguns deles
não tenham sequer capacidade para criar uma montra de livros de Natal. É de
chorar às lágrimas perceber que as sugestões de leituras para o Natal podem ficar
por um amontoado de livros de esoterismo, anjinhos e diabos, espiritismo e
profecias, enfeitados com desenhos próprios das "Modas e Bordados".
Triste maré vazia, triste realidade.
Que um outro sino de Natal, do ponto de vista cultural, chegue
rápido.
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Flagrante
classe política: Para as autárquicas no
Algarve, ou há candidatos a mais, ou há candidatos a menos, em alguns casos
nenhum.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
SMS 489. Deputados, mais uma vez
29 novembro 2012
Vamos em 38 anos de democracia, já elegemos deputados vezes sem
conta, pelo que seria quase ridículo lembrar que um deputado é, antes de tudo,
porta-voz da população na Assembleia da República, que deve responder e dar corpo
aos anseios e necessidades dos seus eleitores e que por isso mesmo compete-lhe
procurar respostas legislativas para os problemas deste mundo e não do outro
mundo. Seria ridículo lembrar isto se os deputados, a começar pelos cá da casa,
assim tivessem procedido e não, como tem sucedido, assumirem posição inversa,
ou seja, a de porta-vozes do governo se são do partido no poder ou do diretório
central da oposição se são da oposição. Um deputado do poder não tem que
explicar à população medidas do governo, tem que ouvir a população, e um
deputado da oposição não tem que espicaçar os eleitores para a luta superior do
seu partido, tem, sim, é que ouvir os mesmos eleitores para que a oposição seja
coerente, idónea e, já agora, alternativa credível e não mero fruto das
circunstâncias. Portanto, ser deputado não é uma profissão de carreira, é um
serviço que deve ser prestado por um contrato solene com os eleitores. Ser
deputado não é ir para Lisboa e iniciar uma carreira que pode dar em ministro,
em secretário de Estado, outro grande cargo, ou, nessa impossibilidade, viver
uma vidinha de funcionário de corte política cumprindo disciplinarmente os
deveres partidários a troco de privilégios e de um razoável salário de
lealdade. E por isso mesmo, um dos seis deveres que decorrem do seu estatuto é
precisamente o de “assegurar o indispensável contacto com os eleitores”. Para
tanto, o regimento parlamentar reserva-lhe as segundas-feiras, todas as
segundas-feiras que, para cada deputado não são portanto “dias livres” mas dias
a preencher com o trabalho de ouvir e registar aquilo que as populações têm a
dizer.
Vem isto a propósito dos deputados do PSD cá da casa terem
anunciado a promoção de “nova ronda de atendimento de eleitores” em três
sábados deste mês de dezembro – dia 8, Elsa Cordeiro em Tavira e Pedro Roque
(Portimão), a 15, Cristóvão Norte em Faro, e a 22, Mendes Bota em Loulé. Dos dois do PS e dos outros dois do BE, do
PCP e do CDS, não se sabe se fazem também alguma nova ronda nuns sábadozinhos,
é possível que sim, é possível que não. Não está em causa que os deputados
troquem a segunda-feira pelo sábado para atenderem eleitores, o que releva é
que parece ser um ato excecional aquilo que devia ser normal e rotina, seja ao sábado
por conveniência de deputados e eleitores, seja às segundas-feiras, todas as
segundas-feiras por força do dever indeclinável e regimental dos deputados, de
cada um dos deputados. Vamos em 38 anos de democracia e só não é ridículo
lembrar que esse dever devia ser uma rotina, porque passam as semanas, os
meses, anos e anos e o que mais se tem visto e observado não é o cumprimento do
dever de ouvir o que populações têm a dizer ao governo, mas, volta e meia, uma
espécie de direito dos deputados a juntar eleitores para lhes explicar ações do
governo ou espicaçá-los para os cálculos de oposição – o contrário do que devia
ser e daquilo para que uma democracia é feita. Em todo o caso, mais valem três
sábados que nenhuma segunda-feira.
Carlos Albino
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