quinta-feira, 28 de julho de 2011

SMS 421. O “nosso” elefante

28 julho 2011

Não gostaria de voltar a este assunto, mas tem que ser. Por aí ficou preto no branco que, pelo Estádio Algarve, a Câmara de Loulé paga 2,1 milhões de euros por ano enquanto a parceira Câmara de Faro paga apenas 900 mil euros, portanto menos de metade. E é com tais pagamentos que temos um estádio com o nome “Algarve”  mas às moscas, não fossem em todos estes anos uns desafios da II Divisão, três sacrifícios do Portimonense, um recurso afluente do Guadiana, e uns festivais, além do rali – tudo somado, muito pouco para compensar o esforço financeiro de Loulé sem fama nem proveito e o de Faro com fama. Mas é esse o nosso estimado elefante que custa a erário público 3 milhões de euros. Nem quero imaginar se tal montante fosse gasto num plano de combate à relutância da leitura, já não digo nos dois concelhos da obra – Faro e Loulé, mas em todo o Algarve! Seria um escândalo destinar três milhões de euros para que os jovens de modo geral não entrem cada vez mais parvos para as universidades, pagando a melhores professores do que os muitos que por ai andam a fazer de conta. Todavia, segundo parece, para se manter um elefante branco, o dinheiro, todo o dinheiro é bem empregue e poucos questionam, tal como ninguém questionou o slogan que durou durante toda a construção daquele estendal: “Construímos vitórias!”, era assim, quando deveria ter sido – “Construímos Buracos!”. É claro que, para além do estádio há o Parque das Cidades que, se é Parque ninguém deu por isso, e se é de Cidades, é de ver bem isso, quais são as cidades que se dão a esse luxo com fama e proveito.

Quando, por ocasião do lançamento da ideia do estádio, dissemos frontalmente ao direto responsável governamental da ocasião que, para ali, seria melhor um projeto mais integrado comunitariamente, com valências rentáveis e interligadas com a região por exemplo com o alvitre de um velódromo coberto, recordo-me da resposta - uma gargalhada. E ainda hoje ouço essa gargalhada quando vou àquele descampado verificar se houve alguma evolução da espécie e se a direção do vento mudou... enfim este pequeno pormenor que não se nota no estirador de arquiteto ganhador de concursos mas que não pode ser descurado por quem conta as notas de euros ao ar livre. E as notas, ali com a ventania do cerro da Goldra como voam! E como voam mais a de Loulé que as de Faro, cidade esta que não será com São Brás e muito menos com Almancil que vai compensar aquilo... Pelo contrário, fará aumentar a ventania.

Carlos Albino
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Flagrante mestra: Aquela rapariga de Guimarães que há um ano provocatoriamente e com toda a proa esvaziou as praias do Algarve, foi apeada pelos próprios de Guimarães. Só que a indemnização daria para pagar refeições escolares a crianças carecidas em três concelhos... Grande mestra!

quinta-feira, 21 de julho de 2011

SMS 420. Que assim seja. Todavia…

21 julho 2011

É um dado confortante que o cidadão, sem execção de ninguém e para ninguém, aceite contribuir para o salvamento do país – o mal começa com as suspeitas de exceções e, depois, a agravar, com as provas de que bastantes têm artes para se isentarem, fiados naquele lema segundo qual o segredo é a alma do negócio do momento. Já é um dado menos confortante que os governantes, levados pelo voluntarismo, não expliquem as medidas que decidem, ou que, quando as explicam, ficam pelo “modo geral”. Vem isto a propósito das portagens na Via do Infante, cuja explicação ficou pelo “modo geral” ou na justificativa de arrecadar receitas a todo o custo, seja onde for e, já agora, contra quem for. Portanto não se explica, não se ouve os argumentos de quem discorda, não se responde, como se o poder central, para ser central, tivesse que ser hipertrofiado e hegemónico para o funcionamento do País. Perante a crise, o grito das instituições naturalmente que deve ser escutado pelo cidadão, mas também para resolver a crise as instituições devem ouvir o grito do cidadão. A crise é o problema, um problema que está formulado, todavia não se dê o caso de à crise se sobrepor uma crise maior – a da desconfiança do cidadão perante poderes que não escrutinam minimamente como o bem comum pode e deve ser conciliado com o interesse geral, sobretudo nos temas que se converteram na caixa de ressonância da generalidade dos cidadãos sem os quais as instituições ficam a falar sozinhas – o que será mau, como doença. As últimas eleições deram a lição magistral de como o cidadão reage quando verifica que os dinheiros públicos são usados como pau para toda a obra, pelo que será aconselhável também que os governantes se interroguem sobre os motivos pelos quais os cidadãos reagem quando a crise é usada como obra para todo o pau.

A Via do Infante não é um caso particular e como tal atendível? Então digam porquê, como e que alternativas há cujo teor tenha relação direta e útil com o que está em causa, pois o que está em causa é apenas a única ligação longitudinal de que o Algarve dispõe neste acumulado de erros e virtudes com que a região chegou ao século XXI. A estrada 125 é uma estrada dos anos 40 do século passado e, repete-se, não é com 435 rotundas que o tempo volta para trás. Entre Lagoa e Portimão nada tem a ver com o ermamento de outrora onde o Pragal era um desconfortável oásis para operários conserveiros; entre Faro e Tavira nada tem a ver com os bucólicos postais ilustrados dos anos 50 – onde estav uma pita, está uma urbanização; entre Portimão e Lagos até Vila do Bispo, nada fica isolado e no cu de Judas; entre Tavira e Vila Real de Santo António é uma passadeira para uma Espanha que já não fica no Egito mas ali, vizinha de que até nem se tira partido pelo facto de Sevilha ser mais fácil que Lisboa, e Huelva apenas a outra margem; Silves poderia perfeitamente voltar a ser capital e com bispo na Sé; também só um psicopata ainda vê Albufeira como aldeia piscatória com duas tabernas, pronúncias envergonhadas e uma ribeira intransponível para os remexidos de trazer por casa; Loulé mescla-se com Quarteira tal como Faro se mescla com Olhão. Enfim, eis o Algarve que mais não é do que uma extensa cidade do litoral, com a população de Braga e, ironicamente, mais helénica do que no tempo de Teixeira Gomes, agora sim com uns bairros a fingir de cidades, outros de vilas e a 125 como rua do seu interior a que as 435 rotundas vão dar aspeto de beco sem saída para gáudio dos gabinetes de arquitetura e de engenharia que têm a sorte de pegar em mais este pau para bonita obra.

Assunto para continuar.

Carlos Albino
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Flagrante multiplicação: Com a neutralização do governador civil (M/F, como nos empregos), espantosamente estão a surgir os governadores civis substitutos. Agora é que acordaram?

quinta-feira, 14 de julho de 2011

SMS 419. O futuro do PS cá da terra

14 julho 2011

Interessa a todos. O futuro do PS, sobretudo o cá da terra, interessa tanto como o do PSD, o do PCP, o do CDS, o do BE, e de cada um dos demais, desde que sejam legais e concorram, tenham conseguido assentos parlamentares ou não, estejam representados somente numa assembleia de freguesia do monte ou estejam em todas, tenham poder ou não. Os partidos, no seu conjunto, formam o retrato político da terra e, gostemos ou não dos primos, sejam ou não parentes afastados ou mesmo parentes de pára-quedas, é a “família” que temos e perde o Algarve se a família for má. Agora, naturalmente, é o PS que está em causa, havendo aí uma parte que é restrita e das contas da casa, mas outra parte que é pública e do interesse público. E o PS está mal.

Primeiro, porque viveu ao sabor, ao ritmo ou por inércia das vitórias ou derrotas do líder nacional de cada momento – raramente se questionou, nos últimos anos, pelas causas próprias (não culpas), pelos motivos próprios (não interesses) e pelas responsabilidades no próprio cartório (não conjunturas lá decima). Segundo, como de resto é mal geral a todos os partidos, esteve sempre aberto a todas as críticas, sem dúvida, mas cada crítica ou foi tratada como armadilha da oposição, ou remetida para a prateleira dos ataques classificados como pessoais. Terceiro, viveu dos resultados – às mil maravilhas, camarada, quando se revelaram favoráveis, vitimando-se, apelando à misericórdia geral por ocasião dos tombos e enganando-se com aqueles cálculos primários de que amanhã é um novo dia, virando-se o disco e tocando a mesma música.

Ora se os partidos existem para conquistar o poder pelo sufrágio, é também pelo poder que conseguem conquistar e pelo número e qualidade dos protagonistas da conquista, que os partidos valem. Mais ou menos.

E o que é que o PS cá da terra conquistou? Pouco. Dois deputados, numa lista em que a figura do quarto lugar deveria ser a primeira, com uma terceira ninguém sabe porquê mas na expetativa de alguma renúncia, a primeira figura com interesses políticos manifestamente longe do Algarve (ou pelo menos longínquos) e a segunda figura que nem atou nem desatou, quando deveria ter atado logo nas legislativas de 2009 e desatado antes destas últimas, as de junho.

É que não basta ser voz no Algarve, é preciso ser voz do Algarve – é isso que o eleitorado exige, espera e reclama dos deputados eleitos, mesmo daqueles a quem não destinou o voto. E para ser voz do Algarve é preciso corporizar os interesses, as aspirações, as razões e sobretudo as condições que o Algarve entende como necessárias para o seu bem comum. Ninguém exige a um deputado algarvio que seja contra o Alentejo, uma boca aberta contra o Norte, um arqueiro medieval contra o Oeste ou um artista de circo contra o poder central. O que se exige é atenção política, corpo inteiro e alma viva, e particularmente do PS que não saia pela esquerda alta.

Claro que o Algarve precisa que o PS tenha isso, seja isso, como precisa que cada um dos restantes partidos tenham isso e sejam isso, porque se não tiverem e não forem, vão ver. É uma questão de tempo – para se enganar o eleitorado é preciso ter maior memória que este… o que é impossível, em democracia. Tirem os cavalinhos da chuva.

E a pergunta que inevitavelmente se coloca será esta: conseguirá o PS dar a volta por cima, conseguirá reagrupar-se para enfrentar o que o calendário democrático impõe – autarquias, para já, legislativas lá mais para a frente? E neste parlamento? O que é isso?

Carlos Albino
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Flagrante criminalidade: Naturalmente que nas esquadras não se combate o crime lendo calmamente os jornais que recebem em primeira-mão as notícias do próprio crime. E quando crime é já algo muito próximo do terrorismo, há que haver mobilização. Não é a palavra?

quinta-feira, 7 de julho de 2011

SMS 418. As escolas do Algarve

7 julho 2011

Os professores, tal como os governos e até o papa, alguma vez podem não ter razão. E não é por se lhe apontarem erros ou omissões, que ficam desautorizados – desautorizados ficarão é se as suas lutas ou reivindicações forem apenas as corporativas, e se julgarem que o seu prestígio e credibilidade podem sobreviver com indiferença pela sociedade que justifica a sua missão. Um professor que seja professor tem que dar provas de que é capaz de ensinar a crítica e de que aprendeu a auto-crítica. Vem isto a propósito da situação calamitosa das escolas do Algarve ou no Algarve, como queiram. Da situação calamitosa da qualidade do ensino, dos resultados obtidos que de modo geral no cômputo do País são uma lástima, do ranking sobretudo das nossas escolas do ensino secundário que é o que diretamente verte para as universidades as evidentes lástimas do ensino e que acabam, mais dia menos dia, por colocar às próprias universidades a questão da sua sobrevivência, missão e credibilidade – seja esse ensino superior público ou privado. Não creio que os professores do secundário do Algarve tenham dialogado muito sobre esta matéria com os professores das universidades. Se têm falado, pouca gente terá ouvido. E quando ninguém, do secundário ou do superior, toma a iniciativa de formular o problema que os de um lado e outro sabem que existe, sim, a estratégia é suicidária.

Nesse propósito, a Direção Regional de Educação falhou, e não é uma questão de gastar milhões ou apenas dois cêntimos, de ter um só adjunto ou de ter posto ordem ou fechados os olhos à desordem nas escolas (e desordem é por vezes o carreirismo, a lassidão, a golpaça curricular e não apenas a má ministra). E falhou porque não foi capaz de formular o problema em diálogo com as universidades, seja a grande, a do Algarve, sejam os institutos superiores que aqui a ali sobrevivem. Também não espere agora que cada escola vá fazer isolada em grupo se simpatias, aquilo que, de forma concludente e continuada, uma estrutura “regional” não foi capaz de executar perante um problema que está à vista de todos – o baixo e humilhante nível do ensino secundário no Algarve com consequências diretas no abastecimento do superior -, não valendo a pena enterrar a cabeça na areia e estar à espera da publicação do próximo ranking das escolas como nos exercícios de adivinhação. Um ou outro êxito pontual não alivia, e culpar pais ou alunos é expediente que não colhe fora também do pontual.

Ora, escolas, municípios, institutos e universidade alguma vez têm de acordar e fazer alguma coisa em conjunto e a primeira a fazer é formular o problema, se querem viver, melhor – sobreviver.

Carlos Albino
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Flagrante naturalidade: Observam-nos que haverá afinal um “algarvio” no governo só porque terá nascido em Faro. Mantém-se o que sempre se disse aqui: há algarvios (até grandes!) que não nasceram no Algarve, e há quem tenha nascido e não seja ou até tenha vergonha disso nos currículos...

quinta-feira, 30 de junho de 2011

SMS 417. Lá em cima e cá em baixo

30 jumho 2011

Lá em cima. Comecemos lá por cima. Não é que o Algarve tenha que ter alguém no governo, como se isso fosse direito próprio ou direito a uma quota, mas não ter continuadamente ninguém em qualquer governo é mau sinal, pior indício e confrangedora constatação. É um sinal mau da aceitação, credibilidade e capacidade da nossa estimada classe política – é como se não tivéssemos ninguém, portanto, ou como se a gente que temos ande só na praia. O indício é pior porque esse não-Algarve na área do poder central vem de longe, não é um ato premeditado deste XIX Governo – foi no XVIII, foi no XVII e a presença de José Apolináro na secretaria das Pescas foi o último fogacho, o último dos sinais de consolo para esta ou “aquela” gente lá do sul que, politicamente, já não é apenas sul, é sul do sul, lá dos confins, pelo que não contam. E a constatação é confrangedora porque é prova das duas uma: ou a prova de que o Algarve não tem quadros competentes e capazes de entrar num governo, já não se diz para um Ministério que imponha respeito ao FMI, à UE e aos mercados, mas ao menos para uma secretariazinha de Estado, para algum desses nichos que trate dessas reles coisas como, por exemplo, o Turismo; ou então, caso tenhamos quadros – possivelmente temos… - o seu aproveitamento poria o País a desconfiar de algum algarvio ousado ou simplesmente aceite na fechada comunidade ou elite do poder central, onde o peso de algumas regiões é evidente (neste e em anteriores governos, deixemo-nos de histórias), não disfarçando a existência de lobbies que atuam independentemente das organizações partidárias, dos resultados eleitorais e dos encantadores discursos da moda sobre a aproximação da política aos cidadãos.

Cá em baixo. Pois cá em baixo, depois de se ter enchido o balão do municipalismo de que muita gente se serviu para esvaziar qualquer veleidade de organização administrativa regional séria, completa e participativa como uma democracia participativa, completa e séria já deveria ter posto à disposição dos administrados, agora pretende-se picar o balão com agulhas. É claro que o municipalismo exacerbado inviabilizou na prática o balão que valeria a pena ter-se elevado – no Algarve, por exemplo, a Região Piloto, sem se tocar no mapa autárquico, mas tocando-se apenas nas competências que seriam transferidas para a Terra Comum ou para o Bem Comum do Algarve, como queiram. Mas não! Em nome não do bem comum mas do chamado interesse geral, encheram-se os 16 balõezinhos, cada um o melhor que os do fôlego podiam dentro das suas fronteiras, uns mais do que outros, aliás, uns tantos muito e uns poucos nada. E agora? Agora, por invocada pressão exterior, melhor dizendo, por manifestas condições impostas do exterior, depois do mal pretende-se fazer a caramunha, lançando populações contra populações, uns municípios comendo outros ou partes de outros para obviar às respetivas insolvências, insolvências esperadas porque o municipalismo fundamentalista e exacerbado haveria, algum dia, de redundar em insolvências. Haja bom senso. O caminho pode ser emendado.

Carlos Albino
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Flagrante Parabéns: A propósito dos 25 anos da sua ordenação, parabéns ao padre César Chantre que estima o conhecimento, acolhe a cultura, dialoga com os sinais do mundo, não rasga livros mas encaderna-os na crítica afável e fez das igrejas de três aldeias verdadeiras catedrais que crentes e descrentes espreitam em fraternidade espontânea – verdadeiro milagre. Ele que não leve a mal, mas é o primeiro santo do século XXI no Algarve.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

SMS 416. Governadores que nunca governaram

23 junho 2011

O problema foi e tem sido esse: governadores ou governadoras nunca governaram. Representaram, presidiram, informaram para cima, explicaram para baixo tanto quanto puderam ou souberam (por vezes nem isso sabiam), envolveram-se também por vezes nessa tarefa abstrata e inútil de “aproximar o cidadão e a Administração”, emitiram pareceres quando pareceres lhes fossem solicitados, e, a parte mais visível, festiva e por certo apetecível, elaboraram os cadastros das associações desportivas, recreativas e culturais para efeitos de gestão dos subsídios e financiamentos que foram atribuindo no âmbito do distrito. E tem sido esta a vida dessas figuras nomeadas e exoneradas pelo Governo, em Conselho de Ministros, por proposta do Ministro da Administração Interna, de quem dependeram hierárquica e organicamente. Têm sido, portanto, os cônsules desse ministro sem poderem levantar cabelo, pelo que não será difícil admitir que os governadores civis não governaram, e que, dada a natureza humana, alguns governaram-se.

No caso do Algarve, esta estrutura do governo civil que não governa, apresenta-se com três dirigentes e 24 postos de trabalho nos serviços (1 técnico superior, 2 técnicos de informática, um coordenador técnico, 16 assistentes técnicos e 4 assistentes operacionais). Claro que, descontado o trabalho protocolar dos dirigentes, desde os passaportes e às autorizações de peditórios de rua, por entre mais, até à instrução de processos de contraordenações todos os da estrutura têm muito que fazer e alguém no futuro terá que fazer isso, se não forem os mesmos a fazê-lo deslocados para outro lado, mas a questão de fundo é esta: o governador não governa, nunca governou e o título é uma falácia, não se escondendo que vem da noite do passado uma espécie de temor reverencial, de medo até ou uma ideia de autoridade implacável que o nome de governador civil infunde na mente de quem se deixa infundir, claro.

Falácia que a própria Constituição reconhece, ao julgar que mata a questão dos distritos sem assumir a questão das Regiões e aqui é que está o busílis. Em três penadas, diz a Constituição que – primeira penada -  “enquanto as regiões administrativas não estiverem concretamente instituídas, subsistirá a divisão distrital no espaço por elas não abrangido”; que – segunda penada – “haverá em cada distrito, em termos a definir por lei, uma assembleia deliberativa, composta por representantes dos municípios”, e que – terceira penada – “compete ao governador civil, assistido por um conselho, representar o Governo e exercer os poderes de tutela na área do distrito”

Ora o novo primeiro-ministro ao anunciar que não irá nomear novos governadores civis como primeiro sinal do “exemplo de rigor e de contenção” do Estado, anunciou pouco, porque não foi ao essencial além de que não poderia ir ao essencial. Ele não pode acabar com os distritos apenas porque anuncia que não vai nomear novos governadores, sugerindo, pois, que os que existem renunciem, abandonem os cargos. Teria sido preferível anunciar que iria nomear como governadores civis provisórios os presidentes das organizações autárquicas regionais, caso aceitem e onde aceitem, com outras soluções transitórias mas sempre possíveis, na atual moldura constitucional, onde essa aceitação não se opere de forma natural e legítima, porque legitimada ela é. Foi, para já, um erro de calendário a coincidir com uma precipitação de agenda política. Nenhuma ave põe ovo no vazio.

Carlos Albino
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Flagrante terramoto: No PS. Vai levar muito tempo porque ninguém se preparou nem ninguém foi preparado. E quando assim é, confia-se num milagre, num pastorinho vidente. Quem sabe?

quinta-feira, 16 de junho de 2011

SMS 415. Definições e indefinições

16 junho 2011

Afinal o que ficou definido?

A nível nacional, ficou definido o governo e o parlamento. Como isto irá ser, mais ou menos, já estava definido e não por braço no ar ou voto nas urnas – teve que ser, e neste teve que ser a grande lição segundo a qual para nada serve a vaidade, a sobranceria, o auto-convencimento e o não querer escutar ninguém, mesmo os que estejam próximos.

A nível regional, aí, as indefinições começam: o governo civil que nos últimos anos pouco mais tem sido que uma mordomia a dar ar oficial ao jardim da doca de Faro, acaba ou continua nisso, dando vez a quê de Região e passando a quem da Região? As direções e delegações que por aí andam, algumas apenas no corrupio de despacho para Lisboa, outras com dinheiro apenas para pagar aos funcionários mas sem grande utilidade nem sequer a de intermediário credível, ou mesmo visivelmente para nada a não ser para penacho do titular, isso continua com este mapa, vai para engordar Évora, dar o ar da sua graça a Beja ou ser integrar-se em quê de Região e ficando em que mãos da Região? E o turismo? Vão os proventos captados no Algarve continuar a financiar direta ou indiretamente o que não tem nada a ver com a Região, nem sequer diretamente o País mas outras regiões e entidades de outras regiões que mais não fazem que denegrir o Algarve sem que podem, competir com o Algarve como se tivesse que haver competição entre quem financia e quem é financiado? E como vão ser estes deputados que o Algarve elegeu, aparentemente  que são 5 da coligação (4 do PSD, mais um da paralaxe do CDS) e 4 aparentemente da oposição descoligada entre si, além da descoligação dentro de cada partido (2 do PS, a do PCP e 1 do BE) mas que não será difícil perceber que dos 9, uma pequena maioria que não quantificar para que a constatação de curriculum não se transforme ou seja entendida como ofensa, tem o coração no corpo e a cabeça na alma?

Belos tempos aí vêm.

Carlos Albino
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Flagrante mapa: Sempre quero ver o que vai acontecer se mexerem no mapa com o melhor dos concelhos a ir para baixo e o pior das freguesias a vir ao de cima…É que uma coisa é o mapa geo-político, outra o mapa mental.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

SMS 414. A fábula ensina que…

9 junho 2011

Toda a fábula, porque é fábula, deixa uma lição e procedem mal os que, com os resultados destas eleições no Algarve, se isentam das responsabilidades pelo remate da história contada. Uma fábula eleitoral não é coisa acontecida há séculos e com personagens de terras longínquas – é feita por eleitos ou derrotados e por eleitores inscritos acabem estes por ser os votantes que contam, os que entram em branco e brancos saem, os que se divertem como nulos que são ou mesmo os abstencionistas que decidam ser filhos de ninguém.  Todos, sem exclusão, fazem intervenção na fábula e no seu remate. Os algarvios sabiam que, feitas as contas finais, haveriam de ser eleitos 9 deputados por entre as listas de 13 partidos. E aí os temos, quer uns, da fábula, dêem razão a Henri Bergson quando este avisava que "escolher é excluir", outros prefiram aliviar-se com a lamúria de Platão segundo a qual “Deus não é culpado, pois a culpa é de quem escolhe", quer outros ainda da mesma fábula andem pelos cantos a repetir satiricamente as desculpas de mau pagador inventadas pelo velho boémio francês Mathurin Régnier cuja regra era a de que “quem muito quer escolher, fica com o pior", mesmo que nenhum saiba quem foi Bergson, Platão e, para mais, Régnier…

No palpite aqui deixado a 21 de abril (apontamento 408), não se errou quando se garantia que seriam eleitos 4 deputados para o PSD, 2 para o PS, 1 para o CDS (beneficiando dos tais erros de paralaxe), 1 para o BE e 1 para o PCP. Assim foi. E não foi apenas a correnteza nacional que levou os 200 mil votantes (pousos mais) a contribuir para tais resultados – em parte sim, em parte não. Como não foi também a mesma correnteza nacional a levar que 160 mil tivessem ficado em casa considerando que o momento não lhes dizia respeito. Alguma coisa de grave está a ocorrer no sistema democrático, melhor dito, nos partidos – em todos os partidos -  para que quase metade dos eleitores deitem assim o seu papel no momento mais solene e decisivo da democracia para a reciclagem. O clientelismo, o carreirismo, as jogadas do submundo do pequeno poder e sobretudo aquela corrupção omissiva que lava a cara todos os dias de manhã (a outra, a suja, a que jamais se lava, essa não engana a ninguém e nota-se à distância pelo cheiro) explicam em grande parte a desmotivação, o desinteresse, a lassidão e explicam sobremaneira que gente generosa não exercite a generosidade que tem e revele profunda descrença. Mas estes 160 mil ficaram em casa e, ficando em casa, não incomodaram ninguém, como pouco incomodaram os cerca de 8 mil que votaram em branco ou anularam o voto. Os que incomodaram foram os tais 200 mil ao provocarem na Região um verdadeiro abanão político. E sem dúvida, em democracia, tal incómodo é um bom incómodo, um saudável incómodo desde que tanto os incomodados como os que incomodaram saibam extrair a moral da fábula e aprendam com ela. Outra coisa não se espera.

Nenhum partido que ganhou mais (o PSD e o PCP) “roubou” deputados ao outro – em democracia não há roubos, pois escolher é excluir, e contra isto batatas. E qualquer dos partidos que “manteve” (o CDS e o BE) com mais triz menos triz, não pode cantar do alto, porquanto não se esqueçam que podem estar meramente a beneficiar da evidência de quem muito quer escolher, fica com o pior.  Finalmente, meu caro Miguel Freitas, Deus não é culpado, pois a culpa é de quem escolhe. E com isto se pretende dizer que Mendes Bota fica com uma enorme responsabilidade, perante os que votaram e perante os que ficaram em casa – 160 mil abstencionistas é muita gente e tal número só não atemorizaria se Deus tivesse culpa. Pensem nisto.

Carlos Albino
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Flagrante lição: Ao que erra, perdoa-se uma vez, mas não três. É como diz o provérbio.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

SMS 413. Os interesses do Algarve

2 junho 2011

Sempre que há eleições, quando chega a hora de prestar contas ou de prometer mundos e fundos na mira de novo contrato de representação, os “interesses do Algarve” são elevados a categoria de causa e mal de quem não pugne por tais interesses, mesmo que os não especifique. Mas afinal o que são ou quais são em concreto os interesses do Algarve que sejam assim tão diferentes dos interesses do País? Caso sejam interesses deveras do Algarve, a sua consideração deveria ser transversal a todos os partidos e cada força política organizada na região deveria apresentar, antes de mais, a sua formulação própria dos problemas que tais interesses suscitam, e, depois, a solução que também autonomamente preconizam, propondo ao eleitorado a escolha dos representantes (eram oito, passam a ser agora nove) que defendam tais interesses e se comprometam a não os deixar cair em cesto roto. Numa democracia madura, sadia e que funcione, será assim. Caso a democracia não funcione, a representação acaba por se transformar num equívoco perigoso ou até mesmo num exercício inútil e desencorajante.

À falta de reflexão consolidada e em tempo, ou por efeito da rotina espúria que transforma a representação em emprego político, prémio por bons serviços ou direito adquirido por carreira, os interesses do Algarve são alinhados à última hora em função de carências gerais mais ou menos evidentes, mais ou menos sentidas, mais ou menos localizadas. E isso, quando a definição do que sejam tais interesses não fica ao arbítrio de cada líder circunstancial, da sua capacidade imaginativa ou da sua verve interventora. Naturalmente que o elenco de carências, da saúde aos transportes, da educação à agricultura, de alguma indústria às pescas, por aí fora de setor em setor, será coisa que se prende mais com o bem comum do Algarve e este bem comum em pouco diferirá do bem comum do País – o elenco de carências não é suficiente, e está longe de poder recortar aquilo que se poderá considerar como interesses do Algarve, interesses tais que sejam sentidos por todos os algarvios e só por estes. Por hipótese, por esta ordem de ideias, até de pode admitir que na verdade o Algarve não tenha interesses, um único interesse que seja – tenha apenas carências, carência de um porto de pesca, de uma barra, de mais uns quilómetros de ferrovia decente, enfim, de uma lâmpada na esquina à saída de Portimão ou um centro de congressos no Cachopo. Pois carências sempre haverá.

Só que ao longo do tempo, bem ou mal definido, parece que tem havido um interesse claro e inequívoco: o interesse na regionalização, o interesse num modelo de administração autónoma e participada diretamente pelos administrados, e que, paradoxalmente custe menos ao Estado, ao mesmo tempo que se apresente como alavanca para mais riqueza – riqueza geral da região e obviamente riqueza para o Estado. Esta não é uma carência, é um interesse. Pode haver mais interesses, mas esse é sem dúvida um interesse bem identificado.

È óbvio que o Algarve não precisará de eleger turistas, mas também ficará mal servido se eleger representantes que mais não sejam do que agentes de exceção sediciosa contra os seus interesses, contra o seu interesse, tapando o sol com a peneira das carências.

Carlos Albino
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Flagrante Aleixo: Porque será que nós temos/ na frente, aos montes, aos molhos,/ tantas coisas que não vemos/ nem mesmo perto dos olhos?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

SMS 412. Bandeira ao vento

19 maio 2011

Sim, a identidade é um caleidoscópio – agita-se e os mesmos elementos surgem sempre diferentes. A gente bem pode estar ver o Algarve antropológico e até se pode julgar que se vê, mas ao mínimo movimento as peças desarrumam-se e o que se pensava ser um genuíno contributo de Aljezur em nada passa a diferir de Castro Marim. E com o Algarve sociológico? Mexam o assunto que aquilo que aparece arrumado se desarruma como em todo o lado. O que será então “ser Algarve” que leve a considerar que alguma coisa, conforme a fronteira, possa “não ser Algarve”? Traçar a identidade no mapa é fácil – todos sabemos que, por aquela linha, Almodôvar não é Algarve e que o Vascão, ribeira que de vez em quando parece arremedo de rio, é metáfora política em momento de prova de vida. Só que o mapa não é critério podendo ir mais além ou ficar mais aquém e nomes de mapa são nomes – tanto podem servir para certidão de nascimento como para epitáfio. Também fácil será demarcar a identidade pelas tradições ou por aquilo que, segundo a tradição, se julga ser a tradição, por aquilo que é velho e sabido costume... Muito da identidade do Algarve tem sido escavado por aí, por vezes escavado até à exaustão e à ficção, diga-se. E então “ser Algarve” será mais ou menos o que “era”ou se julga que “foi Algarve” e, não se indo além do circunstancial, ou a tradição atropela a História ou é esta que atropela a tradição. Fica assim sem explicação, aquele corridinho polaco a um canto, a cataplana polaca noutro canto, o gnómon de Sagres mais velho que as urtigas na sala corporativa de historiadores rasos, a chaminé dos lares romanos ao abandono e à espera que a substituam por uns buracos em cimento moldado à macaca na Mealhada, um “mák’jêto” a figurar na palhaçada da anedota, umas chapadas de cal para a fotografia ou uma velha muito velha a cavalo num burro, mesmo que isto seja corriqueiro na Sicília, uns quantos advérbios idênticos aos de Trás-Os-Montes e outros filhos da Galiza sem que se saiba ou queira saber como voaram sobre as Beiras e o Alentejo, uma aguarela de um caíque e haver aguarela é uma sorte, uns folhetos do turismo que, sobre o Algarve, nem sequer copiam a parte melhor da velha enciclopédia de que Mário Lyster Franco foi o redator regional... E andamos nisto há anos, sem o trabalho de identificar o Algarve pelo reconhecimento dos valores ou pelo entendimento dos elementos de coesão que existem no Algarve, mesmo os seus elementos nómadas, e que determinam que o Algarve seja isso mesmo e não mera bandeira ao vento.

Dá para continuar.

Carlos Albino
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Flagrante questão: Não será adequado pedir-se à televisão da Andaluzia para, no interesse público, dedicar atenção ao Algarve? Em castelhano que seja.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

SMS 411. A identidade

12 maio 2011

De vez em quando vem à boca de uns e à cabeça de outros falar da “identidade algarvia”. Coisa fácil. Difícil é dizer o que será isso. Politicamente, o Algarve, sim senhor, foi um reino ao longo de séculos mas sem alguma vez ter possuído instituições de reino ou deixar marca de autonomia organizativa, o que foi o mesmo que não ter sido nada – era um penacho em cima de uma cabeça, penacho herdado do pai e deixado como penacho para o filho. Com o regime republicano, até o penacho desapareceu – ninguém foi Presidente da República de Portugal e do Algarve – e vieram boas doses de tardias manifestações românticas à mistura com evocações sérias e algumas até fundamentadas para dar alguma identidade a isto. Foi assim que as amendoeiras já cobriram de neve os vales por onde também corriam alegres odaliscas e, segundo as conveniências, onde igualmente se colava à paisagem alguns mouros mas não muitos para que os cristãos da identidade encantada gozassem à vontade o prato, nesse delírio em que até se via em cada chaminé um minarete de mesquita. Foi essa uma época em que a identidade algarvia tinha poesia oficial e até um poeta oficial – Cândido Guerreiro. Mas também já foi a época da identidade marítima, com o Infante D. Henrique por todos os cantos, cada caíque a fazer de pai e mãe das caravelas, Lagos e Sagres em linha reta com o Brasil, Olhão a navegar pelas estrelas, enfim, sem o Algarve Portugal não teria dado novos mundos ao mundo. Paralelamente, a reforçar essa onda de identidade, também houve tempos em que lá surgia Tavira como a Veneza do Algarve para quem quisesse ver, e para quem não pudesse ver, os livros de Teixeira Gomes eram expostos como os manuais de identidade da terra. E agora?  Nem penacho, nem odaliscas, nem dois mouros a fugir nus com uma faca de cana na algibeira, o Infante está reduzido a um monumento funerário no enfiamento da A2 com a 22, o Agosto Azul de Teixeira Gomes perdeu a cor, as amendoeiras de Cândido Guerreiro dão amêndoa amarga, os caíques foram-se...

Na próxima semana há mais sobre identidade.

Carlos Albino
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Flagrante documentário: Perante estes protagonistas que se nos oferecem, serve o expediente da Euronews para evitar palavras sobre coisas que doem: No Comments.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

SMS 410. Uma pedrada no charco

5 maio 2011

O que acaba de sair das mãos de Macário Correia, esta semana, é uma pedrada no charco. Há anos que, com insistência, alguns jornais regionais, ou por via de notícias ou por via de comentários, vão dando conta de situações insustentáveis e inadmissíveis de burocracias municipais, sobretudo quando está em causa alguma pretensão de obras particulares, algum projeto ou licença de construção, algum parecer que cheire a perspetiva de financiamento, ou mesmo casos corriqueiros. Perante 300 processos pendentes, 50 funcionários que preparam para despacho apenas sete a oito processos por semana, havendo um caso de 2008 em que o documento já passou por 63 fases sem que até agora tenha havido solução, o presidente da câmara de Faro foi direito ao assunto: quatro processos disciplinares abertos, aviso geral a chefes de departamento e de divisão que outros se seguirão, reunião com as chefias de viva voz a comunicar que a guerra não era a brincar. Mas segundo reporta o jornalista Idálio Revez (Público, terça), em função da mesma experiência por que passou em Tavira onde ninguém foi punido, Macário Correia chega à conclusão de que “a lei é corporativa e defende a incompetência”.

Investidores com quem tenho esporadicamente falado, alguns lá fora, e sobretudo cidadãos comuns à hora do café que é quando se confidencia muita verdade mas com o indispensável e desesperado pedido do “não diga nada, guarde para si, porque senão será pior”, têm-me dado conta de situações inacreditáveis e não apenas em Faro – é pelo Algarve todo, designadamente nos municípios com litoral. E posso aqui afirmar também que, pelo que conheço e sei, essa burocracia de raça perigosa como alguns cães que mordem sem razão aparente, é pior no Algarve do que noutras regiões onde também há infracções sinónimas desse tal laxismo que a lei não pune, mas, pelo menos, há vergonha na cara suficiente para se cumprir o código de procedimento administrativo, com destaque no capítulo do atendimento de quem requer, de quem pergunta, de quem solicita – há por aí gente que trata o cidadão com ar de Pitbull, e, destacando também as letras, desculpem-me os justos estarem a pagar pelos pecadores. No Algarve, sei e tenho presenciado casos que bradam aos céus, e que implicam desde o quadro técnico que sabe como não deixar uma perna de fora, até ao fiscal camarário que anda por aí, ora abrindo, ora fechando os olhos, conforme... 

É claro que presidentes e vereadores, a quem compete aquelas decisões a que por comodidade se chama “decisões políticas”, são eleitos, e acho bem que, se sentem o charco, atirem a pedra e verifiquem se por lá já não há bicho a mais – é no seu próprio interesse, pois ninguém vai votar ou voltar a votar em quem tolera que se leve anos para fazer o que em muitos casos se pode fazer de um dia para o outro. Também é claro e por demais evidente que os “quadros técnicos” não dependem de eleições mas de regulamentos e do seu próprio arbítrio, critério, capacidade e, mais, dependem do seu perfil de alma - coisas que saem do tear que dá roupa para as saias muito largas.

Carlos Albino
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Flagrante evidência: Para isso continuar assim, os governos civis deveriam ser extintos como tais e convertidos em delegações do ministério da Administração Interna que é o que são.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

SMS 409. Os partidos decidiram, vejamos…

28 abril 2011

Boas ou más, as listas de candidatos estão feitas e de entre elas estão em evidência aqueles que, pelos cálculos, esperam rumar a S. Bento para o que já se tornou em hábito dizer: vão defender os legítimos interesses do Algarve, vão ser a voz do eleitorado de cá do Sul ou de lá do Sul (conforme o sítio do palanque do discurso) e vão escrutinar a Administração em nome das populações administradas. Em suma, como sempre antes de cada eleição legislativa, espera o eleitor na sua boa-fé e promete o candidato a troco do voto, que o cardápio de legítimos interesses da região não fique sacrificado, que a voz se afirme em alto e bom som, e que o escrutínio se exerça credível, eficaz e corajoso. Seja quem for, esteja o eleitor a favor de A, de B ou de C, ele quer isso e só entenderá eleições para isso, apesar da história passada não ter sido abonatória, regra geral pouco estimulante e quase sempre madrasta, porquanto o carreirismo político, por vezes tão só carreirismo partidário, troca as vazas nos jogos de poder jamais suficientemente explicados.

Estou em crer que os partidos apresentam os seus melhores, só por masoquismo o não fariam, embora as principais forças em confronto saibam que um bom número de votos não irá depender das figuras que vão dar a cara na região pelos seus partidos, mas, sim, vão depender dos protagonistas nacionais que almejam a principal cadeira do poder central. Por mais que se diga e repita que as eleições são de listas por círculo e que os votos vão em primeira linha para os candidatos de cada círculo, na prática funcionam como se houvesse apenas um círculo nacional, com um protagonista de topo, enfim, o protagonista que em boa verdade será primeiro-ministro mas que sairá sufragado por alguma lista de círculo dos confins, no caso das eleições de junho, como toda a gente sabe, dos círculos de Castelo Branco ou de Vila Real. Muitos votos, daqui e dali, vão ser dados em função deste desfoque, subalternizando-se as listas regionais que teoricamente são as que estão em causa, e recolhendo-se portanto as listas regionais, com o seu melhor e o seu pior, sob esse manto protetor do protagonista dos confins. E contra isto, batatas, nada há a fazer contra a doutrina dos factos

Todavia, muitos outros votos vão ser depositados nas urnas, exclusivamente em função dos candidatos cá da terra. Ou porque se acredita neles pessoalmente à parte as ideias que carreiam por disciplina partidária ou porque, na linguagem eleitoral corrente, não se quer engolir sapos. E, desta vez, também não serão poucos os eleitores que se confrontam, em sério conflito de consciência, entre o votar mal com os cá da terra por amor do protagonista nacional, e mal com o protagonista por amor com os da terra. Há ou haverá de tudo, mas desta vez o eleitorado algarvio vai ter que dizer claramente o que quer, não havendo margem para explicações de alguma grande distração. Mas a democracia política não é isto? É, desde que, no minuto em que deposita o voto, o eleitor seja soberano e disso tenha consciência. Depois, não se queixe.

Carlos Albino
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    Flagrante silêncio: Até às eleições já nada mais diremos aqui sobre candidatos e campanhas de cada partido no Algarve. Depois disso avaliaremos a chamada “sabedoria do eleitor”. Que a tem. É de maior e vacinado.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

SMS 408. Deputados que foram…

21 abril 2011

O labor dos deputados avalia-se fundamentalmente por quatro parâmetros: iniciativas, requerimentos, perguntas e intervenções. O resto será normal serviço de agenda, decorrências do valor e prestígio pessoal, por vezes turismo político mais ou menos justificado, ou ainda foguetes deitados ao ar independentemente de quem apanha as canas. E durante uma legislatura, para o balanço da atividade política que cada um dos deputados possa fazer perante os que diretamente os elegeram, contam obviamente mais as iniciativas próprias, os requerimentos sobretudo ao governo que tenham relação direta e útil com os anseios das populações que representam, as perguntas que não tenham apenas verbos de encher e as intervenções que tenham impacto nos centros de decisão e que, portanto, não sejam só para inglês ver e meros pretextos para a imprensa os citarem, de preferência para eles com fotografia, quanto maior melhor. Já não interessará tanto o que fizeram por arrastamento de outros e em matérias que nada tenham a ver com a região, o que subscreveram apenas para fazer número, o que manifestaram, enfim, por calculadas solidariedades partidárias e jogos espúrios de poder ou contra-poder. Acaba a legislatura, os deputados já não podem fazer o tempo voltar para trás – o que fizeram está feito e o que não fizeram já não pode ser compensado.

No site oficial da Assembleia da República, está lá toda a atividade dos deputados eleitos pelos algarvios desde 15 de outubro de 2009, os seus registos de interesses, em suma, o mapa psicológico e político de cada um deles, e também o seu valor, a bitola de afirmação nas bancadas a que pertencem. Nada disto pode ser iludido por crónicas de jornal ou rebuçados atirados da televisão como os foliões fazem nos corsos de carnaval. A atividade do deputado é no parlamento e é indecoroso que insistam ou tentem disfarçar a eventual lassidão parlamentar ou a submissão a diretivas que ponham em crise as legítimas expetativas do eleitorado, com fogacho e basófia que assim será se não corresponder ao trabalho deixado em S. Bento.

E vendo bem o que consta, o panorama do trabalho feito pelos oito deputados saídos cá do círculo desde outubro de 2009 até à data da dissolução do parlamento é geralmente pobre. As incitativas próprias são de modo geral de horizonte limitado; os requerimentos, também de modo geral, ou são reverenciais ou de lógica perversa; as perguntas são genericamente talhadas para não merecerem resposta ou ganharem resposta do género de chover no molhado, e quanto às intervenções, ou são mera retórica ou pura e simplesmente são acríticas e, quando não parecem isso, são medrosas. Lamentavelmente, apenas um dos deputados pode apresentar um balanço digno de ser apreciado, discorde-se ou concorde-se com o seu conteúdo e objetivos – José Mendes Bota.

Na generalidade, os deputados que de cá saíram, saíram pelo Algarve mas também poderiam ser apenas deputados de Porto de Mós ou do Alandroal. Os novatos estão perdoados porque são novatos, mas os principais não. E foi pena.

Carlos Albino
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    Flagrante palpite: Como já é tradicional, o palpite com todo o direito ao erro, agora que são 9: 4 para o PSD, 3 para o PS, 1 para o BE e 1 para o PCP. E se não forem 3 para o PS mas apenas 2, será 1 para o CDS que no Algarve beneficia sempre dos erros de paralaxe. Não é Bacelar Gouveia, saudoso?

quinta-feira, 14 de abril de 2011

SMS 407. Deputado “temido” em Lisboa? Quem?

14 abril 2011

Não se nota que o povo esteja muito entusiasmado em discutir as listas para 5 de junho. Discutir, no sentido de se interessar. Podem, pois, os partidos colocar à cabeça, no meio ou no fim quem muito bem entendam que ninguém se incomoda porque para a maioria tanto faz que seja sicrano ou beltrano. Apenas uma minoria ínfima de admiradores ou por qualquer interesse dependentes de A ou de B é que se incomodará com a retirada ou despromoção de A ou com a substituição de B, e até porque quer um, quer outro, fora da terra onde reside ou onde tenha exercido profissão, não passa de um desconhecido. Salvo uma ou duas exceções, e mesmo assim “conforme”, qualquer dos deputados que o Algarve enviou para S. Bento em setembro de 2009, tem que “ser apresentado” na maior parte da região e andem por andarem, se ninguém apregoar com o megafone que “aqui temos entre nós, o ilustre deputado X”, o ilustre deputado não passará de um desconhecido, entrando anónimo e saindo anónimo. Salvo uma ou duas exceções (não digo apenas uma para alguns detratores não identificarem a exceção que estaria a mais...), os deputados que o Algarve elegeu, na generalidade, nada de verdadeiramente importante fizeram com elevado interesse e para aquele vital bem comum da região, e, que se visse, não deram provas de exercerem qualquer influência útil e incontornável junto do poder. Alguns, é certo, fizeram requerimentos atrás de requerimentos, fizeram perguntas pelas perguntas, e uma ou outra intervenção de fundo que caiu em saco roto ou era frete. Sobretudo nos requerimentos e perguntas, há quem até tenha parecido aquele miúdo da escola a fazer aviões de papel lançando-os para Jaime Gama depois de um sopro quente... É pena que assim tenha acontecido. O Algarve não pode dizer que tem três, dois ou até um “grande parlamentar”, um parlamentar cuja voz seja escutada e respeitada em Lisboa, para não dizer temida, pois eu até gostaria que o Algarve tivesse um parlamentar seu que fosse temido. Não temos, e isso é coisa que não se recruta por anúncio em jornal ou por indicação da “rapaziada amiga”. Não é assim que se diz?

Carlos Albino
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    Flagrante lugar elegível: E como o Algarve passa de oito para nove deputados, há sempre mais uma chance para alguém..

quinta-feira, 31 de março de 2011

SMS 406. Lamentável espetáculo

31 março 2011

Obviamente que o caso da presidência do turismo é um caso político. Não vale a pena assobiar para o lado. Por uma questão política ou de arranjo político, António Pina foi levado a interromper o desempenho como governador civil, transitando para o turismo que era, por assim dizer, uma prateleira dourada e aparentemente local para não provocar incómodos. Acabou por não ser assim, resultando neste lamentável espetáculo. E é lamentável não porque António Pina tenha reentrado e o outro ex-vice saído, ou porque a assembleia do turismo tenha acreditado que era uma assembleia deliberativa e que o turismo era uma “entidade” da região, ou porque o ministro Teixeira dos Santos, que veio ajudar à festa, se tenha esquecido que é mais ilegal um militar no ativo ser governador civil por conveniência do que um aposentado desempenhar funções públicas sem a inconveniência da boa remuneração – o caso é lamentável porque deu azo a mais uma cena de judicialização da política.

A incapacidade do sistema político em resolver os seus conflitos internos pelos mecanismos habituais, ou seja pela vontade consolidada e formulada no quadro dos partidos ou pelas práticas democráticas das instituições, ficou exposta com a transferência para os tribunais e com as denúncias cruzadas dos adversários. Transfere-se para o tribunal como se um caso político fosse mero caso de formalidade, de procedimento administrativo ou de direito ferido! E o que se espera por regra com esse tipo de iniciativa? Espera-se obviamente a exposição judicial do adversário, e que, qualquer que seja o desenlace, ele seja enfraquecido ou mesmo liquidado politicamente. É isso e não vale a pena disfarçar, porquanto a questão de fundo, pelo que toda a gente já percebeu mas alguns disfarçam, é a de se saber se o presidente do turismo algarvio deva ser ou não um comissário governamental, acrítico e obediente à linha, a troco da função e do salário de prestígio social que ela traduz tanto que força ao apego do poder.

Tratando-se de um dos postos decisórios mais emblemáticos da região, a judicialização do diferendo político no turismo é deveras lamentável, e se a democracia fosse pessoa, ela seria com isso uma pessoa humilhada, como já o tem sido nos arranjos para o governo civil, para os “lugares elegíveis” das listas de deputados, para... cala-te boca e ponto final parágrafo, porque a “sociedade civil” do Algarve também gosta muito do ponto final parágrafo, pois, se não gostasse, o caso do turismo nem sequer tinha começado: a ordem democrática tem uma ordem, e há gente fora da ordem que já está a brincar demais aos jogos infantis de poder.

Carlos Albino
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    Flagrante epílogo de história infantil: E foi assim, meus meninos, que o príncipe decidiu não fazer a sua lua-de-mel no Algarve para não tomar partido...

quinta-feira, 24 de março de 2011

SMS 405. Obrigado

24 março 2011

Chegou a hora dos agradecimentos a todos os ilustres democratas por dá cá aquela palha:

  1. Obrigado, porque acreditámos que iriam concretizar ou pelo menos abrir caminho para a regionalização, e nada, nada fizeram por isso, antes pelo contrário, liquidaram as amostras, aumentando as mordomias e mantendo as anomalias.
  2. Obrigado, porque acreditámos no vosso discernido planeamento casado com os ecologistas do mesmo género quanto a uma auto-estrada mais a sul para proteger 17 caracóis e 16 consultadorias dissimuladas, e além disso para a região ficar supostamente com uma solução substitutiva da 125, e vê-se como se ficou com um completo enxerto a sul e outro inominável enxerto para caracóis e consultadorias.
  3. Obrigado, porque a segurança é um facto: a GNR atende as vítimas a tal ponto que as vítimas nem querem incomodar mais, a PSP é luxo citadino aqui e além, e todos sabemos que os tráficos de droga e de seres humanos (clandestinos, mendicidade, prostituição) desapareceram do nosso mapa.
  4. Obrigado, porque temos, até que enfim, não apenas um ou aquele tal e único prometido, mas vários hospitais centrais.
  5. Obrigado, porque temos o tal turismo sustentável, integrado, dinamizador da economia e da capacidade produtiva regional, que nem vale a pena explicar mais, porque arrumamos os quartos, alugamos umas camitas paralelas, vendemos uma peças de artesanato da China e uns lenços com chaminés estampadas, e já é muito para uma população que está sem tempo para jogar golfe com os buracos nos paraísos fiscais.
  6. Obrigado, é claro, por, à exceção de um ou dois deputados que mexem, mal se dar conta de que temos deputados, e quando se dá conta, é para a contemplação do estuário do Arade, a descoberta de que a cortiça nasceu anteontem em São Brás, ou para crónicas que, mutatis mutandis, podem ser lidas em Malmö, no condado de Borsod-Abaúj-Zemplén ou em Gijón, mudando o que deve ser mudado...
  7. Obrigado, porque houve de facto muito evento agenciado e agendado mas quanto a estruturas culturais, práticas rotinadas e coisas que fiquem – pouco ou nada, e o pouco tem sido à custa de autarquias que podem ter visão ou de associações e grupos que fazem das tripas coração. Obrigado, por tanto evento.
Há mais uns 85 obrigados a endereçar aos ilustres democratas, mas sete a sete é quantidade bastante...

Carlos Albino
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    Flagrante obrigado final: Ao ministro António Mendonça que explica tudo bem e dialoga ainda melhor. A si próprio e consigo próprio. Que desapontamento.

quinta-feira, 17 de março de 2011

SMS 404. E se houver eleições?

17 março 2011

Com o significado da manifestação em Faro, sabendo-se o que se sabe do interior de cada partido (situação quantitativa e qualitativa, capacidade de mobilização, níveis de liderança e de ideias) e com mais umas achegas daqui e dali (convocação contra as portagens, mais proximamente), é óbvio que o prognóstico para o Algarve entra pelos olhos, caso sejam convocadas eleições antecipadas. Sobretudo a manifestação de Faro foi um sinal muito forte e uma advertência clara sobre a situação incomportável a que o Algarve chegou, a tal região que pelos critérios europeus acriticamente acolhidos é já de uma riqueza tanta que não tem direito a nada, a nenhuma compensação, a nenhuma exceção, a nenhuma consideração. E se houver eleições antecipadas, o castigo pelo voto a quem dele beneficiou ascendendo ao poder, deverá ser inevitável e talvez sem precedentes nestas breves décadas de democracia. Os sinais que têm vindo a ser dados dão conta de que as pessoas estão fartas dos que fazem das funções ou cargos elegíveis meras peças de profissionalismo político, calculista, frio e seguindo o estilo do jogador de poker, as pessoas estão fartas dos que fazem dos cargos públicos a que ascendem por nomeação, exercícios de mordomia dada como virtude não justificada, e finalmente as pessoas estão fartas de chorar às escondidas, de sofrer envergonhadamente, de engolir em seco a hipocrisia e as palavras enganosas dos melíferos distribuidores de promessas, como fartas estão do fundamentalismo islâmico em que se converteram os centros de emprego no numerador com os déspotas oportunistas das empresas de ocasião no denominador. Para não se falar na corrupção, na insegurança, na saúde que fique afetada acima da constipação.

Creio que haverá partidos que já deviam ter feito uma revolução dentro de si próprios e que, se não a fizeram até este momento, é já tarde para evitarem o pior, se houver eleições. Há cinco, sete ou mesmo dez anos, com duas ou três larachas bem montadas e com um ou dois artistas de alto gabarito, a paisagem regional era dominada satisfatoriamente e caso não fosse, a culpa era do artista convidado. No Algarve de 2011, nada disso – já ninguém vai em larachas.

Carlos Albino
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    Flagrante objetivo de algo em algo: É óbvio que a Via do Infante é a única via transversal do Algarve. Não tem alternativa. E os que assim pensam não são propriamente uma meia-dúzia de insatisfeitos, como alguns dizem só para Lisboa ouvir, na mira de algo em algo.

quinta-feira, 10 de março de 2011

SMS 403. Carnaval, modelo esgotado

10 março 2011

Muitos assim pensam, mas nem todos dizem em voz alta que o modelo destes carnavais está esgotado. Como se fosse um país tropical, desfilam nestes três dias umas raparigas contratadas com umbigo à mostra, anel no umbigo e uma pétalas a tapar o bico dos seios, a desafiar frio de rachar, em cima de carros alegóricos que estão longe do que seja alegoria, sendo apenas ingénuos resultados de raciocínios analógicos, ainda assim a civilizar manifestações de barbárie recalcada a que se chama alegria e brincadeira mas que é, de modo geral, alegria triste e brincadeira sem sentido.

Dá pena ver essas raparigas dos trópicos, com sorriso forçado e, sem dúvida à espera do cheque – não têm nada a ver com a terra, seja esta lá do Norte ou cá do Sul. Até nas terras, como no caso de Loulé, onde o carnaval já foi verdadeiro teatro de rua espontâneo, colocando-se em corso, o que, por certo durante séculos se fazia de forma dispersa e com excessos, os três dias deixaram de ser de mascarinhas, de festa cruzada, de crítica e representação cénica popular numa apoteose de flores de papel, música de bandas e grupos, para dar lugar a um impossível Rio de Janeiro sob nuvens de inverno que é estação de quando o sol é uma sorte. E assim se apagou uma tradição de séculos e se foi diluindo o pouco que o corso dela ainda foi conservando. A agravar, o êxito aparente dos desfiles tropicais mas grotescos embora iluminados por efémeras estrelas de telenovela de fatela pagas a peso de ouro apenas para que alguma televisão também efemeramente ajude ao prestígio falso de três dias, foram sendo imitados por todos os lados, perdendo-se em muitos casos a noção da saloice atroz e com cada carnaval assim estar a matar o outro e todos em conjunto acabarem por matar o que devia ser festa, divertimento e manifestação de alegria coletiva que deixou de ser – ficam os retratos e vídeos das criancinhas que mal percebem o porquê dos trajos ao lado de adultos sorumbáticos e com fatos de ir à missa.

Digo já que esta crítica não tem nada a ver com moralismos, muito menos com os resultados de bilheteira que são escassos e não dão para cobrir o que a casa gasta – até defendo que o carnaval seja o momento de oportuno para desafio da falsa moral e dos falsos moralistas. É apenas para dizer com franqueza que o modelo deste “carnaval global” e que ou é igual em todo o lado ou não passa de imitação amacacada, está esgotado e caso queiram que o carnaval continue, algum esforço tem que ser feito para ir às origens e adaptá-las ou inseri-las na modernidade. Isso é trabalho para equipa onde esteja o antropólogo cultural, o homem de teatro e, claro está, um animador cultural encartado ou a sério e não mascarado. Não é show que se encomende a uma agência de shows. E numa região de turismo como é o Algarve, pelos carnavais que por aí houve, é caso para se adaptar com as devidas consequências aquele dito segundo o qual em casa de ferreiro, espeto de pau.

Carlos Albino
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    Flagrante constatação: O bem precioso que é o Pátio de Letras, em Faro – pelo ambiente, pelas iniciativas, pelo ar que se respira e pela constatação de que os milagres são feitos com coisas simples e na simplicidade mas, e aqui está o mas, com insinuante inteligência.

quinta-feira, 3 de março de 2011

SMS 402. De novo a região-piloto...

3 março 2011

Não é difícil perceber que, neste momento de afogadilho, a regionalização não se afigura como coisa prioritária aos olhos do cidadão comum. A discussão dura há 35 anos e já deu para verificar que a regionalização é bandeira agitada quando se almeja tomar conta das rédeas do poder central mas que rapidamente a mesma bandeira é colocada a meia haste, ou mesmo dobrada no armário dos símbolos a evitar, quando esse poder central fica nas mãos. Além disso, para o quadro ficar melhor pintado, aqueles mesmos que, por via de ténue descentralização ou de mera desconcentração de pequenos poderes deveriam ter provado as vantagens da administração de proximidade e nesse sentido exercido pedagogia, antes pelo contrário, arvoraram-se em chefes de esquadra desmedidos, ridículos e ciosos das mordomias que usufruíram com ares de ministros de segunda, ou mesmo até em alguns casos lamentáveis por aí começaram a desfilar como títeres locais de novo tipo e com seu chicote provinciano próprio de telenovela importada do nordeste, desacreditando pouco a pouco a bondade da regionalização e colocando-a na categoria mental dos conceitos que são de temer. Em todo o caso, a regionalização é assunto que por aí está a ser retomado com a sugestão de se ir devagar, devagarinho, e de se começar o processo com uma ou duas regiões-piloto, com a do Algarve naturalmente à cabeça. A vingar a ideia, volta-se assim à estaca zero e, diga-se de passagem, voltar à estaca zero 35 anos depois, já é um grande avanço... Mas duvido que a ideia ganhe o necessário consenso – as mordomias ficariam reduzidas a metade e isso pesa, aliás, é o que tem pesado desde há 35 anos.

Carlos Albino
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     Flagrante lógica: Pelo que se sabe, obviamente que António Pina deveria regressar à chamada Entidade Regional de Turismo do Algarve...

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

SMS 401. Os números do setor e do segmento

24 fevereiro 2011

Não incomoda mesmo nada que, para uns tais efeitos estatísticos, o turismo seja setor e que, para outros tais, seja segmento. O que incomoda é o jogo de números ora a bem do setor e mal com os segmento, ora a bem do segmento e mal com o setor. Parece uma brincadeira em três atos. Precisamente na véspera da abertura da bolsa de turismo de Lisboa, são revelados pelo Banco de Portugal os dados do turismo relativos a 2010, garantindo-se que o setor registou o melhor resultado de sempre, com as receitas a subirem mais de 10 por cento, num total de 7.611 milhões de euros.Além disso, mais se garante: que britânicos e franceses continuam a liderar os gastos em Portugal, seguindo-se espanhóis e alemães; que os angolanos entraram no ranking e que os chineses aumentaram em 75 por cento as compras em território português; que ouros mercados mais cresceram, como nos casos do Brasil e dos EUA, tudo a subir, tudo a crescer, parece que estamos salvos. E tanto mais que logo se espalhou a conclusão de que o êxito do setor foi tal que nem o “mau desempenho” da Madeira foi sentido no segmento.

É claro que será uma visão infantil e irresponsável ver as estatísticas de um setor sem as ligar com as dos outros segmentos, mas, mesmo centrando as atenções no segmento do setor que é como no Algarve isso desgraçadamente se vê, é legítimo perguntar: então, com tanto êxito, porque razão o segmento despediu tanto no setor? E porque motivo tantos trabalhadores do setor foram empurrados do trabalho estável para as bolsas de emprego temporário que os exploram indecentemente? E porque fecharam tantos hotéis do segmento para sugestiva remodelação do setor? E quais as causas da taxa record de desemprego do Algarve que está praticamente na dependência total do setor? Há muitas, muitas mais perguntas possíveis, mas a bota não bate com a perdigota.

Carlos Albino
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    Flagrante democracia direta: A dos partidos que substituíram secções e núcleos por crónicas, e a dos autarcas que em vez das respostas adequadas em assembleias municipais preferem fazer colunas de 600 caracteres e responder aos munícipes: “Já escrevi sobre isso, não vou repetir!”. Um exemplo para o norte de África.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

SMS 400. São Lourenço da Poesia

17 fevereiro 2011

Outrora Ermida de São Lourenço dos Matos, depois e agora Igreja Matriz de São Lourenço de Almancil, é um lugar de culto e não só – é um lugar culto, jóia inestimável de Almancil e sítio que obriga à recordação quem por lá passe. As imagens andam pelo mundo, fascinam, atraem, cativam e mesmo quem não queira ou resista recolher-se, recolhe-se e medita mesmo que não medite em nada, porque aquilo provoca o êxtase do olhar e até o ar que se respira é um ar que não se sabe se é azul decifrável se é aquele dourado que apenas algumas palavras têm em comum com o sonho, a ideia e o pensamento. Ou seja: está ali a Poesia e pensa-se. Daí que não me custe, nalgum intervalo de culto, admitir que São Lourenço, sem prejuízo dos Matos ou de Almancil, possa ser São Lourenço da Poesia. Ainda que numa só noite de Agosto, ou de Julho ou mesmo de Setembro. Não sei, mas vejo ali o lugar perfeito para que a Poesia aconteça com a sua arte gémea, a Música sem que qualquer das gémeas esteja ao fundo da outra. Ou seja: nem Poesia com Música ao fundo, nem Música com Poesia a sair dos fundos. As duas, num momento. Um Acontecimento, instante que seja, de Poesia e Música. Da Música haveria que falar com Osvaldo Ferreira, da Poesia admitir-se-ia convocar para o pensamento inicial, um intróito de António Ramos Rosa, um credo de Gastão Cruz, uma consagração de Nuno Júdice, um pax tecum de Casimiro de Brito, uma aliança de civilizações de Abú Ibne Isa Cutair e uma partilha fraterna de António Aleixo, havendo ainda tempo para um ofertório de João de Deus e um rito de conclusão de João Lúcio, não sendo sacrilégio associar a presença e voz da poetisa alemã nascida na Roménia, Herta Müller, Nobel de Literatura de 2009. Por exemplo, para os devidos efeitos de Acontecimento marcante. Quem, sendo culto, não iria, ou tudo não faria para ir a São Lourenço da Poesia? É apenas uma ideia, uma sugestão. O lugar é sagrado, como se sabe, mas isso não destoaria da sagração. Voltarei ao assunto, mas creio que não será necessário traduzir por miúdos o requerimento. Ali, é um dos melhores lugares e mais belos do mundo.

Carlos Albino
    Flagrante luva branca: Sim, ali em Almancil, com Poesia e Música em dia bem combinado, até Guimarães ficará mais povoado… Basta querer.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

SMS 399. Abriu-se um grande parênteses

10 fevereiro 2011

Dizem os dicionários que o parênteses é um sinal usado em matemática para significar que as operações indicadas dentro dele se devem considerar efetuadas. Fora da matemática, o entendimento geral é que tais operações não são as efectuadas mas as suspensas, pelo que, tudo o que ficar entre parênteses, está suspenso. E, não tenhamos dúvidas de que, salvo esta ou aquela pequena coisa, foi aberto para o Algarve um grande parênteses. A ligação ferroviária de alta velocidade Faro-Huelva? Suspensa, claro. E o turismo pelas contas mal feitas e irresponsáveis por quem não quer ver que a oferta não é grande espingarda em comparação com a concorrência? Suspenso. E a reposição da RTA como era? Tão suspensa que nem é reclamada. E a regionalização? Suspensa e, mais, sem existir já é culpada... E a extinção desse cargo inútil que é o do governo civil? Suspenso. E a racionalização de meios e recursos por tanta direção regional que nem é direção nem regional, cheirando a mordomias, tal como tantas empresas municipais outras que tais? Essa racionalização está suspensa, outras racionalizações não... E um debate a sério sobre se vale a pena o Algarve ter os oito deputados que tem, mais de metade dos quais nem sente e os da outra metade já se esqueceu a não ser aí nuns almoços de anúncios e lanches de promessas misturadas com encómios que entram por um ouvido e saem pelo outro? Debate mais que suspenso, postergado. E quanto a medidas também a sério, portanto credíveis, de combate e prevenção da criminalidade e não para inglês ver? Mais que suspensas. E quanto a Hospital Central? E quanto a..., a..., a... Se o Algarve viveu durante séculos e séculos entre parênteses, não é agora que isso vai deixar de acontecer.

Carlos Albino
    Flagrante vendaval: Ali na Costa Vicentina onde, apesar de ser em grande parte Algarve, o governo diz que não quer ver aí o Algarve repetido...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

SMS 398. O desânimo é o pior

3 fevereiro 2011

Nada disso, o deixar cair os braços é o pior. O desânimo e o desalento foram os inventores dos becos sem saída e nisso tiveram a ajuda dos artistas do fogo de artifício, aqueles que atiram para o ar ideias que estoiram muito e rilham na noite mas que se dissipam rapidamente, não se sabendo até onde a cana caiu. É verdade que estamos a pagar os custos do apagamento do Algarve e por certo mais custos iremos pagar, mas o pior é deixar cair os braços. E que apagamento foi esse? Apagou-se a representação cívica da região fora do seu território como se a representação política (deputados, um outro ministro de vez em quando, algum secretário de estado) fosse suficiente e até segundo alguns com ideia errática de democracia, como se isso fosse conflituante – e foi assim que se deixou cair a Casa do Algarve em Lisboa tal como se atirou para o fundo do cesto todas as Casas do Algarve. Apagou-se o Congresso do Algarve cuja evolução lógica deveria ser, não tanto o folclore e vaidades misturadas com analfabetismos que perderam a vergonha, mas uma ligação profunda com as universidades e institutos superiores da região, fomentando a criação de centros de estudos, observatórios, organizações cívicas, estruturas de promoção das atividades da região sem dependências do Estado e dos acólitos da missa oficial, pois claro – o esforço e por certo o entusiasmo dos promotores foi enorme e sério, mas com o delirante apagamento da região isso acabaria por ser água a sumir-se pela areia. Mas o mais triste é que o apagamento do Algarve foi tão longe como foi, com a colaboração dos próprios algarvios, numa espécie de estratégia suicidária política e cultural coletiva. Temos muito bom mas o muito bom que aqui temos, nem uma nem duas vezes, foi humilhado dentro da nossa própria casa, a troco de umas vénias a gente que as não merece e que sempre que abre a boca ou mexe os olhos, aparentemente em nome do Algarve, até arrepia.

Carlos Albino

    Flagrante múmia paralítica: É que não há uma palavra que dê confiança e, enfim, alguma esperança às populações diariamente acossadas pelos assaltos, roubos, crimes, violência de toda a ordem, na falta de patrulhamento, de polícia de proximidade e de justiça sem medo.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

SMS 397. Do Vascão para cima


27 janeiro 2011

Há evidentemente uma ou outra boa nova, como, por exemplo, na área da indústria de pescas, em Olhão. Mas é caso isolado, infelizmente. O turismo vai como se sabe, com o mercado temporário de emprego a fazer, aqui e ali, o inimaginável, sem que os trabalhadores possam dizer ui ou mexer uma palha. A agricultura, depois das ondas de pilhagens a vivendas, sofre agora os assaltos – roubam tudo nas hortas, desde as culturas aos fios de cobre. O comércio aguarda o verão porque a esperança é a última morrer. Os serviços gerem dívidas na maior parte dos casos. Os bancos hipotecam, enquanto outros, fazendo contas de tudo isto é passageiro, vão apostando na imobiliária enquanto também os bancos não hipotecam – na verdade, há por aí betão que ninguém acreditaria que se vendesse e está todo vendido, embora também haja cada vez mais casas fechadas ou à espera de um desejadissimo aluguer para férias. Algumas câmaras vão dando emprego e ainda bem, os burocratas locais rezam a Deus para que a crise não os surpreenda e lá vão cumprindo as suas rotinas, agora, com mais algum temor no atendimento, não pelas eleições igualmente locais que possam afetar o chefe, pois as eleições no calendário mental estão ainda longe, mas porque nunca se sabe se a pouca sorte dos outros lhes bate à porta. Já se viu que, quando não há dinheiro, batatas. Nas cidades e vilas, cada um mete-se nas suas casas à espera do outro dia, passando o tempo com a ajuda da telenovela, da notícia do crime que cada um também segue com imensa emoção quando as coisas acontecem longe ou o mais longe possível. A vida associativa está confinada a umas bolsas de entusiastas e a parte mais ativa está associada a almoços ou jantares de confraternização. Os líderes políticos da região, não apenas pelo episódio lastimável das portagens em que não souberam impor-se a vários níveis, vão fazendo as suas declarações, despachando os requerimentos que podem, dando entrevistas e animando os militantes, mas já devem ter percebido que o ambiente está morno e sem entusiasmo porque também não há crença, não há golpe de asa e não há discurso galvanizador, por um lado porque programas e projetos que ainda há pouco tempo subiam no pau da bandeira, agora caducaram no prazo de validade como os iogurtes, e por outro lado, não se podem iludir a si próprios sobre o poder que está lá em cima, ou seja do Tejo para cima, ou para maior rigor, do Vascão para cima. A culpa não será totalmente deles mas a responsabilidade é.

Carlos Albino

    Flagrantes conclusões: Sim, será despropositado misturar, mas também não se pode separar. Para quê meter a cabeça na areia?

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

SMS 396. Presidente ou Residente da República?


20 janeiro 2011

Estamos à beira de mais uma eleição, desta vez presidencial. Cada um pensa o que pensa e legitimamente expressa o que entende expressar, não hesitando eu em expressar que nunca assisti a um pleito de nível tão baixo – baixo nos discursos, nas ideias, nos confrontos de programas ou projetos e, pior que tudo isso, também quanto a perfis de personalidade a coisa foi igualmente baixando, baixando e baixando de tal forma que fui forçado a interrogar-me se afinal estamos a eleger um Presidente da República ou mais um Residente da mesma República, o mais alto residente, por certo, a juntar-se a outros residentes. Nunca assisti a uma coisa destas e nunca pensei que isto fosse possível acontecer.

Ao desapontamento com os deputados, sobretudo com a safra das últimas legislativas, junta-se assim um desapontamento maior e de efeitos incalculáveis numa democracia que obviamentre deve e tem que ser repensada antes que o bem coletivo da liberdade de escolha a troco da responsabilidade de compromisso dos escolhidos se acabe ou se interrompa, ou, pior que tudo, se deteriore transformando-se num sistema de faz de conta que é democracia mas não é. E mais do que poderes do Presidente, número de deputados ou quem é quem que é eleito, o que me preocupa seriamente é a própria democracia e o seu rumo, o que tem obviamente tudo a ver com a qualidade, elevação e interesses abertos e não camuflados dos seus protagonistas. Ora uma democracia para escolher camuflados é coisa que colide com o sonho da sã convivência, da crítica serena e da domesticação de egoísmos e prepotências.

Nós, todos, para além dos autarcas que se cruzam com os eleitores nas ruas e que têm olhos, elegemos o Presidente e deputados – nada mais, porquanto o primeiro-ministro é um corolário. Com os deputados, as suspeitas acabaram de vez nas últimas eleições, pois, pelo que temos visto e comprovado, os eleitos, em vez de representarem os interesses das populações locais que os elegeram perante o governo e no parlamento, o que estão deveras a fazer é representarem os interesses do governo e do parlamento junto dos locais, invertendo o contrato eleitoral. E nisso, os partidos em cujas listas os mesmos deputados foram eleitos, em vez de pedirem ao governo e no parlamento apoio para as populações, o que fazem é pedir o apoio às populações para o seu governo (uns), para as expetativas calculadas de governo (outros) e para os seus interesses no parlamento (todos, à exceção dos que dificilmente escapam do labéu do oportunismo e do aproveitamento de circunstâncias). No Algarve, esta falácia levou à imposição de “representantes” que pouco ou mesmo nada têm a ver com os que deviam ser representados, e alguns no meio deles ou atrelados a eles, portanto sem grande voz ativa mas que até têm a ver com os representados, ou se calam ou não sobem, nesta lógica em que a representação política se converteu em emprego político e os empregados fazem carreira. Isto não é apenas mau para democracia – é péssimo, porquanto nenhuma democracia resiste com empregados residentes na política. A política não é isso, não se fez para isso.

Mas, enfim, fora os deputados, a gente acostumou-se a sentir no Presidente um garante e um reduto de confiança, mesmo que o eleito não fosse o que nós mais gostaríamos. E o que não é apenas mau, é péssimo, é que também o Presidente seja um Residente. A eleição que, em princípio, se consuma no domingo, sobretudo pelos episódios inesperados dos últimos dias, é um mau augúrio e a prova provada de que a democracia tem que ser e deve ser repensada. Repensada por todos nós eleitores que não somos empregados políticos pois as águias não geram pombas.

Carlos Albino

    Flagrante prognóstico: Comenta-se nos círculos de assaltantes bem informados, que vão ver que há forças policiais mais do que suficientes até para impor as portagens na 125 quanto mais na Via do Infante.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

SMS 395. Não somos donos nem senhores

13 janeiro 2011

O Turismo (com letra maiúscula) foi lançado no Algarve, para o Algarve e com o Algarve, como uma atividade sustentável e para dar sustentabilidade à região que muitos sonharam que viesse a ser Região com letra maiúscula. Decorridas décadas, o turismo é uma atividade com letra minúscula embora esmagadora da região que ficou assim, com letra minúscula, agora por isto, depois por aquilo e sempre porque, não tanto o Estado mas os que se foram tornando profissionais do estado e em grande parte sem serem estadistas, janais quiseram perder o abecedário das maiúsculas do centralismo cego, da burocracia estulta e do sistema de mordomias em que a política se converteu, enchendo de bolor a democracia, o tal bolor que é o pai do autoritarismo e que faz filhos até dizer basta sem que os democratas disso se dêem conta. E na hora da desgraça, ou da fatalidade que ronda a desgraça, que é também a hora dos acertos de contas irracionais e a hora em que também todos julgam perceber de tudo e cada um mais do que os outros, os que beneficiaram ao longos dos anos dessa ilusão alimentando-se dela como as cigarras de verão – cantaram muito e humilharam as formigas, como na fábula – calam-se agora, na vaga esperança de que a tempestade passe, porque se passar retomarão a atividade de sempre - cantar muito. Pois houve um erro estrutural na região, um tremendo erro e que foi o de se ter “programado” o desenvolvimento do Turismo sem o pressuposto da eficaz e efetiva integração na região – os hotéis pousaram como se fossem aviões e, como tal, também preparadinhos para levantar voo, a agricultura ficou espatifada a troco de um prato de lentilhas, as pescas estão nas lonas e so mar é rico é para os nadadores-salvadores precários, a indústria é escassa, o artesanato ficou nos resquícios depois de vinte anos com as chaminés moldadas em Leiria, os serviços vivem do que uns 400 mil residentes podem pagar se receberem de quem pousou, o Estado alegremente cobrou que se fartou sem reinvestir proporcionalmente no local da cobrança, as grandes superfícies têm as caixas registadoras no Algarve mas a contabilidade lá em cima, por aí adiante, para não falar do regabofe dos dinheiros a fundo perdido, dos subsídios não escrutinados, dos planeamentos cozinhados, da imobiliária selvagem, dos negócios dos paraísos fiscais lançando isto aqui para o inferno fiscal, etc. E sendo assim, se o Alberto João Jardim fosse de Monchique, nestas circunstâncias, pouco mais seria que um Luís Filipe Madeira e sucedâneos, e se o Carlos César fosse de Tavira duvida-se que ganhasse alguma vez a câmara de Faro como Macário Correia ganhou. E temos dito. Não somos donos e senhores dos destinos da terra, nem tínhamos que ser, mas a sustentabilidade poderia não ser hoje uma figura de ficção. Como é. Estamos nas mãos dos operadores que operam e dos ilusionistas que fazem truques.

Carlos Albino

    Flagrante Prémio SMS 2010 de Jornalismo: Precisamente no Dia de Reis deste 2011, decidiu o júri atribuir o prémio que não dá ouro, nem prata, nem sequer incenso, mas dá gosto e honra, ao jornalista Nuno Couto, por acaso do Jornal do Algarve. E com isto, uma homenagem à juventude que prossegue a chama de fazer do jornalismo não uma causa com segundas intenções mas uma defesa do interesse público. Prossiga Nuno Couto, que o José Barão, se fosse vivo, dir-lhe-ia o mesmo ou melhor. Nuno Couto junta-se assim a Idálio Revez (2005), a Carlos Branco ((2006) e a João Prudêncio (2007), porquanto o júri decidiu não atribuir os prémios relativos a 2008 e 2009, por falta de ouro, de prata e até de incenso.