quinta-feira, 27 de setembro de 2007

SMS 229. Um pacote de açúcar

27 Setembro 2007

Tomei a bica e, como habitualmente, guardei o pacote de açúcar no bolso – o açúcar apenas tira o sabor do café. Depois deste ritual atravessei de carro a cidade, era já meia-noite e começaram as pequenas aventuras numa terra como sempre sem vigilância aparente e sem sistema de prevenção mínima que seja. Mesmo em frente dos Paços do Concelho, jovens em grupo urinavam em competição, parados na travessia de peões em porco desafio. Metros à frente, uma rapariga desenraizada não pela cor mas pela educação insultava gratuitamente quem passasse. Pelo lado direito, um homem já entradote pastava o seu belo e enorme cão parando extasiado com os dejectos que o bicho aliviou, e pelo lado esquerdo uma mulher de meia-idade era puxada por quatro cãezinhos cor de anjo mas que também faziam as porcarias que leva Deus a castigar os anjos do paraíso que façam o mesmo impondo-lhes patas em vez das asas. E nesse pequeno trajecto, com automóveis amontoados sobre os passeios como se não houvesse nem rei nem roque, ainda vi gente a escarrar para o chão, um outro a tentar acertar com uma lata de coca-cola num candeeiro, e ainda uma moto em alta velocidade a fazer cavalinho, seguida por uma outra de quatro grossas rodas de escape aberto, além de que de um primeiro andar alguém atirou para a rua um saco de lixo que se estatelou no chão espalhando vidros e por certo odores. Se todos os dias e todas as noites, isto acontece nesta terra, e se o que acontece nesta terra ocorre também pelo Algarve a fora, então, como se diz no circo, excelentíssimos senhores e excelentíssimas senhoras, isto se não é o inferno, parece.

Quando cheguei a casa, tirei do bolso o pacote de açúcar e li por curiosidade uma frase que lá estava impressa num evidente propósito da multinacional do pacote em divulgar os Direitos Humanos. Isto mesmo: «O indivíduo tem deveres para com os outros, para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade».

Nem com açúcar isto vai – os poderes públicos voltaram costas à educação cívica, as polícias apenas aguardam as queixas e alguma coisa de positivo que se faz nas escolas em matéria de civilidade e integração não chega à sociedade cujas “forças vivas” apenas têm interesse em beber o café com açúcar, com muito açúcar, mesmo que percam o sabor do café e não o sabor do voto.

Carlos Albino

Flagrante paraíso fiscal: Pagar ou receber a
dinheiro vivo, num enorme contributo para a transparência dos
impostos.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

SMS 228. O eclipse dos políticos

20 Setembro 2007

O fenómeno não é típico do Algarve, ocorre um pouco por todo o País – os políticos entraram em eclipse e o Algarve não foge à regra. Parece até que um político não é o que faz política reportando anseios da sociedade, expondo ideias para o mundo avançar e propondo soluções para que o nivelamento da cultura e da civilização se faça por cima e não por baixo como cada vez mais acontece. Hoje o político não é o que faz política mas, apenas quase, o que tem um bom emprego político, ou por via de eleição já de si manhosa, ou por via de nomeação que normalmente coloca bem os perfis de capataz – há excepções, claro, mas que confirmam a regra.
Naturalmente que não se nega haver quem julgue que os outros acreditam que fazem política e não que estejam de alguma forma a defender o emprego, surgindo todos os dias, se estão na oposição, com pequenos protestos, com reivindicações de esquina e acaloradas defesas do óbvio, ou, se estão na caleira do poder, com servis apoios a decisões autoritárias, com agradecimentos próprios de afilhados e até mesmo, se o escândalo da medida tomada se revelar incontornável, com amanteigamento de resoluções perversas ou calando-se até que a borrasca passe. Todos eles, no entanto, têm um objectivo comum: serem notícia, aparecerem nos jornais e com isso darem sobrevivência política ao nome, o que está longe do fazer política mas perto do jogo em que a política se converteu,

É claro que neste eclipse, não há ideias consolidadas, não há projectos de sociedade, não há propostas de soluções para os problemas colectivos e muito menos há a vontade de identificar os problemas que é por onde a política começa. Como dizia o velho pensador de Marmeleite que morreu sem deixar obra publicada, contra isto, batatas.

Carlos Albino

Flagrante conta: Se cada português paga mensalmente 36 euros à RTP de mão beijada, os algarvios pagam por ano dois milhões de euros – compensa com o que a RPT faz no Algarve quando não há raptos no litoral e incêndios no Caldeirão?

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

SMS 227. O caso de Verão

13 Setembro 2007

Pois o caso de Verão foi sem dúvida o caso de Madie – não foi necessária uma reunião crucial da presidência da União Europeia para que televisões e imprensa internacional se lembrassem cá da terra por melhores motivos. Aliás é de crer que nenhuma reunião europeia sob presidência portuguesa contou ou possivelmente contará noutras bandas com tal permanência e insistente alvoroço aqui apenas centrado no caso de uma criança, muito embora ali na Emergência Infantil de Faro cada uma das dezenas e dezenas de crianças, muitas delas salvas por uma unha, justificasse uma migalha de atenção para o que ninguém muito menos Deus quer, mas que força a que um homem sonhe e a obra nasça todos os dias.

Quero com isto dizer que, somando as milhentas suspeições às centenas de investigações e à grossa recolha de fundos por um só caso que apenas Deus sabe, foi pena que o acaso ou o destino não tivessem levado Madie para o acolhimento perfumado do Refúgio Aboim Ascensão onde a filha dos MacCann estaria melhor do que onde está, além de que os quase dois milhões de euros dos donativos, se também lá chegassem para serem adoptados, não iriam ao fundo.

Carlos Albino

Flagrante peça de estimação: A chave da igreja da Praia da Luz, Ámen.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

SMS 226. Branco é, Loulé o pôs

6 Setembro 2007

Não foi um ovo de Colombo, mas ficou de pé. A Noite Branca de Loulé fez pública prova de que o bom gosto associado ao bom senso tem sempre êxito nem que seja no meio do gelo do pólo Norte ou nas águas mais isoladas do Atlântico. Provou aquela gente de Loulé que com imaginação e postura elevada, não é apenas a tradição e muito menos decreto ou devaneio de ministro que comanda o calendário da convivência humana – sem grande espalhafato conseguiram o milagre de um mar de gente vestida de branco (a única norma imposta) a passear a alegria pela noite fora sem que seja para passear o cão, e, enfim, a oportunidade do comércio mostrar o bilhete de identidade que tem no incontornável mundo das trocas onde quem compra e quem vende deve ter rosto, sendo já um achado encontrar um riso próximo do laivo de felicidade no rosto de quem vende ou de quem compra. Dizem-me que foi um ensaio, um primeiro ensaio, e que para o ano há mais. Que assim seja e que em algum canto se ouça um acordeão que quando é bom tem muito de jazz – foi a única coisa que faltou mas pouca gente deu pela falta.

Carlos Albino

Flagrante expectativa: Pelo balanço rigoroso do programa Allgarve.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

SMS 225. As empresas e a Imprensa

30 Agosto 2007

Observo com espanto a forma como as empresas que operam no Algarve olham de esguelha para a generalidade da Imprensa cá da terra, mesmo até para os dois ou três jornais de justificada referência regional. Naturalmente que os hotéis pouco ou nada precisam dos jornais para terem as camas ocupadas e que os bons sonhos ou pesadelos de quem nestas se deita não dependem da maior ou menor publicidade na Imprensa. Também o que ao Algarve chega a jusante do turismo, da imobiliária à distribuição alimentar, ou a montante, das funerárias às águas engarrafadas e ao jogo, para não falar dos eventos muitos dos quais são as funerárias da cultura e o engarrafamento da convivência, não precisará grandemente dos jornais para engrossar a contabilidade de caixa. Mas é com espanto que, ano após ano, décadas de turismo já após décadas, as empresas que operam no Algarve, ainda que por conveniência não sejam do Algarve, não sintam a necessidade de um laivo de responsabilidade para com os jornais que tantas vezes ou amiúde zelam afinal pelos seus mais directos interesses e estão na primeira linha da defesa de boas condições e circunstâncias para que operem com êxito, proveito e lucro. Folheio a imprensa regional de ponta a ponta e é no mínimo uma vergonha a ausência, divórcio e distância dessas empresas que parece ser desdenhosa e colonial – não lhes dá distinção. As camas podem ficar ocupadas a cem por cento, mas a honra não consta na lista de hóspedes.

Sobre esta vergonha, há mais para dizer, descansem as autarquias e empresas públicas – fica para depois.

Carlos Albino


Flagrante debandada: Numa gala de beneficência em Vilamoura, a Primeira Dama saiu cumpridos os discursos e foi a mesa de honra ficou um deserto. Provincianismo é isso.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

SMS 224. Há dinheiro, Santo Deus!

23 Agosto 2007

Afinal, vendo bem, há dinheiro. Muito dinheiro, embora nem todos os municípios possam dizer o mesmo – sobretudo, ou como sempre, os municípios sem litoral que, sem resposta, reclamam solidariedade. Para não falar do dinheiro a rodos que o ministro Manuall Pinho atribuiu pelas caves de Serralves e pois coisas efémeras – algumas boas, sem dúvida, mas tão efémeras como a tal célebre coreografia na Ilha do Farol – isto é só meio milhão para uma regata de rei, 400 mil para aquilo, 200 para outra coisa, 300 para mais outra, 450 para que não se fique atrás do vizinho, 100 mil para dá cá aquela palha, 600 mil em três parcelas possivelmente para não se notar para quatro eventos porque o evento é que está dar, que o digam os intermediários que semeiam eventos mas não sofrem as tempestades. Há dinheiro, portanto, mas para as coisas efémeras. Para o que fica ou deveria ficar, para estruturas e programas com continuidade para os pobres indígenas, lá para isso não há, muito embora haja uma elite de parolos que apesar de não terem um chavo dentro da cabeça, vá beneficiando de uns pingos pela calada como convém.

Pois isto é tudo muito bonito, muito festivo mas suspeito que, algum dia, a massa crítica e sem dúvida culta da geração mais jovem acabará por acusar poderosos protagonistas do tempo presente como irresponsáveis, desprovidos de visão e alegres esbanjadores sem escrúpulos. Pensem bem.

Carlos Albino


Flagrante coincidência: Um responsável do PSD encontrou-me e disse-me: «Você diz coisas que eu penso e com que concordo mas que eu não posso dizer publicamente. Obrigado.» No da seguinte, um responsável do PS, trocando-se por acaso comigo, abriu a conversa assim: «Obrigado! É importante que haja alguém que diga as coisas que você diz, com as quais concordo plenamente mas que não posso dizer publicamente.» Coincidência, não é? Falta-ma ouvir o CDS, o PCP e o Bloco, porque estou em crer que até nestes haverá gente que não pode dizer publicamente o que pensa…

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

SMS 223. Diplomatas algarvios

16 Agosto 2007

Não sei porquê, mas parece que os algarvios não devem ter queda para a diplomacia. A propósito de um encontro anual minuciosamente preparado por um embaixador algarvio no activo, ocorreu contar os diplomatas cá da terra – não chegam aos dedos da mão. É claro que esta é uma daquelas coisas de que nenhum governo é culpado e de que nenhum partido é responsável. Mas abriu uma pista de reflexão – na verdade o Algarve, a sociedade algarvia e as suas poucas e frágeis instituições vivem como de costas viradas para as relações internacionais, quase ao avesso da política externa e como se a actividade diplomática e a acção política externa do Estado fossem coisas longínquas e com as quais o Algarve não tem nada a ver. Desde o Pai Adão que não há uma jornada, um seminário, uma conferência que seja sobre tais matérias, pelo que como as águias não geram pombas, também só por acaso deste ninho pode nascer um diplomata. Já era tempo da Universidade pública do Algarve ou algum instituto superior privado pensarem no assunto e mobilizarem a sociedade.

Carlos Albino


Flagrante tristeza: Na verdade, trazer ao Algarve arte contemporânea sem textos de enquadramento e sem adequadas notas explicativas é mesmo cultura do género do despacha que o cheque já foi passado e tem cobertura. Tanto comissário nem se sabe para quê.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

SMS 222. Dez coisas desagradáveis

9 Agosto 2007

Não é porque não faltem assuntos da política e dos políticos, ou lá porque médicos, jornalistas e advogados sejam já todos santos, ou porque o ministro Manuall Pinho já tenha ganhado a humildade que lhe falta, que o ministro Correia de Campos nos tenha convencido que essa do hospital não é para as calendas de Março, tal como tem acontecido com a eterna barragem de Odelouca, para não falar do célebre TGV Faro/Huelva prometido há dez anos para 2018! Nada disso! Falemos de dez coisas desagradáveis do dia a dia, tão desagradáveis que ninguém gosta de falar, perante as quais se fecham olhos, narinas e ouvidos, conforme o caso.

1 – Gente a urinar às esquinas das vias públicas ou fazendo o mesmo nas estradas, saindo de carros de alta gama – dois destes até reconheci obrigando-me a fazer cruzes canhoto. Vê-se.

2 – Gente da mesma igualha que escarra para os passeios públicos de Vila Real a Lagos, marcando território para a direita e para a esquerda. Ouve-se.

3 – Motos com tubos de escape abertos ou modificados, subindo ruas ou descendo avenidas como bombardeiros no Iraque. Ouve-se.

4 – Condutores que, com toda a insolência e até nas barbas dos polícias, estacionam os seus veículos sobre os passeios e só não o fazem junto da cama onde dormem, não por obesidade mas porque os carros não sobem escadas. Está patente.

5 – Outros da mesma igualha que passam pelas passadeiras de peões como talibãs em fórmula 1. Na terça, eu próprio por pouco não fui cilindrado.

6 – Gente que com contentores de ecopontos à frente dos olhos, continua a atirar lixo para as ruas porque para essa gente a rua será ainda uma pocilga. Cheira a peixe podre como qualquer mosca pode dar público testemunho de usufruto.

7 – Também gente que vai à frutaria e espeta a unha negra de suja na fruta ou que apalpa o pão depois de ter limpado a unha na fruta. Nota-se.

8 – Outra gente que, às tantas da noite, vai roubar flores, por exemplo, aos canteiros restaurados da Avenida de Loulé, para adornar marquises traseiras com cortinados chineses de onde seguem as educativas telenovelas do canal público e de outros canais correlativos.

9 – Restaurantes que, a escasso metro e meio de automóveis de gasolina, usam sem higiene alguma os passeios para os assadores de sardinhas e grelhadores de todas as carnes e gorduras, infestando os ares, provocando a vizinhança e provando que a ASAE nuns lados é um excesso desmedido e noutros faz de conta.

10 – Por último, umas croniquetas que há por aí que não passam de plágios da página 42 de um livro do Tibete e da página 73 de um filósofo de pacotilha que morreu à procura da felicidade pessoal absoluta tirando a dos outros. É claro que fazer plágio é o mesmo que exibir aquilo nas ruas a fazer aquilo ou espertar a unha negra na fruta intelectual.

Carlos Albino


Flagrante espectáculo: Macário a cantar o hino do Algarve se é que sabe a letra de cor e salteado.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

SMS 221. Autarcas, cuidado. Isso pode dar na saloiice.

2 Agosto 2007

Designar a época de Verão como a Silly Season será o mesmo que chamar-lhe Estação Pateta? Claro que não. A expressão inglesa guarda, quando importada, uma espécie de requinte que os adjectivos pateta, ridículo, tolo, imbecil ou idiota, apesar de tudo, não contêm. Por isso mesmo, teremos de manter a expressão inglesa se quisermos que o conteúdo dê os seus frutos.

E até que dá. Agora, quando os dancings juntam respeitáveis políticos com strippers, nas mesmas pistas, e as vidas dos verdadeiros actores são misturados com as videntes, e os piqueniques integram sheiks das Arábias e ministros, tudo se compreende e se desculpa, a começar pelos próprios, pois estamos na Silly Season.

E claro que o palco da Silly Season onde é? O Algarve. O Algarve, região da Silly Season, por excelência, suporta todos os descomandos, todas as misturas e inversões! Fotografias bizarras, festanças descomunais, champanhes nas piscinas....

Por isso mesmo o Algarve faz rodar o papel cor-de-rosa como em nenhum outro lugar do país...

Mas os autarcas deveriam tomar cuidado. Porque a nossa Estação Pateta não é bem uma Silly Season. Entre nós, gente em apuros, conviria que uns tantos mantivessem juízo, e soubessem distinguir entre o que significa ser fotografado ao lado de Óscar Niemeyer e de Lili Caneças. Entre o estar num Concerto na Praia dos Pescadores, e estar na feijoada de Cinha Jardim.

É que a Silly Season passa, mas a memória retém. E entre nós, de súbito a expressão pode ter outros requintes – A estação pode vir a chamar-se simplesmente de Estação Saloia, e o Algarve o espaço saloio que a recebe.

Carlos Albino

Flagrante pesca: Se o bispo de Aveiro pode ir pregar para as praias, porque é que o Governo não haveria de pregar aos peixes no Algarve? Não é tudo uma questão de isco?/span>

quinta-feira, 26 de julho de 2007

SMS 220. E se escrivéçem milhor?

26 Julho 2007

A praga dos erros de português infesta estradas, ruas e praças. Alguns exemplos. Numa das principais rotundas de Loulé, lá está à vista de todos os pecadores, uma garrafal «Assembléia de Deus» com o acento agudo caído do céu. Não muito longe, há uma «Residêncial», por certo com acentos circunflexos nos travesseiros. E quem vai para lá, lê na tabuleta «Lagoa de Momprolé», mas quem vem para cá a letra tem menos uma perna - «Monprolé». E já se notou em bem acabado folheto municipal, um espectáculo marcado para as «24:15».

É claro que não se preconiza uma ASAE da gramática, nem se defende a aplicação de coimas para quem dá erros na tabuleta ou no letreiro, mas alguma medida tem que ser tomada. E como a medida tem que ser naturalmente pedagógica, aqui está um bom pretexto para os municípios se entenderem com as escolas, designadamente através de grupos de trabalho que integrem os núcleos de professores de português da terra. Não há que multar pastores de almas e muito menos os crentes por cometerem o pecado mortal do acento agudo na Assembléia. Mas muito gostaria que a intervenção activa e pedagógica dos núcleos locais de professores de português protocolada com os municípios, não ficasse marcada para as 24:15

Carlos Albino


Flagrante capitania: A propósito do mais recente episódio do achamento da nau Santa Mercedes, porque não se elabora um livro branco sobre o património arqueológico marítimo do Algarve?

quinta-feira, 19 de julho de 2007

SMS 219. Algarve, Salão de Espectáculos

19 Julho 2007

Sejamos francos – Pela primeira vez, o Algarve vai ter acesso a um Programa de Verão à altura do que é de esperar para uma região com as suas características, à parte a infeliz e dispensável designação. Pela primeira vez os seus habitantes, não tanto por eles mesmos mas mais pelos residentes temporários e episódicos, vão poder ter acesso a momentos impensáveis. Ninguém poderá ficar indiferente. Na perspectiva de resposta a públicos com exigência, e criação de novos públicos que se soltem dos formatos decadentes dos talk-shows televisivos, felizmente que esta época estival vai proporcionar um reforço e uma inovação inéditos nesta zona do país. Não se pode ser reticente em relação ao conteúdo desta iniciativa.

Pena é, porém, que a iniciativa apareça embrulhada naquilo que surge como uma investida de carácter económico e comercial. Ninguém desconhece que as trocas em cultura produzem rendimento, que a contabilidade dos orçamentos de Estado em toda a parte do mundo civilizado contam com as receitas provenientes dessa área, e ninguém desconhece também, que em Portugal, a Cultura já é e pode vir a ser um factor económico. Não parece, porém, que deva ser alterado, a nível de conceito, o que a cultura é, por excelência – produção, saber, conhecimento e divertimento, de gente, para gente.

É por isso que choca a linguagem de “produtividade” a que anda associada este “investimento”, e as perguntas que se fazem são mais do que muitas. Entre elas, a mais importante é esta – Sob o olhar desta mega-contabilidade, os programas regionais de continuidade vão ou não vão ser acautelados? (A pergunta tem sujeito e destinatário). Ou pelo contrário, na base da grandiosa contabilidade cultural, o Algarve vai ser encarado como um salão de espectáculos que fecha e a abre porta à bilheteira, apenas à medida do show internacional?

É claro que com dinheiro, e à medida do dinheiro, é possível despejar cultura no Algarve. Mas é triste que isso aconteça perante as evidências e os muitos sintomas de desinvestimento na cultura do Algarve.

Carlos Albino

Flagrante mergulho: Mas ainda haverá património arqueológico subaquático no Algarve, depois de tanta pilhagem impune e pela calada, a dar livro de ficção? Porque não um livro branco sobre a matéria? Há medo?

quinta-feira, 12 de julho de 2007

SMS 218. Ex.ma Sr.ª D. ASAE…

12 Julho 2007

Prezada Senhora, oxalá que também sensata,

Naturalmente que de há muito se requeria uma autoridade nacional de segurança alimentar e de fiscalização económica, como V. Ex.ª tem vindo a demonstrar que pretende ser. E mais, de há muito se exigia que alguém como V. Ex.ª, minha senhora, prescindisse da saia larga que muitas autoridades usam e de que não abdicam, e siga a rigor os princípios da independência, precaução, credibilidade, transparência e confidencialidade, tal como consta no seu cartão de visitas.

Pois, que V. Ex.ª, minha senhora, surja como provedora das comuns necessidades vitais do estômago e alma, zeladora da higiene e saúde pública, e avessa aos dois pesos e duas medidas ou a diferentes critérios conforme o lugar ou conforme o có-có-ri-qui có-ró-có-có que o galo da circunstância cante. Ou seja, que V.Ex.ª, minha senhora, como autoridade que é, não proceda conforme o poleiro que escrutina.

Acreditamos piamente que as vossas 479 operações e 958 brigadas que fiscalizaram 6246 operadores de Janeiro e Março, tenham contribuído para sanar este ambiente de galinheiro a que os nossos estômagos e as nossas almas já estavam habituados como condenação, embora duvidemos que as 14 suspensões de actividade, 312 processos-crime, 1447 processos de contra ordenação e 32 detenções em todo o País, por entre 2232 infracções detectadas, sejam suficientes para nos dar tranquilidade e confortável segurança.

Até agora, pequenos e modestos estabelecimentos, mas também médios, têm acatado pacificamente as vossas instruções e até algumas advertências ou avisos mais ou menos bem fundados, até porque V. Ex.ª, minha senhora, é ainda uma mulher jovem e não teve ainda tempo para adquirir os vícios e manhas da burocracia portuguesa que está por entre as mais velhas profissões do mundo.

Só que nisso, V. Ex.ª, minha senhora entra já no período de teste. Irá V. Ex.ª aplicar em todos os festarins de chão e frituras de cheiro nauseabundo, comes e bebes de insondável proveniência mas no adro, mostras e festivais gastronómicos que a pretexto de se enquadrarem em «festejos populares» são contra o povo quando ou sempre que não passam de imundície na churrasqueira, irá V. Ex.ª aplicar aí o rigor que exige e bem às unhas dos pequenos e modestos estabelecimentos?

Ou será que irá adiar para o ano, prejudicando seriamente a vossa invocada independência, precaução, credibilidade, transparência e já agora a vossa confidencialidade?

Vamos ver, e havemos de voltar ao assunto.

Beijo as suas mãos,

Atenciosamente

(Assinatura ilegível)


Flagrante surpresa: Sentia-me bem, nem sabia porquê. Mas foi preciso que Loulé atribuísse a título póstumo a Medalha de Ouro do Município ao arquitecto Manuel Laginha (1919.1985) para ficar a saber que a casa onde vivo em Lisboa, na frente Norte da Avenida Estados Unidos da América, afinal foi arquitectada por ele... E não é que surpreendentemente me sinto melhor?

segunda-feira, 9 de julho de 2007

quinta-feira, 5 de julho de 2007

SMS 217. Há coisas boas no mundo…

5 Julho 2007

Loulé está de parabéns pelo seu Festival do Mediterrâneo que fez encher de gente as velhas calçadas do centro histórico da cidade. Música que nos diz respeito, gastronomia limpa, animações de rua daquelas que transformam velhos em crianças, exposições bem pensadas e também a prova de que a arqueologia apenas desenterra verdades, tudo isso encheu quatro noites de Loulé que viu regressar ao torrão natal o poeta Casimiro de Brito ao lado da poeta síria Maram Al-Masri – seria bom que a organização fosse publicando Cadernos Anuais destes encontros, para que conste.

Quem tem acompanhado a evolução desta iniciativa, certamente percebeu que ela veio para ficar e para crescer – este ano o Festival do Mediterrâneo deu um inegável salto afirmando-se como um acontecimento de abertura ao mundo sem provincianismo. Com uma organização à evidência complexa, quem trabalhou para isto não deve pertencer ao sindicato do despacha, porque dá trabalho, exige empenho humilde e, sobretudo, capacidade de acolher ideias.

Gostei, e obrigado Loulé que mais uma vez me deste conta de que há coisas boas no mundo.

Carlos Albino

Flagrante confidência: Não é por acaso que aí está lançado o blogue ESTADO do ALGARVE, ainda em passos iniciais ( em http://www.estadodoalgarve.blogspot.com/) mas que é um bom título para o que der e vier. Adivinhem…

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Governadora civil. Não haja ilusões.

Ler comentário em ESTADO do ALGARVE

SMS 216. Assembleias municipais...

28 Junho 2007

As sessões das assembleias municipais do Algarve estão longe das opiniões públicas locais. Primeiro, à excepção de uns habituais militantes da curiosidade, de um reduzido número de interessados em algum assunto agendado e de isolados protagonistas que querem dar nas vistas, as sessões desses pequenos parlamentos cumprem, por regra, o ritual do senhor feliz que está no poder e do senhor contente que espera sair da oposição. Segundo, os jornais e rádios locais não vão além, também por regra, dos anúncios de que a assembleia vai reunir ou que já reuniu, ou quando muito, como nos baptizados, diz-se o nome dos padrinhos e dos ditosos pais. É claro que apenas quando há assunto de peso, catástrofe ou escândalo é que apreciável número acorre com algum peso, as rádios locais dizem apenas algumas sílabas da catástrofe, e os jornais também do lugar descrevem o escândalo conforme as simpatias e os laços de proximidade, variando mimeticamente com as circunstâncias dos senhores felizes e dos senhores contentes.

Naturalmente que os meios de comunicação que se arrogam e, em bastantes casos se lhe reconhece com justiça o estatuto de regionais ou lá perto disso, apenas cobrem as desditosas assembleias quando indeclinávelmente algum assunto não pode ser omitido para não penalizar o tal estatuto obtido ou reconhecido.

E é assim que os teatros políticos onde os «mecanismos democráticos» começam a mexer-se, e que, sessão a sessão, deveriam ser milimétrica e rigorosamente escrutinados com alguma rapidez para a opinião pública, funcionam ora como uma espécie de reuniões malevolamente roubadas ao sono, ora como acertos de contas entre compadres desavindos sob telhados de vidro.

E não falemos das assembleias de freguesia onde, como o senhor presidente diz, «está tudo controlado, ninguém levanta ondas»…

Santa Democracia.

Carlos Albino

Flagrante prova: A de que o Algarve não é alvo privilegiado de ataques de terrorismo… Nunca se viu, seria um paradoxo, terroristas prepararem bases num alvo.

sábado, 23 de junho de 2007

Quatro anos de SMS

Por certo alguns dos leitores repararam que as SMS completaram quatro anos a 15 de Maio. E tanto que repararam que não foram poucos os que nos enviaram e-mails com mensagens que nos sensibilizaram e agradecemos. A bem da verdade, nós nem demos pelo tempo das 215 semanas que passaram desde 2003 e em que fomos tentando dar vida ao velho género jornalístico do «apontamento» que alguns, com quem aprendemos, felizmente cultivam e perpectuam como flashes que são onde o efémero do quotidiano se cruza com alguma ironia e remata com alguma certeira conclusão, explícita ou meramente sugerida. Não há mais pretensões para além disto e não gostamos dos grandes sermões que proporcionam o aumento fácil do número de amigos mas apodrecem aquela convivência que por vezes não passa de cemitério de amizades.

Em momento de forçosa avaliação, é lícito admitirmos que foram mais as verdades que os erros. Se para as verdades não se pede desculpa, já quanto aos erros há que ter presente aquele preceito de Rabindranath Tagore segundo o qual "se fechares a porta a todos os erros, a verdade ficará de fora".

Obrigado a todos os que, por mera curiosidade ou por declarado interesse pelo debate das questões algarvias têm acompanhado as SMS nestes quatro anos.

Carlos Albino

quinta-feira, 21 de junho de 2007

SMS 215. Apenas quatro sinais de UE

21 Junho 2007

Das 330 reuniões programadas pela presidência portuguesa da UE, apenas quatro pingam para o Algarve. É pouco. Em Julho, não se sabe bem onde, um seminário sobre sistemas de alerta precoce para Tsunamis e sinais de alerta (matéria sobre a qual a nossa região possui aquela anedótica e saloia experiência que até hoje ninguém explicou a preceito); em Vilamoura, lá para 7 de Setembro, uma reunião extraordinária do Bureau Político do Comité das Regiões; também algures no Barlavento ou Sotavento, em 26 e 27 de Outubro, o VI Fórum do Turismo Europeu, e algures também, em 18 e 19 de Novembro, a reunião ministerial EuroMed sobre Migrações, envolvendo chefes de diplomacias e ministros da Defesa e do Desenvolvimento. E é tudo o que sobra para o Algarve nestes seis meses de intenso corrupio internacional.

Naturalmente que se esperava que as matérias envolvendo o Turismo e o Mediterrâneo tivessem o Algarve como cenário natural e não tanto o alerta para Tsunamis. E esperava-se também que pelo menos uma reunião de peso ou de alto nível fosse programada para a região. Mas compreende-se que assim seja: o Algarve não tem políticos de peso e não dispõe de influência onde as agendas de estado são decididas, onde até Loures já tem pé porquanto até Loures que já não é tão saloio quanto se possa pensar, acolhe mais reuniões que todo o Algarve…

Carlos Albino

Flagrante boa iniciativa: A televisão on-line RTValgarve que pode ser vista e ouvida em http://www.rtvalgarve.pt/

quinta-feira, 14 de junho de 2007

SMS 214. Em vez da caça à multa, a caça ao bandido

14 Junho 2007

Sempre que o movimento de Verão se aproxima, a segurança é a questão. A GNR que no Algarve é generalizadamente o recurso do cidadão para socorro, como está ou como pode actuar, com as condições e meios de que dispõe, a bem da verdade não pode fazer mais – alguns pequenos mas importantes quartéis não dispõem, por exemplo, de sistema autónomo de energia ao menos para alimentar os telefones, ficando incontactáveis se a emergência coincidir com o corte… Um exemplo, pequeno exemplo apenas.

Se nas cidades e vilas, a falta de patrulhamento é notória, nos campos é pior com o crescendo já verificável das pilhagens a casas, assaltos violentos a residentes indefesos e a transformação de recônditas estradas municipais em locais de tráfico de droga segundo calendários e truques ou estratégias sem dúvida delineadas para trocar as voltas à Polícia Judiciária e à GNR mas que as populações conhecem e sentem na pele.

Naturalmente que é impensável que o Estado possa colocar um polícia atrás de cada criminoso, até porque é impossível saber-se quantos criminosos há e quais são eles. E é também impossível que deva colocar um guarda junto de cada cidadão, sobretudo um guarda acordado enquanto o cidadão dorme. Já é defensável que as polícias, nas zonas persistentemente e consabidamente críticas, operem de forma eficaz, sustentadas por informações fiáveis e dispondo de um mapa da insegurança do Algarve que devia ter mapa. Mas infelizmente associa-se o Verão mais à caça à multa e menos à caça ao bandido. Ora, Rui Pereira depois de António Costa tenha lá santa paciência mas as brigadas de trânsito apenas proporcionam um Algarve mais transitável – não o fazem mais seguro.

Carlos Albino

Flagrante pergunta: Onde fica o aeródromo de apoio ao Aeroporto Internacional de Faro?

quinta-feira, 7 de junho de 2007

SMS 213. Caso vulgar de Lineu

7 Junho 2007

É bem possível que, depois de inviabilizada a criação da Região Piloto (entorse que provocou todos os problemas) e institucionalizado o jogo de intersses na disputa de cargos políticos "dados" sempre por cima, sem escrutínio sério e rigoroso dos próprios partidos, a RTA nas suas sucessivas fases de tenha lançado na contemplação do umbigo.

Por isso, um certo estilo de conduzir o turismo provavelmente chegou ao fim, até porque o Estado, desta ou daquela forma, nunca permitiu que a RTA abandonasse o modelo de elite burocrática, supostamente responsável por decisões complexas, no pressuposto de que todos os agentes implicados condordassem com tais decisões ou, talvez melhor para quem a manutenção do estatuto dessa elite foi interessando, não prestassem atenção. Por isso também, não é difícil aceitar que a liderança da RTA tenha sido por regra conferida ou tolerada por acordos políticos que não existem sem entendimentos partidários, explícitos ou tácitos. Foi assim que a RTA, sempre de alguma forma, espelhou o rotativismo no aparelho central do Estado à mercê do qual, sem regionalização, cada vez mais está, perdendo também progressivamente aquela áurea de "liderança" regional que não passou de áurea pois nenhum político forte da região trocou um assento mais promissor do poder pelo assento da RTA cujas atribuições, missão e objectivos, em vez de reforçados, se foram diluindo e tornando difusos quanto ao essencial.

Porque haveria de deixar de ser assim? A RTA, quer se queira quer não, a vegetar politicamente à margem de um quadro de regionalização inequívoca, não foi sempre uma sinecura, um lugar de recurso ou quando muito um prémio e um trampolim? E poderia ter sido outra coisa? A RTA que já foi um registo sui generis no PAís, hoje não passa de um caso vulgar de Lineu.

Carlos Albino

Flagrante incompatibilidade: Entre um Jornalista e um Moço de Recados.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

SMS 212. Mas 54 mil camas são poucas!

31 Maio 2007

Segundo a lista apresentada pela RTA ao ministro da Economia, pede-se a provação de 54 mil camas turísticas para projectos de excepção, antes da entrada em vigor do PROT que limita as hipóteses a 24 mil camas até 2018, o mítico ano do comboio de elevada velocidade Faro-Huelva...

Ora, enquanto é tempo, pedir 54 mil camas é pouco para terminar esta obra-prima de enterrar o Algarve em betão e enterrar neste os residentes estrangeiros, sabendo-se que o desenvolvimento caótico é que é desenvolvimento, e que o desenvolvimento a sério não permite espaços livres nos relativamente escassos quilómetros da primeira linha da costa algarvia. Aliás, para determinada gente com a febre do negócio - cujo modelo será a Costa do Sol - não há desenvolvimento sem caos, sem problemas de tráfego, de insegurança, de abastecimento e de lixos. Até nem se sabe que futuro possa ter o Algarve sem Mijas à portuguesa em Albufeira, sem uma Fuengirola à esquerda e outra Estepona à direita, cabendo ainda uma espécie de Manilva entre dois campos de golfe, um dos quais em cave. É que não se pode imaginar um Algarve desenvolvido sem a nossa Málaga em Quarteira e Marbella em Armação, porquanto Portimão e arredores é já uma espécie dessa hipertrofia urbanística que é barata e dá milhões, sendo sem dúvida um sistema ambiental sustentável.

Duvida-se é se com 54 mil camas apenas, se conseguirá essa meta de progresso e de potencial interesse nacional, pelo que a RTA deveria ter pedido não 54 mil camas, mas 45 vezes mais, muito embora dois milhões de camas fosse o ideal para se acabar de vez com isto tudo desenvolvido.

Carlos Albino

Flagrante falha: António Pina deixa o cargo de governador civil sem publicar a lista dos cônsules honorários no Algarve. Não por culpa de António Pina - segundo consta, haverá muito honorário que prefere andar pela calada e não levantando ondas.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

SMS 211. Um exemplo de revista

24 Maio 2007

Por interposta mão, chegou-me por acaso a revista al-‘ulyà do Arquivo Municipal de Loulé (a explêndida capa aqui ao lado). No limiar entre o propósito de rigor científico e o de divulgação, a revista é um exemplo de como a cultura não cai do céu mas faz-se quando quem a ajuda fazer, cumpre sem pretensões aquele velho preceito fundador do humanismo e que consiste no «conhece-te a ti mesmo». A revista mergulha nas raízes e na memória de Loulé, obriga a que os de hoje arquivem um abraço aos do passado, fora das lendas e contarelos endrominados como verdades – um abraço, nem que seja a pretexto de um caco que, assim sendo, vale ouro.

Por regra, a noção de arquivo prende-se à de guardar para esquecer, por vezes até para fazer esquecer quando se arquiva sem arrumo. Ora, mas que surpresa, chegar às mãos uma revista de arquivo que faz precisamente o contrário – lembrar! É o caso do texto consolidado de Hélder Raimundo que, ousando mexer no passado recente, situa Casimiro de Brito no seu lugar, lugar que é Loulé, onde ainda menino, ao colo de António Aleixo sentiu pela primeira vez a função da poesia, e que é, acima de tudo, a de que os homens se conheçam a si mesmos. Ainda bem que Casimiro de Brito, em Loulé, já está a sair do arquivo.

Carlos Albino

Flagrante consenso: O que António Pina recolhe para a RTA. Quando há consenso, muita prosápia acaba.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

SMS 210. Que a ideia vá para a frente

17 Maio 2007

As minas de sal-gema de Loulé, nos seus cerca de 40 quilómetros de galerias em quatro pisos até perto dos 300 metros de profundidade, tem todas as condições para albergar um centro subterrâneo de reabilitação e terapêutica para vias respiratórias, alergias, doenças da pele e perturbações do metabolismo. Por outras palavras, tem condições para ser um pólo de turismo de saúde. Sabendo disto, Mendes Bota não terá perdido um segundo para fazer o que falta: munir-se da anuência interessada da entidade proprietária das minas, sensibilizar o município local e colher por via da cooperação a experiência de quem a tem – e, se há no mundo experiência nesse turismo de saúde, ela está em Wieliczka, cidade do sul da Polónia, na área metropolitana de Cracóvia e quase na fronteira com a Áustria, sob a qual existe uma das mais antigas minas de sal-gema, descobertas em 1044 e exploradas com regularidade desde o século XIII. (Fotos da mina ao lado)

E é assim que, à hora em que estas linhas chegam às mãos do leitor, a senadora polaca Urszula Gacek, a convite de Mendes Bota, já deambulou pelas profundezas das galerias de Loulé, acompanhada pela encarregada de negócios da Polónia, Dorota Ostrowska-Cobas, após uma reunião de interessados no projecto, este provavelmente sustentado por um acordo de geminação entre Loulé e Wieliczka, terras que, ficando onde ficam, não são concorrentes mas podem ser cooperantes por aquilo que, entre povos, a política tem de mais puro e sem dúvida de mais belo. A concretizar-se a geminação, esta nada terá, pois, a ver com ideias peregrinas que por regra andam coladas como carraças às geminações. Será uma geminação com sentido, que a ideia vá para a frente. Vítor Aleixo, o anterior presidente da câmara louletana, deve estar muito arrependido porque até teve a ideia entre as mãos e deixou-a escapulir.

Embora a utilização do sal-gema algarvio extraído a céu aberto reporte provavelmente a tempos remotos da história e, mau grado os que obsessivamente apenas lêem árabe em todo o lado, justifique o dedo fenício em topónimos, é claro que as minas de Loulé não têm o acervo cultural e patrimonial multissecular das minas de Wieliczka, por isso mesmo, desde 1978, na lista do património da humanidade, sendo por isso também que Wieliczka só no primeiro trimestre deste ano recebeu 140.224 turistas… Não será isto que Loulé pode pretender, mas com números obviamente mais modestos, o turismo de saúde é uma boa causa, um bom motivo e uma finalidade de excelência. É por estas e por outras que se vão perdoando os pecados a Mendes Bota.

Carlos Albino

Flagrante ignorância: A de quem se pronuncia contra ou a favor da autonomia administrativa, mas sobretudo contra, confundindo os conceitos de desconcentração, descentralização e regionalização, e, ignorância mais grave, contrapondo autonomia administrativa à organização municipal. É o problema das licenciaturas apressadas…

quinta-feira, 10 de maio de 2007

SMS 209. Não há oásis

10 Maio 2007

1. Coloquemos as questões nos devidos termos – o casal inglês tinha os seus filhos normalmente protegidos (vir para Lagos não é o mesmo que ir para Bagdad ou para a Amazónia entre cobras), a polícia agiu com prontidão, a colaboração da população revelou-se de imediato forte e apaixonada, e o retrato-robot é sempre um robot de retrato pelo que só por nacionalismo obtuso - defensivo ou ofensivo - é que alguém poderia garantir que o robot do robot tinha que, à partida, ser inglês e não poderia ser português… Não se pode orientar a sanha conforme a criança vítima se chame Madeleine ou Joana.

2. É defensável que se pense que o Algarve não é mais uma zona de segurança como se sentiu ter sido neste hiato mais recente da sua história - outrora, em largos períodos, não foi, pela actuação das piratarias de diversas procedências e das quais rapidamente se perdeu a memória e os vestígios, com longo historial de pilhagens, violações e tráfico de seres humanos. O mundo está a mudar para o bem e para o mal, e o Algarve também está a mudar nos seus paradigmas, não estando naturalmente imune às novas piratarias. Temos com insistência alertado para isto a fim de que responsáveis públicos não assobiem para o lado e as populações não enterrem a cabeça na areia quando o perigo bate à porta ou os sinais de perigo se tornam evidentes.

3. Ora quando se assobia para o lado ou se enterra a cabeça na areia, entra-se num estado geral de impunidade, valendo neste caso a verdade do velho rifão segundo o qual em terra de cegos o zarolho é rei, sabendo todos nós que o autêntico pirata, por definição, é zarolho e tanto melhor pirata será quanto mais eficazmente dissimular nas polícias, nos tribunais e junto das populações, o gancho que lhe substitui a mão.

4. Assim, contra a nova pirataria, contras as novas piratarias, não basta a «polícia de proximidade» para sossego dos cidadãos ao mesmo tempo que se reza a oração de que o «Algarve é seguro» como num terço com um glória ao poder de circunstância nos convenientes intervalos da recitação monocórdica. O que tem que voltar a haver, porque já houve isso no Algarve de forma natural e espontânea, é uma política de vizinhança, de firme estímulo e apoio sólido às relações de vizinhança. Um resort inglês explorado por um operador inglês e acolhendo ingleses do mercado turístico inglês, só por isto, não é um oásis mesmo que tenha segurança privativa inglesa e ainda que, por acaso, o pirata até seja inglês. Não há oásis para ingleses ao lado de oásis para clandestinos e de outros mais oásis para traficantes de droga, de seres humanos ou de capitais ilícitos, com o turismo a servir de pretexto que não é e de causa que também não é.

5. O turismo não pode ser pensado, como sempre foi, como um mundo aparte no Algarve. Madeleine e os pais são as mais recentes vítimas deste sistema inseguramente fechado e falsamente aberto. Não há que desculpabilizar os verdadeiros culpados – os raptores, e muito menos há que aceitar a impunidade que a segregação provocada por uma espécie de turismo colonial gera e impõe, mas do qual a pirataria, qualquer pirataria, gosta e se serve, quer se trate do Algarve, das Canárias ou de Marbella.

Carlos Albino

Flagrante interrogação: O que é que os municípios algarvios têm feito preventivamente para se travar os indícios da crescente delinquência juvenil associada ao insucesso escolar e ao desenraizamento social e cultural?

quinta-feira, 3 de maio de 2007

SMS 208. Quem mais se deve preparar, não é o Governo?

3 Maio 2007

Mal começou o movimento no sentido de novo referendo para a criação das regiões, o Governo não perdeu um segundo anunciando a intenção de descentralizar departamentos a fim de preparar a almejada regionalização. E com isso pediu tempo, remetendo para depois de 2009, pelo menos, qualquer veleidade política e mesmo assim sem garantias de que em 2009 o assunto não volte a ser remetido para 2014 até à ressurreição dos mortos. Ou seja, o Governo mesmo antes de saber qual o resultado do referendo, vai preparar a regionalização, e assim sendo, vai prepará-la como o Estado a quer e para o que o Estado a quer, como se a regionalização tivesse que ser uma outorga e mais não fosse que uma outorga, e cada região uma criança de menor idade. Ora, são as regiões que tem que se preparar ou devem ser preparadas para a regionalização, ou não será antes o Governo que deverá preparar-se? É de mau tom transformar-se a causa em efeito.

Claro que tudo o que seja desconcentração e descentralização são coisas bem-vindas numa lógica de regionalização que é a lógica da Constituição e a lógica de um regime democrático construído para aproximar os cidadãos da administração e não para os afastar. Todavia os laivos de desconcentração e de descentralização não têm sido portadores dessa lógica, antes pelo contrário têm servido um pouco por todo o País, para sustentar mordomias e distribuir empregos políticos não na lógica das regiões mas na lógica do poder central e das forças que o ocupam circunstancialmente. Daí que a pouca desconcentração e a tímida descentralização que tem acontecido tenha sido pretexto para nomeação de funcionários que nada ou pouco têm a ver com as regiões para onde são destacados às quais se adaptam como ilustres desconhecidos, mesmo em áreas politicamente pouco polémicas – as delegações regionais do Ministério da Cultura têm disto sido cabal exemplo, ora como sinecuras, ora como empregos políticos de impositivo empenho. Naturalmente que há, houve excepções, mas as excepções têm sido sol de pouca dura porque não interessam à lógica da central de mordomias, apenas se tendo salvado ao longo dos anos, de alguma forma, a figura do governador civil, mantida, por temor, numa zona de relativo equilíbrio político.

Sério, coisa séria seria para já o Governo comprometer-se, quanto antes e não à espera de 2009, a devolver às regiões ou a partilhar com sageza os poderes desconcentrados ou descentralizados colocando-os em mãos que as regiões aceitem e desejem, para isto não sendo critério absoluto o da naturalidade mas o do conhecimento dos interesses e a identificação com os anseios das regiões. E além disso, agilizando instituições já existentes para o escrutínio do exercício desses mesmos poderes e respectiva tutela. Seria bom que o Governo desse provas de querer preparar-se para a regionalização desta forma, e, para já, no Algarve que, como o mundo sabe, é um excelente sítio para quem não é algarvio ou com o Algarve não se identifique (mais isto), passar férias e fazer negócios…

Carlos Albino

Flagrante pergunta: O mar não vai subir no Algarve? Quanto subirá pela certa até 2050? Quem irá pagar os diques pelas asneiras de hoje?

quinta-feira, 26 de abril de 2007

SMS 207. Movimento cívico? Aderi.

26 Abril 2007

Anda o Estado, há um ror de anos, a prometer regiões administrativas por via daquilo que é mais sagrado num estado de direito – a Constituição. Há 33 anos que promete, a idade de Cristo, acabando sempre por crucificar a ideia, no alto de um monte, num perfeito entendimento entre os Pilatos do regime e os sacerdotes do poder central que nunca deixou de ser uma corporação do autoritarismo e, amiúde, do desdém pelo cidadão comum, passada a hora da captação do voto. E o pior é que a ideia tem sido sempre crucificada entre dois ladrões, o bom e o mau, sugerindo que se trata de uma ideia ladra. Ora, 33 anos, já é demais.

Num dia, afirmam uns centuriões que o povo não está preparado para a criação de regiões; no dia seguinte, para acalmar clientela, promete-se desconcentração cumprindo-se dela uns arremedos; e quando os arremedos são postos em causa, agita-se o caminho para a descentralização que, bem vistas as coisas, não tem passado de embustes burocráticos. Quando havia dinheiro, promoveu-se um referendo cujo resultado se antevia e cujos promotores no fundo desejavam, respirando de alívio com o adiamento das regiões para algum dia que, também no fundo, desejavam que fosse o de São Nunca à Tarde. Agora que não há, porque o dinheiro foi gasto por esses mesmos em tudo menos nas regiões ou para regiões, o argumento é outro mas a intenção é a mesma: crucificar a ideia.

Por estas e outras razões, aderi ao movimento cívico «Regiões, Sim». Naturalmente que não aderi a Mendes Bota, não se trata de aderir a pessoas mas aderir a uma ideia. Diria o mesmo se fosse Miguel Freitas a tomar o pulso. Não é por a iniciativa ter partido de Mendes Bota que, só por isso, haveria que diabolizar a ideia já de si tão crucificada - aderi ao movimento, o qual espero que se mantenha «cívico» e sem tutelas partidárias directas. Aderi porque julgo ter chegado o momento de se descriminalizar politicamente as regiões, e quando precisamente os centuriões de sempre se preparam para colocar sobre as regiões o carimbo acintoso do «regionalismo» apresentado, sem qualquer honestidade intelectual e moral, como doença infantil do regime democrático. É com carimbos destes que se crucificam as ideias que ponham em causa o Estado naquilo que ele tem de corporação autoritária avessa ao escrutínio dos cidadãos e sempre com dois ladrões à mão – o bom e o mau.

Carlos Albino

Flagrante sugestão: Ao autarca que foi a São Brás proferir uma conferência sobre «Como conquistar uma autarquia depois de uma derrota», ele ir preparando já outra conferência sobre como «Perder uma autarquia depois de uma vitória» …

quinta-feira, 19 de abril de 2007

SMS 206. Um pouco mais de humanidade…

19 Abril 2007

Por estes dias, andei a espreitar. Não levem a mal, mas andei a espreitar e a meter o nariz onde não sou chamado, onde, por assim dizer, está a vida privada ou até mesmo a intimidade – a vida privada dos imigrantes e a intimidade dos imigrantes, tanto quanto possível sem que estes dessem por mim. E observei situações inacreditáveis. Em centros de cidades, em casas degradadas, alugadas por montantes exorbitantes aqui a ucranianos, ali a romenos, mais além a moldavos, há quartos minúsculos com cinco e seis camas, cozinham à porta, amontoam-se sem condições humanas, sem qualquer qualidade de vida. Pelos campos em sítios esconsos ou já à berma de estradas, pior ainda: em perímetros sem urbanização possível, onde até há pouco estavam alfarrobeiras e amendoeiras, por aí se vêem contentores em cima uns dos outros, filas de contentores, verdadeiras aldeias de contentores onde, num ambiente concentracionário e de maus prenúncios, igualmente se amontoam ucranianos, romenos, moldavos, por vezes com africanos ou então apenas estes porque a amálgama desumana é a mãe da segregação e do apartheid. Clandestinos? Legais? Não vem para o caso. O que vem para ocaso é que esta situação tem que ser, deve ser escrutinada, embora dela não se fale – há interesses pelo meio, uns rasteiros por parte de gente que quer dinheirinho sejam quais forem os meios e métodos, outros mais elevados porque decorrem do perigoso jogo de investidores sem rosto ou alguns com ele mas igualmente perversos. Pois, por estes dias, por aí andei por ruas e ruas, por campos e campos, por amontoados e pardieiros escondidos. Não gostei do que vi e estou a interrogar-me se no Algarve há uma política de imigração, de acolhimento, de integração e de todas aquelas variáveis que devem desembocar num pouco de mais humanidade. Pelo que vi, não há, ou se há, a política parece que cruza os braços face a uma situação que só por milagre não vai resvalar para uma situação potencialmente explosiva.

Carlos Albino

Flagrante pergunta: E se, por acaso, mais ano menos ano, a avaliar as dívidas presentes, algum gigantesco aldeamento turístico redundar num gigantesco caso de Tróia, como será?

quinta-feira, 12 de abril de 2007

SMS 205. Não resisto a contar

12 Abril 2007

Metáfora do tempo que passa, não resisto a contar o que o Washington Post fez em Janeiro mas que só agora corre pelo mundo. O grande diário norte-americano lançou a seguinte questão: Passaria desapercebido um dos maiores violinistas do mundo tocando em plena hora de ponta no metropolitano de Washington? Vai daí, convenceu Joshua Bell, sem dúvida um dos prodigiosos e grandes violinistas da actualidade, a pegar no seu Stradivaruis avaliado em três milhões de dólares, para, trajado de vaqueiro, camisola de algodão e boné de basebol, tocar à entrada do metro, na L’Enfant Plaza, no centro político de Washington, solicitando moedas a quem passasse. Ninguém o reconheceu a executar Bach, e durante 43 minutos, das 1.070 pessoas que deram de caras com o célebre violinista, apenas 27 deixaram cair uma moedinhas de esmola, apenas 7 pararam para o ouvir mais de um minuto e no final da façanha, o que estava no fundo do boné, somava exactamente 32 dólares…

Que lição a tirar daqui? A de que a excelência, neste mundo que passa, apenas é reconhecida quando há fama e que apenas há fama quando a excelência é artificialmente colunável no seu lugar e como tal imposta. Em Faro, por exemplo, Joshua Bell, com o seu Sradivarius e as suas magistrais execuções de Bach, ali à beira da Doca, nem sete euros recolheria. Mas a Lili Caneças ou outra qualquer cara de capa, mesmo que, para além da fama sem excelência, pouca coisa saiba fazer ou alguma coisa tenha a dizer de útil e de válido, senhores e senhoras, na Rua de Santo António veria cair no seu boné, em apenas um quarto de hora que fosse, um montante 330 vezes superior ao que o próprio Joshua Bell recolheu no Metro de Washington.

Naturalmente que a metáfora chega à política, chegou à política: no Algarve, dão-se valentes esmolas à fama enquanto a excelência passa desapercebida. E tal como na Arte, mal vai a Política quando os Famosos que tudo fazem para terem mais fama sem excelência, substituem os Excelentes ali na Doca, a pedir esmola para a excelência de que o Algarve tanto carece.

Carlos Albino

Flagrante reserva: Sobre o que, juntando ao que sabia, fiquei a saber da questão de Vilamoura, de Jordan, da Praza, da Inframoura e da Câmara de Loulé, de me calarei até ir a Córdova e, no regresso se for possível, tirar a limpo algumas coisas com o BCP.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

SMS extra. "ESTADO do ALGARVE"

Ler ESTADO do ALGARVE
Blogue de informação e comentário sobre actualidade algarvia
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SMS 204. Por este lado, acabou

5 Abril 2007

Depois de seguir atentamente a audição parlamentar do majestático Manuel Pinho e de avaliar as prestações dos majestáticos deputados, nas matérias de turismo e de marcas, descansem que por este lado acabou. E acabou por este lado porque a sobranceria de Pinho, a subserviência dos apaniguados, e o tom belicosamente inconsistente da oposição em nada abonam os protagonistas.

Naturalmente que mantenho a crítica aqui feita à marca com uma abusiva brincadeirinha de palavra, de resto cópia não desmentida de outra brincadeirinha que até estava aparentemente falida mas ao nível do que servia e agora está à venda depois desta inesperada subida de cotação – Vejam no negócio que as brincadeirinhas dão num Algarve que já é cabo para toda a colher. Oxalá que esta brincadeirinha tenha sido a última, mas não foi a primeira, houve mais, como aquela da secretaria de estado em Faro muito ao género de como com papas e bolos se comem os tolos.

O politicamente sobranceiro Manuel Pinho é uma tristeza, como tristeza é ver a atroz e rastejante subserviência de deputados de uma maioria com os tiques de partido único (até já se auto-avaliam como colunistas roubando essa prerrogativa da avaliação que, numa democracia, compete à Imprensa livre e independente), e ainda tristeza é ver como a oposição é incapaz de consolidar argumentação com dignidade, serenidade e elevação. E como a sagesse de uns está para a sagesse dos outros, por este lado acabou.

Carlos Albino

Flagrante continuidade: As nomeações de filhos de amigos, compadres e cristas de galo para a grande escapatória de mordomias que é a das empresas municipais – lençol pequeno para ser tão esticado.

terça-feira, 3 de abril de 2007

SMS extra. A síntese final do holandês...

E aqui está a síntese final do holandês que colocou à venda o site http://www.allgarve.biz/ da marca copiada, tirando partido da questão, com mais L ou menos L:



Comentários? Basta recorrer à ensinança de La Fontaine segundo a qual "é um prazer dobrado enganar quem engana"... O dinheiro que Pinho pagou dá para comprar.

sábado, 31 de março de 2007

SMS extra. Obviamente, se não é plágio de ideia, o que é?

Marca da "campanha" de 2007, dada como original:


Marca do site http://www.allgarve.biz/ desde 2003:


Registe-se que, após estalar a polémica sobre o plágio da ideia, e apenas depois disto, foi introduzido no site o seguinte anúncio: «ALLgarve.biz is for sale... Interested? Put your offer on mail...here» É caso para se admitir que o copiador possa estar interessado no original...

quinta-feira, 29 de março de 2007

SMS 203. Falta-te o salto necessário

29 Março 2007

Meu caro Jornal do Algarve,

É inevitável que, na ocasião em que tu, Jornal do Algarve, perfazes 50 anos, eu fale da Imprensa algarvia, tal como hoje se apresenta e sobre que perspectivas tem. Entra pelos olhos, meu caro, que, de modo geral, os jornais, e por entre eles tu, melhoraram face ao que havia há escassos anos atrás – melhoraram no aspecto, nas equipas e nas intenções editoriais, embora impressos longe da região, velha pecha que os tolhe em muito na autonomia, na actualidade e na competitividade, e embora também a relutância à leitura seja a mesma de sempre porque a leitura de jornais continua confinada às bandeiras concelhias, tirando aqui, pondo ali ou pintando a manta.

Além disso, alguma boa dúzia de jornais corre com velocidade aparentemente sustentada em pelotão, como nas voltas iniciais das corridas longas em pista – de vez em quando lá há um que faz uma fuga para a frente, mas o pelotão absorve-o sobretudo quando a fuga é devida àquele doping que, paredes meias com a publicidade expressa ou disfarçada e em parcerias difusas, nada tem a ver com a Imprensa e com a verdade das empresas jornalísticas, por pequenas que sejam.

E é natural que, quando a corrida está na fase do pelotão, haja cotoveladas entre os competidores, possivelmente algumas rasteiras ou até mesmo derrubes de intencionalidade disfarçada, mas à parte tais episódios que ocorrem nas curvas, o pelotão lá vai rolando, com os mais afoitos e criativos a adaptarem-se ao on-line e ao virtual como instrumentos de dissimulação da enorme dependência noticiosa de que todos padecem e têm que padecer. Mas chegará o dia em que o salto se revele necessário e incontornável. Pois, então, que salte o melhor e o que tenha a independência como cultura de génese.

Mas porque te conheço desde há muito e porque privei com as várias gerações que te têm dirigido, ninguém me levará a mal se eu desejar que sejas tu, Jornal do Algarve, a saltares e a assumir que o território do papel que é o teu, desde que associado ao dos meios de comunicação instantânea (um sem o outro será uma eutanásia, para ti e para qualquer outro) seja o território que o Século XXI, mais que provavelmente, proclamará como insubstituível para se chamar os nomes às coisas. E o Algarve precisa desse salto, que deverá ser dado não com espertezas, mas com inteligência que é a única coisa à qual os leitores se rendem, deixando de ser relutantes.

Com cordialidade, parabéns, Jornal do Algarve, e não dês cotoveladas!

Carlos Albino


Flagrante coincidência: O ministro Manuel Pinho perguntar a ilustre personagem allgarvia – o teu banco não é meu?

quinta-feira, 22 de março de 2007

SMS 202. Os iletrados no poder

22 Março 2007

O ministro Manuel Pinho agrediu o Algarve e os Algarvios. O caso de Allgarve já se transformou num vasto anedotário nacional que ombreia, em êxito, com aquele velho chavão racista segundo o qual algarvios, marroquinos e cães de caça são todos da mesma raça, aliás acordou o chavão. E com essa agressão, segundo creio, colocou mal deputados socialistas e eleitos locais socialistas que, de modo geral, ficaram sem palavras, pois se viessem com palavras a favor dessa brincadeira de analfabetos e iletrados do marketing irresponsável, ficariam ainda mais mal colocados do que no silêncio em que se fecharam a sete copas. Ainda me recordo do humorístico barulho do PS quando se alterou a placa de Poço de Boliqueime para Fonte de Boliqueime (como sempre foi, de resto, pelo que aí sim deviam ter-se calado). Agora é pena que, perante este Allgarve de iletrados, se tenham fechado em copas, perdendo uma excelente oportunidade para provarem que não estão apenas em bons empregos políticos ou vivendo à sombra da política, mas sobretudo que estão em funções políticas com o sentido da responsabilidade.

Na verdade, eu não gostaria de ter de concordar tantas vezes seguidas com Mendes Bota, preferia concordar com Miguel Freitas, como Mendes Bota sabe. Mas tenho de concordar com Mendes Bota. E mais: agradecer. Mendes Bota, como deputado eleito pelos Algarvios fez o que tinha a fazer contra a apreciável aplicação dos dinheiros públicos numa campanha que vai desvirtuar o nome do Algarve em redor do mundo – mundo este onde o nome do Algarve não precisa de ajudas do ministro Pinho para ser conhecido, quando precisaria era das suas ajudas, como ministro da Economia, para se tornar numa Região melhor e com mais meios e instrumentos de desenvolvimento e progresso. Eu sei que aos marroquinos e aos cães de caça tanto faz que seja Algarve como Allgarve ou ainda Alarve. Mas aos Algarvios isso não é indiferente porque tem a ver com a nossa indesmentível identidade, com a nossa inquestionável sensibilidade e com a nossa legítima dignidade.

Mas o caso é mais grave porque, segundo parece, a ideia proclamada por Pinho teve o apoio de responsáveis da RTA. Gostaria de me enganar - a RTA não tem nenhuma legitimidade para se pronunciar sobre a alteração abusiva do nome histórico da Região para fins de eficácia duvidosa e com efeitos nefastos no que de nós fica na memória mundial, porque fica se a campanha não for de imediato cancelada, como se reclama, como se exige e como se torna imperativo antes que surja um movimento consolidado de repulsa. Não nos conformamos com iletrados no poder.

Aliás, não basta cancelar. O Governo e alguém da RTA têm que pedir desculpa e pedra sobre o assunto.
      Desculpe-me Luís Vicente, ainda não é desta que vou falar da ACTA e do seu magnífico Ricardo III, por razões óbvias. Os Ricardos III vivos, têm prioridade mesmo sobre um Ricardo III magistralmente representado.
Carlos Albino

Flagrante profecia: A previsão do secretário da Justiça, Conde Rodrigues, de que o Algarve é um alvo preferencial do terrorismo islâmico, cumpriu-se: o ministro Pinho bombardeou o secular nome do Algarve e fez estoirar a nossa paciência com a marca-armadilha da sua inteligência e espertezas conexas.

quinta-feira, 15 de março de 2007

SMS 201. Os tristes 50 anos da RTP

15 Março 2007

A RTP por aí anda num delírio diário a celebrar acriticamente 50 anos, como se tivesse sido um deus a quem todos e de joelhos devem agradecer o milagre de que se autoproclama. Todavia, mesmo esses 50 anos de vida mal aproveitada não são devidos a mérito próprio mas sim ao mérito do Orçamento do Estado e dos manietados contribuintes aos quais a RTP soberanamente desliga o botão quando o botão não interessa ao poder político do momento a que acaba sempre por se render, dissimulando a subserviência com muito, muito futebol, o mais possível Fátima, uns fados, overdoses de piroseira e de imposto provincianismo a começar pelo provincianismo do debate político tal como o proporciona no fervor dos actores secundários dos partidos que engravata como heróis maquilhados do centralismo.

No caso do Algarve, a RTP falhou e não há motivos para celebração. Pois o que foi a RTP ao longo de 50 anos no Algarve, o que é hoje a RTP no Algarve e o que se há-de esperar da RTP para os próximos anos? Pouco como RTP e nada como RTP/Algarve. Aliás, se a RTP se recorda do Algarve até tem sido mau sinal neste últimos 50 anos e é de crer que para os próximos 50 continue a ser mau sinal – ou é grande incêndio na serra, afogamento em massa no Arade, mais um presidente a jogar golfe na 125 ou o desmoronamento de 600 metros de falésia sobre as cabeças de quatro famosos, ouvindo-se sobre qualquer um destes casos, um velhote, se possível desdentado e, ainda melhor, se sangrar das gengivas, para se apresentar «a versão dos locais» ou «o outro lado».

Carlos Albino
Flagrante omissão: Faro orgulhar-se da geminação com Tânger, e não ter apoiado já, formal e oficialmente, a candidatura de Tânger à EXPO’ 2012, designadamente convidando o Wali de Tânger para uma apresentação da candidatura na capital algarvia.

quinta-feira, 8 de março de 2007

SMS 200. O Algarve precisa

8 Março 2007

A ACTA, Companhia de Teatro do Algarve, esteve em Lisboa com o seu espantoso Ricardo III e fiquei sem palavras - foi dos melhores momentos de teatro a que assisti, desde há muitos anos, na capital, digo-o sem favores e sem aquele clássico de dissimulação de que não sou capaz. Mas não é da ACTA que falarei hoje, isso fica para um momento que não tarda. Por hoje, em breves linhas, as impressões que me foram surgindo no pára-arranca do regresso a casa, entre o que ficou nos olhos com a disputa do poder personificada naquele Ricardo III, e irreprimíveis perguntas sobre o que o Algarve precisa vindas da intimidade instintiva, até porque, verdade seja dita, o Algarve está cheio daqueles Ricardos da metáfora política do teatro de Luís Vicente – Ricardos dos negócios, Ricardos do ensino, Ricardos dos serviços públicos, Ricardos da política, Ricardos do jornalismo, Ricardos da justiça, Ricardos eleitos, Ricardos nomeados, Ricardos de ricardos, até Ricardos promovidos uns por antiguidade outros por contágio. E o Algarve precisará destes Ricardos? Sem qualquer hesitação, não. E mal estaremos quando se tem a sensação aceite de que se precisa de Ricardos ou, melhor, de que apenas os Ricardos singram, sinal de que não há solidez de instituições, solidez de procedimentos e solidez de escrutínio. E é desta solidez que o Algarve precisa. Como podem verificar, não é de teatro que estamos a falar.

Carlos Albino

Flagrante contraste: As promessas políticas para o Algarve que são o ópio do povo, e o narcotráfico disso.

quinta-feira, 1 de março de 2007

SMS 199. Mas porque será que Conde Rodrigues quer estoirar com o Algarve?

1 Março 2007

Na semana passada, para aqui dissemos cobras e lagartos do Director Nacional Adjunto da Polícia Judiciária e máximo responsável pela Direcção Central de Combate ao Banditismo da PJ, Teófilo Santiago, por lhe ter sido atribuída (incorrecta e indevidamente, como se vai ver) a afirmação de que «o Algarve é alvo preferencial de um ataque do terrorismo islâmico em Portugal». O caso chegou a dar manchete em matutino espampanante mas credível nestas coisas, correu e, naturalmente, foi alvo de reparos. Deveras, a afirmação foi proferida, mas como sempre, nesta sociedade que desejávamos responsável, o autor do genial disparate não reivindicou a autoria, o que devia ter feito mas não fez – calou-se, baixou à trincheira do silêncio, por certo à espera que o barulho da guerra que provocou, acabasse. O visado errado que explique a sua inocência, terá pensado quem de facto disse aquilo com direitos de autor que não abonam a glória.

Ora, assim acabou por acontecer. Cercado pela crítica injusta, designadamente a nossa, o alto responsável da PJ, encurtou o caminho e com evidente polidez e resguardo, escreveu-nos isto mesmo:

      «Relativamente ao assunto em epígrafe, convém esclarecer que a afirmação seria de facto irresponsável se tivesse sido por mim proferida como se refere. Só que tal não aconteceu como, de resto, já foi manifestado ao jornal Correio da Manhã, ficando a aguardar a devida correcção. Aquela afirmação, ou algo parecido, terá sido expressa por alguém na cerimónia de encerramento da Conferência, sendo que o signatário já nem sequer se encontrava presente.

      Fica o esclarecimento.
      Cumprimentos.
      Teófilo Santiago

E foi um alívio! De há muito, tínhamos pessoalmente, mas com cultivada discrição, o maior apreço pelas qualidades profissionais e nível intelectual de Teófilo Santiago, tendo sido uma surpresa dolorosa quando vimos atribuído um dislate daqueles, não a um cidadão vulgar, mas ao Director Nacional Adjunto da PJ, para mais responsável pela luta contra aquilo por todas as pessoas probas e de bem lutam – o banditismo.


Então quem foi? È a pergunta.

Bem! Quanto a isso, o esclarecimento acabou por nos chegar por outra via, a de quem presenciou e organizou a conferência «Globalização, Segurança e Terrorismo». E o que ficámos a saber? Que «tal afirmação foi de facto feita na dita conferência, mas não pelo Dr.º Teófilo Santiago, mas sim pelo Senhor Secretário de Estado Adjunto da Justiça, Dr.º Conde Rodrigues», acrescentando-se, por outras palavras, que este governante terá chegado àquela conclusão pelo raciocínio analógico sobre o que se ocorreu em complexos turísticos no Egipto e na Indonésia e, mais recentemente, com a preparação detectada de um atentado numa estância de desportos de Inverno em Espanha.

Não nos vamos alongar. Mas não se resiste dizer com clareza que Conde Rodrigues teria sido mais sensato se, pela mesma linha do raciocínio analógico que é a última coisa que a cabeça perde, afirmasse que o Algarve, tanto quanto se avalia, é seguro e está fora do alvo do terrorismo fundamentalista islâmico por não possuir estações de metro como Londres, terminais ferroviários como Madrid, até mesmo torres gémeas como Nova Iorque, e, argumento máximo, pelo facto das populações pobres do interior não serem uns sunitas contra os chiitas de passagem do litoral.

Aquela afirmação, fica-se a saber, proferida por Conde Rodrigues é mais uma a comprovar a banalidade e irresponsabilidade do discurso político em Portugal, nos tempos que correm. Fez uma figura triste.

E é triste.

Carlos Albino

Flagrante contraste: Conde Rodrigues (acima, na foto), em algum dia encalorado, a comer calmamente salmonete grelhado na Ilha de Faro , e directores de hotéis, turistas, músicos da Orquestra do Algarve, actores da Acta, as Nagragadas e até as crianças da Emergência Infantil a fugirem dele, contando comigo, claro, nessa fuga.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

SMS 198. Mas porque será que Ben Laden quer estoirar com o Algarve?

Nota importante: Este apontamento motivou um esclarecimento por parte do Dr. Teófilo Santiago, aqui citado, e se publica em SMS 199 AQUI.

22 Fevereiro 2007

Ninguém acredita que Miguel Freitas, como líder do PS/Algarve, ande por aí a fazer caricaturas de Maomé; ou que Mendes Bota, em nome do PSD cá de baixo, tenha gravado um CD blasfemo, muito menos que Macário Correia tenha mandado alterar a letra do hino para versos anti-sarracenos. E não passa pela cabeça de ninguém que o bispo do Algarve tenha canonicamente decretado uma cruzada contra os mouros abortivos da costa. Ninguém também acredita e muito menos se recorda do exército do Algarve, que mal tem fardas e nem limpa-metais tem para o cornetim, ter participado em guerras contra o Islão, como não consta que alguma câmara algarvia se tenha recusado a ceder terrenos para campos de treino de talibãs, além de que é improvável que o governador civil António Pina tenha dado ordem de expulsão aos cônsules honorários de repúblicas islâmicas fundamentalistas ou recambiado para a Mauritânia a mão de obra clandestina que em vez de assentar tijolos andará por aí a cimentar corões nas paredes de cada um.

Apesar deste cenário pacífico, o director nacional adjunto da Polícia Judiciária, Teófilo Santiago, entendeu proclamar que o Algarve «é o alvo preferencial» de um ataque do terrorismo islâmico em Portugal – não «um alvo», mas «o alvo». Fora de brincadeiras, porque já estamos na Quaresma, a proclamação do responsável da Judiciária foi infeliz, inoportuna, desnecessária, imprudente, descabida, inconveniente, despropositada, insensata, imponderada, extravagante, leviana e passível de penitência.

A três meses da presidência portuguesa da UE, sem que haja indício de força maior, motivo aparente ou justificação razoável, obviamente que a proclamação de Teófilo Santiago de que o Algarve «é o alvo preferencial» de um ataque do terrorismo islâmico em Portugal, mesmo que a coisa tivesse ficado entre polícias, leva a perguntar a Miguel Freitas, a Mendes Bota, a Macário Correia, ao bispo do Algarve, aos comandantes das forças militares estacionadas no Algarve, a António Pina e aos 16 desarmados presidentes de câmaras: «O que é que vocês fizeram para que o Ben Laden queira estoirar com o Algarve?»

Carlos Albino

Flagrante contraste: Alexandre Alves e Alexandre Alves.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

SMS 197. O sismo e outros tremores

15 Fevereiro 2007

1. Não se entende, é que não se entende mesmo, como se chega a 2007 sem que haja um plano de emergência sísmico para o Algarve. Diz o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil que está a desenvolver «trabalhos relativos à caracterização do risco sísmico e de tsunamis para a região»… Ainda está a caracterizar o risco! Mas então o risco não é evidente, não está comprovado e não é previsível? Ainda é preciso caracterizar? Isto faz lembrar o helicóptero do Hospital de Faro.

2. O corte de 45 por cento nos fundos comunitários para o Algarve, aí está. E essa explicação do secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, Rui Baleiras, segundo o qual «se não tivesse havido negociação política a redução teria sido de 76 por cento» faz lembrar aquele homem que sentindo uma violenta e persistente dor de cabeça, deu uma fortíssima martelada no seu próprio crânio para que, com essa maior dor, deixasse de sentir a dor da causa real. E se Rui Baleiras deixasse de dar marteladas na cabeça dos algarvios, não seria mais sensato? Essa da «negociação política» ou é papas ou é bolos.

3. José Apolinário acaba de defender «uma maior celeridade» na criação da Região Administrativa do Algarve. Refere-se à celeridade do Governo em conceder tal dádiva, ou à celeridade da região em exigir e pressionar, organizando-se com maturidade política, assente num escol de políticos e recolocando credibilidade na Política?

Carlos Albino

Flagrante semelhança: entre o tal nefasto lema segundo o qual «Obedece e saberás mandar!», e o carreirismo político.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

SMS 196. Uma questão de alma

8 Fevereiro 2007

E vou ser claro: digo Sim, no dia 11, antes do dia 11 e depois do dia 11. E digo Sim para que se abra uma porta das poucas portas aceitáveis, senão a única, para que, sem equívocos e sem hipocrisias, se comece a acabar com o aborto clandestino e com as desmanchas, até que, algum dia, todos os que queiram ter um filho o tenham por gosto. É preciso tender para isso e fazer tudo para que esse dia chegue. A despenalização, o aconselhamento e a assistência são os três pilares indispensáveis para esse edifício moral de que a sociedade carece. Deixemo-nos de equívocos e de hipocrisias.

Por formação, a que não posso fugir, se há coisa que profundamente me toca é o mistério da vida que, além de me tocar, fascina-me precisamente por ser mistério, e, neste mistério, a questão da alma, da alma racional, da alma humana é ponto central. Quando e porque é que é essa alma racional começa a ter existência na evolução da espécie de corpo que temos, é a questão que a ciência escrutina e as religiões fazem por intuir, designadamente o cristianismo que nega o baptismo e proíbe exéquias eclesiásticas aos fetos abortivos mortos, nem sequer sob condição, e por maior força de razão, aos embriões inviáveis – isso está claro no direito canónico, no antigo e no que vigora desde 1983. E com isto, o cristianismo impede, no seu âmbito, que os embriões e fetos gorados tenham nome porque, nesse entendimento, não terão recebido aquela alma que nos distingue das plantas e dos animais – a alma humana. Felizmente que, nesta matéria, o cristianismo não pensa como o islamismo e como o hinduísmo, sendo chocante que alguns hipócritas, por uma questão política, não sendo a questão política, e por uma questão partidária, não se percebendo como é que os partidos se metem nisto depois de abdicarem do uso dos poderes de legislação, lavando as mãos e remetendo o caso a referendo popular, pois não se percebendo como é que alguns católicos têm sobre a origem da alma e o momento de haver alma humana, os mesmos argumentos dos islâmicos fundamentalistas. Sou agnóstico, mas se tivesse que ser assim, confesso, preferiria que fosse Deus a criar a alma humana como os católicos acreditam e não como os islâmicos impõem, tal como prefiro que seja a Mulher a escolher responsavelmente – e oxalá que todas escolhessem – que o embrião que eventualmente transportem, receba essa dádiva misteriosa, para alguns divina. Os machos hipócritas não têm legitimidade para criminalizar quem queira ter uma cumplicidade humana com um Deus civilizado que o fundamentalismo, qualquer fundamentalismo não oferece.

E por causa desta deriva, hoje não há flagrante contraste.

Carlos Albino