quinta-feira, 10 de maio de 2007

SMS 209. Não há oásis

10 Maio 2007

1. Coloquemos as questões nos devidos termos – o casal inglês tinha os seus filhos normalmente protegidos (vir para Lagos não é o mesmo que ir para Bagdad ou para a Amazónia entre cobras), a polícia agiu com prontidão, a colaboração da população revelou-se de imediato forte e apaixonada, e o retrato-robot é sempre um robot de retrato pelo que só por nacionalismo obtuso - defensivo ou ofensivo - é que alguém poderia garantir que o robot do robot tinha que, à partida, ser inglês e não poderia ser português… Não se pode orientar a sanha conforme a criança vítima se chame Madeleine ou Joana.

2. É defensável que se pense que o Algarve não é mais uma zona de segurança como se sentiu ter sido neste hiato mais recente da sua história - outrora, em largos períodos, não foi, pela actuação das piratarias de diversas procedências e das quais rapidamente se perdeu a memória e os vestígios, com longo historial de pilhagens, violações e tráfico de seres humanos. O mundo está a mudar para o bem e para o mal, e o Algarve também está a mudar nos seus paradigmas, não estando naturalmente imune às novas piratarias. Temos com insistência alertado para isto a fim de que responsáveis públicos não assobiem para o lado e as populações não enterrem a cabeça na areia quando o perigo bate à porta ou os sinais de perigo se tornam evidentes.

3. Ora quando se assobia para o lado ou se enterra a cabeça na areia, entra-se num estado geral de impunidade, valendo neste caso a verdade do velho rifão segundo o qual em terra de cegos o zarolho é rei, sabendo todos nós que o autêntico pirata, por definição, é zarolho e tanto melhor pirata será quanto mais eficazmente dissimular nas polícias, nos tribunais e junto das populações, o gancho que lhe substitui a mão.

4. Assim, contra a nova pirataria, contras as novas piratarias, não basta a «polícia de proximidade» para sossego dos cidadãos ao mesmo tempo que se reza a oração de que o «Algarve é seguro» como num terço com um glória ao poder de circunstância nos convenientes intervalos da recitação monocórdica. O que tem que voltar a haver, porque já houve isso no Algarve de forma natural e espontânea, é uma política de vizinhança, de firme estímulo e apoio sólido às relações de vizinhança. Um resort inglês explorado por um operador inglês e acolhendo ingleses do mercado turístico inglês, só por isto, não é um oásis mesmo que tenha segurança privativa inglesa e ainda que, por acaso, o pirata até seja inglês. Não há oásis para ingleses ao lado de oásis para clandestinos e de outros mais oásis para traficantes de droga, de seres humanos ou de capitais ilícitos, com o turismo a servir de pretexto que não é e de causa que também não é.

5. O turismo não pode ser pensado, como sempre foi, como um mundo aparte no Algarve. Madeleine e os pais são as mais recentes vítimas deste sistema inseguramente fechado e falsamente aberto. Não há que desculpabilizar os verdadeiros culpados – os raptores, e muito menos há que aceitar a impunidade que a segregação provocada por uma espécie de turismo colonial gera e impõe, mas do qual a pirataria, qualquer pirataria, gosta e se serve, quer se trate do Algarve, das Canárias ou de Marbella.

Carlos Albino

Flagrante interrogação: O que é que os municípios algarvios têm feito preventivamente para se travar os indícios da crescente delinquência juvenil associada ao insucesso escolar e ao desenraizamento social e cultural?

quinta-feira, 3 de maio de 2007

SMS 208. Quem mais se deve preparar, não é o Governo?

3 Maio 2007

Mal começou o movimento no sentido de novo referendo para a criação das regiões, o Governo não perdeu um segundo anunciando a intenção de descentralizar departamentos a fim de preparar a almejada regionalização. E com isso pediu tempo, remetendo para depois de 2009, pelo menos, qualquer veleidade política e mesmo assim sem garantias de que em 2009 o assunto não volte a ser remetido para 2014 até à ressurreição dos mortos. Ou seja, o Governo mesmo antes de saber qual o resultado do referendo, vai preparar a regionalização, e assim sendo, vai prepará-la como o Estado a quer e para o que o Estado a quer, como se a regionalização tivesse que ser uma outorga e mais não fosse que uma outorga, e cada região uma criança de menor idade. Ora, são as regiões que tem que se preparar ou devem ser preparadas para a regionalização, ou não será antes o Governo que deverá preparar-se? É de mau tom transformar-se a causa em efeito.

Claro que tudo o que seja desconcentração e descentralização são coisas bem-vindas numa lógica de regionalização que é a lógica da Constituição e a lógica de um regime democrático construído para aproximar os cidadãos da administração e não para os afastar. Todavia os laivos de desconcentração e de descentralização não têm sido portadores dessa lógica, antes pelo contrário têm servido um pouco por todo o País, para sustentar mordomias e distribuir empregos políticos não na lógica das regiões mas na lógica do poder central e das forças que o ocupam circunstancialmente. Daí que a pouca desconcentração e a tímida descentralização que tem acontecido tenha sido pretexto para nomeação de funcionários que nada ou pouco têm a ver com as regiões para onde são destacados às quais se adaptam como ilustres desconhecidos, mesmo em áreas politicamente pouco polémicas – as delegações regionais do Ministério da Cultura têm disto sido cabal exemplo, ora como sinecuras, ora como empregos políticos de impositivo empenho. Naturalmente que há, houve excepções, mas as excepções têm sido sol de pouca dura porque não interessam à lógica da central de mordomias, apenas se tendo salvado ao longo dos anos, de alguma forma, a figura do governador civil, mantida, por temor, numa zona de relativo equilíbrio político.

Sério, coisa séria seria para já o Governo comprometer-se, quanto antes e não à espera de 2009, a devolver às regiões ou a partilhar com sageza os poderes desconcentrados ou descentralizados colocando-os em mãos que as regiões aceitem e desejem, para isto não sendo critério absoluto o da naturalidade mas o do conhecimento dos interesses e a identificação com os anseios das regiões. E além disso, agilizando instituições já existentes para o escrutínio do exercício desses mesmos poderes e respectiva tutela. Seria bom que o Governo desse provas de querer preparar-se para a regionalização desta forma, e, para já, no Algarve que, como o mundo sabe, é um excelente sítio para quem não é algarvio ou com o Algarve não se identifique (mais isto), passar férias e fazer negócios…

Carlos Albino

Flagrante pergunta: O mar não vai subir no Algarve? Quanto subirá pela certa até 2050? Quem irá pagar os diques pelas asneiras de hoje?

quinta-feira, 26 de abril de 2007

SMS 207. Movimento cívico? Aderi.

26 Abril 2007

Anda o Estado, há um ror de anos, a prometer regiões administrativas por via daquilo que é mais sagrado num estado de direito – a Constituição. Há 33 anos que promete, a idade de Cristo, acabando sempre por crucificar a ideia, no alto de um monte, num perfeito entendimento entre os Pilatos do regime e os sacerdotes do poder central que nunca deixou de ser uma corporação do autoritarismo e, amiúde, do desdém pelo cidadão comum, passada a hora da captação do voto. E o pior é que a ideia tem sido sempre crucificada entre dois ladrões, o bom e o mau, sugerindo que se trata de uma ideia ladra. Ora, 33 anos, já é demais.

Num dia, afirmam uns centuriões que o povo não está preparado para a criação de regiões; no dia seguinte, para acalmar clientela, promete-se desconcentração cumprindo-se dela uns arremedos; e quando os arremedos são postos em causa, agita-se o caminho para a descentralização que, bem vistas as coisas, não tem passado de embustes burocráticos. Quando havia dinheiro, promoveu-se um referendo cujo resultado se antevia e cujos promotores no fundo desejavam, respirando de alívio com o adiamento das regiões para algum dia que, também no fundo, desejavam que fosse o de São Nunca à Tarde. Agora que não há, porque o dinheiro foi gasto por esses mesmos em tudo menos nas regiões ou para regiões, o argumento é outro mas a intenção é a mesma: crucificar a ideia.

Por estas e outras razões, aderi ao movimento cívico «Regiões, Sim». Naturalmente que não aderi a Mendes Bota, não se trata de aderir a pessoas mas aderir a uma ideia. Diria o mesmo se fosse Miguel Freitas a tomar o pulso. Não é por a iniciativa ter partido de Mendes Bota que, só por isso, haveria que diabolizar a ideia já de si tão crucificada - aderi ao movimento, o qual espero que se mantenha «cívico» e sem tutelas partidárias directas. Aderi porque julgo ter chegado o momento de se descriminalizar politicamente as regiões, e quando precisamente os centuriões de sempre se preparam para colocar sobre as regiões o carimbo acintoso do «regionalismo» apresentado, sem qualquer honestidade intelectual e moral, como doença infantil do regime democrático. É com carimbos destes que se crucificam as ideias que ponham em causa o Estado naquilo que ele tem de corporação autoritária avessa ao escrutínio dos cidadãos e sempre com dois ladrões à mão – o bom e o mau.

Carlos Albino

Flagrante sugestão: Ao autarca que foi a São Brás proferir uma conferência sobre «Como conquistar uma autarquia depois de uma derrota», ele ir preparando já outra conferência sobre como «Perder uma autarquia depois de uma vitória» …

quinta-feira, 19 de abril de 2007

SMS 206. Um pouco mais de humanidade…

19 Abril 2007

Por estes dias, andei a espreitar. Não levem a mal, mas andei a espreitar e a meter o nariz onde não sou chamado, onde, por assim dizer, está a vida privada ou até mesmo a intimidade – a vida privada dos imigrantes e a intimidade dos imigrantes, tanto quanto possível sem que estes dessem por mim. E observei situações inacreditáveis. Em centros de cidades, em casas degradadas, alugadas por montantes exorbitantes aqui a ucranianos, ali a romenos, mais além a moldavos, há quartos minúsculos com cinco e seis camas, cozinham à porta, amontoam-se sem condições humanas, sem qualquer qualidade de vida. Pelos campos em sítios esconsos ou já à berma de estradas, pior ainda: em perímetros sem urbanização possível, onde até há pouco estavam alfarrobeiras e amendoeiras, por aí se vêem contentores em cima uns dos outros, filas de contentores, verdadeiras aldeias de contentores onde, num ambiente concentracionário e de maus prenúncios, igualmente se amontoam ucranianos, romenos, moldavos, por vezes com africanos ou então apenas estes porque a amálgama desumana é a mãe da segregação e do apartheid. Clandestinos? Legais? Não vem para o caso. O que vem para ocaso é que esta situação tem que ser, deve ser escrutinada, embora dela não se fale – há interesses pelo meio, uns rasteiros por parte de gente que quer dinheirinho sejam quais forem os meios e métodos, outros mais elevados porque decorrem do perigoso jogo de investidores sem rosto ou alguns com ele mas igualmente perversos. Pois, por estes dias, por aí andei por ruas e ruas, por campos e campos, por amontoados e pardieiros escondidos. Não gostei do que vi e estou a interrogar-me se no Algarve há uma política de imigração, de acolhimento, de integração e de todas aquelas variáveis que devem desembocar num pouco de mais humanidade. Pelo que vi, não há, ou se há, a política parece que cruza os braços face a uma situação que só por milagre não vai resvalar para uma situação potencialmente explosiva.

Carlos Albino

Flagrante pergunta: E se, por acaso, mais ano menos ano, a avaliar as dívidas presentes, algum gigantesco aldeamento turístico redundar num gigantesco caso de Tróia, como será?

quinta-feira, 12 de abril de 2007

SMS 205. Não resisto a contar

12 Abril 2007

Metáfora do tempo que passa, não resisto a contar o que o Washington Post fez em Janeiro mas que só agora corre pelo mundo. O grande diário norte-americano lançou a seguinte questão: Passaria desapercebido um dos maiores violinistas do mundo tocando em plena hora de ponta no metropolitano de Washington? Vai daí, convenceu Joshua Bell, sem dúvida um dos prodigiosos e grandes violinistas da actualidade, a pegar no seu Stradivaruis avaliado em três milhões de dólares, para, trajado de vaqueiro, camisola de algodão e boné de basebol, tocar à entrada do metro, na L’Enfant Plaza, no centro político de Washington, solicitando moedas a quem passasse. Ninguém o reconheceu a executar Bach, e durante 43 minutos, das 1.070 pessoas que deram de caras com o célebre violinista, apenas 27 deixaram cair uma moedinhas de esmola, apenas 7 pararam para o ouvir mais de um minuto e no final da façanha, o que estava no fundo do boné, somava exactamente 32 dólares…

Que lição a tirar daqui? A de que a excelência, neste mundo que passa, apenas é reconhecida quando há fama e que apenas há fama quando a excelência é artificialmente colunável no seu lugar e como tal imposta. Em Faro, por exemplo, Joshua Bell, com o seu Sradivarius e as suas magistrais execuções de Bach, ali à beira da Doca, nem sete euros recolheria. Mas a Lili Caneças ou outra qualquer cara de capa, mesmo que, para além da fama sem excelência, pouca coisa saiba fazer ou alguma coisa tenha a dizer de útil e de válido, senhores e senhoras, na Rua de Santo António veria cair no seu boné, em apenas um quarto de hora que fosse, um montante 330 vezes superior ao que o próprio Joshua Bell recolheu no Metro de Washington.

Naturalmente que a metáfora chega à política, chegou à política: no Algarve, dão-se valentes esmolas à fama enquanto a excelência passa desapercebida. E tal como na Arte, mal vai a Política quando os Famosos que tudo fazem para terem mais fama sem excelência, substituem os Excelentes ali na Doca, a pedir esmola para a excelência de que o Algarve tanto carece.

Carlos Albino

Flagrante reserva: Sobre o que, juntando ao que sabia, fiquei a saber da questão de Vilamoura, de Jordan, da Praza, da Inframoura e da Câmara de Loulé, de me calarei até ir a Córdova e, no regresso se for possível, tirar a limpo algumas coisas com o BCP.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

SMS extra. "ESTADO do ALGARVE"

Ler ESTADO do ALGARVE
Blogue de informação e comentário sobre actualidade algarvia
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SMS 204. Por este lado, acabou

5 Abril 2007

Depois de seguir atentamente a audição parlamentar do majestático Manuel Pinho e de avaliar as prestações dos majestáticos deputados, nas matérias de turismo e de marcas, descansem que por este lado acabou. E acabou por este lado porque a sobranceria de Pinho, a subserviência dos apaniguados, e o tom belicosamente inconsistente da oposição em nada abonam os protagonistas.

Naturalmente que mantenho a crítica aqui feita à marca com uma abusiva brincadeirinha de palavra, de resto cópia não desmentida de outra brincadeirinha que até estava aparentemente falida mas ao nível do que servia e agora está à venda depois desta inesperada subida de cotação – Vejam no negócio que as brincadeirinhas dão num Algarve que já é cabo para toda a colher. Oxalá que esta brincadeirinha tenha sido a última, mas não foi a primeira, houve mais, como aquela da secretaria de estado em Faro muito ao género de como com papas e bolos se comem os tolos.

O politicamente sobranceiro Manuel Pinho é uma tristeza, como tristeza é ver a atroz e rastejante subserviência de deputados de uma maioria com os tiques de partido único (até já se auto-avaliam como colunistas roubando essa prerrogativa da avaliação que, numa democracia, compete à Imprensa livre e independente), e ainda tristeza é ver como a oposição é incapaz de consolidar argumentação com dignidade, serenidade e elevação. E como a sagesse de uns está para a sagesse dos outros, por este lado acabou.

Carlos Albino

Flagrante continuidade: As nomeações de filhos de amigos, compadres e cristas de galo para a grande escapatória de mordomias que é a das empresas municipais – lençol pequeno para ser tão esticado.

terça-feira, 3 de abril de 2007

SMS extra. A síntese final do holandês...

E aqui está a síntese final do holandês que colocou à venda o site http://www.allgarve.biz/ da marca copiada, tirando partido da questão, com mais L ou menos L:



Comentários? Basta recorrer à ensinança de La Fontaine segundo a qual "é um prazer dobrado enganar quem engana"... O dinheiro que Pinho pagou dá para comprar.

sábado, 31 de março de 2007

SMS extra. Obviamente, se não é plágio de ideia, o que é?

Marca da "campanha" de 2007, dada como original:


Marca do site http://www.allgarve.biz/ desde 2003:


Registe-se que, após estalar a polémica sobre o plágio da ideia, e apenas depois disto, foi introduzido no site o seguinte anúncio: «ALLgarve.biz is for sale... Interested? Put your offer on mail...here» É caso para se admitir que o copiador possa estar interessado no original...

quinta-feira, 29 de março de 2007

SMS 203. Falta-te o salto necessário

29 Março 2007

Meu caro Jornal do Algarve,

É inevitável que, na ocasião em que tu, Jornal do Algarve, perfazes 50 anos, eu fale da Imprensa algarvia, tal como hoje se apresenta e sobre que perspectivas tem. Entra pelos olhos, meu caro, que, de modo geral, os jornais, e por entre eles tu, melhoraram face ao que havia há escassos anos atrás – melhoraram no aspecto, nas equipas e nas intenções editoriais, embora impressos longe da região, velha pecha que os tolhe em muito na autonomia, na actualidade e na competitividade, e embora também a relutância à leitura seja a mesma de sempre porque a leitura de jornais continua confinada às bandeiras concelhias, tirando aqui, pondo ali ou pintando a manta.

Além disso, alguma boa dúzia de jornais corre com velocidade aparentemente sustentada em pelotão, como nas voltas iniciais das corridas longas em pista – de vez em quando lá há um que faz uma fuga para a frente, mas o pelotão absorve-o sobretudo quando a fuga é devida àquele doping que, paredes meias com a publicidade expressa ou disfarçada e em parcerias difusas, nada tem a ver com a Imprensa e com a verdade das empresas jornalísticas, por pequenas que sejam.

E é natural que, quando a corrida está na fase do pelotão, haja cotoveladas entre os competidores, possivelmente algumas rasteiras ou até mesmo derrubes de intencionalidade disfarçada, mas à parte tais episódios que ocorrem nas curvas, o pelotão lá vai rolando, com os mais afoitos e criativos a adaptarem-se ao on-line e ao virtual como instrumentos de dissimulação da enorme dependência noticiosa de que todos padecem e têm que padecer. Mas chegará o dia em que o salto se revele necessário e incontornável. Pois, então, que salte o melhor e o que tenha a independência como cultura de génese.

Mas porque te conheço desde há muito e porque privei com as várias gerações que te têm dirigido, ninguém me levará a mal se eu desejar que sejas tu, Jornal do Algarve, a saltares e a assumir que o território do papel que é o teu, desde que associado ao dos meios de comunicação instantânea (um sem o outro será uma eutanásia, para ti e para qualquer outro) seja o território que o Século XXI, mais que provavelmente, proclamará como insubstituível para se chamar os nomes às coisas. E o Algarve precisa desse salto, que deverá ser dado não com espertezas, mas com inteligência que é a única coisa à qual os leitores se rendem, deixando de ser relutantes.

Com cordialidade, parabéns, Jornal do Algarve, e não dês cotoveladas!

Carlos Albino


Flagrante coincidência: O ministro Manuel Pinho perguntar a ilustre personagem allgarvia – o teu banco não é meu?

quinta-feira, 22 de março de 2007

SMS 202. Os iletrados no poder

22 Março 2007

O ministro Manuel Pinho agrediu o Algarve e os Algarvios. O caso de Allgarve já se transformou num vasto anedotário nacional que ombreia, em êxito, com aquele velho chavão racista segundo o qual algarvios, marroquinos e cães de caça são todos da mesma raça, aliás acordou o chavão. E com essa agressão, segundo creio, colocou mal deputados socialistas e eleitos locais socialistas que, de modo geral, ficaram sem palavras, pois se viessem com palavras a favor dessa brincadeira de analfabetos e iletrados do marketing irresponsável, ficariam ainda mais mal colocados do que no silêncio em que se fecharam a sete copas. Ainda me recordo do humorístico barulho do PS quando se alterou a placa de Poço de Boliqueime para Fonte de Boliqueime (como sempre foi, de resto, pelo que aí sim deviam ter-se calado). Agora é pena que, perante este Allgarve de iletrados, se tenham fechado em copas, perdendo uma excelente oportunidade para provarem que não estão apenas em bons empregos políticos ou vivendo à sombra da política, mas sobretudo que estão em funções políticas com o sentido da responsabilidade.

Na verdade, eu não gostaria de ter de concordar tantas vezes seguidas com Mendes Bota, preferia concordar com Miguel Freitas, como Mendes Bota sabe. Mas tenho de concordar com Mendes Bota. E mais: agradecer. Mendes Bota, como deputado eleito pelos Algarvios fez o que tinha a fazer contra a apreciável aplicação dos dinheiros públicos numa campanha que vai desvirtuar o nome do Algarve em redor do mundo – mundo este onde o nome do Algarve não precisa de ajudas do ministro Pinho para ser conhecido, quando precisaria era das suas ajudas, como ministro da Economia, para se tornar numa Região melhor e com mais meios e instrumentos de desenvolvimento e progresso. Eu sei que aos marroquinos e aos cães de caça tanto faz que seja Algarve como Allgarve ou ainda Alarve. Mas aos Algarvios isso não é indiferente porque tem a ver com a nossa indesmentível identidade, com a nossa inquestionável sensibilidade e com a nossa legítima dignidade.

Mas o caso é mais grave porque, segundo parece, a ideia proclamada por Pinho teve o apoio de responsáveis da RTA. Gostaria de me enganar - a RTA não tem nenhuma legitimidade para se pronunciar sobre a alteração abusiva do nome histórico da Região para fins de eficácia duvidosa e com efeitos nefastos no que de nós fica na memória mundial, porque fica se a campanha não for de imediato cancelada, como se reclama, como se exige e como se torna imperativo antes que surja um movimento consolidado de repulsa. Não nos conformamos com iletrados no poder.

Aliás, não basta cancelar. O Governo e alguém da RTA têm que pedir desculpa e pedra sobre o assunto.
      Desculpe-me Luís Vicente, ainda não é desta que vou falar da ACTA e do seu magnífico Ricardo III, por razões óbvias. Os Ricardos III vivos, têm prioridade mesmo sobre um Ricardo III magistralmente representado.
Carlos Albino

Flagrante profecia: A previsão do secretário da Justiça, Conde Rodrigues, de que o Algarve é um alvo preferencial do terrorismo islâmico, cumpriu-se: o ministro Pinho bombardeou o secular nome do Algarve e fez estoirar a nossa paciência com a marca-armadilha da sua inteligência e espertezas conexas.

quinta-feira, 15 de março de 2007

SMS 201. Os tristes 50 anos da RTP

15 Março 2007

A RTP por aí anda num delírio diário a celebrar acriticamente 50 anos, como se tivesse sido um deus a quem todos e de joelhos devem agradecer o milagre de que se autoproclama. Todavia, mesmo esses 50 anos de vida mal aproveitada não são devidos a mérito próprio mas sim ao mérito do Orçamento do Estado e dos manietados contribuintes aos quais a RTP soberanamente desliga o botão quando o botão não interessa ao poder político do momento a que acaba sempre por se render, dissimulando a subserviência com muito, muito futebol, o mais possível Fátima, uns fados, overdoses de piroseira e de imposto provincianismo a começar pelo provincianismo do debate político tal como o proporciona no fervor dos actores secundários dos partidos que engravata como heróis maquilhados do centralismo.

No caso do Algarve, a RTP falhou e não há motivos para celebração. Pois o que foi a RTP ao longo de 50 anos no Algarve, o que é hoje a RTP no Algarve e o que se há-de esperar da RTP para os próximos anos? Pouco como RTP e nada como RTP/Algarve. Aliás, se a RTP se recorda do Algarve até tem sido mau sinal neste últimos 50 anos e é de crer que para os próximos 50 continue a ser mau sinal – ou é grande incêndio na serra, afogamento em massa no Arade, mais um presidente a jogar golfe na 125 ou o desmoronamento de 600 metros de falésia sobre as cabeças de quatro famosos, ouvindo-se sobre qualquer um destes casos, um velhote, se possível desdentado e, ainda melhor, se sangrar das gengivas, para se apresentar «a versão dos locais» ou «o outro lado».

Carlos Albino
Flagrante omissão: Faro orgulhar-se da geminação com Tânger, e não ter apoiado já, formal e oficialmente, a candidatura de Tânger à EXPO’ 2012, designadamente convidando o Wali de Tânger para uma apresentação da candidatura na capital algarvia.

quinta-feira, 8 de março de 2007

SMS 200. O Algarve precisa

8 Março 2007

A ACTA, Companhia de Teatro do Algarve, esteve em Lisboa com o seu espantoso Ricardo III e fiquei sem palavras - foi dos melhores momentos de teatro a que assisti, desde há muitos anos, na capital, digo-o sem favores e sem aquele clássico de dissimulação de que não sou capaz. Mas não é da ACTA que falarei hoje, isso fica para um momento que não tarda. Por hoje, em breves linhas, as impressões que me foram surgindo no pára-arranca do regresso a casa, entre o que ficou nos olhos com a disputa do poder personificada naquele Ricardo III, e irreprimíveis perguntas sobre o que o Algarve precisa vindas da intimidade instintiva, até porque, verdade seja dita, o Algarve está cheio daqueles Ricardos da metáfora política do teatro de Luís Vicente – Ricardos dos negócios, Ricardos do ensino, Ricardos dos serviços públicos, Ricardos da política, Ricardos do jornalismo, Ricardos da justiça, Ricardos eleitos, Ricardos nomeados, Ricardos de ricardos, até Ricardos promovidos uns por antiguidade outros por contágio. E o Algarve precisará destes Ricardos? Sem qualquer hesitação, não. E mal estaremos quando se tem a sensação aceite de que se precisa de Ricardos ou, melhor, de que apenas os Ricardos singram, sinal de que não há solidez de instituições, solidez de procedimentos e solidez de escrutínio. E é desta solidez que o Algarve precisa. Como podem verificar, não é de teatro que estamos a falar.

Carlos Albino

Flagrante contraste: As promessas políticas para o Algarve que são o ópio do povo, e o narcotráfico disso.

quinta-feira, 1 de março de 2007

SMS 199. Mas porque será que Conde Rodrigues quer estoirar com o Algarve?

1 Março 2007

Na semana passada, para aqui dissemos cobras e lagartos do Director Nacional Adjunto da Polícia Judiciária e máximo responsável pela Direcção Central de Combate ao Banditismo da PJ, Teófilo Santiago, por lhe ter sido atribuída (incorrecta e indevidamente, como se vai ver) a afirmação de que «o Algarve é alvo preferencial de um ataque do terrorismo islâmico em Portugal». O caso chegou a dar manchete em matutino espampanante mas credível nestas coisas, correu e, naturalmente, foi alvo de reparos. Deveras, a afirmação foi proferida, mas como sempre, nesta sociedade que desejávamos responsável, o autor do genial disparate não reivindicou a autoria, o que devia ter feito mas não fez – calou-se, baixou à trincheira do silêncio, por certo à espera que o barulho da guerra que provocou, acabasse. O visado errado que explique a sua inocência, terá pensado quem de facto disse aquilo com direitos de autor que não abonam a glória.

Ora, assim acabou por acontecer. Cercado pela crítica injusta, designadamente a nossa, o alto responsável da PJ, encurtou o caminho e com evidente polidez e resguardo, escreveu-nos isto mesmo:

      «Relativamente ao assunto em epígrafe, convém esclarecer que a afirmação seria de facto irresponsável se tivesse sido por mim proferida como se refere. Só que tal não aconteceu como, de resto, já foi manifestado ao jornal Correio da Manhã, ficando a aguardar a devida correcção. Aquela afirmação, ou algo parecido, terá sido expressa por alguém na cerimónia de encerramento da Conferência, sendo que o signatário já nem sequer se encontrava presente.

      Fica o esclarecimento.
      Cumprimentos.
      Teófilo Santiago

E foi um alívio! De há muito, tínhamos pessoalmente, mas com cultivada discrição, o maior apreço pelas qualidades profissionais e nível intelectual de Teófilo Santiago, tendo sido uma surpresa dolorosa quando vimos atribuído um dislate daqueles, não a um cidadão vulgar, mas ao Director Nacional Adjunto da PJ, para mais responsável pela luta contra aquilo por todas as pessoas probas e de bem lutam – o banditismo.


Então quem foi? È a pergunta.

Bem! Quanto a isso, o esclarecimento acabou por nos chegar por outra via, a de quem presenciou e organizou a conferência «Globalização, Segurança e Terrorismo». E o que ficámos a saber? Que «tal afirmação foi de facto feita na dita conferência, mas não pelo Dr.º Teófilo Santiago, mas sim pelo Senhor Secretário de Estado Adjunto da Justiça, Dr.º Conde Rodrigues», acrescentando-se, por outras palavras, que este governante terá chegado àquela conclusão pelo raciocínio analógico sobre o que se ocorreu em complexos turísticos no Egipto e na Indonésia e, mais recentemente, com a preparação detectada de um atentado numa estância de desportos de Inverno em Espanha.

Não nos vamos alongar. Mas não se resiste dizer com clareza que Conde Rodrigues teria sido mais sensato se, pela mesma linha do raciocínio analógico que é a última coisa que a cabeça perde, afirmasse que o Algarve, tanto quanto se avalia, é seguro e está fora do alvo do terrorismo fundamentalista islâmico por não possuir estações de metro como Londres, terminais ferroviários como Madrid, até mesmo torres gémeas como Nova Iorque, e, argumento máximo, pelo facto das populações pobres do interior não serem uns sunitas contra os chiitas de passagem do litoral.

Aquela afirmação, fica-se a saber, proferida por Conde Rodrigues é mais uma a comprovar a banalidade e irresponsabilidade do discurso político em Portugal, nos tempos que correm. Fez uma figura triste.

E é triste.

Carlos Albino

Flagrante contraste: Conde Rodrigues (acima, na foto), em algum dia encalorado, a comer calmamente salmonete grelhado na Ilha de Faro , e directores de hotéis, turistas, músicos da Orquestra do Algarve, actores da Acta, as Nagragadas e até as crianças da Emergência Infantil a fugirem dele, contando comigo, claro, nessa fuga.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

SMS 198. Mas porque será que Ben Laden quer estoirar com o Algarve?

Nota importante: Este apontamento motivou um esclarecimento por parte do Dr. Teófilo Santiago, aqui citado, e se publica em SMS 199 AQUI.

22 Fevereiro 2007

Ninguém acredita que Miguel Freitas, como líder do PS/Algarve, ande por aí a fazer caricaturas de Maomé; ou que Mendes Bota, em nome do PSD cá de baixo, tenha gravado um CD blasfemo, muito menos que Macário Correia tenha mandado alterar a letra do hino para versos anti-sarracenos. E não passa pela cabeça de ninguém que o bispo do Algarve tenha canonicamente decretado uma cruzada contra os mouros abortivos da costa. Ninguém também acredita e muito menos se recorda do exército do Algarve, que mal tem fardas e nem limpa-metais tem para o cornetim, ter participado em guerras contra o Islão, como não consta que alguma câmara algarvia se tenha recusado a ceder terrenos para campos de treino de talibãs, além de que é improvável que o governador civil António Pina tenha dado ordem de expulsão aos cônsules honorários de repúblicas islâmicas fundamentalistas ou recambiado para a Mauritânia a mão de obra clandestina que em vez de assentar tijolos andará por aí a cimentar corões nas paredes de cada um.

Apesar deste cenário pacífico, o director nacional adjunto da Polícia Judiciária, Teófilo Santiago, entendeu proclamar que o Algarve «é o alvo preferencial» de um ataque do terrorismo islâmico em Portugal – não «um alvo», mas «o alvo». Fora de brincadeiras, porque já estamos na Quaresma, a proclamação do responsável da Judiciária foi infeliz, inoportuna, desnecessária, imprudente, descabida, inconveniente, despropositada, insensata, imponderada, extravagante, leviana e passível de penitência.

A três meses da presidência portuguesa da UE, sem que haja indício de força maior, motivo aparente ou justificação razoável, obviamente que a proclamação de Teófilo Santiago de que o Algarve «é o alvo preferencial» de um ataque do terrorismo islâmico em Portugal, mesmo que a coisa tivesse ficado entre polícias, leva a perguntar a Miguel Freitas, a Mendes Bota, a Macário Correia, ao bispo do Algarve, aos comandantes das forças militares estacionadas no Algarve, a António Pina e aos 16 desarmados presidentes de câmaras: «O que é que vocês fizeram para que o Ben Laden queira estoirar com o Algarve?»

Carlos Albino

Flagrante contraste: Alexandre Alves e Alexandre Alves.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

SMS 197. O sismo e outros tremores

15 Fevereiro 2007

1. Não se entende, é que não se entende mesmo, como se chega a 2007 sem que haja um plano de emergência sísmico para o Algarve. Diz o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil que está a desenvolver «trabalhos relativos à caracterização do risco sísmico e de tsunamis para a região»… Ainda está a caracterizar o risco! Mas então o risco não é evidente, não está comprovado e não é previsível? Ainda é preciso caracterizar? Isto faz lembrar o helicóptero do Hospital de Faro.

2. O corte de 45 por cento nos fundos comunitários para o Algarve, aí está. E essa explicação do secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, Rui Baleiras, segundo o qual «se não tivesse havido negociação política a redução teria sido de 76 por cento» faz lembrar aquele homem que sentindo uma violenta e persistente dor de cabeça, deu uma fortíssima martelada no seu próprio crânio para que, com essa maior dor, deixasse de sentir a dor da causa real. E se Rui Baleiras deixasse de dar marteladas na cabeça dos algarvios, não seria mais sensato? Essa da «negociação política» ou é papas ou é bolos.

3. José Apolinário acaba de defender «uma maior celeridade» na criação da Região Administrativa do Algarve. Refere-se à celeridade do Governo em conceder tal dádiva, ou à celeridade da região em exigir e pressionar, organizando-se com maturidade política, assente num escol de políticos e recolocando credibilidade na Política?

Carlos Albino

Flagrante semelhança: entre o tal nefasto lema segundo o qual «Obedece e saberás mandar!», e o carreirismo político.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

SMS 196. Uma questão de alma

8 Fevereiro 2007

E vou ser claro: digo Sim, no dia 11, antes do dia 11 e depois do dia 11. E digo Sim para que se abra uma porta das poucas portas aceitáveis, senão a única, para que, sem equívocos e sem hipocrisias, se comece a acabar com o aborto clandestino e com as desmanchas, até que, algum dia, todos os que queiram ter um filho o tenham por gosto. É preciso tender para isso e fazer tudo para que esse dia chegue. A despenalização, o aconselhamento e a assistência são os três pilares indispensáveis para esse edifício moral de que a sociedade carece. Deixemo-nos de equívocos e de hipocrisias.

Por formação, a que não posso fugir, se há coisa que profundamente me toca é o mistério da vida que, além de me tocar, fascina-me precisamente por ser mistério, e, neste mistério, a questão da alma, da alma racional, da alma humana é ponto central. Quando e porque é que é essa alma racional começa a ter existência na evolução da espécie de corpo que temos, é a questão que a ciência escrutina e as religiões fazem por intuir, designadamente o cristianismo que nega o baptismo e proíbe exéquias eclesiásticas aos fetos abortivos mortos, nem sequer sob condição, e por maior força de razão, aos embriões inviáveis – isso está claro no direito canónico, no antigo e no que vigora desde 1983. E com isto, o cristianismo impede, no seu âmbito, que os embriões e fetos gorados tenham nome porque, nesse entendimento, não terão recebido aquela alma que nos distingue das plantas e dos animais – a alma humana. Felizmente que, nesta matéria, o cristianismo não pensa como o islamismo e como o hinduísmo, sendo chocante que alguns hipócritas, por uma questão política, não sendo a questão política, e por uma questão partidária, não se percebendo como é que os partidos se metem nisto depois de abdicarem do uso dos poderes de legislação, lavando as mãos e remetendo o caso a referendo popular, pois não se percebendo como é que alguns católicos têm sobre a origem da alma e o momento de haver alma humana, os mesmos argumentos dos islâmicos fundamentalistas. Sou agnóstico, mas se tivesse que ser assim, confesso, preferiria que fosse Deus a criar a alma humana como os católicos acreditam e não como os islâmicos impõem, tal como prefiro que seja a Mulher a escolher responsavelmente – e oxalá que todas escolhessem – que o embrião que eventualmente transportem, receba essa dádiva misteriosa, para alguns divina. Os machos hipócritas não têm legitimidade para criminalizar quem queira ter uma cumplicidade humana com um Deus civilizado que o fundamentalismo, qualquer fundamentalismo não oferece.

E por causa desta deriva, hoje não há flagrante contraste.

Carlos Albino

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

SMS 195. Fechar o Consulado de Sevilha, é não perceber o Sul do País

(Edifício do Estado)


1 Fevereiro 2007

Naturalmente que não posso estar de acordo com o facto do Consulado de Sevilha, posto de carreira, volta e meia, servir de sinecura ou de refúgio a diplomatas portugueses sem brilho, sem golpe de asa, com passado profissionalmente controverso ou até pela conveniente proximidade de informal residência no Alentejo. Volta e meia acontece isso. Mas uma coisa é acabar com essa apatia ou estagnação do consulado que se limita a fazer o que por obrigação tem a fazer e não mais, e outra é encerrá-lo, erradicando-o do mapa consular português como extensão da Administração do Estado, mais grave, como braço do que devia ser estratégia do Estado. O Embaixador de Portugal em Madrid, Morais Cabral, tem carradas de razão ao insurgir-se contra esse critério, e carradas de razão tem o deputado Mendes Bota ao considerar que isso «é um colossal erro estratégico». Mas lamento que as chamadas «forças vivas» do Algarve não percebam que assim é, juntando-se a este mal, o mal de Lisboa em, mais uma vez, não perceber o Sul do País. Em tempo e muito antes de tais reparos, disse isto mesmo ao secretário de Estado António Braga e não retiro uma palavra.

A argumentação de Mendes Bota quanto ao intenso movimento do consulado, ao facto das receitas serem cinco vezes superiores aos custos de funcionamento e o edifício custar zero ao Estado – edifício valioso patrimonialmente e em imagem - , é válida, mas o valor estratégico desse consulado supera ou deveria superar em muito esses considerandos. O Consulado de Sevilha devia ser de facto um posto avançado dos interesses do Estado na Andaluzia, e, nesses interesses, os do Algarve contam com peso, conta e medida, o que, obviamente, nada tem a ver com sinecuras de diplomatas alentejanos ou com quintas no Alentejo. Sevilha é um ponto estratégico para o Algarve e o fecho desse consulado vai contribuir para o cerco do Algarve, para cavar mais o fosso da dependência que fragiliza o Algarve e em nada aproveita o País – apenas o prejudica também.

Fechar o Consulado de Portugal em Sevilha equivale a dinamitar a Ponte do Guadiana, salvas as devidas proporções e engenhos, tal como manter o consulado na mera rotina da prática dos actos consulares e na estéril tradição dos mangas de alpaca é o mesmo que voltar as costas à Ponte de Alcoutim, como foram voltadas. Como é que o erro pode ser evitado ou emendado, não sei. Mas que é erro, é. E grande.

Carlos Albino

Flagrante contraste: Os avisos da Universidade do Algarve sobre o inevitável avanço do mar e alguns PIN que são autênticos abortos e cuja interrupção voluntária da gravidez deveria ser imposta, a bem da mãe terra, do pai mar e dos afilhados da política. Mas não digam isto a Fernando Santos que é para a gente ver o que nasce.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

SMS 194. Um bem inestimável

Esclarecimento (29/Janeiro) . A publicação deste apontamento na edição semanal do Jornal do Algarve com a habitual afixação nesta página, suscitou reparos por parte de bom número de leitores, de que estaríamos a rubricar a campanha em que Luís Villas-Boas se empenhou para o referendo do dia 11 de Fevereiro, porquanto é mandatário de um movimento que pugna pelo «não». Todavia, tal como Villas-Boas fez questão em esclarecer que a sua intervenção nessa pugna não vincula a sua qualidade de responsável pela Emergência Infantil mas tão só «a de cidadão», igualmente este apontamento se circunscreve ao papel que, até agora, ele tem desempenhado no Refúgio Aboim Ascensão e não mais. Naturalmente que não nos revemos na argumentação de Villas-Boas face ao referendo, e oxalá que a posição liderante «do cidadão», por ser liderante, não prejudique a imagem de confiança institucional que se tem depositado no carisma da Emergência.

Carlos Albino



25 Janeiro 2007

Quem viu nascer naquilo que era um pardieiro de Faro, um mundo em que a criança desvalida, abandonada e tantas vezes recolhida no lixo é rei, tem que indeclinavelmente fazer a pergunta – quem sonhou isto, quem fez isto? Teimoso como todos os visionários e inquieto como todos os humanistas de rasgo, Luís Villas-Boas deu esta semana prova cabal, perante todo o País, que não apenas a sua obra mas ele próprio, é um bem inestimável de Faro e do Algarve. É um bem de Faro porque, numa capital a que Apolinário acrescentou sem grande espalhafato o epíteto, e julgo que obra ou projecto de cidade solidária, Luís Villas-Boas ergueu um verdadeiro monumento do afecto em coerência com a sua firme convicção de que a democracia dos afectos salva regimes que parecem perdidos – perdidos pela forma como o egoísmo, a prepotência e a vaidade do poder volta a assaltar o Estado faltando apenas, para que a demolição seja perfeita, uma polícia de opinião. E é um bem do Algarve porque, ele espalhou pelo mundo e com continuado direito a assento em fóruns internacionais, a imagem mais digna e mais nobre que uma região pode exibir – a de modelo na protecção da criança. O pardieiro onde Luís Villas-Boas conseguiu isto, tinha – todos nos recordamos - a cor da ferrugem, uma cor de óxido de ferro semelhante ao que as prisões mais tenebrosas costumam ganhar com os anos. Hoje, o magnífico Monumento do Afecto que Faro possui tem a cor de rosa rainha e qualquer um de nós, porque no fundo temos todos um pouco de criança perdida, se lá entramos, sentimo-nos bem – essa criança perdida que existe no nosso fundo ainda que não sintamos, sente-se bem ao lado de todas aquelas crianças perdidas e por entre as quais Luís Villas-Boas parece ser a única que se achou. É um bem inestimável.

Carlos Albino

Flagrante contraste: As mulheres que, ao longo de séculos, foram supliciadas e mandadas queimar vivas pela Inquisição Católica (nomeadamente algarvias, há um trabalho notável de Graça Ventura descrevendo casos destes) e a falta de memória dos que por obrigação deviam ter moral e peso na consciência, tendo em conta o 11 de Fevereiro.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

SMS 193. Obrigado, Orquestra!



18 Janeiro 2007

Muito se riu Sousa Cintra quando me ouviu dizer a Mendes Bota que estava perdoado de todos os pecados pela sua iniciativa de propor ao Presidente da Assembleia da República o Concerto do Ano Novo com a Orquestra do Algarve. E o caso não era para menos. A Orquestra do Algarve surpreendeu quem, na Sala do Senado, nada percebesse de música ou desta tudo perceba ou julgue perceber. E surpreendeu pelo programa, pela execução e, sobretudo, pela dignidade, discrição e seriedade artística (sim, porque na Arte a seriedade é fundamental). Diga-se, sem qualquer favor, que as Quatro Estações do jovem compositor Cristóvão Silva , em estreia absoluta, foi uma dádiva caída do céu.

Mais se diga que o clarinete de Fausto Corneo e este mesmo que deixa em dúvida se é uma entrega total ou se é uma imolação sacrificial ao instrumento, fascinou e encheu o Senado de humanidade – não por Weber, mas por ele, Fausto Corneo. E na sinfonia N.º 2 de Schubert, não foi só a Orquestra, foi com esta ou por ela, sem dúvida o maestro Cesário Costa que se revelou em força, em sensibilidade e em vivência, naquele rastro indelével que Álvaro Cassuto construiu a partir do zero. Como é que Mendes Bota não haveria de ficar ali perdoado de todos os seus pecados?

Obrigado, Orquestra do Algarve, porque mostraste o teu valor e forçaste-me a dizer a Mota Amaral que «os Açores têm a autonomia que o Algarve não tem mas não têm Orquestra», ao que ele, risonho, respondeu - «Lá chegaremos!» com réplica minha «Também lá chegaremos à autonomia, se os políticos algarvios solfejarem melhor...»

Moral da história: Mendes Bota, desta vez, solfejou bem. Que é o que tem faltado a Macário, na matéria musical...

Carlos Albino

Flagrante contraste: O que o Ministro António Costa diz (ou gosta que digam por ele) e a situação arrepiante dos meios, esquema e condições da segurança no Algarve.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

SMS 192. Prémio SMS de Jornalismo: João Prudêncio

11 Janeiro 2007

E mais uma vez, no dia dedicado aos Magos, a decisão tornou-se inapelável: o Prémio SMS de Jornalismo 2006 foi atribuído ao Jornalista João Prudêncio, responsável pelos serviços noticiosos da Agência Lusa no Algarve. Ponderado, criativo, intelectualmente inquieto e incapaz de vender a alma por qualquer dessas mordomias caladas que minam como cancro a comunicação social, João Prudêncio é um jornalista de fibra, acutilante, e fez-se algarvio por opção porque o algarvio não nasce, faz-se quando o quer ser – muitos nascem isso mas desfazem o que com eles parecia ter nascido. Além disso, com a atribuição deste prémio ao Jornalista João Prudêncio sugere-se também um reconhecimento aos serviços noticiosos regionais da Agência Lusa, quer os serviços de texto quer os de reportagem fotográfica. Na verdade, alguém que saiba a sério e não a brincar fazer um jornal, mesmo que estivesse na Antárctica, isolado naqueles catorze milhões de quilómetros quadrados que rodeiam o Pólo Sul, apenas com a Lusa faria um jornal de distribuição gratuita para os pinguins, e sem Lusa os pinguins tornar-se-iam relutantes à leitura e possivelmente mais iliteratos do que são e mais longe dos acontecimentos ao pé da porta do que deveras estão. Mas, aparte este pormenor que gela a alma, a honra e a homenagem vai para João Prudêncio que se tornou num jornalista de fibra.

João Prudêncio junta-se assim a Carlos Branco (2006) e a Idálio Revez (2005) na lista de premiados, que não é muito grande mas já comporá melhor a mesa para um confirmado almoço com o Governador Civil de Faro, António Pina, havendo justificadamente lugar para o Presidente da Câmara de Faro, José Apolinário, e para o Reitor da Universidade do Algarve, João Guerreiro, sendo a comida apenas um mero intervalo - o importante será debater-se a situação do jornalismo profissional no Algarve que continua a não ser brilhante.

Carlos Albino

Flagrante contraste: Jornais fecharem ou na corda bamba no pavor do fim do porte pago e a arte do dinheiro que faz proliferar os jornais de distribuição gratuita ou que ainda têm preçário para enganar a vista.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

SMS 191. Comboios feios, porcos e maus

4 Janeiro 2007

Inacreditável esta CP. E inacreditáveis estes comboios feios, porcos e maus. Fui levar um familiar à Estação de Loulé que, para já, não é um modelo de asseio e muito menos de cuidado apesar de se situar no coração turístico de excelência (Vilamoura, Vale do Lobo e, enfim, Quinta do Lago) – uma oliveira para ali deixou cair no chão os frutos a que Deus a obriga e a CP nem uma vassoura possui para limpar aquela modorra, e os galhos de uma velha amendoeira também espreitam à altura da cabeça um candidato ao serviço se urgências. Mas lá chegou o comboio, um pendular. O meu familiar entrou para a carruagem e por mais que me esforçasse não conseguia vislumbrá-lo pelos vidros que, numa primeira impressão pareciam fumados, mas numa segunda impressão logo vi que não tinham esse luxo – era pura e simplesmente porcaria acumulada, e de tal forma porcaria, que dava para observar qualquer eclipse do sol. Tentei limpar com um lenço de papel o suficiente para fazer adeus, e o papel, num único raspão, ficou tão preto como se tivesse apanhado fuligem de chaminé. Procurei o funcionário da estação, apresentei-lhe a amostra, falei da oliveira e do perigo da amendoeira e, ele, mecanicamente solícito, entregou-me logo um impresso de reclamações, como se o impresso limpasse e a reclamação fosse varrer e cuidar da estação. Posteriormente voltei à estação por duas vezes apenas para verificar o que aconteceria com outros comboios, não tivesse eu tido o azar de encontrar uma excepção – mas não, era sempre a mesma porcaria do pendular que lá seguia viagem com o azul, com o intercidades, com a CP feia, porca e má. Nos tempos do carvão e do diesel, enfim, compreender-se-ia um descuido. Agora não – a CP não tem desculpa. Inacreditável.

Carlos Albino

Flagrante contraste: A Orquestra do Algarve e uma Orquestra no Algarve a provocar saudades, grandes saudades do maestro Álvaro Cassuto.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

SMS 190. Apenas 12 coisas das 287 que ajudam a justificar a vida

28 Dezembro 2006

Bem contadas, há 287 coisas simples que apenas poderei fazer ou encontrar no Algarve como um dos lugares do mundo que justificam a vida, mas por ora destaco apenas 12:

1 – Dar uma volta completa à Doca de Faro, quando a maré está cheia.
2 – Oferecer aos amigos uns bolinhos de amêndoa da Ti Marquinhas de São Brás.
3 – Beber um copo de vinho da Nave do Barão que vale mais que 100 verdades.
4 – Subir e descer as ruelas de Ferragudo.
5 – Parar frente ao mar de Quarteira que é o único livro de água que a Terra tem.
6 – Aqueles mariscos de Olhão.
7 – Sentar-me, recolhido comigo mesmo, na Sé de Silves.
8 – Fazer um pedido à Mãe Soberana, mesmo sem acreditar.
9 – Armar um presépio com pedras da Ribeira da Tôr.
10 – Sentir de perto séculos, possivelmente milénios, pondo-me a pensar perante o grande relógio solar de Sagres.
11 – Uma ida e volta pela ponte de madeira da Quinta do Lago rente às águas da Ria Formosa.
12 – Andar ao acaso pelos caminhos rurais de Alcoutim e sentir a noção de paz.

Carlos Albino

Flagrante contraste: Uma ceia de Natal, e, logo nas segunda-feira, uma funcionária de hiper-mercado, confidenciar-me que, no dia 23, alguém tinha ido lá comer uma lata de comida de gato.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

SMS 189. Macário começou pelo telhado

21 Dezembro 2006

Para nada serviram reparos e observações feitas com enorme cortesia – Macário levou até ao fim a sua ideia de um hino com letra saída de um concurso público e música de encomenda, o que não está em causa no que politicamente importa. O que está em causa é, mais uma vez, começar-se a obra pelo telhado – um hino, mesmo que a letra seja mais genial do que o samba numa nota só, e, glosando o outro, esteja a cantoria para a consciência colectiva assim como a música clássica está para a música militar, um hino não gera símbolos, ele tem que ser antes de tudo um símbolo, o símbolo, tem que possuir uma carga simbólica que não se obtém por decreto, muito menos por concurso público e jamais por teimosia política. Por outras palavras, é o símbolo que gera o hino e não o contrário, mas Macário, à falta de um discurso político galvanizador, distanciado e sobretudo sábio, insistiu, e, quanto a isto, Apolinário tem toda a razão ao classificar a iniciativa do hino como uma acção «forçada» e «inconsequente». E disse pouco, porque a iniciativa pisa o risco do provincianismo e do ridículo. Pisa o risco, não – um hino do Algarve, tal como Algarve está e é, sem alicerces de Região e sem pedra angular que legitime alguma autonomia, é uma manifestação de ridículo provincianismo. Claro que todo o provincianismo é inofensivo, mas torna-se ridículo quando insiste em começar a obra pelo telhado. Para brincadeira, bastou o MIA, que até teve piada.

Carlos Albino

Flagrante contraste: Tanta e tão rica inteligência

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

SMS 188. Um personagem e um intérprete

14 Dezembro 2006

Quer se queira ou não, ou por mais que alguns desejem outra coisa, o Algarve político está praticamente reduzido ao PS e ao PSD, porquanto o PCP é um colectivo de marcar presença com a honra de alguns bons argumentos gerais, o CDS, após uns fogachos de enriquecimento eleitoral sem justa causa, deixou oxidar a prata da casa, e quanto ao Bloco, este parece que bloqueou. Mas, além do Algarve político estar reduzido ao PS e ao PSD, acontece que o PS, proporcional e convenientemente, reduzido está ao nome de Miguel Freitas com tudo o mais acomodado, e o PSD, cabalmente com os resultados da reeleição, é sinónimo de Mendes Bota com o resto entre parênteses. Todavia, a personagem do PS instalou-se em Bruxelas, e o intérprete do PSD acabou de afirmar que já comeu «o pão que o diabo amassou» mas que está «em plena travessia de um deserto eleitoral», o que vai dar na mesma.

Nas bancadas parlamentares, os deputados algarvios ficaram-se pela ponte de Alcoutim que não existe e a que ninguém do poder de Lisboa ligou; a Associação de Municípios não perdeu, e está longe de perder, o ar de grémio ou de refém das cortesias políticas; a Junta Metropolitana tem letra mas não tem música – foi outro engano, traumático engano; as delegações regionais de ministérios estão confortavelmente sentadas (algumas ducalmente, eximindo-se ao escrutínio público) nos sofás da maioria absoluta, e a única instituição restante das veleidades da regionalização, a RTA, vai ser convertida em agência, como já era.

E pelas bandas da intervenção cívica não partidária, a tal sociedade civil, não há nada politicamente de relevo, até porque os ecologistas já encontraram todos os linces e todos os bufos reais. Essa sociedade civil troca o jeep pelo último modelo, decide tecnicamente pelos presidentes de câmaras, vende moradias, algumas excepções por bom tom fazem-se amigas do Teatro das Figuras, e, claro, amassam o pão em nome do diabo, telefonam para Bruxelas e fazem de alegres dromedários nesta estafante mas também divertida travessia .

Ou seja: o Algarve tem todas as condições para que um populista manhoso ou um manhoso que não abra a boca, tenham êxito. Obrigado, oh Democracia que nos desenvolveste até este ponto!

Carlos Albino

Flagrante contraste: Com os que se perfilam para a Agência de Turismo do Algarve e com tanta falta que isso faz, não haver um referendo sobre a Interrupção Voluntária da Sensatez.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

SMS 187. Silves. Quem diria!

7 Dezembro 2006

António Carneiro Jacinto assumiu publicamente querer candidatar-se à Câmara de Silves, depois da sua prestação, por muitos questionável, como adjunto de dois ministros dos Negócios Estrangeiros. E fez o anúncio declarando que não conta com apoios partidários, sendo estranho que o PS não lhe dê suporte à partida, e que a condição dos elementos para a sua equipa de trabalho é a de que sejam «menores de 45 anos», fasquia de que ele próprio se exclui, porquanto Carneiro Jacinto tem 55 anos (nasceu em Lisboa, a 7 de Setembro de 1951). Portanto, quem em Silves já tiver 45 anos e dois dias, por mais competência e seriedade que se lhe reconheça, que tire os cavalinhos da chuva - tivessem nascido dois dias antes.

Mas, para além do cabal esclarecimento de um antigo episódio fatal de Belém, e da justificação que Carneiro Jacinto possa dar para o facto de ter conseguido receber salários e abonos de Conselheiro na Embaixada em Paris trabalhando em Lisboa como adjunto nas Necessidades, até poderemos considerar que António Carneiro Jacinto (se, o que atrás se referiu, fosse esclarecido ponto a ponto) teria um bom perfil para Silves se conseguisse dissipar duas dúvidas.

Primeira das dúvidas, sobre as suas habilitações - Segundo o que no Anuário Diplomático se declara, António Carneiro Jacinto é «licenciado em Direito, pela Faculdade de Direito de Lisboa» e como licenciado se deixou oficialmente tratar desde Guterres a Freitas do Amaral. É mesmo licenciado?

E segunda dúvida, sobre a sua conversão ao Algarve - Carneiro Jacinto foi convidado, há largos meses, para se integrar como sócio na Casa do Algarve em Lisboa, mas recusou evadindo-se em reservas. Porquê este inesperado amor, agora, por Silves e Algarve de que Silves - desculpem os de Faro e Portimão - é o inegável e que deveria ser o palpitante coração histórico? Apenas agora e porquê?

Carlos Albino

Flagrante contraste: Em terra de turismo, continuar a não estar disponível o directório oficial dos cônsules honorários no Algarve, nos portais do Governo Civil, RTA e AMAL. Com todos os nomes, sem excepção.

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

SMS 186. Reforma de miscelânea para miscelânea

30 Novembro 2006

No sentido de conjunto confuso de coisas diferentes, as regiões de turismo têm sido miscelâneas. E, em um ou outro caso que o Algarve até conhece, a miscelânea até recuperou o significado inicial da palavra latina – alimentação dos gladiadores.

Ora, quando este governo anunciou uma reforma dessas estruturas anómalas, esperava-se, no mínimo, que se desse coerência ao sistema e se acautelasse, de uma vez por todas, esquemas nada claros e jogos de poder desenvolvidos a coberto da aparentemente cândida parceria entre Estado, municípios, patrões, empregados e mais gente que nem é uma coisa nem outra mas que aparece na parceria apenas porque há turismo que é a alimentação dos gladiadores. Mas não – pelo que se sabe, a reforma da miscelânea resulta noutra miscelânea a que se chamará agência, será tudo menos inequívoca descentralização (descentralização, de resto que chegou a ser anunciada, para as associações de municípios), e tudo menos o acabar com a alimentação dos gladiadores.

Naturalmente, isto não é reforma – é baralhar e dar de novo, e, pelo que se sabe, é lícito admitir que as cartas estejam marcadas com sinais do conhecimento de apenas algumas das dez futuras agências. E o Algarve, sem força e sem peso no Estado embora com enormíssima presença de receitas, perderá, quase de certeza, neste jogo desleal em que a descentralização não o trunfo, parecendo que, já se fugindo da regionalização como o diabo da cruz, até se começa a fugir da própria descentralização. Mas também é verdade que o Algarve político não tem feito nada para que assim não aconteça.

Carlos Albino

Flagrante contraste: Tanta chuva com as hidroeléctricas a rebentar e Castro Guerra não se ter baixado o preço da electricidade

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

SMS 185. A ponte e sem medo

23 Outubro 2006

Toda gente ficou a saber que Hugo Nunes (a emergir no PS, irá lá mas tem que ter cuidado), Jovita Ladeira (que está a ser agradável surpresa como especializada em especialidades), Mendes Bota (com mais ponderação no PSD, a idade vai obrigando a isso) e Miguel Tiago (que até parece pseudónimo do PCP no contexto das lideranças regionais), pois toda a gente sabe que os nossos deputados, do poder e da oposição, se uniram por causa da malfadada ponte Alcoutim-San Lúcar.

Exigem saber a «quem ficou incumbida a realização dos estudos e projectos preparatórios do projecto» que se arrasta desde a década de 90 e se o tema figura na agenda da próxima cimeira luso-espanhola. Não sabemos se uma pergunta destas deve ser feita a Lisboa que já nos habitou a poses reverenciais, ou a Madrid que já se acostumou a impor as regras.

Os nossos deputados (nunca com tanta propriedade se pode dizer nossos) deram, em todo o caso, um inédito exemplo de conjugação na defesa de um inequívoco interesse regional, tão inédito que, para efeitos da ponte, foi uma verdadeira união nacional – no bom sentido, há o mau. Só que o Ministro das Obras Públicas, Mário Lino, não há meio de ver as coisas com adequação e rigor. Numa intervenção na Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (18 de Outubro), Mário Lino referiu-se à ponte de Alcoutim como exemplo, um mero exemplo para contribuir para «a redução do isolamento de algumas zonas transfronteiriças». O ministro ainda não percebeu que essa ponte é estratégica para o desenvolvimento da região, de toda a região, e não apenas para reduzir o isolamento de uma zona, enfim de uma coitadinha zona. Ora, a resistência de Portugal à Espanha e da Espanha a Portugal, hoje, não se faz com fortes e fortalezas com o medo fortificado lá dentro – faz-se com ligações. O ministro, pois, não deveria referir-se a Alcoutim receosa e vagamente como «um exemplo», mas sim como uma prioridade estratégica a inscrever na agenda luso-espanhola, com princípio, meio e fim, porque o Algarve precisa daquela porta de Alcoutim como outrora precisou daquele forte. O receio, o medo – coisa que os espanhóis perderam - isso, sim, o medo é que é mau iberismo, péssimo iberismo porque o iberismo é próprio de quem tem medo.

Carlos Albino

Flagrante contraste: Uma doação de 10 mil dólares por emigrantes a algo no Algarve e o cheque ter sido levantado em Espanha.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

SMS 184. Passar de uma fase a outra

16 Novembro 2006

Apenas por masoquismo ou por estranha punição, é que, ano após ano, década após década, uma eternidade, se aguentará andar sempre à volta da mesma coisa e nunca se passar desta fase. E a «coisa» para o Algarve está naquele discurso de que Lisboa não olha para nós, que o poder se esquece dos algarvios, que o Algarve caiu na injusta desconsideração do Estado, e que, portanto, todos os males e incapacidades de Algarvios não só se explicam pela alegada repulsa que o centralismo do Estado manifesta para o Algarve, como também as culpas próprias ficarão perdoadas.

Naturalmente que o Estado se esquece do Algarve, sempre se esqueceu ainda era Reino. E que o Governo esquecido está, na hora do Orçamento, dos grandes projecto e dos grandes planos, da infra-estrutura à cultura e pela ciência e ensino. E não apenas o Governo, é tudo por aí abaixo, por vezes escandalosamente e em pormenores que quase roçam a provocação, porque mal roçam, aí vem por aí abaixo um secretário de Estado ou até mesmo um Ministro com a missão de ressuscitar o entusiasmo dos enteados. E se não ressuscita, pelo menos cala e silencia. Esta do plano ferroviário foi a última, havendo mais antes, para não recordar o folhetim da auto-estrada e da célebre secretaria de Estado apresentada como bandeira da descentralização do poder e foi o que se viu – continuou a tradição do quartel onde se instalou: o regimento não ganhou uma única batalha e até se fardava mal.

Só que não se pode morrer nisto, andando à volta, partindo de um ponto e voltar ao mesmo lugar. Será talvez aconselhável passar de uma fase a outra, começando por identificar o que o Algarve pode fazer sozinho por si próprio, em conjunto. Por outras palavras, que se passe de uma fase à outra. Que fase? Bom tema.

Carlos Albino

Dois flagrantes contrastes: 1 - Vale do Lobo e petróleo. 2 - Vilamoura e co-icineração.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Sobre o estado do Algarve. Para breve, novo espaço

Em breve, além destas SMS que, desde há três anos (Maio de 2003) temos mantido com objectivo e limites claros - a exposição dos breves apontamentos semanais publicados no Jornal do Algarve -, vamos abrir novo espaço para intervenção diária, e, deste modo, mais próxima de acontecimentos, de factos e de decisões políticas com relação directa e útil para o Algarve. Mas também sobre as omissões. Dentro daquele princípio traçado por António Sérgio - abrir as avenidas largas da Crítica. Quanto às SMS, estas continuarão o seu caminho próprio de apontamentos, meros apontamentos, mas, para nós e para muitos leitores, importantes apontamentos.

Carlos Albino

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

SMS 183. Paciência de burro…

9 Novembro 2006

Bem queria ter-me enganado! Quando, em 2003, na cimeira da Figueira da Foz, Durão Barroso e Aznar puxaram do calendário salvador dos comboios, para que os circunstantes acreditassem que o futuro viria sobre carris, eu estava presente, mas confesso que não acreditei e disse-lhes não acreditar. E quando seguidamente me entregaram uma cópia do mapa de traçados com meio-metro de riscos bem coloridos para encher o olho e datas mais ou menos apelativas, mais para o Norte e menos para o Sul como sempre, tornou-se-me evidente que o Algarve estava a ser tratado como tradicionalmente – refugo. Além disso, senti alguma areia nos olhos, com a cultivada confusão entre TGV e Alta Velocidade, cultivada para efeitos mediáticos, sabendo-se que nem toda a Alta Velocidade é TGV. No Algarve funcionou – toda a gente falou então em TGV sem se aperceber das diferenças, ou então aperceberam-se e, por serventia política, ampliaram a confusão.

Em todo o caso, foi dito e assinado que a Alta Velocidade Porto/Vigo se concretizaria até 2009 (com Lisboa/Porto a ser da exclusiva responsabilidade doméstica, até 2013); Aveiro/Salamanca até 2015; Lisboa/Madrid (por Évora/Badajoz, com Elvas a sair do mapa) até 2010, e se Faro/Évora iria para as calendas domésticas, já Faro/Huelva teria concretização até 2018... E neste remate de negociações que Portugal foi forçado a aceitar, ficou mais uma lembrança da tibieza ou lassidão diplomática de Guterres que, enquanto foi tempo, decididamente não teve pulso – Barroso viu-se confrontado com a inevitabilidade das conveniências espanholas. O traçado por Badajoz foi de facto uma derrota negocial portuguesa.

E quanto ao Algarve, ficou o sonho de 2018 – que para coisa destas não é já amanhã mas depois de amanhã – o troço Faro/Huelva, melhor dito Huelva/Faro, nem mais um quilómetro à frente, muito menos Albufeira, fora da hipótese Portimão, e então Lagos!, que fique nos confins do mundo, o troço é uma metáfora que, sem polidez, põe à prova a paciência de burro que o Algarve revela. E sendo 2018 tão próximo para estes efeitos, o que espanta é que com tanto plano de ordenamento, plano de protecção, plano para a orla e plano para a borla, o que espanta é que mesmo esse pequeno troço, que não pode ser construído nas nuvens mas em terra sólida, não esteja à cabeça da discussão, da política e do interesse geral que, sublinho, deve ser sinónimo do bem-comum.

Carlos Albino

Flagrante contraste: A política que se auto-reclama do Algarve ou algarvia, e o que se sente ou o que a gente sente no dia-a-dia…

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

SMS 182. Que bando de passarinhos!

2 Novembro 2006

Sabem os leitores, e disso dei conta há precisamente 182 semanas – bastante tempo já para ainda haver distraídos – que estes apontamentos, meros apontamentos, se destinam a verter a inquietação, as inquietações de quem sente o Algarve e não pactua para fingir. A inquietação não é obviamente angústia. Aqui não há angústias, há apenas o desafio de, dentro do possível ser claro, e dentro do civilizado ser frontal, naquele fio da navalha que por vezes corta por verdade e outras por erro. Digamos que, ao longo destas 182 semanas, e porque de apontamentos, meros apontamentos se trata, temos seguido à risca aquela regra segundo a qual para bons entendedores, meia-palavra basta… É que não sejamos ingénuos - quem estragou, quem está a estragar e infelizmente quem vai continuar a estragar o Algarve, sabe o que está ou vai fazer, é um bom entendedor, aliás se não entendesse e bem, não estragava, embora se faça desentendido - o fingimento e não o segredo, para essa gente, é a alma do negócio. E então como essa gente gostaria que estes apontamentos fossem assim, deste género: «Os passarinhos de Aljezur a Alcoutim, coitadinhos, fazem os seus ninhos com mil cuidados. Arrancam as penas para aquecer os filhinhos nos beirais dos telhados, coitadinhos dos passarinhos, tão lindos são que comovem qualquer coração…» E por aí fora. Seria a melhor forma de não incomodar os que fizeram, fazem e farão o estrago. Por outras palavras – desejariam estragar à vontade. Mas pior do que aqueles que estragam, são os que, passando por desentendidos, beneficiam do estrago e passam por passarinhos, coitadinhos, nos seus beirais… São os oportunistas, tais avezinhas – grande bando!

Carlos Albino

Flagrante contraste: Alcoutim e Albufeira.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

SMS 181 Convido as Câmaras...

26 Outubro 2006

Não é por nada, mas é cá por coisas, convido as Câmaras Municipais do Algarve – todas sem excepção – a publicitarem, com rigor, quantos projectos de grandes superfícies e equipamentos correlativos têm para aprovação e onde, quantos «pedidos de informação prévia» de grandes urbanizações ou urbanizações de monta choveram sobre os serviços, quem os pediu e para onde, e, já agora, com quantos processos de reclassificação de terrenos ou áreas lidam, onde e para que fim. E faz-se este pedido não é por nada, mas é cá por coisas.

É que não basta dizer-se que o Presidente da República teve razão no 5 de Outubro, como do PS ao PSD se disse, com muita gente a assobiar para o lado. Dêem mostras de transparência, provem que não se teme a transparência, e que aquilo que, num regime transparência, se designa por investimento – como é moda e de bom tom – é mesmo investimento, e não, no todo ou em parte que seja, apenas revestimento. Não é por nada, mas é cá por coisas.

Carlos Albino

Flagrante contraste: O facto da PJ de Faro ter concluído que a morte, em 1997, de António Colaço (vereador de Almodôvar) fora devida a um «acidente» de carro (o gasóleo a incendiar a viatura!), e, agora, depois do roubo do crânio do autarca vitimado, os peritos do Instituto de Medicina Legal revelarem a convicção de que se tratou de um homicídio. Será muito difícil encontrar o homicida, até 2012?

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

SMS 180. Sinais de racismo nas escolas

19 Outubro 2006

Pelos sinais e testemunhos que me chegam, por aí está a grassar racismo nas escolas algarvias. Ainda é um apenas aqui e além, alguns casos em infantários para onde se transporta sem filtragem as mensagens domésticas, não é, felizmente, caso geral, mas vale mais prevenir do que remediar. Também, pelo me chega, não se trata de racismo de crianças portuguesas face a qualquer das proveniências da imigração – os casos envolvem sobretudo crianças e jovens provenientes da Europa Central e de Leste face a crianças e jovens de origem africana, em alguns episódios até, de nacionalidade portuguesa com ascendência africana. Independentemente de nacionalidades e ascendências, isto não se pode tolerar na Sociedade Algarvia, aberta por natureza e história, acolhedora por carácter e convivente por regra de velho costume.

Não se pode admitir que uma criança ucraniana, já em exercícios de desdém de raça, chame «preto», «macaco» e outras coisas aprendidas ou ouvidas em casa porque nenhum escola as ensina ou ensinou, a uma criança de tez africana. Claro que o problema não está na criança, mas nos pais, o problema está lá em casa, está no que os pais são, dizem e como procedem ou gostariam de proceder – problema que, por ora, apenas vai parar ao infantário ou à escola, sendo facilmente gerível, mas que, amanhã, pode, com desaforo, abanar a Sociedade Algarvia. Aliás, já está a abanar. Diz-me quem sabe que, em certos aglomerados outrora acolhedores de imigrantes africanos ou descendentes destes como à vista desarmada se poderia constatar, este foram praticamente varridos por ucranianos, nem se sabe como. E tenho conhecimento directo de um episódio – um casal romeno recusou o contrato de aluguer de uma casa que já tinha apalavrado, pura e simplesmente porque em frente vieram a saber que morava um casal russo, só por este russo…

Há que dizer a esta gente que não pode ser assim. A Sociedade Algarvia tolera excepções porque também tem as suas excepções, mas temos que saber dizer um rotundo não à importação do Racismo seja entre quem for. E há que fazer prevenção. Prevenção cuidada e eficaz. Trabalho para o Governador Civil e para as Câmaras Municipais às quais, em primeira linha, se exige a mais cuidada atenção. Tenho verificado que pouca coisa está a ser feita nesta matéria.

Carlos Albino
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Flagrante contraste: O PIN da Ria de Alvor, o PIN da Altura/Praia Verde, e o pino do PROTAL a dar já dois pinos enquanto é tempo.

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

SMS 179. O discurso de Cavaco

12 Outubro 2006

O cidadão comum do Algarve, tão bem ou talvez melhor do que no resto do País, compreendeu o alcance e a oportunidade do discurso de Cavaco Silva no 5 de Outubro, e que foi um verdadeiro libelo contra a corrupção. Esta, como toda a gente sabe e porque resulta da própria definição de corrupção, não tem número público de telefone, não tem endereço postal acessível, não tem bilhete de identidade – a eficaz e certeira corrupção, a grande e a pequena, anda e age às escondidas, mexe-se por debaixo das secretárias, tem a cara da ronha, as mãos do manhoso e os olhos do falso santinho que por arte (bem paga a outros artistas) passa por entre as lacunas e omissões da lei.

Claro que ficou na mente do cidadão comum do Algarve a mensagem endereçada pelo Presidente da República a destinatários certos, ao reiterar que «é necessário chamar a atenção, de uma forma particularmente incisiva, para as especiais responsabilidades que todos os autarcas detêm nesta batalha em prol da restauração da confiança dos portugueses nas suas instituições». Mais: «para que as instâncias de controlo persigam os prevaricadores de uma forma célere e eficaz, é necessário que o combate à corrupção seja assumido como um esforço a que todos são chamados, nomeadamente pelo sistema da justiça, cuja dignidade e credibilidade devem ser reforçadas perante os Portugueses».

Tenho-me por insuspeito para afirmar que Cavaco sabe do que está a falar e para quem está a falar. Pela segunda vez na História, um Presidente algarvio põe o dedo na maior ferida do País, independentemente dos partidos, doa ao partido que doer e invocadamente para salvaguarda da ética republicana. Só que há agora Europa, não se pode calar agora o mundo da comunicação como outrora se podia fazer calar, e o apelo é à Justiça e não às tropas. Mas sobretudo há Europa e limites para não ter vergonha na cara, por isso.

Carlos Albino
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Flagrante contraste: O “jornalista” assessor e o “ assessor” jornalista.

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

SMS 178. Façamos o hino

5 Outubro 2006

A política algarvia parece ser um objecto perdido, se é que não é perdido mesmo. Claro que não são os políticos que estão perdidos, esses até são uns achados, muito embora não façam deveras política, fazem quando muito cálculos que passam à tangente pela política. Aliás, a arte dos políticos que perderam a política é precisamente passar à tangente da política simulando entrar nela, uns por mero folclore activista, outros já por verdadeiro interesse profissional pois, pesando bem os salários, converteram-se em profissionais da política e como tal fazem carreira. Nestas circunstâncias, a política algarvia está praticamente reduzida à escolha de listas de candidatos (autarcas, deputados), às nomeações de titulares dos cargos públicos tutelados pelas tangentes da política ou pelo jogo tangente da política, e também de vez em quando, para ornamentar a secção de perdidos e achados do que se faz passar por política, reduzida esta está a uns ataques descabelados e a uns contra-ataques sem sentido para que o povo, enfim, se recorde de que ainda há poder escrutinado pela Política e ainda há oposição com a mesma parte de alma da Política. Mas, na verdade, a Política – sobretudo a Política algarvia - parece ser um objecto perdido e que os profissionais pouco interesse revelem em achar. Há clubes à espera do jogo ou dos jogos do calendário, há massas associativas que até não se importam com a contratação para as suas hostes do mais terrível adversário de ontem desde que amanhã ele marque golos com a nova camisola, há jogadores, portanto. Toda esta gente, obviamente, não ficará muito agradada se a PSP ou a GNR encontrarem por aí esse estranho objecto da política no quintal de trás de algum político tangente, e muito menos agradada ficará se os agentes comprovarem que o objecto da política algarvia foi roubado tal como as estátuas do Palácio de Estoi. Como diria Macário, à falta de regionalização, façamos o hino.

Carlos Albino
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Flagrante contraste: O prémio e a prática.

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

SMS 177. A questão do suborno

28 Setembro 2006

A OCDE, em Outubro, envia a Portugal uma missão para avaliar o que as autoridades portuguesas têm feito no combate ao suborno, especialmente em matéria de grande corrupção em mercados internacionais, estando na mira o suborno de titulares de cargos públicos em negócios de nível internacional, autarcas incluídos. Ora, com muito respeito pela OCDE e mais respeito ainda pela Convenção Anti-Suborno que Portugal ratificou em 1997, o problema não será tanto o de ver ou de consultar papelada sobre o que as autoridades públicas do Estado Português (do mais importante Ministério à mais recôndita Câmara Municipal) fizeram ou dizem ter feito no combate ao suborno, mas sim o de verificar se alguma vez o Estado soube ou quis combater o suborno, impedir o suborno, acabar com o suborno – do grande ao pequeno, a começar sobretudo pelo grande e não pelo pequeno que de vez em quando tem servido apenas para dar mostras de haver combate e não mais. Naturalmente que o suborno a sério, o grande – então na imobiliária! – por natureza e por garantia de eficácia, tem as características do segredo de Estado, e quando faz parte da cultura do Estado confunde-se com o próprio segredo de Estado ou faz-se passar, aos olhos do cidadão normal, como segredo de Estado quando só e apenas é cancro do Estado, a doença mais incurável do Estado. Todos os dias vamos sabendo de histórias que, contadas obviamente à boca calada, não chegam aos ouvidos da OCDE. Se no Algarve fosse criada uma linha verde anti-suborno, não direi que os telefones entupiriam mas muita gente autárquica e dos serviços do Estado ficaria entre o amarelo e o azul, as cores que dão no verde...

Carlos Albino

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Flagrante contraste: O orgulhoso, impante e empresarial Farense de há uns anos, e o humilhante, cabisbaixo e mercearesco Farense de agora.

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

SMS 176. O género de Câmaras que temos

21 Setembro 2006

Ficou-se a saber que a esmagadora maioria das câmaras municipais do País não respondem aos e-mails dos munícipes, e igualmente se tomou conhecimento de que por entre as câmaras relativamente mais bem comportadas nessa matéria não consta nenhuma do Algarve. Não espanta. É claro que, no caso das mensagens serem dirigidas a serviços municipais, a culpa ou a responsabilidade directa não será, à partida, dos presidentes ou dos vereadores eleitos mas dos assessores entalados por mordomia e dos funcionários, de alguns funcionários ou do algum género de funcionários – os chamados de costas quentes - que a administração local sempre teve emblematicamente e que acabam por determinar o género de Câmaras que temos. O mal, de resto, vem de cima – à excepção explicável do Ministério das Finanças, mais concretamente dos departamentos ligados aos impostos, quase nenhum responde a correio electrónico justificado que não provenha dos ministérios pares ou de instituições acima. No caso do Algarve, é verdade que não há câmara que não faça gala de uma página de autopromoção na internet nem mesmo junta de freguesia que não disponha de endereço electrónico. Mas, caro leitor, tente escrever expondo dúvidas, pedindo uma informação, apresentando uma reclamação ou formulando uma sugestão, que receberá a resposta na eternidade. A cunha e o tráfico de influências, isso, é rápido.

Carlos Albino
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Flagrante contraste: A interdição do funcionamento nocturno do heliporto do Hospital de Faro antes de uma morte, e o pedido para a permissão e a permissão dada para o funcionamento apenas depois da mesma morte.