Depois do que foi revelado pelo coordenador da investigação da criminalidade económica da PJ/Coimbra, Nuno Maurício que, no Centro de Estudos Judiciários, afirmou que um terço dos inquéritos sobre corrupção tem as câmaras municipais como alvo e que, ficando-se a saber que entre 2002 e 2005, dos 6.976 inquéritos abertos envolvendo crimes económicos e financeiros, os da corrupção somaram 1.251, bem!, depois disto nem se percebe tanta polémica à volta do lugar da Igreja Católica no Protocolo de Estado, a que se segue a presente disputa entre os conselheiros do Tribunal Constitucional e os do Supremo Tribunal de Justiça, cada um a não querer ficar atrás do outro na fila de precedências do mesmo protocolo, como se a honra de entrar primeiro fosse o principal problema da honra do Estado. A Ex.ma Sr.ª Dona Corrupção, ao que se sabe, nunca se preocupou com o seu lugar no Protocolo, mas, a avaliar a gravidade das advertências de Nuno Maurício, um quadro superior da Polícia Judiciária, ela está de pedra e cal na lista de precedências do Estado e com a consciência tranquila, porquanto essa tão poderosa quanto benemérita senhora que, numa democracia saudável apenas viveria quando muito com um estatuto de meretriz reformada, sabe que os inquéritos que contra si movem, na maior parte, são arquivados ou geridos até calculada prescrição, por mais que Nuno Maurício e outros que não são poucos, fiquem a protestar contra o à vontade dos «infractores de luxo».
Advertindo que a corrupção é uma «séria ameaça aos pilares da democracia e ao próprio progresso social e económico», Nuno Maurício não especificou quais as regiões do País onde aqueles 1.251 inquéritos tiveram cenário, quantos, por exemplo, foram abertos no Algarve e destes, quantos resultaram em acusação e quantos descansam em paz no arquivamento. Em todo o caso, lembrando ele que a Ex.ma Sr.ª vende o seu corpo à custa de meios de pressão ilegítimos para obter determinado resultado que, segundo um processo natural, não seria porventura conseguido, não é difícil a cada um dos nossos leitores olhar à sua volta e verificar se na sua rua, na sua terra ou na área do seu Município não haverá uma acompanhante dessas que, como todas as acompanhantes no activo, garante o maior sigilo e apartamento privado se calhar em turismo rural, ganhando pela calada da noite aquilo que com grande espavento mas sem justificação aparente à excepção do decote, exibe à luz do dia.Carlos Albino














O sr. Cabrita, presidente do Conselho Distrital de Faro da Ordem dos Advogados, contestou aquilo que aqui referimos sobre famas. Dirigindo-me pois ao sr. Cabrita no mesmo tom em que se legitimou, está patente que ele confunde iniciativas de advogados no Algarve com iniciativas de advogados do Algarve. Além disso, o sr. Cabrita amputa a pergunta aqui feita e que se repete: «Os advogados com arraiais assentes no Algarve, alguma vez debateram formalmente entre si como está e como pode ser a justiça melhorada e, já agora, a imobiliária no Algarve, livrando-se da fama que alguns têm?». A isto, o sr. Cabrita diz que sim, nós voltamos a dizer que não.



















Desconcertantes foram os termos usados por Luís Filipe Madeira sobre a candidatura presidencial de Soares. «Não pertenço à Casa Soares – sou um cidadão, não sou um criado de serviço», disse o homem de Alte que, repetidamente, é apresentado como «figura nacional» e que nos meandros políticos de Lisboa é, por deferência de serviço, tido como «líder do Algarve» mas cuja obra mais notável a favor do Algarve terá sido, como a população sabe, a rectificação da curva da 125 nas Ferreiras, há uns vinte anos, e pouco mais para além dos discursos pois Filipe Madeira discursou muito e pouco fez. Naturalmente que a população igualmente sabe que se Madeira não pertence à Casa Soares, também Soares não pertence à «Casa Madeira», e fiquemos por aqui porque a continuarmos por aqui, seria fazermos o mesmíssimo jogo dos que têm estragado a democraticidade interna dos partidos no Algarve, aquela democraticidade real, não a formal ou a politicamente correcta – nomeadamente a do PS, mas sem excluir a do PSD que também tem as suas «casas», não tanto gentílicas mas de interesses difusos.
Agora, já no final do mandato, Sampaio veio ao Algarve de raspão por causa de uma «presidência aberta» sobre turismo que lhe deu para ir a quase todo o lado, do Porto Santo a Esposende, terminando tudo em Tróia naturalmente com mais uma cena de condecorações que é uma coisa que Sampaio gosta tanto fazer como João Paulo II gostava de fazer santos. No Algarve, houve um poiso na Fortaleza de Sagres, um salto a Vilamoura, uma passeata de helicóptero sobre as belas obras das falésias e foi tudo para além das palavras. E quanto a palavras, Sampaio não trouxe nenhuma novidade – repetiu um bocadinho, apenas um bocadinho do que muitos têm dito há 30 anos e que, por terem dito, foram espezinhados, humilhados e esquecidos. Portanto, Sampaio veio chorar sobre o leite derramado e conviver à portuguesa com alguns que provocaram o derrame do leite ou com outros que bem o querem derramar ainda mais. Sampaio, nesta deslocação ao Algarve foi uma tristeza.
Até agora, pelos menos aparentemente, o Algarve tem estado imune ao mal que, aqui e ali mas cada vez mais em mais lugares, ataca as traves mestras da democracia, que é o um mal em tudo idêntico ao da formiga branca. Sem que se note, o bicho consome tudo deixando apenas uma fina película exterior a dar o aspecto de que o mundo está normal. Apenas há um pormenor que o bicho não disfarça - o cheiro. E quando cheira a formiga branca há que pelo menos desconfiar. Ora, no Algarve, embora o mundo, sobretudo o mundo autárquico e a película exterior do poder sufragado, pareça um mundo normal, alguns, possivelmente muitos de nós sentimos esse cheiro a formiga branca que anda nos ares. O tráfico de influências envolvendo alguns barões reformados dos partidos é notório, amiúde reforçando o indevido poderio do clã; os negócios da imobiliária envolvendo paraísos fiscais são coisas faladas à boca calada, mas são coisas; o enriquecimento sem justa causa fornece uns quadros bem pintados mas discretos como mandam as regras do enriquecimento sem justa causa, e por aí fora, sem falar na intensa economia paralela que é a metamorfose alada da formiga e que desova à vontade quando a justiça, também ela, está corroída . É claro que não temos autarcas algarvios, do presente ou do passado recente, à berlinda como a formiga branca de Felgueiras, mas cheira. Cheira. Também não temos casos como os que na Andaluzia, há poucas semanas, levaram à prisão de vários eleitos locais precisamente pelas ligações perigosas entre exercício do poder e imobiliária, mas cheira. Cheira a formiga branca e pergunto a mim mesmo se em Portugal houvesse uma Operação Mãos Limpas a sério como a que houve na Itália, também aqui os partidos, todos sem excepção, não teriam que mudar de nome como condição para a sobrevivência do ideal democrático. E, ou muito me engano, ou um dia que não será longínquo, estaremos a falar de nomes. Prefiro que me esteja a enganar.
Faro é reconhecidamente capital e não tem que lutar por capitalidade, tal como Portimão não tem que porfiar por sub-capitalidade, e tal como Albufeira em pouco ou em nada serve para o Algarve procedendo como se fosse principado independente, como naquele ano em que deitou foguetes e fez fogo de artifício no dia em que Silves estava a arder à vista desarmada. Esse caminho da capitalidade, das sub-capitalidades e dos principados está ao arrepio do sentido e do caminho do Algarve e só terá um resultado final – o provincianismo e a mentalidade de quintal, com a coisa pública entregue a títeres locais que nem sequer categoria têm para serem ditadores, muito menos para serem exemplares democratas na atitude e nos factos. Essa obsessão por capitalidade, por sub-capitalidades e por principados é a doença infantil do narcisismo provinciano, e são estes meninos que foram e vão estragando o Algarve – o Algarve como Algarve que precisa de coisas capitais e não desses meninos.