Penso que não exagerei, na semana passada, com o alerta para a segurança e com os sublinhados para uma vigilância mais atenta, mais responsável, dissuasora e preventiva, com efectiva visibilidade e presença continuada das autoridades policiais em locais e corredores estratégicos. A GNR, onde não há PSP, não pode limitar-se com razões de sobra a fazer o expediente das vítimas; a PSP, onde a GNR a não substitui, não pode converter-se com fundados motivos em vítima sistemática do expediente; as restantes autoridades (polícias de investigação e de imigração) não podem comprazer-se apenas com os resultados de operações esporádicas por mais evidente que seja o êxito e a tonelagem do crime perseguido; e os Municípios, os 16 em conjunto e cada um por seu lado, não podem continuar a assobiar para o lado nesta matéria da segurança.
É impensável, por exemplo, que a GNR no Algarve obedeça a três ou quatro comandos diversos se não é que não são longínquos e que nada têm a ver com Algarve e com os problemas especiais do Algarve, conforme o caso, desmotivando quem, sendo militar, está a postos. É impensável que a PSP no caso peculiar e especialíssimo do Algarve que em metade do ano vê a sua população subir dos 400 mil e picos para mais de um milhão e meio, não esteja presente com organização, meios e recursos adequados em cada uma das cidades, grande parte das quais se atravessa, seja de dia seja de noite, sem se ver um agente à vista desarmada, com excepção para as braçadeiras da polícia de trânsito que só adianta o trânsito. Como também é impensável que os municípios, que há bem poucos anos deram mostras de febre securitária com a reivindicação de polícias municipais, agora se isentem da chamada de competências, da pressão política e das trancas à porta.Naturalmente que não culpo as pessoas, a pessoa dos responsáveis, sejam agentes da administração ou eleitos. Culpo o sistema que está desadequado, desfasado e que, no caso do Algarve inesperado que temos, actua como se isto fosse o Alto Alentejo ou a Beira Litoral, que não é e está longe de ser, pois a segurança autónoma dos aldeamentos turísticos de porte não é a segurança do Algarve e dos Algarvios.
Por isso, julgo que seria oportuna a convocação de uma conferência regional de segurança envolvendo todas as partes implicadas (agentes políticos, da justiça e das polícias) e da qual saíssem pontos de situação credíveis, recomendações ao Governo e algum sinal para a população do Algarve, sobretudo a residente que, pelos factos e pela doutrina dos factos, está deveras indefesa e à mercê do acaso ou da sorte. Claro que o Governador Civil e o Presidente da Junta Metropolitana teriam ou terão uma palavra a dizer. Estou em crer que o Algarve em peso agradeceria tal palavra.Carlos Albino









O sr. Cabrita, presidente do Conselho Distrital de Faro da Ordem dos Advogados, contestou aquilo que aqui referimos sobre famas. Dirigindo-me pois ao sr. Cabrita no mesmo tom em que se legitimou, está patente que ele confunde iniciativas de advogados no Algarve com iniciativas de advogados do Algarve. Além disso, o sr. Cabrita amputa a pergunta aqui feita e que se repete: «Os advogados com arraiais assentes no Algarve, alguma vez debateram formalmente entre si como está e como pode ser a justiça melhorada e, já agora, a imobiliária no Algarve, livrando-se da fama que alguns têm?». A isto, o sr. Cabrita diz que sim, nós voltamos a dizer que não.



















Desconcertantes foram os termos usados por Luís Filipe Madeira sobre a candidatura presidencial de Soares. «Não pertenço à Casa Soares – sou um cidadão, não sou um criado de serviço», disse o homem de Alte que, repetidamente, é apresentado como «figura nacional» e que nos meandros políticos de Lisboa é, por deferência de serviço, tido como «líder do Algarve» mas cuja obra mais notável a favor do Algarve terá sido, como a população sabe, a rectificação da curva da 125 nas Ferreiras, há uns vinte anos, e pouco mais para além dos discursos pois Filipe Madeira discursou muito e pouco fez. Naturalmente que a população igualmente sabe que se Madeira não pertence à Casa Soares, também Soares não pertence à «Casa Madeira», e fiquemos por aqui porque a continuarmos por aqui, seria fazermos o mesmíssimo jogo dos que têm estragado a democraticidade interna dos partidos no Algarve, aquela democraticidade real, não a formal ou a politicamente correcta – nomeadamente a do PS, mas sem excluir a do PSD que também tem as suas «casas», não tanto gentílicas mas de interesses difusos.
Agora, já no final do mandato, Sampaio veio ao Algarve de raspão por causa de uma «presidência aberta» sobre turismo que lhe deu para ir a quase todo o lado, do Porto Santo a Esposende, terminando tudo em Tróia naturalmente com mais uma cena de condecorações que é uma coisa que Sampaio gosta tanto fazer como João Paulo II gostava de fazer santos. No Algarve, houve um poiso na Fortaleza de Sagres, um salto a Vilamoura, uma passeata de helicóptero sobre as belas obras das falésias e foi tudo para além das palavras. E quanto a palavras, Sampaio não trouxe nenhuma novidade – repetiu um bocadinho, apenas um bocadinho do que muitos têm dito há 30 anos e que, por terem dito, foram espezinhados, humilhados e esquecidos. Portanto, Sampaio veio chorar sobre o leite derramado e conviver à portuguesa com alguns que provocaram o derrame do leite ou com outros que bem o querem derramar ainda mais. Sampaio, nesta deslocação ao Algarve foi uma tristeza.
Até agora, pelos menos aparentemente, o Algarve tem estado imune ao mal que, aqui e ali mas cada vez mais em mais lugares, ataca as traves mestras da democracia, que é o um mal em tudo idêntico ao da formiga branca. Sem que se note, o bicho consome tudo deixando apenas uma fina película exterior a dar o aspecto de que o mundo está normal. Apenas há um pormenor que o bicho não disfarça - o cheiro. E quando cheira a formiga branca há que pelo menos desconfiar. Ora, no Algarve, embora o mundo, sobretudo o mundo autárquico e a película exterior do poder sufragado, pareça um mundo normal, alguns, possivelmente muitos de nós sentimos esse cheiro a formiga branca que anda nos ares. O tráfico de influências envolvendo alguns barões reformados dos partidos é notório, amiúde reforçando o indevido poderio do clã; os negócios da imobiliária envolvendo paraísos fiscais são coisas faladas à boca calada, mas são coisas; o enriquecimento sem justa causa fornece uns quadros bem pintados mas discretos como mandam as regras do enriquecimento sem justa causa, e por aí fora, sem falar na intensa economia paralela que é a metamorfose alada da formiga e que desova à vontade quando a justiça, também ela, está corroída . É claro que não temos autarcas algarvios, do presente ou do passado recente, à berlinda como a formiga branca de Felgueiras, mas cheira. Cheira. Também não temos casos como os que na Andaluzia, há poucas semanas, levaram à prisão de vários eleitos locais precisamente pelas ligações perigosas entre exercício do poder e imobiliária, mas cheira. Cheira a formiga branca e pergunto a mim mesmo se em Portugal houvesse uma Operação Mãos Limpas a sério como a que houve na Itália, também aqui os partidos, todos sem excepção, não teriam que mudar de nome como condição para a sobrevivência do ideal democrático. E, ou muito me engano, ou um dia que não será longínquo, estaremos a falar de nomes. Prefiro que me esteja a enganar.
Faro é reconhecidamente capital e não tem que lutar por capitalidade, tal como Portimão não tem que porfiar por sub-capitalidade, e tal como Albufeira em pouco ou em nada serve para o Algarve procedendo como se fosse principado independente, como naquele ano em que deitou foguetes e fez fogo de artifício no dia em que Silves estava a arder à vista desarmada. Esse caminho da capitalidade, das sub-capitalidades e dos principados está ao arrepio do sentido e do caminho do Algarve e só terá um resultado final – o provincianismo e a mentalidade de quintal, com a coisa pública entregue a títeres locais que nem sequer categoria têm para serem ditadores, muito menos para serem exemplares democratas na atitude e nos factos. Essa obsessão por capitalidade, por sub-capitalidades e por principados é a doença infantil do narcisismo provinciano, e são estes meninos que foram e vão estragando o Algarve – o Algarve como Algarve que precisa de coisas capitais e não desses meninos.
Julgo saber que José Vitorino foi o único caso de derrotado no Algarve que atribuiu as culpas do desaire à comunicação social, assim fugindo à assunção de responsabilidades políticas, designadamente face ao partido que o apoiou e de que, outrora, ele fez parte. Na verdade, não sei se José Vitorino sabe o que significa comunicação social, porquanto ele, com tal explicação de mau perder, suporá que a comunicação social deveria ter feito campanha por ele, exaltando por exemplo a forma como o Farense arrecadou importante quantia, ao longo de quatro anos, com a célebre dádiva mensal dos 25 por cento descontados do ordenado de Vitorino, exemplo acabado do populismo mais tosco. Ora, Vitorino não entendeu que o populismo é o mesmo que comprar um carro novo em Faro e ir sempre em primeira mão bem puxada até ao aeroporto da Ria Formosa - gripa no Montenegro. Enquanto o carro anda, o povo saúda, há sorrisos de um e outro lado da estrada, todos se curvam à passagem do carro do presidente: mas se o carro gripa porque o presidente desconhecia o dever elementar de meter mudanças, naturalmente que a comunicação social tem o dever de registar o facto, sendo o facto simples - o carro novo do presidente gripou no Montenegro porque o seu populismo não saiu da primeira mão, derretendo o motor. E como, em política, um mandato de quarto anos não envelhece o carro - antes pelo contrário, deixar gripar assim o motor a meio caminho para o aeroporto o que é que tem a ver com a comunicação social que, nesta mecânica das autárquicas, até foi benevolente e caritativamente omissiva para a condução de Vitorino? Aliás, não apenas para o caso de Vitorino mas para muitos outros casos designadamente vitoriosos, a comunicação social do Algarve, de modo geral tem sido benevolente e caritativamente omissiva justificando-se até a sua santificação pelo papa Bento XVI, se por aí não houvesse uns casos de favores e de subsídios indirectos que borram a santidade.
1. Aqui e ali – não apenas em Felgueiras, Gondomar e Oeiras, mas no Algarve também – estas eleições ensinaram que os partidos, todos do CDS ao BE, têm que mudar de estilo, de meios e de visões. Trinta anos são suficientes para envelhecer uma democracia, dar azo ao laxismo, à inércia e à distracção, com isto abandonando-se a discussão crítica dos problemas de fundo, pondo-se de lado o interesse geral e sacrificando o bem-comum aos vorazes apetites do oportunismo organizado. No Algarve, isto tornou-se particularmente evidente pela pressão dos lobbies ligados à imobiliária e à construção (há muito que acabou o casino do figo no Café Aliança), não por serem lobbies mas pela pressa com que o turismo e actividades conexas lhes aguçam apetites. Nestas circunstâncias, os partidos têm sido meios privilegiados para quem quer subir na vida depressa, enriquecendo sem justa causa. Foi assim que surgiu uma nova arte – a arte de «saber fazer bem as coisas», o que significa «fazer as coisas» sem deixar uma perna de fora. Se a justiça funcionasse – não funciona porque muitos juízes também cultivam essa arte de não deixar uma perna de fora – os episódios que a todos nos chocam, teriam adequado e rápido desfecho nos tribunais, punindo corruptos e corruptores. Como não funciona, a política salva os delinquentes, iliba os arguidos e confere até aos acusados ares de definitiva e não apenas de presuntiva inocência, nem importando, para o caso, que salvos pela política, falem como foliões e ameacem com a violência própria dos perversos – referimo-nos naturalmente à perversidade contra a democracia que salva corruptos e corruptores. Assim sendo, será até secundário que a lei mude – o importante é que os partidos mudem as suas práticas, os seus métodos de triagem internos, as suas «máquinas» montadas para o clientelismo.
O Algarve também tem os seus Albertos. Embora a Madeira tenha o protótipo, o original sem par a quem todo o mundo reconhece o cómico direito de ser João Jardim para além de Alberto, os nossos Albertos – infinitamente mais comedidos porque não somos uma ilha e manhosamente mais discretos porque também não temos paraíso fiscal que cubra as jogadas – não deixam de ser Albertos, enfim, pequenos mas eficientes Albertos, ou seja, Albertos uns à escala concelhia e outros à escala de freguesia mas Albertos. Quando podem, os nossos Albertos controlam os pequenos jornais impondo-lhes o conteúdo sempre com expedientes indirectos, submetem ao seu jogo as estações de rádio locais condicionando-as na forma e no cheque. Claro que apenas fazem isso quando podem, mas quando o fazem, porque são Albertos, cuidam de não deixar indícios de prova, e, como se costuma dizer neste século de Isaltinos, Fátimas, Valentins e Ferreiras Torres, fazem-no dentro da mais estrita legalidade – Oh! Como os juízes em greve apreciam esta coisa da estrita legalidade! Embora com os mesmos propósitos da programada caça ao voto longamente pensada e do controlo da opinião pública, naturalmente que os nossos Albertos não passam de pequenos Albertos porque, aqui, tudo também é pequeno (a Agência Lusa é pequena, a RDP é pequena e a RTP pequenina é) mas se o Algarve tivesse um paraíso fiscal como a Madeira tem, já teríamos um Alberto igual ao protótipo. Perfis não faltam. Pequenos perfis, diga-se, mas igualmente perversos.
Neste País, o que deve e pode ser estudado, não se estuda, e o que salta aos olhos da vista, dispensando mais estudos, passa a estudo, com a nomeação da tal comissão de estudo que se farta de estudar até ao cansaço cerebral. O senhor ministro da Saúde, até que enfim, afiançou que a necessidade de um Hospital Central no Algarve já lhe saltava aos olhos da cara, mas - para não fugir à regra nacional - logo adiantou que precisava de um estudo que vai estudar o óbvio. É como se Correia de Campos, para ter a certeza de que 2 e 2 são 4, se sentisse na obrigação política de nomear comissão para apurar tal evidência. Então, contemos ao ministro uma história recente.
Não cabe repetir aqui o que vai subindo ao noticiário quotidiano em matéria de segurança no Algarve. O crime vai aumentando em números, grau de brutalidade e frequência, regra geral associado ao tráfico de droga, às redes de prostituição e à actuação de grupos de criminosos, sem dúvida organizados e que assentam arraiais na imigração ilegal. Quase todos os dias é um calafrio, para não lembrar as centenas de casos abafados ou sem queixa ou por chantagem dos criminosos ou por falta de confiança do sistema se segurança. É óbvio que toda esta gente indesejável actua sobre uma grande almofada de impunidade suportada classicamente por interesses locais cruzados, tudo isto resultando do desfasamento entre as autoridades policiais e os tribunais, desfasamento que advém por sua vez de legislação obsoleta e que não atende a casos específicos como é o caso do Algarve. As autoridades espanholas, depois do massacre de Madrid, estão a tentar atacar o mal pela raiz, identificando os grupos, proveniências e métodos. Na Andaluzia, por exemplo, foram identificadas várias dezenas de grupos de crime organizado, máfias tradicionais e novas máfias cuja actuação vai além fronteiras. No caso da Andaluzia, não é difícil concluir que esse além fronteiras significa em apreciável medida o Algarve – se, para cada um de nós Sevilha é um salto, para uma organização de criminosos o Algarve também é um pulo, se é que também não pulem de cá para lá. Ora, anunciar o reforço policial no Algarve durante o Verão, não basta, como também não é suficiente essa corrida entre autoridades aos recordes da apreensão de droga, própria de autoridades da parvónia. É preciso ir à raiz do problema, e, para tanto, há que identificar o problema, até porque – grande Aleixo! – há criminosos que não parecendo o que são e porque não são aquilo que parecem, têm sobretudo medo da identificação do problema. Esta gente está, anda entre nós, e é um calafrio.