quinta-feira, 25 de maio de 2006

SMS 159. Conferência regional de segurança

25 Maio 2006

Penso que não exagerei, na semana passada, com o alerta para a segurança e com os sublinhados para uma vigilância mais atenta, mais responsável, dissuasora e preventiva, com efectiva visibilidade e presença continuada das autoridades policiais em locais e corredores estratégicos. A GNR, onde não há PSP, não pode limitar-se com razões de sobra a fazer o expediente das vítimas; a PSP, onde a GNR a não substitui, não pode converter-se com fundados motivos em vítima sistemática do expediente; as restantes autoridades (polícias de investigação e de imigração) não podem comprazer-se apenas com os resultados de operações esporádicas por mais evidente que seja o êxito e a tonelagem do crime perseguido; e os Municípios, os 16 em conjunto e cada um por seu lado, não podem continuar a assobiar para o lado nesta matéria da segurança.

É impensável, por exemplo, que a GNR no Algarve obedeça a três ou quatro comandos diversos se não é que não são longínquos e que nada têm a ver com Algarve e com os problemas especiais do Algarve, conforme o caso, desmotivando quem, sendo militar, está a postos. É impensável que a PSP no caso peculiar e especialíssimo do Algarve que em metade do ano vê a sua população subir dos 400 mil e picos para mais de um milhão e meio, não esteja presente com organização, meios e recursos adequados em cada uma das cidades, grande parte das quais se atravessa, seja de dia seja de noite, sem se ver um agente à vista desarmada, com excepção para as braçadeiras da polícia de trânsito que só adianta o trânsito. Como também é impensável que os municípios, que há bem poucos anos deram mostras de febre securitária com a reivindicação de polícias municipais, agora se isentem da chamada de competências, da pressão política e das trancas à porta.

Naturalmente que não culpo as pessoas, a pessoa dos responsáveis, sejam agentes da administração ou eleitos. Culpo o sistema que está desadequado, desfasado e que, no caso do Algarve inesperado que temos, actua como se isto fosse o Alto Alentejo ou a Beira Litoral, que não é e está longe de ser, pois a segurança autónoma dos aldeamentos turísticos de porte não é a segurança do Algarve e dos Algarvios.

Por isso, julgo que seria oportuna a convocação de uma conferência regional de segurança envolvendo todas as partes implicadas (agentes políticos, da justiça e das polícias) e da qual saíssem pontos de situação credíveis, recomendações ao Governo e algum sinal para a população do Algarve, sobretudo a residente que, pelos factos e pela doutrina dos factos, está deveras indefesa e à mercê do acaso ou da sorte. Claro que o Governador Civil e o Presidente da Junta Metropolitana teriam ou terão uma palavra a dizer. Estou em crer que o Algarve em peso agradeceria tal palavra.

Carlos Albino

quinta-feira, 18 de maio de 2006

SMS 158. Prioridade à segurança

18 Maio 2006

Na última semana, para além de ter sido inusitadamente bombardeado com telefonemas, e-mails e conversas de café dando conta de diversos assaltos nas zonas rurais em redor de Loulé, roubos de monta em estabelecimentos comerciais das principais cidades do centro algarvio e descaradas actuações de delinquentes envolvendo negócios criminosos um pouco por toda a parte, então não é que eu próprio fui vítima? Primeiro, em plena tarde, foi um inacreditável assalto à minha residência numa das principais avenidas de Lisboa e, dois dias depois, dois brasileiros assaltaram-me à mão armada, na mesma zona. Não pelo que me aconteceu, mas por aquilo que está a vitimar todos os dias dezenas e dezenas de cidadãos, penso que chegou o momento para, de forma clara e inequívoca, todos reclamarmos por mais segurança, por esquemas preventivos e dissuasores mais eficazes das autoridades com funções policiais, por critérios mais sopesados por parte das autoridades da imigração e, sobretudo ou acima de tudo, poses sem lassidão dos decisores políticos que muitas vezes se comportam ou justificam medidas como se fossem membros de uma ONG ressabiada. É que há um género de anti-xenofobia que acaba por ser xenófona com todas as letras e que acaba por favorecer o pasto para incrementar a verdadeira e temível Xenofobia que ninguém que seja sério deseja ou quer ver nos seus dias.

Nada adianta a cada um dos responsáveis – desde políticos e polícias, a tribunais e agentes de imigração – descartar culpas para cima dos ombros de cada um dos outros, deixando o cidadão atónito perante este jogo de lavar de mãos que pode garantir sucesso para abertura de telejornais e manchetes de tablóides, mas que não passa, tal jogo, de manifestações secundárias de adolescentes tardios da democracia. Igualmente nada adianta jogos de estatística, de percentagens ou de comparações com outros países e outras regiões, quando a insegurança é um facto e, além disso, quando a criminalidade se revela cada vez mais violenta e executada por gente, essa sim, sem dúvida, xenófoba, impiedosa e desumana.

Carlos Albino

quinta-feira, 11 de maio de 2006

SMS 157. Direitos adquiridos

11 Maio 2006

«Diga lá! O ké ke kéri?» - foram estas as primeiras palavras que a funcionária, bem aperaltada e com ares de mestrado em prepotência municipal, me dirigiu, além disso espetando o dedo como bico de pita na minha inicial tentativa de dizer boa tarde, pelo que apenas disse boa e engoli a tarde. E estava eu mastigando em silêncio aquele venenoso formulário de atendimento público, quando a funcionária volta à carga, fazendo subir a voz como o clarinete de Paderne a disfarçar a fífia - «Vá! O ké ke kéri? Diga lá!». Claro que perante esta ordem municipal para eu dizer , disse imitando tanto quanto possível o contra-baixo da banda de Portimão e retirei-me sem tratar do caso. É que não tenho mesmo nenhuma paciência para aturar estes plebiscitos de duas pernas que se sentam nas repartições públicas como direitos adquiridos e que degolam qualquer educação cívica e qualquer instrução pública. Disseram-me depois que aquele plebiscito está ali apenas por ser afilhada de um padrinho, e se aqui trato deste caso de mordomia poluída sem nome e sem local, é porque também me disseram que o caso é mais geral no Algarve do que eu antes supunha e que não ocorre apenas com bicos de pita, enfim sempre são pitas, mas que se repetem com árvores de maior porte que a desconcentração e descentralização por aqui planta...

Carlos Albino

quinta-feira, 4 de maio de 2006

SMS 156. Nem a Mãe Soberana entende

4 Abril 2006

Ali, no alto daquele monte, a vez não é dos políticos, nem dos actores, nem dos animadores de tertúlias, nem dos homens ricos por serem ricos, nem dos pobres encartados por serem pobres e muito menos dos jornalistas. Ali, a digna vez é dos padres, é a vez de um padre que, de ano para ano, se costuma designar por «orador sagrado» e de cuja boca, também de ano para ano, se espera que diga palavras que de alguma forma sagrem a convivência humana e um raro momento em que os inimigos esquecem inimizades, os adversários enterram machados de guerra e os desconhecidos se tratam por conhecidos. Falo da Festa da Mãe Soberana que, em Loulé, leva em triunfo para o alto desse monte largos milhares de seres humanos numa feérica movimentação da qual, uma vez acabada, apenas resta uma coisa que é uma grande coisa – um momento raro de fraternidade humana. Pois, lá no alto do monte e pelas encostas do monte, misturam-se crentes convictos, ateus de conveniência, agnósticos por vários motivos (sendo eu um dos mais fracos motivos), mas também indiferentes por cultura, distraídos da vida arrastados, e pelo meio da amálgama uns quantos desesperados sem causas à espera de um sinal de esperança a que se mistura gente de sucesso para quem a vida tem sido um mar de rosas ou talvez mesmo um pântano de expedientes. O certo é que todos sobem, uns limitam-se a saudar com entusiasmo contagiante, outros acompanham mesmo a Mãe Soberana num exercício secular que apenas pode ter uma explicação que é uma grande explicação – um exercício raro de paz humana, além do mais transbordante de alegria. A isto não se chama espectáculo, chama-se fraternidade.

E mal anda o «orador sagrado» se não percebe isso, se não entende quem tem à frente e se pretende impor um discurso codificado, findo o qual toda a gente, à excepção do próprio, diz que falou muito bem mas não compreendeu rigorosamente nada, apesar da voz bem colocada e da frase bem construída a custa de códigos, tal alguns economistas usam para a crise económica sem nunca enunciarem claramente uma solução ou tal como alguns dentistas para ingloriamente explicarem ao paciente uma terrível dor de dentes não sendo esse o momento para teorias. Foi o que este ano aconteceu, porque há discursos «fraternos» que são contra a fraternidade – prática em que o fundamentalismo, qualquer fundamentalismo (então o islâmico!) é useiro e vezeiro. Pois o «orador» deste ano, vendo aqueles milhares de crânios, o que fez? Desfasado daquela entusiasmadíssima Festa de paz e sem compreender aquela alegre Festa de fraternidade, o «orador» como que descobriu a grande e irrepetível oportunidade histórica de derramar para aqueles crânios as coisas de peso do Antigo Testamento, do Novo Testamento e admito até que do Futuro Testamento, insistindo no filho morto quando todos, todos ali desde ateus a crentes e passando por agnósticos tementes, só vêem o filho vivo, e mais grave, fazendo incidir a oratória sagrada na Mãe Súbdita quando todos, todos desde desesperados a peritos em expedientes da vida só vêem a Mãe Soberana. É claro que, nestas circunstâncias, abandonei o mais rapidamente que pude o alto do monte, como nunca fiz. Ali, ninguém contesta e até todos desejam que a Igreja faça prova de vida o que não consegue com um sermão que nunca se sabe se é mais semelhante ao que no século XVIII antecedia o auto de fé ou se é repetição, ainda que vaga, do que se seguia à purificação dos condenados.

Loulé, melhor, a Festa da Mãe Soberana merece um «orador sagrado», mas um orador que sagre. De outra forma, nem a Mãe Soberana entende porque há no seu património valores que excedem a Festa e que jamais podem ou devem ser alienados – a paz e a fraternidade, coisas entendíveis apenas numa linguagem sem aqueles códigos que não vão ao problema, sem aquela presunção de frase bonita mas que põe em crise a convicção, sem aquelas fórmulas que desumanizam e que por mais que divinamente inspiradas pareçam ser, acabam por dar para o torto.

Carlos Albino

quinta-feira, 27 de abril de 2006

SMS 155. Palavra de general

27 Abril 2006

É claro que o general Mateus da Silva ao afirmar que o Algarve precisa de «um Alberto João Jardim» não estava a dizer que o Algarve precisa de Alberto João Jardim. Nada disso. Precisa de um, não precisa de. E é verdade – o Alberto João Jardim não faz aqui nenhuma falta, mas um faz. O que o Alberto João Jardim é, todos sabemos – homem inconsequente e que desafia a civilidade por todos os poros, provocador consoante as conveniências e figura do mais recuado provincianismo, o Alberto João Jardim está para a Maria da Fonte assim como o Remexido estava para o Ali Babá e seus 40 ladrões. Mas quando se fala da necessidade de um Alberto João Jardim o que se pretende dizer é que o Algarve precisa de líder, de projecto de afirmação, de ideia que reconduza à identidade, que foi exactamente o que um Alberto João Jardim conseguiu dar à Madeira, porquanto quem por certo se lhe seguirá, já não poderá fazer recuar a Madeira para o estado de estagnação e de descaracterização em que se encontrava. E é por esta ordem de ideias que poderemos afirmar que até os Açores tiveram até agora não um mas dois Albertos – Mota Amaral e Carlos César. O Algarve não teve nenhum.

Alguns homens, em certo momento, até tiveram condições para liderar o Algarve, mas faltou-lhes ideia, projecto, discurso e sapatada nas mordomias. Assim aconteceu com Luís Filipe Madeira que tem discursado muito mas feito pouco ou mesmo nada (será quando muito um líder provinciano em que a manha oculta ideias) e em certa medida assim aconteceu com José Mendes Bota que é um CD regravado. A Júlio Carrapato faltou aquele acessório do brilhantismo e sobraram-lhe as navalhadas nas costas, algumas tão discretas quanto fatais. A José Vitorino faltou sobretudo a Enciclopédia Luso-Brasileira, da letra A até à letra Z. A Cabrita Neto faltou perceber que a política não é uma empresa e, quanto a figuras, poucas mais saltam dos registos destes 32 anos de democracia não havendo portanto azo para pedir desculpas para eventuais omissões, até porque Macário Correia ainda não deixou de ser apenas o presidente da Câmara de Tavira. Bem, vem aí a geração mais jovem de políticos que ainda não provaram nem tiveram tempo, muito embora alguns não deixem de ser meros afilhados de vícios antigos e quanto à quota de mulheres, obviamente que não chegam lá apenas por via de convocação de conferências de imprensa e comunicados provincianos para jornais que tomam igualmente por provincianos. Por exemplo para Miguel Freitas a prova de ter ou não ter chama, apenas agora começa, aguardemos.

Assim, as declarações do general Mateus da Silva, algarvio confesso e espírito inquieto com o que se passa na Terra, são uma verdadeira e inesperada pedrada no charco. A política algarvia está reduzida às coisinhas de indivíduos contra individuozinhos das coisas, está confinada à disputa de lugares para listas mais ou menos futuras de deputados, empregos políticos e comissões partidárias e está bloqueada por gente que tem da democracia uma ideia de proveito próprio. O Algarve precisa de um, de dois, de três Albertos que não se transformem no Alberto João Jardim. Mas que precisa pelo menos de um, lá isso precisa. A palavra do general foi um tiro certeiro e não foi um tiro curvo.

Carlos Albino

Nota: As ilustrações escolhidas para este apontamento reproduzem os, até agora, mais credíveis símbolos do Algarve. Em cima, o brasão de armas, e, em baixo, a bandeira, conforme nos descreve o reconhecido perito em hieráldica, Simas Alves de Azevedo. Coisas a ter em conta pelo Governo Civil e pela Junta Metropolitana.

quinta-feira, 20 de abril de 2006

SMS 154. Uma questão de puro civismo

20 Abril 2006

É difícil encontrar região do país pior que o Algarve, em matéria de estacionamento, de ruído e de asseio. O que verifico em Loulé, não encontro em Bragança nem em Castelo Branco e muito menos na Feira; o que se passa em Faro, é difícil em Viseu; o que há em Portimão, seguramente não se vê em Aveiro; as bandas de Albufeira não se comparam às bandas da Figueira da Foz, andar por Silves não se compara a andar por Évora; e o que se avista em Lagos nem por um canudo se enxerga em Braga. Não é que as terras da comparação sejam paraísos, mas não são tão infernos onde o civismo arde e pena. E como eu gostaria que o Algarve fosse uma Terra de Civismo!

Qualquer um, no Algarve, estaciona o carro onde quer desde que descubra uma nesga, qualquer um faz o barulho que lhe apetece e qualquer um atira para o chão o que muito bem entende. Estaciona-se em cima de passadeiras de peões, de calçadas acabadas de fazer, em segunda e terceira fila, onde quer que seja, para não se andar a pé uns metros até à cama ou até à sala; motas e motoretas por aí andam de escape aberto num festival de ruído e em afirmações de poder pelo estrondo do escape; e, quanto à noção de asseio público, nem vale a pena descrever o espectáculo de imundície com cães ou sem cães porque a imundície é sempre de raça apurada. E o curioso é que pouca gente protesta abertamente, que raros são os municípios que levantam o dedo contra este estado de coisas, e que raramente se nota a autoridade a pôr ordem nisto e a zelar pela aplicação da lei, cada um à sua maneira assim contribuindo para a deterioração do ambiente público, da paz urbana e do bem-estar nas ruas onde todos e cada um de nós passamos, afinal, grande parte da vida ou mesmo o melhor da vida.

Por princípio, sou contra a repressão, como sou, também por princípio, a favor de campanhas de instrução pública (sim, digo instrução, não tenho medo da palavra), a favor de campanhas de sensibilização, de acções que previnam tudo aquilo que a repressão não cura nem pode curar – a repressão, apenas em último caso e como último recurso, quando apenas a autoridade pode evitar o confronto directo ou a impunidade continuada e desafiadora dos que fingem não saber viver em sociedade ou, pior, querem mesmo provocar os mais sensíveis alicerces da vida em sociedade.

E como em tudo, há terras piores e terras melhores, e mesmo dentro das melhores há zonas de evidente decoro imposto e outras zonas completamente ao deus-dará – não vou, por agora, citar casos concretos, para que não se diga que torço pelos de Aljezur contra os de Alcoutim ou que enxerto carrapatos em Ferragudo esquecendo-me das pulgas dizimadas em Moncarapacho. Não vou por aí. Mas em todas as terras, os municípios podem e devem fazer mais do que fazem através de posturas e de acções de sensibilização; em todas as terras, as forças com funções de polícia podem e devem actuar mais do que actuam, por vezes abrindo mais os olhos que convenientemente fecham; e todos nós, os cidadãos para quem a palavra civismo foi inventada, podemos e devemos reivindicar, em todas as terras, o bom jogo dos deveres e dos direitos. Mesmo que os deveres sejam difusos, não é sr. Cabrita?

Carlos Albino

quinta-feira, 13 de abril de 2006

SMS 153. As nossas Marbellas de trazer por casa.

13 Abril 2006

Mesmo que não vá, e até peço para não me forçarem a uma tourada, é nisto que gosto dos espanhóis: quando querem matar o touro, matam mesmo e não andam com rodeios a fingir que não se mata para depois matar às escondidas ou fora das vistas despudoradas. E os espanhóis são assim, tanto na fiesta como na política. A ditadura franquista matou sem esconder muito ou mesmo nada, julgando com isso perpetuar-se; e também a democracia espanhola, pelo que se acaba de ver com Marbella mas para perpetuar a democracia, igualmente não hesita em dar a estocada à vista de todos e para que todos saibam, acabando assim com fiesta a mais. E quanto aos portugueses? Pois quanto aos portugueses, o nosso antigo regime autoritário, supostamente homólogo do franquismo, quando quis ou lhe convinha matar, fê-lo sempre com aquela morte que não se vê, a morte discreta, na sombra, atrás de biombos ou pela calada da noite num monturo, pelo que tal morte, por isso, jamais poderia ser descrita como acto praticado por autores assumidos ou provados. E mesmo quando esporadicamente a morte se viu ou foi vista, como no caso do assassinato do general Delgado, ou mais remotamente no “acidente” que vitimou Duarte Pacheco, a nossa branda ditadura providenciou sempre para que se chegasse à seguinte conclusão bem portuguesa: ninguém foi, não se apurou, a investigação foi inconclusiva e os tribunais declararam-se sem provas concludentes…

Vem isto a propósito de Marbella, da Marbella espanhola. O governo central de Madrid, em sintonia, como se viu, com a autonomia andaluza, o que fez quando a fiesta da corrupção tinha que acabar em final de espectáculo? Pura e simplesmente, o governo dissolveu a câmara, fechou a casa municipal para obras, deu a estocada. E nós, salvo seja? Pois em Portugal, com as nossas Marbellas de trazer por casa, imita-se na praça a estocada mortal para não se faltar à “verdade” do toureio, mas apenas se imita, imitando-se arrastadamente no tempo, até que algum dia, se consiga induzir a conclusão de que ninguém foi, não se apurou, a investigação foi inconclusiva e os tribunais declararam-se sem provas concludentes…

É claro que fazemos votos para que, no Algarve, Deus nos livre de Marbellas, embora indícios de fiesta não faltem, ou não tenham faltado ao longo destas décadas de democracia – apesar das nossas festas serem todas menores, temos várias Marbellas de trazer por casa, algumas até a nível de freguesia onde tenha havido mais um andar a troco de qualquer coisa impossível de apurar e sem azo de prova. E compreendamos: nestas coisas de fiesta ou de toureio da transparência, os toureiros autárquicos de Marbella cometeram um erro fatal: deram nas vistas. Aquilo foi avião, foi helicóptero e foram tantas e tão vistosas as manuelinas com o capote da legitimidade política, que estas culminaram na quarta fortuna de Espanha, o que era de dar nas vistas. Pois, aqui, em Portugal, também nesse mundo de faenas em que o enriquecimento sem justa causa dá espectáculo à nossa escala (sem helicóptero, claro), a discrição ou o não dar nas vistas é a regra que vai de encontro ao que somos tanto na política como nos negócios esdrúxulos. E é assim que quando se tenta indagar as razões que estão por detrás dos maiores atropelos que estão aos olhos de todos como factos consumados (você, caro leitor, não conhece factos consumados?) eis que, quanto a responsáveis, a conclusão é e será sempre a de que ninguém foi, não se apurou, a investigação foi inconclusiva e os tribunais declararam-se sem provas concludentes…

Moral da história: os da Marbella real, comparados com os das nossas Marbellas de trazer por casa, são uns aprendizes de feiticeiros, não é sr. Cabrita?

Carlos Albino

quinta-feira, 6 de abril de 2006

SMS 152. João Guerreiro, peço deferimento!

6 Abril 2006

O novo reitor da Universidade do Algarve, João Guerreiro (bom trabalho, amigo!) anunciou intenções e medidas logo no primeiro minuto das suas funções. Para já, foi algum abanão nas consciências instaladas e nas inteligências estaladas quando João Guerreiro disse, alto e bom som, que a ligação da universidade à Sociedade não se faz apenas com contratos, com protocolos. Muito bem, João Guerreiro – contratos e protocolos são naturalmente importantes mas não são tudo, estão longe de ser tudo e mal de uma universidade se invoca contratos e protocolos (com municípios, empresas, estruturas regionais…) fundamentalmente para descargo de consciência. e como meio para relativamente sustentar consciências instaladas e inteligências estaladas.

O papel de uma universidade e de cada universidade é o que considerandos como os de João Guerreiro nos levam a questionar. Não cabe, obviamente, neste modesto apontamento (as SMS são mera tentativa de reposição de um velho género jornalístico que é precisamente o apontamento e não mais do que isso) pois não cabe aqui fazer lição, muito menos dar lição e, claro, ensinar a lição ao padre-cura. Mas cabe aqui, sim, observar, assinalar. Então assinalemos, no que toca a uma Universidade do Algarve que não se quer ficar pelos contratos e pelos protocolos.

E haverá falhas, haverá lacunas na Universidade do Algarve? Até pela definição de universidade, há. – um centro de saber tem que permanentemente identificar as zonas de saber que lhe escapam e onde o saber deve e tem que entrar se pretende uma ligação constante, profícua e facilitadora para coma Sociedade onde se insere e que serve. Por exemplo, na sua tarefa de observatório em que nenhuma outra instituição a pode substituir com total rigor – pode mas não será com todo o rigor. Já o dissemos alguma coisa sobre isto a propósito da triste novela do observatório do turismo. Mas há mais casos, citando-se, sem que se veja nisto puxar a brasa à sardinha, por exemplo a área da Comunicação Social que é uma área-chave e que é uma área onde, ou muitos nos enganamos ou dentro em breve vai acontecer no Algarve o mesmo que na imobiliária sucedeu – iniciativas construídas e pensadas apenas na mira do lucro a qualquer preço, ao serviço do lucro como finalidade última, senão até como braços branqueados de lucros difusos.

A Universidade do Algarve tem nesta área da Comunicação Social uma tarefa-chave na sua ligação à Sociedade e que obviamente não se esgota com contratos, com protocolos. É até uma tarefa obrigatória, pelo que, chamando os nomes às coisas, caberá à Universidade do Algarve erguer um Observatório da Comunicação Social do Algarve não para fazer história dos anos 20 do século passado mas para produzir relatórios anuais para este Século XXI, relatórios que sejam guião crítico da Sociedade e para consulta obrigatória das consciências não instaladas e das inteligências coesas. A «nossa» universidade tem, neste domínio especialistas (bons), peritos (estudiosos e abnegados) e até animadores aguerridos que por serem aguerridos merecem a minha particular estima mesmo quando a animação se vira contra mim. Então, reitor João Guerreiro, requeiro a VEXA a constituição de um Observatório da Comunicação Social do Algarve, feito com a prata da sua casa (que é boa) e que produza relatórios anuais sobre o estado das coisas, doa a quem doer, mas sempre ligando esta área-chave da Sociedade à Universidade. Peço deferimento.

Carlos Albino

quinta-feira, 30 de março de 2006

SMS 151. Post-scriptum muito comprido

30 Março 2006

O sr. Cabrita, presidente do Conselho Distrital de Faro da Ordem dos Advogados, contestou aquilo que aqui referimos sobre famas. Dirigindo-me pois ao sr. Cabrita no mesmo tom em que se legitimou, está patente que ele confunde iniciativas de advogados no Algarve com iniciativas de advogados do Algarve. Além disso, o sr. Cabrita amputa a pergunta aqui feita e que se repete: «Os advogados com arraiais assentes no Algarve, alguma vez debateram formalmente entre si como está e como pode ser a justiça melhorada e, já agora, a imobiliária no Algarve, livrando-se da fama que alguns têm?». A isto, o sr. Cabrita diz que sim, nós voltamos a dizer que não.

Com certeza que têm sido feitas «reuniões magnas» de advogados, magistrados e solicitadores no Algarve – a região até precisa desse movimento de congressos, reuniões magnas, fóruns. Tais congressos foram no Algarve como poderiam ter sido na Póvoa do Varzim, não se contesta. Com certeza que, pelo nosso lado, até seguimos com particular interesse o VI Congresso dos Advogados onde, por sinal, foi discutida com coragem, rigor e precisão aquilo que os jornalistas há muito deviam ter feito e não fizeram - a sua organização deontológica em bases democráticas. O sr. Cabrita concederá que atribuímos pior fama aos jornalistas no Algarve que a alguns advogados no Algarve. Fama, repetimos. Fama e apenas fama. Por certo inconsistente, mas fama.

Mas fora essas reuniões magnas, devemos dizer ao sr. Cabrita que muito gostaríamos de registar debates regionais, sérios e com serenidades, sobre famas e realidades da justiça do Algarve e no Algarve. Entre nós e com as parcerias naturais, designadamente universidade e institutos superiores do Algarve. E já agora - se o meu interlocutor aceitar mudar o tom também o mudarei com todo o gosto - devo dizer ao sr. Presidente do Conselho Distrital da Ordem dos Advogados que até apoio a extensão desse debate para áreas onde a deontologia e os exercícios profissionais podem reclamar zonas de harmonização recíproca, designadamente advogados e jornalistas. Já uma vez tentei isso no passado, sem êxito, por sinal por culpa dos advogados e não dos jornalistas, porque há pessoas que apenas ligam às reuniões magnas com presenças magnas. Mas se o Dr. António Cabrita desejar actualizar essa agenda deontológica e manifestamente não-sindical (sindicatos é outra questão), garanto-lhe que da banda dos Jornalistas tem gente com quem contar, gente que não se revê nem quer rever-se na fama de alguns, poucos, insignificantes diga-se, mas basta um só para a fama – seja jornalista, seja advogado.

Carlos Albino

quinta-feira, 23 de março de 2006

SMS 150. Mudanças no território

23 Março 2006

O governo parece apostado em mudar o mapa ou pelo menos o aspecto do mapa. Primeiro, com o fim dos distritos a ditarem a extinção de 13 dos 18 governos civis, mantendo-se cinco dessas representações do poder central nas áreas a que, supostamente, se atribui características de região, como será o caso do Algarve. Depois, com o fim das comarcas judiciais e a criação de novas unidades territoriais para aplicação da justiça. Isto não significa profissão de fé do governo na regionalização, nem sequer o tipo de vontade que tem em matéria de descentralização e desconcentração – significa apenas alguma vontade de arrumo das coisas, com o estabelecimento de um critério claro. Finalmente, com o anunciado propósito de submeter as assembleias metropolitanas a sufrágio, é um primeiro passo para a legitimação de estruturas que não sendo «de região», particularmente no caso do Algarve, servem para isso – é uma questão de vontade e daquele bom senso político sinónimo de consenso.

No Algarve, as medidas não vão causar polémica – não se perde nada, embora também não se saiba se os ganhos serão relevantes. Seja distrito de Faro como tem mandado a tradição, região do Algarve por favor ou área metropolitana por condescendência, os conceitos reportam-se ao mesmíssimo território e, mais ou menos, têm-se reciprocamente suportado como respeitáveis figuras de estilo. O chefe do distrito há muito que desapareceu, a região não existe e a área metropolitana nem sequer trabalha a meio-vapor.

Seja como for, os dados estão lançados e resta saber quais os passos que se seguirão e aí é que bate o ponto. Mudar o aspecto do mapa, é positivo. Mas não basta mudar de aspecto. Já se tentou «mudar de aspecto» com o fundamentalismo municipalista e veja-se os resultados em termos regionais – uma manta de retalhos; também se tentou «mudança de aspecto» com aquela ideia peregrina das secretarias de estado descentralizadas (ainda se recordam?) e veja-se no que deu. Aguardemos, pois. Já basta de areia para os olhos.

Carlos Albino

quinta-feira, 16 de março de 2006

SMS 149. Se a moda pega...

16 Março 2006

Sei que há pareceres que viabilizam, mas, mal de uma sociedade democrática e de um estado de direito que seja ao mesmo tempo estado de transparência, se os pareceres apenas tivessem que ser jurídicos e só jurídicos, sem mais, sem algo mais que tem a ver com a ética política. Refiro-me à questão das incompatibilidades dos titulares de cargos políticos, designadamente aos que exercem estes cargos a tempo inteiro. Mais concretamente me refiro a casos em que presidentes de junta de freguesia acumulam funções de assessoria ou de adjuntos de presidentes de Câmara. O PS fez isto, agora o PSD faz o mesmo, uns imitam os outros e é apenas por astuta veneração pelo estado de direito que se recorre ao parecer jurídico, mas perdeu-se o pudor voltando-se as costas ao estado de transparência.

É inadmissível, do ponto de vista ético, que um presidente de junta seja ao mesmo tempo adjunto do presidente de câmara, podendo influir em matérias para as quais convirá separação clara e inequívoca de funções, quer de âmbito financeiro, quer do foro urbanístico com toda a carga de venalidade que neste Algarve se conhece. Aliás, os casos de duvidosa compatibilidade estiveram e estão aliados a casos de duvidosas parcerias, interesses e influências. O parecer jurídico pode encontrar a escapatória de que a lei é omissa ou que não proíbe, logo sendo permitido... é o habitual mas detestável corolário.

Nos casos em que o da junta é um quadro, um reputado quadro e insofismável especialista, vá lá, ainda se compreenderá que o presidente da câmara não queira perder o préstimo do quadro e o contributo do especialista. Mas quando não se trata de um quadro, muito menos de um especialista e, quando muito, de se trata de conhecido artista? Aí, desculpem-me, não compreendo como é que o da junta a tempo inteiro possa ser adjunto da câmara a tempo inteiro igualmente.

Se a moda pega, é o desvirtuamento das juntas de freguesia e é a suspeição instalada nas câmaras municipais. A coisa é triste e quem pode sair mal do filme não será tanto o da junta mas, desnecessariamente, o da câmara. Nem tudo o que é permitido, é tolerável. A deformação dos juristas não é boa conselheira...

Carlos Albino

quinta-feira, 9 de março de 2006

SMS 148. A fama que alguns têm…

9 Março 2006

1 – Os arquitectos que vivem e usufruem do facto de desenharem no Algarve, fizeram alguma reunião, debate ou fórum – para não chegar a congresso – para debaterem como servir melhor e mais eficazmente o Algarve e os cidadãos deste Algarve onde vivem e do qual usufruem e como podem livrar-se da fama que alguns têm?

2 – Os advogados com arraiais assentes no Algarve, alguma vez debateram formalmente entre si como está e como pode ser a Justiça melhorada e, já a agora, a Imobiliária no Algarve, livrando-se da fama que alguns têm?

3 – Os engenheiros que por aí ornamentam os paraísos de empregos municipais, alguma vez debateram como podem servir o Algarve, como podem evitar estrangulamentos no desenvolvimento e como podem livrar-se da fama que alguns têm?

4 – Os jornalistas que por aí sobrevivem escrevendo sobre tudo e mais alguma coisa do Algarve fizeram alguma reunião para debaterem os limites entre a informação a propaganda, a fronteira entre a narrativa da realidade e a publicidade dos negócios virtuais, a linha que demarca a divulgação do que se revele de interesse público e o capacho onde os autarcas mais poderosos limpam os pés, havendo muito mais quem limpa, livrando-se da fama de uns tantos?

5 – E os professores alguma vez se livraram da fama de uns tantos?

6 – E os chefes de estação para não falar dos nadadores-salvadores?

7 – E os engraxadores, os lambe-botas e os rastejantes logo a seguir prepotentes?

8 – E os plagiadores, os plumitivos e os calaceiros logo a seguir virtuosos e moralistas que até os bombeiros evitam contactar?

9 – E os intermediários?

10 – E os que vivem também e apenas à custa da fama dos outros (dos arquitectos aos intermediários), alguma vez fizeram um congresso, um seminário, uma simples reunião que fosse para debate sobre como a chantagem ou o jogo do ou fazes o que me interessa ou eu digo o que tu fazes e ficas tramado, alguma vez discutiram como esse jogo está a bloquear o exercício livre da Crítica no Algarve, a negar a noção mais sadia de Autarquia, a bloquear a própria Política e, em última análise, a riscar do mapa a nossa restante Identidade, a qual, segundo julgo, será já o primeiro caso de gripe das aves?

Carlos Albino

quinta-feira, 2 de março de 2006

SMS 147. O Algarve Oriental

2 Março 2006



É mau, muito mau para o Algarve e para o País, a desatenção constante para o Algarve Oriental. É evidente que o Orçamento de Estado não pode prestar atenção para todos os lados e ao mesmo tempo, mas a desatenção que vem de há décadas e décadas para a zona algarvia de fronteira com Espanha não serve a ninguém do lado de cá. Refiro-me naturalmente a Vila Real de Santo António e a toda a área onde o Guadiana assume esplendor próprio para se encontrar com o mar. Desta desatenção, os algarvios têm sido muito responsáveis, sobretudo os algarvios que vivem obcecados pelos centros de poder, pela sua própria e egocêntrica afirmação nesses centros de poder, e pelo «comércio» político que fazem com os decisores nacionais exclusivamente em função dos alegados centros de poder em que é suposto terem mão no Algarve, os quais, diga-se, pouco ou nenhum poder têm, nem sequer o poder de influência.

Ora falta para o Algarve Oriental uma ideia de arrojo que renda Espanha e os Espanhóis, como de resto os Espanhóis estão a fazer por toda a linha de fronteira com Portugal sem resposta nossa, sem um adianto original. Falta neste Algarve Oriental uma ideia algarvia e não apenas autárquica que atraia, um plano de afirmação do Sul e não apenas de capricho voluntarista, um projecto salvador deste castelo de cartas em que o Algarve se converteu, à mercê de ventos e marés. Falta sobretudo que o Algarve seja politicamente afirmado como sendo Vila Real, Faro e Portimão e não apenas Faro, Portimão e Faro. O Guadiana é um valor estratégico incomparável no contexto algarvio e devia ser por isso um polo de referência. Não é, por irresponsabilidade de alguns algarvios detentores dos centros de poder mas que cantam na sé de Viena como eunucos, e sobretudo por erro de sucessivos governos onde os algarvios ou não têm voz ou até têm vergonha da voz que têm.

Carlos Albino

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

SMS 146. O milagre da multiplicação

23 Fevereiro 2006

É um problema a que não consigo dar resposta. Possivelmente esse problema corresponde a uma daquelas condenações a que o ser humano está sujeito e que é a de, permanentemente, ter de se sujeitar ao dilema da escolha entre o grande e o pequeno, sendo que aquilo que é grande tem tanto direito e até legitimidade como aquilo que é pequeno. Isto a propósito do Carnaval ou dos carnavais – há um grande, os outros são pequenos, alguns pequenos já maiores do que eram, outros ainda mais pequenos, mas cada terra quer ter o seu Carnaval, convencendo-se cada uma que o seu Carnaval é o maior, o mais animado, o mais genuíno, o mais popular, por aí fora. E quanto mais carnavais, cada um deles mais freguesia tira ao outro, porque o Algarve tem a população que tem, os forasteiros são com o número que são e ninguém é omnipresente – ou se está num lado, ou noutro. É certo que todas as terras têm direito ao seu carnaval, nenhuma terra, grande ou pequena, pode reclamar um decreto que proíba o carnaval da outra, sendo também certo que, esta e outra terra, tal como na Política, também no Carnaval e nas mascaradas, ficam mais fechadas sobre si mesmas, a rirem-se de si próprias ou para si próprias, ou seja, se a festa do carnaval fosse procissão, fica cada terra a atirar os foguetes e a apanhar as canas. Acaba por não ter piada este milagre da multiplicação dos carnavais.

É claro que, para um optimista como eu que prevê sempre um fim trágico para tudo (permitam-me esta brincadeira de carnaval...), o caso até poderia significar vitalidade, força anímica e não apenas um estado de alma próprio dos macacos de imitação. Só que receio bem que tenha que ser, neste caso, excepcionalmente pessimista prevendo um fim alegre para tudo (novamente desculpas por repetir de outra forma a brincadeira...). E porquê? Suspeito que a pandemia da imitação – fenómeno que se transmite também das aves para os humanos – é já quase uma pose cultural. À falta de imaginação imita-se, copia-se.

Pois o que se passa com os carnavais do Algarve acontece com o resto das festas – da Política à Comezaina, da Cultura aos Cultos da Personalidade. Querença inventou, e bem, a festa das chouriças – pois há já chouriças por todo o lado. Silves, julgo que foi Silves, inventou a das cervejas – há já cerveja por todo o lado. Não vou ser exaustivo, mas há festas da sardinha por todo o lado, do marisco por todo o lado e dentro do marisco a festa do camarão, há feiras do livro por todo o lado, festivais internacionais por todo o lado, e, claro mas noutro plano que é aí que quero chegar, também a festa das marinas e das construções mafarricas por todo o lado – se Vilamoura tem, porque motivo Albufeira não tem, e se esta tem porque não Faro, e Tavira, e Castro Marim, e Lagos, e Aljezur, e Olhão? E já agora porque não se faz também uma marina ou um edifício de 18 andares neste preciso espaço deste mesmo apontamento, facilitando assim o trabalho de Lídia Palma que me atura todas as semanas no envio da prosa sobre a linha de risco do fecho do jornal?

Carlos Albino

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

SMS 145. Ministros e secretários absolutistas...

16 Fevereiro 2006

É evidente que o Presidente de São Brás de Alportel tem toda a razão, neste assunto do novo mapa das freguesias, ao questionar os procedimentos e métodos do secretário de Estado Eduardo Cabrita. A forma como este governo – não é só o secretário Eduardo Cabrita, há pior – , está a avaliar o Algarve, e sobretudo a maneira como pondera o Algarve Interior que é a maior parte do Algarve e também a mais pobre, com algumas áreas que são mesmo as mais pobres do País, é um erro. Um erro que corresponde ao desapontamento de muitos – o meu caso, para atalhar conversa – , e que certamente não dará regozijo a ninguém mesmo àqueles que nunca acreditaram e por isso não votaram na gente deste governo, porque o erro não é mais do que o prolongamento dos erros dos governos anteriores. Temos vindo a engolir, à vez.

O governo, melhor, alguns membros deste governo ainda não perceberam (perceberam, fingem é que estão despercebidos) que o facto de governarem suportados por maioria absoluta, não lhes dá legitimidade para serem absolutistas... Sim, para governarem como se fossem pequenos reis iluminados, cheios de algum direito divino, prescindindo pois da audiência pedida e da obrigatoriedade democrática da audição. Numa democracia, nada pior do que isto, sendo isto pior do que a arruaça – a arruaça ouve-se mas o absolutismo de gabinete é silencioso e quase sempre mata sem ai nem ui como espetar sabre no rim. Fazer isto é desvirtuar a democracia. É fugir ao escrutínio público por mais que se simule aparecer em público por via da televisão que se converteu na mais recente escrava da corte, ao mesmo tempo bôba da corte.

Eduardo Cabrita quer extinguir a freguesia de São Brás de Alportel? Então porque não consultou previamente a Câmara, porque não ouviu as populações? Também engoliu o garfo?

Mexer na indefesa organização administrativa do pobre Algarve Interior terá que ser feito assim, a traço de esquadro sobre o mapa das conveniências orçamentais, tal como a Conferência de Berlim desenhou a África?

Carlos Albino

PS: Já agora, fiz umas contas que as Estatísticas da Europa devem ponderar muito a sério – se o Algarve tivesse apenas dois habitantes, o Senhor André Jordan e eu, o rendimento per capite seria o que nem imaginam nem eu sei, mas que o Senhor Jordan sabe.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

SMS 144. «Discurso Algarve» praticamente nulo

9 Fevereiro 2006

Naturalmente que não podemos estar à espera de um decreto para que haja um «discurso Algarve» ou se ouça, mesmo ao longe, algum Algarve político no discurso político. Pela certa, esse decreto jamais virá de Lisboa. Não haverá decreto nesse sentido, nem esse discurso pode ser imposto entre nós, pela vontade de uns sobre a vontade dos outros. Resta-nos a constatação: politicamente o «discurso Algarve» é nulo. E porquê? Primeiramente, as iniciativas, poucas que sejam, visando a regionalização, pouca que esta também seja, tais iniciativas não têm consistência política e não ganharam a opinião pública algarvia que, de resto, cada vez existe menos, tão dividida e retalhada tem vindo a estar em função das autarquias cada vez mais fechadas sobre si e dentro de si, e em função de uma comunicação social que anda entre a sobrevivência e meia dúzia de ávidas considerações pessoais pois nada há a esperar da comunicação social de raiz administrativa (a pública ou, seja como for, a dependente do Estado, obviamente). Não há «discurso Algarve» - a Junta Metropolitana não assume nem deixam que ela assuma, a associação de municípios tem a unidade própria dos casais desavindos que em comum mantêm apenas a discussão pelo que recusam ao mesmo tempo a separação para que a discussão se prolongue como a única coisa que têm em comum, e, além disto, sobressaindo como causa também castrante de um discurso político próprio, acresce o jogo de manutenção ou disputa fratricida dos empregos políticos, supostamente bem pagos e que dependem meramente das políticas locais que, como se sabe, não brilham pelo escrutínio – muitas empresas tuteladas pelos municípios são exemplo desta falta de crivo ou de avaliação, responsáveis que são pelo aparecimento de uma nova classe de funcionários apolíticos, paradoxalmente os filhos mais legítimos ou legittimados da política. Ninguém, há escassos anos atrás, pensaria que o Algarve chegaria a 2006 sem lideranças (líder e alternativas a líder), sem uma ideia política discutida na avenida larga da crítica e, sobretudo, sem discurso. Ao Algarve chamam-lhe região mas não é, deram-lhe o título de metrópole mas não cheira a nada. Um caranguejo não pode passar por sapateira.

Carlos Albino

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

SMS 143. Terceiro Presidente

2 Fevereiro 2006

Cavaco Silva é o terceiro Presidente da República que teve o Algarve como berço, não interessando por agora se o Algarve ficou nos olhos em cada um desses três com a mesma intensidade – interessa o berço, a ligação inicial a algum destes 16 ladrilhos de barro autárquico, interessa aquela cor da terra nítida e do mar profundo que se grava nos olhos de criança e que faz com uma criança seja algarvia deixando para adulto o que queira ser em adulto. Estão neste caso Teixeira Gomes, Mendes Cabeçadas e agora Cavaco Silva – o “nosso” terceiro Presidente.

Teixeira Gomes, mesmo com o labéu da resignação em 1925 na sequência de um mandato marcado por gigantesca instabilidade política e social e passados escassos dois anos apenas após ter sido eleito no Congresso, obviamente tem um lugar na História mais pelo sulco que, como exímio estilista da língua, deixou nas Letras.

Para Cavaco Silva, a História começa em 9 de Março e porque se trata de História as adivinhações não têm legitimidade. Mas suspeita-se que fará História e aguardemos que seja boa História ou pelo menos História que reponha nitidez nesta terra e profundidade no mar – perdemos muita nitidez e muito mar.

Mas, lamentavelmente, apenas Mendes Cabeçadas está mal colocado na História. Mal e injustamente. Louletano, tal como Cavaco Silva, Mendes Cabeçadas nesse já longínquo ano de 1926 e com o golpe de 28 de Maio como cenário, recebeu do Presidente Bernardino Machado a chefia do Governo e com a posterior renúncia de Bernardino à chefia do Estado, Cabeçadas passou a exercer a Presidência da República por escasso tempo, escassíssimo, mas o suficiente para ficar com o ferrete de homem da Ditadura – o que não era, nem foi verdade. Mendes Cabeçadas, tal como outros grandes homens da época – Fernando Pessoa, António Sérgio... para não enumerar mais – aderiu ao golpe do 28 de Maio pensando que o essencial do regime constitucional ficaria acautelado e que a purga da corrupção e do tráfico de influências que então grassava e afundava o País seria uma purga transitória, breve e sem endereços para regime autoritário e de partido único. Mendes Cabeçadas, o homem a quem se deve o sinal de arranque da implantação da República, renunciou à chefia do Estado porque bastaram-lhe poucos dias para perceber onde estava metido e até à morte foi opositor da Ditadura.

Não é justo que Loulé, por exemplo, ainda não tenha promovido Mendes Cabeçadas ao seu posto de almirante (ainda o trata num largo de sub-mundo como tenente!) e os que o não têm em conta como o segundo Presidente algarvio, se calhar nem viram ainda quem a galeria presidencial do Palácio de Belém abre com o relógio pelo qual Mendes Cabeçada viu as horas em 1910... Por acaso Sampaio foi o primeiro em Belém a fazer a primeira justiça a este marinheiro sonhador que, sendo louletano, sempre esteve muito acima dos marinheiros de água doce que Loulé tem. Voltaremos a este assunto de Mendes Cabeçadas porque a anterior câmara local de Vítor Aleixo tem culpas no cartório apesar da santa paciência. Ainda bem que foi Sampaio a fazer alguma justiça porque se fosse Cavaco a fazer isso agora, poderia ser entendido como puxar a brasa à sua sardinha.

Carlos Albino

sábado, 28 de janeiro de 2006

SMS 142. A Sala do Mundo às Avessas

28 Janeiro 2006

Possivelmente todos os queridos leitores sabem que em Mangualde, lá para a Beira Alta, precisamente no Palácio dos Condes da Anadia – sumptuoso solar que vale a pena visitar – a sala de baile mudou justificadamente de nome e toda a gente lhe chama a «Sala do Mundo às Avessas». Os azulejos do século XVIII que forram essa sala, baseados em gravuras de Oudry, representam mesmo este mundo como se estivesse virado ao contrário: os barcos e peixes andam nas nuvens, as aves na profundeza dos mares, são os burros que puxam os homens e não os homens que puxam os burros, tudo, muito do que possa imaginar está tudo ao contrário, a começar pelos caçadores que são caçados pelos bichinhos que normalmente caçam... E como todos os meus queridos leitores estão à espera que eu fale das presidenciais e mais precisamente dos resultados eleitorais no Algarve, naturalmente que não poderia guardar para mim essa imagem da Sala do Mundo às Avessas que é uma metáfora ímpar do que se passou, do que se passa e possivelmente do que se irá passar. Sendo mais concreto e indo directamente ao assunto, não posso deixar de observar que o mundo estará às avessas quando vejo os principais responsáveis pela falta de democratização dos partidos – designadamente alguns velhos suseranos do PS que discursaram muito na vida e não fizeram nada pelo Algarve – quando vejo esses, agora, a encabeçar movimentos de cidadania contra o clientelismo, as mordomias... Portanto são os burros que conduzem ao avesso os homens, tal como na sala do Palácio de Mangualde aonde já não é preciso ir – basta observar o comportamento de alegados líderes do Algarve, os quais afinal nunca foram líderes mas apenas o avesso e, para mais com o desplante de conduzirem homens.

Carlos Albino

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

SMS 141. É de fazer arrepios na espinha de todos os Algarvios

19 Janeiro 2006

Os dados agora tornados públicos pelo Júri Nacional de Exames, designadamente sobre duas disciplinas fundamentais (Matemática e Língua Portuguesa) deve obrigar todos os Algarvios a uma profunda reflexão sobre o estado e condições das nossas escolas sem excepção. As médias de nível de exame do 9.º ano não podiam ser piores mesmo considerando o péssimo quadro que o todo nacional já apresenta, pelo que será bom e aconselhável que pais, professores e autarcas pensem no assunto com responsabilidade e actuem. Sobretudo actuem, façam alguma coisa para retirar a juventude do beco sem saída que é o da ignorância quase já militante, a que se junta a impreparação para a enfrentar a vida e a dependência suicida das actividades parasitárias.

No que diz respeito à Matemática, em grande parte dos concelhos do Algarve ou pelo menos nos mais significativos ou que reivindicam significar o progresso do Algarve, os resultados estão, em números redondos, ao nível das piores médias de exame no País já de si mesmo nada brilhantes, e, no que se refere à Língua Portuguesa, mais décima menos décima, a situação geral do Algarve é a mesma da Matemática, ou seja, péssima.

O Algarve Escolar, apesar do esforço desesperado de pouco mais que meia dúzia de professores, está mal nos resultados e era previsível que assim acontecesse porque o Algarve Cultural mal está e o Algarve Económico, à excepção de uns quantos empresários resistentes e por certo românticos, é uma falácia financeira e uma arte de enganar.

Esta matéria é grave pelo que voltaremos ao assunto.

Carlos Albino

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

SMS 140. Prémio SMS de Jornalismo: Carlos Branco

12 Janeiro 2006

Pois, no dia dedicado aos Magos, a decisão foi tomada: o Prémio SMS de Jornalismo 2005 foi atribuído ao Jornalista Carlos Branco, responsável pelos serviços informativos da RDP/Algarve. Equilíbrio, distanciamento e honestidade intelectual são virtudes reconhecidas neste jornalista que, numa casa difícil, com escassos meios para o Algarve que é, e, enfrentando pressões de todas as panelinhas e mais algumas, tem conseguido fazer um sulco de incontestável seriedade e evidente serenidade.

Carlos Branco junta-se assim a Idálio Revez (2004) na lista ainda curta de premiados mas que, a partir de agora (em 2007 será mais um ou uma...) vão passar a encontrar-se sempre com um convidado especial com quem debaterão a situação do jornalismo no Algarve que não é brilhante, diga-se de passagem. Para este 2006, o convidado especial vai ser o Governador Civil de Faro - esperamos que António Pina aceite este modesto desafio, todavia se não aceitar, paciência. O encontro será nem mais nem menos aquilo que os políticos de carreira e também os artistas subsidiados costumam há muito designar por «almoço de trabalho». Por uma questão de agenda, será em Faro e até final de Janeiro.

Um abraço para o premiado que não vai receber ouro, nem incenso, nem mirra, mas tenha a certeza de que se trata de uma distinção pura que é pura distinção.

Carlos Albino

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

SMS 139. Presunção e água benta

5 Janeiro 2006

Ouviu-se dizer por aí que terminou aquela coisa que teve o nome de Faro-Capital-Nacional-da-Cultura através do que almas bem intencionadas bem anunciaram querer «resgatar a cidade de Faro e a região do Algarve da marginalidade cultural», além disso juraram «apostar na continuidade e na consolidação dos projectos culturais existentes em Faro e na região do Algarve», e, ainda mais, apregoaram aos quatro ventos que essa tal coisa iria «projectar nacional e internacionalmente a cidade de Faro e a região do Algarve, ambas enquanto pólos de turismo cultural e de actividades ligadas às indústrias da cultura e do lazer».

Na prática, e para não gastar nem muitas palavras nem muito espaço, essa coisa foi apenas uma pequena agenda cultural do tamanho, qualidade e comparável à agenda cultural da Câmara de Cascais para 2005, ficando muito aquém da agenda cultural da Câmara de Oeiras, para não citar as agendas de Matosinhos, Póvoa do Varzim e Vila Nova de Gaia.

Essa coisa não resgatou Faro (o que é isso de resgate? Faro foi feita refém no Iraque da Cultura Portuguesa?), e muito menos poderia resgatar a «Região do Algarve» pois a Região do Algarve não existe e não vale a pena cultivar equívocos. Além disso, duvido que os projectos culturais existentes em Faro e no Algarve tenham ficado a dever alguma coisa a essa coisa, e, finalmente, quanto a essa também coisa de «projectar nacional e internacionalmente» a cidade de Faro e a região do Algarve, não digo que dê vontade de rir mas dá vontade de ter piedade porque pelo provincianismo e apenas se pode ter piedade.

É claro que Faro merecia e o Algarve também merecia que Faro tivesse merecido uma Capital Nacional da Cultura cujo merecimento fosse mais do que presunção e água benta.

Carlos Albino

P.S.: É bom lembrar que no dia 6, Dia de Reis, será atribuído o Prémio SMS de Jornalismo ganho em 2004 pelo Jornalista Idálio Revez.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

SMS 138. Casa do Algarve

29 Dezembro 2005

Parecendo que cai mas não cai, com o peso do passado mas, a bem da verdade, reflexo apenas do peso que o Algarve tem, aí temos a Casa do Algarve que a democracia em nada facilitou porque os democratas, os nossos democratas algarvios foram ao longo dos anos pensando apenas nas suas carreiras pessoais e nas suas ganhunças com a política entre um lugarzitro em S. Bento, uma chance rara nalguma secretaria de Estado menor e, para desenjoar, uns quanto mensalões em Estrasburgo que até dão para pagar papalvos. Apesar disto, a Casa do Algarve continua de pé, já resistiu ao pior e, com nova sede a ser erguida de raiz partir de 2007, prepara-se para o sétimo fôlego da sua vida e para reassumir o papel de agente facilitador do Algarve e dos Algarvios junto do poder em Lisboa e da opinião pública portuguesa, quer se queira ou não, é filha ilegítima de Lisboa. Já se viu claramente que a democracia não se esgota nos partidos e, então no caso particular do Algarve, está mais do que provado que os partidos recusaram o seu papel pedagógico do debate público. PS e PSD parece que existem para apagar a ideia de Região da cabeça dos Algarvios, o PCP não conta e é pena, os dissidentes do PCP sentaram-se no adro da política a palitar os dentes, o BE tem piada mas ainda é cedo para se acreditar na salada, e o CDS nem chega a ter piada porque quando aparece no Algarve não foge da fama de ser mera obra clandestina na falésia do PSD. Nestas três décadas de obsessão pelos partidos, a ideia da Casa do Algarve chegou a ser posta de lado como desnecessária, e praticamente como que jogada para o balde do lixo pelos políticos de carreira responsáveis pelo desatino emproado do PS, pelo mau corridinho do PSD, pelo jogo de manecas do PCP e pelo oportunismo de sacristia do CDS. Ora, como o Algarve vai precisar, e muito em breve, da sua Casa do Algarve como pão para a boca, tal como os Açoreanos há muito que perceberam que precisam da Casa dos Açores, os Beirões da Casa das Beiras e os Alentejanos da Casa do Alentejo, que 2006 seja um ano grande e um grande ano para a Casa do Algarve tão estupidamente esquecida por uns quantos e menosprezada por outros tantos - precisamente os tais de que já estamos fartos porque levaram três décadas a olhar para os seus umbigos e para os empregos dos seus filhos e filhas que deputam e já delegam tal como os pais, sendo que a Democracia não é para isto.

Carlos Albino

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

SMS 137. Os italianos, por exemplo

22 Dezembro 2005

Para não falar dos chineses que imitam tudo e quando imitam as cópias são aos milhões, e também para não falar dos espanhóis que vendem gato por lebre mas porque vendem, arrecadam, falemos dos italianos e a propósito de presépios. Pois, para o presépio deste Natal, quem andou à procura das tradicionais figuras de barro portuguesas, andou em vão - as figuras desapareceram. E desapareceram porque essas figurinhas - milhares e milhares de figurinhas todos os anos colocadas no mercado nesta época - saíam das mãos e do trabalho de crianças naturalmente exploradas aos magotes, em fábricas ali nas cercanias de Famalicão entre outras cercanias - estive numa dessas fábricas e pude constatar, estupefacto, com os meus próprios olhos. Com a dita proibição do trabalho infantil, os grandes empresários que se tornaram grandes à custa dessas misérias, pura e simplesmente acabaram com o fabrico das figurinhas. Ora, a preencher este vazio de mercado, chegaram os italianos que encheram Portugal até dizer basta, com reproduções das figuras dos presépios de Nápoles que são a matriz de todos os presépios da Europa. Os italianos venderam em Portugal como nunca, aliás os portugueses importaram como sempre e desta vez até Presépios. É claro que reproduções dos presépios portugueses - os de Machado de Castro, por exemplo, mas lembrando-me também do Presépio de Estoi - feitas com seriedade artística e empresarial e sem as macacadas do trabalho infantil, teriam êxito assegurado e, naturalmente, êxito na exportação. Poderia até ser aquilo a que os teóricos da economia de salão chamam um «nicho de mercado». Mas se os italianos souberam tirar partido dos presépios de Nápoles, os portugueses preferem, pelos vistos, o mercado de antiguidades bem abastecido pelos ladrões e ofícios correlativos que pilham o nosso património. Já quanto aos Algarvios, estes estão perdoados neste Natal, por não terem tirado ainda partido do Presépio de Estoi. E estão perdoados porque, como se viu com as figurinhas de Faro-Capital-Nacional-da-Cultura, nós Algarvios, infelizmente somos um Presépio vivo e burros são os que, com o seu bafo, aquecem o menino.

Carlos Albino

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

SMS 136. Segurança

15 Dezembro 2005

Não é difícil concluir que, em matéria de segurança, o Algarve anda ao Deus dará. Há localidades importantes, cidades pois, onde durante um dia inteiro, dois dias, três dias seguidos não se avista um polícia (se há polícia) nem um guarda (se há GNR) sequer para cuidar do trânsito e para prevenir aqueles incidentes que são muitos e se resolvem já como na Idade Média – justiça directa. E dos arredores dessas localidades cada vez mais povoados, nem se diga nada! Sim, é verdade, de vez em quando por aí passa uma patrulha de carro a vinte à hora, mas isso não passa de passeata. Os assaltos a pessoas e bens são mais do que muitos com os criminosos a safarem-se à vontade ou a ficarem impunes se alguém lhes deita a mão. Cada vez mais se descrê na eficácia da participação, cada vez mais as ruas principais, e não já apenas os lugares esconsos, se enchem de clandestinos chantageados em que a percentagem de desespero também sobe perigosamente em flecha, pelo que também todo o tipo de marginalidade se aninha à volta disto – sabem do que estou a falar.

Carlos Albino

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

SMS 135. A árvore

8 Dezembro 2005

Aquela árvore obriga a tréguas. E lendo bem a emoção, cada lâmpada daquela árvore faz lembrar não 100 watts mas 100 crianças umas desprotegidas, outras abandonadas, quase todas talhadas para um dia ganharem apenas o salário do choro que normalmente desconta o imposto da revolta incontrolável, revolta que começa por ser interior - como os moralistas gostam que se diga - e, deixando se ser inquietação, acaba por se transformar em angústia que é a prima-irmã da delinquência. Claro que fui ver a Árvore de Faro assumir todo o seu esplendor com as suas largas centenas e centenas de lâmpadas, não por serem lâmpadas mas porque cada uma delas tem a claridade de 100 crianças. E também é verdade que já quando todos apenas olhavam para a festa luminosa, possivelmente alguns lamentando no íntimo que a árvore não tivesse 287 metros de altura para que fosse a maior do mundo e dois biliões de lâmpadas para que excedesse a população da China, pois eu olhava para o tronco e tentava imaginar como serão as raízes dessa árvore a devassar a profundidade do chão. Não escondo que essas raízes escrevem, por estranho capricho subterrâneo, um nome que só raízes podem escrever porque se trata de um Benemérito - Aboim Ascensão. Mas também não escondo que, tal como acontece por vezes na palma das mãos haver uma letra bem caligrafada no enrugamento de nascença, pois não escondo que nesse tronco, a árvore no seu lento crescimento foi talhando outro nome: Vilas Boas. Ora, se uma obra tem raízes com nome e tem nome no tronco, então sim, podemos olhar para as ramadas, para a copa, para o cimo da árvore. Faro deve orgulhar-se dessas raízes e desse tronco. E foram assim as tréguas.

Carlos Albino

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

SMS 134. O lamentável exemplo dos Meritíssimos Juízes

1 Dezembro 2005

Há coisas que não podemos esquecer, aliás não devemos esquecer para que constem. Esta semana até tínhamos bons e variados temas para este cantinho, temas de relevante interesse para o Algarve e para os Algarvios, mas com esta dos juizes não hesitei no assunto. De onde menos se esperava, partiu a má educação, a quebra do respeito civilizado e civilizador, a falta de decoro próximo do de horda bárbara dos tempos medievais. E que coisa foi essa, assim de tão grave, a dos juizes? Pois, reunidos num congresso, os meritíssimos juizes que travam uma luta de pruridos, dispensas e privilégios com o Governo e em particular com o Ministro da Justiça, quando o ministro entrou na sala, pura e simplesmente não se levantaram. Como nas tascas cá de baixo.

Sabemos o que os juizes fazem quando ou se um arguido, um advogado ou uma testemunha não se levanta na Sala de Audiências quando o meritíssimo entra. Independentemente das razões ou da falta dela, qualquer juiz considera esse acto de continuar sentado com uma ofensa ao tribunal, um insulto à Justiça, um crime portanto, que até pode dar processo e prisão se tal manifestação de assento for acompanhada com alguma palavra que reitere o acto. E é assim que todos, desde o criminoso confesso apanhado junto ao Vascão até à pombinha mais inofensiva de Aljezur, todos se levantam quando o meritíssimo entra para o julgamento, mesmo que se saiba que quem vai julgar, por hipótese, está ali transferido por punição decretada na sequência de inspecção impiedosa (quase todas são piedosas) ou por comportamento impróprio num tribunal de comarca longínqua.

Ora, se os juizes não se levantam por deferência civilizada, quando entra o ministro de que discorda, porque se hão de levantar as crianças quando entra o professor, porque se hão de levantar os cidadãos quando entra o Presidente da República, ou porque se hão de levantar os fiéis católicos de Moncarapacho se por caso e inesperadamente o Papa lhe der na cabeça em celebrar missa em Moncarapacho onde o lugar da missa até é mais agradável e mais cortês que a Capela Sistina? E se a partir de agora, arguidos, advogados e testemunhas, seguindo escrupulosamente o exemplo que vem de cima, ou seja, dos próprios Meretíssimos, deixarem de levantar nas salas de audiência?

Para que haja boa disposição, digamos que a lamentável atitude dos juizes, foi na inteira propriedade das palavras, uma manifestação de assentos. O que até teve as suas vantagens, quanto mais não seja a vantagem de ficar provado que os meritíssimos juizes, para além de por profissão os fazerem, também têm assentos.

Carlos Albino

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

SMS 133. Umas tristezas que por aí andam

24 Novembro 2005

Não são muitos, não chegam aos 500 mil algarvios de raiz, nem sequer somam os 30 ou 40 mil imigrantes que no Algarve se fixaram ou pela mão-de-obra ou para descanso da vida reformada. São, quando muito uns 18, talvez 22, sendo que cada um deles dá a entender que é o único génio durante escassos oito dias que o período quando mais se olham ao espelho de frente, de lado e por interpostas pessoas. E o que fazem? Nada menos, nada mais: escrevem, publicam, as câmaras e coisas afins financiam as edições cheias de disparates e de exercícios próprios do divã do psicanalista, quando o que escrevem, publicam e conseguem editar não passa de meros plágios de filósofos esotéricos e de pensadores de meia tigela de que até os adventistas do sétimo dia riem. No fundo são apenas ignaros ousados, bússolas avariadas que por aí andam a enganar a direcção Norte assim enganando também o Sul, o Oeste e Este. Outrora, quando a Escola era uma instituição – há-de voltar a ser, creio firmemente – esses sujeitos que à Escola voltaram costas tinham um nome por entre vários. Se sabiam escrever mas escreviam até sem erros de ortografia com ares de autoridade sobre o que não sabiam porque não estudaram, tinham o nome de Ignorantes – assim, com maiúscula. E se por acaso até sabiam algumas coisas mesmo que as não tivessem estudado mas escreviam com sete erros em cada linha e duas trocas de letras em cada palavra, também tinham nome – eram Analfabetos. E era assim neste quadro que Ignorantes e Analfabetos mais dia, menos dia, pela ordem natural das coisas ou se conformavam com a correspondente vergonha de terem fugido à Escola ou assumiam uma justificada revolta por não terem podido aceder à mesma Escola.

Hoje, os mesmíssimos Ignorantes e os mesmíssimos Analfabetos intitulam-se Autodidactas. São quando muito uns 18, talvez 22, sendo que cada um deles dá a entender que é o único génio do mundo durante os escassos oito dias em que com alguma mestria ou esperteza conseguem enganar ignorantes de letra minúscula e analfabetos de letra minúscula também.

Carlos Albino

P.S.: No final da semana, encontrei-me com um autarca reeleito, naturalmente que o felicitei pelo êxito eleitoral e pedi-lhe que a sua Câmara não pactuasse com os que recobrem os espinhos da Ignorância e do Analfabetismo com o cetim do pomposo título de Autodidactas. Se serei atendido, não sei porque sobre alguns mecanismos sou mesmo ignorante e com letra minúscula.

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

SMS 132. A Casa Madeira

17 Novembro 2005

Desconcertantes foram os termos usados por Luís Filipe Madeira sobre a candidatura presidencial de Soares. «Não pertenço à Casa Soares – sou um cidadão, não sou um criado de serviço», disse o homem de Alte que, repetidamente, é apresentado como «figura nacional» e que nos meandros políticos de Lisboa é, por deferência de serviço, tido como «líder do Algarve» mas cuja obra mais notável a favor do Algarve terá sido, como a população sabe, a rectificação da curva da 125 nas Ferreiras, há uns vinte anos, e pouco mais para além dos discursos pois Filipe Madeira discursou muito e pouco fez. Naturalmente que a população igualmente sabe que se Madeira não pertence à Casa Soares, também Soares não pertence à «Casa Madeira», e fiquemos por aqui porque a continuarmos por aqui, seria fazermos o mesmíssimo jogo dos que têm estragado a democraticidade interna dos partidos no Algarve, aquela democraticidade real, não a formal ou a politicamente correcta – nomeadamente a do PS, mas sem excluir a do PSD que também tem as suas «casas», não tanto gentílicas mas de interesses difusos.

Em síntese e por aquilo que veio a lume, parece que Filipe Madeira dedicou-se à sua casa pelo não avanço da regionalização, muito embora ele saiba que a regionalização do Algarve ficou em definitivo e há muito postergada quando foi retirada da Constituição a possibilidade da criação das regiões-piloto, por obra e graça de magníficas abstenções, silêncios oportunistas e votos dos criados de serviço da época. O amuo aparente de Filipe Madeira não tem pois justificação, e porque não tem justificação, ele sempre fez política de casa, naquele sentido formal e de jogo ou de jogada, ou por si próprio ou por interpostas pessoas. Filipe Madeira está e não está, conforme lhe convém, e agora, a demarcação desconcertante face a Soares, não passa de uma conveniência para ele estar. Ora, um comportamento político destes não é o de um líder mesmo na reserva, e porque comportamentos destes abundam no Algarve – nomeadamente face a Cavaco também – eis uma das razões porque não temos líderes regionais na coerência forte do termo, e o motivo porque os líderes circunstanciais apenas são «figuras nacionais» enquanto forem criados de serviço.

Carlos Albino

quinta-feira, 10 de novembro de 2005

SMS 131. Sampaio, uma tristeza

10 Novembro 2005

Agora, já no final do mandato, Sampaio veio ao Algarve de raspão por causa de uma «presidência aberta» sobre turismo que lhe deu para ir a quase todo o lado, do Porto Santo a Esposende, terminando tudo em Tróia naturalmente com mais uma cena de condecorações que é uma coisa que Sampaio gosta tanto fazer como João Paulo II gostava de fazer santos. No Algarve, houve um poiso na Fortaleza de Sagres, um salto a Vilamoura, uma passeata de helicóptero sobre as belas obras das falésias e foi tudo para além das palavras. E quanto a palavras, Sampaio não trouxe nenhuma novidade – repetiu um bocadinho, apenas um bocadinho do que muitos têm dito há 30 anos e que, por terem dito, foram espezinhados, humilhados e esquecidos. Portanto, Sampaio veio chorar sobre o leite derramado e conviver à portuguesa com alguns que provocaram o derrame do leite ou com outros que bem o querem derramar ainda mais. Sampaio, nesta deslocação ao Algarve foi uma tristeza.

E Sampaio foi uma tristeza porque só o Algarve justificaria, em tempo certo e que já passou, uma presidência aberta, sendo agora tudo muito tarde, mesmo de raspão, assim como quem dá uma tacada de golfe. Mas para isso, para uma «presidência aberta» a sério no Algarve, Sampaio teria que ter tido coragem que é uma coisa que se aprende em todos os desportos, incluindo o desporto da política, mas que não existe no golfe. Coragem para, em vez de ir a poente depois de Lisboa ter maltratado e adulterado Sagres de todas as formas e feitios, ir a nascente que é onde ficam Vila Real de Santo António, Castro Marim e Alcoutim e aí defender uma nova estratégia do turismo algarvio face ao desafio espanhol. Coragem para, em vez de pela décima milésima vez jantar com empresários do turismo, a maior parte dos quais nem são algarvios nem põe os pés no Algarve reinvestindo sistematicamente fora da Região o que no Algarve lucram se é que não fazem as suas operações através dos paraísos fiscais, ouvir ao longo da 125 quem da 125 vive ou ainda vive, e preconizar um «destino metropolitano» para a mesma 125. Coragem para ouvir os agricultores, as gentes das serras incendiadas, os pescadores de Quarteira e Olhão, os artesãos a quem as portas do mesmo turismo empresarial se fecham, andar pelas universidades nascidas a martelo, indagar como tantas presidências autárquicas foram uma farra, enfim, coisas de coragem não faltariam a Sampaio em tempo oportuno, como agora coragem teve Seruca Emídio em tocar no assunto do Hospital. Mas desconfio que Sampaio já não tenha tempo para condecorar a coragem de Seruca Emídio.

Carlos Albino

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

SMS 130. Formiga branca

3 Novembro 2005

Até agora, pelos menos aparentemente, o Algarve tem estado imune ao mal que, aqui e ali mas cada vez mais em mais lugares, ataca as traves mestras da democracia, que é o um mal em tudo idêntico ao da formiga branca. Sem que se note, o bicho consome tudo deixando apenas uma fina película exterior a dar o aspecto de que o mundo está normal. Apenas há um pormenor que o bicho não disfarça - o cheiro. E quando cheira a formiga branca há que pelo menos desconfiar. Ora, no Algarve, embora o mundo, sobretudo o mundo autárquico e a película exterior do poder sufragado, pareça um mundo normal, alguns, possivelmente muitos de nós sentimos esse cheiro a formiga branca que anda nos ares. O tráfico de influências envolvendo alguns barões reformados dos partidos é notório, amiúde reforçando o indevido poderio do clã; os negócios da imobiliária envolvendo paraísos fiscais são coisas faladas à boca calada, mas são coisas; o enriquecimento sem justa causa fornece uns quadros bem pintados mas discretos como mandam as regras do enriquecimento sem justa causa, e por aí fora, sem falar na intensa economia paralela que é a metamorfose alada da formiga e que desova à vontade quando a justiça, também ela, está corroída . É claro que não temos autarcas algarvios, do presente ou do passado recente, à berlinda como a formiga branca de Felgueiras, mas cheira. Cheira. Também não temos casos como os que na Andaluzia, há poucas semanas, levaram à prisão de vários eleitos locais precisamente pelas ligações perigosas entre exercício do poder e imobiliária, mas cheira. Cheira a formiga branca e pergunto a mim mesmo se em Portugal houvesse uma Operação Mãos Limpas a sério como a que houve na Itália, também aqui os partidos, todos sem excepção, não teriam que mudar de nome como condição para a sobrevivência do ideal democrático. E, ou muito me engano, ou um dia que não será longínquo, estaremos a falar de nomes. Prefiro que me esteja a enganar.

Carlos Albino

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

SMS 129. Capitalidade e coisas capitais

27 Outubro 2005

É evidente que o Algarve precisa de Faro. E precisa também de que à frente de Faro esteja alguém com o sentido de Algarve e não de regedor, que possua um discurso político elevado e não de comarca de terceira classe e, sobretudo, que saiba ser um parceiro dos restantes quinze inevitáveis pares do Algarve, a começar pelos mais próximos como Olhão e Loulé e a acabar nos mais pobres como Alcoutim e Aljezur. Faro, se quer ser e sequer continuar a ser capital irrecusável do Algarve, tem de saber sentar-se ao lado de Alcoutim e de Aljezur, tem que ter a consciência de que não desce de nível à altura de Silves ou de Vila do Bispo, ou seja – Faro tem a obrigação de ser e dar o exemplo de ser uma cidade ou um autarquia tão metropolitana como as restantes quinze autarquias e, se quer ser a capital metropolitana, não pode deixar-se enredar na tentação de ser um Terreiro do Paço provinciano pois já tem demasiados funcionários mais provincianos do que os do Terreiro do Paço, no pior que em educação e cidadania a burocracia provinciana sugere – há até cada vez mais algarvios que preferem a burocracia do emblemático Terreiro do Paço de Lisboa às burocracias dos nossos Terreiros do Paço a brincar. Faro é reconhecidamente capital e não tem que lutar por capitalidade, tal como Portimão não tem que porfiar por sub-capitalidade, e tal como Albufeira em pouco ou em nada serve para o Algarve procedendo como se fosse principado independente, como naquele ano em que deitou foguetes e fez fogo de artifício no dia em que Silves estava a arder à vista desarmada. Esse caminho da capitalidade, das sub-capitalidades e dos principados está ao arrepio do sentido e do caminho do Algarve e só terá um resultado final – o provincianismo e a mentalidade de quintal, com a coisa pública entregue a títeres locais que nem sequer categoria têm para serem ditadores, muito menos para serem exemplares democratas na atitude e nos factos. Essa obsessão por capitalidade, por sub-capitalidades e por principados é a doença infantil do narcisismo provinciano, e são estes meninos que foram e vão estragando o Algarve – o Algarve como Algarve que precisa de coisas capitais e não desses meninos.

Carlos Albino

P.S.: Este reacender da polémica das portagens na Via do Infante tem muita piada e mais piada tem que o ministro Mário Lino venha a reconhecer que a 125 é em grande parte já uma via urbana – entre pelos olhos da cara. Pegaremos nisto.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

SMS 128. O caso Vitorino

20 Outubro 2005

Julgo saber que José Vitorino foi o único caso de derrotado no Algarve que atribuiu as culpas do desaire à comunicação social, assim fugindo à assunção de responsabilidades políticas, designadamente face ao partido que o apoiou e de que, outrora, ele fez parte. Na verdade, não sei se José Vitorino sabe o que significa comunicação social, porquanto ele, com tal explicação de mau perder, suporá que a comunicação social deveria ter feito campanha por ele, exaltando por exemplo a forma como o Farense arrecadou importante quantia, ao longo de quatro anos, com a célebre dádiva mensal dos 25 por cento descontados do ordenado de Vitorino, exemplo acabado do populismo mais tosco. Ora, Vitorino não entendeu que o populismo é o mesmo que comprar um carro novo em Faro e ir sempre em primeira mão bem puxada até ao aeroporto da Ria Formosa - gripa no Montenegro. Enquanto o carro anda, o povo saúda, há sorrisos de um e outro lado da estrada, todos se curvam à passagem do carro do presidente: mas se o carro gripa porque o presidente desconhecia o dever elementar de meter mudanças, naturalmente que a comunicação social tem o dever de registar o facto, sendo o facto simples - o carro novo do presidente gripou no Montenegro porque o seu populismo não saiu da primeira mão, derretendo o motor. E como, em política, um mandato de quarto anos não envelhece o carro - antes pelo contrário, deixar gripar assim o motor a meio caminho para o aeroporto o que é que tem a ver com a comunicação social que, nesta mecânica das autárquicas, até foi benevolente e caritativamente omissiva para a condução de Vitorino? Aliás, não apenas para o caso de Vitorino mas para muitos outros casos designadamente vitoriosos, a comunicação social do Algarve, de modo geral tem sido benevolente e caritativamente omissiva justificando-se até a sua santificação pelo papa Bento XVI, se por aí não houvesse uns casos de favores e de subsídios indirectos que borram a santidade.

Carlos Albino

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

SMS 127. Os partidos, claro

13 Outubro 2005

1. Aqui e ali – não apenas em Felgueiras, Gondomar e Oeiras, mas no Algarve também – estas eleições ensinaram que os partidos, todos do CDS ao BE, têm que mudar de estilo, de meios e de visões. Trinta anos são suficientes para envelhecer uma democracia, dar azo ao laxismo, à inércia e à distracção, com isto abandonando-se a discussão crítica dos problemas de fundo, pondo-se de lado o interesse geral e sacrificando o bem-comum aos vorazes apetites do oportunismo organizado. No Algarve, isto tornou-se particularmente evidente pela pressão dos lobbies ligados à imobiliária e à construção (há muito que acabou o casino do figo no Café Aliança), não por serem lobbies mas pela pressa com que o turismo e actividades conexas lhes aguçam apetites. Nestas circunstâncias, os partidos têm sido meios privilegiados para quem quer subir na vida depressa, enriquecendo sem justa causa. Foi assim que surgiu uma nova arte – a arte de «saber fazer bem as coisas», o que significa «fazer as coisas» sem deixar uma perna de fora. Se a justiça funcionasse – não funciona porque muitos juízes também cultivam essa arte de não deixar uma perna de fora – os episódios que a todos nos chocam, teriam adequado e rápido desfecho nos tribunais, punindo corruptos e corruptores. Como não funciona, a política salva os delinquentes, iliba os arguidos e confere até aos acusados ares de definitiva e não apenas de presuntiva inocência, nem importando, para o caso, que salvos pela política, falem como foliões e ameacem com a violência própria dos perversos – referimo-nos naturalmente à perversidade contra a democracia que salva corruptos e corruptores. Assim sendo, será até secundário que a lei mude – o importante é que os partidos mudem as suas práticas, os seus métodos de triagem internos, as suas «máquinas» montadas para o clientelismo.

2. Chocante será assim que um «independente» ganhador proclame, na hora do entusiasmo perverso, que ganhou porque o povo não acredita nos partidos, mas muito mais chocante é que alguém no Algarve, eleito legitimamente por um partido e devido a um partido, apregoe que foi eleito com os votos dos que já não acreditam nos partidos – adivinhem quem é. Começa mal e, se não emendar, pode acabar pior que a foragida de Felgueiras.

3. Apolinário ganhou porque encontrou uma metáfora muito melhor do que Vitorino que talvez nem saiba o que é uma metáfora. Além disso, atravessou o Rubicão que, entre nós, não passa da Ribeira de Pechão mas é Rubicão. Vitorino não entendeu que para se ser presidente da Capital do Algarve não se pode estar num permanente estado de alma contra Olhão nem contra Loulé. Faro não é nada ou pouca coisa é sem uma estudada e concertada parceria com os arredores. Vitorino perdeu nos arredores mas não sei se ele sabe o que significa arredores.

Carlos Albino

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

SMS 126. Os nossos Albertos

6 Outubro 2005

O Algarve também tem os seus Albertos. Embora a Madeira tenha o protótipo, o original sem par a quem todo o mundo reconhece o cómico direito de ser João Jardim para além de Alberto, os nossos Albertos – infinitamente mais comedidos porque não somos uma ilha e manhosamente mais discretos porque também não temos paraíso fiscal que cubra as jogadas – não deixam de ser Albertos, enfim, pequenos mas eficientes Albertos, ou seja, Albertos uns à escala concelhia e outros à escala de freguesia mas Albertos. Quando podem, os nossos Albertos controlam os pequenos jornais impondo-lhes o conteúdo sempre com expedientes indirectos, submetem ao seu jogo as estações de rádio locais condicionando-as na forma e no cheque. Claro que apenas fazem isso quando podem, mas quando o fazem, porque são Albertos, cuidam de não deixar indícios de prova, e, como se costuma dizer neste século de Isaltinos, Fátimas, Valentins e Ferreiras Torres, fazem-no dentro da mais estrita legalidade – Oh! Como os juízes em greve apreciam esta coisa da estrita legalidade! Embora com os mesmos propósitos da programada caça ao voto longamente pensada e do controlo da opinião pública, naturalmente que os nossos Albertos não passam de pequenos Albertos porque, aqui, tudo também é pequeno (a Agência Lusa é pequena, a RDP é pequena e a RTP pequenina é) mas se o Algarve tivesse um paraíso fiscal como a Madeira tem, já teríamos um Alberto igual ao protótipo. Perfis não faltam. Pequenos perfis, diga-se, mas igualmente perversos.

Carlos Albino

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

SMS 125. Foi com uma vacina, imaginem com o resto

29 Setembro 2005

Neste País, o que deve e pode ser estudado, não se estuda, e o que salta aos olhos da vista, dispensando mais estudos, passa a estudo, com a nomeação da tal comissão de estudo que se farta de estudar até ao cansaço cerebral. O senhor ministro da Saúde, até que enfim, afiançou que a necessidade de um Hospital Central no Algarve já lhe saltava aos olhos da cara, mas - para não fugir à regra nacional - logo adiantou que precisava de um estudo que vai estudar o óbvio. É como se Correia de Campos, para ter a certeza de que 2 e 2 são 4, se sentisse na obrigação política de nomear comissão para apurar tal evidência. Então, contemos ao ministro uma história recente.

Pois, senhor ministro, aconteceu que uma jovem, na corrida que diariamente faz nas férias, ao atravessar o pinhal de Monte Gordo, foi atacada e mordida por um cão, mordida a sério porque os cães quando lhes dá para morder, não estudam - mordem. Mandam os bons conselhos que alguém nessas circunstâncias corra o mais rapidamente que puder para um vacina contra o tétano. E aqui começou a saga: os Centros de Saúde procurados não tinham vacina anti-tetânica, aconselhando a jovem a adquiri uma vacina em alguma farmácia. E assim fez mas sem êxito: em todas as farmácias lhe disseram não estar autorizados a vender vacinas desse tipo. Então a jovem, na emergência, rumou para o Hospital de Faro, sem mais estudos. A meio da tarde, a fila de espera nas urgências de Faro era de tal extensão que, na melhor das hipóteses, logo lhe disseram que apenas poderia ser atendida já noite adentro... Claro que a jovem, ciente do que lhe poderia acontecer, não hesitou e rumou de novo de Faro para o nascer do sol, ou seja Espanha. Dirigiu-se ao posto público de saúde em Ayamonte onde apenas não foi vacinada de imediato porque a jovem não tinha o Cartão de Saúde Europeu (atenção leitores destas SMS, tratem disto) mas sugeriram-lhe adquirir a vacina numa farmácia (espanhola, claro) que ela seria administrada prontamente. E assim foi - vacina comprada, vacina aplicada com a adequada assistência médica.

Ora, senhor ministro, não concluiu nada desta história ou será que apara concluir necessidade de uma comissão de estudo que avalie a aplicação urgente de vacinas no Algarve? Mas se quiser nomear mais comissões de estudo, também lhe posso contar mais histórias, muitas histórias envolvendo corações, aneurismas, pernas, olhos, intoxicações, por aí fora, incluindo os cansaços cerebrais das muitas comissões de estudo que não passam de pretexto para disfarças a ausência de vontade política. Com Correia de Campos pode não ser o caso, mas como diz a bela canção, uma comissão de estudo é um nome que não é um espanto, mas é cá da terra... Perante evidência, qualquer comissão de estudo é uma Maria Albertina que dá o nome de Vanessa à filha…

Carlos Albino

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

SMS 124. É um calafrio

22 Setembro 2005

Não cabe repetir aqui o que vai subindo ao noticiário quotidiano em matéria de segurança no Algarve. O crime vai aumentando em números, grau de brutalidade e frequência, regra geral associado ao tráfico de droga, às redes de prostituição e à actuação de grupos de criminosos, sem dúvida organizados e que assentam arraiais na imigração ilegal. Quase todos os dias é um calafrio, para não lembrar as centenas de casos abafados ou sem queixa ou por chantagem dos criminosos ou por falta de confiança do sistema se segurança. É óbvio que toda esta gente indesejável actua sobre uma grande almofada de impunidade suportada classicamente por interesses locais cruzados, tudo isto resultando do desfasamento entre as autoridades policiais e os tribunais, desfasamento que advém por sua vez de legislação obsoleta e que não atende a casos específicos como é o caso do Algarve. As autoridades espanholas, depois do massacre de Madrid, estão a tentar atacar o mal pela raiz, identificando os grupos, proveniências e métodos. Na Andaluzia, por exemplo, foram identificadas várias dezenas de grupos de crime organizado, máfias tradicionais e novas máfias cuja actuação vai além fronteiras. No caso da Andaluzia, não é difícil concluir que esse além fronteiras significa em apreciável medida o Algarve – se, para cada um de nós Sevilha é um salto, para uma organização de criminosos o Algarve também é um pulo, se é que também não pulem de cá para lá. Ora, anunciar o reforço policial no Algarve durante o Verão, não basta, como também não é suficiente essa corrida entre autoridades aos recordes da apreensão de droga, própria de autoridades da parvónia. É preciso ir à raiz do problema, e, para tanto, há que identificar o problema, até porque – grande Aleixo! – há criminosos que não parecendo o que são e porque não são aquilo que parecem, têm sobretudo medo da identificação do problema. Esta gente está, anda entre nós, e é um calafrio.

Carlos Albino