quinta-feira, 30 de março de 2006

SMS 151. Post-scriptum muito comprido

30 Março 2006

O sr. Cabrita, presidente do Conselho Distrital de Faro da Ordem dos Advogados, contestou aquilo que aqui referimos sobre famas. Dirigindo-me pois ao sr. Cabrita no mesmo tom em que se legitimou, está patente que ele confunde iniciativas de advogados no Algarve com iniciativas de advogados do Algarve. Além disso, o sr. Cabrita amputa a pergunta aqui feita e que se repete: «Os advogados com arraiais assentes no Algarve, alguma vez debateram formalmente entre si como está e como pode ser a justiça melhorada e, já agora, a imobiliária no Algarve, livrando-se da fama que alguns têm?». A isto, o sr. Cabrita diz que sim, nós voltamos a dizer que não.

Com certeza que têm sido feitas «reuniões magnas» de advogados, magistrados e solicitadores no Algarve – a região até precisa desse movimento de congressos, reuniões magnas, fóruns. Tais congressos foram no Algarve como poderiam ter sido na Póvoa do Varzim, não se contesta. Com certeza que, pelo nosso lado, até seguimos com particular interesse o VI Congresso dos Advogados onde, por sinal, foi discutida com coragem, rigor e precisão aquilo que os jornalistas há muito deviam ter feito e não fizeram - a sua organização deontológica em bases democráticas. O sr. Cabrita concederá que atribuímos pior fama aos jornalistas no Algarve que a alguns advogados no Algarve. Fama, repetimos. Fama e apenas fama. Por certo inconsistente, mas fama.

Mas fora essas reuniões magnas, devemos dizer ao sr. Cabrita que muito gostaríamos de registar debates regionais, sérios e com serenidades, sobre famas e realidades da justiça do Algarve e no Algarve. Entre nós e com as parcerias naturais, designadamente universidade e institutos superiores do Algarve. E já agora - se o meu interlocutor aceitar mudar o tom também o mudarei com todo o gosto - devo dizer ao sr. Presidente do Conselho Distrital da Ordem dos Advogados que até apoio a extensão desse debate para áreas onde a deontologia e os exercícios profissionais podem reclamar zonas de harmonização recíproca, designadamente advogados e jornalistas. Já uma vez tentei isso no passado, sem êxito, por sinal por culpa dos advogados e não dos jornalistas, porque há pessoas que apenas ligam às reuniões magnas com presenças magnas. Mas se o Dr. António Cabrita desejar actualizar essa agenda deontológica e manifestamente não-sindical (sindicatos é outra questão), garanto-lhe que da banda dos Jornalistas tem gente com quem contar, gente que não se revê nem quer rever-se na fama de alguns, poucos, insignificantes diga-se, mas basta um só para a fama – seja jornalista, seja advogado.

Carlos Albino

quinta-feira, 23 de março de 2006

SMS 150. Mudanças no território

23 Março 2006

O governo parece apostado em mudar o mapa ou pelo menos o aspecto do mapa. Primeiro, com o fim dos distritos a ditarem a extinção de 13 dos 18 governos civis, mantendo-se cinco dessas representações do poder central nas áreas a que, supostamente, se atribui características de região, como será o caso do Algarve. Depois, com o fim das comarcas judiciais e a criação de novas unidades territoriais para aplicação da justiça. Isto não significa profissão de fé do governo na regionalização, nem sequer o tipo de vontade que tem em matéria de descentralização e desconcentração – significa apenas alguma vontade de arrumo das coisas, com o estabelecimento de um critério claro. Finalmente, com o anunciado propósito de submeter as assembleias metropolitanas a sufrágio, é um primeiro passo para a legitimação de estruturas que não sendo «de região», particularmente no caso do Algarve, servem para isso – é uma questão de vontade e daquele bom senso político sinónimo de consenso.

No Algarve, as medidas não vão causar polémica – não se perde nada, embora também não se saiba se os ganhos serão relevantes. Seja distrito de Faro como tem mandado a tradição, região do Algarve por favor ou área metropolitana por condescendência, os conceitos reportam-se ao mesmíssimo território e, mais ou menos, têm-se reciprocamente suportado como respeitáveis figuras de estilo. O chefe do distrito há muito que desapareceu, a região não existe e a área metropolitana nem sequer trabalha a meio-vapor.

Seja como for, os dados estão lançados e resta saber quais os passos que se seguirão e aí é que bate o ponto. Mudar o aspecto do mapa, é positivo. Mas não basta mudar de aspecto. Já se tentou «mudar de aspecto» com o fundamentalismo municipalista e veja-se os resultados em termos regionais – uma manta de retalhos; também se tentou «mudança de aspecto» com aquela ideia peregrina das secretarias de estado descentralizadas (ainda se recordam?) e veja-se no que deu. Aguardemos, pois. Já basta de areia para os olhos.

Carlos Albino

quinta-feira, 16 de março de 2006

SMS 149. Se a moda pega...

16 Março 2006

Sei que há pareceres que viabilizam, mas, mal de uma sociedade democrática e de um estado de direito que seja ao mesmo tempo estado de transparência, se os pareceres apenas tivessem que ser jurídicos e só jurídicos, sem mais, sem algo mais que tem a ver com a ética política. Refiro-me à questão das incompatibilidades dos titulares de cargos políticos, designadamente aos que exercem estes cargos a tempo inteiro. Mais concretamente me refiro a casos em que presidentes de junta de freguesia acumulam funções de assessoria ou de adjuntos de presidentes de Câmara. O PS fez isto, agora o PSD faz o mesmo, uns imitam os outros e é apenas por astuta veneração pelo estado de direito que se recorre ao parecer jurídico, mas perdeu-se o pudor voltando-se as costas ao estado de transparência.

É inadmissível, do ponto de vista ético, que um presidente de junta seja ao mesmo tempo adjunto do presidente de câmara, podendo influir em matérias para as quais convirá separação clara e inequívoca de funções, quer de âmbito financeiro, quer do foro urbanístico com toda a carga de venalidade que neste Algarve se conhece. Aliás, os casos de duvidosa compatibilidade estiveram e estão aliados a casos de duvidosas parcerias, interesses e influências. O parecer jurídico pode encontrar a escapatória de que a lei é omissa ou que não proíbe, logo sendo permitido... é o habitual mas detestável corolário.

Nos casos em que o da junta é um quadro, um reputado quadro e insofismável especialista, vá lá, ainda se compreenderá que o presidente da câmara não queira perder o préstimo do quadro e o contributo do especialista. Mas quando não se trata de um quadro, muito menos de um especialista e, quando muito, de se trata de conhecido artista? Aí, desculpem-me, não compreendo como é que o da junta a tempo inteiro possa ser adjunto da câmara a tempo inteiro igualmente.

Se a moda pega, é o desvirtuamento das juntas de freguesia e é a suspeição instalada nas câmaras municipais. A coisa é triste e quem pode sair mal do filme não será tanto o da junta mas, desnecessariamente, o da câmara. Nem tudo o que é permitido, é tolerável. A deformação dos juristas não é boa conselheira...

Carlos Albino

quinta-feira, 9 de março de 2006

SMS 148. A fama que alguns têm…

9 Março 2006

1 – Os arquitectos que vivem e usufruem do facto de desenharem no Algarve, fizeram alguma reunião, debate ou fórum – para não chegar a congresso – para debaterem como servir melhor e mais eficazmente o Algarve e os cidadãos deste Algarve onde vivem e do qual usufruem e como podem livrar-se da fama que alguns têm?

2 – Os advogados com arraiais assentes no Algarve, alguma vez debateram formalmente entre si como está e como pode ser a Justiça melhorada e, já a agora, a Imobiliária no Algarve, livrando-se da fama que alguns têm?

3 – Os engenheiros que por aí ornamentam os paraísos de empregos municipais, alguma vez debateram como podem servir o Algarve, como podem evitar estrangulamentos no desenvolvimento e como podem livrar-se da fama que alguns têm?

4 – Os jornalistas que por aí sobrevivem escrevendo sobre tudo e mais alguma coisa do Algarve fizeram alguma reunião para debaterem os limites entre a informação a propaganda, a fronteira entre a narrativa da realidade e a publicidade dos negócios virtuais, a linha que demarca a divulgação do que se revele de interesse público e o capacho onde os autarcas mais poderosos limpam os pés, havendo muito mais quem limpa, livrando-se da fama de uns tantos?

5 – E os professores alguma vez se livraram da fama de uns tantos?

6 – E os chefes de estação para não falar dos nadadores-salvadores?

7 – E os engraxadores, os lambe-botas e os rastejantes logo a seguir prepotentes?

8 – E os plagiadores, os plumitivos e os calaceiros logo a seguir virtuosos e moralistas que até os bombeiros evitam contactar?

9 – E os intermediários?

10 – E os que vivem também e apenas à custa da fama dos outros (dos arquitectos aos intermediários), alguma vez fizeram um congresso, um seminário, uma simples reunião que fosse para debate sobre como a chantagem ou o jogo do ou fazes o que me interessa ou eu digo o que tu fazes e ficas tramado, alguma vez discutiram como esse jogo está a bloquear o exercício livre da Crítica no Algarve, a negar a noção mais sadia de Autarquia, a bloquear a própria Política e, em última análise, a riscar do mapa a nossa restante Identidade, a qual, segundo julgo, será já o primeiro caso de gripe das aves?

Carlos Albino

quinta-feira, 2 de março de 2006

SMS 147. O Algarve Oriental

2 Março 2006



É mau, muito mau para o Algarve e para o País, a desatenção constante para o Algarve Oriental. É evidente que o Orçamento de Estado não pode prestar atenção para todos os lados e ao mesmo tempo, mas a desatenção que vem de há décadas e décadas para a zona algarvia de fronteira com Espanha não serve a ninguém do lado de cá. Refiro-me naturalmente a Vila Real de Santo António e a toda a área onde o Guadiana assume esplendor próprio para se encontrar com o mar. Desta desatenção, os algarvios têm sido muito responsáveis, sobretudo os algarvios que vivem obcecados pelos centros de poder, pela sua própria e egocêntrica afirmação nesses centros de poder, e pelo «comércio» político que fazem com os decisores nacionais exclusivamente em função dos alegados centros de poder em que é suposto terem mão no Algarve, os quais, diga-se, pouco ou nenhum poder têm, nem sequer o poder de influência.

Ora falta para o Algarve Oriental uma ideia de arrojo que renda Espanha e os Espanhóis, como de resto os Espanhóis estão a fazer por toda a linha de fronteira com Portugal sem resposta nossa, sem um adianto original. Falta neste Algarve Oriental uma ideia algarvia e não apenas autárquica que atraia, um plano de afirmação do Sul e não apenas de capricho voluntarista, um projecto salvador deste castelo de cartas em que o Algarve se converteu, à mercê de ventos e marés. Falta sobretudo que o Algarve seja politicamente afirmado como sendo Vila Real, Faro e Portimão e não apenas Faro, Portimão e Faro. O Guadiana é um valor estratégico incomparável no contexto algarvio e devia ser por isso um polo de referência. Não é, por irresponsabilidade de alguns algarvios detentores dos centros de poder mas que cantam na sé de Viena como eunucos, e sobretudo por erro de sucessivos governos onde os algarvios ou não têm voz ou até têm vergonha da voz que têm.

Carlos Albino

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

SMS 146. O milagre da multiplicação

23 Fevereiro 2006

É um problema a que não consigo dar resposta. Possivelmente esse problema corresponde a uma daquelas condenações a que o ser humano está sujeito e que é a de, permanentemente, ter de se sujeitar ao dilema da escolha entre o grande e o pequeno, sendo que aquilo que é grande tem tanto direito e até legitimidade como aquilo que é pequeno. Isto a propósito do Carnaval ou dos carnavais – há um grande, os outros são pequenos, alguns pequenos já maiores do que eram, outros ainda mais pequenos, mas cada terra quer ter o seu Carnaval, convencendo-se cada uma que o seu Carnaval é o maior, o mais animado, o mais genuíno, o mais popular, por aí fora. E quanto mais carnavais, cada um deles mais freguesia tira ao outro, porque o Algarve tem a população que tem, os forasteiros são com o número que são e ninguém é omnipresente – ou se está num lado, ou noutro. É certo que todas as terras têm direito ao seu carnaval, nenhuma terra, grande ou pequena, pode reclamar um decreto que proíba o carnaval da outra, sendo também certo que, esta e outra terra, tal como na Política, também no Carnaval e nas mascaradas, ficam mais fechadas sobre si mesmas, a rirem-se de si próprias ou para si próprias, ou seja, se a festa do carnaval fosse procissão, fica cada terra a atirar os foguetes e a apanhar as canas. Acaba por não ter piada este milagre da multiplicação dos carnavais.

É claro que, para um optimista como eu que prevê sempre um fim trágico para tudo (permitam-me esta brincadeira de carnaval...), o caso até poderia significar vitalidade, força anímica e não apenas um estado de alma próprio dos macacos de imitação. Só que receio bem que tenha que ser, neste caso, excepcionalmente pessimista prevendo um fim alegre para tudo (novamente desculpas por repetir de outra forma a brincadeira...). E porquê? Suspeito que a pandemia da imitação – fenómeno que se transmite também das aves para os humanos – é já quase uma pose cultural. À falta de imaginação imita-se, copia-se.

Pois o que se passa com os carnavais do Algarve acontece com o resto das festas – da Política à Comezaina, da Cultura aos Cultos da Personalidade. Querença inventou, e bem, a festa das chouriças – pois há já chouriças por todo o lado. Silves, julgo que foi Silves, inventou a das cervejas – há já cerveja por todo o lado. Não vou ser exaustivo, mas há festas da sardinha por todo o lado, do marisco por todo o lado e dentro do marisco a festa do camarão, há feiras do livro por todo o lado, festivais internacionais por todo o lado, e, claro mas noutro plano que é aí que quero chegar, também a festa das marinas e das construções mafarricas por todo o lado – se Vilamoura tem, porque motivo Albufeira não tem, e se esta tem porque não Faro, e Tavira, e Castro Marim, e Lagos, e Aljezur, e Olhão? E já agora porque não se faz também uma marina ou um edifício de 18 andares neste preciso espaço deste mesmo apontamento, facilitando assim o trabalho de Lídia Palma que me atura todas as semanas no envio da prosa sobre a linha de risco do fecho do jornal?

Carlos Albino

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

SMS 145. Ministros e secretários absolutistas...

16 Fevereiro 2006

É evidente que o Presidente de São Brás de Alportel tem toda a razão, neste assunto do novo mapa das freguesias, ao questionar os procedimentos e métodos do secretário de Estado Eduardo Cabrita. A forma como este governo – não é só o secretário Eduardo Cabrita, há pior – , está a avaliar o Algarve, e sobretudo a maneira como pondera o Algarve Interior que é a maior parte do Algarve e também a mais pobre, com algumas áreas que são mesmo as mais pobres do País, é um erro. Um erro que corresponde ao desapontamento de muitos – o meu caso, para atalhar conversa – , e que certamente não dará regozijo a ninguém mesmo àqueles que nunca acreditaram e por isso não votaram na gente deste governo, porque o erro não é mais do que o prolongamento dos erros dos governos anteriores. Temos vindo a engolir, à vez.

O governo, melhor, alguns membros deste governo ainda não perceberam (perceberam, fingem é que estão despercebidos) que o facto de governarem suportados por maioria absoluta, não lhes dá legitimidade para serem absolutistas... Sim, para governarem como se fossem pequenos reis iluminados, cheios de algum direito divino, prescindindo pois da audiência pedida e da obrigatoriedade democrática da audição. Numa democracia, nada pior do que isto, sendo isto pior do que a arruaça – a arruaça ouve-se mas o absolutismo de gabinete é silencioso e quase sempre mata sem ai nem ui como espetar sabre no rim. Fazer isto é desvirtuar a democracia. É fugir ao escrutínio público por mais que se simule aparecer em público por via da televisão que se converteu na mais recente escrava da corte, ao mesmo tempo bôba da corte.

Eduardo Cabrita quer extinguir a freguesia de São Brás de Alportel? Então porque não consultou previamente a Câmara, porque não ouviu as populações? Também engoliu o garfo?

Mexer na indefesa organização administrativa do pobre Algarve Interior terá que ser feito assim, a traço de esquadro sobre o mapa das conveniências orçamentais, tal como a Conferência de Berlim desenhou a África?

Carlos Albino

PS: Já agora, fiz umas contas que as Estatísticas da Europa devem ponderar muito a sério – se o Algarve tivesse apenas dois habitantes, o Senhor André Jordan e eu, o rendimento per capite seria o que nem imaginam nem eu sei, mas que o Senhor Jordan sabe.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

SMS 144. «Discurso Algarve» praticamente nulo

9 Fevereiro 2006

Naturalmente que não podemos estar à espera de um decreto para que haja um «discurso Algarve» ou se ouça, mesmo ao longe, algum Algarve político no discurso político. Pela certa, esse decreto jamais virá de Lisboa. Não haverá decreto nesse sentido, nem esse discurso pode ser imposto entre nós, pela vontade de uns sobre a vontade dos outros. Resta-nos a constatação: politicamente o «discurso Algarve» é nulo. E porquê? Primeiramente, as iniciativas, poucas que sejam, visando a regionalização, pouca que esta também seja, tais iniciativas não têm consistência política e não ganharam a opinião pública algarvia que, de resto, cada vez existe menos, tão dividida e retalhada tem vindo a estar em função das autarquias cada vez mais fechadas sobre si e dentro de si, e em função de uma comunicação social que anda entre a sobrevivência e meia dúzia de ávidas considerações pessoais pois nada há a esperar da comunicação social de raiz administrativa (a pública ou, seja como for, a dependente do Estado, obviamente). Não há «discurso Algarve» - a Junta Metropolitana não assume nem deixam que ela assuma, a associação de municípios tem a unidade própria dos casais desavindos que em comum mantêm apenas a discussão pelo que recusam ao mesmo tempo a separação para que a discussão se prolongue como a única coisa que têm em comum, e, além disto, sobressaindo como causa também castrante de um discurso político próprio, acresce o jogo de manutenção ou disputa fratricida dos empregos políticos, supostamente bem pagos e que dependem meramente das políticas locais que, como se sabe, não brilham pelo escrutínio – muitas empresas tuteladas pelos municípios são exemplo desta falta de crivo ou de avaliação, responsáveis que são pelo aparecimento de uma nova classe de funcionários apolíticos, paradoxalmente os filhos mais legítimos ou legittimados da política. Ninguém, há escassos anos atrás, pensaria que o Algarve chegaria a 2006 sem lideranças (líder e alternativas a líder), sem uma ideia política discutida na avenida larga da crítica e, sobretudo, sem discurso. Ao Algarve chamam-lhe região mas não é, deram-lhe o título de metrópole mas não cheira a nada. Um caranguejo não pode passar por sapateira.

Carlos Albino

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

SMS 143. Terceiro Presidente

2 Fevereiro 2006

Cavaco Silva é o terceiro Presidente da República que teve o Algarve como berço, não interessando por agora se o Algarve ficou nos olhos em cada um desses três com a mesma intensidade – interessa o berço, a ligação inicial a algum destes 16 ladrilhos de barro autárquico, interessa aquela cor da terra nítida e do mar profundo que se grava nos olhos de criança e que faz com uma criança seja algarvia deixando para adulto o que queira ser em adulto. Estão neste caso Teixeira Gomes, Mendes Cabeçadas e agora Cavaco Silva – o “nosso” terceiro Presidente.

Teixeira Gomes, mesmo com o labéu da resignação em 1925 na sequência de um mandato marcado por gigantesca instabilidade política e social e passados escassos dois anos apenas após ter sido eleito no Congresso, obviamente tem um lugar na História mais pelo sulco que, como exímio estilista da língua, deixou nas Letras.

Para Cavaco Silva, a História começa em 9 de Março e porque se trata de História as adivinhações não têm legitimidade. Mas suspeita-se que fará História e aguardemos que seja boa História ou pelo menos História que reponha nitidez nesta terra e profundidade no mar – perdemos muita nitidez e muito mar.

Mas, lamentavelmente, apenas Mendes Cabeçadas está mal colocado na História. Mal e injustamente. Louletano, tal como Cavaco Silva, Mendes Cabeçadas nesse já longínquo ano de 1926 e com o golpe de 28 de Maio como cenário, recebeu do Presidente Bernardino Machado a chefia do Governo e com a posterior renúncia de Bernardino à chefia do Estado, Cabeçadas passou a exercer a Presidência da República por escasso tempo, escassíssimo, mas o suficiente para ficar com o ferrete de homem da Ditadura – o que não era, nem foi verdade. Mendes Cabeçadas, tal como outros grandes homens da época – Fernando Pessoa, António Sérgio... para não enumerar mais – aderiu ao golpe do 28 de Maio pensando que o essencial do regime constitucional ficaria acautelado e que a purga da corrupção e do tráfico de influências que então grassava e afundava o País seria uma purga transitória, breve e sem endereços para regime autoritário e de partido único. Mendes Cabeçadas, o homem a quem se deve o sinal de arranque da implantação da República, renunciou à chefia do Estado porque bastaram-lhe poucos dias para perceber onde estava metido e até à morte foi opositor da Ditadura.

Não é justo que Loulé, por exemplo, ainda não tenha promovido Mendes Cabeçadas ao seu posto de almirante (ainda o trata num largo de sub-mundo como tenente!) e os que o não têm em conta como o segundo Presidente algarvio, se calhar nem viram ainda quem a galeria presidencial do Palácio de Belém abre com o relógio pelo qual Mendes Cabeçada viu as horas em 1910... Por acaso Sampaio foi o primeiro em Belém a fazer a primeira justiça a este marinheiro sonhador que, sendo louletano, sempre esteve muito acima dos marinheiros de água doce que Loulé tem. Voltaremos a este assunto de Mendes Cabeçadas porque a anterior câmara local de Vítor Aleixo tem culpas no cartório apesar da santa paciência. Ainda bem que foi Sampaio a fazer alguma justiça porque se fosse Cavaco a fazer isso agora, poderia ser entendido como puxar a brasa à sua sardinha.

Carlos Albino

sábado, 28 de janeiro de 2006

SMS 142. A Sala do Mundo às Avessas

28 Janeiro 2006

Possivelmente todos os queridos leitores sabem que em Mangualde, lá para a Beira Alta, precisamente no Palácio dos Condes da Anadia – sumptuoso solar que vale a pena visitar – a sala de baile mudou justificadamente de nome e toda a gente lhe chama a «Sala do Mundo às Avessas». Os azulejos do século XVIII que forram essa sala, baseados em gravuras de Oudry, representam mesmo este mundo como se estivesse virado ao contrário: os barcos e peixes andam nas nuvens, as aves na profundeza dos mares, são os burros que puxam os homens e não os homens que puxam os burros, tudo, muito do que possa imaginar está tudo ao contrário, a começar pelos caçadores que são caçados pelos bichinhos que normalmente caçam... E como todos os meus queridos leitores estão à espera que eu fale das presidenciais e mais precisamente dos resultados eleitorais no Algarve, naturalmente que não poderia guardar para mim essa imagem da Sala do Mundo às Avessas que é uma metáfora ímpar do que se passou, do que se passa e possivelmente do que se irá passar. Sendo mais concreto e indo directamente ao assunto, não posso deixar de observar que o mundo estará às avessas quando vejo os principais responsáveis pela falta de democratização dos partidos – designadamente alguns velhos suseranos do PS que discursaram muito na vida e não fizeram nada pelo Algarve – quando vejo esses, agora, a encabeçar movimentos de cidadania contra o clientelismo, as mordomias... Portanto são os burros que conduzem ao avesso os homens, tal como na sala do Palácio de Mangualde aonde já não é preciso ir – basta observar o comportamento de alegados líderes do Algarve, os quais afinal nunca foram líderes mas apenas o avesso e, para mais com o desplante de conduzirem homens.

Carlos Albino

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

SMS 141. É de fazer arrepios na espinha de todos os Algarvios

19 Janeiro 2006

Os dados agora tornados públicos pelo Júri Nacional de Exames, designadamente sobre duas disciplinas fundamentais (Matemática e Língua Portuguesa) deve obrigar todos os Algarvios a uma profunda reflexão sobre o estado e condições das nossas escolas sem excepção. As médias de nível de exame do 9.º ano não podiam ser piores mesmo considerando o péssimo quadro que o todo nacional já apresenta, pelo que será bom e aconselhável que pais, professores e autarcas pensem no assunto com responsabilidade e actuem. Sobretudo actuem, façam alguma coisa para retirar a juventude do beco sem saída que é o da ignorância quase já militante, a que se junta a impreparação para a enfrentar a vida e a dependência suicida das actividades parasitárias.

No que diz respeito à Matemática, em grande parte dos concelhos do Algarve ou pelo menos nos mais significativos ou que reivindicam significar o progresso do Algarve, os resultados estão, em números redondos, ao nível das piores médias de exame no País já de si mesmo nada brilhantes, e, no que se refere à Língua Portuguesa, mais décima menos décima, a situação geral do Algarve é a mesma da Matemática, ou seja, péssima.

O Algarve Escolar, apesar do esforço desesperado de pouco mais que meia dúzia de professores, está mal nos resultados e era previsível que assim acontecesse porque o Algarve Cultural mal está e o Algarve Económico, à excepção de uns quantos empresários resistentes e por certo românticos, é uma falácia financeira e uma arte de enganar.

Esta matéria é grave pelo que voltaremos ao assunto.

Carlos Albino

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

SMS 140. Prémio SMS de Jornalismo: Carlos Branco

12 Janeiro 2006

Pois, no dia dedicado aos Magos, a decisão foi tomada: o Prémio SMS de Jornalismo 2005 foi atribuído ao Jornalista Carlos Branco, responsável pelos serviços informativos da RDP/Algarve. Equilíbrio, distanciamento e honestidade intelectual são virtudes reconhecidas neste jornalista que, numa casa difícil, com escassos meios para o Algarve que é, e, enfrentando pressões de todas as panelinhas e mais algumas, tem conseguido fazer um sulco de incontestável seriedade e evidente serenidade.

Carlos Branco junta-se assim a Idálio Revez (2004) na lista ainda curta de premiados mas que, a partir de agora (em 2007 será mais um ou uma...) vão passar a encontrar-se sempre com um convidado especial com quem debaterão a situação do jornalismo no Algarve que não é brilhante, diga-se de passagem. Para este 2006, o convidado especial vai ser o Governador Civil de Faro - esperamos que António Pina aceite este modesto desafio, todavia se não aceitar, paciência. O encontro será nem mais nem menos aquilo que os políticos de carreira e também os artistas subsidiados costumam há muito designar por «almoço de trabalho». Por uma questão de agenda, será em Faro e até final de Janeiro.

Um abraço para o premiado que não vai receber ouro, nem incenso, nem mirra, mas tenha a certeza de que se trata de uma distinção pura que é pura distinção.

Carlos Albino

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

SMS 139. Presunção e água benta

5 Janeiro 2006

Ouviu-se dizer por aí que terminou aquela coisa que teve o nome de Faro-Capital-Nacional-da-Cultura através do que almas bem intencionadas bem anunciaram querer «resgatar a cidade de Faro e a região do Algarve da marginalidade cultural», além disso juraram «apostar na continuidade e na consolidação dos projectos culturais existentes em Faro e na região do Algarve», e, ainda mais, apregoaram aos quatro ventos que essa tal coisa iria «projectar nacional e internacionalmente a cidade de Faro e a região do Algarve, ambas enquanto pólos de turismo cultural e de actividades ligadas às indústrias da cultura e do lazer».

Na prática, e para não gastar nem muitas palavras nem muito espaço, essa coisa foi apenas uma pequena agenda cultural do tamanho, qualidade e comparável à agenda cultural da Câmara de Cascais para 2005, ficando muito aquém da agenda cultural da Câmara de Oeiras, para não citar as agendas de Matosinhos, Póvoa do Varzim e Vila Nova de Gaia.

Essa coisa não resgatou Faro (o que é isso de resgate? Faro foi feita refém no Iraque da Cultura Portuguesa?), e muito menos poderia resgatar a «Região do Algarve» pois a Região do Algarve não existe e não vale a pena cultivar equívocos. Além disso, duvido que os projectos culturais existentes em Faro e no Algarve tenham ficado a dever alguma coisa a essa coisa, e, finalmente, quanto a essa também coisa de «projectar nacional e internacionalmente» a cidade de Faro e a região do Algarve, não digo que dê vontade de rir mas dá vontade de ter piedade porque pelo provincianismo e apenas se pode ter piedade.

É claro que Faro merecia e o Algarve também merecia que Faro tivesse merecido uma Capital Nacional da Cultura cujo merecimento fosse mais do que presunção e água benta.

Carlos Albino

P.S.: É bom lembrar que no dia 6, Dia de Reis, será atribuído o Prémio SMS de Jornalismo ganho em 2004 pelo Jornalista Idálio Revez.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

SMS 138. Casa do Algarve

29 Dezembro 2005

Parecendo que cai mas não cai, com o peso do passado mas, a bem da verdade, reflexo apenas do peso que o Algarve tem, aí temos a Casa do Algarve que a democracia em nada facilitou porque os democratas, os nossos democratas algarvios foram ao longo dos anos pensando apenas nas suas carreiras pessoais e nas suas ganhunças com a política entre um lugarzitro em S. Bento, uma chance rara nalguma secretaria de Estado menor e, para desenjoar, uns quanto mensalões em Estrasburgo que até dão para pagar papalvos. Apesar disto, a Casa do Algarve continua de pé, já resistiu ao pior e, com nova sede a ser erguida de raiz partir de 2007, prepara-se para o sétimo fôlego da sua vida e para reassumir o papel de agente facilitador do Algarve e dos Algarvios junto do poder em Lisboa e da opinião pública portuguesa, quer se queira ou não, é filha ilegítima de Lisboa. Já se viu claramente que a democracia não se esgota nos partidos e, então no caso particular do Algarve, está mais do que provado que os partidos recusaram o seu papel pedagógico do debate público. PS e PSD parece que existem para apagar a ideia de Região da cabeça dos Algarvios, o PCP não conta e é pena, os dissidentes do PCP sentaram-se no adro da política a palitar os dentes, o BE tem piada mas ainda é cedo para se acreditar na salada, e o CDS nem chega a ter piada porque quando aparece no Algarve não foge da fama de ser mera obra clandestina na falésia do PSD. Nestas três décadas de obsessão pelos partidos, a ideia da Casa do Algarve chegou a ser posta de lado como desnecessária, e praticamente como que jogada para o balde do lixo pelos políticos de carreira responsáveis pelo desatino emproado do PS, pelo mau corridinho do PSD, pelo jogo de manecas do PCP e pelo oportunismo de sacristia do CDS. Ora, como o Algarve vai precisar, e muito em breve, da sua Casa do Algarve como pão para a boca, tal como os Açoreanos há muito que perceberam que precisam da Casa dos Açores, os Beirões da Casa das Beiras e os Alentejanos da Casa do Alentejo, que 2006 seja um ano grande e um grande ano para a Casa do Algarve tão estupidamente esquecida por uns quantos e menosprezada por outros tantos - precisamente os tais de que já estamos fartos porque levaram três décadas a olhar para os seus umbigos e para os empregos dos seus filhos e filhas que deputam e já delegam tal como os pais, sendo que a Democracia não é para isto.

Carlos Albino

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

SMS 137. Os italianos, por exemplo

22 Dezembro 2005

Para não falar dos chineses que imitam tudo e quando imitam as cópias são aos milhões, e também para não falar dos espanhóis que vendem gato por lebre mas porque vendem, arrecadam, falemos dos italianos e a propósito de presépios. Pois, para o presépio deste Natal, quem andou à procura das tradicionais figuras de barro portuguesas, andou em vão - as figuras desapareceram. E desapareceram porque essas figurinhas - milhares e milhares de figurinhas todos os anos colocadas no mercado nesta época - saíam das mãos e do trabalho de crianças naturalmente exploradas aos magotes, em fábricas ali nas cercanias de Famalicão entre outras cercanias - estive numa dessas fábricas e pude constatar, estupefacto, com os meus próprios olhos. Com a dita proibição do trabalho infantil, os grandes empresários que se tornaram grandes à custa dessas misérias, pura e simplesmente acabaram com o fabrico das figurinhas. Ora, a preencher este vazio de mercado, chegaram os italianos que encheram Portugal até dizer basta, com reproduções das figuras dos presépios de Nápoles que são a matriz de todos os presépios da Europa. Os italianos venderam em Portugal como nunca, aliás os portugueses importaram como sempre e desta vez até Presépios. É claro que reproduções dos presépios portugueses - os de Machado de Castro, por exemplo, mas lembrando-me também do Presépio de Estoi - feitas com seriedade artística e empresarial e sem as macacadas do trabalho infantil, teriam êxito assegurado e, naturalmente, êxito na exportação. Poderia até ser aquilo a que os teóricos da economia de salão chamam um «nicho de mercado». Mas se os italianos souberam tirar partido dos presépios de Nápoles, os portugueses preferem, pelos vistos, o mercado de antiguidades bem abastecido pelos ladrões e ofícios correlativos que pilham o nosso património. Já quanto aos Algarvios, estes estão perdoados neste Natal, por não terem tirado ainda partido do Presépio de Estoi. E estão perdoados porque, como se viu com as figurinhas de Faro-Capital-Nacional-da-Cultura, nós Algarvios, infelizmente somos um Presépio vivo e burros são os que, com o seu bafo, aquecem o menino.

Carlos Albino

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

SMS 136. Segurança

15 Dezembro 2005

Não é difícil concluir que, em matéria de segurança, o Algarve anda ao Deus dará. Há localidades importantes, cidades pois, onde durante um dia inteiro, dois dias, três dias seguidos não se avista um polícia (se há polícia) nem um guarda (se há GNR) sequer para cuidar do trânsito e para prevenir aqueles incidentes que são muitos e se resolvem já como na Idade Média – justiça directa. E dos arredores dessas localidades cada vez mais povoados, nem se diga nada! Sim, é verdade, de vez em quando por aí passa uma patrulha de carro a vinte à hora, mas isso não passa de passeata. Os assaltos a pessoas e bens são mais do que muitos com os criminosos a safarem-se à vontade ou a ficarem impunes se alguém lhes deita a mão. Cada vez mais se descrê na eficácia da participação, cada vez mais as ruas principais, e não já apenas os lugares esconsos, se enchem de clandestinos chantageados em que a percentagem de desespero também sobe perigosamente em flecha, pelo que também todo o tipo de marginalidade se aninha à volta disto – sabem do que estou a falar.

Carlos Albino

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

SMS 135. A árvore

8 Dezembro 2005

Aquela árvore obriga a tréguas. E lendo bem a emoção, cada lâmpada daquela árvore faz lembrar não 100 watts mas 100 crianças umas desprotegidas, outras abandonadas, quase todas talhadas para um dia ganharem apenas o salário do choro que normalmente desconta o imposto da revolta incontrolável, revolta que começa por ser interior - como os moralistas gostam que se diga - e, deixando se ser inquietação, acaba por se transformar em angústia que é a prima-irmã da delinquência. Claro que fui ver a Árvore de Faro assumir todo o seu esplendor com as suas largas centenas e centenas de lâmpadas, não por serem lâmpadas mas porque cada uma delas tem a claridade de 100 crianças. E também é verdade que já quando todos apenas olhavam para a festa luminosa, possivelmente alguns lamentando no íntimo que a árvore não tivesse 287 metros de altura para que fosse a maior do mundo e dois biliões de lâmpadas para que excedesse a população da China, pois eu olhava para o tronco e tentava imaginar como serão as raízes dessa árvore a devassar a profundidade do chão. Não escondo que essas raízes escrevem, por estranho capricho subterrâneo, um nome que só raízes podem escrever porque se trata de um Benemérito - Aboim Ascensão. Mas também não escondo que, tal como acontece por vezes na palma das mãos haver uma letra bem caligrafada no enrugamento de nascença, pois não escondo que nesse tronco, a árvore no seu lento crescimento foi talhando outro nome: Vilas Boas. Ora, se uma obra tem raízes com nome e tem nome no tronco, então sim, podemos olhar para as ramadas, para a copa, para o cimo da árvore. Faro deve orgulhar-se dessas raízes e desse tronco. E foram assim as tréguas.

Carlos Albino

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

SMS 134. O lamentável exemplo dos Meritíssimos Juízes

1 Dezembro 2005

Há coisas que não podemos esquecer, aliás não devemos esquecer para que constem. Esta semana até tínhamos bons e variados temas para este cantinho, temas de relevante interesse para o Algarve e para os Algarvios, mas com esta dos juizes não hesitei no assunto. De onde menos se esperava, partiu a má educação, a quebra do respeito civilizado e civilizador, a falta de decoro próximo do de horda bárbara dos tempos medievais. E que coisa foi essa, assim de tão grave, a dos juizes? Pois, reunidos num congresso, os meritíssimos juizes que travam uma luta de pruridos, dispensas e privilégios com o Governo e em particular com o Ministro da Justiça, quando o ministro entrou na sala, pura e simplesmente não se levantaram. Como nas tascas cá de baixo.

Sabemos o que os juizes fazem quando ou se um arguido, um advogado ou uma testemunha não se levanta na Sala de Audiências quando o meritíssimo entra. Independentemente das razões ou da falta dela, qualquer juiz considera esse acto de continuar sentado com uma ofensa ao tribunal, um insulto à Justiça, um crime portanto, que até pode dar processo e prisão se tal manifestação de assento for acompanhada com alguma palavra que reitere o acto. E é assim que todos, desde o criminoso confesso apanhado junto ao Vascão até à pombinha mais inofensiva de Aljezur, todos se levantam quando o meritíssimo entra para o julgamento, mesmo que se saiba que quem vai julgar, por hipótese, está ali transferido por punição decretada na sequência de inspecção impiedosa (quase todas são piedosas) ou por comportamento impróprio num tribunal de comarca longínqua.

Ora, se os juizes não se levantam por deferência civilizada, quando entra o ministro de que discorda, porque se hão de levantar as crianças quando entra o professor, porque se hão de levantar os cidadãos quando entra o Presidente da República, ou porque se hão de levantar os fiéis católicos de Moncarapacho se por caso e inesperadamente o Papa lhe der na cabeça em celebrar missa em Moncarapacho onde o lugar da missa até é mais agradável e mais cortês que a Capela Sistina? E se a partir de agora, arguidos, advogados e testemunhas, seguindo escrupulosamente o exemplo que vem de cima, ou seja, dos próprios Meretíssimos, deixarem de levantar nas salas de audiência?

Para que haja boa disposição, digamos que a lamentável atitude dos juizes, foi na inteira propriedade das palavras, uma manifestação de assentos. O que até teve as suas vantagens, quanto mais não seja a vantagem de ficar provado que os meritíssimos juizes, para além de por profissão os fazerem, também têm assentos.

Carlos Albino

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

SMS 133. Umas tristezas que por aí andam

24 Novembro 2005

Não são muitos, não chegam aos 500 mil algarvios de raiz, nem sequer somam os 30 ou 40 mil imigrantes que no Algarve se fixaram ou pela mão-de-obra ou para descanso da vida reformada. São, quando muito uns 18, talvez 22, sendo que cada um deles dá a entender que é o único génio durante escassos oito dias que o período quando mais se olham ao espelho de frente, de lado e por interpostas pessoas. E o que fazem? Nada menos, nada mais: escrevem, publicam, as câmaras e coisas afins financiam as edições cheias de disparates e de exercícios próprios do divã do psicanalista, quando o que escrevem, publicam e conseguem editar não passa de meros plágios de filósofos esotéricos e de pensadores de meia tigela de que até os adventistas do sétimo dia riem. No fundo são apenas ignaros ousados, bússolas avariadas que por aí andam a enganar a direcção Norte assim enganando também o Sul, o Oeste e Este. Outrora, quando a Escola era uma instituição – há-de voltar a ser, creio firmemente – esses sujeitos que à Escola voltaram costas tinham um nome por entre vários. Se sabiam escrever mas escreviam até sem erros de ortografia com ares de autoridade sobre o que não sabiam porque não estudaram, tinham o nome de Ignorantes – assim, com maiúscula. E se por acaso até sabiam algumas coisas mesmo que as não tivessem estudado mas escreviam com sete erros em cada linha e duas trocas de letras em cada palavra, também tinham nome – eram Analfabetos. E era assim neste quadro que Ignorantes e Analfabetos mais dia, menos dia, pela ordem natural das coisas ou se conformavam com a correspondente vergonha de terem fugido à Escola ou assumiam uma justificada revolta por não terem podido aceder à mesma Escola.

Hoje, os mesmíssimos Ignorantes e os mesmíssimos Analfabetos intitulam-se Autodidactas. São quando muito uns 18, talvez 22, sendo que cada um deles dá a entender que é o único génio do mundo durante os escassos oito dias em que com alguma mestria ou esperteza conseguem enganar ignorantes de letra minúscula e analfabetos de letra minúscula também.

Carlos Albino

P.S.: No final da semana, encontrei-me com um autarca reeleito, naturalmente que o felicitei pelo êxito eleitoral e pedi-lhe que a sua Câmara não pactuasse com os que recobrem os espinhos da Ignorância e do Analfabetismo com o cetim do pomposo título de Autodidactas. Se serei atendido, não sei porque sobre alguns mecanismos sou mesmo ignorante e com letra minúscula.

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

SMS 132. A Casa Madeira

17 Novembro 2005

Desconcertantes foram os termos usados por Luís Filipe Madeira sobre a candidatura presidencial de Soares. «Não pertenço à Casa Soares – sou um cidadão, não sou um criado de serviço», disse o homem de Alte que, repetidamente, é apresentado como «figura nacional» e que nos meandros políticos de Lisboa é, por deferência de serviço, tido como «líder do Algarve» mas cuja obra mais notável a favor do Algarve terá sido, como a população sabe, a rectificação da curva da 125 nas Ferreiras, há uns vinte anos, e pouco mais para além dos discursos pois Filipe Madeira discursou muito e pouco fez. Naturalmente que a população igualmente sabe que se Madeira não pertence à Casa Soares, também Soares não pertence à «Casa Madeira», e fiquemos por aqui porque a continuarmos por aqui, seria fazermos o mesmíssimo jogo dos que têm estragado a democraticidade interna dos partidos no Algarve, aquela democraticidade real, não a formal ou a politicamente correcta – nomeadamente a do PS, mas sem excluir a do PSD que também tem as suas «casas», não tanto gentílicas mas de interesses difusos.

Em síntese e por aquilo que veio a lume, parece que Filipe Madeira dedicou-se à sua casa pelo não avanço da regionalização, muito embora ele saiba que a regionalização do Algarve ficou em definitivo e há muito postergada quando foi retirada da Constituição a possibilidade da criação das regiões-piloto, por obra e graça de magníficas abstenções, silêncios oportunistas e votos dos criados de serviço da época. O amuo aparente de Filipe Madeira não tem pois justificação, e porque não tem justificação, ele sempre fez política de casa, naquele sentido formal e de jogo ou de jogada, ou por si próprio ou por interpostas pessoas. Filipe Madeira está e não está, conforme lhe convém, e agora, a demarcação desconcertante face a Soares, não passa de uma conveniência para ele estar. Ora, um comportamento político destes não é o de um líder mesmo na reserva, e porque comportamentos destes abundam no Algarve – nomeadamente face a Cavaco também – eis uma das razões porque não temos líderes regionais na coerência forte do termo, e o motivo porque os líderes circunstanciais apenas são «figuras nacionais» enquanto forem criados de serviço.

Carlos Albino

quinta-feira, 10 de novembro de 2005

SMS 131. Sampaio, uma tristeza

10 Novembro 2005

Agora, já no final do mandato, Sampaio veio ao Algarve de raspão por causa de uma «presidência aberta» sobre turismo que lhe deu para ir a quase todo o lado, do Porto Santo a Esposende, terminando tudo em Tróia naturalmente com mais uma cena de condecorações que é uma coisa que Sampaio gosta tanto fazer como João Paulo II gostava de fazer santos. No Algarve, houve um poiso na Fortaleza de Sagres, um salto a Vilamoura, uma passeata de helicóptero sobre as belas obras das falésias e foi tudo para além das palavras. E quanto a palavras, Sampaio não trouxe nenhuma novidade – repetiu um bocadinho, apenas um bocadinho do que muitos têm dito há 30 anos e que, por terem dito, foram espezinhados, humilhados e esquecidos. Portanto, Sampaio veio chorar sobre o leite derramado e conviver à portuguesa com alguns que provocaram o derrame do leite ou com outros que bem o querem derramar ainda mais. Sampaio, nesta deslocação ao Algarve foi uma tristeza.

E Sampaio foi uma tristeza porque só o Algarve justificaria, em tempo certo e que já passou, uma presidência aberta, sendo agora tudo muito tarde, mesmo de raspão, assim como quem dá uma tacada de golfe. Mas para isso, para uma «presidência aberta» a sério no Algarve, Sampaio teria que ter tido coragem que é uma coisa que se aprende em todos os desportos, incluindo o desporto da política, mas que não existe no golfe. Coragem para, em vez de ir a poente depois de Lisboa ter maltratado e adulterado Sagres de todas as formas e feitios, ir a nascente que é onde ficam Vila Real de Santo António, Castro Marim e Alcoutim e aí defender uma nova estratégia do turismo algarvio face ao desafio espanhol. Coragem para, em vez de pela décima milésima vez jantar com empresários do turismo, a maior parte dos quais nem são algarvios nem põe os pés no Algarve reinvestindo sistematicamente fora da Região o que no Algarve lucram se é que não fazem as suas operações através dos paraísos fiscais, ouvir ao longo da 125 quem da 125 vive ou ainda vive, e preconizar um «destino metropolitano» para a mesma 125. Coragem para ouvir os agricultores, as gentes das serras incendiadas, os pescadores de Quarteira e Olhão, os artesãos a quem as portas do mesmo turismo empresarial se fecham, andar pelas universidades nascidas a martelo, indagar como tantas presidências autárquicas foram uma farra, enfim, coisas de coragem não faltariam a Sampaio em tempo oportuno, como agora coragem teve Seruca Emídio em tocar no assunto do Hospital. Mas desconfio que Sampaio já não tenha tempo para condecorar a coragem de Seruca Emídio.

Carlos Albino

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

SMS 130. Formiga branca

3 Novembro 2005

Até agora, pelos menos aparentemente, o Algarve tem estado imune ao mal que, aqui e ali mas cada vez mais em mais lugares, ataca as traves mestras da democracia, que é o um mal em tudo idêntico ao da formiga branca. Sem que se note, o bicho consome tudo deixando apenas uma fina película exterior a dar o aspecto de que o mundo está normal. Apenas há um pormenor que o bicho não disfarça - o cheiro. E quando cheira a formiga branca há que pelo menos desconfiar. Ora, no Algarve, embora o mundo, sobretudo o mundo autárquico e a película exterior do poder sufragado, pareça um mundo normal, alguns, possivelmente muitos de nós sentimos esse cheiro a formiga branca que anda nos ares. O tráfico de influências envolvendo alguns barões reformados dos partidos é notório, amiúde reforçando o indevido poderio do clã; os negócios da imobiliária envolvendo paraísos fiscais são coisas faladas à boca calada, mas são coisas; o enriquecimento sem justa causa fornece uns quadros bem pintados mas discretos como mandam as regras do enriquecimento sem justa causa, e por aí fora, sem falar na intensa economia paralela que é a metamorfose alada da formiga e que desova à vontade quando a justiça, também ela, está corroída . É claro que não temos autarcas algarvios, do presente ou do passado recente, à berlinda como a formiga branca de Felgueiras, mas cheira. Cheira. Também não temos casos como os que na Andaluzia, há poucas semanas, levaram à prisão de vários eleitos locais precisamente pelas ligações perigosas entre exercício do poder e imobiliária, mas cheira. Cheira a formiga branca e pergunto a mim mesmo se em Portugal houvesse uma Operação Mãos Limpas a sério como a que houve na Itália, também aqui os partidos, todos sem excepção, não teriam que mudar de nome como condição para a sobrevivência do ideal democrático. E, ou muito me engano, ou um dia que não será longínquo, estaremos a falar de nomes. Prefiro que me esteja a enganar.

Carlos Albino

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

SMS 129. Capitalidade e coisas capitais

27 Outubro 2005

É evidente que o Algarve precisa de Faro. E precisa também de que à frente de Faro esteja alguém com o sentido de Algarve e não de regedor, que possua um discurso político elevado e não de comarca de terceira classe e, sobretudo, que saiba ser um parceiro dos restantes quinze inevitáveis pares do Algarve, a começar pelos mais próximos como Olhão e Loulé e a acabar nos mais pobres como Alcoutim e Aljezur. Faro, se quer ser e sequer continuar a ser capital irrecusável do Algarve, tem de saber sentar-se ao lado de Alcoutim e de Aljezur, tem que ter a consciência de que não desce de nível à altura de Silves ou de Vila do Bispo, ou seja – Faro tem a obrigação de ser e dar o exemplo de ser uma cidade ou um autarquia tão metropolitana como as restantes quinze autarquias e, se quer ser a capital metropolitana, não pode deixar-se enredar na tentação de ser um Terreiro do Paço provinciano pois já tem demasiados funcionários mais provincianos do que os do Terreiro do Paço, no pior que em educação e cidadania a burocracia provinciana sugere – há até cada vez mais algarvios que preferem a burocracia do emblemático Terreiro do Paço de Lisboa às burocracias dos nossos Terreiros do Paço a brincar. Faro é reconhecidamente capital e não tem que lutar por capitalidade, tal como Portimão não tem que porfiar por sub-capitalidade, e tal como Albufeira em pouco ou em nada serve para o Algarve procedendo como se fosse principado independente, como naquele ano em que deitou foguetes e fez fogo de artifício no dia em que Silves estava a arder à vista desarmada. Esse caminho da capitalidade, das sub-capitalidades e dos principados está ao arrepio do sentido e do caminho do Algarve e só terá um resultado final – o provincianismo e a mentalidade de quintal, com a coisa pública entregue a títeres locais que nem sequer categoria têm para serem ditadores, muito menos para serem exemplares democratas na atitude e nos factos. Essa obsessão por capitalidade, por sub-capitalidades e por principados é a doença infantil do narcisismo provinciano, e são estes meninos que foram e vão estragando o Algarve – o Algarve como Algarve que precisa de coisas capitais e não desses meninos.

Carlos Albino

P.S.: Este reacender da polémica das portagens na Via do Infante tem muita piada e mais piada tem que o ministro Mário Lino venha a reconhecer que a 125 é em grande parte já uma via urbana – entre pelos olhos da cara. Pegaremos nisto.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

SMS 128. O caso Vitorino

20 Outubro 2005

Julgo saber que José Vitorino foi o único caso de derrotado no Algarve que atribuiu as culpas do desaire à comunicação social, assim fugindo à assunção de responsabilidades políticas, designadamente face ao partido que o apoiou e de que, outrora, ele fez parte. Na verdade, não sei se José Vitorino sabe o que significa comunicação social, porquanto ele, com tal explicação de mau perder, suporá que a comunicação social deveria ter feito campanha por ele, exaltando por exemplo a forma como o Farense arrecadou importante quantia, ao longo de quatro anos, com a célebre dádiva mensal dos 25 por cento descontados do ordenado de Vitorino, exemplo acabado do populismo mais tosco. Ora, Vitorino não entendeu que o populismo é o mesmo que comprar um carro novo em Faro e ir sempre em primeira mão bem puxada até ao aeroporto da Ria Formosa - gripa no Montenegro. Enquanto o carro anda, o povo saúda, há sorrisos de um e outro lado da estrada, todos se curvam à passagem do carro do presidente: mas se o carro gripa porque o presidente desconhecia o dever elementar de meter mudanças, naturalmente que a comunicação social tem o dever de registar o facto, sendo o facto simples - o carro novo do presidente gripou no Montenegro porque o seu populismo não saiu da primeira mão, derretendo o motor. E como, em política, um mandato de quarto anos não envelhece o carro - antes pelo contrário, deixar gripar assim o motor a meio caminho para o aeroporto o que é que tem a ver com a comunicação social que, nesta mecânica das autárquicas, até foi benevolente e caritativamente omissiva para a condução de Vitorino? Aliás, não apenas para o caso de Vitorino mas para muitos outros casos designadamente vitoriosos, a comunicação social do Algarve, de modo geral tem sido benevolente e caritativamente omissiva justificando-se até a sua santificação pelo papa Bento XVI, se por aí não houvesse uns casos de favores e de subsídios indirectos que borram a santidade.

Carlos Albino

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

SMS 127. Os partidos, claro

13 Outubro 2005

1. Aqui e ali – não apenas em Felgueiras, Gondomar e Oeiras, mas no Algarve também – estas eleições ensinaram que os partidos, todos do CDS ao BE, têm que mudar de estilo, de meios e de visões. Trinta anos são suficientes para envelhecer uma democracia, dar azo ao laxismo, à inércia e à distracção, com isto abandonando-se a discussão crítica dos problemas de fundo, pondo-se de lado o interesse geral e sacrificando o bem-comum aos vorazes apetites do oportunismo organizado. No Algarve, isto tornou-se particularmente evidente pela pressão dos lobbies ligados à imobiliária e à construção (há muito que acabou o casino do figo no Café Aliança), não por serem lobbies mas pela pressa com que o turismo e actividades conexas lhes aguçam apetites. Nestas circunstâncias, os partidos têm sido meios privilegiados para quem quer subir na vida depressa, enriquecendo sem justa causa. Foi assim que surgiu uma nova arte – a arte de «saber fazer bem as coisas», o que significa «fazer as coisas» sem deixar uma perna de fora. Se a justiça funcionasse – não funciona porque muitos juízes também cultivam essa arte de não deixar uma perna de fora – os episódios que a todos nos chocam, teriam adequado e rápido desfecho nos tribunais, punindo corruptos e corruptores. Como não funciona, a política salva os delinquentes, iliba os arguidos e confere até aos acusados ares de definitiva e não apenas de presuntiva inocência, nem importando, para o caso, que salvos pela política, falem como foliões e ameacem com a violência própria dos perversos – referimo-nos naturalmente à perversidade contra a democracia que salva corruptos e corruptores. Assim sendo, será até secundário que a lei mude – o importante é que os partidos mudem as suas práticas, os seus métodos de triagem internos, as suas «máquinas» montadas para o clientelismo.

2. Chocante será assim que um «independente» ganhador proclame, na hora do entusiasmo perverso, que ganhou porque o povo não acredita nos partidos, mas muito mais chocante é que alguém no Algarve, eleito legitimamente por um partido e devido a um partido, apregoe que foi eleito com os votos dos que já não acreditam nos partidos – adivinhem quem é. Começa mal e, se não emendar, pode acabar pior que a foragida de Felgueiras.

3. Apolinário ganhou porque encontrou uma metáfora muito melhor do que Vitorino que talvez nem saiba o que é uma metáfora. Além disso, atravessou o Rubicão que, entre nós, não passa da Ribeira de Pechão mas é Rubicão. Vitorino não entendeu que para se ser presidente da Capital do Algarve não se pode estar num permanente estado de alma contra Olhão nem contra Loulé. Faro não é nada ou pouca coisa é sem uma estudada e concertada parceria com os arredores. Vitorino perdeu nos arredores mas não sei se ele sabe o que significa arredores.

Carlos Albino

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

SMS 126. Os nossos Albertos

6 Outubro 2005

O Algarve também tem os seus Albertos. Embora a Madeira tenha o protótipo, o original sem par a quem todo o mundo reconhece o cómico direito de ser João Jardim para além de Alberto, os nossos Albertos – infinitamente mais comedidos porque não somos uma ilha e manhosamente mais discretos porque também não temos paraíso fiscal que cubra as jogadas – não deixam de ser Albertos, enfim, pequenos mas eficientes Albertos, ou seja, Albertos uns à escala concelhia e outros à escala de freguesia mas Albertos. Quando podem, os nossos Albertos controlam os pequenos jornais impondo-lhes o conteúdo sempre com expedientes indirectos, submetem ao seu jogo as estações de rádio locais condicionando-as na forma e no cheque. Claro que apenas fazem isso quando podem, mas quando o fazem, porque são Albertos, cuidam de não deixar indícios de prova, e, como se costuma dizer neste século de Isaltinos, Fátimas, Valentins e Ferreiras Torres, fazem-no dentro da mais estrita legalidade – Oh! Como os juízes em greve apreciam esta coisa da estrita legalidade! Embora com os mesmos propósitos da programada caça ao voto longamente pensada e do controlo da opinião pública, naturalmente que os nossos Albertos não passam de pequenos Albertos porque, aqui, tudo também é pequeno (a Agência Lusa é pequena, a RDP é pequena e a RTP pequenina é) mas se o Algarve tivesse um paraíso fiscal como a Madeira tem, já teríamos um Alberto igual ao protótipo. Perfis não faltam. Pequenos perfis, diga-se, mas igualmente perversos.

Carlos Albino

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

SMS 125. Foi com uma vacina, imaginem com o resto

29 Setembro 2005

Neste País, o que deve e pode ser estudado, não se estuda, e o que salta aos olhos da vista, dispensando mais estudos, passa a estudo, com a nomeação da tal comissão de estudo que se farta de estudar até ao cansaço cerebral. O senhor ministro da Saúde, até que enfim, afiançou que a necessidade de um Hospital Central no Algarve já lhe saltava aos olhos da cara, mas - para não fugir à regra nacional - logo adiantou que precisava de um estudo que vai estudar o óbvio. É como se Correia de Campos, para ter a certeza de que 2 e 2 são 4, se sentisse na obrigação política de nomear comissão para apurar tal evidência. Então, contemos ao ministro uma história recente.

Pois, senhor ministro, aconteceu que uma jovem, na corrida que diariamente faz nas férias, ao atravessar o pinhal de Monte Gordo, foi atacada e mordida por um cão, mordida a sério porque os cães quando lhes dá para morder, não estudam - mordem. Mandam os bons conselhos que alguém nessas circunstâncias corra o mais rapidamente que puder para um vacina contra o tétano. E aqui começou a saga: os Centros de Saúde procurados não tinham vacina anti-tetânica, aconselhando a jovem a adquiri uma vacina em alguma farmácia. E assim fez mas sem êxito: em todas as farmácias lhe disseram não estar autorizados a vender vacinas desse tipo. Então a jovem, na emergência, rumou para o Hospital de Faro, sem mais estudos. A meio da tarde, a fila de espera nas urgências de Faro era de tal extensão que, na melhor das hipóteses, logo lhe disseram que apenas poderia ser atendida já noite adentro... Claro que a jovem, ciente do que lhe poderia acontecer, não hesitou e rumou de novo de Faro para o nascer do sol, ou seja Espanha. Dirigiu-se ao posto público de saúde em Ayamonte onde apenas não foi vacinada de imediato porque a jovem não tinha o Cartão de Saúde Europeu (atenção leitores destas SMS, tratem disto) mas sugeriram-lhe adquirir a vacina numa farmácia (espanhola, claro) que ela seria administrada prontamente. E assim foi - vacina comprada, vacina aplicada com a adequada assistência médica.

Ora, senhor ministro, não concluiu nada desta história ou será que apara concluir necessidade de uma comissão de estudo que avalie a aplicação urgente de vacinas no Algarve? Mas se quiser nomear mais comissões de estudo, também lhe posso contar mais histórias, muitas histórias envolvendo corações, aneurismas, pernas, olhos, intoxicações, por aí fora, incluindo os cansaços cerebrais das muitas comissões de estudo que não passam de pretexto para disfarças a ausência de vontade política. Com Correia de Campos pode não ser o caso, mas como diz a bela canção, uma comissão de estudo é um nome que não é um espanto, mas é cá da terra... Perante evidência, qualquer comissão de estudo é uma Maria Albertina que dá o nome de Vanessa à filha…

Carlos Albino

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

SMS 124. É um calafrio

22 Setembro 2005

Não cabe repetir aqui o que vai subindo ao noticiário quotidiano em matéria de segurança no Algarve. O crime vai aumentando em números, grau de brutalidade e frequência, regra geral associado ao tráfico de droga, às redes de prostituição e à actuação de grupos de criminosos, sem dúvida organizados e que assentam arraiais na imigração ilegal. Quase todos os dias é um calafrio, para não lembrar as centenas de casos abafados ou sem queixa ou por chantagem dos criminosos ou por falta de confiança do sistema se segurança. É óbvio que toda esta gente indesejável actua sobre uma grande almofada de impunidade suportada classicamente por interesses locais cruzados, tudo isto resultando do desfasamento entre as autoridades policiais e os tribunais, desfasamento que advém por sua vez de legislação obsoleta e que não atende a casos específicos como é o caso do Algarve. As autoridades espanholas, depois do massacre de Madrid, estão a tentar atacar o mal pela raiz, identificando os grupos, proveniências e métodos. Na Andaluzia, por exemplo, foram identificadas várias dezenas de grupos de crime organizado, máfias tradicionais e novas máfias cuja actuação vai além fronteiras. No caso da Andaluzia, não é difícil concluir que esse além fronteiras significa em apreciável medida o Algarve – se, para cada um de nós Sevilha é um salto, para uma organização de criminosos o Algarve também é um pulo, se é que também não pulem de cá para lá. Ora, anunciar o reforço policial no Algarve durante o Verão, não basta, como também não é suficiente essa corrida entre autoridades aos recordes da apreensão de droga, própria de autoridades da parvónia. É preciso ir à raiz do problema, e, para tanto, há que identificar o problema, até porque – grande Aleixo! – há criminosos que não parecendo o que são e porque não são aquilo que parecem, têm sobretudo medo da identificação do problema. Esta gente está, anda entre nós, e é um calafrio.

Carlos Albino

quinta-feira, 15 de setembro de 2005

SMS 123. E não se sai daqui

15 Setembro 2005

Um, tal como outros sete, diz que pretende «consolidar a mudança»; outro, tal outros cinco desta ou daquela maneira, apela a que o deixem «realizar o que o tempo não permitiu»; todos os que estão na oposição local garantem que «nos últimos quatro anos a terra parou» enquanto os que estão no poder asseguram que nesses mesmos quatro anos foi o progresso e que nunca se fez mais pela terra. E não se sai daqui, a não ser nos casos em que, por inspiração do marketing político balofo dos anos 90, quem está na oposição julga que o simples lançar do desafio de um «debate directo» com o adversário principal para discutir os problemas da terra, lhe dará votos acrescido. Não há uma ideia grande, um golpe de asa, uma posição firme e clara da terra no Algarve e sobre o Algarve implicando à terra. Até agora, apesar do adorno de inaugurações forçadas – algumas até afrontosas - o debate autárquico no Algarve tem sido pobre e duvido que enriqueça muito mais até ao sufrágio de Outubro, a começar pela referência «regional» que é Faro a que tem faltado um líder com cabeça, tronco e membros, que imponha um protagonismo político da cidade no País já não digo no nível de Lisboa ou Porto, mas pelo menos no de Coimbra, Évora ou mesmo Aveiro. O populismo e o voluntarismo que José Vitorino usa como instrumento de sobrevivência, não chega para isso e a repetir o que se lhe ouviu na televisão, Faro está a ter o destino do Farense: até perde em Lagoa por falta de comparência, além de nem ter dinheiro para tomar o autocarro para o Estádio Algarve.

Carlos Albino

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

SMS 122. Balões cheios de ar

8 Setembro 2005

A atravessar uma crise profunda – que não é só económica, é sobretudo cultural, moral e social – os líderes de partidos no Algarve cruzam os braços e se abrem a boca dizem o óbvio, o trivial ou então cumprem o seu papel de poder ou de oposição certamente para Lisboa receber os atestados das fidelidades. Das bandas do PSD, é certo que Mendes Bota vai dizendo umas coisinhas mas que não pegam ou pelos menos não pegaram até agora e Macário Correia do palanque que dispõe na chamada Junta Metropolitana, enfim, fala da água e pouco mais, desconhecendo-se se esta falácia da região já tem hino e música. Das bandas do PS, Miguel Freitas é como a Lua nas noites de eclipse parcial – vê-se o recorte, e quanto aos deputados (Cravinho, o que é isso?), nada sai que o noticiário político se sinta na obrigação de registar. O PCP algarvio tem diferença específica mas não tem peso e o Bloco ganhou algum peso mas não possui diferença específica. Claro que há líderes regionais porque cada partido tem que os ter estatutariamente, portanto líderes por inércia. E vendo bem as coisas, foi sempre assim no passado recente – grandes nomes em que Lisboa sempre acreditou serem líderes do ou no Algarve, afinal nunca passaram de balões cheios de ar. Não admira que hoje tenhamos muito ar a encher balões.

Carlos Albino

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

SMS 121. Então, foi assim na Ilha de Tavira

1 Setembro 2005

Pelo segundo ano consecutivo, fiz de protector civil na Ilha de Tavira para que os bombeiros não tivessem por certo algum grande trabalho. Costumo visitar, a meio de Agosto, amigos que não trocam nada deste mundo por uns dias naquele paraíso e que se instalam em casa certa. No ano passado, era já noite, não hesitei em dirigir-me a um grupo de jovens já entradotes que atiçavam um enorme fogo na orla do pequeno pinhal, com labaredas a tocar os ramos das árvores. Este ano a cena repetiu-se, também à noite, ainda mais dentro do pinhal, mas não sei se os irresponsáveis eram os mesmos de 2004 ou diferentes, sendo todos iguais. E nem tiveram trabalho para levar carvão – partiram uns ramos de árvores, puxaram fogo e estavam à espera que as labaredas abrandassem para chamas e estas para brasas, aparentemente para o preparo de uma sardinhada como se aquilo fosse o catamarã de Vilamoura. Mas se no ano passado, o grupo acatou a advertência, este ano assim não foi e, por pouco, o caso não deu para o que imaginam – mas o fogo terminou à força. Ora, como todas as histórias devem produzir alguma moralidade ou ensino, aqui segue a conclusão: um incêndio na Ilha de Tavira pode fazer jeito a alguém.

P.S.: Macário, faça o favor de colocar a protecção civil na sua estimada ilha. Sobretudo à noite. Não aguarde pela surpresa.

Carlos Albino

quinta-feira, 25 de agosto de 2005

SMS 120. Tempos difíceis

25 Agosto 2005

A juntar a tantos males, já esperava que, mais dia, menos dia, o Banco de Portugal revelasse o que em círculos restritos se comentava desde há um mês: as câmaras municipais, no primeiro semestre deste ano, apresentavam um défice de 174 milhões de euros. Em qualquer democracia, essa notícia provocaria um enorme debate público. Aqui, na terra dos expedientes, não – e seria impensável que o Algarve fugisse à regra, mais: ninguém se preocupa e muito menos se discute, com seriedade e sem folclore, a situação financeira de cada uma das nossas 16 câmaras algumas das quais, apesar do montante dos empréstimos obtidos por processos quase virtuais (Oh! Se o Banco de Portugal descobre!) dissimulam o mal como se nisso houvesse um entendimento tácito entre quem está no poder e quem está na oposição. Se calhar, há. Para o cidadão, para os munícipes, os tempos são difíceis, para já, de entender.

P.S.: Naturalmente que, algum dia, vamos falar da Capital Nacional da Cultura. Temos tempo e não nascemos ontem.

Carlos Albino

quinta-feira, 18 de agosto de 2005

SMS 119. Sete metáforas de Verão

18 Agosto 2005

1.ª – Dizem-me e não acredito que seja verdade – No âmbito do Plano Regional de Turismo, houve concurso da RTA para o fornecimento de viaturas para apoio às praias do litoral algarvio (uma por concelho). Como mais vale tarde do que nunca, o concurso apenas devia merecer aplausos. Só que as viaturas têm tracção às quatro rodas – se entrarem pela areia, atolam-se. Além disso não dispõem de ar condicionado pelo que será de ver tais viaturas estacionadas junto dos pontos de boa cerveja à escolha dos funcionários e o alegado apoio às praias em breve mais não será do que passeatas. Bem! Os comunistas angolanos dos anos 70 do século passado ficaram felizes pelo fornecimento soviético de limpa-neves para o alegado asseio das avenidas e ruas de Luanda. Os limpa-neves obviamente nunca chegaram a ser utilizados e ainda hoje jazem num grande cemitério de ferro inútil. No Algarve ainda não se chegou aos limpa-neves para o asseio das praias onde funcionam ou dizem que funcionam tractores de agricultura, mas estas viaturas sem tracção às quatro rodas e sem ar condicionado para apoio das praias, serve de metáfora para a qualidade dos decisores do Algarve, a ser verdade o que me dizem mas em que não acredito. Na verdade, vivemos de passeatas.

2ª. – Mas que Volta a Portugal? Foi verdade – a Volta a Portugal que, com todo o descaramento começou e terminou autotitulando-se Volta a Portugal, mentindo, não passou de uns circuitos pelas Beiras, pela área do Porto, pelo Minho com uma devassa por Trás-Os-Mintes e, em perfeita homenagem ao centralismo do Estado, por uma tirada curva entre Lisboa e Oeiras... Foi uma Volta a Portugal dos Pequeninos e mais nada. E não temos que nos lamentar porque o desporto das duas rodas mais não imita do que os decisores beirões, minhotos, transmontanos e alguns destes emigrados em Lisboa pretendem da Regionalização e com a Regionalização: um Portugal dos Pequeninos – pequeninos mas espertos de uma esperteza que estraga a Democracia. A Volta serve de metáfora.

3.ª – Sinalética, tabuletas – Então nisto, nos concelhos de Lagoa e de Albufeira é o caos. No penúltimo fim de semana, até conseguir chegar à casa de verão de um embaixador algarvio, foi o inferno. Em vez da indicação correcta dos sentidos das terras, dos sítios e dos lugares, deparei pelas estradas e caminhos com dezenas e dezenas de tabuletas, uma para a Casa Gabirá ou para a Moradia Isabú, outra para a Vivenda Ginga, grandes cartazes para a Urbanização Conchinha, outros do mesmo tamanho para o Aldeamento dos Passarinhos do Pinhal para não falar das dezenas de setas com quilómetros de antecedência para a Cabeleireira Céu, para o Canalizador Esteves e para Mecânico Jocas, por entre muitas outras cabeleireiras, outros tantos canalizadores e não menos mecânicos - nomes de sítios, lugares, terras ou sentidos de terras, nada, nada e nada. Este péssimo hábito está a chegar, pelos vistos, já ao concelho de Loulé. Um sujeito que tenha abra um restaurante a que por hipótese dê o nome de Tasca da Alfarrobeira Dobrada ou mesmo alguém que tenha recuperado a sua casinha a que passou a chamar Casa do Pintatolas ou comprado coisa semelhante baptizando-a de Vivenda Xico Beirão, pois não tardará que quilómetros antes e em cada cruzamento ou desvio lá surjam uma tabuletas de papelão presas com arames, a indicar a Casa do Pintarolas, a Tasca da Alfarrobeira Dobrada e a Vivendo Xico, encavalitadas noutras tabuletas num verdadeiro enxame a ocultar as poucas placas que indiquem nomes de sítios lugares e terras. Cada um faz o que lhe apetece, cada um pensa apenas no seu umbigo e as Câmaras porque nada ou pouco fazem, também deixam fazer tudo. Já um dia me referi ao cemitério das tabuletas. É uma metáfora.

4.ª – O sentido de sobrevivência de Vitorino. E com esta de Vitorino dizer em alto e bom som que «Faro não é o Faroeste», fazendo cair a espada municipal sobre um construtor que pode perceber muito de betão mas nada percebe nem quer perceber de direitos humanos estragando o arranjo, admito que o sentido de sobrevivência desse político o possa fazer passar sobre as eleições autárquicas como César passou o Rubicão. A esta distância, as sondagens embora entretenham, pouco significam, sobretudo porque, no Algarve, o mês de Agosto até 15 de Setembro equivale a um ano e meio. Ainda falta um ano até Outubro e no faroeste já toda a gente está conformada com o Farense no escalão mais baixo. Apolinário tem que produzir melhor metáfora, melhor dizendo: tem que produzir uma boa metáfora. Como se sabe (Vitorino talvez não saiba mas Apolinário sabe) o Rubicão era o pequeno rio, que separava a Itália da Gália Cisalpina. O Senado Romano declarava traidor à Pátria e votado aos deuses infernais, todo aquele que, à frente de uma legião, ou ainda de uma comitiva, transpusesse tal rio. César infringiu a proibição e passou o Rubicão, exclamando: Alea jacta est ! ( A sorte está lançada!) O Rubicão de Faro é a Ribeira do Pechão. Metáfora, claro.

5.ª – Turistas ou penitentes com sacos de plástico, não? Todas as semanas, seja Verão ou Inverno (já não há diferença), faça sol ou caia chuva, há todos os sábados um mercado em Loulé que atrai centenas e centenas de turistas que ali são despejados de autocarros. Possivelmente, em alguns sábados são mesmo milhares que vão comprar de tudo onde também há de tudo, desde as rendas da Madeira feitas na China até ao artesanato da China feito na Madeira ou pelo menos transaccionado no ou através do off-shore da Madeira. Barracas sem conto armam-se desarmam-se todos os sábados para isso, não faltando o cheiro do polvo assado e das frituras enquanto uns mascarados dos Andes fazem de índios a tocar flauta como se fossem vereadores da oposição local, ou seja, tocam bem flauta na oposição. Observei essas enormes filas ou mesmo magotes de turistas, neste último Sábado: entram no mercado de mãos a abanar e saem com sacos de plástico na mão com o inimaginável lá dentro mas que levam como inefável recordação do Algarve. Só que esses milhares de turistas que ao longo do ano são despejados na periferia de Loulé, de Loulé pouco ficam a conhecer – não há um folheto colocado nas suas mãos, não há uma lembrança simpática, uma sugestão de roteiro do riquíssimo mas censurado património cultural local que tem tabuletas a mais para as portas abertas que há. É uma metáfora, claro. Uma metáfora de como o Algarve recebe os turistas, tratados como penitentes, ainda para mais penitentes com sacos de plástico na mão a ouvir os que fingem de índios!

6.ª – A sardinhada do catamarã. E foi assim, pois poderia ter sido pior junto à praia da Galé. Como é que é possível que o catamarã de Vilamoura que se incendiou que nem um fogareiro, servisse sardinhadas a bordo? E a ser verdade o que uma passageira afirmou, como é possível que o catamarã não tivesse salva-vidas, com os extintores para inglês ver e as mangueiras sem água? Felizmente que os 90 turistas que partiram alegres e por certos julgando-se seguros, foram salvos pelas embarcações populares, por embarcações de recreio e até por motas de água, antecipando-se ao posterior aparato de lanchas da polícia marítima e, claro, do helicóptero da Força Aérea. Naturalmente que se segue agora o inquérito para apurar a origem do incêndio, sabendo-se entretanto que o catamarã (com 30 anos e capacidade para 120 passageiros) tinha todas as inspecções em dia. Não sabemos se a sardinhada entra na lista das inspecções, mas isso também e já agora por metáfora, pouco importa uma vez que há pedreiras no Algarve a laborar com as inspecções em dia mas cujos sismógrafos estão «avariados» há dezenas de anos. Sampaio que, pelos vistos, tem dificuldade em encontrar gente com feitos digna de ser condecorada, bem poderia condecorar e com justiça os denodados banhistas que salvaram das chamas e da morte certa aqueles 90 seres humanos que julgavam que o Algarve não tem metáforas.

7.ª – O comboio de Loulé. E para finalizar, outra triste metáfora – na Estação Ferroviária de Loulé, é verdade que cerca de uma centena de passageiros que esperavam na linha que lhes tinha sido indicada, pelo comboio Intercidades para Lisboa, viram o comboio partir sem que, na era do telemóvel, maquinista e chefe da estação dessem entre si conta do engano. Depois veio a explicação da CP que não a culpa não foi da CP mas da Refer e possivelmente a Refer dirá que foi a CP, como nas discussões de comadres. Mas o certo é que aquela Estação de Loulé que serve uma área turística dita de excelência (Vale do Lobo, Quarteira, Vilamoura) é uma metáfora e, segundo me dizem mas em que também não acredito, para além do serviço de bar digno de catamarã sem inspecção, também está apetrechada para grandes sardinhadas e churrascos de caça. Possivelmente nem a CP nem a Refer foram ainda à Estação de Loulé ou se foram, foram por aquela metáfora que, como se sabe e é habitual, fica alojada num hotel de cinco estrelas. Claro, falamos por metáfora.

P.S. – A propósito, há em Loulé um excelente Mapa da Cidade para turistas que está tão limpo, tão limpo que os ingleses conseguem escrever a dedo as suas metáforas...

Carlos Albino

quinta-feira, 11 de agosto de 2005

SMS 118. Muito felizes, muito.

11 Agosto 2005


O objectivo da regionalização como corolário do melhor que os regimes democráticos podem e devem propiciar, em detrimento do centralismo incontrolável no que tem de arrogância e arbítrio, pois esse objectivo desapareceu como que por milagre dos discursos oficiais, escapuliu-se do debate público e da boca dos políticos profissionais. Bastou o primeiro-ministro José Sócrates determinar o adiamento da regionalização para que todos os nossos políticos, desde logo também se sentissem na obrigação de se adiarem, até porque uma regionalização a sério incluiria à cabeça o escrutínio do poder e, pelos vistos, este escrutínio não interessa a ninguém enquanto houver uma parcela para vender, uma ilha para negociar ou uma arriba para lotear pelas veredas dos subterfúgios legais onde o esperto é rei e cada município um verdadeiro condado. Assim sendo, quem hoje por acaso ou por convicção, defender a regionalização do Algarve, corre o risco de estar a terçar armas por uma espécie de coisa quase já clandestina ou pelo menos muito inconveniente. Estamos felizes.

No entanto, à falta desse escrutínio, os Municípios continuam a fazer o impensável ao mesmo tempo que os reis da batota também sabem que é muito mais fácil manobrar e influenciar direcções-gerais longínquas quase sempre com o apoio exitoso de gabinetes especializados. E é neste quadro, que os apregoados objectivos da desconcentração e da descentralização, acabam por funcionar igualmente como farsas a começar pelo preenchimento dos cargos, onde os critérios da competência, da capacidade de acção e do conhecimento da «região» acabam por dar lugar à prática do clientelismo político e do favorecimento sem justa causa. Mas também ninguém questiona por que motivo fulano foi nomeado para ocupar um lugar do Estado no Algarve até porque isso é emigração de luxo, sendo também inconveniente beliscar os emigrantes de luxo. Estamos felizes, muito.

É claro que, por ora, não citamos nomes para que não se diga que há nestes reparos algum ataque pessoal, muito embora se saiba que mesmo sem citar ninguém, as palavras são incómodas, sobretudo quando todos estão felizes. Muito felizes, apesar da crise do Estado e da crise do Algarve que, felizmente, ainda tem bastante areia para as avestruzes enterrarem a cabeça. Honra, vida longa e muito dinheirinho para as avestruzes.

P.S. - Ouvimos dizer que Faro é a Capital Nacional da Cultura. Não sabemos se a Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, tem já conhecimento disso.

Carlos Albino

quinta-feira, 4 de agosto de 2005

SMS 117. Debate desenxabido nos quintais municipais

4 Agosto 2005

É possível que em Setembro, com a partida dos turistas e o apertar da crise, o tom do debate político no Algarve suba de tom e de nível, mas até agora tem sido ensonsso em Faro, insípido em Portimão, dessaboroso em Silves, desgracioso em Loulé, desanimado em Tavira, desgostoso em Albufeira, sensaborão em Lagos, e até mesmo em Vila do Bispo, desta vez, à falta de um novo Infante a traçar planos do futuro sentado no forte de Sagres e a olhar para a fotografia, o momento é sensaborão. O debate autárquico, por todo o Algarve, é desenxabido e os cartazes parecem dizer tudo ou pelo menos traduzem grande parte da verdade – não se vai além do «eu sou melhor do que ele», «eu sou a honestidade», «só eu serei um presidente para todos», «a competência dorme e acorda ao meu lado»; enfim, desenxabimento, é a palavra, para mais com enormes fotografias em que cada um dos candidatos apenas prova que está mais gordo e apenas ligeiramente mais velho do que há cinco anos, embora todos sorridentes ou então com olhos solenes de esquisita Sexta-feira Santa porque já vamos pelo Verão fora.


No entanto, tanta coisa haveria que discutir! A começar pela questão financeira dos municípios, do endividamento e dos expedientes para obter empréstimos por formas que nem o banco central sonha ou então a que fecha um olho mas para os quais (expedientes) aldeamentos e urbanizações têm os dois olhos abertos. E nem falemos das acumulações, dos empregos políticos ou da sua expectativa que na generalidade gerou as listas, nem falemos da ruína das fiscalizações municipais, da péssima e por vezes prepotente para não dizer mal criada relação dos funcionários locais com as costas quentes do poder face aos administrados por efeito dos comandos que os comandam explicando-se todos com essa profissão mais antiga do mundo que não é a que alguns pensam e que é a burocracia, por certo mãe da outra que se julga mais antiga.


O êxito ou fracasso da apresentação das listas acabou assim por ser aferido pelo maior ou menor número de gente que se inscreveu para o jantar – faltando ainda alguns jantares – e avaliado também pela qualidade e suposto nível dos apresentadores, uma estrelas políticas despachadas por militância de Lisboa e que, regra geral, teceram (faltando a algumas ainda tecer) rasgados elogios ao cabeça de lista porque o segundo e terceiro já não contam, como provam as fotografias dos cartazes.


Tudo isto poderia acontecer até como tem estado a acontecer e nenhum mal daí viria ao mundo. O problema é que o debate político autárquico esgota-se nisso, não passa disso e é quase só isso - «eu sou melhor do que ele», «eu sou a honestidade», «só eu serei um presidente para todos», «a competência dorme e acorda ao meu lado»…


Ninguém discute a sério as contas locais, o destino ou uso do dinheiro dos contribuintes, a qualidade das ruas, a lisura das decisões públicas que a todos afectam e, o que já seria pedir demais, que Algarve que projecta e se deseja no futuro acima dos quintais autárquicos cada vez mais murados com provincianos egoísmos municipais. Outrora, diziam os de Monchique «Adeus Algarve, que vou p’ra Faro!» Agora todos são de Monchique, o que é coisa desenxabida.

Carlos Albino

quinta-feira, 28 de julho de 2005

SMS 116. O custo do não-Algarve

28 Julho 2005

Nenhum governo, até hoje, calculou o custo do não-Algarve, embora todos eles e respectivas extensões telefónicas em Faro que se costuma designar por direcções ou delegações regionais, de uma ou outra forma, tenham contribuído para o descalabro do Algarve – descalabro urbanístico, descalabro da agricultura, descalabro das vias de comunicação e dos transportes, descalabro da agricultura, descalabro dos portos e das pescas, descalabro da cultura, descalabro até do próprio descalabro. Mais um pouco e não teremos o Algarve mas sim o não-Algarve. O sábio oportunismo de autarcas, os interesses rasteiros colados nas costas dos gestores das empresas municipais e inter-municipais, a pressão de empresários que têm tudo menos escrúpulos, a febre das imobiliárias que se pega como a malária em São Tomé, o espavento cinicamente eleitoral de profissionais da política candidatos a todos os parlamentos que prometem irresponsavelmente aquilo que sabem que não poderão fazer nem lhes deixam fazer ficando calados quando têm as cores do poder e dizendo umas coisitas para marcar presença e dar ares de grande verticalidade quando são remetidos para a oposição, tudo isto tem conduzido o Algarve para a negação do Algarve, para o Algarve.

É claro que empresários, investidores e gestores conscenciosos – que os há – queixam-se e com razão da falta de planeamento apesar de tanto plano, da falta de segurança para iniciativas apesar de nos considerarmos num estado de direito, da falta de transparência dos decisores políticos apesar de tanta assembleia eleita com poderes fiscalizadores. É claro que o mundo da cultura – que também há – assiste impotente à promoção do mais reles provincianismo compensado aqui e ali por acções subsidiadas de um novo-riquismo que se julga recobrir a miséria geral das ideias e da arte. É claro que há políticos sérios – naturalmente que os há – que acabam por deixar cair os braços não por ressaibo mas por delento, não por descrença na Democracia mas por demarcação aos que da mesma Democracia se aproveitam para fazerem o mesmo ou coisa semelhante ao que fariam se, acaso a antiga ditadura tivesse perdurado.


É assim que, a propósito de mais um cometa a cair junto das arribas de Lagos, e perante os protestos do senhor Mendes Bota – que não sabemos se protestou nas bandas de Vale do Lobo e arredores até Albufeira por aí fora – o presidente da Câmara lacobrigense diz que votou a favor «não por considerar interessante a operação urbanística dada a sensibilidade do local», mas já a vice-presidente da mesma câmara afirma tratar-se de «um projecto de arquitectura de muita qualidade, uma unidade de que Lagos precisa». É como se Algarve e não-Algarve se confundissem já integralmente sendo uma única e mesma coisa. Bonito.

Carlos Albino